MÔNICA SALMASO
São Paulo | 29.abr.2003
Não será surpreendente se um jovem leitor da presente entrevista, ao término da leitura, espelhar-se na cantora paulistana e decidir-se por um caminho profissional que não o “artístico”. Poderá, sim, optar por ser professor de biologia, padeiro, jornalista, profissão qualquer que lhe ocupe o espírito. Isto porque Mônica Salmaso transmite, para além da música, a paixão pelo ofício escolhido, tal como os professores do colégio lhe transmitiram. Paixão que tem, também, o seu calvário no trabalho cacete, de escritório, feito pela própria cantora. Tormento menor — este, inclusive, prazeroso — é o de selecionar as músicas que comporão o quarto CD, pensado para 2004.
Na conversa realizada no longínquo primeiro semestre de 2003, foi recorrente o papo a respeito dos vínculos entre a cantora e seu público — que ela deseja maior, sempre, mas não a qualquer custo. Sua curtíssima passagem pela TV — como participante classificada para a final do Festival da Música Brasileira, na Rede Globo, em 2000 — rendeu-lhe reflexões, expostas adiante, a respeito das relações que se estabelecem entre o artista e o público por meio da indústria cultural de massa. Certa vez, conta, ficou “apavorada” e teve vontade de correr do palco.
Mas por acreditar que há sempre “um ser humano do outro lado”, o trabalho de Mônica Salmaso registrado em álbuns e shows tem uma marca própria, ainda que construída coletivamente, para a qual o adjetivo me falta. É certamente resultado de um esforço de expressão, detalhado, burilado, que busca a perfeição. Mas do primeiro disco para o próximo, a cantora reconhece que vem cedendo às imperfeições e, assim, uma vez mais, apura-se.
OUÇA UM TRECHO
discografia



Ricardo Tacioli — Vamos lá. Falávamos do Festival. Fala, Serjão?
Sérgio Seabra — Dá uma olhada aqui?
Mônica Salmaso — Não estava melhor o outro?
Seabra — Está com chiado.
Daniel Almeida — E aí, Tacioli, está me ouvindo?
Tacioli — Estou.
Seabra — Está ouvindo ele falar daqui ou pelo fone?
Tacioli — Estou ouvindo, mas com chiado.
Almeida — Por que?
Tacioli — Não sei.
Mônica Salmaso — Põe em outra entrada, no mic. Esse MD é igual ao meu.
Tacioli — Mas não está no mic?
[silêncio]
[risos]
Mônica Salmaso — Deu? Foi? [risos] Como é que é? Onde é que a gente estava? Eu já me esqueci.
Tacioli— A gente falava do festival?
Mônica Salmaso — Então, deu um pouco de trabalho pra fazer essa coisa… E isso era o mais chato, mas na hora, assim… A final foi chata, eu não gostei do dia da final. Estava um histerismo na produção antes de cantar. Mudava de regra toda hora. Daí eles inventaram que a gente tinha de atravessar o público, e isso é muito chato. Você vai se apresentar, é uma final, os músicos estavam em cima do palco e eu estava numa fila de amigos. Tinha um monte de… Tinha a Ná, que é minha amiga. Quem havia mais? Nem lembro. Eu lembro que eu fiquei do lado da Ná e as duas assim… Porque estávamos no meio de um público que não estava torcendo pra ninguém. Um negócio muito esquisito. Então, esse dia foi ruim, mas a primeira eliminatória foi super legal. Adorei na hora em que cantei.
Tacioli— Pra você havia alguma referência com os festivais antigos por participar e concorrer daquele da Globo? O que passava pela sua cabeça?
Mônica Salmaso — Nenhuma. E não poderia ter tido porque são momentos muito diferentes. Mas, se talvez acontecesse a possibilidade mínima da gente pensar nisso… A Globo estava forçando tanto a barra pra que isso fosse um fato, que toda hora você falava, “Meu, mas não é! Sabe o que é: não é! No máximo, é um festival em que a Tetê ganhou com “Escrito nas estrelas”, mas no máximo! [n.e. Festival realizado em 1985] Agora, eles queriam forçar um festival da Record que não é assim. Não tocava no rádio pra ser aquilo, não tinha a relação… A música popular não era o que era, naquela hora dos festivais da Record, e não ia virar só porque a Globo estava inventado um festival. Porque ela também não fez virar, e nem faria. A relação é outra, são planetas diferentes. A gente podia até sentir, mas eu não senti nada disso, não. Pra mim parecia, no máximo, que eu estava no Globo de Ouro, que é o que eu vi quando eu era pequena e acabou. [risos] Mas eles tentaram isso, demais! É difícil. Eu até entendo. Eu acho que tem uma crise engraçada, que é uma crise de criatividade em uns lugares que acabaram sendo corrompidos — não é nem corrompidos, é pior. Eu acho que a indústria fonográfica e a televisão — a Rede Globo, mais do que qualquer coisa — criaram uns modos de viver e umas relações de dinheiro que são castradoras, entendeu? Não dá mesmo, pra quantidade de dinheiro que rola ali, não dá pra eles se darem ao luxo criativo de tentar fazer alguma coisa realmente orgânica e dela poder ou não poder dar certo. Então, quando um canal, fora dessa pressão de dinheiro, inventa um troço, e um jornalista lá é divertido, tem um jeito próprio, faz uma coisa dele e aquilo ali pega, todo mundo sai soltando fogos naquele canal porque ninguém estava esperando aquilo. Ele teve espaço pra virar aquilo. Uma coisa igual a Globo não tem mais esse espaço do erro, e isso é sufocante, é criativamente castrador. Não tem como o cara correr o risco daquilo não dar certo porque tem o patrocinador, o comercial… É um esquema no limite e dá pra entender como é que funciona. Com a gravadora é igual, eu acho. Como é que você vai deixar uma carreira crescer naturalmente com os seus altos e baixos normais ou com o tempo pra ver que cara ela tem, pra onde é que ela vai? Demora mesmo. Eles têm uma necessidade de rotatividade de dinheiro que não permite mais isso, e não mesmo. Fali!
Seabra — Mônica, indo de um pólo ao outro, num show seu que eu vi, do Benjamim [ Taubkin ] com uns colegas latinos…
Mônica Salmaso — O Carlos Aguirre.
Seabra — Isso, lá no auditório do SESC Vila Mariana. Digo de um pólo ao outro porque nessa apresentação você e o Benjamim quiseram estabelecer uma outra relação com a plateia.
Mônica Salmaso — Ficou engraçado. [risos]
Seabra — Ficou engraçado. Onde você tem conseguido esse tipo reação que vocês tentaram colocar ali?
Mônica Salmaso — Aquilo ali foi uma experiência de um… O projeto [n.e. Ares e pensares foi realizado pelo SESC São Paulo em outubro/novembro de 2002. Nesse show — Carlos Aguirre e Núcleo Contemporâneo –, o músico argentino que esteve pela primeira vez em São Paulo, apresentou-se com Benjamim Taubkin, Mônica Salmaso, Lui Coimbra, João Taubkin e Ari Colares] era esse… Na verdade fui convidada pelo Benjamim. Mas esse convite de criar um projeto que tentasse quebrar umas regras de comportamento do público em relação ao show e dos papéis do artista e tal, isso tudo era, na verdade, um plano, uma idéia do próprio SESC, que convidou o Benjamim. Foi mel na sopa porque ele adora isso mesmo. Ele topou e aí me convidou, assim como as outras pessoas. Eu, pessoalmente, acho que nem é tão por ali: essa questão de se as pessoas devem ou não se manifestar assim ou assado. Acho que aquilo era uma hora, numa experiência, era uma brincadeira, era uma história que rolou naquele dia. Mas eu não sinto… A minha natureza de gente, não é nem de cantora, nunca foi uma natureza de gente que gosta dessa relação mitificada do artista. Nem eu gosto de ver, nem eu gosto de ser vista, nem dura cinco minutos, porque eu não sou assim. Não estou nessa. Nunca estive. Então, eu acho que isso se manifesta o tempo inteiro no tipo de coisa que é… Aí eu acho que o jeito que eu faço, o jeito que o Benjamim faz, todo mundo da Orquestra Popular de Câmara faz, a postura do Núcleo Contemporâneo, a postura da Pau Brasil, é um pouco assim. É um monte de gente que está trabalhando e que aquilo que a gente faz é o nosso ofício, não é o nosso dom e portanto… sabe… vestido longo, orquestra e distância… autógrafo no final. Não é isso! Tem isso se quiser, mas não é… Essa relação, ela não é assim. Então me sinto muito mais um padeiro do que uma diva, entendeu? Porque é muito mais assim. Eu fico o dia inteiro mandando fax, mandando e-mail, fazendo foto, material, aí pensa no disco, aí negocia não-sei-o-quê com a gravadora, aí junto aparece um show, aí tem que arrumar tempo, aí faz Ecad, aí tem que nota contratual… E cantar é, às vezes, a parte mais fácil e, com certeza, a mais gostosa, que justifica todo o resto. Então, eu acho que ali era uma experiência muito focada de uma coisa que na verdade a gente acha que é… eu me sinto muito mais segura cantando quando olho e vejo pessoas. Esse é o meu problema. Tem gente que se sente mais seguro quanto mais distante de gente que essa pessoa estiver. Então precisa daquele palco com aquele puta canhão na frente para que a pessoa não enxerga nada… Tudo o que faça com que a pessoa se proteja dentro daquilo. Pra mim isso é assustador. Eu não me sinto bem. Eu me sinto mais pelada do que se eu olhar e ver. Então eu gosto que tenha pouca luz pra eu enxergar o rosto, eu seleciono, na cara, quando eu entro, vou olhando onde estou, que cara que tem aquele ali. E não importa… Não é nem aprovação, assim, é gente mesmo. “Puta, aquele lá está com sono. Que divertido! Aquela lá dormiu!” Aí eu fico relax. Mas se é uma situação muito popopó assim, ela não combina… Ela é mais agressiva pra mim do que a outra. Esse é o caminho natural da música popular. Eu acho cada vez mais que esse padrão que o Brasil viveu, o mundo inteiro viveu com os cantores, os grandes, as vozes, blá, blá, blá… e a gente teve na era do rádio. Esse tipo de relação de artista com público é antigo porque a realidade é muito outra. Eu e o Homero Ferreira, que é o meu produtor, a gente trabalha junto. Não é uma relação de empresário. Eu nem sei o que é isso. Nem conseguiria ter um moço que decide o que é que eu vou fazer. Mas eu conheço pessoas de gerações anteriores a minha que precisam. É psicológico que exista essa figura que tome conta daquele artista, entendeu? Então, eu acho assim, que combina a minha natureza de fazer as coisas com o fato de que cada vez mais isso é irreal e a relação com o público também passa a ser diferente. Quando comecei a cantar não havia gravadora pequena, selo independente, disco independente; havia saído um do Boca Livre que “Oh, era uma coisa muito louca”, que uns malucos fizeram lá. Mas não era uma realidade, era caríssimo, impossível de se fazer. Hoje, eu já vejo. Tem gente que já sabe que existe isso; que vai atrás disso, e que quando você vai fazer o show e o cara vem falar com você, ele não fica histérico querendo arrancar o seu cabelo. Ele quer conversar com você, entendeu? Eu tenho medo de gente que quer arrancar o meu cabelo. [ri]
Tacioli — Mas existe.
Mônica Salmaso — Mas eu estou super a fim de conversar. Tem, mas quebra-se, né. Eu tenho uma experiência assim: em Curitiba, tem um festival de música que é bem legal. Ele é como esses que tem em Campos do Jordão — tem em vários lugares. Lá tem um de música popular e eu fui dar aula umas quatro vezes. E desde a primeira vez que fui, eu me apresentei. Aí tem uma rádio muito legal lá que é Educativa; fui lá, dei entrevista, conversei com os caras. Então, pelo fato de eu ter dado aulas, entrei na cidade e fiquei conhecida em Curitiba. Aí tá bom… No ano seguinte à primeira vez em que fui dar aula durante o Festival, já havia mais gente interessada no meu curso. No ano seguinte, mais… E agora da última vez deu pau. E no meio sempre aparece uns dois, três que ficam assim… É muito engraçado, porque não faz muito sentido, sabe? Você está falando e o cara “Oh!”. Aí na primeira hora ele fala assim, “Não, eu vim aqui… sua mão…” Aí, tudo bem, você pega na mão do cara e, “Bom, beleza! Então, acabou?! Agora, vamos conversar.” E acaba mesmo, porque atrás tem gente. Mas tem gente que gosta dessa relação. Tem gente que preserva dentro de si a vontade de idolatrar. Também não vou tirar o cara da sua trip, mas não sou assim, entendeu? Talvez, ele até se decepcione se eu tiver uma convivência, porque eu não vou brincar disso.
Tacioli — Você acha que isso é “geracional”, algo de sua geração, ou vem dessa coisa de disco independente? Porque se você tem uma grande gravadora, há uma estrutura maior e as coisas não costumam se comportar assim.
Mônica Salmaso — Eu acho que sim. As coisas são mais escancaradas hoje. Em todas as áreas. Na música é assim. A partir do momento em que ficou possível você gravar o seu próprio disco, até dentro de sua casa, e mais gente passou a fazer, e mais estúdios menores foram acontecendo, e selos pequenos acontecendo, e lojas meio “cabeça” que estão fazendo um tipo…, que criam também, as coisas vão se abrindo, entendeu? Não é mais aquele artista que… Ainda tem isso e vai ter por muito tempo, mas é uma herança da desinformação, sabe? O artista era um cara que era um ser diferente, colorido. “Ele é uma coisa que eu não sou. Eu trabalho no banco e esse cara, não. Esse cara é artista. Ah! Eu dou aula, mas esse cara, não. Ele canta!”, entendeu? Uma distância de desinformação entre uma carreira artística e uma carreira normal. Eu acho que, conforme esses meios de fazer, de produzir se tornaram mais visíveis fica mais fácil pra entender que é um ofício como qualquer outro. É colorido, mas porque não ser colorido qualquer outro também, entendeu? Eu gosto muito mais disso. Eu acho que — até respondendo aquele negócio [n.e. Sobre o show com o Benjamim] — essa relação que a gente tenta fazer é, primeiro, porque é uma relação muito mais segura pra gente, a gente se sente feliz assim. E não sou somente eu, por isso que eu falo assim. E é meio propósito da arte, entendeu? Pra mim. O propósito é colorir a vida do outro, não é falar pro outro quanto branco e preto você é e eu que sou colorido, entendeu? É o contrário. É colorir… a expressão passa por isso.
Seabra — Como você tem o seu momento no dia de passar fax, essa coisa mais prática, o sujeito que tem a vida prática tem o direito…?
Mônica Salmaso — Ele vai colorir… Exatamente… Eu acho assim… Eu não sei… Estudei no Equipe, que é uma escola “humanas”, mesmo quem escolheu outra coisa, fundamentalmente, é. Isso foi referência. O que eu escolhi não passou por nenhum conteúdo de nenhuma das matérias que eu fazia lá. Um pouco de História, mas quase nada, né? Mas eu tenho uma referência muito forte da paixão com que alguns professores davam aula, entendeu? Eu não lembro nada de Biologia, mas o professor de Biologia é uma das pessoas mais geniais que eu conheci. De Artes também, de História também, de Geografia também! A gente — eu e minha turma — teve uma puta sorte. Foi muito legal. Eu não sabia o que eu queria ser, mas eu queria ser apaixonada como aquele cara ali, entendeu? Isso é artístico! A minha aula de Biologia era uma arte, porque o cara me tocava, não pela mitocôndria, mas pelo jeito como ele ia pra me dizer aquilo que era importante pra ele, entendeu?
Almeida — E é foda pensar que hoje em dia a molecada não vai ter esse tipo de inspiração, ou muito poucos…
Mônica Salmaso — Mas, olha, é uma exceção o que eu tive…
Almeida — Não era. Eu estudei em escola estadual a minha vida inteira e, até o ginásio, eram caras que defendiam a profissão e a função deles com muito…
Seabra — É mais um caso mais isolado…
Mônica Salmaso — Não sei se isso foi… eu imagino… eu espero que isso tenha sido assim e que volte a ser… É difícil, né…
Seabra — Não. Numa escola particular hoje em dia, provavelmente, isso deve até ser cobrado dos professores, para que eles se dediquem mais… A questão não é essa. Se há cobrança, a coisa não acontece…
Almeida — Não… Não sei qual que é a relação. Não dá pra falar isso, dá? Se era caras realmente apaixonados ou se eram bem remunerados.
Mônica Salmaso — Não. Eles eram, primeiro, apaixonados.
Almeida — Sem dúvida.
Mônica Salmaso — Depois remunerados.
Almeida — Talvez por isso eles estivessem lá, não?
Mônica Salmaso — Não. Ali é um exemplo muito específico porque são professores que estão lá desde que fundou o cursinho do Equipe, entendeu? É uma outra relação.
Tacioli — O Equipe é conhecido por essa formação artística, humana…
Mônica Salmaso — Quem quisesse entrar na Poli, talvez o Equipe não fosse o melhor lugar. Dá pra entrar, porque você aprende a pensar num tipo de educação igual a essa. Mas tem um tipo de carga, de dados, de coisas do estudo exato ou do estudo biológico também…Não sei se estou falando besteira. Tem gente da minha turma que entrou na Poli, na Medicina da USP. Você não vai lá pra estudar, estudar, estudar… Essas pessoas, elas meio que se prepararam exclusivamente pra isso, mesmo estando lá. Eu não. Eu chorava porque era o último ano, e eu nunca mais iria ver aqueles professores. Então eu era uma humana dentro das Humanas. É triste quando você percebe que as coisas muito básicas, de qualidade de gente, não estão acontecendo. Não sei, eu acho muito triste quando chego numa situação de grupo ou de dar aula e percebo que o mínimo do contato da pessoa com ela mesmo, pra ela descobrir qual é a dela, não existe, entendeu? O mínimo. Mas é o mínimo mesmo! Tem um olhar sempre pra fora, sempre comprado de uma imagem, de alguém que você não conhece, nunca viu, mas na propaganda da Lux Luxo disse que é… Isso é sério! Você olha de fora depois, quando você está numa boa, e acha engraçado ou até compra também… E você fala, “Pô, queria ser bonita e gostosa que nem essa daí!”. Ou, “Quero aquele vestido daquela outra ali!”. Mas é grave quando você não tem uma formação que te faz olhar para o que você acha que bate com você. É grave quando você não tem uma formação que lhe permita olhar assim…
Almeida — Talvez seja esse o ponto: crianças que não têm mais contato com adultos apaixonados pelo que fazem.
Mônica Salmaso — Esse é o grave, porque disso sai não somente uma má formação acadêmica. O cara não vai conseguir ensinar.
Almeida — Mas um caminho pra essa criança.
Mônica Salmaso — Mas também, o cara não vai dar um tipo de exemplo que é o único exemplo real. O exemplo da TV, do shopping center é um tipo de contato muito meia boca. Agora, o professor é um contato humano, a família é um contato humano, o amigo é um contato humano. Já na rua ninguém vai, porque é perigoso e não-sei-o-quê, vai fechando o cara e sobra pra ele um tipo de contato muito superficial. Uma coisa é você querer se apaixonar pelo seu professor — todo mundo já se apaixonou… Eu, pelo menos, assim… [risos] Mas era um cara que eu estava ali, numa maior crise, mas ele é gente… Outra coisa é eu ficar sonhando com o…
Tacioli — Era o de Biologia?! [risos]
Mônica Salmaso — Não era. Ele era muito mais velho. Não, não. O de Biologia eu queria que ele morasse na minha casa somente pra eu ficar olhando pra ele, assim, mas era outra questão. Havia lá os gatos, né? E a gente ficava meio, meio… Puta, era muito engraçado… É bizarro! Eu não tenho saudades de ser o que eu era, mas eu acho que era importante.
Flávio Monteiro — Você já falou do Globo de Ouro. Quando é que a música começou a ter importância em sua vida? Nessa época de Globo de Ouro você já pensava nisso?
Mônica Salmaso — Desde pequenininha eu gostava de cantar. Gostava, assim…
Monteiro — Sua família é…?
Mônica Salmaso — Não tinha nenhum. Hoje tem. Meu irmão é baterista. Ele toca com a Paula Lima, com o Mattoli [n.e. Líder do Clube do Balanço].
Tacioli — Seu irmão é mais novo?
Mônica Salmaso — É. Edu Salmaso. Mas ele nem tinha… Eu era pequena, pequenininha mesmo. Minha mãe tocava um pouco de violão de farra, a gente cantava — eu, o Edu e a minha irmã. Eu tenho mais uma irmã mais nova e a gente cantava junto, mas eu era afinada. Eu vim fácil de cantar. Eu cantava e os adultos achavam bonitinho que eu era afinada e blá, blá, blá…
Monteiro — Você cantava o quê? Você lembra de alguma coisa?
Mônica Salmaso — Ah! Era engraçado. Na casa dos meus pais tinha uns vinis de MPB que eu gostava. Eu amava o Chico Buarque. Mas eu amava, assim… Eu era uma coisica, assim que deu pra entender o que nego estava falando, eu amava o Chico Buarque, entendeu? Eu acho que eu nasci meio velha, já. Eu sempre tive um interesse dramático, que é muito mais velho do que eu estava vivendo ali. Então eu ouvia… Tinha um disco que tem “Feijoada completa”, “Cálice!”, “Pedaço de mim”… Trash! E eu amava! E eu ouvia e cantava junto e tal. Tinha umas coisas do Milton, mais velhas, tinha Elis, um pouco, tinha muita coisa do Chico, Roberto Carlos. Não tinha muita coisa. Tinha o Sargent Peppers, dos Beatles. Ah! Tinha um disco importante: um do Dorival Caymmi que era furado porque eu ouvia muito.
Tacioli — Que disco era esse do Caymmi?
Mônica Salmaso — Era um disco cor-de-rosa, não sei que nome ele tem. Ele é branco com cor-de-rosa. Quase tudo ele cantando sozinho. E tem ele e a Nana cantando “Acalanto”, que é trash!. É muito lindo e eu ouvia muito. Então isso eu ouvia e cantava junto. Eu via shows, eu achava bonito, colorido também, mas muito distante. Eu não sabia o que era, o que poderia ser cantora, não tinha nenhuma referência… Nada, nada. Aí fui pro Equipe fazer o meu colegial e lá eu também cantava. Festinha, Pink Floyd, aquelas coisas. Aí quando saí do Equipe resolvi que eu não ia prestar vestibular logo naquele ano porque eu precisava curtir o último ano da escola. Quando eu saí, decidi que eu ia fazer Jornalismo e aí fui fazer cursinho. Fui pro lugar mais nojento, horrível do mundo que era o Anglo, na rua Sergipe, manhã, Humanas. [risos] Eu não sei se vocês já fizeram… É horrível, é o pior lugar do mundo, não tinha janela, tinha 230 alunos, aquele professor fazendo piada e aqueles caras jogando bolinha de papel… Aí, meu Deus, pra mim era assim um inferno. Absolutamente! Humanas ainda é aquela moçada que não sabe o que vai fazer, sabe? [risos] “Ah! Acho que vou fazer publicidade. Ah! Não-sei-o-quê. ” Aí fica truco, aquele pique… [risos] Puta, fiquei muito infeliz, mas muito mesmo. Aí fui fazer aula de canto. Eu sabia que tinha uma escola, na Vila Madalena, que é o Espaço Musical, que ainda tem, do Ricardo Breim, que era do grupo Rumo. Ele tem uma escola que era legal já desde aquela época… Isso foi em 1988, 89. Eu sabia que ele dava uma aula muito legal de percepção musical pra todo mundo, quaisquer pessoas… E eu fui fazer essa aula de canto porque eu precisava de alguma alegria. Eu estava muito insuportável! Só que daí eu entrei na classe — foi até engraçado, ela vai ficar brava, mas eu vou contar: essa professora dá aula até hoje. Chama-se Regina Machado, é uma cantora, gravou disco e tudo, e tem uma escola e dá aula. E a Regina é uma escorpiana, assim, brava, né?! Então eu cheguei na primeira aula, meio tímida e tal, ela estava com uma caderno na mão, e nem olhou. “Mônica, né?” Aí ela anotou e falou, “Que signo você é?” “Peixes.” “Você sabe qual é a história de Peixes?” Eu falei, “Não!” “Ah! Peixes é assim: ninguém consegue pegar. Quem pega, frita e come.” Daí eu falei, “Uau”! [risos] Fodeu! Aí fiquei fazendo aula com ela. Foram dois meses de aula de canto de pura alegria, vivido simultaneamente com um treco que era insuportável. E foi o que precisava. Aí anunciei na minha casa que eu queria ser cantora.
Tacioli — E não prestou vestibular?
Mônica Salmaso — Não. Saí do cursinho. Saí total. Fui fazer aula de violão. Foi meio esquisito, ninguém sabia, nem eu, o que é que era isso. Minha mãe perguntou, “Mas faz o quê?” Eu falei, “Não sei.” “Aulas?” Não tinha nem faculdade de… Estava abrindo a de Música Popular da Unicamp. Eu até conhecia umas pessoas que vinham do Oswald, do Equipe, do Vera Cruz e que entraram na… Não me lembro se isso foi exatamente naquele ano, mas estava meio assim… Não, certamente não foi, porque eu já havia começado a trabalhar. Então, não tinha faculdade de música popular e fui fazendo aulas, aulinhas aqui, aulinhas ali.
Dafne Sampaio — Como foi a reação em sua casa?
Mônica Salmaso — Esses dias a minha mãe lembrou disso. Eles foram legais. Segundo a minha mãe, ela estava já cansada de me ver aflita, porque é insuportável. É uma hora meio cruel, né? Meio não, é uma puta de uma crueldade você pegar um adolescente cheio de hormônio e falar pra ele “Decida o que você vai ser o resto da sua vida”. E tudo o que você tem é a imagem de uns caras com 30 anos, descoladaços, que você acha… E meu, é muito trash… É muito errado… Eu estava cheia de coceira, cheia de alergia, histérica e sofrendo com isso e tal. Ela disse que na hora em que ouviu, falou, “Nossa, depois eu penso o tamanho que é isso, mas tá bom… Escolheu? Oh, vamos nessa, vamos ver se você se acalma!” [risos] O meu pai é um engenheiro que tem um ouvido musical muito especial. Ele é doido, apaixonado por música. Então, metade dele ficou preocupado e a outra metade deu uma coceirinha, um negócio de, “Pô, legal, né?!” Eles toparam. Na hora, eu me lembro, enquanto eu chorava, eles toparam tudo. Mas hoje eles falam que deu um… Esquisito, né? Porque não há um caminho que pareça pelo menos com um caminho. É uma coisa meio… Então, está bom. E falei, “Acho que eu devo fazer umas aulas e estudar.” “Está bom!” “Então, está bom?!” Aí, eu fiz. E aconteceu um negócio legal. Essa aula da Regina me levou pra um grupo de estudo, de leitura… e daí era legal porque eu já estava cantando com outras pessoas. Aí, no Equipe, eu tenho uma amiga, que ainda é minha amiga, que a mãe dela trabalhava com a Rosi Campos — ela era ícone pra mim, porque era Mãe Ubu, e eu tinha visto Ubu, que foi uma febre no meu terceiro colegial. [n.e. Ubu — Pholyas Physicas, Pataphísicas e Musicaes, célebre e premiada montagem do Grupo Ornitorrinco, dirigido por Cacá Rosset]
Almeida — Eu conheci o Ubu pelo Chiclete com Banana, do Angeli. Havia umas foto-novelas da peça e aí eu ficava, “Puta, isso aqui…”.
Mônica Salmaso — Meu, era uma febre. A moçada enlouqueceu, virou um troço de filas gigantescas… Era o forró, era o Ubu. [risos] Nego ia no Ubu. E eu fui várias vezes. E a Rosi ela é muito fodona, né? Ela é um mulheraço. Ela tem uma puta voz linda. Ela canta pra burro. Ela canta super, super. Ela é uma cantora, não é uma atriz que canta. Ela é uma atriz! “Uau!” E essa minha amiga conhecia, porque a mãe dela e a Rosi trabalhavam juntas. Como foi meio de sopetão e eu tinha recém saído do colegial, essa minha amiga também soube que eu tinha resolvido que seria cantora e sei lá em que situação ela comentou com a Rosi, ou foi a mãe que comentou, sei lá, que uma menina maluca da escola falou que não queria fazer faculdade porque seria cantora. Eu nem sei como foi. Eu só sei que a Rosi estava fazendo uma peça de teatro que era dirigida pelo Gabriel Vilela. E ele estava montando uma próxima peça e ele queria uma cantora pra fazer uma coisa específica, que era uma Verônica de Cristo — na procissão da Paixão tem um personagem da Verônica, aquela que enxuga o rosto de Jesus — e canta um canto na procissão da Paixão. E ele queria essa figura dentro da peça e não sabia… Ao mesmo tempo era um elenco muito maior daquele que a Rosi tinha; que já era um grupo na verdade. Era um elenco meio grande e meio de gente nova, começando. E aí ele pediu pra Rosi uma indicação. E ela blefou. Falou que ela conhecia uma menina que tinha 19 anos, que cantava pra caramba…
Dafne — E ela não te conhecia ainda.
Mônica Salmaso — Nada. Que essa cantora era foda! Lia música. Ela falou qualquer negócio assim. E aí ela me ligou, “Olha, Mônica, aqui é a Rosi Campos. Estou ligando porque eu pedi o seu telefone pra Juliana e… Estou fazendo a peça do Gabriel Vilela. Ele está montando uma outra peça, e pediu a minha indicação e eu dei o seu nome. Você vai e faz o teste e faz a peça, está bom?”, e puf!, desligou. Daí eu, “Ah!”. Aí o Gabriel ligou. E eu era assim, uma pulga, mas também eu não tinha nada pra… Entre nada e a possibilidade de alguma coisa, então, está bom. Acho que eles me ligaram em julho… Ou comecei a ensaiar em julho e esse negócio já tinha sido no comecinho do ano, alguma coisa assim…
Seabra — Sim, mas no mesmo ano…
Mônica Salmaso — Foi. É, não foi tão longe, não foi. Era divertido pensar que eu ia fazer. Pra mim foi, na verdade, uma mão na roda porque era um grupo e não era eu sozinha. Eu não sabia por onde começar, eu não tinha amigos que… Tinha até amigos músicos, mas eu achava que eles eram muito mais profissionais, sabe? E eu não, estava começando. Eu tinha muitas vergonhas… O cantor meio que lidera isso, entendeu, e eu não tinha a menor possibilidade de liderar ou formar grupo ou qualquer coisas dessas, né?! Então fui fazer o teste lá. E aí eles disseram que acharam a minha voz bonita mas, na verdade, eles me deixaram entrar porque eu tinha sido corajosa; porque eu cheguei com o violãozinho assim, “Rangandam, garangandam”, e cantei uma única música que eu conhecia… [risos]
Tacioli — Qual era a música?
Mônica Salmaso — Acho que “Lugar comum”, do João Donato e do Gil, que é bem fácil de tocar. Foi assim que eu entrei. Aí foi um puta de um investimento… Fizemos uma peça que chamava O concílio do amor lá no Centro Cultural Vergueiro, onde hoje há uma biblioteca de braile, ali onde é o negativo da biblioteca, do outro lado, era só cimento e a gente fez tudo lá. E era um grupo assim, daquele que pinta o chão, limpa, faz faxina, costura o figurino… O meu papel não falava nada, mas mesmo assim eu estava dentro da balada. E a gente fazia de quarta a domingo direto. Foi sensacional! Pra mim foi escandalosamente bom. Havia o nervoso de me apresentar, eu cantava mas ficava escondida. O meu figurino era um véu preto. Eu adorava fazer a peça, só que não dava pra fazer mais nada, porque a gente chegava lá às 6 da tarde e saía à meia-noite, de quarta a domingo. E segunda e terça eram os days off que tínhamos; o nosso final de semana. E eu não tinha coragem de… Eu tinha a sensação de culpada católica, de que eu estava bundando, enquanto o mundo trabalhava. Eu não conseguia não fazer, ficava tentando estudar. Era uma neurótica! Aí fiquei fazendo a peça e fui convidada, nem lembro como, por umas pessoas que eram da minha geração e que estavam tocando. Elas vinham do Oswald… Eu não lembro como chegou o convite, “Ah, quer fazer um grupo?” Aí fui fazer. Também super insegura. Pra mim era uma relação séria, tudo era muito sério… Eu ia ser cantora, né? Aí saí da peça, porque comecei a fazer uns showzinhos no Blue Note, no Café Piu Piu, no Bar da Virada, lá na Vila Madalena.
Tacioli — O que você cantava nesses barzinho?
Mônica Salmaso — A gente fez um show mesmo. Então, havia Chico, Milton, umas coisas em inglês, uma música do Seal — mas isso foi mais pra frente. Tinha uns trecos em inglês e muitas coisas em português. Era legal! Era um som meio pop, bonito. Eles tocavam bem e tocam ainda. E eu curtia fazer. Aí o grupo se desfez porque dois deles foram viajar, foram fazer curso fora, nos EUA. Aí dançou e eu fiquei… já estava cantando. Chegou uma hora em que fui cantar na noite. Aí cantei no Bom Motivo, que ainda existe, no Vou Vivendo, que infelizmente não tem mais, e no Café Paris, que deve ter, mas eu não sei, porque há muito tempo ele estava no vai-não vai. Mas era muito legal. E eu cantei uns dois anos, dois anos e meio, lá. Então eu fazia assim: eu entrava e cantava uma entrada só, porque eu não queria me viciar naquele pique de ficar… No Vou Vivendo era assim: eu entrava, fazia a minha entrada e poderia ir embora… Eu dava o maior gás; aquilo lá era super sério. Existem os vícios da noite, né?! E você vai ficando calejado: muita gente cantando parabéns enquanto você canta, muita gente conversando. Uma vez eu estava no Bom Motivo e não havia lugar. Havia uma esquininha entre a janela, que na verdade era uma varanda, uma parede e ali é que eu estava em pé. O pedestal do microfone estava na minha frente. Aí, lotou. Eu cantando e daqui a pouco um garçom pega o pedestal e tira pra passar…[risos]. Eu estava cantando e o microfone foi embora… [risos] Falei, “Acabou minha… vou embora do Bom Motivo”.
Tacioli — Mas havia algum receio de se tornar, unicamente, mais uma cantora da noite?
Mônica Salmaso — Teoricamente eu tinha, mas, na verdade, era o passo que eu tinha pra dar. Eu não tinha outro passo pra dar. Eu pensava, achava que não era legal. Por outro lado, foi uma fase em que aprendi muita música, porque é óbvio que eu não ia embora (do barzinho depois de cantar)… eu ficava e ficava ainda cantando nas entradas dos outros. No Vou Vivendo tinha, depois de mim, um regional, que era campeão… Tinha o Xixa — pai do Pixinga — que tocava cavaquinho, e ele era lindo! Eu ficava e ficava cantando. Aí comecei a ouvir pra aprender a cantar coisas que são do repertório do regional e eles não agüentavam mais e queriam cantar… O Xixa com o cavaquinho falava assim, “Eu tirei uma música da novela”. Acho que era uma música do Pepeu Gomes, que ele queria que eu cantasse na entrada, e eu falava, “Não! [risos] Quero cantar ‘Lábios que beijei!’” Então eu aprendia muita música. Tem uma coisa legal de cantar a noite: você não prepara um show. Não é um show. E quem está lá, está a fim de ver cover. Está a fim de ver você cantar a música que o cara já gosta, se possível, igual à que ele já canta.
Seabra — Mas “Espanhola” você cantou quantas vezes?
Mônica Salmaso — Ah, poucas… Cantei poucas vezes, eu tinha os meus limites. [risos]
Tacioli — Você se esquivava?
Mônica Salmaso — Fala que não tem, que não dá… Tem gente que pede, depende do lugar, né? No Café Paris, que é um lugar bem pequenininho, esquisito e divertido ao mesmo tempo, não sei se vocês já foram lá, fica na frente da USP. Ele é compridinho e os músicos ficam num mezanino, no fundão, mas dá pra ver… É esquisito, meio distante; ao mesmo tempo é pequenininho, e tem sempre aquele cara que sai do trabalho e vai sempre naquele mesmo lugar, já entra na cozinha… E esse cara, [grita] “Ô, Mônica!”, aí você fala “Não, não dá! Não canto, não tem, sei lá!” E você consegue falar porque vê aquele cara toda hora e fala “Não!”, pronto, acabou. No Vou Vivendo, que tinha muita rotatividade, aparecia o papelzinho. A gente olhava, e se estivesse a fim, a gente cantava, se não, não. Era mais ou menos isso. Mas, ao mesmo tempo, eu tinha uma super curiosidade de ouvir coisas e você não está pensando que aquele repertório vai delinear a sua personalidade artística. Não tem essa. Ninguém está te vendo com personalidade artística, inclusive; “Canta aí enquanto a gente bebe aqui”, entendeu? Então eu cantava músicas que eu acho lindas mas que hoje, por exemplo, quando vou pensar em gravar, eu não gravaria, porque elas são, ou pelo menos eu as vejo agora dentro de uma coisa que é muito datada. Às vezes é política em relação ao Brasil de uma outra hora, tem uma mensagem de texto ou uma coisa até musical, melódica, rítmica que não combina.., Mas lá tudo estava valendo.
Tacioli — Quais músicas?
Mônica Salmaso — Ah! Havia um monte de coisas, não sei se eu vou me lembrar… Falando veio na cabeça uma, que era do Paulo Cesar Pinheiro. Como é que se chamava? Era super de protesto assim… “Olha aí”? É, chamava-se “Olha aí”, que era super de protesto e a letra é forte… Eu adorava cantar, mas não gravaria. Não agora. Não vejo ela caber em lugar nenhum. Ou músicas que já foram muito gravadas e que você não acha… Eu não estava preocupada se eu tinha uma coisa pra expressar através da música. Eu estava a fim de aprender música. E tinha um cara lá, que tocava no mesmo lugar, que ele tinha uma pasta enorme de letras de tudo o que você imaginasse. E ele fazia assim, parava numa e falava “E essa daqui”. E tocava. O cara era uma enciclopédia de música, de várias áreas da música popular. Eu acho que era tudo em português. Então eu estava a fim de aprender. E aí fiquei assim… Era pra contar a história toda ou era só pra perguntar quando começou? [risos]
Monteiro — Esse é um site de grandes entrevistas. [risos]
Mônica Salmaso — E eu cantando no Vou Vivendo, o Eduardo Gudin, que era um freqüentador, ex-sócio do Vou Vivendo, estava passando por ali e estava com uma idéia, que ele queria montar um grupo, e queria convidar uns cantores que cantassem solo bem, mas que se comportassem bem em arranjos vocais, também. Porque ele tinha um projeto pessoal de criar um trabalho em que ele pudesse escrever arranjos e ao mesmo tempo vozes-solo, fazendo as melodias das músicas que ele compunha e tudo o mais. Era um projeto dele. Daí ele me viu cantando e me convidou. Então foi dali que saiu o próximo degrau. Pra mim, sempre vejo assim… Foi muito assim… Nada doeu, até hoje, nada foi dor, tudo cabia. Toda hora eu falava, “Ah! Será que eu sei, será que eu dou conta”, mas não era, sempre deu pra dar conta. E aí ele me convidou, a gente começou a ensaiar. Minha prioridade era esse trabalho. Eu só fazia isso…
Tacioli — Esse aí era o Notícias?
Mônica Salmaso — É o Notícias. O Notícias teve duas formações anteriores a essa. Foi longo o processo. A gente fez uma formação, aí começou a trabalhar. Daí não era bem isso o que ele queria e desfez a formação. Aí fez uma outra… Eu estava desde o começo, então, aprendi tudo, desaprendi, “Não é nada disso! Não é isso o que eu quero! Pára!”, e aí vai tudo de novo. Até que virou finalmente aquela formação que gravou o primeiro disco do Notícias. Nessa época, o Gudin era produtor da Velas. Ele era um dos produtores artísticos… Não sei se o nome era esse, mas ele levava projetos pra Velas e o disco saiu pela Velas, originalmente. Aí ele me perguntou se eu estava a fim de… porque a gente já se conhecia bastante. Foram cinco anos, sei lá…
Seabra — Então, qual foi sua primeira música gravada?
Mônica Salmaso — A primeira, primeira mesmo, foi “Cidadela”, uma música no disco do Mário Gil que ele fez enquanto eu cantava no Café Paris. Foi um disco independente [n.e. Luz do cais]. Depois, acho que a segunda foi no Canções de ninar [n.e. Álbum vencedor do Prêmio Sharp 94, na categoria Infantil], que também corria paralelo a isso. Foi um amigo que indicou… “Vá lá, … blá, blá, blá”. Eu conhecia a Sandra Peres, o Paulo Tatit. “Quer cantar?” Cantei. Daí o primeiro disco que inicia o meu processo de carreira foi o Notícias no Brasil, nessa ordem. Inclusive porque foi dali que apareceu a possibilidade de fazer o Afro-sambas. Foi uma idéia que o Gudin teve… Ele me ofereceu para gravar um disco-solo que ele levaria pra Velas. No começo, falei que não, que estava cedo, que eu não tinha um trabalho, que eu iria inventar um correndo somente porque apareceu. “Eu tenho medo de fazer tudo assim, não quero!” “Não, mas vamos pensar…” “É, tá, vamos pensar, vamos ver…” Aí um dia ele sugeriu. “Você conhece os afro-sambas?” Eu conhecia os mais conhecidos, né? Mas eu não sabia que eles eram uma fase da produção do Baden com o Vinicius, com uma temática fechada. Então, ouvi o primeiro disco que eles — o Baden, o Vinicius e o Quarteto em Cy — fizeram, que é o Afro-sambas, que tem oito faixas. Aí eu chapei, né?! “Pô, isso é muito legal!” Isso foi gravado em 1966, 67, e nunca ninguém havia gravado a íntegra de novo. Ficou. O “Canto de Ossanha” a Elis fez e ficou famoso com ela. O “Berimbau”, “Consolação’, mas havia lá outros que são jóias e que estavam… Ficaram lá na gaveta da editora e nunca mais ninguém pegou. E aquilo ali “euzinha” podia fazer, então, pô, falei, “Já! Eu quero imediatamente isso. Rápido! Antes que alguém faça isso.” [ri] Fiquei super a fim. Aí o Gudin sugeriu que a gente convidasse o Belinatti, porque ele tem o trabalho do Garoto, e o Gudin adora o jeito que o Belinatti toca. Daí eu conheci o Belinatti nessas. “Ó, essa aqui é a cantora, esse aqui é o trabalho. Quer fazer?” E ele falou, “Ah! Topei.” E a gente começou a ensaiar. Eu, de novo, ia apavorada para o ensaio, porque “Meu Deus, o Belinatti e eu!” Sofria! Mas ele foi sempre supercampeão. Super! E aí a gente preparou, levou pra Velas e ela não queria mais. Não estava mais a fim. Só que aí era o Belinatti, né?! Acho que isso também faz parte daquela conversa da postura em relação a música. A minha convivência de trabalho sempre foi um tipo de pessoas e músicos que tem essa característica de “Ah, é?! Não tem quem faça? Faço eu!”, “Ah, é? Não vai fazer direito?! Faço eu!” Então está bom. Eu vou, eu me arrumo, eu crio e eu me viro, e com o maior capricho. O Belinatti é o professor maior nesse assunto. Ele é o cara que cria, que faz tudo com dez; ele não deixa uma coisinha que poderia fazer melhor; ele não deixa! Ele tem uma carreira autoral super legal que ele foi criando lentamente, mas que é super consistente fora do Brasil. E ele falou, “A gente vai gravar esse disco! Você quer fazer fora da Velas?” Falei, “Hã, hã.” “Então, eu levo isso pra gravadora americana e vamos ver como é que faz. Vou tentar.” A gente arrumou um estúdio que também estava a fim. E aí o estúdio resolveu que ia investir também porque podia ser a sede da gravadora aqui. Gravamos! Aí começou essa história… Do Afro-sambas eu conheci o Nelson Ayres; eu conheci o Rodolfo Stroeter, que é o dono da Pau Brasil, aí veio o Trampolim e blá, blá, blá. [risos]
Seabra — Você acha que, mesmo sendo independente, cria-se um roteiro do que é artista, de como ele deve proceder?
Mônica Salmaso — Como? Roteiro?
Seabra — Como se comportar na hora de dar entrevista, você cria um meio de como se comportar ante a mídia, essa coisa.
Mônica Salmaso — Bom, primeiro eu não sou independente. Eu sou operária! Não sou independente! Não sou. Porque os discos são de gravadoras, pequenas. Independente mesmo é uma coisa mais profunda ainda do que sou. É um cara que lança o seu próprio disco, fabrica, vem as caixas na sua casa, fica aquele quarto cheio de caixas de disco e aí ele fala, “Meu Deus, preciso vender os discos.” Isso é independente mesmo, né? Eu tenho várias parcerias de trabalho. Isso é um negócio. Não sei se eu entendi exatamente o que é que você perguntou, mas é… Não entendi o que você perguntou? [risos]
Seabra — Em relação ao discurso…
Mônica Salmaso — Se o comportamento é um comportamento estudado, assim?
Seabra — É com relação ao discurso. Você está dando uma entrevista aqui…
Mônica Salmaso — É uma conversa e, de repente, eu percebi que estou há 20 minutos falando sem parar. Aí, pensei, “Pode ser que não seja assim. [risos] Vamos perguntar.” [risos] Na verdade, eu já contei essa história muitas vezes, então, quando começa, ela vem. Porque essa é a primeira pergunta, né?
Tacioli — Como é que você ouve hoje o Afro-sambas? É a mesma coisa que você ouviu há oito anos?
Mônica Salmaso — Não, não é a mesma coisa. Mas eu reconheço que é, entendeu? Ele é muito lindo, mas eu sinto… Não sei se quem ouve de fora… Eu nunca vou conseguir, embora adoraria poder ouvir como quem não fez, mas não dá. Não existe. Nem com a maior distância do mundo. Não tem jeito! Mas eu tenho a distância de tempo. Eu ouço e vejo em mim uma vontade de ser perfeita. Hoje eu não faria assim. Havia uma preocupação de mostrar serviço, mesmo. Até hoje a gente faz esse show. E hoje ele é muito mais imperfeito do que ele está gravado, mas é mais expressivo, pelo menos eu sinto… Às vezes isso não quer dizer que ele seja de fato, entendeu? Porque o disco não é você. Tem dois caras na Suécia, muito figuras, que eles ouvem esse disco desde 97. Duas vezes por mês eu recebo e-mails deles, que começam assim, “Bêbados de novo!” — eles estão na Suécia, é inverno, e não tem nada pra fazer, é muito triste, tudo neve, tudo cinza, tudo não-sei-o-quê, então eles ficam bêbados e ouvem os afro-sambas. Esse disco tem um significado expressivo pros dois que é muito além do que eu esperaria de mim, entendeu? Bateu neles e isso daí acontece e não é porque você não é dono do disco, né? Agora, quando canto esse mesmo repertório, estou mais interessada em perceber outras coisas da música, que não são realizar as notas perfeitamente — e tem falhas técnicas (eu acho, hoje) que até são legais. Eu me expresso através delas, entendeu?
Tacioli — Sua interpretação é mais sincera hoje?
Mônica Salmaso — Puxa, eu quis ser perfeita com a maior sinceridade. Era o que eu era sincera nessa hora. Eu era, sinceramente, empenhada em fazer perfeito o que dava. Mas era o máximo que eu podia. Eu me sentia obrigada a isso, por dentro. Eu estava começando, então tinha que mostrar pra você, pros outros, pra quem quer que seja, que aquilo é sério; tinha do meu lado um cara que tinha quantos anos de carreira. Ele é um dos melhores violonistas do Brasil; era muita coisa, e a minha natureza era meio, “Puxa vida, ganhei na Loto e agora eu preciso provar que eu não sou bico. Porque aconteceu um lance em que dei uma sorte. Mas aquilo era sincero, entendeu? Talvez aquilo até, de algum jeito, esteja gravado junto com a vontade de ser perfeita que tocou lá os carinhas. Hoje eu me preocupo muito mais com outra coisa. Eu acho divertido, às vezes, ter um ar na voz, um… sei lá… No Voadeira, quando gravei o “Canário do reino”, eu estava com vontade de fazer uma voz mais rouca, de propósito, porque eu tinha a imagem da voz do Tim Maia — a imagem da voz é legal, né? Mas eu tinha mesmo. É um disco super bem gravado. Eu acho as músicas muito lindas. Eu sou completamente fã desses arranjos, mas eu acho que eu poderia ter cantado… Hoje eu cantaria esse disco de uma maneira menos preocupada com a perfeição. Mas eu acho que isso aí não tem muito jeito. Eu já olho pro Voadeira assim. Não com essa mesma crítica, mas… passa, né? É gozado, pra muita gente nem chegou e pra você já passou. Aquela fase é outra, você mudou.
Monteiro — No início você falou em delinear a carreira artística. Você acha que esse disco virou referência para aquilo que você fez na seqüência?
Mônica Salmaso — Acho. Em todos os sentidos. Isso porque eu nunca escolhi, nunca pensei, “Bom, eu quero ser uma cantora autoral e quero fazer um trabalho…” Eu sabia que eu queria fazer bem feito o que quer que fosse, mas eu cantava música pop no primeiro show, entendeu? E talvez minha vida tivesse me levado pra isso… E eu iria fazer com a mesma carga de vontade de fazer direito e talvez me abrisse, quero dizer, você faz escolhas dentro das opções que aparecem, entendeu? Eu nunca bati a cabeça. Eu nunca fiquei assim, “Quero cantar assim e eu quero ser de selos pequenos porque eu quero, porque eu acho isso!” Não! Eu estava preocupada em aproveitar as oportunidades que apareceram e delas fazer um caminho. Nesse sentido, cada coisa que aconteceu e essa foi muito definitiva, porque virou o primeiro disco; eu entendi que dava pra viver na música de um outro jeito. Quando convivi com o Bellinati naquela hora, eu entendi… Porque naquele momento era assim, cantora era a famosa da televisão. Pra ser cantora é preciso entrar em gravadora grande. Pra se entrar em gravadora grande, eu não-sei-o-quê é que tem que fazer. De repente apareceu uma oportunidade que era assim: um instrumentista que tem uma outra realidade. Um solista de música instrumental brasileira. Isso é uma outra realidade de mercado e de tudo, né? E esse cara criou uma trilha e vivia bem disso. Aí eu achei divertido… Primeiro que pra mim era real… mais real do que a outra, que eu não conhecia, nunca havia entrado naquilo, não sabia o que é que tinha que fazer. Então eu acho que você é moldado, você se deixa influenciar, não sei. Você é o que você vive, praticamente. Você escolhe através disso. Eu passei a ouvir um tipo de música que era mais dentro desse universo. Ao mesmo tempo, quando eu escolhi os afro-sambas, eu achei muito confortável porque era um projeto que eu estava topando, entendeu? Não era, assim, o meu primeiro disco e aí eu tinha que escolher as músicas. Aí eu senti que estava fazendo já escolhas que determinariam o que eu iria ser como cantora para todo o sempre. A carga do primeiro disco é essa, mesmo que você mude, fica esquisito. Como os afro-sambas são esses, ou você grava ou não grava, não dá pra escolher, tirar afro-sambas, pôr afro-sambas. É um projeto. Isso pra mim era protetor, entendeu? Eu estava topando um projeto. Não quer dizer que eu vá cantar as músicas do Baden o resto da vida, nem do Vinicius, nem MPB, nem sequer voz e violão, nada! Eu só topei um projeto. Naquela hora foi um conforto pra mim e aí depois eu me senti tranqüila. Só que a gente vai se misturando com isso.
Tacioli — Você poderia ter se tornado uma cantora pop?
Mônica Salmaso — Eu poderia ter me tornado uma jornalista feliz também, não fosse aquele cursinho insuportável! Acho que eu poderia. Eu acho…
Tacioli — Colocando entre aspas frases de outras pessoas?
Mônica Salmaso — Pois é, talvez eu fizesse isso. Já pensou? Eu sou meio água nessas coisas, sabe? Eu não brigo muito com o que tem. Eu sei o que é que dói no meu fígado e falo “Isso eu não posso fazer!”. Ah, não é porque eu acredito, não é porque eu penso, não é religioso, não é nada. Aquilo lá é uma violência pra mim agora, ponto final, não dá! Pode ser uma coisa até normal — isso eu sei, é o meu limite –, eu olho pra dentro, que é aquilo que a gente estava falando, e falo, “Meu, isso bate num lugar que é esquisito pra caramba. É fake! Eu vou ter que fingir que eu sou um negócio que eu não sei, não quero. Isso foi sempre a única parede que havia.
Almeida — Mônica, publicidade nunca esbarrou nessa área de segurança, como você falou, “Daqui não passa”?
Mônica Salmaso — Porque eu já fiz bastante.
Almeida — Então, isso nunca…?
Mônica Salmaso — Olha, sabe o que é gostoso… Primeiro porque gosto de estúdio. Eu adoro estúdio! Me bota lá no microfone com fone, eu sou feliz! Pra fazer o que for. Eu gosto do estúdio. Então, sempre achei divertido. As primeiras vezes que eu gravei, eu estava cantando lá no Vou Vivendo, no Café Paris. Eram possibilidades de trabalho e eu estava muito a fim de fazer. Não tinha nenhum nome, não tinha nada que eu tivesse… Não tinha que pensar, “Meu Deus, sou uma cantora e estou vendendo aquele sabão em pó.” Eu não era nada. Eu era um coro como qualquer outra pessoa ali. E não estava assinando artisticamente nada, né? Então eu achei divertido e eu de fato acho, na maioria das vezes, divertido gravar publicidade, mas vai ficando pesado. Conforme você vai criando uma coisa, cada vez mais você começa a pensar que de alguma forma pra um número, mesmo que seja pequeno, você está assinando aquele troço, então, fica… Comecei falando, “Ah, não quero fazer isso solo; só quero fazer coro, então, porque não quero dar esse destaque… Mesmo que seja três neguinhos. Eu não quero vender aquele negócio para aqueles três neguinhos…
Almeida — “Nossa! A Mônica está vendendo sabão em pó.”
Mônica Salmaso — Exatamente. Se bem que eu fiz há pouco tempo, um do Boticário. Eu e o André Mehmari. Então é um negócio assim: é divertido e gostoso de se fazer, mas político não dá pra fazer. Eu fiz o Lula! Eu fiz a campanha do Lula. Lá no coro estou eu lá gritando! [risos] Mas não dá pra fazer outras coisas. Você vai escolhendo. Eu não tenho essa dor. Se eu pensar muito talvez eu ache muito horrível, mas eu já curti fazer. Tenho uns amigos que fazem… Eu não gravo em muitos estúdios. Esse do Boticário foi uma exceção. É um estúdio grande. Foi a primeira vez que eu fiz coisa lá, mas, em geral, eu gravo em produtoras que tem uma relação pessoal comigo; não é uma opção, é o que virou. Mas ali eu vou visitar o meu amigo e se eu falo, “Olha, eu não posso gravar porque eu tenho um ensaio”, ninguém vai ficar puto, entendeu? Não tem grandes produtoras que topam ouvir que o cara não pode gravar aquele jingle porque tem um ensaio, entendeu? O cara tem urgência para entregar! Pra mim sempre foi claro que era uma coisa divertida, legal, facílima de fazer e prazerosa até, no sentido da gravação em si. Mas era um bico. Pra mim é um bico, porque é quase uma outra profissão. Em algumas coisas é uma outra profissão.
Tacioli — Você falou de poder se tornar uma cantora pop. Você construiu um público fiel…
Mônica Salmaso — Espero que sim. [risos]
Tacioli — Não, construiu. Você sente algum tipo de policiamento pelo que você pode vir a gravar? Entende? De decepcionar um público fiel. Ao falar que você poderia ser uma cantora pop, pode ser que quem vá ler a entrevista, fale, “Puta, cantora pop a Mônica? Não era isso o que eu esperava.”
Mônica Salmaso — Pode, pode acontecer isso, sim.
Tacioli — Mas esse policiamento existe?
Mônica Salmaso — Não, porque não dei nenhum salto assim. Por enquanto estou fazendo uma caminho natural. Nada brigou com nada. Hoje, também, eu não queria ser uma cantora pop, porque estou num caminho. Dentro de mim eu preciso sentir que eu posso fazer um caminho, que vai ser um caminho natural, também. É que aconteceu muito na carreira de vários cantores. Então o cara, “Virei crente! Virei romântico! Virei brega! Virei sertanejo!” pra tentar, de qualquer jeito… Não tem nada a ver… Esse não é o meu caminho. Não faz nem sentido pensar essas coisas. Acho que qualquer coisa não vai ser dolorida assim quanto esse tipo de… Eu senti, não me lembro direito quando, acho que foi até quando fiz o negócio da Globo, que existe um tipo, não sei nem que porcentagem é essa, dentro do público que tem sido e que está sendo criado, mas senti em alguns e-mails… Havia umas coisas assim do cara falar “Eu descobri uma cantora que ninguém conhece’” e que no momento em que essa música começa a ser mais conhecida, você está frustrando aquela coisa que o cara tem “Ah, a minha avó com a receita que ela tinha”, entendeu? Você está tirando uma espécie de poder que o cara tem…
Almeida — Pra falar, “Ah, conheci a Mônica no começo da carreira…”.
Mônica Salmaso — Pra falar “Eu conheço, vou indicar”. Eu acho super legal, mas é engraçado. Quando saquei isso de algumas pessoas, levei um susto. “Pô, que coisa engraçada!” Como se eu fosse de propriedade do cara. É um negócio esquisito.
Seabra — Tira o poder de informação, de garimpeiro do cara. Ele tinha certa informação somente pra ele e aí ela começa a chegar pra todos.
Mônica Salmaso — É, exatamente. “Estão pondo a mão no meu negócio’” né? Aí, falei, “Puta, estão pondo a mão no meu negócio!” [risos] Aí já ficou esquisito. Mas eu acho isso engraçado. Troca, né? Tem umas coisas que trocam. Eu acho que, em saltos muito diferentes, impostos até pela carreira, isso é mais visível. Se você é de um público muito específico e, de repente, pula pra uma outra realidade de público; porque pra mim são mundos paralelos… A música que está na novela, atinge as pessoas de uma maneira muito diferente da música que é feita num tipo de relação igual essa que eu faço. E eu saquei isso no Festival da Globo. Fui fazer um show numa espécie de CEAGESP que tem no ABC. Era assim: todos os dias durante, sei lá eu, 15 dias, levavam shows gratuitos pro povão que estava lá. E virou um projeto bacana, porque foi um monte de gente. Foi a Marlui Miranda, o Itamar Assumpção, eu. E eu estava exatamente entre a primeira eliminatória e a final da Globo. E como havia sido a primeira eliminatória, eles editaram, e fizeram um trechinho da música que era justamente a hora que falava o nome da música e botaram como propaganda do festival: “Festival de Música Brasileira” , e soltava eu cantando [canta] “Estrela da manhã…” , esse trecho [n.e. Música de Beto Furquim]. E direto porque eles estavam desesperados praquele troço pegar. Então fui cantar. E no show que eu estava fazendo nem tinha essa música ainda. Então eu estava fazendo o meu show, como eu fazia sempre, normal. Aí quando chegou no bis, “Estrela da manhã! Estrela da manhã!” Aí olhei pros meninos e várias pessoas gritando pra cantar “Estrela da manhã”. Eles haviam gravado e feito comigo, né? “Dá pra fazer, vocês lembram?” “Acho que dá.” “Tá bom.” Só que foi uma única vez que a música apareceu inteira na TV. Por isso eu me assustei. “Meu, os caras, se ouviram, ouviram uma única vez. Três minutos e nunca mais ouviram. Não tocou no rádio. De onde eles estão pedindo essa música?” Porque estou acostumada quando o cara falava “Saci”. É porque ele ouve o “Saci”, gosta, e o filho dele também gosta do Saci. A outra começou a namorar ouvindo “Dança pé”. São relações reais. O cara tem aquela música na vida dele. “Estrela da manhã” não estava na vida de ninguém. Não tinha como estar. Tudo bem, só que aquele pedacinho do spotera no meio da música. Daí comecei a cantar. E eu passei metade da música com as pessoas assim…. [risos] Quando falei “Estrela da manhã”, te juro por Deus… te juro… Michael Jackson… Eh! [risos] Fiquei apavorada! Fiquei apavorada! A minha vontade era de correr. Correr! Eu falei, meu, “Que é isso?! Pelo amor de Deus, o que é isso?! Que loucura é essa?!” Aí veio autógrafo. Naquela situação eu era pessoa da televisão. Eu não acho que só seja esse tipo de relação, mas eu acho que é boa parte da relação. Porque ela é de fora pra dentro, ela de novo não dá tempo do fulano criar aquele negócio de dentro pra fora. É de fora pra dentro: ele liga o rádio, toca aquela música; ele acende… toca aquela música; ele liga a TV, está o Tarcísio Meira, e daqui a pouco aquela música. Pronto, artista! Artista da televisão! Aquela pessoa que tenho certeza que eu poderia chegar nela como gente, naquela hora eu cheguei nela como moça da TV e é outro papo. Assim ó, é surreal! É o Big Brother, não do livro, 1984 [n.e. Título do escritor George Orwell, autor também de A revolução dos bichos]. É uma lobotomia. É um treco muito maluco. Não tem grito histérico no meu show. Não tem. Tem, “Linda! Bonita! Poderosa!”, mas são três. Não tem grito histérico. Por que histérico? De onde vem a histeria? A histeria ela é… Eu comprei o Anthology, dos Beatles. Saiu agora. São oito DVD’s. É sensacional, sensacional! Estou no terceiro DVD porque é uma longa caminhada até o último. É surreal! Fico olhando e falo, “Meu Deus!” Aí os caras chegaram em Nova York e eles já eram… A música já havia estourado em Nova Iorque. Então eles chegaram e estavam com medo de chegar no lugar, porque todo inglês que chegava em Nova York dançava, não era bem recebido, não estourava, e aí pegava mal na volta. Então eles estavam com medo. Aí eles estouraram em Nova York. Beleza. Quando eles chegaram em Nova York, o aeroporto estava tomado completamente por adolescentes histéricos. O piloto do avião avisa os caras no ar, “Meninos, a cidade inteira está no aeroporto esperando por vocês”. Só que são os Beatles. Mesmo assim eu acho que acabou rolando um… É esquisito pra caramba, né?
Tacioli — Mas se o Mariozinho Rocha [n.e. Diretor musical da Rede Globo] fala…?
Mônica Salmaso — Pra me botar na novela?
Tacioli — É.
Mônica Salmaso — Puta, acho que eu cederia. E eu acho que eu ia continuar me comportando desesperadamente pra criar dentro disso o humano com o qual eu concordo. E tem gente assim. Não acho que eu seja uma exceção. E nem sou, mesmo. Mas é assim, pra mim, para o meu fígado, isso é muito claro: eu quero que todo mundo ouça; eu quero que todo mundo possa ouvir, uma vez na vida, uma música que eu canto, entendeu? Mas a partir do momento que isso acontecer — em todas as possibilidades –, vou tentar, de todos os jeitos, quebrar essa relação. Essa relação não me pertence, entendeu? Ela é um problema, uma coisa geral, grande e, às vezes, da pessoa que tem em relação a você aquilo. No “Estrela da manhã” isso foi muito gritante porque era uma situação tão pequenininha. Não foi na novela. Foi uma vez. De repente fez assim, uma lente de aumento e sumiu de uma realidade que não é a minha e pra mim ficou claro que não era. Acho que eu gostaria muito de que todo mundo do Brasil, de Portugal e não sei mais onde que passa novela pudesse ouvir as músicas que eu canto. Mas eu ia ficar muito preocupada. Depois, de algum jeito, tentaria que a relação não seja tão esquisita que nem… Se bem que, confesso, acho isso impossível. Eu acho. Vocês não querem tomar água? Vamos? Ê, água! Pausa, então. [risos]
[Enquanto serve água aos entrevistadores]
Mônica Salmaso — Vocês perderam a fita da Maria Alcina?
Tacioli — Não, não perdemos. Com quem ficou a fita da Maria Alcina?
Mônica Salmaso — Porra, Maria Alcina?! Eu quero essa fita. Genial!
Tacioli — Não foi ao ar ainda.
Mônica Salmaso — E quando que vai?
Tacioli — Isso também só Deus sabe.
Mônica Salmaso — Figura, que figura!
Tacioli — Ela deu a entrevista “emplumada”.
Mônica Salmaso — “Montada” no caso, né? Genial!
Tacioli — Pescoço duro por três horas.
Mônica Salmaso — Meu, ela é louca, maravilhosa! Essa mulher é sensacional.
Tacioli — Vamos lá. Onde a gente havia parado?
Mônica Salmaso — Na Cássia Eller.
Tacioli — No show que você viu da Cássia Eller.
Mônica Salmaso — Já está gravando? Faz tempo que está gravando?! Ainda bem que eu só falei coisa boa da Maria Alcina… [risos]
Tacioli — Há alguma coisa ruim pra falar?
Mônica Salmaso — Não, não tem, sei lá, podia não ter sido a Maria Alcina. Você poderia ter falado de alguém que porventura…
Tacioli — Quem, por exemplo?
Mônica Salmaso — Não sei. Então… Cássia Eller. Eu vi um show da Cássia Eller do primeiro disco, aquele bom pra burro, inclusive, que ela fez no vão do MASP. Era aquele projeto do meio-dia, que era um tesão, era bem legal. E era um show de música, quase instrumental, havia um lance do som mesmo, entendeu, uma puta de uma banda boa, os arranjos eram campeões, ela cantava pra caramba. Estava tudo certo ali. Fodão! Não é, com certeza, a relação de som que eu vi quando ela fez o unplugged, entendeu? Neste ela virou completamente famosa da moçada. Tudo bem, tô falando de uma coisa que aconteceu dez anos entre uma coisa e outra, mas é assim… E nem estou julgando a Cássia Eller, que eu adoro o som. Estou dizendo somente que são mesmo relações diferentes.
Tacioli — Você não gosta do Unplugged?
Mônica Salmaso — Da Cássia Eller?
Tacioli — É.
Mônica Salmaso — Eu acho ele muito inferior ao som que estava no disco. Acho ele calminho. Já vi alguns unplugged. O único unplugged que eu vi e que eu fiquei chapada é o da Björk, em que ela falou, “É unplugged? Então tá bom. Quero os sinos do mosteiro de não-sei-onde, com o tablista de não-sei-o-que-lá, com um cravo que vamos fazer…” Ela faz um groove de uma música completamente pop pesada, voz e cravo. Unplugged? Unplugged, entendeu?! Aí vira uma viagem. Eu tenho, até. Eu comprei pra ouvir. Eu acho genial. Os [acústicos] brasileiros não vi todos. Parece que o do Lulu Santos é muito legal, mas eu não vi. Os que eu vi sinto que é um show, que é unplugged mais ou menos, que não tem um… E virou o grande lance pra vender disco agora, é a febre, gruda na moçada. “Oh, unplugged!” Acho que eles são poucos criativos. O som daquele show que eu vi da Cássia Eller era muito criativo, mas o show dela — ela e os dois meninos, só violão e voz –, era um puta show bonito. O disco é lindo! O que eu sinto é assim: tem uma pessoa que tem uma coisa pra dar e tem um tipo de relação que facilita aquela coisa. É isso assim o que eu sinto.
Tacioli — E qual foi a grande sacada da Cássia?
Mônica Salmaso — O que eu gosto dela? Do som que ela fazia?
Seabra — Não, você ia falar alguma, e daí se lembrou da Cássia.
Mônica Salmaso — Era isso, a gente estava falando da história do “Estrela da manhã” e dessas relações de expressão que você faz que, pela história que eu tive, e do que eu vejo e penso, parece-me que a realidade é mais ou menos essa. A pessoa demora pra conhecer o seu trabalho, mas quando ela conhece, de algum jeito que ela conheceu, aquilo lá não foi martelado ao ponto dela não ter outra saída a não ser conhecer. Ela ou alguém foi indicar pessoalmente, e deu de presente o disco que gosta, ou ela sem querer estava passando na frente de um treco e viu e gostou e teve vontade, de alguma maneira são mais individuais as formas. Tem mais histórias diferentes pra contar do que assisto a novela e vejo todo dia, e ligo o rádio e toca toda hora. Então a relação com a música é diferente, ela é mais pessoal. Esse cara, se ele gosta, ele tende a seguir o trabalho. Aquela relação histérica que eu vi lá do “Estrela da manhã” não tende a seguir nada, podia ser qualquer coisa. É aquilo que se eu continuasse na TV, continuaria sendo seguida por aquele público, se eu parasse, quem entrasse no lugar, seja o que for, pegaria essa relação e continuaria com ela, que na verdade não é uma relação. E ela bate de frente com aquele lance todo que é… Tem gente do outro lado, é muito complicado. Ao mesmo tempo, topei fazer e toparia fazer de novo porque como é que o cara do Acre vai ouvir se eu nunca fui lá, entendeu?! Isso é uma conta que você tem que fazer. Não acho fácil pensar isso. Eu ia ficar meio chateada se eu entendesse que o meu trabalho virou esse tipo de coisa. Eu não ia gostar e, ao mesmo tempo, eu queria que as pessoas ouvissem. E eu não tenho a quantidade de anos pra viver pra chegar na quantidade de gente que um festival de quatro minutos chegou. É artificial, é gozado. É uma coisa artificial. Isso não é humano, não tem um cara que consiga cobrir pessoalmente o que a televisão é capaz de levar.
Tacioli — Você falou que a final do Festival foi bastante…
Mônica Salmaso — Foi mais chata!
Tacioli — Foi chata. Eu não lembro quem foi que anunciou a campeã. Foi o Serginho Groisman?
Mônica Salmaso — Foi.
Tacioli — A campeã foi “Tudo bem, meu bem”.
Mônica Salmaso — Foi gozado.
Tacioli — Como foi?
Mônica Salmaso — Difícil de falar e acreditarem em você, mas eu juro por Deus, a coisa já estava tão fake ali, tão esquisita, esses negócios de fazer uma coisa e a regra mudar. Aí, daqui a pouco, muda novamente. Agora já não é mais assim, é mais assado. Você vê a equipe da organização muita preocupada. Era uma tensão! Era uma coisa histérica de produção… Era um negócio tão não-musical. Por isso que eu senti isso na final. Eu estava ali sentada com a Ná [n.e. A cantora Ná Ozzetti, que conquistou nesse festival o prêmio de melhor intérprete com a música “Show”], olhando o que estava acontecendo, esperando a hora de eu cantar. Aí eu ficava vendo os comentários das pessoas: a Maria Paula, a Renata Ceribeli e o próprio Serginho Groisman, que aliás estudou na Equipe também, e eles inseridos numa situação tão tensa, tão não-musical. Eu fiquei horas ali esperando pra cantar uma música. E os meus amigos, os meus músicos estavam do outro lado. Eu nem podia conversar com a Ná. Estava uma puta bagunça, muito barulho, um monte de gente em volta, tapete vermelho pra gente atravessar. Era tão do além que na hora em que a gente foi e cantou eu já estava meio assim… Na hora em que eu estava vendo a premiação, curti quando a Ná ganhou. Eu fiquei feliz dela ter ganhado. A gente deu um puta abraço e foi legal. Depois quando que veio “Tudo bem, meu bem” [n.e. Rock básico defendido pelo autor Ricardo Soares], a sensação que eu tive é que eu estava assistindo pela televisão. Era tão descolado! Não é o “Tudo bem, meu bem”… O “Tudo bem, meu bem” também, mas toda a situação era tão descolada que a gente ficava meio assim, “Hã?!” Aí eu peguei o meu casaco e falei, “Bom, vou aproveitar e sair rápido porque isso aqui vai ser um troço louco!” É o estacionamento… Um caos! “Então, eu vou indo.” Peguei minhas coisas e, quando eu saí, o público fez uma passeata em volta do Credicard Hall, “É marmelada! É marmelada!” E eu olhando, falei, “Nossa! Bem louco!” E fui embora! [risos] Então não dava, é muito diferente. A primeira vez, eu estava a fim. E eu fiquei assim… Havia aqueles palquinhos redondos, e como éramos os únicos daquela noite que tinha piano… Na final havia mais um além da gente. O piano não é um negócio que você põe e tira. A bolota (palco móvel) que tinha um piano era a nossa bolota, porque havia uns palquinhos que iam andando, e é claro que o próximo (a se apresentar) já ficava preparando numa próxima bolinha, que daí saía o outro e vinha o outro agilizando. Só uma tinha piano e somente a gente iria usar. Então, ficamos na bolinha do piano o tempo todo. E eu me lembro que fui a décima-primeira. Eu era no último bloco. E a gente ficou lá pertinho sem plugar, ensaiando. Eu estava a fim de cantar a música, eu estava curtindo, concentrada com os músicos, meus amigos adorados. Então chegou na hora. Cantei e voltei e adorei. Eu curti total. Mas na final isso não teve. Eu não estava com eles, estava tudo esquisito. O ar estava estranho, o jeito estava esquisito. Mas não deu nem pra ficar frustrado. Eu não estava esperando, mesmo, que aquela música pudesse ganhar. Eles estavam brigando com tantas coisas que ia ser meio estranho ela ganhar. Não combinava mesmo com… Veio um jornalista aqui em casa do SPTV e a primeira pergunta que ele fez, “E aí, como é pra você? Você não é nada e, de repente, vira uma estrela?”
Tacioli — Brito Júnior?
Mônica Salmaso — Não era! “Não é nada e de repente você virou uma estrela?” [risos] Ainda tinha… “Estrela, Estrela da manhã, estrela, um poeta! Um poeta!” [risos] Eu olhei pro cara e falei, “Meu, eu não sei como você vai receber essa notícia, mas há vida inteligente fora da Rede Globo. E vou contar outra coisa pra você. Espero que você também não se choque. Eu canto há dez anos. Há dez anos eu acordo de manhã e é isso o que eu faço. Dez anos! Então você não pode falar uma coisa dessa. E tem muita gente assim como eu. Muita! Não é assim. É uma realidade paralela, sabe? É um negócio muito esquisito.
Seabra — Mônica, você já está numa fase de escolha de repertório para o próximo trabalho?
Mônica Salmaso — Comecei agora, porque vou assinar um contrato com a Biscoito Fino. Então, a princípio, esse contrato é um contrato longo de três discos. E agora é que eu estou com vontade de pensar… No ano passado (2002) eu já estava a fim, já estava com coceirinhas de… Tá na hora, tô com vontade, já faz tempo. O Voadeira é de 99.
Seabra — Por que essa demora?
Mônica Salmaso — Por várias coisas. A primeira: quando eu gravei o Voadeira, que foi por conta do Prêmio, foi super bem na Eldorado. Eles curtiram e a gente teve uma relação de trabalho bem boa. Eu estava a fim de fazer outro disco lá também e eles também estavam. Começamos a namorar a possibilidade de fazer outro disco lá, mas aí a distribuidora Eldorado fechou. Então é assim: a gravadora Eldorado é uma coisa, a distribuidora Eldorado distribuía não só a Eldorado, mas selos pequenos como a Pau Brasil, que era onde estava o Trampolim, e o Afro-sambas, que estava licenciado pela Pau Brasil. Então os três discos que eu tinha, por sorte, naquele momento, estavam sendo distribuídos pela mesma distribuidora. E essa distribuidora fechou e os três discos evaporaram, sumiram e nem fabricavam mais, porque a gravadora estava negociando com outra distribuidora e, no momento em que esse acerto é feito, a Eldorado não pode mais vender esses discos que tem em estoque. Na verdade, aconteceu uma paralisia maior do que a minha, muito maior. A Pau Brasil, como selo, parou naquela hora. A WU foi atrás de outra distribuidora. A Ná, que já tinha até uma firma, a NÁ Records, que também era distribuída pela Eldorado; assim como a Palavra Cantada e um monte de gente ficaram parados esperando outros resolverem; uns tentaram fazer acordos, outros resolveram fazer distribuição independente, que é uma loucura. A Eldorado fez um contrato de distribuição com a Sony e nesse contrato algumas coisas dos selos, que estavam sendo distribuídos, permaneceram: o Voadeira, o Trampolim e o Afro-sambas, também. Então, esses três discos começaram a ser encontrados novamente por causa da nova distribuição, mas isso foi uma negociação de quase uma ano. E eu não estava procurando gravadora. Eu achava que provavelmente a gente ia mesmo conseguir fazer, eu e a Eldorado, porque estava gostoso, entendeu? Mas aí, pára tudo. Ao mesmo tempo, mesmo agora que a Sony está distribuindo, a Eldorado, eu nem sei porque essa negociação parou, mas a Pau Brasil e as outras pessoas ficaram reticentes em lançar coisa nova, porque é uma relação de trabalho que tem um contrato, então precisa ver se funciona. Dá medo de você pegar o seu novo lance, que é o momento de maior gás, porque a hora do lançamento é quando você consegue mais imprensa, mais tudo, e gastar esse gás numa relação em que você nem sabe se vai rolar direito, entendeu? Então teve em São Paulo, dentro desse lugar onde estou, uma paralisia geral. Isso é uma coisa. A outra coisa é que eu não tive um convite. Teve um interesse, já faz uns dois anos, da Biscoito Fino, faz um ano e meio, por aí. A gente começou a conversar; eles também estavam lotados de lançamentos, e é no Rio de Janeiro. Então eu tenho que ir pra lá e a gente ficou, “Agora eu não posso”, “E agora sou eu que não posso”, e assim por diante. E quando eu vi, passou um ano e eu já nem achava mais que a gente não ia fazer, mas aí voltou. A gente se falou, fui lá, fizemos uma reunião, “Vamos, vamos”, então está certo. Acho que vamos mesmo. Então agora dá pra pensar.
Seabra — Você não ficou ansiosa pra fazer esse disco logo?
Mônica Salmaso — Eu fiquei. Mas logo depois apareceu essa história do Ponto in comum [n.e. Projeto realizado no SESC Ipiranga, em que a cantora paulistana recebia convidados especiais para shows únicos]. A minha ansiedade era de não conseguir desaguar, sabe? Porque fica esquisito você fazer o mesmo lance por tanto tempo. Ao mesmo tempo, começaram umas viagens internacionais que eu não tinha e que são coisas que dão um interesse, renovam, é uma outra coisa, é diferente e gostoso. E pra cada uma delas há um trabalho prévio grande, até de escritório que, aliás, é a parte chata… e Consulado e blá, blá, blá… Mas isso era uma coisa que eu estava a fim. Isso me distraiu um pouco dessa ansiedade. E logo apareceu a história do Ponto in comum, que é um convite de fazer um projeto do jeito que eu quisesse, convidando quem eu quisesse… Como faço a produção, junto com o Homero… [n.e. O tarimbado produtor paulista Homero Ferreira] Sempre fiz, sei como é que se faz, mas eu nunca havia feito a produção de outras pessoas. Daí eu peguei o maior gosto por isso. O projeto termina nesse ano [n.e. O projeto encerrou em dezembro de 2003, com a apresentação da Mônica com a Banda Mantiqueira]. Eu preciso que ele acabe também. Ele pode até continuar com outras pessoas, a gente até criou assim. A gente resolveu fazer um troço que tem uma marca e que pode viver assim, chamar outra pessoa que ancore essa produção. O cara tem só que produzir, mas já existe. E eu acho que a gente até criou um público desde o primeiro, porque eu vi gente falando, “Ah, eu vim naquele e naquele outro, e adorei. Pra mim é uma maravilha porque é como se eu fizesse um disco a cada bimestre. É claro que é curto, mas o mergulho é igual.
Tacioli — Qual a graça do projeto, Mônica?
Mônica Salmaso — Cada um trouxe um treco. Na verdade é um projeto em que eu acabo bebendo mais que todo mundo. Isso é super claro, “Você quer, por favor, vir aqui cantar. Eu vou adorar.” E é misturado. Eu não tenho que cantar muito ou pouco, posso até não cantar nada. A relação não é essa. A coisa é eu me aproximar daquele trabalho que eu acho bonito e, às vezes, eu não tive oportunidade e aquela é uma oportunidade. São vários meios e são coisas legais de mostrar. Então a gente cria aquela noite especial pro negócio. E é uma coisa que deu muita vazão pra minha criatividade. Eu distraí completamente de fazer disco nesse ano passado [2002]. Do segundo bimestre, que foi quando começou, eu fiquei tranquila porque eu estava viva ali. Ao mesmo tempo, é uma coisa bem trabalhosa, porque muda o assunto da cabeça a cada dois meses. E paralelo a isso, eu continuo fazendo os meus shows. Então, no final do ano passado [2002] eu estava quase enlouquecida. Eu tinha sete pastas, daí vou nos “Afro-sambas” e daí tem o Ponto in comum e daí blá, blá, blá. Eu já estava doidinha. Então não dá. E eu tenho essa prioridade: agora é a hora. Vou fazer esse projeto até o final do ano (2003), aí ele vai parar e espero que ano que vem seja o ano de um outro disco, uma outra história.
Tacioli — O que pode estar nesse disco da Biscoito Fino? O que você imagina? Ouvi que em 2001 você estava namorando o samba?
Mônica Salmaso — É, foi…
Tacioli — Foi, não é mais?
Mônica Salmaso — Não, é, não sei… [risos]
Tacioli — Não sei? [risos]
Mônica Salmaso — Eu não sei o que é que vai ser. Esse é um pepino. Agora está fresquinho, ainda. Isso tudo clareia.
Monteiro — Isso foi sempre assim pra você?
Mônica Salmaso — Ô! É sempre assim. De show é sempre assim; de disco foi assim nas duas vezes. Na primeira é aquele negócio do projeto, a segunda, que foi o Trampolim, foi a primeira vez em que escolhi pra pensar que ia virar disco. Essa (música) com aquela e com aquela outra. Na verdade eu não fiz isso sozinha e nem faria; era o primeirão mesmo, então foi um processo meio cegueta total. O Rodolfo Stroeter, que é o dono da Pau Brasil e produziu esse disco, falou “Traga umas coisas que você gosta, sem pensar, somente traga.” Aí eu selecionei 52 músicas em fitas cassetes, mas fui gravando coisas que eu achava gostoso. Algumas que cantei na noite e que eu curtia, outras que eu nunca havia cantado mas que eu achava bonitas. Fria, sem pensar em gosto, porque era um produtor que não conhecia nada da pessoa que ele convidou pra gravar e precisava conhecer. Aí eu levei, e a gente ouviu. Acho que a gente se encontrou umas cinco vezes somente pra ouvir juntos e conversar. Aí ele apontou, ouvindo o material, “Olha, tem de tudo.” E tinha mesmo. “É um assunto que acontece várias vezes no Brasil, parece que você tem essa… E de várias maneiras diferentes, você tem uma cantiga de roda, mas aí tem uma coisa que é folclórica ou se parece com, e aí tem um negócio modernoso… Parece que você gosta de falar disso.” “Eu adoro falar disso” “Vamos falar disso?” “Vamos!” Então a gente topou, conversando a partir do que eu levei, que o universo do Trampolim ia ser esse. Aí tudo o que não tinha nada a ver com isso caiu. E eu ainda fui atrás de mais… Tem o Paulo Dias, que é um pesquisador que tem a ver com a USP e com a UNICAMP, e há muitos anos recolhe material folclórico.
Tacioli — Do Cachuera?
Mônica Salmaso — Exatamente. Nem havia o Cachuera ainda. Eles estavam na casinha deles, em Pinheiros. Ele e o Marcelo estavam começando a catalogar aquele material, a digitalizar e transcrever. Eram só milhões de fitinhas, fitinhas e fitinhas. Aí eu cheguei lá e falei, “Olha, vou fazer um disco assim e assado. A gente tem esse olhar. Não é um disco acadêmico.” Ele já havia tocado percussão comigo, num daqueles grupos lá do começo. Aí ele falou, “Ó, tem umas coisas que eu acho que você vai gostar.” E me mostrou Mestra Virgínia, de quem gravei dois trechos que ela canta; mostrou um disco que eu não conhecia que é o Canto dos escravos, que foi da gravadora Eldorado, com a Clementina, o Geraldo [Filme]…
Tacioli — Vão relançar agora. [n.e. Na verdade, foi lançado em CD em outubro de 2003]
Mônica Salmaso — Vão?! Eu falei tanto pra eles. A EMI fez uma coleção da Clementina mas não tem o direito desse disco. E a Petrobras, a EMI, sei lá, não lançaram essa coleção comercialmente, só deram de brinde pros amigos da diretoria…
Tacioli — Você não tem?
Mônica Salmaso — Eu tenho porque eu dei muita sorte! [risos] Cara, se eu te contar?! Fiquei mal. Acompanhei o Pedro Alexandre Sanches, da Folha, que falou, “Vai ter!” E aí, eu falei, “Puta! Vai Ter? Vai ter? Vai ter? Já tem? Já tem? E não tem.” Depois apareceu outra, “Não vai mais! É mentira. Não vai ter, a EMI desencanou, acha que não é um bom produto, que não vai vender. Então ficou só de brinde para a Petrobras”. Aí eu fiquei com zero, mal, mal mesmo, e pensei, “Pô, como é que faz? Eu não conheço ninguém da Petrobras, puta merda! Aí um dia um cara que é um conhecido meu de público de show, e eu sabia que ele fazia pesquisas — tem uma história de pesquisa com a Cristina Buarque — mandou um e-mail comentando. Ele se chama Heron [n.e. O produtor e editor Heron Coelho]. Eu conhecia o Heron dessas coisas, de dentro de fazer música, mas eu nem sabia direito o que ele fazia. Ele me contou uma história da Cristina, um negócio que eles estavam fazendo que eu não sei o que é, e até hoje eu não sei, mas eu sabia que ele tinha um interesse de pesquisa em música popular. Aí ele me mandou um e-mail, falando, “Você tem a caixa da Clementina, né?” Eu falei, “Você está falando daquela da caixa da EMI que eu não tenho e nunca terei, porque a EMI, porque o mercado, porque os discos, porque a indústria fonográfica, porque a puta que o pariu… Eu não vou ter nunca esse negócio!” Ele falou, “Pô, eu fiz o projeto gráfico desse negócio e eu tenho um. Um!” “Onde está?” “Está aqui.” “Então você segura, fica quieto, não se mexe, não respira, põe a mão e fica segurando. Onde é?” Peguei o carro e fui lá correndo. Imediatamente. Deixei a luz acesa. “Meu é já! Passar um vento e jogar aquela caixa fora eu nunca mais… Eu preciso ir lá já!” Aí fui. Puta, agradeço o Heron todo dia que eu encontro com ele. “Pelo amor de Deus, pelo amor de Deus, muito obrigado, você arrasou.” Era a última caixa que ele tinha. “Pô, eu tinha certeza que eu tinha te mandado. Esqueci, pô, imagina! Até foram pra umas pessoas que eu acho que nem iam curtir.” Eu assim… surreal! Aí falei pro pessoal da Eldorado, “Vocês têm que lançar esse disco porque quem ficou como eu, apavorado em não ter, ainda tem um”. Na verdade são dois: um do MIS, que nunca virou disco, eu acho, e o Canto dos escravos. São as duas únicas oportunidades de se ter a Clementina de Jesus fora da EMI. Tesão que eles vão relançar.
Tacioli — Tem a Tia Doca.
Mônica Salmaso — Têm! Linda! Copiei pra ela. Ela não tinha. Eu conheci a Tia Doca e falei, “A Tia Doca do Canto dos escravos.” Aí ela riu. “Você né?” Ela falou, “É, minha filha, mas isso faz tanto tempo. Você sabe que eu nem tenho mais esse disco. Emprestei, alguém levou…” Aí eu copiei o CD pra ela, e levei naquele dia do Ponto in comum. Figuraça! Linda, linda! A gente foi, no dia em que eles vieram, eu estava com muito cuidado com a Tia Doca, com a Surica e com o Seu Jair, né? Por quê? Por todos os motivos. E eles tinham me dado os nomes e eu resolvi que eu ia buscá-los no aeroporto, junto com a van e levá-los para o hotel. Fazer o check-in, tudo. Eu já tinha ido pro Rio, ensaiar com eles e voltei uma noite antes.
Tacioli — Produção!
Mônica Salmaso — Doar, na verdade. Eu fiquei assim… mas feliz! Eu estava a fim de cuidar mesmo. É pra produzir? Então vamos produzir. Tudo! Como é que é? O pãozinho do negócio. Está faltando o pãozinho do negócio! Está bom. Aí cheguei com eles no hotel e eu estava com a lista dos nomes. Mas Tia Doca não se chama Doca, chama-se Jilçaria [n.e. Jilçaria Cruz Costa está na Velha Guarda da Portela desde os anos 1970]. A Surica eu nem sei… E eu cheguei no balcão (do hotel), a tia Doca me atravessou e chegou pra mocinha, falando assim, “Pode olhar aí, minha filha, Tia Doca da Portela.” [risos] Pra achar o quarto dela. “Não, Tia Doca, não é esse nome. Está no nome mesmo.” “Ah, tá bom, minha filha, tá bom…” [risos] “Olha aí. mocinha, por favor, meu quarto, Tia Doca da Portela!” Linda!
Tacioli — Mas você estava falando do disco novo.
Mônica Salmaso — Esqueci! Então, eu não sei, eu passei… O problema é esse momento em que estou. Ele se resolve, não é nenhum problema horrível, mas é um problema, é engraçado. É que eu fiquei esses dois anos (2002 e 2003) em mundos, em vários mundos, muito aberto, né? “Puta, o Adoniran é o máximo! Puta, o Dorival Caymmi é demais. Ai, meu Deus, a Portela, o samba! Sensacional! O choro!” Em cada um eu embarquei e saí completamente dessa idéia de centralizar e pensar. E agora eu tenho que me puxar de volta pra ver que cara que ele tem. Eu sinto algumas coisas. No meio desse caminho eu criei alguns trabalhos, meus mesmo. Eu fiquei fazendo um duo com o Benjamim. A gente viajou com esse duo de voz e piano. Eu fiz um duo novo com o André Mehmari que também é outro trabalho. Fiz um duo com Toninho Ferragutti, voz e acordeão, que é outro trabalho. Então, abriu tudo e eu agora preciso saber que vontade que eu tenho… Não é nem de escolher, porque eu tenho vontade de fazer tudo, mas vou deixando aberto e olhando até o momento em que eu entender qual é a opção que acho legal de fazer agora, entendeu? Fazer e ter uma gravadora no Rio é divertido. Estou com vontade de… Alguma coisa já me diz que dá vontade de que esse disco tenha uma participação de músicos do Rio também, entendeu? Mas é muito cedo. Eu realmente não sei pra onde vai. Eu acho que, com certeza, alguma coisa vai sair dessa bagunça que eu estou tendo, mas vai indo…
Almeida — Mônica, você está falando de bagunça e não saber, mas você parece calma.
Mônica Salmaso — É porque não é ruim, entendeu? Há duas bagunças: a bagunça ruim é aquela assim em que eu quero tudo e não tenho nada. Eu quero fazer tanta coisa! Estou cheia de negócio de energia criativa acumulada, eu quero fazer e não sei pra onde. Essa é uma puta bagunça da ansiedade. Essa é horrível! A que eu estou é o oposto dessa. Estou cheia de coisa acontecendo. É bagunça na hora de optar e ela é delicada também. Mas eu vou reclamar que eu fiquei uma semana junto com a Tia Doca aprendendo 60 sambas? Que depois eu fiquei a outra semana com o pessoal da Acari ouvindo aquela coleção Os princípios do choro, que é uma coisa escandalosa? Não dá, entendeu? Sei lá. Não sei.
Seabra — Mônica, você falou que o público grita “Linda! Escandalosa!” [risos] Por outro lado, quando você pega uma crítica toda adjetivada, superlativa, qual é a sua reação? O que você espera do crítico?
Mônica Salmaso — Então, são duas coisas. Primeiro que todo mundo gosta de elogios, claro. Você fala, “Ó, legal!”. Às vezes é super demais, e quando é super demais desvaloriza o crítico e não a crítica somente. O crítico em relação a como ele faz em geral. Isso é um pouco esquisito. Dá um pouco de medo quando é uma coisa muito… que você olha e fala “Pô, que preguiça! Por que o cara não pensou e viu qual era o adjetivo que ele queria botar?” É um “geralzão”, tão geral que acaba não sendo nada. Às vezes isso acontece. Tem muito poucos críticos, mas muito poucos, e eu não tive a oportunidade de ser criticada por muitos. De todas as pessoas que escreveram sobre o que eu fiz, muito poucas vezes eu aprendi com a crítica, entendeu? Muitas vezes eu li. Não teve nenhuma escrachando, mas teve uma, por exemplo, do Rio, que não era uma crítica, era uma seção de comentários, e havia um que dizia que eu era meio pra boi dormir, meio desanimado o som ou qualquer coisa assim. Mas assim, tiveram algumas que pra mim são históricas, de ouvir e falar “Putz! Vou ter que ler isso aqui com calma pra aprender.” Tem uma que o J. J. de Moraes fez do Afro-sambas… Ele foi lá, ouviu o primeiro disco do Baden e do Vinicius, daí ele ouviu esse, entende de música e é apaixonado por música, se dedica à música de várias maneiras: dando aula, escrevendo resenha. Então é uma outra realidade. É um cara que escreve sobre o que quer. Então ali ele fez um trabalho. Você precisava parar pra ler mesmo aquela crítica. E é diferente a maneira: você pega o papel e o papel é pesado, sabe? O outro papel você olha e fala assim, “Ah, legal, gostaram.” Outro papel você fala, “Pô, é pesado!” E tem o Arthur Nestrovski, que escreve na Folha, e que também tem o mesmo perfil autoral como crítico e paixão por música. Sempre caímos naquele velho e básico fator humano de que é preciso gostar de fazer; e pra fazer bem é preciso gostar. Quando ele escreve dá vontade de ouvir o que ele está falando, entendeu? Senão existe a primeira preocupação, a mais superficial, “foi bem aceita ou não foi”. Porque é uma divulgação também. Então isso é assim. Eu fico um pouco frustrada quando vejo as aspas que não rolaram — que tem –, que não são o que eu falei e daí você fica com medo e, ao mesmo tempo, eu sei, “Pô, eu leio o jornal, eu acredito nas aspas que eu leio. Eu acredito. E eu fico mal assim.” Eu olho e falo, “Meu Deus! O cara falou isso?!”
Tacioli — Mas o que você busca ao ler uma crítica sobre um de seus trabalhos?
Mônica Salmaso — Eu fico curiosa. Bem básico assim. Curiosidade, mesmo. Ué! É um retorno, né?
Tacioli — Já houve alguma crítica que fez você repensar um pouco no caminho de um trabalho?
Mônica Salmaso — Não.
Tacioli — Não. As críticas não têm essa consistência?
Mônica Salmaso — Não. Já houve crítica que, como essas duas, mostravam coisas que eu não tinha visto a respeito, entendeu? Elas partiam do princípio daquilo que eu tinha feito, quando falavam de mim. Quando falavam das outras coisas também. Não sei. Eu imagino uma crítica que mude mesmo no seu jeito, ela deve ser uma crítica contrária, uma coisa negativa. Como elas não foram…
Seabra — Mas é uma satisfação por estabelecer um diálogo em outro nível, diferente daquele que você estabelece com o ouvinte. Existe essa satisfação?
Mônica Salmaso — Aí você pegou num ponto bom. Quando você diz que aquela crítica é a do papel leve, ela não é uma relação. Ela é só uma divulgação. Bom, ali ele vai fazer as mesmas perguntas, vou responder e ele vai escrever o que der na telha e seja o que Deus quiser.
Seabra — Mal comparando é o grito histérico da plateia?
Mônica Salmaso — Não, não é. Não porque ali… não sei. Não consigo comparar. Mas é uma coisa meio titia assim, sabe? É nesse sentido de que está dentro da fábrica, entendeu? É um mimeógrafo lá rodando. Não é exatamente uma coisa autoral. A relação se estabelece quando é um jornalista autoral que está ali fazendo uma coisa, que ele não precisa ser famoso, só precisa estar ali, que ele dê uma lida, que ele pensou outras coisas. Ele se preparou ou já tem aquela bagagem que é do interesse dele. Ele já informado sobre aquilo ou foi se informar, entendeu? E, na maioria das vezes, o que acontece não é assim. É um cara que cobre; ele tem que fazer naquele dias três quatro resenhas. Então vai ter que cabular. Vai ficando mais ou menos. Então eu sinto… Isso aparece na entrevista e muitas vezes você lê o release na entrevista. A abertura da entrevista foi você quem deu, resumida. Então, tudo bem, divulga, né? Eu acho que eu ficaria muito puta de ver uma crítica negativa vagabunda. Aí sim. Porque aí você fala, “Pô, você faz com todo capricho e nego detona, mal detonando. Pelo menos detone direito.” A positiva, meia boca, pelo menos está divulgando o que você fez com um dez, entendeu? Agora, quando você vê que tem uma coisa vaidosa do cara, detonando, “Não ouvi, não gostei!” Ah, vá cagar. Você recebe pra falar isso? Salário? Décimo-terceiro? Fundo de garantia pra falar isso? Aí não dá, né?! Não dá.
Tacioli — Mas você acha que pode ser mais ousada em seus trabalhos?
Mônica Salmaso — Acho. Mas eu nunca tive esse ímpeto natural. Eu acho que eu sou… Um passinho, outro passinho, outro passinho… Eu sou assim. Então, dentro da linguagem da música, do Afro-sambas até o Voadeira, existem umas coisas que às vezes nem são perceptíveis, mas que pra mim são. De tatear uma outra coisa. Quando entrei na Orquestra Popular de Câmara, pra mim foi um negócio muito grande, porque não gosto de improvisar. Não sei improvisar. Então improvisar pra mim é pegar um cidadão e jogá-lo de asa delta sem nunca ter feito isso. E ele vai dar de cara na pedra da Gávea… Então, pra mim era isso. Eu tenho um pouco de receio. Não é receio, não. Eu tenho resistência estética ao improviso melódico que não seja dentro de uma cultura do jazz ou de alguma outra coisa… Em português, o tipo de improviso vocal à jazz é muito feio. Eu não gosto. Não é isso que eu quero aprender, entendeu? E de repente eu estava num grupo super incrível de um monte gente que toca lindamente, e improvisa, e tudo mais e… sem palavras! Porque eu vocalizo a maior parte do tempo lá. E, além disso, a função da voz é a função de um instrumento melódico. Só que pra um cantor é um negócio diferente. De tudo aquilo, do cantor é a última coisa que se espera, arquetipicamente, é que ele esteja igualado aos outros instrumentos a ponto dele ser, às vezes, o acompanhante do outro instrumento. Nem existe mais, na realidade, essa hierarquia, mas dá pra falar isso: se tem alguém improvisando e eu estou fazendo uma cama com a voz com outra pessoa, estou acompanhando aquele cara. Então, pra mim foi muito ousado entrar na Orquestra. E dentro da Orquestra também, eu sinto que eu fui… assim…tateando… Hoje, sinto que eu sou mais livre de som dentro da Orquestra do que eu era. No começo eu fazia, “Ah, deixa eu experimentar [vocaliza] ‘Dãrãrã’” Aí eu perguntava pro Benja, “Você acha que está… Você acha que eu fui muito… Você acha que eu não-sei-o-quê?” Eu estava super tateando. Aí gostei e comecei a ouvir outras coisas de sons de pessoas que eu curto quando cantam e que tem essa história de vocalismo e tal. E daí deu vontade de “Vou experimentar isso aqui. Mas é meio devagarzinho.” Eu não me jogo. Eu acho que eu sou muito, muito responsável nisso. Eu não sei se é um jeito de controlar. Quero saber muito onde estou pisando, sempre, até demais.
Tacioli — Você acha que faz parte do papel do artista, se é que há um papel, surpreender o seu próprio público?
Mônica Salmaso — Não, isso é uma história engraçada, né? É um clássico da… não sei.
Tacioli — O que você espera de um artista que você gosta?
Mônica Salmaso — Eu não sei, porque às vezes… Entendi… Eu espero… Isso é bom, hein?
Tacioli — Não sei. [risos]
Mônica Salmaso — Não, isso aí é uma boa… É um… [pensativa] Eu primeiro espero achar bonito. Pode ser… Eu não ouço… É… Eu espero achar bonito, ponto! Primeiro. Aí se aquele cara, além de bonito, é inovador, eu acho ele curioso e então, legal. Se aquele cara, além de bonito, é das antigas, eu acho legal, eu passeio e viajo no tempo. Se aquele cara, além de bonito, é tecnicamente super incrível, eu acho assim, quero dizer, primeiro ele é expressivo, depois ele é outras coisas. Então, às vezes, eu acho esse negócio… pensar… é absolutamente impossível você trabalhar pensando que você tem que ser original. E nem sei o que é que tem mais pra ser original. Já… Já… Já deu a volta. Você vê o cult, é uma coisa, às vezes, que não é tão original, mas ela deu a volta e virou cult, entendeu? Não existe esse tipo de classificação. É uma simplificação: deve ser original; deve ser tradicional; deve ser moderno… Não dá pra classificar isso, nunca! São expressões individuais. Quanto mais livre o cara está pra fazer o que ele estiver a fim, o que quer que seja, a coisa mais folclórica, básica, tradicional, ou a música contemporânea mais absurda, ou qualquer coisa, é só assim que ele vai se expressar. Se eu tentar ser a Björk, eu nunca vou ser a Björk. E eu acho a Björk sensacional, porque ela é a Björk. Não dá… e assim que é bom. Hoje eu vi uma entrevista na Folha do ator que faz o Zé Bonitinho, sabe? Pô, ele é sensacional. E aí ele estava falando isso. São qualidades humanas de expressão. Cada um tem uma história. Cada um funciona de um jeito. Cada um fez escolhas de uma maneira. O cara às vezes estoura… Eu acho que o bonito da carreira artística é a história dela, e com tudo o que ela é: aí casou com o mercado naquela hora, ou então entrou no mercado e ficou conhecido, e aí desapareceu, mas aí criou um outro jeito de… Eu fico feliz quando vejo esses caras contando a história deles. Esse cara aí (o ator do Zé Bonitinho), por exemplo, fez Direito. Direito? Eu acho que é Direito. E ele continuou como advogado durante o tempo todo, porque pessoalmente não achava confortável ser ator e viver com medo dos altos e baixos. Então ele, aquela pessoa — ser humano — inventou uma maneira em que ele faz um e outro trabalho. Um ele adora um, como adora o outro. Esse aqui ele faz amanhã e, provavelmente, o outro ele faça… Essa é a escolha que ele fez. Mas eu também adoro ouvir outra história de pessoas que falam, “Ah, sou uma porra louca! Gastei todo o dinheiro que eu tinha e…” O produto artístico também é assim. É um erro meio simplificado demais esperar que a arte tenha que provocar. Tem arte que é pra provocar, tem arte que é pra entreter, tem arte que é pra tocar, emocionar, tem arte que é pra distrair, tem tudo isso. E tem que ser assim.
Seabra — E a sua (arte) é pra quê?
Mônica Salmaso — Acho que a minha é pra… Pra quê é a minha? [pensativa] Pra escutar! [ri] A minha é pra escutar. Não é uma música pra ouvir no supermercado, no elevador — pode ouvir! — mas assim, a pretensão, no melhor sentido dela, é que encontre um ser humano do outro lado e que crie, com ele, uma coisinha. Não é de dançar, não é! De dançar não é. É de ouvir mesmo, no sentido mais humano da palavra. E é de ver. Eu gosto de show. Eu gosto de fazer. Gosto desse negócio… Só não gosto da tensão que precede, mas do durante eu acho legal, porque tem gente também dos dois lados.
Tacioli — Você gravaria um disco ao vivo?
Mônica Salmaso — Gravaria. Mas desse jeito aí, que tem sido feito disco ao vivo, é uma outra coisa, né? No Voadeira tem algumas faixas que foram gravadas ao vivo, dentro do estúdio. Tem um lado do ao vivo que é tocar junto simultaneamente que é muito legal. Cada vez mais eu acho isso mais legal. Às vezes não dá porque a mesma pessoa vai fazer em mais canais, então, não dá. Mas mesmo assim dá pra fazer a estrutura. Eu adoro. Ao vivo, ao vivo, no teatro com público, tem outro “quentinho”, que além da comunicação interna, tem a comunicação com o público. Mas eu tenho um pouco de receio da qualidade do som nessa situação. Precisava achar um jeito em que o público não é prejudicado e nem o… Porque também já vi gravações, já até estive participando, assistindo gravações ao vivo em que o cara decide que vai fazer um disco ao vivo, com público e tudo, mas a prioridade é a qualidade do áudio. Então ele fala, “Pô, essa música não ficou boa, vou fazer de novo”, “Ah! Não-sei-o-quê.” É uma situação… É divertido também porque o público participa. Ele está assistindo a um tipo de making of. É gostoso, mas também já não é o show ao vivo, entendeu? E o próprio show ao vivo mesmo ele, às vezes, pode ter falhas que eu não sei se são legais o suficiente pro “quentinho” ser melhor do que a qualidade do som.
Seabra — É a perfeição de 95 ainda…
Mônica Salmaso — Atuando?
Almeida — Atuando… Mas eu ia perguntar se você não está num processo de aceitar essa imperfeição?
Mônica Salmaso — Pode ser, não sei. Eu acho que de hoje, hoje, na minha evolução de todos esses anos, o que eu consegui fazer que é bom hoje, o que eu acho ideal e gostoso é gravar ao vivo no estúdio. É o que eu gosto mais. Já tem mais risco do que o primeiro, mas não tem edição, não fica aquele negócio. Mas ainda tem uma situação de qualidade que eu gosto mais do que o do show.
Monteiro — Seus discos lançados lá fora já sofreram alguma mudança?
Mônica Salmaso — São os mesmos.
Monteiro — São os mesmos que saíram no Brasil?
Mônica Salmaso — São.
Monteiro — Você já fez show lá?
Mônica Salmaso — Eu fiz e vou agora, de novo. Eu fiz. Eu tinha ido, já, fazer umas coisinhas muito locais. Há muitos festivais fora do Brasil. Na Europa e nos Estados Unidos têm muito isso. São sociedades que promovem, como o Cultura Artística faz aqui, mas não é necessariamente um teatro. Também é. Mas, às vezes, é um grupo de pessoas interessado em determinada coisa, criam uma organização ali e pagam uma mensalidade, viram sócios daquilo, e esse dinheiro de caixa leva pessoas pra lá. Isso tem de várias coisas. Com o Bellinati, por causa do Afro-sambas, a gente fez algumas dessas coisas. Fizemos na Venezuela, nos Estados Unidos. A gente deu essas passeadas. Fui a uma sociedade dessas na Itália, mas aí era pra fazer outro show de trio. Depois fiz de novo o Afro-sambas na Áustria, na Suíça, e acho que acabou. Mas aí, há uns dois anos, conheci um manager nos Estados Unidos, um cara que o que ele faz é vender shows. Ele não é um empresário, é um agente. Ele trabalha com vários artistas e vende shows. Isso é uma coisa que aqui não tem muito e faz falta, porque ele cria relações artísticas com vários lugares. Então ele já tem um teatro não sei onde que já levou X artista. Quanto melhor a coisa que ele levar, mais confiança ele cria e daí, na próxima vez, a pessoa nem quer saber se ela conhece ou não, mas ela topa. São relações de trabalho. E por causa dele fui em janeiro do ano passado (2002) pra Nova York fazer um show dentro de um lugar que se chama World Music Institute. É uma organização que leva pessoas de fora dos EUA pra lá pra se apresentar. Mas eles dão um gás na divulgação. Então quando fui fazer esse show, foi lá assistir um jornalista do New York Times, um cara meio importante, que é o Jon Pareles. Ele foi ver. E ele curtiu. No dia seguinte, ou dois dias depois, tinha uma matéria. Ele botou uma foto, botou uma matéria elogiando o show. O meu americano lá, o Bill, ficou pulando, feliz da vida, “Muito mais fácil vender o show, muito mais fácil vender o show agora, muito mais fácil!”, porque o cara tem uma assinatura e tal. Isso foi em janeiro. E realmente, gerou uma história pra eu fazer o Hollywood Bowl em setembro e outubro, que é um troço gigante na Califórnia, um teatro aberto.
Dafne — O Hollywood Bowl? Tem o filme…
Mônica Salmaso — O Hollywood Bowl! O Monte Python e o Hollywood Bowl?
Dafne — Exatamente. [n.e. Referência ao filme Ao vivo no Hollywood Bowl]
Mônica Salmaso — O Hollywood Bowl. É um troço!
Dafne — O lugar é grande.
Mônica Salmaso — É! E tem uma noite brasileira, lá. E aí o cara que faz a produção, que conhece o Bill, foi ver um mercado cultural na Bahia em que fui me apresentar também. E aí ele topou e me convidou pra abrir essa noite brasileira. Havia a Leni Andrade, depois o Ivan Lins, o Dori (Caymmi), a Leila Pinheiro e não sei mais quem… E eu ia abrir, porque eles têm esse troço de shows direto lá; quem não é conhecido, abre um show de quem é, o que é super legal. Então, em volta disso, com aquele papelzinho do New York Times na mão, o Bill conseguiu vender uma turnê. E aí foi pesado. A gente fez as duas costas. Foi uma porrada. Viagem, pula, acorda, é trash, é uma delícia, mas você fica doidão.
Tacioli — E qual é o público? Brasileiros?
Mônica Salmaso — Puta, tem de tudo. A primeira vez em que fui fazer o Afro-sambas, fomos para Connecut. Cheguei lá, era a primeira vez que eu cantava pra um público que não falava português. E eu cantando e pensando, “Puxa, como será que essas pessoas estão recebendo essa música?” Quando acabou, eles vinham falar com a gente, “Nossa quanto tempo! Adoro Vinicius!” Eu olhei e puuuuta!!! [risos] Aí falei, “Então é brasileiro!” Aí fomos pra Minessota. Não tinha um! Um! Tinha um cara que era apaixonado pelo Chico Buarque e aprendeu português. Só! Aí já estava relax, falando boa noite! Quando acabou o show, ninguém falava português! E nessa turnê, de setembro e outubro, foi assim… A gente fez o show dentro de uma programação de um museu, super cabeça, em Cleveland; um pub super normal em Nova York; o Hollywood Bowl, na Califórnia, que era noite brasileira — imagino que tivesse muito mais brasileiro do qualquer outra coisa, mas tinha quinze mil pessoas. Daí um lugar muito pequenininho, fechadinho, em Seattle; gente pequena, gente grande, músico, não músico, brasileiro, não brasileiro… Na verdade, ele vai vendendo, né? E você vai fazendo. E do show no Hollywood Bowl saiu uma crítica no Los Angeles Times. Aí, pronto! O Bill estava muito feliz. É bom.
Dafne — Quais foram as melhores experiências desses shows no exterior?
Mônica Salmaso — Puta, sabe o que é legal Foi a primeira vez em que eu me senti on the road, sabe aquele troço? É todo dia. Sempre faço “vou ali pra Belo Horizonte, volto pra casa”; daí “vou pra Curitiba, volto pra casa”; daí “vou pra não-sei-onde, volto pra casa”. Mesmo pra fora do pais, eu ia, fazia um show e voltava. De repente fiquei todo o dia assim: acordava às cinco da manhã, pegava o avião, ia pro lugar, almoçava, ia pro hotel, jogava as coisas lá, blá, blá, blá, passava o som, cantava, jantava, voltava pro hotel. Acordava às cinco da manhã, pegava o avião, blá, blá, blá… Tem hora que você não sabe em que cidade mais você está. Isso é divertido, porque vai dando um barato. [risos] No primeiro show eu estava nervosa. No último, parece que você faz isso como fritar ovo. É muito mais fácil. Você já não tem medo da situação, aquilo vira um ritmo de trabalho, com o cansaço, mas também dá uma segurança. É legal!
Almeida — É pela experiência de vida, pela aventura?
Mônica Salmaso — Também! Puta, tinha o negócio da língua. Meu inglês não era suficiente. Eu achava que ele era muito insuficiente pra eu conseguir falar alguma coisa no palco…
Almeida — Mas todo mundo pensa isso.
Mônica Salmaso — Eu imagino. Aí o Bill de cara falou, “Ó, fica feliz porque é bonito; quanto mais erros você fizer, mais charmoso fica. Então vai relax, vai tranqüila, erre porque seus erros serão aceitos!” [risos] “Ah, tá bom!” Mas o primeiro show foi justo esse em que o Jon Pareles estava. O primeiro eu estava muuuito nervosa, muito. Levei um papel pra falar, resolvi que eu ia ler, porque eu não ia conseguir, na hora eu ia travar. Pedi licença e desculpa, avisei de cara, “Ó, meu inglês é ruim. Vou fazer o melhor que der, mas estou bem feliz e seja o que Deus quiser!” No último, a gente estava em um duo de novo. Eu e o Benjamin. A gente estava em Vancouver. A gente saiu de Seattle, pegou o carro e foi pra Vancouver. A gente estava bêbado de cansado. O que a gente falou de merda no show, em inglês, piadas. Aí uma hora fui falar uma coisa e não lembrava a palavra… Tentei achar a palavra no meio do palco, “Field, felt, foll, fell”. Falei, “Olha, esse é o último show, a gente está meio feliz. Foi muito bom, deu tudo certo!” E foi mesmo, foi muito legal. A gente estava mesmo com um puta tesão de fazer direito. Eu estava como uma criança.
Tacioli — Mas havia um lance meio pop star?
Mônica Salmaso — Tinha, né!? [risos]
Tacioli — Não de estrutura, mas de…
Mônica Salmaso — De estrutura, nenhuma.
Tacioli — Não de estrutura, mas não voltar pra casa, ficar um mês na estrada…
Mônica Salmaso — Tem uma sensação, tem um negócio.
Tacioli — Tem aquelas bandas que ficam dois meses na estrada, voltam pra casa…
Mônica Salmaso — Oh, aí eu já não sei se eu queria dois meses…
Tacioli — Um mês, que seja…
Mônica Salmaso — Não, não. Mas é sério. O Bill não pode saber, porque o que ele quer é que eu nunca mais pise na minha casa, né?! O business, o job dele é justamente esse.
Monteiro — Quanto menos o artista ficar em casa, melhor pra ele.
Mônica Salmaso — Não, é todo dia. Isso é que é fazer sucesso. O sucesso é esse. Na minha cabeça, antes de viajar, eu entendia que o sucesso era você aparecer na TV e não conseguir mais ir até a padaria sem ser reconhecido. E isso muda a sua vida numa série de coisas, pra bom ou pra ruim. Isso era o que eu via. Daí eu tive um gostinho de entender, não o sucesso, mas o que é a agenda, a vida de um cara assim. É um tesão, mas ó, três por ano, de vinte dias no máximo, entendeu? Não dá pra viver assim! Você não lê um jornal, você não conhece cidade nenhuma, você não sabe nem onde está. O seu contato é repetido, as perguntas dos jornalistas são as mesmas, a piada no show se repete também. O cara vem falar, cinco minutos depois de um show, você não tem muita coisa pra… não dá. Não é uma conversa. O contato que você tem é de uma conversa, você tenta, mas é tudo rápido, tem um monte de gente, todo mundo comprou CD, quer que você autografe. E você vai assinar, a conversa é muito parecida. Emburrece um cara, entendeu? Você não tem tempo mínimo pra nada; você não vai pegar um livro; você não dorme! Não são muitas pessoas que têm essa vida, mas quem tem, porra, é dureza.
Seabra — Você gostaria de ter um sucesso que permitisse ter um secretário pra fazer a parte chata do trabalho?
Mônica Salmaso — Então, estou num lugar, não é de sucesso, é de quantidade de trabalho. Talvez o sucesso dê uma visibilidade. Por exemplo, você pensa assim se estourar, “Bom, se tudo der errado, pelo menos tenho uns dois anos de trabalho garantido”. Pô, não é possível, só se você desapareceu. Não é?! O sucesso é, justamente, quando todo mundo que trabalha em volta fala, “Hehe, tesão, vamos ter trabalho por dois anos pelo menos. Se ela for esperta, ela continua fazendo sucesso.” Um pouco é esse o espírito. Mas o meu negócio é quantidade de trabalho. Quantidade de trabalho não é uma coisa que você entende quanto tempo vai durar, você espera que dure, mas você não sabe o que vai acontecer. Nsse ano passado (2002), pela quantidade de trabalho que eu tive e que estou tendo, que está pedreira, justificaria eu ter uma equipe, entendeu? Justificaria. Mas não tenho a menor noção de que isso vai continuar. Tenho medo de aumentar e criar uma estrutura de empresa, de secretária ou de não-sei-o-quê, e dali seis meses cair no buraco. Porque tem dezembro, janeiro. Vou viajar em janeiro, mas, em geral, são meses que você não sabe bem o que vai acontecer. Eu esperava o Voadeira já não estivesse mais dando gás. Teoricamente um disco não vive mais do que dois ou três anos, ser assunto. Ele fica e as pessoas podem ir comprando nas lojas, mas ele já não é mais um assunto que justifique fazer show. Mas, em 2002 apareceram convites para fazer shows em lugares que eu nunca tinha ido, entendeu? Isso é lugar delicado. Eu não sei. Às vezes acho que estou fazendo uma parte muito sacal, que eu precisaria daquela hora pra fazer outra coisa. E, às vezes, não é nem isso. Viagem, por exemplo, dana tudo, né? Tudo que você tem é o e-mail pra tentar pilotar. Então, é falho. Não dou conta, mas ao mesmo tempo eu não sei se isso é a coisa em que posso acreditar que vai continuar assim a ponto de aumentar a estrutura. É esquisito. Não sei o que vai acontecer.
Seabra — Mas você gostaria que chegasse nesse ponto?
Mônica Salmaso — Ah, gostaria. Mas gostaria se eu tivesse a certeza de que esse troço continue, senão vira um pepino. O Ponto in comum aconteceu assim. No primeiro, eu e o Homerinho, ficamos desesperados, “Como será que se faz isso? Que jeito? Puta, tem que pensar na passagem de avião, no hotel, na diária de alimentação, tem que mandar um orçamento pro SESC. O SESC tem que aprovar!”
Seabra — Vocês é quem pensam nisso? Não é o SESC?
Mônica Salmaso — Não. A gente é quem pensa em tudo.
Seabra — Mas a produção executiva de quem é?
Mônica Salmaso — Da gente. Na verdade, somos três, eu, o Homerinho e o Marcílio, que faz o projeto gráfico e a cenografia. Ele é muito bom e muito amigo. Então, a gente cria junto. Mas a produção executiva fica comigo e com o Homerinho. Claro, tem partes, como a gráfica, que é o SESC quem pilota. A gente perguntou no começo: “O quê vocês querem que a gente faça e o que vocês querem fazer?” Por exemplo, passagem de avião é complicada para o SESC. Então, é a gente quem faz. O estúdio de ensaio é a gente quem arruma. Mesmo assim, o esquema disso tem que ser mandado. Eu faço essa parte burocrática. A Internet ajudou muito. Ela e o scanner são amigões do peito.
Seabra — Queridos, temos cinco minutos. Quatro agora.
Dafne — Considerações finais…
Tacioli — Mônica, você acha que existe um canto brasileiro, uma forma de cantar brasileira?
Mônica Salmaso — Existe uma alma brasileira na música, que não é a maneira de cantar. Não sei exatamente como é que se explica isso, mas vejo uma coisa da letra de música no Brasil. O canto tem no Brasil, em quase todas as áreas que eu tenha visto, do rap ao folclore da Lagoinha. Lá existe uma tradição oral, a letra da música é quase tão importante quanto a melodia. Isso é uma característica. Não deve ser somente do Brasil, mas é uma característica do Brasil, que não é da música americana. A música americana é muito mais tema do que letra. A letra são aquelas trinta palavras que vão trocando. A música brasileira tem uma riqueza, uma densidade de letra e uns temperos culturais que são o Brasil. Tudo isso junto é a alma brasileira. Eu sinto que você consegue tocar. Existe um ponto em comum entre — puta, juro que eu não quis fazer um trocadilho [risos] –, uma intersecção entre os brasileiros. Existe! Quando fiz o negócio do samba [n.e. Projeto Ponto in comum — Samba carioca], lá da Lapa, em que ouvi aqueles sambas, quando visitei o Seu Jair na casa dele, então eu quis dar uma mergulhada, foi rápida, mas foi um mergulho, vi que tem a linguagem do malandro do morro, até arquetípico, do personagem, que no final também não é. Existe uma linguagem, um vocabulário, que é uma coisa própria dali. São metáforas muito engraçadas, há uma sacanagem, “Vou enganar esse cara! Sou uma coisa inferior de classe social que vou, de algum jeito, sobreviver a isso! Sobrevivo criando uma língua que o cara não vai entender.” Há um comportamento, uma coisa que gera uma língua. Para o projeto da música caipira, fui ouvir um cara que nem deu pra usar no show, porque era tudo muito grande. Ele é um contador de causos de Goiás. Esse cara falando, um jeito de mineiro, goiano, do interior, do caboclo, a história dele, é um outro time — o jeito de falar, a palavra usada, a metáfora é completamente outra, mas existe uma coisa na linguagem do caboclo, do personagem, que é muito irmão do malandro do morro. E são histórias diferentes. Mas existe uma resistência, uma provocação, uma esperteza, uma coisa que é a alma do Brasil, entendeu? E que foi separado, que é da mistura. Misturou, misturou, misturou, mas os primeiros pontos são aqueles; em todos os lugares aparecem. O resultado é muito lindo, muito diverso e muito rico, mas tem pontos em que eles se encontram… A alma é igual. É um pouco aquele lado do Darcy Ribeiro, entendeu? Eu sinto isso assim. Gosto de ver assim.
expediente . mônica salmaso
produção Ricardo Tacioli
entrevistadores Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Flávio Monteiro, Ricardo Tacioli e Sérgio Seabra
fotos Dafne Sampaio
transcrição Marcos (Jaca)
edição Ricardo Tacioli
texto de abertura Sérgio Seabra
agradecimentos Eliane Verbena
Entrevista realizada em São Paulo/SP em 29 de abril de 2003.
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