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por Breno Martins Campos
Um de meus sonhos de infância foi ser baterista de banda de rock. De família protestante, nunca fui muito encorajado a satisfazer meu desejo. Talvez porque gostasse muito do Kiss e vivesse pintado à Peter Criss batendo em minhas latas no quintal de casa. O que deve assustar qualquer família. Religioso eu mesmo, comprometido com o desejo dos pais, procurei outros caminhos que me levassem ao conhecimento da música e, quem sabe, da arte de tocar bateria para usá-la na igreja.
Em Itapira, cidade do interior do estado de São Paulo, participei da fanfarra da escola, E. E. P. G. Dr. Júlio Mesquita (quantas vezes durante oito anos escrevi seu nome nos cabeçalhos das folhas de almaço das provas!), e depois da banda municipal. Os solfejos do método Bona me afastaram do estudo teórico da música.
Como boa casa onde moram crianças, na minha também havia uma flauta doce. Por conta própria aprendi a tocar as primeiras músicas, de acordo com aquelas indicações de quantos buraquinhos devem ser fechados para corresponder a tais e quais notas. Depois passei a ler partituras simples. Fui além: procurei um professor de flauta.
Quando me encontrei com João Torrecillas Filho (1907-1989), o professor, eu já “reinava” com a flauta, segundo ele. Foi aquela a primeira vez que ouvi o verbo reinar no sentido de brincar com um instrumento musical. Eu com pouco mais de 10 anos de idade e ele com pouco menos de 80. As surpresas estavam somente começando.
Alfaiate aposentado, músico por prazer, professor por paixão, o Seu João era figura popular na cidade. Assinava duas colunas no jornal Cidade de Itapira. Nas edições de domingo, era o João do Norte que escrevia; nas de quarta-feira, o João do Leste. Heterônimos de um homem que não tinha lugar, por ser de todos. Os textos eram crônicas nascidas de sua memória e paixão por Itapira, sua gente, seu passado.
Itapira sempre foi referência nacional por seus hospitais psiquiátricos e, mais recentemente, por sua indústria químico-farmacêutica. Para além de aspectos técnicos e científicos, a cidade é a terra de Hideraldo Luiz Bellini, o primeiro brasileiro a erguer a Copa do Mundo. Foi nela também que Menotti Del Picchia, um dos líderes da Semana de Arte Moderna de 1922, escreveu sua obra mais difundida, Juca Mulato, que dá nome a um parque romântico da cidade, onde fica a Casa Menotti Del Picchia.
Nunca precisei gastar fortuna com as lições de Seu João, ele tinha dificuldade de cobrar pelas aulas. Não sei calcular em moeda de hoje o que pagava por uma aula semanal de mais de 60 minutos. Hoje reconheço que aqueles minutos eram impagáveis. Minha mãe criou uma forma de recompensar materialmente o professor: dar presentes. O primeiro foi uma camisa, número três. Pediu que trocasse por outra, número cinco. Não fazia sentido, pois ele não tinha manequim para tanto. Algumas semanas depois, entendi. Ele descosturou a camisa toda, cortou de novo o tecido, recosturou a camisa e acrescentou a ela dois bolsos bem grandes, nos quais carregava lápis, borracha, caneta e outros instrumentos para escrever suas partituras. Sempre usava camisas desmontadas e recosturadas segundo seu critério. Nunca me deu uma partitura que não tivesse sido escrita por ele, inclusive as linhas. Verdadeiro artesão. Nunca pediu para que eu comprasse uma partitura. Tenho uma coleção de mais de mais de 200 partituras riscadas e desenhadas por ele, escritas de cabeça: cantarolar e rabiscar era o método dele. O estilo de Seu João era maravilhoso, não rigoroso.
O espírito do alfaiate nunca o abandonou. No gabinete dele, construído como espécie de sótão numa casa da rua XV de Novembro, havia duas bolas: uma grande, a outra pequena. Bolas de tecido. Ao final de cada dia de trabalho durante a vida, seu João recortava os retalhos em forma de tiras, costurava uma na ponta da outra e enrolava aquilo tudo. Depois de anos, o resultado foi a bola grande, na qual eu subia para me sentir artista de circo. Como todo mundo desconfiasse da história, ele fez a pequena para demonstrar o princípio que trouxe a bolona à existência. Mentalidades científicas exigem comprovações. Espíritos mais livres talvez imaginassem que o desenrolar daquele enorme novelo exporia as dores e delícias de uma existência. Verdadeiro fio de Ariadne a orientar o caminho no labirinto da vida.
Naquele mesmo ateliê, Seu João fazia suas gravações. Não tinha um 3 em 1. Punha os vinis para tocar na vitrola e aproximava o gravador das caixas para seus registros musicais em fita-cassete. Tinha uma coleção grande de discos e de fitas. Foi ele quem me apresentou, por exemplo, de Ernesto Nazareth a Jean-Pierre Rampal (ou vice-versa). Seu João passava madrugadas sozinho a gravar músicas, buscando o silêncio da rua, mas sem negar a existência dos ruídos.
Pessoa em constante movimento, trafegava do samba e do choro para a música clássica; ser humano múltiplo, tocava na noite com sambistas e chorões, e na igreja com corais e solistas. Alguns anos depois de deixar de ser seu aluno, visitei o Seu João doente na cama de sua casa. Quando eu o cumprimentei segurando sua mão, ele perguntou para dona Dalva, sua mulher e companheira havia décadas, “É o Breno?”. Aqueles instantes da visita duraram uma eternidade. Eu não havia me preparado o suficiente para ver o Seu João parado, sem dar aquelas cuspidinhas no ar (“tu-tu”) enquanto andava no seu local de trabalho, como para eliminar uma casquinha com a ponta da língua, na verdade, sempre a tocar uma flauta imaginária.
Toquei uma composição dele no enterro (“Matutando”). Na verdade, toquei o que consegui; alguém disse que nem parecia a música original. Foi no dia do enterro também que um político tradicional da cidade fez a promessa de dar o nome de João Torrecillas Filho à Casa da Cultura de Itapira. O que realmente aconteceu aos 25 de abril de 1989. Ao lado do Parque Juca Mulato, num sobrado lindo e antigo, aquela casa, que foi a primeira cadeia da cidade, agora abriga a Biblioteca Municipal, salas de arte, música, conferências, exposições.
Os fatos escritos acima são confiáveis, até o lugar em que qualquer memória é confiável; ainda mais quando se trata de uma memória apaixonada. Hoje nem toco mais flauta, a não ser para consumo próprio em dias de profunda melancolia. Então, de que adiantou eu me aproximar de João Torrecillas, João do Norte, João do Leste? Ele não foi só meu professor de flauta, ele me ensinou a ser uma pessoa melhor. Aprendi com ele que a vida só vale a pena se for vivida com arte. A arte liberta o ser humano de todas as cadeias. Não há cadeia que resista ao poder da cultura. Foi só depois que vim a conhecer Nietzsche.
(Itapira/SP, 1974), Cientista social, professor da Faculdade de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas).

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