A felicidade sempre está ao lado. E esteve por aqui, é verdade. Primeiro à direita e depois à esquerda, mas atrás de um tanto que não haveria visão panorâmica que desse jeito. Virar a cabeça se fazia absolutamente necessário. <br><br>

Mas, e o medo? O medo de torcer o pescoço e (não morrer)? <br><br>

Vá lá: a felicidade não era madura, cheia de flores e frutos; era, muito antes, um broto de felicidade, com beleza de cinema ou livro de botânica, mas pequenina. Se cultivada, aí sim, haja espaço na terra pro tamanho da raiz. <br><br>

Mas broto de felicidade quer cultivo? Quer nada. Quer é crescer desembestada para os lados que deus ou o sol lhe der. E é certo que assim seja. Felicidade é boa deste jeitinho, livre. <br><br>

E livre, é apaixonante; contudo, contraditoriamente, não é paixão. Por conta desta beleza de lago ou alto-mar sem vento ou tempestade, felicidade é outro paradoxo: porto-seguro. <br><br>

E por mais querência que houvesse em vê-la crescer por perto, felicidade é que dá as caras e aparece sem que se lhe peça a presença. Tem-se que estar pronto a acolhê-la tão logo chegue à porta para nos tocar a campainha, aquela da brincadeira infantil: o quase sonoro apertão no nariz. <br><br>

Tem horas, penso ouvir a felicidade atrás de uma porta, cantando um pop romântico, bobinho (a música da vez desta ou d’outra época, escolhida pela gravadora e eleita pelo público). <br><br>

Com a mão perto da maçaneta, penso (não sinto) se o que eu quero mesmo é ser feliz. Quero? Ignorar o mundo e ser feliz? <br><br>

Pergunto porque no julgamento da felicidade, tenho sido não uma porta, mas uma pedra no caminho. Mais que pedra, um verdadeiro entulho. E com minhas retinas desde cedo tão fatigadas, entre pedras, não tenho um caminho. <br><br>

Daí que reluto: felicidade é exigente e eu desleixado, pouco falante, quase calado senão mudo pra dizer as coisas que não sei se sinto, mesmo sendo sempre muito. Enfim, sou de fato pedra. Fui e serei pedra, muito depois e antes de ser pó. <br><br>

Na falta de caminho para a felicidade, o prazer me visita e sublimo nestas praias, onde o mar é aquele tal de que tanto falam: infinito de sentidos. <br><br>

Entre todas as dúvidas, a certeza incorrigível: felicidade foi-se embora e partiu cantando uma da Rita Lee. E (a bem da verdade), se passou ao lado, o fato é que jamais flertou comigo. <br><br>

A alegria, ao contrário, logo ali em frente, sem ter onde encostar, sorri; e pisca pra mim.

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