entrevista #52

Cátia de França

Artista paraibana reflete sobre o melhor momento de sua carreira, além de sua adolescência, religiosidade, discos lançados e as reviravoltas da vida.

São Paulo/SP | 22.abr.2024

A cantora, compositora e instrumentista Cátia de França em abril de 2024. Foto: Renato Nascimento/Gafieiras

ficha corrida

Nome: Catarina Maria de França Carneiro
Data e local de nascimento: 13 de fevereiro de 1947,  de outubro de 1950, João Pessoa/PB
Ofício: Violonista, compositora, intérprete e escritora
Discografia: 15 álbuns desde 1979

expediente

Entrevistadoras/es. Daniela Cucchiarelli, Débora Pill, Edson Natale e Ricardo Tacioli
Produção. Ricardo Tacioli
Transcrição e edição de texto. Ricardo Tacioli
Texto de abertura. Débora Pill e Ricardo Tacioli
Fotos. Renato Nascimento e acervo de Cátia de França
Agradecimentos. Carlos Alberto Sion e Dina Faria

Entrevista realizada em 22 de abril de 2024 no estúdio fotográfico de Renato Nascimento, Lapa, São Paulo.

Ouça um trecho

compartilhe esta entrevista

“Uma nova Bethânia? Kátia de França, morena bonita que se esconde atrás da roupa que é um misto de cangaço com polícia, é a surpresa do show. Batendo violão com energia incrível e cantando com uma afirmação de piano clássico, ela é aplaudida em cena aberta pela força de sua interpretação. Suas músicas, em que se veem componentes dos Beatles e de tango, alcançam o nível do ‘regional universal’.”

Em uma nota de autoria desconhecida publicada em 22 de julho de 1980, um jornal de Campinas comenta o show na cidade do interior paulista do Projeto Pixinguinha, da Funarte, com Jackson do Pandeiro e Anastácia, destacando a participação da artista ainda novata para o grande público. Catarina Maria de França Carneiro, paraibana de 33 anos, havia lançado no fim do ano anterior seu primeiro álbum, 20 palavras ao redor do sol, e já não usava mais o K em seu nome artístico. Nos shows ao lado do rei do ritmo e da rainha do forró, deixou a timidez que a define fora do palco e se fez entre as majestades.

Hoje, aos 78 anos, Cátia de França é das figuras mais icônicas da música popular brasileira. O citado disco de estreia, produzido por Zé Ramalho e Carlos Alberto Sion e lançado em 1979, foi redescoberto décadas depois por jovens no YouTube, tornando-se objeto de culto. Apesar de ser reconhecida principalmente pela música, suas criações transbordam para a literatura, teatro, cinema e artes visuais, com o vigor de quem cresceu devorando livros e experimentando ritmos e instrumentos como o piano, sanfona, violão, flauta e percussão.

Negra e lésbica, essa pessoense nascida em 13 de fevereiro de 1947 é filha de Exu e foi a primeira mulher a tocar guitarra em um festival de música na Paraíba, em 1970; atuou no teatro político e foi atravessada por João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Manoel de Barros, Eduardo Galeano, Elvis Presley e Thelonious Monk.

Sua música reflete uma mistura rítmica que abraça o rock, o blues, o reggae, a moda de viola nordestina, o galope e o jazz, resultando em um som vibrante e autêntico. Um “universal regional” e não um “regional universal”, como arriscou categorizá-la o periódico campineiro. Ou, como definiu certa vez, “música popular mundial”. Para ela, o humor e a irreverência são fundamentais para lidar com as adversidades, como o “susto do ostracismo”, e a política — algo evidente em suas composições e performances ao vivo.

Esta entrevista coletiva foi realizada dois dias depois dos shows de lançamento do disco No rastro de Catarina, na comedoria do Sesc Pompeia, em São Paulo. Era manhã de 22 de abril de 2024, uma segunda-feira, e o estúdio fotográfico em frente a uma escola pública acolheu a artista e sua produtora Dina Faria. E esses elementos mais “concretos” se mostraram profundamente conectados a pontos fundamentais de sua obra: comunidade, ativismo e educação. Como Cátia canta, “Minha vida é uma rede / Grande é minha luta / Muita é minha sede / Vida feito leito pra embalar / E o destino balançar / Em cada ano que passa / É cada batalha que eu ganho / No risco que não tem tamanho”. Vai, Catarina!

Cátia de França e a equipe entrevistadora: (e/d) Daniela Cucchiarelli, Débora Pill, Ricardo Tacioli e Edson Natale. Foto: Renato Nascimento/Gafieiras

Débora Pill — Posso colocar (o microfone)?


Cátia de França — 
Pode!

 

Débora Pill — Pode falar alguma coisinha, Cátia?!


Cátia de França —
 Opa, certo! Tô feliz demais!

 

Débora Pill — Pronto! O teste “tô feliz demais” já abençoou [a entrevista]. (risos)


Cátia de França — 
Estou meio longe da mesa, né, vou me aproximar mais.

 

Ricardo Tacioli — Cátia, quer café?


Cátia de França —
 Elas já souberam quando eu tomo café o que que eu viro. (ri)

 

Tacioli — Ah, é?


Cátia de França 
— Não, é?! Eu tomo água mesmo.

 

Edson Natale — Ela falou que é um Sonrisal nordestino. (risos)


Cátia de França — 
Quando eu tomo isso digo coisas instigantes.

 

Tacioli — Você está nervosa?


Cátia de França —
 Não, não, eu não tô, não!

 

Tacioli — Eu tô! (risos)


Cátia de França —
 A gente fica, é um território diferente e a gente chegando, mas é uma alegria demais. Eu fico o tempo todo levitando, porque é um reconhecimento… Onde moro não é todo mundo que [me conhece]… Embora internet todo mundo tenha, mas não existe isso [o reconhecimento] quando eu vou ao supermercado. Eu tenho uma vida bem [simples]… Então, eu não tenho essa de saber com quem está lidando, entende? E eu não sou daquele jeito: “Sabe com quem está falando?”! Não! Eu moro numa serra. (n.e. São Pedro da Serra, na região de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro) Eu cheguei lá em 2005; quando eu cheguei, a internet demorava tanto que a gente fazia a palavra cruzada. (risos) Demorava muito. Hoje em dia, não, depois da epidemia [de Covid-19] tem fibra óptica e o povo fugindo para lá, pra serra.

 

Tacioli — A entrevista te assusta ou você lida bem, Cátia?


Cátia de França — 
Lido bem, lido bem, porque eu adoro contar história… Agora, tem de ir pinçando, porque senão dura três dias e três noites. (risos)

 

Tacioli — Cátia, primeiro quero agradecer. É muito importante essa entrevista pra gente, não somente por tê-la conosco, como também por marcar a retomada do projeto de longas entrevistas, que é o Gafieiras, que começou em 2001 e parou em 2016. A ideia aqui é um bate-papo e depois o Renato fará uma sessão de retratos contigo.


Cátia de França 
— Ele me falou.

 

Tacioli — Aí a gente reserva uns 20, 25 minutos antes do encerramento para garantir umas chapas bonitas.


Cátia de França — 
Adorei o nome. Lambe-lambe!

 

Tacioli — Cátia, você lançou nesta sexta e sábado [o discoNo rastro de Catarina. Depois de ter descansado, qual foi sua impressão? (n.e. Os dois shows de lançamento do álbum foram realizados no Sesc Pompeia nos dias 19 e 20 de abril de 2024)

 

Cátia de França — Eu sou do tempo em que demorava uns 15, 20 dias para vir os efeitos [do show de lançamento], mas hoje em dia…

 

Edson Natale — Pisca e já era.


Cátia de França —
 O Instagram vem de todos os cantos, entendeu? Por trás de mim existe uma entidade chamada Dina Faria, que é minha produtora. Ela tem algum mecanismo dentro do celular que revela que tem gente que me ouve até no Cazaquistão. E está repercutindo, com comentários surpreendentes… Tem um jornalista de Pernambuco — eu morei lá de 90 a 96 — o Thales, que é do Jornal do Commercio, um dos jornais da cidade, falou de minha trajetória e como esse disco foi o acerto [de contas], porque existia o 20 palavras, de 79, com produção de Zé Ramalho, com muita coisa de João Cabral, de Guimarães Rosa, de Zé Lins Rego, escritor da Paraíba, e o povo dizia “Icônico!”. Eu estava à tona por causa do disco bem feito e também com o que havia de melhor de músicos na época: Sivuca, Dominguinhos, Bezerra da Silva, Elba Ramalho fazendo vocal para mim, Lucinha Turnbull também tocando. Isso foi em 79. E em 2024, ele [Thales] disse: “Veio…”, não é destronar, mas botou uma cadeira agora ao lado de 20 palavras para causar estardalhaço musical. Então, com essas opiniões, estou muito feliz.

 

Tacioli — Entre palco e estúdio, o que você prefere, Cátia?


Cátia de França —
 Eu ensaio como se tivesse uma plateia, não sei como vou inflamar os músicos, cada um com uma cabeça tendo um pensamento, um adora mulher, outro adora cerveja, então eu tenho que fazer valer. Eu gosto de fazer valendo, porque no dia já estou sabendo como é. E ela de novo… Vou ficar o tempo todo falando dela, mas a Dina percebeu que eu rendo mais [quando gravo] como se eu estivesse no palco, porque se me botar no aquário (n.e. Ambiente acústico reservado de um estúdio) para eu colocar a voz definitiva no final, fica certinho, mas fica sem nervura, fica uma coisa meio plastificada, meio contida demais. Mas é uma afirmação na contramão da evolução da música de hoje em dia, de recurso tecnológico. Ela diz: “Vai fazer ao vivo!”. Para muita gente isso é uma coisa de louco, mas a gente está acostumado. O meu diretor, o Daniel [Cahon], que trabalha comigo há muito tempo, ele nunca iria perceber, mas depois viu o resultado. A gente fez sem anteparos, sem umas paredes artificiais que seguram a onda… Não! Foi “Senta, canta!”. Não tinha hierarquia, que deu essa coisa democrática, essa transparência, quase que eu não sabia quem era produtor, porque estava todo mundo no mesmo nível, [todo mundo] tinha direito a falar, era uma tribuna aberta. “Gostou? O arranjo é meu”, então fluiu, não tinha ninguém “Ah, porque eu tenho…”, se eu fosse deixar os meus 50 anos [de carreira] entrar, ninguém ia me engolir, entendeu? Isso foi uma emoção só! E muito tempo sem fazer, e no momento certo, para quem saiu de uma epidemia, a gente ficou com resquícios. E tem as consequências que a gente só vai saber depois, como essas fúrias de uma hora para a outra. Eu sou uma pessoa pacífica e tímida, então, de onde vem essa raiva subterrânea? A culpa é dela, [da pandemia], uma maldição bíblica que se transformou em realidade para botar a gente no eixo. Então, as músicas do disco são isso.

 

Tacioli — Foi fácil essa escolha [do repertório]?


Cátia de França — 
Ela pode ser produtora, mas tem uma coisa cirúrgica, porque ela saiu com bisturi, pinçando, pinçando, pinçando, e uma visão cinematográfica: ela olhava e via a siamesa das músicas, uma letra que nem sabia da existência da outra, ela juntou e deu essa dupla, que é “Fênix” com “Nossa Senhora”. (n.e. Referência às duas partes da música “Fênix”, faixa de abertura do disco ‘No rastro de Catarina’) Agora, as inspirações são o que eu leio. Em uma coluna que o Paulo Coelho tinha n’O Globo, ele comenta sobre Nossa Senhora. Eu li e engravidei ali, naquela hora. Eu sinto o baque, é como um médium recebendo uma história. Aí fiquei observando e criando — porque tenho os cadernos em que eu anoto tudo, que eu os chamo de Caderno Severina.


Tacioli — Caderno de Severina?


Cátia de França —
 Não, Caderno Severina. Eu copio tudo: as inspirações chegando, a letra, o que eu vejo, o que chega até a mim, o que alguém disse, o livro que eu li. Televisão eu estou filtrando um pouco, porque está meio ópio, então não quero fugir. Ou fico lúcida, ou me lasco. E ficou difícil para dormir, porque é uma babá eletrônica, que é ótimo, quando está enchendo o saco, a gente desliga. Mas agora eu tirei mesmo para eu poder dormir direito e ficar mais perto das coisas.


Natale — E, Cátia, você falou em inspiração e sua mãe Adélia…


Cátia de França — 
Adélia de França Carneiro.


Natale — Adélia de França.


Cátia — 
É Adélia de França Carneiro, a minha mãe.


Natale — Então, Adélia continua sendo uma inspiração pra você?


Cátia de França — 
Nem parece que ela tá no andar de cima, porque em tudo que eu me meto, eu sei que ela tá [comigo]… E esses elogios que vocês me fazem desde que eu pisei aqui nesse ambiente, ela vê que… Como ela me chamava: “Minha filha única de pais idosos: ‘meu cristalzinho’!”. Ela me chamava de “cristal”.


Natale — Que bonito!


Cátia de França —
 (ri) Mas é coisa de mãe, né? Na verdade, dos 15 aos 19, eu interna no colégio, não era esse cristalzinho, então ela me deu livros para eu conviver.


Natale — E ela te alfabetizou com canções?


Cátia de França —
 Sim, (canta) “Era um B com A, BA; B com E, BE” e era muito musical a minha casa. Era uma miscelânea. Meu pai boêmio, então entrava somente música de sofrência: Nelson Gonçalves, Núbia Lafayette, e muito tango, ele adorava. A razão de eu tocar sanfona não era o forró em si, era “La cumparsita”, “Mano a mano”, mas o que me fez sobreviver na sanfona foi o forró. Aí toquei na banda do Zé Ramalho. Mas a minha mãe era essa coisa do livro, e a minha inspiração, o meu alicerce é literário. Aí eu mergulho naquilo e procuro captar uma veracidade tão grande que muita gente pensa que eu fiz “Porto de Cabedelo”, do disco 20 palavras, porque eu sou oriunda de lá, que eu nasci em Cabedelo, mas não, é porque eu li sobre [aquilo], entendeu? Então, tudo isso eu procuro. Um dos maiores presentes que me deram foi um livro Cinco mil verbetes de Guimarães Rosa. Foi um presente do meu biógrafo de Uberlândia, que é professor de universidade. (n.e. Possivelmente se refira ao livro ‘O léxico de Guimarães Rosa’, de Nilce Sant’anna Martins, lançado em 2001 pela Edusp, com mais de 8 mil verbetes)


Débora Pill — Vou pedir licença pra você. (para ajustar o microfone de lapela)


Cátia de França —
 Sim, eu também gesticulo…


Débora Pill — Vou pegar um gancho com [o som das] crianças [da escola] ao fundo? Você falou do livro e do seu caderno; você tem a memória da primeira vez em que você se expressou escrevendo, usando a palavra?


Cátia de França —
 Foi no Jornal da Paraíba.


Débora Pill — Criança?


Cátia de França —
 Ah, criança?


Débora Pill — Criança.


Cátia de França —
 Não era tão criança, porque o jornal era das artes, sobre livros que vinha dentro de um jornal da Paraíba. E quem tomava conta desse semanário, desse jornal, era o marido de uma enfermeira que cuidava da gente, da família. Aí ela disse: “Luiz Fernando está mandando nesse negócio!” Mamãe: “Cátia está fazendo umas anotações e eu até que gosto!”. Mas mamãe não era de me elogiar de corpo presente para não me dar muita asa; a gente estava conversando com a Maria, com a enfermeira. Aí eu publiquei uma coisa minha no jornal.


Débora Pill — De cara?


Cátia de França — 
Sim, foi isso. Saí nesse jornalzinho que saía no domingo.


Tacioli — Você lembra sobre o que era [que você escreveu]?


Cátia de França —
 Não, não me lembro, não.


Tacioli — Não tem guardado?


Cátia de França —
 Devo ter, meu acervo é uma doidice, porque por onde eu passei, com os descasamentos, foi ficando um pedaço. Eu consegui juntar; ficou um tempo sendo cuidado por Dina e a companheira dela, e agora ela mandou da Paraíba para onde eu estou, na Serra. Mas tem outros; quando eu morei em Pernambuco tem coisa minha lá, tem coisas minhas na outra casa da serra… Estou querendo juntar isso tudo num canto só. Agora, eu tive uma coluna de crônicas diárias já com mais idade, chegando do Pernambuco, do colégio interno, em 1966, 67. E o povo achava que a pessoa tinha 60 anos, mas era eu chegando, porque fui para o colégio com 15 e voltei com 19, formada professora. E isso está lá no acervo do Jornal da União, que é o jornal do Governo. Aí um rapaz que estuda música na universidade fica mandando para mim no iPhone, escrito meu.


Natale — Você tinha quantos anos?


Cátia de França —
 Dezenove, vinte anos, porque em 62 eu fui para esse colégio, eu cursava o terceiro ano, não sei como se diz hoje, ao que equivale, mas eu ia sair formada professora, normalista, não era pedagoga, como de universidade.


Tacioli — Você lembra o nome do colégio?


Cátia de França — 
Me lembro: Educandário Nordestino Adventista, era de religião… como é que a gente diz? (n.e. Complexo educacional pertencente à Igreja Adventista do Sétimo Dia oferecia ensino fundamental, médio, técnico e superior em Teologia. Foi criado em 1943 em Belém de Maria, Pernambuco, a 120 quilômetros de Recife. O ENA encerrou suas atividades em 2000 após sofrer com as enchentes daquele ano)


Débora Pill — Prostestante?


Cátia de França — 
Sim, isso. E mamãe não era de religião nenhuma, mas se você sentasse com mamãe, ela sabia o calcanhar de Aquiles de cada religião. Freiras, o papa, ninguém escapava, mas ela dizia que “se eu deixá-la sem religião na escola, ninguém vai ser [amigo dela]. Vai ser exorcizada!”. “Ah! Quem é a sua amiguinha?” “Ah! Ela não batizou, ela não é filha de Deus!” Eu ia ser irmã de Macunaíma! (risos) Aí ela me botou [na escola], fiz com 12 anos a primeira comunhão, ganhei o piano que eu tenho até hoje


Natale — Esse piano está onde?


Cátia de França — 
Está guardado na casa do amigo meu, porque eles diziam “Menina, aluga esse trambolho!”, não era de cauda, era um piano de apartamento, mas quando alugava tiravam um pedaço. Era um piano alemão de apartamento. E eu não estou louca de me desfazer do piano alemão de uma professora que o comprou um piano com salário. E é muito querido, eu tenho loucura [por ele]. Aí está na casa do amigo meu, o Déo, tem parceria comigo, é policial rodoviário. Déo Nunes! Tem um nome parecido com o de desodorante. (risos) (n.e. De autoria de Cátia de França, o reggae “A gente tinha combinado” foi gravado ao lado de Déo Nunes)


Tacioli — E o Déo mora onde?


Cátia de França — 
Lá em João Pessoa, no bairro dos Estados. Eu não fiz um documento “Estou recebendo o piano de Cátia de França…”, mas a filha dele não tinha nenhum pendor [para a música], e devido ao conviver — porque se você convive com o instrumento… -, [hoje] a menina toca, né? Então tá lá.


Débora Pill — Por que você falou que parecia uma velha escrevendo?


Cátia de França — 
Sim, era o teor das conversas.


Débora Pill — Mas escrevia sobre o quê?


Cátia de França — 
Era o dia a dia. Eu tenho, o menino mandou, o Mateu. E depois que terminar [a entrevista], eu posso passar para vocês. Era por isso que o povo [dizia] “Essa senhora…”, e eu também escrevia sobre músicas. No jornal predominava o que havia de melhor na área de músicos, de jornalistas. Era um jornal do governo, mas a redação era uma loucura. Carlos Aranha, que é um compositor, um jornalista; Anco Márcio, que era o Paulo Francis da época. (n.e. Carlos Aranha, 1946–2024, foi jornalista, crítico musical, cronista e escritor. Foi um dos coordenadores na Paraíba do Movimento das Diretas Já e desde 2009 era membro da Academia Paraibana de Letras. O paraibano Anco Márcio de Miranda, 1944–2013, foi diretor, ator, autor de peças infantis, poeta, teatrólogo e jornalista) Era uma coisa fantástica trabalhar naquele jornal! Só não deu certo quando me botaram na rua para cobrir o que fosse. Aí eu fiquei em pânico! Minha história era em uma área em que eu me sentia segura, agora sair para cobrir acidentes, tiroteio, política, aí ficou meio [estranho] e viram que não era minha, e eu voltei para a redação.


Tacioli — Você ficava na redação?


Cátia de França —
 Na redação. E continuei com essa coluna que existiu por muito tempo porque agradou. Todo mundo comprava o Jornal União pra ler aquela senhorinha.


Tacioli — A coluna tinha nome?


Cátia de França —
 Não tinha, não! Era o título e eu assinava Kátia de França, com o K. Tiraram o K por ser uma coisa de numerologia. Então eu assinava Kátia de França. Mas o teor [da coluna] era variado… Eu mesma li e fiquei “Menina, que coragem!”.


Natale — Você gostou do que leu?


Cátia de França — 
Gostei, gostei. Tive orgulho de mim mesmo. É, mas honrando a coisa que eu convivia lá em casa, mamãe, Dom Hélder Câmara bem grande no pôster. (n.e. Nascido em Fortaleza, CE, Dom Hélder Câmara, 1909–1999, foi arcebispo emérito de Olinda e Recife e um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB. Foi uma das vozes dos direitos humanos durante a ditadura militar no Brasil, 1964–1985)

Curtiu a entrevista? Compartilhe!

Entrevistas relacionadas

Hermínio Bello de Carvalho

"Não vim aqui fazer gracinhas!"

Inezita Barroso

"Mario de Andrade andava na minha calçada!"

Cristina Buarque

"Eu cato, não pesquiso!"

Mais que entrevistas grandes, grandes entrevistas

Copyright 2026 Gafieiras. Todos os direitos reservados.