Da bossa nova ao Clube da Esquina, ela é da geração que deu voz e letra à mulher na música brasileira.
São Paulo/SP | 23.jul.2012
Nome: Alaíde Costa Silveira Mondin Gomide
Data e local de nascimento: 08 de dezembro de 1935, Rio de Janeiro/RJ
Ofício: Compositora, cantora e pianista
Discografia: 15 álbuns desde 1961
Entrevistadores: Alexandre Pavan, Max Eluard, Ricardo Tacioli e Roberta Valente
Transcrição: Marllon Chaves
Produção, edição de texto e texto de Apresentação: Ricardo Tacioli
Fotos: Thaís Taverna
Registro audiovisual: Max Eluard
Agradecimentos: Nelson Valencia
Entrevista realizada em São Paulo/SP em 23 de julho de 2012.
Alaíde cresceu ouvindo vozeirões, sambas, baiões e boleros. Cresceu sonhando ser professora e virou cantora que não cantava o que queriam, “coisas mais animadas e com agudo”. Trincou a moldura “artista negro é para cantar sambão”. Gostava de uma “música esquisita”, como afirma, e que naquele Rio de Janeiro dos anos 1950 estava para ganhar forma, nome e fama.
De sua estreia profissional em 1954 como crooner da orquestra do Dancing Avenida, onde marmanjos pagavam para dançar e beber, até seu primeiro LP, Gosto de você (1959), a jovem carioca forjou seu estilo musical: sambas-canções, bossas e jazz de temática romântica. Sua interpretação macia, seu timbre e sua precisão a tornaram uma cantora de câmara, a “cantora dos músicos”. Basta ouvir seu álbum de 1995 com o pianista João Carlos Assis Brasil. Mínimo e máximo.
A moça tímida que saiu do Rio de Janeiro em 1962 para se casar em São Paulo não ficou somente na música popular: nessa mesma década dividiu o palco com o violonista Turíbio Santos e protagonizou no Teatro Municipal de São Paulo o show de canções renascentistas Alaíde alaúde, dirigido pelo maestro Diogo Pacheco. No entanto, viu o sucesso de perto apenas em dois momentos: quando calou o Teatro Paramount (SP) com “Onde está você” no show O fino da bossa — que lhe garantiu espaço no rádio e contrato de dois anos com a TV Record — e ao dividir o microfone com Milton Nascimento em “Me deixa em paz”, faixa do LP Clube da esquina (1972).
Fitando sua pequena e emblemática discografia, nota-se a coerência musical e de interpretação. Saltam registros valiosos, como o álbum de 1965, homônimo, e Coração (1976), produzido por Milton Nascimento e instrumental com figuras como João Donato, Toninho Horta e Robertinho Silva.
Os anos 2000 foram mais generosos, pelo menos no que se refere ao número de discos gravados. De todos, o mais recente, Canções de Alaíde (2014), é motivo de orgulho por se tratar do primeiro que traz exclusivamente suas músicas solo ou em parceria com Vinicius, Jobim, Geraldo Vandré e Herminio Bello de Carvalho.
Então com 76 anos de idade, a fã de Dalva de Oliveira reencontrou o Gafieiras na noite de 23 de julho de 2012. A primeira vez havia sido em 2009, quando posou para João Correia, um dos sete fotógrafos da exposição Pioneiras, organizada por este site. Alaíde chegou sozinha, e depois de escanear o ambiente, esparramou gargalhadas, frases curtas e um pouco de sua história. Em três horas e meia não hesitou em falar da infância, racismo, Vandré e do amigo e parceiro Johnny Alf, também negro, precursor da bossa nova e pouco celebrado.
Ao lado de suas contemporâneas Dolores Duran e Maysa, Alaíde é uma das responsáveis em dar letra feminina — e não somente voz — à música brasileira. Tarefa que nunca deixou de cumprir.
Alaíde Costa — Tem que falar muito? Eu não sou muito…
Ricardo Tacioli — As entrevistas são com vários entrevistadores batendo papo, tomando cerveja…
Alaíde — É nessa mesa?
Tacioli — É nesta mesa! Fico aqui, a Roberta (Valente) fica ali, o Alexandre (Pavan); o Max (Eluard) participa também da entrevista, e o Jeff vai fotografando… A entrevista leva umas duas horas; é uma conversa.
Alaíde — Por que Gafieira?
Tacioli — Gafieiras porque…
Alaíde — Gafieiras?
Tacioli — Quando a gente colocou esse nome a intenção era o de entrevistar diversas pessoas que produzem música no Brasil independentemente do estilo. Colocar todo mundo num mesmo salão, num mesmo espaço, como se fosse uma gafieira. A gente quer ver a história de cada um relacionada à música…
Alaíde — Eu já cantei em gafieira! [risos] Crooner…
Tacioli — Sim, no Dancing Avenida…
Alaíde — É!
Tacioli — Vamos falar disso. Alaíde, você toma uísque, cerveja?
Alaíde — Um uísquinho.
Tacioli — Com gelo ou sem gelo?
Alaíde — Deixa eu ver: sem gelo.
[silêncio]
Max Eluard — Você mora no Bonfiglioli?
Alaíde — Moro.
Max Eluard — Perto de onde?
Alaíde — Você conhece por ali?
Max Eluard — Conheço um pouco…
Alaíde — Sabe onde é o ponto final do ônibus Belém?
Max Eluard — Não.
Alaíde — Na Otacílio Tomanik…
Max Eluard — Ah, sei, sei…
Alaíde — Não tem o ponto final de ônibus ali? Em frente ao ponto de ônibus tem um prédio, eu moro na ruazinha ao lado do prédio. Moro numa rua que eu acho o nome muito bonito…
Max Eluard — Como que é?
Alaíde — Se chama Acalanto de Bartira. Bonito, né?
Max Eluard — Você sabe a origem desse nome?
Alaíde — Não, porque Bartira foi uma índia, né?
Max Eluard — É.
Alaíde — Então deve ser alguém que cantava pra índia, qualquer coisa assim.
Max Eluard — Ou o canto dela.
Alaíde — Ou o canto dela.
Max Eluard — Nome de rua costuma ser tão feio…
Alaíde — Eu morava na Capital Federal. Quando voltei do Rio, quis comprar a minha casa por aqui, mas não teve como, muito caro. Eu morava numa casa alugada. Mas como não teve como comprar por aqui, fui para o Jardim Bonfiglioli.
Max Eluard — Mas aqui está mudando muito, verticalizando, estão construindo muito prédio. [n.e. A entrevista foi realizada no Sumarezinho, bairro da zona oeste paulistana]
Alaíde — Até a casa que eu morei virou qualquer coisa de comércio.
Max Eluard — Quando você mudou pra cá a primeira vez, você morava aqui na Capital Federal?
Alaíde — Não, a primeira vez que eu vim, em 1961, morei ali na Martins Fontes. Não, Martins Fontes, não, na Martim Francisco, Santa Cecília. Fiquei lá alguns anos. Depois fui pro Alto de Pinheiros.
Max Eluard — Nessa época mesmo, anos 1960?
Alaíde — Década de 1960.
Max Eluard — Alto de Pinheiros devia ser uma chácara, né?
Alaíde — Era.
Max Eluard — A estrada da boiada.
Alaíde — A estrada da boiada, de terra ainda…
Max Eluard — Nossa! E era a Diógenes…
Alaíde — De terra…
Max Eluard — E ia até Sorocaba, né?
Alaíde — É? Eu não sei.
Max Eluard — É. Ia até Sorocaba, o pessoal levava os bois para Sorocaba ou de lá pra cá.
Alaíde — Depois de lá, eu mudei muito viu!
Max Eluard — Alma de cigano.
Alaíde — É, depois da Estrada da Boiada eu vim morar aqui no Sumaré de novo, na Apinajés, lá embaixo. Um prédio quase de esquina, pequenininho, eu acho que ainda existe. Depois eu me mudei pro Rio. Fui pro Rio Comprido. Olha como eu mudei! Do Rio Comprido eu voltei pra São Paulo e morei na Rua Augusta. [risos] Não, primeiro eu morei uns meses ali na Aclimação, na José Getúlio. Morei com o Zé Luiz. Conhece o José Luiz Mazziotti? [n.e. Cantor e compositor nascido em Rio Claro, 1948, parceiro de Sérgio Natureza]
Tacioli — Sei, sei…
Alaíde — Então, ele me hospedou lá. Eu estava procurando casa, né? Fiquei uns meses lá. Aí achei esse apartamento na frente do Auditório Augusta, em um prediozinho pequenininho também.
Tacioli — Quando que foi isso, Alaíde?
Alaíde — Foi em 1973.
Max Eluard — Alaíde, a primeira vez que você mudou para cá foi em 1961, naquele boom da bossa nova, né?
Alaíde — Mas eu fiquei até 1969.
Max Eluard — O cenário da bossa nova não era mais forte no Rio nessa época?
Alaíde — Era, mas aqui acontecia muito também.
Max Eluard — Você veio pra cá em 1961 por qual motivo?
Alaíde — Porque eu casei com um paulistano. [risos]
Max Eluard — Ah, sim!
Alaíde — Aí tive que vir.
Tacioli — E ele aceitava a sua carreira?
Alaíde — Ele era locutor da Eldorado, era jornalista.
Max Eluard — Então ele entendia…
Tacioli — Esse foi o motivo da vinda… Pensei que já tivesse alguma coisa arquitetada, porque a Claudette (Soares) veio (antes)…
Alaíde — Não! Ela veio e daí eu vim. Vim mais porque ela ficou na minha cabeça “Vem, vem, vem!”. Aí um belo dia eu vim e conheci a peça! [risos] E acabei ficando! Mas ela vivia me chamando “Vem, está bom aqui!”. E realmente estava bom.
Tacioli — Você frequentou o Jogral?
Alaíde — Frequentei, mas não por muito tempo, foi antes de eu voltar para o Rio, em 1968, 69, por aí.
Max Eluard — Era ali na Avanhandava ainda?
Alaíde — Na Avanhandava.
Max Eluard — O Luiz Carlos Paraná estava vivo ainda… [n.e. 1932–1970. Nascido em Ribeirão Claro, PR, o cantor e compositor foi o idealizador e dono do Jogral, importante boate paulistana dos anos 1960 e 1970. É autor de “Maria, Carnaval e cinzas”, gravada por Roberto Carlos, “De amor e paz” (com Adauto Santos), por Elza Soares, e “Flor do Cafezal”, por Cascatinha & Inhana]
Alaíde — Estava.
Tacioli — Você lembra do Paraná? Como ele era?
Alaíde — Ele vivia lá. Ele morava no prédio ao lado (do Jogral) e vivia lá…
Tacioli — Foi um bar importante.
Alaíde — Mas o mais importante pra nós foi o João Sebastião Bar. O João Sebastião foi o máximo, sabe? [n.e. De propriedade do jornalista Paulo Cotrim e localizada na Rua Major Sertório, na Vila Buarque, a casa foi um dos quartéis-generais da bossa nova em São Paulo nos anos 1960]
Tacioli — E o que é que ele tinha?
Alaíde — O Jogral era assim: não tem rodízio de comida, de churrasco? [risos] Lá era rodízio de…
Max Eluard — De cantor…
Alaíde — De cantores, né? Já no João, não. Pra mim, pra Claudette, pra Ana Lúcia e para outros mais. O Jogral misturava muito.
Tacioli — Quem que eram os donos do João Sebastião Bar?
Alaíde — Paulo Cotrim. Era jornalista também, já faleceu há muitos anos.
Tacioli — Ficava ali na Veridiana?
Alaíde — Quase esquina. Major Sertório.
[Toca o interfone]
Tacioli — Alô! Fale para subir, por favor! (…) É a Roberta! (…) Quando a gente fez a exposição Pioneiras, aquela em que o João Correia foi fotografá-la no salão de beleza, o Jeff foi para o Rio fotografar a Dóris Monteiro, a Claudette também foi fotografada e ela falou também bastante do João…
Alaíde — A Claudette cantava sentada em cima do piano… [risos] Era muito engraçada…
Max Eluard — Femme fatale.
Alaíde — Hein?
Max Eluard — Fazendo o papel da femme fatale.
Alaíde — É! Um piano de cauda e ela sentada em cima. [risos]
Tacioli — Tem saudade desse período?
Alaíde — Ah, a gente sempre tem, né? Ah, mudou muito, né? Tudo! [silencia] Tinha coisas boas naquela época…
Tacioli — E hoje está mais difícil ter espaço para cantar?
Alaíde — Ah, eu acho. Eu digo, casas noturnas, né? Ou tem as grandes casas ou não tem! [ri] E naquela época tinham muitas.
Tacioli — Tinha vida noturna.
Max Eluard — Havia muitas casas, não era somente um ou dois lugares, casas de show, né? Todos os lugares…
Alaíde — É! Igrejinha, Ela, Cravo e Canela, tinha muita coisa. [n.e. Duas importantes boates paulistanas dos anos 1960 e 1970, ao lado de outras casas de música como O Jogral, Cambridge, João Sebastião Bar, Catedral do Samba e Baiúca. Ela, Cravo e Canela foi inaugurada por Claudette Soares e Pedrinho Mattar em 1967] E tinha bastante programas de televisão.
[Roberta Valente entra no apartamento]
Roberta Valente — Com licença! Oi, boa noite, tudo bem?
Alaíde — Oi, tudo bom, e você?
Roberta — A gente se conheceu quando te dei uma carona.
Alaíde — Ah foi?!
Roberta — Foi. Do (bar) Genésio, Vou Vivendo, um desses aí.
Alaíde — Ah! Eu vi que te conhecia. Vou Vivendo com certeza não foi. Deve ter sido o Genésio ou Filial, um deles.
Tacioli — Rô, cerveja, uísque…
Roberta — Eu não bebo! [risos]
Alaíde — Ah, é?! Deixa eu fazer uma brincadeira que uma moça fez uma vez comigo. Eu cheguei na casa dela, toda cheia de cerimônia e não-sei-o-quê. Era a primeira vez que eu ia lá, né? Uma vizinha minha. Aí ela: “Quer uma cervejinha?”. E eu toda sem jeito: “Ah, não, não quero, não!” Aí ela fez assim: “Graças a Deus! Eu quero mais é que sobre pra mim!” [risos]
Roberta — Acabou a cerimônia ali.
Alaíde — Aí eu fiquei tão sem graça e ela começou a rir de mim, né?
Roberta — Você teve que aceitar.
Tacioli — Alaíde, aqui não tem nove horas, não!
Roberta — Eu quero uma cerveja! Só faltava eu?
Tacioli — Falta o Pavan.
Roberta — Pavan!
Tacioli — Alaíde, você fala com o Herminio de vez em quando? [n.e. Referência ao poeta, compositor e provocador cultural carioca Herminio Bello de Carvalho]
Alaíde — Falo.
Tacioli — Falei do Pavan e você na hora, “Eu conheço!”. Mas o conhece pelo Herminio?
Alaíde — Pelo Herminio.
Tacioli — Acho que a gente pode começar, né? O Pavan já conhece o ritmo e aí se enquadra…
Roberta — Trouxe uma colinha de perguntas malígnas. [risos]
Alaíde — Ah, é? Não vem, não, hein!
Tacioli — Eu também sempre tenho a minha colinha, mas nunca uso.
Roberta — Eu também não, mas em todo o caso.
Tacioli — Não está nervosa, não, né, Alaíde?
Alaíde — Não! [risos]
[Toca o interfone]
Tacioli — Fale para ele subir, por favor. Pronto, o Alexandre Pavan chegou. Alaíde, tudo o que a gente vai perguntar, você já respondeu.
Alaíde — Olha lá, hein! [risos]
Roberta — As perguntas mais íntimas vamos deixar para mais tarde. [risos]
Alaíde — Mas eu não conto!
Tacioli — São 50 anos de carreira, né? Você começou em 1954.
Alaíde — Não! Eu começo a contar a minha carreira a partir de 1956, quando foi o meu primeiro trabalho profissional. Até então eu cantava em programas de calouros. Em 1956 eu tive convite pra cantar no Dancing Avenida. Esse foi meu primeiro trabalho profissional [n.e. A casa noturna Dancing Avenida funcionava nos anos 1940 e 1950 como táxi-dancing, em que os frequentadores pagavam para dançar com as bailarinas da casa ao som das orquestras. O tempo da dança era anotado em uma ficha ou cartão. Essa espécie de casa foi comum não somente no Brasil, mas em países como o México, onde ficaram conhecidas como Las Ficheras. Localizado na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, o Dancing Avenida foi responsável pelo início profissional de cantoras como Elizeth Cardoso, Ângela Maria e Alaíde Costa, todas como crooner de orquestras]
Tacioli — Foi o tiro de largada.
Alaíde — Humn, humn! E eu sou meio surda, sabia, né? [risos]
Roberta — Nós também somos.
Alaíde — Não, mas eu sou mesmo!
Roberta — Ah, é?
Alaíde — Já operei os dois ouvidos. Um operei duas vezes.
Max Eluard — Mas qual é a causa, Alaíde?
Alaíde — Otosclerose.
Roberta — E eu li que você deu um tempo na carreira antes do Clube da esquina. Foi por causa disso?
[Chega Alexandre Pavan]
Alaíde — Oi, Pavan!
Alexandre Pavan — Há quanto tempo!
Alaíde — Tudo bem?
Pavan — Tudo bom!
Alaíde — Não é bem que eu dei uma parada, deram uma parada em mim, porque sem gravar, você quase não aparece, né? E naquela época o disco era muito importante, né? Agora é mais fácil gravar, tem as produções independentes, aquela coisa toda…
Roberta — É, hoje você grava um disco em casa.
Alaíde — É, mas aquela época era…
Roberta — Era bem mais complicado.
Alaíde — A cada movimento (musical) era um convite maluco, né? E eu não aceitava. Então ficava fora…
Roberta — Entendi. Em algumas matérias que eu li atribuem essa pausa de uns três, quatro anos ao seu problema auditivo.
Alaíde — Não, mas eu operei os ouvidos depois do Clube da esquina, que está completando 40 anos agora.
Tacioli — A Alaíde está nervosa, ela falou! [risos]
Roberta — Mas são perguntas fáceis. Você sabe responder todas!
Tacioli — Você tem resposta pra todas!
Alaíde — Certo. [risos]
Tacioli — Alaíde, você vem do Meyer, né?
Alaíde — Nasci no Meyer mas fui criada na Água Santa. Eu não tenho nenhuma lembrança do Meyer. Fui pequena pra Água Santa.
Tacioli — E como era Água Santa?
Alaíde — Água Santa era um lugar bem tranquilo, bem mato mesmo. Foi muito legal pra mim. Tive várias amiguinhas por lá e conheci uma moça que, depois de muitos anos que virei cantora, e ela também, eu passava por lá e ela dava varadas da minha perna! [risos] Não sei o porquê, ela dava varadas na minha perna. Acredita em um negócio desse?
Pavan — Você disse que você virou cantora e ela também…
Alaíde — E ela também! Mas eu não vou falar o nome dela…
Pavan — Fala! [risos]
Alaíde — Ela mesma conta essa história, a Elza Soares!
Roberta — Nossa, na mesma época vocês se tornam cantoras?
Alaíde — É.
Tacioli — Você passava e ela só com a varinha de marmelo…
Max Eluard — Vocês não eram amigas?
Alaíde — Não, éramos conhecidas… Aliás, eu conheci a Elza quando comecei a cantar mesmo, que eu ia lá pra Rádio Nacional e ela ia também. Tinha um grupinho de meninas amigas dela, eu passava, elas me vaiavam. [risos] Já tinha essa coisa.
Roberta — De torcida?
Alaíde — Tinha essa coisa da torcida. Eu não tinha torcida, mas ela tinha… Aí eu passava e uma delas falava “Eu sou Alaíde Costa!”, e as outras “Uuuuuuuh!” [risos] Aí a outra falava “Eu sou a Elza Soares!”, daí todas (aplaudiam). [risos] E eu, coitadinha, passava ouvindo aquilo… Muito engraçado, muito engraçado! Eu me lembro até o nome da mãe delas: Durvalina. As filhas de Durvalina! Vocês me devem! [risos]
Roberta — Olha só! E você lembrou essa história com a Elza muitos anos depois?
Alaíde — Ah, sim, ela conta pras pessoas que me batia, batia na minha (perna)… Eu era magrinha, muito magra, sabe?! Eu passava e “pá!”. Ela com as filhas de Durvalina.
Roberta — Mas você não batia também?
Alaíde — Não! [risos]
Tacioli — E o que mais você lembra de Água Santa?
Alaíde — De Água Santa? Ah! Eu lembro que primeiro morei numa rua chamada Leandro Pinto que é perto da rua em que moravam as filhas de Durvalina e a Elza morava um pouquinho mais pra cima, num largo que eu não me lembro do nome. Largo da Água Santa! Acho que sou andarilha por causa da minha mãe, a minha mãe adorava mudar (de casa). Ela mudou para a rua Bórgia Reis. Foi ali que eu conheci as meninas, né? Eram cinco irmãs e eram minhas amigas. Ou foi o contrário? Não, primeiro foi na Bórgia Reis e depois foi na Leandro Pinto, onde eu me tornei cantora. Também é tanta coisa pra lembrar, né? Você esquece…
Tacioli — Mas você tem uma memória boa…
Alaíde — É?
Tacioli — É, você fala nome de rua, agora há pouco você estava lembrando um monte de números…
Roberta — O nome das meninas!
Pavan — E os seus pais eram do Rio? Como era a sua família?
Alaíde — A minha mãe nasceu em Vassouras.
Pavan — Interior…
Alaíde — É, e o meu pai era gaúcho.
Pavan — E eles se conheceram no Rio?
Alaíde — Acho que sim, né? Eles devem ter se conhecido no Rio.
Tacioli — E eles faziam o quê?
Alaíde — O meu pai era forneiro, que cuida dos fornos grandes. E minha mãe cuidava da casa, lavava uma roupinha pra ajudar…
Pavan — Gostavam ou tinham alguma relação com música?
Alaíde — Não muito, né? Depois que os meus pais se separaram, minha mãe casou de novo. O meu padrasto era ligado em música. Aí já tinha um rádio em casa.
Tacioli — Antes não tinha rádio?
Alaíde — Não tinha rádio. Eu era bem menina, né?
Roberta — Você tinha quantos anos quando eles se separaram?
Alaíde — Nove. E daí eu comecei a ouvir rádio e comecei a gostar de música. Mas eu sei lá, acho que sou meio doida: desde aquela época eu já gostava de uma música diferente, sabe? E foi bem difícil pra mim…
Tacioli — E o que era uma música diferente ali, Alaíde?
Alaíde — Isso foi de 11 para 12 anos. O meu irmão, mais moço que eu, me inscreveu num programa de calouros num circo, porque eu vivia cantarolando em casa. “Ah, você vai, porque todo mundo fala que você canta bem, e eu te inscrevi”. “Mas eu não vou!” Eu era muito tímida. “Se você não for, a polícia vem te prender!” [risos] “Então eu vou!” Daí eu fui, mas era adulto misturado com criança, não-sei-o-quê, e eu acabei ganhando o prêmio.
Tacioli — Você lembra o que você cantou?
Alaíde — Eu cantei uma música que Vicente Celestino cantava, que era o que tocava, né? Uma música até muito bonita, chamada “Minha terra”, que não era aquele dramalhão e tal. [n.e. Um dos artistas mais populares do país na primeira metade do século XX, conhecido como A Voz Orgulho do Brasil, o tenor, compositor e ator Vicente Celestino (1894–1968) eternizou temas autorais como “Coração materno”, “Pensando em ti”, “Mia Gioconda”e “O ébrio”] Daí eu cantei a “Minha terra” e ganhei o prêmio. E lá no bairro mesmo, na rua onde eu morava, na Bórgia Reis, um senhor resolveu montar um palco, um palanque no quintal da casa dele e fazer o programa de calouros lá. Aí toda semana eu ia e ganhava! [risos]
Tacioli — Tinha prêmio, Alaíde?
Alaíde — Tinha prêmio, mas era bobagem, né? Eram prendas! Dinheiro mesmo que era bom, (nada)… [risos] Só no circo eu ganhei um dinheirinho. Que mais? Eu estava falando do Seu Álvaro, do palanque do Seu Álvaro… Eu ia toda semana, toda semana, até que aos meus 13 anos, uma mulher que era vizinha da minha mãe resolveu me inscrever na Rádio Tupi. “Mas o que eu vou fazer na Rádio Tupi?” Era um concurso que o Paulo Gracindo fez pra escolher uma menina pra cantar com um menino. E o nome do menino? Chuvisco! [risos] Aí era a dupla Chuvisco e Chuvisca! [risos] E eu ganhei o concurso. Eu me lembro que eu cantei uma música que era sucesso de Carnaval da Linda Batista: “Confesse”. [n.e. Na verdade, o samba de Sátiro de Melo e Nelson Trigueiro chama-se “Confesso”. Foi lançado por Linda Batista em 1949 em um disco de 78 rotações que ainda trazia outro samba, “Se me der na cabeça”, de Jorge Tavares e Nestor de Hollanda] É bonita! Naquela época era a chance que os compositores tinham através do Carnaval. Então eu cantei essa música “Confesse” e acabei ganhando o concurso. Aí fui várias vezes (à Rádio), disputei com outras meninas, e cantei outras músicas…
Tacioli — Você tinha um ídolo nessa época? Você, tão menina, 12, 13 anos, gostava de algum cantor, alguma cantora?
Alaíde — Eu gostava muito… Peraí, com 12, 13 anos? Não, ainda não.
Roberta — O Vicente Celestino era uma referência?
Alaíde — Não, não era. Era o que eu ouvia.
Tacioli — E o que você não gostava, Alaíde?
Alaíde — Ah, não digo! [risos]
Tacioli — Começa com qual letra? [risos]
Alaíde — Ah, não digo. Tinha muita gente que eu não gostava…
Tacioli — Mas eles já se foram.
Alaíde — Não, é por isso mesmo.
Roberta — Eles, os filhos…
Alaíde — É por isso mesmo.
Tacioli — Então vamos falar dos vivos. [risos]
Alaíde — Já com os meus 15, 16 anos comecei a ouvir a Rádio Clube do Brasil. O Silvio Caldas tinha um programa semanal na Rádio Clube. Um dia ele cantou uma música chamada “Noturno (Em tempo de samba)” e eu falei “É essa música que eu quero pra mim! Noturno (Em tempo de samba)”… [n.e. Samba de Custódio Mesquita e Evaldo Ruy lançado por Sílvio Caldas (1908–1998) em 1944 e regravada por Elizeth Cardoso, Jamelão, Áurea Martins e pela própria Alaíde em 1973 no disco Alaíde Costa & Oscar Castro-Neves] Daí, toda vez que ele cantava — ele não cantava sempre, né? — eu escrevia a letra, escrevia um trecho da letra, porque não dava tempo também de escrever tudo, e ia memorizando a música. Aí aquela ficou (sendo) a minha música predileta, “Noturno (Em tempo de samba)”. Eu já havia começado a cantar em programas de rádio porque a tal da dupla não deu certo.
Roberta — Chuvisco e Chuvisca?
Alaíde — Não, não deu… Aliás, fizeram até uma música ridícula para a dupla! [risos] A letra era do Paulo Gracindo e a música do Claudionor Cruz.
Roberta — Oh!
Alaíde — Veja bem como era, eu não vou cantar, vou dizer a letra do Paulo Gracindo: “De onde vem essa pretinha / Parece que levou chuva / Não gosto de preta feia / Mas esta preta é uma uva”. [risos]
Roberta — Meu Deus!
Alaíde — Isso ele cantava pra mim! [risos]
Tacioli — Nossa!
Alaíde — Eu respondia uma coisa doida, sabe? Muito louco, muito louco, mas não deu certo a dupla. Aí eu comecei a cantar em tudo que era programa de calouros. Cheguei a cantar no Arraiá mineiroque era um programa que a Claudette (Soares) também cantou. Cantei no Papel carbono com o Baden (Powell), no Pescando estrelas… O Baden também participava. “Na hora do papo, pescando estrelas…” e não-sei-o-quê… Aí, de repente, resolvi que não ia mais cantar. [n.e. O programa de calouros Papel carbono foi criado e conduzido por Renato Murce (1900–1987) e revelou nomes como Dóris Monteiro, Ângela Maria, Roberto Carlos, Ivon Cury, Agnaldo Rayol e Ellen de Lima]
Pavan — Por que?
Alaíde — Ah, sei lá, sei lá, não quis mais cantar…
Max Eluard — Mas isso menina ainda.
Alaíde — Isso com os meus 15 para 16 anos.
Tacioli — A sua mãe aprovava você…
Alaíde — Ah, todo mundo queria que eu cantasse, menos eu. Era sempre empurrada. Depois que eu ganhei esse programa que eu vou contar cantando “Noturno (Em tempo de samba)”, eu me animei.
Roberta — Tomou gosto!
Alaíde — Eu fui no (programa do) Ary Barroso, ele era crítico! Foi assim a história: a minha mãe lavava roupa para uma professora. Um dia essa senhora falou “Ah, Manuela — era o nome da minha mãe — por que você não traz a Alaíde pra ficar com as meninas e ir pra escola. Eu dou uma ajuda e não-sei-o-quê, ajudo nos estudos, ela fica com as meninas à tarde, e quando eu voltar ela vai pra casa”. Longe pra caramba da escola que eu estudava. Eu estudava no Encantado. Ia do Encantado para a Praça da Bandeira. Longe, muito longe, só tinha bonde, né? Um dia eu comecei a cantar, cantarolar, ela estava em casa e ouviu. “Por que você não vai ao Ary Barroso? Você canta bem!”. “Ah, Dona Vanda, eu tenho medo do Ary Barroso”. “Que medo o quê? Vai lá!” Eu já sabia o “Noturno (Em tempo de samba)” e de tanto a mulher falar eu fui. Aí eu fui no Bandolim de Ouro, comprei a partitura e me inscrevi. Aí me chamaram. Eu cheguei lá e não pude cantar no dia que eu fui chamada porque a partitura estava em outro tom. É uma música muito elaborada.
Roberta — Tinha que levar a partitura para os músicos lerem lá, é isso?
Alaíde — Para um pianista, né? Ele falou assim: “Não vai dar! Vou falar com o Ary e você volta na próxima semana porque vou passar para o seu tom”. E ele fez isso…
Roberta — Você lembra o nome do pianista?
Alaíde — Lauro Paiva. E aí eu voltei na semana seguinte com aquele medo, né? Eu tinha medo mesmo dele! [n.e. Pianista, organista e compositor baiano, Lauro Paiva radicou-se no Rio de Janeiro nos anos 1950 e lançou diversos discos até meados dos anos 1960]
Roberta — Claro, ele era uma fera, né?
Alaíde — Ele: “O que você vai cantar?”. “Noturno (Em tempo de samba)!” “De quem é?” “Custódio de Mesquita e Evaldo Ruy”. “Vai cantar?” “Vou!””Vamos ver!” Eu cantei e ele me deu a nota máxima, que era cinco. Aí eu tomei gostinho… Na semana seguinte, já me inscrevi no Papel carbono. Aí entra a pessoa que eu admirava, uma cantora chamada Neuza Maria. Ela cantava assim, bem diferente das cantoras da época. Eu gostava de todas, mas ela, nossa! Eu aprendi muito com Dalva de Oliveira. Embora eu cante assim, de uma forma bem diferente da dela, aprendi muito com ela, mas não tinha muito a ver com a Dalva.
Roberta — Você gostava da Carmen Miranda?
Alaíde — Eu era muito menina. Eu gostava, gostava, mas não cheguei a acompanhar muito né?
Roberta — E a Aracy de Almeida?
Alaíde — Gostava. Quando eu estudava no Encantado, muitas vezes eu ia até o Meyer porque a minha mãe já tinha separado do meu pai e eu ia visitá-lo. Ele morava no Caxambi, aí eu descia no Meyer. Eu passava pela porta dela na rua Dias da Cruz…
Roberta — Você passava de propósito pra encontrá-lo?
Alaíde — Não, eu passava porque pegava o ônibus ali. Eu parava pra ver se a via, né? [risos] E muitas vezes eu a vi.
Tacioli — E você chegou a ter alguma história com ela, de cantar junto, encontro de bastidores ou de programa?
Alaíde — Não, de cantar junto, não. A primeira vez que eu falei com a Aracy, ela me apresentou a quem? Ao Herminio Bello de Carvalho!
Roberta — Foi ela que te apresentou ao Herminio?
Alaíde — No Jogral, ali da Avanhandava. Ela levou o Herminio lá e foi ali que a gente se conheceu.
Pavan — E nesse começo de carreira de cantora, Alaíde, você não havia tido nem uma aula de música? Na escola você tinha aprendido alguma coisa de música ou era somente de ouvir o rádio?
Alaíde — Não, tudo de ouvido.
Pavan — Em algum momento você estudou música, pegou algum professor?
Alaíde — Muito tempo depois. Eu não sei, mas eu não tinha piano em casa, mas eu chegava nos estúdios, sentava lá e mexia no piano e saia alguma coisa. Foi uma coisa de intuição mesmo. E depois na Rádio Clube do Brasil tinha um grande compositor e pianista que sempre me dava umas dicas, o José Maria de Abreu. Ele falava “Faz assim!”, me dava umas dicas. Vim estudar um pouquinho muitos anos depois, porque (antes) eu não tinha condições, né? [n.e. Compositor paulista de Jacareí, José Maria de Abreu (1911–1966) é autor de clássicos da era de ouro do rádio, como “Boa noite, amor” (com Francisco Matoso), “Você” e “Alguém como tu” (ambas com Jair Amorim)]
Roberta — Considero uma audácia você ir ao Ary Barroso cantar “Noturno (Em tempo de samba)”, que é a música difícil para qualquer cantor. É linda essa música!
Alaíde — É linda, né? Fiquei anos pra conseguir gravar essa música, mas muito tempo, muito tempo, ninguém aceitava…
Roberta — Pois é, e pouca gente a conhece. Eu a conheci num tributo ao Custódio Mesquita, com a Rosana Toledo. Depois, pesquisando, descobri que você a tinha gravado também. Fui atrás da sua gravação e fiquei ouvindo, ouvindo, ouvindo…
Alaíde — Com o Oscar Castro-Neves. Arranjo bonito, né? [n.e. O violonista e compositor carioca Oscar Castro-Neves (1940–2013) é um dos nomes importantes da primeira geração bossa-novista. Participou do famoso Festival de Bossa Nova do Carnegie Hall, em Nova York, 1962, e radicou-se a partir de 1966 nos Estados Unidos, onde tocou com Sérgio Mendes, Flora Purim e Quincy Jones]
Roberta — Lindo!
Tacioli — Alaíde, você falou que nessa época você não tinha muito a ver com o jeito que as cantoras da época cantavam…
Alaíde — É, por isso que eu cantava…
Tacioli — Como elas cantavam?
Alaíde — Elas cantavam bem, mas era assim, aqueles vozeirões. Era isso que o povo, os produtores queriam e eu não tinha pra dar. Então me davam a nota máxima. Eu ganhava os programas de calouro, mas não tinha chance profissional.
Max Eluard — Pra gravar ninguém queria…
Alaíde — E daí em 1956 um músico da Rádio Clube do Brasil, não, já era Mundial — a Rádio Clube fechou, pegou fogo, alguma coisa assim, e abriu como Mundial — me convidou pra fazer um teste no Dancing Avenida. Fui fazer o teste. Ele ainda falou assim: “Ó, é um teste, eu não sei se vão te aprovar!”. Fui e me aprovaram, mas aí eu tinha que cantar de tudo, tudo o que você pode imaginar, porque ia trocando de ritmo o tempo todo, né?
Max Eluard — E nesse momento qual foi a coisa mais estranha que você cantou, mais fora daquilo que você gostaria de cantar?
Alaíde — Eu não cantava, tive que aprender muita coisa…
Roberta — Bolero, por exemplo?
Alaíde — Meu primeiro 78 rotações tem um bolero de um lado. [n.e. O primeiro disco de Alaíde Costa é um 78 rotações lançado em 1956 pelo selo Mocambo. Trazia dois sambas-canções, “Tens que pagar”, de Airton Amorim e da própria Alaíde, e “Nosso dilema”, de Hélio Costa e Anita Andrade. Em 1957, já pela Odeon, em outro 78 rotações, gravou o bolero “Tarde demais”, de Hélio Costa e Raul Sampaio] Na época era o auge dos boleros. E acho que o do tango também, né, porque tive que aprender muito tango e não versões, né? Tinha as versões, mas cada versão esquisita… [risos] Eu sempre preferi o original.
Roberta — Você cantava foxtrote?
Alaíde — Tudo, minha filha! Baião e tudo mais! [risos]
Pavan — Qual era a orquestra do Avenida nessa época, Alaíde?
Alaíde — Era um quinteto: Quincas e seu quinteto, que se chamava Os Cariocas, não…
Tacioli — Os Copacabanas.
Alaíde — É isso mesmo, Os Copacabanas! [n.e. Trata-se do grupo Quincas e Os Copacabanas, liderado pelo saxofonista e maestro Quincas] E depois eu saí de lá, fui para o (Dancing) Brasil, aí cantei com o Ubirajara Silva, o pai do Taiguara. [n.e. Maestro de orquestras de dancing e bandoneonista morto em 2012] Depois voltei pro Brasil e fui lá que eu já cantava com outro grupo, que era d’O Gaúcho do Acordeom. Foi lá que surgiu a minha chance de gravação.
Pavan — A gente está falando da época do Dancing Avenida?
Alaíde — Finalzinho de 1956 ou começo de 1957, por aí.
Pavan — É nessa época que você começa a circular mais entre os músicos, porque até então você era muito nova, né?
Tacioli — Você já tinha 20 anos?
Alaíde — É, espera aí: em 1952 eu tinha 16, então 20, né?
Tacioli — É, em 1956.
Alaíde — Vinte.
Pavan — Quem você conhece de músicos na noite?
Alaíde — Havia os intervalos, tinha o descanso, aí saía pra fazer um lanche ali na Cinelândia, onde se podia andar à vontade, né? Era bem light. Aí eu conversava muito com Ataulfo Alves, ele tinha um ponto de encontro de compositores na Cinelândia, embaixo daquele hotel que pegou fogo, Serrador. Hotel Serrador! Não tem o Rival? Era lá na esquina…
Pavan — Do outro lado?
Alaíde — Não, saindo do Rival, indo sentido daquele parque…
Pavan — Sentido Aterro?
Alaíde — Isso! Na esquina, não faz uma curva assim? Ali era um hotel chamado Hotel Serrador. Tinha, não lembro bem o nome, uma a boate que o Grande Otelo trabalhava lá. Tinha a Norma Bengell… Muita gente passou por aquela boate do Serrador… [n.e. Boate Night and Day] E embaixo era um ponto de encontro de músicos, de compositores… Ali eu conheci o Erasmo Silva. [n.e. Cantor e compositor baiano (1911–1985) radicado no Rio de Janeiro onde fez a dupla Verde e Amarelo com Wilson Batista. É autor do samba-canção “Dá-me tuas mãos”, gravado por Elizeth Cardoso e Nelson Gonçalves. Trabalhou no departamento de divulgação da gravadora Odeon] A gente conversava, porque eles também iam lá no Dancing, dançavam de vez em quando. Aí conversava muito, né? Mas o Ataulfo eu já conhecia, ele morava próximo à Água Santa, né? E eu sempre passava na rua que ele morava.
Tacioli — Elegante?
Alaíde — Muito elegante.
Roberta — Era gente boa?
Alaíde — Gente finíssima! Aliás há pouco tempo a Lua Music fez uma homenagem a ele.
Roberta — Um álbum triplo.
Alaíde — Por sugestão minha: “Vamos fazer Ataulfo!”.
Roberta — Que maravilha! Eu gravei.
Alaíde — Foi sugestão minha, pode perguntar para o Thiago. [n.e. O jornalista e produtor musical Thiago Marques Luiz]
Roberta — Que maravilha!
Alaíde — Aliás, eu cantei uma música dele que as pessoas não conhecem. O Thiago ficou doido! É muito linda! E aí, ali no Dancing, um técnico de som da Odeon mandou um cartãozinho que queria falar comigo. Fui falar com ele. Ele falou assim: “Olha, gostei muito da sua voz, você tem um jeito de cantar bem diferente e o diretor da Odeon é um moço assim muito avançado e tal. Eu vou pedir um teste pra você. Quem está gravando lá é a Sylvinha Telles. [n.e. Uma das pioneiras da bossa nova, a cantora e compositora carioca (1934–1966) lançou em 1956 a canção “Foi a noite”, de Tom Jobim e Newton Mendonça, um dos marcos do novo estilo] Ele tem a cabeça aberta pra todos os tipos de música.”. Que bom, pensei. Aí eu fui lá, fiz o teste e fui aceita. E esse diretor era o Aloysio de Oliveira, né? E daí fui aceita e comecei na luta. [n.e. Um dos mais importantes produtores musicais brasileiros, o cantor e compositor carioca (1914–1995) integrou o Bando da Lua — grupo de apoio de Carmen Miranda –, e foi parceiro de Tom Jobim. Criou a gravadora Elenco nos anos 1960, época em que foi casado com a cantora Sylvia Telles]
Tacioli — Mas antes teve o disco da Mocambo?
Alaíde — Pois é, esse disco da Mocambo foi em 1956 enquanto eu ainda no (Dancing) Brasil, no Dancing Avenida. Gravei e falaram pra mim que o disco não ia sair, que a gravadora ia fechar, que não-sei-o-quê. Só tomei conhecimento desse disco anos depois. Não tinha (o disco), aliás, não tenho.
Pavan — Faliu? [n.e. Mocambo foi um selo da fábrica pernambucana de discos Rozenblit, inaugurada em Recife em 1953]
Alaíde — É, falaram que ia fechar mas continuou lá em Recife, né? E eu fiquei sem saber.
Tacioli — E, Alaíde, como foi a primeira vez que você entrou em um estúdio para gravar? Você cantava no Dancing, em rádio. Tinha alguma diferença ou expectativa entrar no estúdio? Havia glamour? O que tinha?
Alaíde — Era muito esquisito. Sabe por que? Era muito diferente do que é hoje. Era assim: aqui ficava o grupo que tocava e ali o cantor; só tinha um biombo separando e se errasse (a música) parava tudo. Tinha que recomeçar e não tinha aquela coisa de arrumar e não-sei-o-quê. Era tudo ao vivo, não tinha essa coisa de colocar a voz depois. Aliás, eu acho muito melhor, eu não gosto de colocar a voz em nada, eu gosto de já gravar, fui acostumada assim, fica mais autêntico.
Roberta — Respira junto…
Alaíde — É. Então, achei esquisito, né? Fiquei muito tensa, ainda não tomava calmante naquela época… [risos]
Roberta — Uisquinho nem pensar.
Alaíde — Não, não tomava calmante… [risos]
Roberta — Ah, esse calmante!
Alaíde — Aí, nervosa pra caramba…
Tacioli — Você tinha algum ritual para espantar esse nervosismo?
Alaíde — Não, não tinha nada, inexperiente mesmo.
Tacioli — Mas você chegou a pensar que sua timidez pudesse ser um obstáculo na sua carreira nesse momento em que você estava começando a vida profissional?
Alaíde — Não, eu não pensei, não, mas as pessoas diziam: “Ah, você precisa ser menos tímida”. Mas é uma coisa que até hoje (eu tenho). Eu estou descontraída aqui, mas me põe em um lugar assim…
Max Eluard — Cheio de gente desconhecida…
Alaíde — É, eita! Eu fico muito inibida mesmo. E quando eu vou cantar? Ah, é um suplício até hoje!
Max Eluard — Você sofre?
Alaíde — É sério! Eu entro lá e aí meu Deus! É uma coisa!
Max Eluard — Mas o que é?
Alaíde — Eu não sei o que é, é timidez mesmo… Quando eu estou sozinha, eu só me solto depois da segunda, terceira música, mas é difícil.
Max Eluard — Só voltando um pouco, Alaíde, quando você falou que sentiu o gosto de cantar logo no começo, você era levada, era empurrada…
Alaíde — Era empurrada mesmo.
Max Eluard — Mas qual foi o sentimento de pegar o gosto? Você lembra o que bateu na hora?
Alaíde — Foi quando eu fui ao Ary (Barroso), que ele me deu (a nota máxima). Ele era muito crítico.
Max Eluard — Mas foi somente por ele ter gostado ou teve alguma outra coisa?
Alaíde — Ah, acho que foi porque eu escolhi uma música difícil e era aquilo que eu queria pra mim.
Roberta — Um desafio.
Alaíde — É, isso, era aquilo que eu queria pra mim. E daí, lá na Rádio Clube do Brasil, eu conheci uma pessoa incrível: Johnny Alf. Olha como eu sou louca: uma cantora chamada Mary Gonçalves gravou um LP de 10 polegadas com algumas músicas dele. Eu aprendi e ia cantar em programas de calouros. [risos] Sério mesmo! [n.e. Convite ao romance, disco lançado pela gravadora Sinter em 1953, com oito faixas, sendo quatro sambas-canções de Johnny Alf. Com acompanhamento instrumental de Quincas (sax), Zé Menezes (guitarra), Ari Ferreira (flauta) e Irany Pinto (violino); direção musical e arranjos do maestro Lyrio Panicali]
Pavan — Já era uma divulgadora do Johnny.
Alaíde — Isso! Mas falavam assim: “Mas, menina, essa música?! Por que você não canta aquela que está fazendo sucesso, você tem mais chance?”.
Roberta — Claro, ninguém sabia acompanhar! [risos] Imagino o pianista com “Noturno (Em tempo de samba)”.
Alaíde — Não, mas naquela época você ia às lojas e comprava as partituras. Era mais fácil.

"Não vim aqui fazer gracinhas!"

"Mario de Andrade andava na minha calçada!"

"Eu cato, não pesquiso!"