Logo após o primeiro show da turnê ‘Descobrimento do Brasil’, em Valinhos, o líder da Legião Urbana conversou com Alexandre Matias sobre o presente e o futuro da banda, a relação com fãs e a imprensa, o primeiro álbum individual e a cena política no Brasil e no mundo.
Nome: Renato Manfredini Júnior
Data e local de nascimento: 27 de março de 1960, Ilha do Governador/RJ
Data e local de morte: 11 de outubro de 1996, Rio de Janeiro/RJ
Ofício: Cantor, compositor e instrumentista
Discografia: 8 discos de estúdio com Legião Urbana e 3 discos individuais
Entrevista, transcrição e texto de abertura: Alexandre Matias
Edição: Ricardo Tacioli
Entrevista realizada na madrugada de 22 de maio de 1994 no The Royal Racket and Country Hotel, em Campinas.
Em 2024 completo três décadas de jornalismo profissional, mesmo não tendo cursado essa graduação. Fiz Ciências Sociais na Unicamp, onde conheci Ricardo Tacioli, que fundou este Gafieiras e, ao lado de outros bichos do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) insatisfeitos com a pasmaceira da vida acadêmica, criamos um cineclube, uma atlética, uma banda, festas e, no centro de toda essa movimentação, um jornal, O Leopoldo.
Quis o universo que uma edição desse “pasquim universitário” fosse parar na redação do Diário do Povo, impresso que cobria Campinas e região. E, num dia há trinta anos, eu era recebido na universidade com o recado de que alguém do jornal queria falar comigo. Num tempo antes do celular e da internet, quando linhas de telefone eram compradas a preço de imóveis, entrar em contato com a secretaria do IFCH foi a forma que Adriana Villar, então editora dos suplementos do Diário, conseguiu falar comigo. Na semana seguinte estava no falecido jornal da Rua Sete de Setembro, no bairro Vila Industrial, conversando sobre a possibilidade de colaborar com o veículo. Adriana editava um caderno voltado para o público adolescente chamado Diário Pirata e a faixa etária de sua equipe já batia os 30 anos. Ao descobrir que eu tinha parcos 19 anos, soube que havia encontrado o repórter certo para aquele caderno.
Comecei a escrever para o Diário Pirata, embora ainda não recebesse um tostão por isso, mas essa novidade me deu uma ideia que comecei a acalentar com Tacioli, que queria seguir carreira como fotojornalista. Cogitamos a possibilidade de criar uma publicação para aproveitar as entrevistas que poderia conseguir a partir do meu novo título, de colaborador oficial de um jornal estabelecido na cidade. Criamos o conceito de uma revista de entrevistas chamada Revista e batíamos nas portas de nomes conhecidos que passavam por Campinas.
O certo é que isso me colocou de frente a ídolos juvenis, quase sempre em dupla com Tacioli. Mas das três entrevistas que considero pilares na minha formação – três que foram parar nas páginas do Diário Pirata -, duas delas fiz sozinho: quando entrevistei Gilberto Gil em sua passagem pelo Ginásio da Unicamp mostrando seu recém-lançado disco Acústico (minha primeira entrevista profissional, que Gil lembrava-se toda vez que o encontrava) e depois Renato Russo no início da turnê de lançamento do sétimo disco da Legião Urbana em Valinhos.
Renato Russo era mais que um ídolo juvenil. Nasci em Brasília, uma cidade que durante os anos 1980 (quando entrei na adolescência) não tinha tradições. Famosa por não ter nada para se fazer, a cidade viu naquele período uma movimentação cultural inédita que aos poucos a colocou à vista de todo o Brasil. Uma safra de novas bandas que hoje é reduzida à tríade Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude não só mostrou para o resto do país que a cidade não era só lar de funcionários do governo, como ensinou isso para sua própria população, que começou a desenvolver um novíssimo orgulho candango. Minha geração sentiu isso de frente e não havia sequer discussão sobre a força-motriz deste movimento – era a Legião Urbana e, à sua frente, seu líder Renato Russo.
O carioca Renato Manfredini Júnior nasceu no mesmo ano em que a cidade que o tornou famoso foi fundada e soube como ninguém traduzir o sentimento das asas do plano piloto e das cidades-satélite, tanto para sua geração como as seguintes. A Brasília descrita pelo Legião Urbana vive até hoje e o épico “Faroeste caboclo” é o hino informal da cidade. Não só vi aquela cena acontecer como ouvinte de primeira mão, como vivi momentos icônicos da minha vida a partir de marcos na história do grupo. O primeiro show que vi na vida, em 1986, foi o lançamento do segundo disco da banda, Dois, no Ginásio Nilson Nelson, e no ano seguinte assisti ao fatídico último show que o grupo fez em Brasília, quando, ao lançar seu terceiro disco Que país é este? – 1978-1987 no Ginásio Mané Garrincha, provocou um quebra-quebra generalizado que teve polícia montada, bombas de gás lacrimogênio, Russo brigando com o público e sendo atacado por um fã no palco. O caos que seguiu-se ao infame incidente entrou para a história de Brasília como “nosso Altamont”, em referência ao trágico festival organizado pelos Rolling Stones nos Estados Unidos em 1969 que acabou por enterrar o sonho hippie. No dia seguinte, as ruas de Brasília amanheciam com pixações que xingavam o grupo, encerrando por vez a fase brasiliense da banda, que já morava no Rio de Janeiro, então sede da indústria fonográfica brasileira, desde 1984, quando lançou seu homônimo disco de estreia.
Desde o show de 1987 não havia mais visto nenhum outro do grupo, ao contrário de seus pares de geração – Paralamas do Sucesso e Titãs, especificamente, mas entre muitos outros – que seguiam visitando Brasília a cada novo lançamento. Por isso quando soube que o grupo de Renato Russo iria começar a turnê de lançamento do disco que haviam lançado em 1993 numa cidade do lado de Campinas, não titubeei e corri atrás.
Aos poucos aprendendo as possibilidades do jornalismo, já havia descoberto que não era preciso pagar o ingresso para assistir ao show e que poderia marcar a entrevista com antecedência. Entrei em contato com o produtor, que sugeriu que eu fosse ao local do show à tarde para tentar conversar com a banda durante uma situação que eu desconhecia chamada “passagem de som”, que é quando os músicos testam o som horas antes da apresentação, para adequar seus equipamento aos da casa. E, de repente, estava sozinho no meio do ginásio assistindo à minha banda favorita.
Não custa lembrar que, embora hoje menor no inconsciente coletivo brasileiro, a Legião Urbana foi um dos maiores sucessos comerciais da música pop nacional, vendendo milhões de discos em seus 12 anos de existência. Suas músicas tocavam no rádio insistentemente e seus shows eram sempre lotados, com o público cantando músicas com letras quilométricas. Eu não estava assistindo a uma banda da minha cidade fazendo show no interior de São Paulo – e sim a um capítulo de um dos maiores fenômenos fonográficos do país.
A passagem de som durou mais que o normal e a entrevista foi adiada para depois do show. Encontraria o grupo no hotel em que estavam hospedados em Campinas, mas como já estava em Valinhos, fiquei.
Depois do show e em Campinas, o produtor veio me avisar que a banda estava terminando uma longa reunião ao redor da piscina e que só Renato Russo ia dar a entrevista. Eram quase quatro da manhã quando me chamaram para falar com o vocalista da Legião, então com 34 anos de idade, que me esperava numa cadeira de piscina depois de despedir-se dos outros integrantes da banda (o guitarrista do grupo, Dado Villa-Lobos, chega a comentar no início da conversa). Me apresentei, expliquei para onde era a entrevista e liguei meu gravador de fita cassete. Havia levado uma fita de 90 minutos: esperava uma longa entrevista, mas a fita acabou e ainda ficamos conversando até o sol nascer. Durante a entrevista, Russo falou sobre o presente e o futuro da Legião, sua relação com a crítica musical e com a imprensa de forma generalizada, do papel de seu trabalho para com os fãs – velhos e novos -, sobre a situação política e social do Brasil e como seu primeiro disco solo antecipava uma resposta ao fascismo brasileiro do futuro. Depois que a fita acabou, falamos muito sobre Beatles e das diferentes Brasílias que convivemos (e seus pontos em comum, como o fato de termos estudado no mesmo colégio e tido os mesmos professores de português), mas essa parte ficou na memória. O que foi registrado serviu de base para a matéria que escrevi para o Diário Pirata sobre o primeiro disco solo de Renato, The Stonewall celebration concert, e depois foi parar na capa da Ilustrada, da Folha de S. Paulo, quando a morte de Renato Russo, em outubro de 1996, completou cinco anos.
A íntegra completa, no entanto, é publicada pela primeira vez exatamente 30 anos após sua realização, na madrugada do dia 22 de maio de 1994, após Tacioli recuperar a transcrição original para reativar seu site de entrevistas. Este Gafieiras, por sua vez, também tem raízes neste período, pois foi neste mesmo ano que conheci o xará e conterrâneo de seu fundador, Ricardo Alexandre, que depois de me encontrar em shows em São Paulo, me convidou para colaborar com o Zap! e o Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo. A amizade com meu quase xará segue décadas e na virada do século me tornou colaborador de outro veículo que Ricardo editava, o site da Som Livre, que além de ter uma loja online de venda de CDs, também trazia um conteúdo editorial. Ricardo Alexandre procurava outros colaboradores, com perfis diferentes do nosso, e o apresentei ao Ricardo Tacioli, que tornou-se colaborador do site e de outros projetos futuros de Ricardo Alexandre. Com esse movimento, trouxe Tacioli não só para o jornalismo – de vez – como para São Paulo, que fez com que, anos mais tarde, criasse este site.
Por isso é com enorme satisfação que aceitei o convite para publicar esta entrevista. Não só por ser um momento importante tanto na minha formação profissional como jornalista e também como fã de música, mas também por marcar esta outra amizade decana, que nos ensinou que o melhor jeito de fazer algo é ir lá e fazer. A revista original não saiu do papel, mas sua ideia acabou forjando não só o futuro Gafieiras conduzido por Tacioli quanto meu próprio Trabalho Sujo, que seria um fanzine caso não fosse abduzido pelo editor-chefe do mesmo jornal que trabalhava, João Paulo Soares, transformando-o em uma coluna semanal sobre cultura pop. E a terceira entrevista importante nesse período – anterior à minha contratação pelo Diário do Povo, que aconteceu em junho daquele ano – contou com a presença, inclusive com fotos, de Tacioli: com Chico Science e sua Nação Zumbi antes mesmo de lançar o primeiro disco. Mas isso fica pra outra edição…
Alexandre Matias — Como foi a gravação de O descobrimento do Brasil?
Renato Russo — Bem, a gente começou a pensar no disco em outubro; de outubro a janeiro de 1993 trabalhamos no estúdio pra ter algumas músicas. Aí quando eu tinha esse material, o Bonfá tinha algumas coisas que tinha feito em casa, e o Dado também, nós juntamos esse material todo e conversamos sobre o que o disco ia falar, as letras iam ser sobre o quê, qual ia ser o clima do disco. Aí, de janeiro a julho eu escrevi a base toda das letras e depois de julho, assim, junho, julho, agosto, se eu não me engano, a gente entrou e começou a ensaiar. Em geral, a gente faz as músicas no estúdio e, dessa vez, queríamos entrar já com o disco todo pronto pra não demorar muito tempo, porque foi a gente que produziu. Então, entramos no estúdio pra valer em agosto e ficamos até setembro; em outubro e novembro nós mixamos e foi lançado no final de novembro. E nesse (disco) a gente queria fazer uma coisa mais leve, com letras mais simples, para as crianças entenderem, porque todo mundo da banda tem filho agora de quatro ou cinco anos de idade. As letras eram pra ser uma coisa relativa a como tentar encontrar uma solução pras coisas todas que acontecem no Brasil, essa questão social que é muito complicada, sem cair no pessimismo do V, que era um disco muito pessimista. A gente decidiu que o melhor formato era fazer um disco o mais variado possível, com uma sonoridade mezzo acústica, quer dizer, tem muito violão, tem muito bandolim, tem dobro, tem cítara e, ao mesmo tempo, tem coisas pesadas, como “Na nuova gioventú” e “Do espírito”. Então, a gente conseguiu, o LP vendeu (até agora) mais de 250 mil cópias. (n.e. Segundo matéria da Folha de S. Paulo de 12 de outubro de 1996, o disco atingiu a marca de 430 mil cópias vendidas)
Matias — E como foi o contato com esses instrumentos, como o bandolim, o dobro e a cítara?
Renato Russo — O bandolim a gente já tinha usado no As quatro estações, quer dizer, o Dado gosta de bandolim e a gente já tinha usado. A gente não colocou no V porque ele (o disco) tinha uma sonoridade muito específica, era uma coisa baixo/guitarra/bateria e teclado. Aquele disco tem bastante teclado. De uma certa maneira, a gente sempre coloca violão mas, dessa vez, a partir do momento que não queríamos um disco uniforme, (e sim) um disco variado, e como não temos baixista — e a gente preferiu não trabalhar com nenhum baixista -, fazíamos as bases e, se a música tinha bateria, a gente fazia a base baixo/guitarra/bateria e pensava “O que podemos colocar pra fazer com que a música soe diferente?”. Às vezes era um violão, ou dois violões, ou duas guitarras. Aí o Dado comprou um bandolim maravilhoso (chama o Dado): Dado! Qual é o nome do cara que fez o seu bandolim?
Dado Villa-Lobos — Que fez o meu bandolim? É o Tavares… (n.e. O luthier Antônio Tavares trabalhou por mais de 30 anos na loja Ao Bandolim de Ouro “Do Souto”, no Rio de Janeiro, frequentada por Pixinguinha e Jacob do Bandolim)
Renato Russo — Mas não era um fera?
Dado Villa-Lobos — Era o… (pensativo) Tá morrendo, o velhinho…
Renato Russo — Em todo o caso, esse velhinho quem faz os bandolins…
Dado Villa-Lobos — É o Tavares, que também é velhinho…
Renato Russo — Tá! Aí ele conseguiu esse super instrumento e ficava andando com o bandolim pra cima e pra baixo. Então, vamos usar, né? Foi uma coisa natural. O dobro foi pra ter uma sonoridade parecida com a do violão de 12 cordas, mas que não fosse um violão de 12 cordas. E a gente gosta de experimentar. A coisa que eu mais gosto de fazer é trabalhar no estúdio, é de longe o que eu mais gosto de fazer. E a cítara entrou em “Love in the afternoon”, que era uma música muito longa. Quando a gente gravou a base, ela ficou com quase uns cinco minutos. “Bem, ela não pode ser só essa coisa!” E eu queria dar um clima meio oriental, que é uma coisa que o As quatro estações já tinha. Então, foi, aconteceu. E foi fácil, alugamos uma cítara, eu peguei, vi como funcionava e, basicamente, a gente afinou a cítara no tom da música pra facilitar. A gente gravou várias vezes, por isso fica aquela coisa, mas não é muito difícil de fazer aquilo. A música tinha teclados, tinha um ambiente sonoro todo pronto.
Matias — Dá pra dividir a carreira da Legião em fases?
Renato Russo — Eu acho que tem a primeira fase que é Brasília, que vai até 1985; a gente já estava no Rio em 84 e lançamos o primeiro disco em 85… (pausa) Cada disco é uma fase, a gente divide assim.
Matias — E tem uma fase que você considera melhor que as outras?
Renato Russo — Eu não sei, porque eu gosto de todas as fases. O meu disco favorito é o V, que é o disco mais difícil. Eu gosto muito do Descobrimento do Brasil, agora que eu encontrei a programação dos 12 passos, parei de beber, parei de me drogar, eu tô com outra cabeça, então, agora tudo tá mais tranquilo. (n.e. Técnica dos 12 passos dos Alcoólicos e Narcóticos Anônimos) Nesse show (dia 21 de maio de 1994 em Valinhos, SP) o som estava um caos, estava tudo um horror e o público super legal, nossa, que garotada bacana, e eu naquela agonia de “Meu Deus, essas pessoas gostam tanto da gente e a gente com esse som horroroso!”. Até falei isso no show. E o que aconteceu foi isso, a gente não pôde mostrar, não pôde retribuir (o carinho do público) por uma questão técnica. Todo mundo adorou o show e foi muito bacana, só que nós somos muito perfeccionistas, entende? O som não tava bom, a gente não estava ouvindo, eu falava e não ouvia, porque o som estava alto demais. O povo ouviu, todo mundo gostou, foi 100%, mas dá essa agonia da gente sentir que não fez o melhor. Não por nossa culpa, mas por causa do lugar que tinha uma reverberação brutal: o público berrava muito e o engenheiro de som teve que aumentar tudo; aí desequilibrou as coisas. No começo era só “Brum, brum, brum” e eu berrando, não dava pra ouvir todos os detalhes, flautinha, coisinhas de teclado, violão e guitarra, sabe? Então isso foi meio complicado, mas já deu pra perceber que é outro clima: se fosse numa outra época, eu teria ficado tão preocupado e tão chateado… Agora, não, a gente votou, foi uma experiência difícil, (mas) o público adorou e foi válido ter feito o show. Mas fiquei pensando assim: “Poxa, ia ser legal se a gente tivesse tocado ao ar livre, sem problema de eco, essas coisas”. E, de qualquer forma, eu não tô preocupado, fiquei um pouco chateado, mas antigamente eu ia beber, ia tomar um porre, “Nunca mais vou fazer show e nhen-nhen-nhen”. Então, existe uma tranquilidade, uma serenidade que esse disco trouxe e que as músicas refletem, então eu gosto muito desse (álbum).
Teve uma época em que eu gostava muito do Dois, e teve uma época que eu gostava muito de As quatro estações também, mas tocaram tanto… Se eu (for) ouvir algum disco da Legião em casa, eu ouço o V, porque tem as melhores letras. Mas o maior sucesso foi o As quatro estações e, em seguida, o Dois. O primeiro disco é o favorito de muita gente, muita gente acha que o primeiro ainda é assim: “Uau! Espetacular!”. Depende, né? Tem o Música p/ acampamentos que é fabuloso.
Matias — E como foi a saída dessa fase down, do álcool e das drogas?
Renato Russo — Foi exatamente isso, eu tava me destruindo e, em vez de me matar com um tiro na cabeça, eu resolvi procurar ajuda. Procurei ajuda e, a cada dia que passa, eu lido com esse problema da melhor maneira possível.
Matias — E isso foi mais ou menos à época do V, né?
Renato Russo — Ah, isso vem desde os 17 anos, só que no V foi a primeira vez que eu coloquei na música aquelas questões. “A montanha mágica” é sobre isso. Mas foi sempre uma coisa que acompanhou a banda, porque é rock and roll, né, que é uma bobagem, mas, infelizmente, a gente cai nesses erros. Eu era jovem e acabei entrando num beco sem saída. Tem muita gente que erra e depois sai: “Ah, não, não quero mais!”. Isso foi me consumindo; eu ficava deprimido e não sabia porque eu ficava deprimido, achava que o mundo era horrível, igualzinho ao Kurt Cobain: “Nada vale a pena, não vale a pena mais nada!”. (n.e. O líder da banda Nirvana havia se suicidado em 5 de abril de 1994, aos 27 anos de idade) Isso é estranho! Quero dizer, se eu achar um dia que as coisas não valem a pena, eu quero é estar com a minha cabeça no lugar e “Olha, as coisas não valem a pena” e aí eu vou tomar uma atitude, seja qual ela for, mas com a cabeça no lugar. Agora, ficar achando que as coisas não valem a pena porque eu tô com o corpo cheio de toxinas, aí é maus. Eu parei com as toxinas e vi que as coisas não são bem assim. Então tinha coisa ali, né?
Matias — A influência das dependências (químicas) se refletia também nas músicas ou somente nas letras?
Renato Russo — Eu não sei porque eu sou exatamente a mesma pessoa…
Matias — Porque o V pega mais pelo lado progressivo…
Renato Russo — Não, mas isso a gente decide. Todo o disco a gente tenta fazer alguma coisa diferente, até porque é divertido pra não ficar sempre na obrigação de repetir o mesmo trabalho e as pessoas falarem: “Ah, eles fazem sempre a mesma coisa”. As quatro estações, que é um disco pop, a gente não achava que fosse estourar tanto, porque é um disco difícil mas, de repente, todo mundo gosta, as letras são complicadésimas, mas todo mundo gosta, todo mundo canta, acha maravilhoso. É um disco super controvertido, não é tão pra cima quanto as pessoas acham. É um disco tão depressivo quanto o V.
Matias — Por exemplo.
Renato Russo — “Parece cocaína, mas é só tristeza. Talvez, tua cidade. Muitos temores nascem do cansaço e da solidão.” (n.e. Letra de “Há tempos”, de Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, faixa de abertura do LP ‘As quatro estações’)
Matias — Mas a música é mais “pra cima”, não?
Renato Russo — Ah, depende. As pessoas não estão ouvindo o que eu estou falando?
Matias — Mas a música influencia muito nisso.
Renato Russo — Depende. Quer dizer, eu não sei se influi.
Matias — Você pega, por exemplo, a versão de “Teatro dos vampiros”, do V, com a banda toda, e a versão ao vivo do Música p/ acampamentos, somente voz e violão. A segunda valoriza muito mais a letra.
Renato Russo — Entendo, mas é aquela história: eu pessoalmente não consigo ouvir uma música pra cima que tem uma letra pesada. Tem muitas bandas que fazem isso, como o Ride; Jesus & Mary Chain faz muito isso. Você tá cantando uma música super alegrinha e o cara tá lá (cantando): “Eu vou morrer, eu vou me matar”. My Bloody Valentine faz isso. Aliás, todas essas bandas que a gente ouve e gosta fazem isso. Smiths. De repente, ele tá lá cantando: “And if a double decker bus crashed into us” (“Se um ônibus de dois andares bater em nós”, letra de “There is a light that never goes out”), mas assim “Êêêêê!!”, entendeu? (n.e. Sucesso do grupo inglês The Smiths, lançado em 1986 no álbum ‘The queen is dead’) Então, eu não vejo por esse lado, porque sempre ouço e presto atenção na letra. Agora, é claro, o Quatro estações tinha algumas coisas que puxavam pra cima, “Monte Castelo”, por exemplo. Mas “Maurício” é completamente deprê: se a pessoa estiver deprimida e ouvir aquela música, vai ter um treco. [“Já não sei dizer se ainda sei sentir / O meu coração já não me pertence / Já não quer mais me obedecer / Parece agora estar tão cansado quanto eu (…)”] Ao passo que algumas letras do V não são tão depressivas, vejo se consigo oferecer uma solução, porque a solução do Quatro estações é aquela coisa espiritual, “Vamo ver se é por aí” e chega no fim “Olha, não sei se é por aí”. No V, não, já tem uma outra coisa, tem uma outra visão. Mas é aquilo, como o Quatro estações foi percebido como um disco pop, mais até do que o Dois e o Que país é este?, a gente falou assim: “Não vamos mais fazer um disco pop”, porque se a gente fizesse um outro disco no formato de Quatro estações, que foi mega, a gente vai ser obrigado a repetir isso pra sempre. A gente tentou fazer músicas mais pra cima depois do Quatro estações e a gente não conseguiu, quer dizer, conseguiu, mas não ficou bom. O descobrimento do Brasil não é o disco “pra cima”. É como o Power, corruption & lies, do New Order que, depois do Joy Division, é a coisa mais gloriosa do mundo, mas se você prestar atenção, aquilo é bem pesado, sabe? A gente não conseguiu fazer como o Cure fez com “Lovecats”, que eles vieram com o “Pornography” e de repente (cantando): “Lovecats tchurururu”, mudaram completamente. Mas, mesmo assim, um bom exemplo de letra depressiva é aquela música “Close to me” (do Cure). Aquilo é o cara falando que a morte tá chegando, só que você tem que prestar muita atenção, porque ele tá falando: “Eu nunca pensei que fosse assim, eu nunca senti tanto medo, tudo tá tão perto de mim”, mas a música é alegrinha, tem aquele (imitando um trompete) “Tchanãnãnãnã”. Então isso é muito relativo.
Matias — Mas isso é percebido em As quatro estações, em que a música é mais pra cima, mas a letra…
Renato Russo — Mas, em geral, as pessoas achavam que aquele disco era a coisa mais alegre que já foi feita. E é verdade, até pelo modo que as pessoas reagem no show e tudo. E o V, não, as pessoas têm um horror, que é (uma coisa) pesada e tudo. Mas, pra terminar, a gente decidiu fazer lento. Uma música que é bem sintomática disso é “Sereníssima” que, pra mim, é uma que não deu certo. A gente tentou fazer essa música de tudo quanto é jeito, “Vamos fazer uma música alegre pelo menos”, e não saiu. O que ficava legal era “A montanha mágica”. “Russo, ficou tão legal, vamos fazer 10 minutos disso?” Aliás, eu gosto muito da versão do Música p/ acampamentos, acho maravilhosa.
Matias — O V pode ser dividido em dois discos, duas partes, não?
Renato Russo — Depende. “Vento no litoral” tocou porque é uma música que tem uma melodia bonita, porque são seis minutos daqueles (imita a levada da música).
Matias — Mas ela é mais “acessível” que “A ordem dos templários”.
Renato Russo — Talvez, primeiro porque “A ordem dos templários” não tem letra. Mas eu acho “Metal contra as nuvens” uma música super acessível. A gente até pensou em cortar em vez de repetir tanto como a gente tá tocando nos shows: em vez de quatro vezes, quatro vezes, quatro vezes, a gente faz duas, duas, duas. É uma música muito legal! Mas é que o disco falava de coisas que as pessoas não estavam querendo ouvir na hora. Foi quando estourou a axé music, teve toda uma coisa e a gente veio pela contramão. Mas eu fiquei muito satisfeito, o disco foi Platina. (n.e. Equivalente à 250 mil cópias vendidas) Pra mim são as melhores letras, de longe. Eu leio e fico: “Nossa, se essas letras ficarem, eu não vou ter problema nenhum!”. Eu gosto muito daquelas letras, consegui falar tudo o que eu queria. Até uma música que não funciona pra mim, como “Sereníssima”, tem uma letra lapidar. Só que as pessoas não queriam ouvir aquilo, “Você espera respostas que eu não tenho, mas não vou brigar por causa disso” e aqueles fãs berrando, aquela coisa “Chega dessa história de Messias!”. Mas ninguém comentou sobre isso, porque naquela época a crítica que, às vezes puxa uma certa discussão, uma certa “sacação” — eu detesto essa palavra “sacação” -, uma certa compreensão, tipo “O que eles tão fazendo aqui?”, ninguém quis encostar naquele disco. Por exemplo: “Metal contra as nuvens” é sobre Collor e todas aquelas coisas que estavam acontecendo no Brasil naquela época, e eu nunca vi ninguém falar sobre isso. (n.e. Fernando Collor de Mello, PRN, foi eleito presidente do Brasil nas eleições de 1989 — as primeiras diretas pós-ditadura militar — e, acusado de corrupção, sofreu impeachment em 1992) Mesmo “A montanha mágica”, que é uma música sobre drogas, nunca vi ninguém falar isso. A jornalista da Folha de S. Paulo chegava e escrevia que as letras não faziam sentido. Ela citou “L’Âge d’Or” colocando assim “Meu tornozelo coça por causa de um mosquito / Estou com os cabelos molhados, me sinto limpo”, dizendo que isso não fazia sentido. E eu ficava “Ué, será que não tem mosquito em São Paulo? Será que essa senhora não toma banho? Ela nunca ficou com os cabelos molhados e uma sensação de frescor?”. Então, as pessoas não queriam. Agora a gente já tá um pouco tarimbado. O importante é o público, a gente tem que respeitar o público. Se não é pelo público, a gente não é nada. Se a pessoa faz uma reportagem e explica o que a gente é negativamente, “Ó, não gosto porque isso…”, tudo bem. Mas, de repente, as pessoas não ouvem e ainda ficam explicando que é uma merda. Não gosto disso, não! É aquela tal história: eu adoro Jorge Ben, mas, de repente, é obrigação ter que reconhecer que Jorge Ben é um gênio. Mas o cara faz o mesmo tipo de música há um tempão, será que descobriram Jorge Ben? Eu vejo isso, por exemplo, com o novo disco do Morrissey, que não é tão bom quanto Your arsenal. (n.e. Referência à ‘Vauxhall and I’, quarto disco de estúdio do ex-líder dos Smiths, lançado em março de 1994) O novo disco dele não tem single! São 29 minutos, aquela coisa. É repetitivo, é chato… Eu achei chato. E fica todo mundo dizendo (imita fã desesperado): “Oh, é maravilhoso, é maravilhoso!”. E quando chegou o Your arsenal, que era maravilhoso, (era) pra se colocar “Putz! Que disco maravilhoso!”, (mas) ficou todo mundo assim: “Mmm… Será que é maravilhoso mesmo? Será que eu vou falar?”. Com Caetano a mesma coisa quando lançou O estrangeiro (1989)… Aquele disco é uma obra-prima! E ficou todo mundo assim: “Ai, vou falar ou não vou falar?”. Aí ele lança o Circuladô (1991), que é bom, mas não é tão bom: “Êêêê, obra-prima do Caetano!”. Parece que tem dessas coisas: “A gente não falou bem daquela vez, agora vamos falar”. Então, depois de As quatro estações, que não tinha como falar mal daquele disco, tava todo mundo esperando, aí o Paralamas lançou e foi destruído pela crítica, Titãs lançou, foi destruído… aliás, Titãs foi dizimado! (n.e. Referência aos discos lançados em 1991 ‘Os grãos’, dos Paralamas do Sucesso, e ‘Tudo ao mesmo tempo agora’, dos Titãs) Independentemente das pessoas gostarem ou não, tem que respeitar o direito do artista fazer o que quer, ver que eles trabalharam pra caramba naquilo e tentar entender. “Dentro do trabalho dos Titãs, como é que esse disco funciona? O que eles querem fazer e o que eles conseguiram?” “Esse disco da Legião Urbana…, eles têm uma certa linha, o que eles fazem?”, mas não “Agora nós decidimos que Legião Urbana não tem a ver. Irk!”.
Matias — O ideal seria contextualizar o disco na carreira do grupo?
Renato Russo — Mas esse é o trabalho da crítica, não é mesmo?
Matias — É um disco de cover, né?
Renato Russo — Só cover. Vem todas as letras. Então, se você for contra os gays, não compre! A pessoa que estiver comprando o disco, já vai estar dando o seu voto de que não é fascista, respeita e tal. É um disco sobre o respeito. Você pode ser diferente, mas você respeita. Se a pessoa não gosta disso, não compra. E tem a questão da campanha do Betinho, que é o lance de você atentar às pessoas que são subjugadas e oprimidas, mesmo que seja uma coisa pequena, pois acho que o disco não vai dar muito dinheiro. É um ato simbólico, mas ajuda. Não é pra ser um exemplo, mas é pra ser uma coisa minha, uma coisa que eu posso fazer. Eu me senti mais feliz comigo tendo feito esse trabalho. E, no final do disco, depois das letras, vem uma lista das principais ONGs, as organizações não-governamentais que trabalham no Brasil, as da defesa dos direitos da criança, das mulheres e das minorias sexuais, principalmente. Entra o endereço do Greenpeace, Anistia Internacional, Sociedade Viva Cazuza, umas três ou quatro páginas com os telefones. Movimento Nacional dos Meninos de Rua tá lá. E é isso, a pessoa ouvindo as letras — tem que saber inglês, eu não quis colocar a tradução -, vai saber que o disco é um trabalho contra a opressão do espírito humano. Isso está bem claro, é um disco meio cinematográfico. Espero que venda à beça. (n.e. Até 1996, havia vendido cerca de 200 mil cópias, conforme matéria publicada na Folha de S. Paulo de 12 de outubro daquele ano)
Matias — Existe alguma música no último disco que possa refletir como será o futuro da Legião?
Renato Russo — A gente não tem ideia. Eu queria virar uma banda pop. Resolveria todos os meus problemas se eu pudesse virar um Fleetwood Mac, porque aí a gente faria clipe sem trauma; a gente não faz clipe porque não quer que as pessoas tenham uma ideia errada da música. Eu ouço Rubber soul, dos Beatles, e tenho a minha relação com ele. Agora, se eu vejo um clipe com o Sting dançando com umas velas, todas as vezes que eu ouvir essa música, vou lembrar do Sting dançando com as velas. Corta todo barato com a música, que é chegar em casa meio triste: “Ah, vou ouvir tal música!”. Agora, uma banda pop não tem esse tipo de problema, porque você pode fazer (cantando): “Cry for help, is all I need” (n.e. Sucesso de Rick Astley, 1991), Bon Jovi, Duran Duran, não tem problema nenhum. Agora, uma banda como o Nirvana já fica mais complicado — é bacana ver os caras lá e tudo, mas fica um pouco complicado. Mesmo o Nirvana, que eu gosto — não gosto muito do Nevermind -, mas não consigo ouvir aquelas músicas sem lembrar do Kurt de óculos, quebrando as coisas. Mesmo “Heart-shaped box” (n.e. Faixa do disco ‘In utero’, de 1991), que é uma música que eu gosto. Se é a banda tocando no MTV acústico, não tem problema, mas eu gosto de ouvir um disco e me relacionar (com ele), porque não é aquela coisa de imagem visual e sim emocional. A pessoa fazendo um clipe — que é muito difícil de se fazer -, se não tem a imagem emocional, fica sendo somente uma peça promocional. Aí você ouve e espera o próximo clipe. Então é isso, eu queria virar uma banda pop, mas não sei… Mesmo assim, fiquei muito feliz porque o público gosta da gente, fico feliz da vida quando aparece a menininha de 14 anos andando na rua com os livros e o primeiro disco. Isso quer dizer que a gente tá fazendo alguma coisa certa. Mas não vejo como a gente vai seguir fazendo o que estamos fazendo, estamos correndo o risco de se repetir. Depois de “Perfeição”, eu vou escrever o quê? Outro dia eu sentei pra escrever uma letra e veio “Perfeição” com outras palavras. E depois que você fala “Vamos celebrar a estupidez humana”, o que que vai falar? Ao passo que, se virar uma banda pop, não precisa ter esse tipo de preocupação a partir do momento em que essas músicas entrarem no coração das pessoas… Hoje eu vi bem isso no show, todo mundo canta “Há tempos”, “Petróleo do futuro”. Imagina, “Petróleo”, do primeiro disco, nem foi sucesso, “Baader-Meinhoff blues”, tudo. Então, tem a ver com a realidade das pessoas. Talvez a gente faça alguma coisa tipo Cure, e com o tempo faça uma mescla. Fazer músicas como “Open”, do Wish (n.e. Nono disco de estúdio da banda de Robert Smith, lançado em 1992), que não é nem lá, nem cá, não é tão “Lovecats”, nem “Pornography”. Ou, então, virar uma banda de trabalho, como o New Order. Eu falo mais dessas bandas, porque elas são mais conhecidas, tá? Uma banda como o Smashing Pumpkins está numa posição muito curiosa, porque não dá pra saber o que ela vai fazer depois. O Kurt mesmo falou: “Olha, tô cansado de ter que cantar esses rocks, ‘eu vou me matar’, eu quero mais é fazer umas músicas suaves”. A vantagem é que a gente já deu uma abertura: no primeiro disco tem umas coisas acústicas, baladas. Sei que não quero ficar falando como está tudo horrível… Se a gente cansar, a gente pára; se a gente achar que ainda vale a pena, a gente continua.
Matias — Mas você pode pegar um Abbey road, dos Beatles, um Dark side of the moon, do Pink Floyd, e isoladamente você dizer que esse é um disco muito bom.
Renato Russo — Ah, mas isoladamente você pode dizer que esse é um disco muito ruim. Você pode chegar e dizer que Hamlet, do Shakespeare, é uma peça idiota, porque tem quatro horas e meia de duração, é pra ser um drama de ação e as pessoas falam sem parar, o cara usa um recurso muito antigo que é de colocar um fantasma em cena e no final todos morrem, e o herói não se resolve e pronto! Quer dizer, se a pessoa vai falar mal, ela vai falar mal, se a pessoa quer falar bem, ela vai falar bem, o negócio é que não tem nem que falar mal nem bem, tem que chegar a uma compreensão do que é. Então não é assim: “Ah, essa piscina: adorei o formato”. Não! “O formato dessa piscina é mais ou menos em oito, a profundidade dela é de tantos metros, a água tá bem tratada e limpa.” Colocando isso, a pessoa poderia até ter a liberdade para falar: “Não gosto de piscina com cloro, prefiro tomar banho em uma piscina de água natural”, mas explicou o que é. Quando você chega e fala assim: “Não!”, isso é negativo, porque isso tem o outro lado da moeda; e (também) quando as pessoas falam bem e estão falando pelos motivos errados. Então, a função desse trabalho é justamente acompanhar: “O que eles tentaram fazer? Por que saiu assim?”. Senão, você pega um disco como Let it be (dos Beatles) e destroi. E, de repente, você tem que saber que o Phil Spector (produtor do disco) chegou e pôs cordas em “The long and winding road” e por isso ficou meloso, apesar do Paul McCartney ser meloso, as sessões de gravação daquele disco foram um caos.
Matias — É como falar que Ramones é uma merda sem analisar a importância deles pro punk.
Renato Russo — É, “Essa bandinha bosta, só toca canções de três acordes, as letras são todas idiotas e o cara é um galalau de quase 40 anos que sempre fala da mesma coisa de adolescente”. Era o que o Tárik (de Souza, crítico musical) falava no começo. Depois eles lançaram aquele ao vivo duplo (Loco live) e o Tárik deu quatro estrelas. Isso é complicado.
Matias — E quanto à crítica paulista, que diz com letras garrafais que Guns n’Roses é a pior banda do planeta, fala mal dos Engenheiros (do Hawaii) o tempo todo, fazendo algo ou não…
Renato Russo — Eles usam os motivos errados. O que motiva eles — minha opinião, eu não sou o dono da verdade — é um rancor, um ressentimento, uma inveja e uma incompreensão do que é o nosso país e como as coisas funcionam. Uma coisa é você acompanhar o que acontece no Brasil, como é feita a gravação, como funciona a gravadora, o ECAD, saber onde é que a gente está. Outra coisa é você receber a matéria diagramada do U2, com fotos do Anton Corbijn (n.e. Fotógrafo e cineasta holandês) e colocar tudo lá, e quando você ouve o disco do U2, você já teve todas as resenhas da Face, Melody Marker, Spin, Rolling Stone, de todo mundo no mundo falando do disco, entende? Então, se o cara não gostou do disco é muita coragem ele chegar e falar “O Zooropa é uma merda”, eles não vão falar isso. Agora, quando alguém lança alguma coisa aqui no Brasil e ninguém sabe o que é, aí fica complicado. Eu não gosto de Guns n’Roses, mas os motivos pelos quais essas pessoas dizem que o Guns n’Roses não presta não são os motivos pelos quais o Guns n’Roses não presta. Eles (os críticos) não entram naquela porque eles sabem que Axl Rose não vai olhar pra eles. Aí descobrem aquele lado B que saiu na Bélgica que ninguém ouviu e eles dizem que é a maior maravilha do mundo. A partir do momento que todo mundo conhece e tem uma chance de ter uma opinião própria, corta-se o poder deles. É o pessoal que diz que Abba é maravilhoso. Tudo bem, eu nunca tive problema com Abba e Duran Duran; eu ouvia Duran Duran! Não acho a melhor banda do mundo; não é como Public Image pra mim. (n.e. Public Image Ltd, ou PIL, banda britânica de pós-punk liderada pelo ex-Sex Pistols John Lydon) Metal box é maravilhoso, o Flowers of romance é maravilhoso e o primeiro disco é maravilhoso. Não vou comparar Duran Duran com (PIL), mas também não vou dizer que Duran Duran é uma merda. Porque não é! Agora, “Duran Duran é uma merda” e, dez anos depois “Não, eles eram bons”, pra quê? Pra ser do contra, eu acho! Porque se você for na casa dessas pessoas, você vai ficar muito surpreso com o que eles ouvem. Eles não ouvem o que eles dizem que ouvem, não ouvem mesmo. Eu tenho experiência, não com o pessoal de São Paulo, mas o do Rio. Eles ouvem Simply Red, Elvis Costello, Pretenders, é isso que o jornalista ouve. Jornalista ouve Sting! E os caras que são do rock and roll, você vê logo na hora. É o Celso Pucci — o Minho K. Ele é legal, bem legal. (n.e. 1960–2002, Pucci foi guitarrista de bandas como Verminose, Fellini e Voluntários da Pátria; e como jornalista trabalhou na Bizz e O Estado de S. Paulo) O Zé Augusto Lemos é legal, o Jamari França é legal. (n.e. José Augusto Lemos foi um dos editores e diretores da revista Bizz, 1985–1994; Jamari França cobriu o rock nacional nos anos 1980 para o Jornal do Brasil) O dia que a gente faz uma coisa que não é legal, o Jamari chega e fala: “Renato, não deu certo!”. Pode falar sem problema nenhum, ele tem uma certa sinceridade. Acredito que essas pessoas que são muito virulentas têm uma certa necessidade de se provar. Elas talvez não tenham a coragem de admitir que gostam de certas coisas, porque não é importante você gostar de uma coisa, o importante (pra eles) é gostar do que é certo, é ouvir o que é certo. Existe muito esse clima. Eu me lembro quando o Gang of Four lançou o Hard, eu acho, não sei se é Hard, é o que veio depois daquele (disco com capa) dos barcos (n.e. ‘Songs of the free’, 1982), que começava com (cantando): “Is this love?” (n.e. Faixa de abertura do disco ‘Hard’, de 1983), juntou um bando de jornalistas amigos nossos de São Paulo – que é o núcleo dessa turma, o (André) Forastieri já é mais novo – pra ouvir o disco… Aí ninguém sabia o que falar. (n.e. André Forastieri, 1965, é jornalista, trabalhou na Folha de S. Paulo e foi editor de revistas como a Bizz e Set) Porque o Gang of Four era a banda marxista, tinha um discurso político e, de repente, estavam falando de amor, essa coisa brega, e “Nós, que somos fãs, a gente vai ter que se adaptar?”. Ninguém sabia o que falar, e aí picharam o disco, e é um bom disco. “Vocês têm que dizer que o Closer, do Joy Division, é maravilhoso, e que o Substance, do New Order, não é!” Entendeu? Não é nem dizer que é maravilhoso e que não é, tem que dizer “O Closer começa com uma música que leva oito minutos, é extremamente depressiva, é um rito tribal, fala de freaks num parque de diversões, faz uma analogia entre deformidades físicas e a condição humana e pronto”. Depois você diz, “É monótono e eu não gosto, não é o tipo de disco que você levaria para um acampamento”. E depois o outro: “Ah, ‘Blue monday’ é uma música pop dançante, tem uma batida espetacular, é o disco independente que mais vendeu cópias na vida e eu não gosto porque eu acho chato, prefiro ouvir outra coisa”, mas eles, não! (n.e. Single lançado originalmente em 1984 e, mais tarde, como uma das faixas do álbum ‘Substance’, de 1987) É fascismo isso dizer que se você gosta ou se você não gosta. Os meios de comunicação são muito complicados, porque podem ter a linha editorial que for, mas é só você pegar a seção de cartas que você vê que o público não tá nem um pouco interessado, o público sabe o que ele gosta. Não adianta você dizer que Nirvana é o máximo se as pessoas não gostarem de Nirvana, não vão comprar Nirvana e não vão querer saber! Não adianta dizer que Nirvana é uma bosta se a garotada gosta, e pronto, ela vai comprar. É o caso dos Engenheiros (do Hawaii): todo mundo diz que é horrível, mas tem seu público. Então, não existe um reconhecimento do trabalho deles, fala-se que Engenheiros é uma merda, mas os caras trabalham pra caramba, lançam disco, tem uma preocupação com o trabalho, independentemente de qualquer coisa, eles têm uma linha, têm uma coisa que é muito difícil de se ter, e que é o mais importante numa banda: eles têm concepção! Eles têm o trabalho deles, você pode não gostar, eles têm o universo deles, eles têm os ritmos que eles usam, entende? E existe um trabalho ali, existe seriedade.
Matias — Honestidade com o público, não?
Renato Russo — É, honestidade com o público, claro! Os caras lançam um disco, chamam os fãs pra fazer uma apresentação ao vivo, que é gravada, fazem clipe… Não são como a gente que, de repente, vacila e não faz clipe, não faz nada e não se reconhece esse lado. Se você falar “Olha, os Engenheiros têm tudo isso, mas eu não gosto”, tudo bem. Não é que nem o cara falando do Lulu Santos: “Tem alguns cantores que têm cara de bovino, outros têm cara de equino, tem um que tem cara de canino e tem até nome de cachorro: Lulu”. Isso é bobo, porque você fica numa terra de ninguém, e depois eles ficam atrás da gente pra entrevista. O André Forastieri tá querendo que a gente faça capa da General, aquela revista nova que eles compraram que eu espero que vá à falência… Quer dizer, eu não espero nada, quero que eles tenham sucesso e tudo mais. (n.e. Revista de cinema, música e quadrinhos criada por Rogério de Campos e Forastieri. Circulou entre 1993 e 1994) Mas, tipo assim, aprontam pra caramba com você e ainda esperam que você vá na casa deles tomar cafezinho. “Como vocês não vão (dar uma) entrevista pra mim?”. A gente não falava com a Bizz na época que eles estavam porque a gente não concorda com certas coisas, vai ficar dando entrevista pra General? A Bizz, a mesma coisa, começou a perder circulação de um jeito… Era até colocar ZZ Top na capa que, tudo bem, mas ZZ Top, dá um tempo, não tem expressividade nenhuma no Brasil. É como a Veja. Outro dia fiz uma pequena nota pra Veja, só que pra Vejinha Rio, aquela coisa pequena, que é uma outra linha editorial, é bacana, e eu falei assim: “Pois é, pra vocês (do Rio) eu até falo, mas pra Veja eu não falo, não!”, e a menina quis saber porquê. E eu falei: “Ah, essa coisa de se achar o dono da verdade… E você não tem direito à resposta!”. Se, ao menos, eles dessem direito de resposta, mas sai aquela coisinha: “Veja concorda com o que foi dito…”. Mas, tudo bem, não vou ficar brigando com a Veja. E ela falou assim “Pois é, é chato porque tem muita gente também (que comenta isso)”. Foi a primeira vez que eu percebi que eu não era o único. E ela falou: “Olha, Renato, é muita gente que não fala com a Veja, principalmente artista”. Então, eu não tô errado. De repente, vejo o Ney Matogrosso, independentemente do trabalho do cara, chegar e dizer: “A imprensa não te respeita”. E aqui no Brasil, que é um país com 70 milhões de analfabetos, a imprensa é o quarto poder. A imprensa, os meios de comunicação de massa. Eu acho um crime a televisão brasileira, um crime. Hoje eu estava assistindo aquela série Wonder years (Anos incríveis), na (TV) Cultura — lá em Ipanema não pega por causa das montanhas: “Puta que o pariu, isso é que tem que passar: documentários, programas infantis da Cultura!”. O Castelo Rá-Tim-Bum é o máximo, deixa a pessoa feliz e isso é justamente o que a gente não tem acesso. Na minha cabeça, se eu tivesse poder pra alguma coisa, seria assim: quer ver estupro no SBT às três horas da tarde? Paga. Televisão normal, vai ser normal.
Matias — Televisão normal seria O Sítio do Picapau Amarelo?
Renato Russo — Exato, tirando os jornais, talvez. Porque é aquela história, se existe uma necessidade, uma vontade de assistir esse tipo de programa, vai se organizar a coisa toda, e a pessoa vai, vê lá e tal. Mas se eu tô com o meu filho, tenho que ficar monitorando, aí é maus. E eu sou contra a censura, você não pode chegar e falar “O.K., não ter esse tipo de programa”, porque é perigoso. Em cima dessa coisa de censura, eles vão coibir o Partido Nazista, mas vão coibir o Partido Verde com os mesmo argumentos, entende? Então, não pode existir nenhum tipo de censura. Você não pode coibir nada, você tem que dar liberdade. Liberdade, nesses termos: quer ver aquelas coisas do Faustão? Paga. Aquelas pessoas fazendo papel ridículo e “Ah, mas eles gostam…”, mas ninguém tem que ver isso, sinceramente. Programa religioso? Paga. Você não tem que ligar a televisão e ficar assistindo: “Nos libertem das hemorroidas, Jesus! Da Aids, Jesus! Dos demônios!”. O que é isso? E os donos de estação, o sr. Roberto Marinho, o bispo Edir Macedo… Oprime-se o povo, não se dá educação e fica uma coisa complicada, porque as pessoas não pensam.
Matias — E na televisão brasileira é tudo imposto, né? A Cultura é a única…
Renato Russo — Não, até a Globo tem coisas boas, o SBT tem coisas boas, o programa do Serginho Groisman é muito bom. Eu fui lá, eu vi lá in loco, ele respeita aquela garotada… (n.e. Programa Livre, exibido pelo SBT entre 1991 e 2001. Em 10 de maio de 1994, 12 dias antes desta entrevista, a Legião foi sua atração principal) O Jô é um programa interessante. (n.e. O grupo participou do Programa do Jô, também no SBT, no dia 2 de maio de 1994) Existem ilhas, mas o frame, a moldura da coisa é esquisita. Eles passam programa interessantíssimo sobre educação às cinco horas da manhã — que, às vezes, as pessoas acham chato, aí não assiste, liga no canal de esportes! Televisão é isso, você liga se está entediado. Agora, um programa bem feito, uma pessoa que sabe falar, um assunto interessante, sabe? Pra isso é que serve o jornalismo. Você deve ter feito Jornalismo, e é isso que a gente aprende, você pode falar sobre esse cinzeiro e ser a coisa mais interessante do mundo, esse é o trabalho do jornalista. Eu sou formado em Comunicação Social, eu sei. Às vezes, o programa é feito sobre coisas interessantíssimas, mas é um negócio entediante. E, de repente, tem um cara falando lá sobre, sei lá, a cartilha que é feita nas escolas e é uma coisa legal, mas não se atenta pra isso. Então, o que que a gente tem: uma juventude que não tem saída, não tem esperança, que tá sendo completamente manipulada. O rock and roll está sendo usado de uma maneira que eu não aguento mais. Quando a gente começou, não tinha vídeo, vídeo-game, computador, isso há dez anos, não tinha loja independente, não tinha selo independente, era complicado. Mas, em compensação, não tinha anúncio de achocolatado com trilha de rock and roll, não tinha a atitude rock and roll. É horrível o que acontece hoje em dia, eles não têm sobre o que falar… Aí você pega o jornal e lê: “Who completa 30 anos”. O que que isso interessa? Será que no Brasil não acontece nada? Eu gosto muito de rock and roll, mas será que não tem um espaço sobre isso. Aí você pega a página cultural de um jornal e lê sobre a peça da Eliane Giardini, o que está sendo feito aqui e ali, mas não, você pega capa e contracapa Lollapalooza!, imagina! (n.e. A atriz Eliane Giardini estreou a peça ‘Querida mamãe’, de Maria Adelaide Amaral, com Eva Wilma e direção de José Wilker, entre abril e junho de 1994 no palco do Teatro Delfin, zona sul carioca. A peça tratava da relação mãe e filha) Só quem assiste à MTV vai saber quem são aquelas bandas, nem os caras da MTV sabem quem são aquelas bandas. E saem aquelas notas: “John Cale está gravando novo disco”. Quem sabe quem é John Cale?! Isso em outras áreas também. Ficam falando de teatro: “Lá em Salzburgo tem um festival”… Às vezes, existem iniciativas maravilhosas no interior do Brasil, existem coisas fabulosas, essa região do interior de São Paulo tem tanta coisa acontecendo, e a gente não sabe. Então, a gente fica oprimido, achando que tudo não presta, que tá tudo horrível e o que presta é o festival de teatro de Salzburgo, quando tem um grupo de teatro super legal que está tendo dificuldade e tudo. Não é nem divulgação, patrocínio, nem nada, mas seria legal chegar e entrevistar pras pessoas terem opção, né? Tá lá o garoto de 10, 11 anos de idade, o que que ele vai fazer? “Eu tenho três opções: ou eu viro o Axl Rose, ou o Ayrton Senna, ou o Kurt Cobain!” E são mais ou menos as opções que (ele) têm. Por exemplo, as pessoas se interessam por política e o Brasil, principalmente São Paulo, Minas e a Bahia, tem muito disso, existe uma coisa da “nossa” tradição… Eu sinto isso no Brasil, aquela coisa de “Raízes do Brasil (livro do sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda): a gente tem aquela coisa do diálogo, de conversar, todo mundo gosta de dar opinião, a gente trabalha muito bem em equipe. Eles estão cortando isso. “A gente não pode mais trabalhar em equipe porque a coisa não funciona, porque a gente não tá mais treinado…”, eles estão cortando as coisas que nós temos e que são boas.
Matias — O que é bom está em Salzburgo.
Renato Russo — É. E aí de você se não tiver aquela pererequinha que vende na Cartier, na 5ª Avenida, que custa 554 dólares… Mas não se preocupe, aquela lojinha em Ipanema tem. É um país de muitos contrastes, uma coisa maluca. Você vê: se o pessoal ganhar a Copa (de 1994), cada um deles vai (levar) 100 mil dólares — eu acho isso maravilhoso, porque eles merecem -, mas quem ganha 100 mil dólares? Outro dia, eu vi uma reportagem na Globo sobre precariedade de atendimento médico, ficaram umas cinco horas filmando um cara que estava todo ensanguentado, todo quebrado e que não tinha como levá-lo (ao hospital). Eu fiquei pensando: “Que coisa esquisita! Não é possível que a Globo não tenha um carro!”. Quando, na verdade, é uma situação de emergência — eu não sei, eu não estava lá, eu não vi -, e a primeira coisa que eu pensei foi: “Gente do céu, não tem como levá-lo? Será que eles não podem continuar a reportagem dizendo: “Nós estamos levando!”? Isso fora aquele povo do Aqui Agora, que morre a sua família inteira e eles ficam esfregando o microfone na sua cara, sem respeitar nada, e ainda falam que é jornalismo-verdade, que é isso que tem que fazer. (n.e. Telejornal produzido e exibido pelo SBT entre 1991 e 1998, dono do slogan “Um jornal vibrante, uma arma do povo, que mostra na TV a vida como ela é!”) Está tendo uma imbecilização, uma brutalização. A Eliane Giardini no Jô falou muito bem, não é que a gente veio do macaco — primeiro que eu não acredito muito nisso, não — , a gente tá indo pro macaco. Uma mulher inteligentíssima, tão legal, e o Jô fazendo piadinhas de Modess; ela começou a falar uma coisa super série e o Jô já a cortou, “Vamos embora!”, quer dizer, as pessoas ficam tão apavoradas que chega num ponto que não dá pra conversar sobre certas coisas, porque é muita dor. Eu não gosto de sair de casa mais. Eu fico lá em casa com os meus CDs, os meus vídeos, o meu círculo de amigos tentando resolver como é que vai ser a minha vida. Mas não é assim que a gente tem que funcionar, o ser humano é um ser gregário, a gente precisa de outras pessoas, a gente vive em sociedade. E o que tá acontecendo é isso, as pessoas estão enlouquecendo, é ruim você ser diferente nesse país. Se você tem uma ideia diferente, você é ostracizado, você ameaça as pessoas. E quem tá pegando essa coisa do grupo, da equipe, são os fascistas. E isso é muito perigoso, porque as pessoas que têm alguma (coisa) para oferecer estão se isolando cada vez mais, e não é por uma coisa delas, é por não ter como. Agora, se você nivela por baixo… As matilhas estão se formando. Vindo pra cá, eu li no avião que pegaram e retalharam a menina toda somente porque ela era Testemunha de Jeová: isso aqui em São Paulo! Fora todas as pessoas que morrem e fica por isso, (imposta a voz): “E a seguir, vejam não-sei-o-quê”. Aí não tem educação, não tem isso, não tem aquilo. E a gente sempre tenta colocar isso nas músicas. É gozado, porque se você pega o primeiro disco, está tudo lá: “A violência é tão fascinante e nossas vidas são tão normais / (…) / Tudo parece ser tão real / Mas você viu esse filme”. Eu gostaria de apresentar um bom trabalho pras pessoas que gostam da gente. Esse foi o primeiro show da turnê. A gente teve essa prévia de uma reunião séria aqui, acho que você viu. O que a gente tem de fazer é evitar de ir a lugares que não ofereçam condições pra gente apresentar um bom trabalho, porque sabemos que o público vai dar uma resposta legal. Mas é sacanagem, na posição em que a gente está, não se esforçar ao máximo pra apresentar o melhor. E já que a gente ensaia pra caramba, o melhor que a gente pode fazer agora é uma coisa de nível estrutural, não tocar em lugar que foi feito pra jogo de vôlei. Tem que, no mínimo, tocar ao ar livre ou num teatro, com duas noites, ou então bola alguma coisa, porque dá agonia (ver) as pessoas todas querendo compartilhar com você, trocar com você e tá aquela zoeira. Hoje eu estava cantando (no show) e ouvia a minha voz vindo de algum lugar: “uaaa!!”. É estúpido! E dá medo pelo público, tem aqueles ferros de arquibancada, saca? Fica como o show do Midnight Oil no Maracanãzinho, no Rio, em que morre gente. Morreram dois rapazes. E fica por isso mesmo… (n.e. Show de lançamento de ‘Earth and sun and moon’, oitavo disco de estúdio da banda australiana, realizado em março de 1993 no Maracanãzinho, quando dois jovens morreram, um eletrocutado e outro afogado)
Matias — Ou então é manchete no Aqui Agora.
Renato Russo — É. “Morre em show de rock!” A situação tá difícil, mas existem saídas. Se cortar a comunicação, aí a gente tá perdido. E é isso que eu tô sentindo que está acontecendo. A partir do momento que a gente não tem capital, não tem dinheiro, não tem dignidade pelo trabalho… Nós não temos bibliotecas! Então, a pessoa vai ter que fazer um esforço imenso pra sair de casa e procurar se informar, procurar as coisas boas. O Municipal (Theatro Municipal do Rio de Janeiro), por exemplo, está com um sistema de assinaturas que, pra conseguir ingresso, é uma coisa impossível. Eu queria ver esse maestro romeno e eu não fui de birra, foi um ato político, “Eu não vou!”, porque não vou pagar 150 dólares. Não pago! Se eu for ao Metropolitan Opera, em Nova Iorque, não vou pagar 150 dólares, e aqui eu não vou pagar, não! E a segunda opção era pagar 90 dólares. Não vou pagar 90 dólares! Sou contra isso! É isso que acontece: o jornal aumenta todo dia, as pessoas não têm como comprar livros, então elas ficam cada vez mais presas dentro de casa com a televisão, só recebendo aquela coisa: “Consuma, consuma, consuma… O meu sonho de consumo”. As pessoas estão sendo treinadas e coagidas a se identificarem com o que elas têm, e não a ter uma identidade a partir do que você é. Isso é muito complicado. Você pode até fazer um teste com as pessoas. Você pergunta: “Quem é você?”. O cara vai falar que tem isso e uma casa. É muito difícil você ouvir: “Eu sou um jovem assim e assim, eu sinto isso e isso!”.
Matias — Voltando: como é o negócio que você não dá entrevista à Veja, à Folha de S. Paulo, e nem faz show em Brasília?
Renato Russo — Eu acho que não vale a pena, eu vou me desgastar. É aquela tal história: você tem um amigo e esse amigo mente pra você. Você vai confiar nesse amigo de novo? Eu não tenho porquê e, no momento, eu não preciso, mesmo que a coisa esteja confusa. A gente já vendeu pra caramba, não somos nenhum santo, mas eu tenho os meus limites, tem certas coisas que eu não faço, não! Não faço mesmo! É o quê, hipocrisia isso? A Folha chama a gente de “banda mais atrasada do planeta” e eu tenho que ir lá dar entrevista? Foda-se! Se eu sou da banda mais atrasada do planeta, por que vocês querem (uma entrevista)? É uma torpeza. Na época do primeiro disco disseram que a gente não podia ter escrito “Soldados”, porque ninguém na banda havia servido ao Exército. É uma estreiteza de visão; não entendeu a letra da música, não percebe qual é a função do artista e do rock’n’roll. Então, Proust só podia ter escrito sobre o quarto dele porque nunca saiu de lá. E é assim, são os donos da verdade. Quando a gente lançou Que país é este?: “Legião lança disco esquálido e primitivo”. Precisa isso? O disco não é esquálido, nem primitivo. E a gente coloca um encarte maravilhoso, explicando que aquelas músicas são daquele jeito, porque são músicas que a gente fez no Aborto Elétrico em 1978, e é bate-estaca. Aí, depois — só exemplo da Folha -, a gente faz aqueles dois shows maravilhosos em São Paulo que foram registrados no Música p/ acampamentos e eles gastam página inteira pra falar da barraquinha do pipoqueiro que atrapalhou o trânsito. Não respeitam a produção, que foi um show maravilhoso… Independentemente de ter sido maravilhoso, foi muito bem organizado, foi uma coisa que banda nacional nunca tinha feito naquela época, teve um puta de um show de fogos de artifício, foi lindo, nossa, foi maravilhoso! Telão, som maravilhoso, mas eles não falaram nada disso, falaram da barraca do pipoqueiro que atrapalhou.
Matias — E o futuro da Legião?
Renato Russo — Agora a gente tem um show em Porto Alegre e estamos preocupados com esse negócio do som, porque somos muito paparicados e mimados: a gente tinha esquecido das condições da estrada. A gente fica no estúdio com o melhor equipamento, ensaiando, (…) os dois últimos discos foram gravados em equipamento digital. A gente tem uma super equipe. E quando a gente vai parar num lugar que é aquela coisa “rrrrrr!”, fica confuso. Então, o que vamos fazer agora é uma série de reuniões e ensaios pra tentar resolver esse problema de reverberação do som, pelo menos pra esses shows que já foram marcados. A gente está com uma banda grande: são duas guitarras, teclados e tudo. Mesmo se a gente vai num desses lugares somente voz e violão, fica aquele: “iõõõõõeeinnn”. Isso é o que a gente vai resolver. Depois disso tem a Copa e a gente já vai começar a pensar no disco novo. Vamos fazer uma avaliação do que a gente tá fazendo. Eu tenho que resolver essa coisa do público ser tão carinhoso e tão querido e eu não me sentir à altura; é como se eu me sentisse culpado de ter o público maravilhoso que a gente tem, isso é uma coisa complicada na minha cabeça. A minha vontade é fazer a música, deixar no disco e pronto. E não é isso que o público espera e nem é isso que o público merece: ele quer ver o artista lá. Então, tenho que resolver essa coisa de show ser um problema, e eu tinha me esquecido, achava “Ah, eu não gosto de fazer show!”, mas é que eu me acabo mesmo. Mexe muito você não poder oferecer (algo) em troca a toda a coisa boa que você recebe das pessoas. Isso é uma coisa que a gente vai fazer: tocar em lugares que pelo menos tenham um bom som. E, aí sim, se a gente faz um show ruim, tudo bem, mas não vai ser por causa do som, porque tem boas noites e tem más noites. Chato é você tentar fazer uma apresentação gloriosa e fica só média, porque o Bonfá bate na bateria e faz “pá-pá-pá”, é horrível! Eu tô traumatizado! Em junho vai ser lançado o disco que eu fiz pra campanha do Betinho, que é uma outra história: chama-se The Stonewall celebration concert. (n.e. Neste primeiro álbum individual, Renato Russo homenageia os 25 anos da rebelião do bar Stonewall Inn (Nova Iorque, 1969), quando gays e lésbicas protestaram contra a violência policial. Parte dos royalties da venda foi para a campanha Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, criada pelo sociólogo Herbert José de Souza, o Betinho, 1935–1997) São 21 canções em inglês, com um prisma homossexual — quer dizer, eu sou pansexual. Mas é pra comemorar os 25 anos do levante de Stonewall, que é um marco na luta pelo direito das minorias sexuais, não somente dos gays. Esse disco vai ser lançado em junho, o Carlos Trilha participa comigo, não é um disco de rock, é um disco pop, tem muita coisa antiga, piano e voz. É bem assim, pra namorar, um disco muito romântico. “Cauby canta Sinatra”! [risos] Basicamente é uma maneira de me colocar — eu, pessoa, indivíduo — contra o ressurgimento do fascismo. As pessoas não têm ideia do que vai acontecer. É horrível, porque não sou o tipo de pessoa que fica feliz depois e fala: “Eu não disse?”, não fico feliz com isso, não. Mas vem brabeira por aí e tá insidioso. Essa coisa na Itália me deixou tão chateado. E a televisão também. (n.e. Referência à vitória da direita nas eleições parlamentares na Itália, dando legitimidade política ao neofascismo representado pela Aliança Nacional — antigo Movimento Social Italiano — , que se tornou o terceiro maior partido italiano e base do governo de Silvio Berlusconi)
“Não vim aqui fazer gracinhas!”
“Mário de Andrade andava na minha calçada!”
“Me amarro em programas de natureza!”
“Meu pai era a cara do Lupicínio!”