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Sucesso
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por Joyce Moreno
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Sempre me perguntei como seria se em vez de lançar um disco com o título O Melhor de Fulano, fosse lançado O Pior de Fulano. Ou se em vez de se fazer uma Parada de Sucessos, se fizesse, como um dia sugeriu um amigo meu, uma Parada de Fracassos. Grandes surpresas poderiam advir deste novo conceito. Inclusive a descoberta de que o fracasso de anteontem pode ser o sucesso de depois de amanhã – e vice-versa. Coisa mais fluida, esse tal de sucesso: assim como vem, vai; de repente volta de novo, vai outra vez, torna a voltar, como as luas e as marés. Pior pra quem esquenta a cabeça com isso.
Eu por mim, se fosse voltar atrás e eleger os mais marcantes tropeços da minha razoavelmente longa carreira, teria infalivelmente que passar por uma temporada feita no remoto ano de 1968, numa remotíssima casa noturna chamada Sucata, na Lagoa. O nome da casa já não era dos mais promissores. No entanto, era um lugar mais ou menos da moda, sugestivamente decorado com ferros retorcidos que pendiam do teto ou surgiam pelos cantros. Nesta casa eram realizados espetáculos de música de médio porte, e foi de boa vontade que aceitei participar de um show criado pela dupla Miéle–Bôscoli, que se chamaria, singelamente, Festival.
A idéia deste show era bastante simples: juntar cinco vozes mais ou menos recentes, de diferentes tendências, numa temporada que correria paralela ao Festival Internacional da Canção, para que os artistas convidados para a parte internacional do festival pudessem também assistir aos espetáculos. Um show para gringos, enfim. O elenco escolhido incluía, além de mim, Marcos Valle, Milton Nascimento, Francis Hime e Wanda Sá, e por aí começava a se desfazer o conceito: os cinco éramos grandes amigos, fãs uns dos outros, e a música que amávamos era, com poucas variantes, as mesmas. Um elenco, portanto, menos heterogêneo do que pretendiam nossos diretores. Ainda assim, a dupla caprichou num press-release que destacava nossas diferenças. Marcos Valle, que na época era sem dúvida o mais bem-sucedido entre nós, seria o “novo ídolo jovem”. Francis, conforme dizia uma gravação de seu parceiro Vinicius, incluída no roteiro, era “o pequeno príncipe da música popular brasileira” – referência pouco sutil às suas origens aristocráticas. Wanda representava a bossa-nova, com total propriedade, diga-se de passagem, e Milton recebeu a duvidosa definição de “a moderna voz negra, culta e evoluída”. Quanto a mim, a parte que me coube neste latifúndio me apresentava como “representante da juventude rebelde” – sabe Deus lá o que isso queria dizer.
O trio 3-D, com Zé Roberto, Novelli e Vítor Manga, era a nossa banda de apoio. Os ensaios corriam bem, cada um de nós preparando um ou dois números solos, e mais alguma coisa em conjunto com outro. Assim, eu fazia um número com Wanda e outro com Bituca. Wanda cantava também com Francis, Bituca com Marcos, e por aí vai. O número dos dois, aliás, era o grande hit do espetáuclo, nada mais nada menos que a célebre “Viola Enluarada”, que eles tinham acabado de gravar juntos. Eram tempos ainda duros para Bituca, e Marcos, em fase excelente de carreira, era um seu grande incentivador.
Bituca morava num quarto-e-sala em Copacabana, na rua Xavier da Silveira, que ele dividia com amigos: Hélvius Vilela, Celinho do Pistom e sra., Nivaldo Ornellas, Novelli e quem mais chegasse. Éramos como irmãos, corda e caçamba, e ao ver que não cabia mais sequer um alfinete naquele recinto, acabei topando fazer da minha própria casa uma extensão daquele consulado mineiro, com as bênçãos levemente desconfiadas de minha mãe. Outros amigos cariocas estavam fazendo o mesmo, e assim havia recém-chegados de Minas espalhados pelas casas de Luizinho Eça, Maurício Maestro, Ronaldo Bastos e outros mais. Foi nesse conturbado ambiente que eu e meu amigo mais querido ensaiamos o nosso número para o show. Era “Tarde”, uma parceria belíssima dele com Márcio Borges, onde eu começava cantando no meu tom, numa preparação para o clímax que seria a entrada de Bituca, com sua voz divina, um tom e meio acima. A idéia era gravarmos juntos essa música para o próximo disco dele – idéia que não foi em frente, pois naquela época não era ainda moda por aqui o uso do recurso “gentilmente cedido por…” Pertencíamos a gravadoras diferentes, não houve entendimento, e a gravação acabou saindo com meu amigo sozinho, cantando toda a primeira parte no porão, ou seja, no meu tom, grave demais para ele, felizmente cercado por um belo arranjo de Luizinho.
Nosso espetáculo estreou, portanto, com alguns grandes momentos e outros tantos tropeços. Estes ficavam por conta do hilário texto que era dito em off pela voz de Miéle, simulando uma entrevista com perguntas modernas do tipo “Wanda Sá, o que você acha da pílula?” Eu, por minha vez, levava a sério aquela história de juventude rebelde, e fazia meu personagem com gosto, com todas as malcriações de praxe. Francis, tão meticuloso quanto tímido, ensaiava diariamente sua entrada em cena, contando o número de passos até o piano. Raramente dava certo, e nossas gargalhadas atrás do palco eram ouvidas da platéia. Ah, sim: havia ainda o detalhe da platéia.
Nossos produtores pareciam cada vez mais preocupados com o escasso público. Nós, não: estávamos ali para nos divertir, e quem nos interessava estava lá, como Elis – na época casada com nosso diretor Ronaldo Bôscoli – que não perdia uma só noite. Tinha suas razões: Wanda fazia um sensacional medley de voz e violão, com as músicas “Nêga do cabelo duro” e “Aquarela do Brasil”, que Elis acabou gravando em seguida no próprio disco, com arranjo absolutamente idêntico. Generosa, Wandinha nunca mencionou o fato. O show prosseguia, cantávamos para os amigos e a produção se descabelava pela falta de pagantes.
Fomos finalmente informados de que a casa resolvera encurtar a temporada e colocar em nosso lugar um show dos tropicalistas baianos, de maior potencial de bilheteria. Assim foi feito. O show dos baianos foi de fato um sucesso, e como dizia o Tom, sucesso é um perigo: por causa desta temporada, num nebuloso episódio envolvendo a bandeira nacional, Caetano e Gil seriam presos. A boate Sucate virou, tempos depois, o Teatro da Lagoa. Nossos elencos seguiriam em frente, cada um de nós em seu caminhos, prontos para as próximas luas e marés em nossas vidas.
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Texto originalmente publicado no livro Fotografei você na minha rolleyflex (Multimais Editorial, 1997).
Joyce Moreno
(Rio de Janeiro/RJ, 1948) Cantora, compositora e instrumentista.
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