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Marcelo Pretto

Marcelo Pretto é daqueles artistas que conseguem imprimir uma assinatura nas vibrações que são transmitidas pelo ar. Quando canta uma única nota, naquele grave inimaginável para gargantas comuns, a gente desvia o olhar para algum lugar e pensa: é o Marcelo. Se fosse “só isso” já era muito, mas o mistério sonoro se desdobra quando sacoleja a voz, toca o berimbau de boca, canta um acalanto ou murmura uma canção. Curioso e apaixonado pela música brasileira, faz parte do timaço de músicos que integram A Barca, grupo que viajou pelo Brasil todo de ônibus, uma espécie de Expresso Mário de Andrade, que resultou no projeto Turista Aprendiz e em uma maravilhosa quantidade de interações, experiências e pesquisas que fazem parte dos valiosos processos artísticos de todos os integrantes, especialmente de Marcelo. A essa experiência, realizada há mais de 20 anos, somaram-se outras, como integrante do Barbatuques, com a produção de seus próprios trabalhos, nas audições dos (muito) antigos discos de 78 rpm junto com a querida amiga e pesquisadora Biancamaria Binazzi, ou brilhando nos palcos da França, como convidado especial da cantora Camille. Na noite desta entrevista, chovia bastante, a rua estava demasiadamente escura, algumas luzes apenas nas quadras distantes. Dentro da casa, já na cozinha, a conversa de mais de três horas aqueceu rapidamente, ainda antes de o café ficar pronto: bonito de ver como esse assunto — a música — fez seu grande e musical corpo se movimentar e iluminar. Histórias incríveis, como sua amizade improvável com João Gilberto, as interações com Meredith Monk, Vozes Búlgaras, as viagens e as descobertas pelas estradas que o levaram a Mali, Burkina Faso, Espanha e França, mas também — e sempre — para todo o Brasil. Autodidata na música e nos desenhos que produz compulsivamente — muitos e muitos cadernos, cada qual mais belo do que o outro — e, quer saber?, novamente tem uma assinatura: no traço das mãos e no traço da voz. É das pessoas mais musicais que conheci na vida e, honrando a música — substância da qual parece ser feito — , essa conversa tem tudo o que a música do mundo tem: alegria, sonho, dor, tristeza, ritmo, singularidade, melodia e amor. (enquanto equipe de ajeita junto à mesa da cozinha e Edson Natale passa o café) Edson Natale — Pronto, café feito!Marcelo Pretto — Bora tomar? As canecas estão todas aqui!Natale — Onde?Marcelo Pretto — Aqui!Natale — Quem vai de café?Marcelo Pretto — Caneca de tudo quanto é jeito. Eu gosto dessa russa.Natale — Dessa daqui?Marcelo Pretto — É!Natale — O que é isso? Madeira?Marcelo Pretto — É, comprei numa loja na Vila Madalena.Natale — Renatão, café?Renato Nascimento — Quero!Marcelo Pretto — Você não vai tomar?Natale — Não vou, mas vou deixar aqui porque [a caneca] é tão bonita que vou fingir que estou tomando.Marcelo Pretto — Mas, rapaz, você não é normal! (…) Natale, mais duas coisinhas pra mim: na segunda gaveta tem uma colherinha e aí tem o adoçante.Natale — Na segunda tem a colherinha, pronto, e o adoçante…Marcelo Pretto — Pronto, tudo certo.Natale — Agora vai!Rodrigo Caçapa — Onde o Lincoln [Antônio] mora?Marcelo Pretto — O Lincoln?Natale — Ele mora perto de casa.Marcelo Pretto — Vila Anglo.Caçapa — Para deixar com ele o iPod. Ele vem pra cá toda semana, né?Marcelo Pretto — Ele vem quinta-feira.Caçapa — De repente, mando para a casa dele e ele traz pra você. É só você me dizer o que quer de música.Marcelo Pretto — Tá legal!Caçapa — Só não tem o fone, é somente o iPod mesmo, e tem um cabo USB para ligar o carregador.Marcelo Pretto — Ah, tá.Caçapa — Mas não tem o fone dele.Marcelo Pretto — Fone a gente arruma.Natale — Açúcar?Caçapa — Tomo sem, obrigado.Marcelo Pretto — Vocês não conhecem a casa dele? É uma delícia de casa.Caçapa — Nunca fui lá.Natale — Ele mora perto de casa e nunca fui.Tacioli — Obrigado, Natale.Marcelo Pretto — O Lincoln era pra estar aqui, né?Natale — Era. Falei com ele, com a Juçara…Marcelo Pretto — Nossa, acho que exagerei no adoçante!Natale — Quer trocar, tem mais aqui!Marcelo Pretto — Não, deixa assim.Natale — Ou quer por mais para diluir o adoçante?Marcelo Pretto — Talvez um pouquinho mais. Tá bom! (…) Entonces!Natale — Bora nós! (…) Tacioli — A gente entrevistou o Mutinho.Natale — Mutinho!Tacioli — Conhece o Mutinho?Marcelo Pretto — Não.Natale — O baterista que fez a Casa de Brinquedos com o Toquinho.Marcelo Pretto — Ah, o Mutinho, claro, claro! É um cara lendário.Natale — É sobrinho do Lupicínio Rodrigues.Marcelo Pretto — O quê?Natale — (falando um pouco mais alto) O Mutinho é sobrinho do Lupicínio Rodrigues.Marcelo Pretto — Ah, é sobrinho?Natale — Então, vem a história do Lupicínio também. Foi sensacional!Marcelo Pretto — Caralho! Eu sei que um dia, eu estava na casa de um amigo super apaixonado [por música] — mais para os lados do centro — e “Vamos ver o Mutinho?! Você precisa conhecer o Mutinho!”. A gente saiu andando pela cidade porque ele tocava ao vivo em algum lugar [dali]. Mas não conseguimos vê-lo. E quem mais?Tacioli — E você é o terceiro agora dessa volta do Gafieiras com entrevistas novas. Cátia de França, Mutinho e você na sequência. Então, o papo passa pela vida e obra, mas sempre estimulando a reflexão sobre elas.Marcelo Pretto — Parabéns! Você está lutando pela memória da música brasileira, que é tão preciosa. Sou suspeito para falar isso, mas é preciosa pra caralho. A música brasileira é o nosso tesouro, talvez o nosso tesouro maior. Maior não precisa ser, não é corrida, mas é subestimada… É um comentário meio bobo, mas, enfim, a gente não lembra direito das coisas… Agora está todo mundo ouvindo um tipo de som… “A gente tem que ouvir o funk, o sertanejo, tudo!” Acho que tudo vale, mas tem um cabedal, tem uma história que é interessante as pessoas [conhecerem], seja nas escolas ou de alguma maneira tentar — e não sei como — para não ficar um negócio chato: (emposta a voz) “Chico Buarque nasceu… Não! Mas de alguma maneira instigar esse legado, botar nas pessoas a vontade de escutar, porque é tudo tão