São Paulo | 25.nov.2001
O quarto exalava aquela impessoalidade de flats e residences e coisas afins. Tão pequeno: o banheiro logo em frente à porta, o sofá, um armário, frigobar e, após dois degraus acarpetados, o quarto com duas camas de solteiro. No fim de tudo, no fim do quarto, a sacada. A menor sacada do mundo. E nela, Cristina. Só cabia ela, Cristina Buarque. A primeira mulher a ser entrevistada pelo Gafieiras abriu a porta com poucas palavras, estava acompanhada do filho Zeca e, dormindo, da filha Ana. Tentei em vão pescar algum som que me fizesse lembrar da primeira vez que a ouvi cantando — em um curto espaço de tempo conheci “Chorava no meio da rua” (Paulo Vanzolini) e “Sem fantasia” (Chico Buarque) –, mas havia passado cerca de 35 anos das gravações originais e quem disse “olá, tudo bem?!” era outra, falando era outra.
Aquela voz doce, pequena e sentida, que entoava versos como “ai meu deus, que ingenuidade a sua!”, não estava lá. Trajando shorts, aparentemente à vontade, Cristina seguiu com poucas palavras. Não parecia particularmente interessada em falar ou pensar sobre sua carreira. Reservada, talvez imaginasse que fôssemos perguntar do irmão Chico. Como a pergunta não veio, e nem viria, relaxou. Todos relaxamos. E a voz doce e pequena de tantos sambas surgiu rodopiando pelas paredes impessoais do quarto. A filha que dormia, acordou, o domingo que ia fechar, abriu, os cigarros de filtro branco queimaram e surgiram as inescapáveis cervejas (“Meio-dia já rola!”). O resto é música.
Nome: Maria Christina Buarque de Hollanda
Data e local de nascimento: 23 de dezembro de 1950, São Paulo/SP
Data e local de morte: 20 de abril de 2025, Ilha de Paquetá/RJ
Ofício: Intérprete
Ricardo Tacioli — Cristina, como foi o Boteco do Cabral em homenagem a Aracy de Almeida? [n.e. Show-tributo à intérprete carioca (1914–1988) realizado no projeto idealizado pelo jornalista Sérgio Cabral no Sesc Ipiranga, em São Paulo]
Cristina Buarque — Foi muito bom. Ela tinha um bom gosto, um repertório fantástico. Eu e a Marcia cantamos. Foi até difícil escolher as músicas para o show; existe uma exigência do Sesc que diz que tem que se ter as músicas mais conhecidas.
Tacioli — O Sesc faz essa exigência?
Cristina Buarque — É, tem isso, mas nós intercalamos as famosas com outras não tão conhecidas, que não fizeram sucesso, mas que são bonitas. A Aracy era uma figura muito engraçada. O Sérgio Cabral a conheceu bem; ele contou histórias, mas muitas delas ele não podia contar em público. Contou somente as mais leves. [risos]
Tacioli — Que músicos estavam acompanhando vocês?
Cristina Buarque — Estava o pessoal daqui, o Miltinho (Mori), o Edson Alves, o Oswaldinho da Cuíca e o Cebion.
Tacioli — Você chegou a conhecer a Aracy?
Cristina Buarque — Muito pouco. Eu a vi num bar naquela época, não me lembro se foi perto do Teatro Paramount, mas ela estava num bar. Assisti também a alguns shows, mas nunca conversei com ela.
Tacioli — É uma das coisas que você lamenta?
Cristina Buarque — Eu lamento muito. Tenho a maior pena. Eu era muito nova, mas me metia em música. Eu morava em São Paulo, mas o pessoal do Rio vinha para cá de vez em quando. Então, não calhou de eu estar com ela em algum lugar, alguma festa, uma esbórnia assim. Não aconteceu.
Zeca Ferreira — Em festival ela não aparecia?
Cristina Buarque — Foi numa coisa dessas assim, não sei se era a Bienal do Samba, se era um show no Teatro Paramount, não lembro o que era. Só sei que ela estava no botequim ao lado, acho que tomando refrigerante, não estava mais bebendo, não! Ela estava meio sozinha, meio quieta, alguém falou alguma coisa, mas o papo não foi adiante. E eu só olhando, nem cheguei perto.
Tacioli — Como ela era vista pelo meio artístico nessa época, Cristina? Infelizmente depois ela ficou muito caricaturada como jurada de programa de auditório.
Cristina Buarque — Programa do Silvio Santos, né?! E é como as pessoas lembram dela, aquela criatura enfezada.
Daniel Almeida — É, parecia um personagem.
Cristina Buarque — As pessoas que conviveram com ela, que a conheceram, falavam que ela morava numa casa no bairro do Encantado, no Rio, e tinha vários cachorros. Era muito boa, meiga e amorosa com as pessoas. Ficava ouvindo música clássica em casa, que era limpíssima, muito bem decorada e cuidada, com cristaleira e quadros de gente famosa! Ela foi amiga do Di Cavalcanti! [n.e. 1897–1976] Ela tinha esse palavreado, que era uma coisa engraçada, com muita gíria e palavrão, mas era uma pessoa muito doce. Por isso tenho pena de não ter convivido com ela. E chegou uma hora em que não queria mais cantar, queria só ficar nesse negócio de programa de auditório, porque era seu sustento. Naquele tempo, a televisão e as gravadoras até davam mais espaço para este tipo de música. Fico pensando se ela estivesse viva hoje como é que seria. Acho que foi a dificuldade de se fazer música boa que deu esse desgosto pra ela, apesar daquela época ser melhor do que hoje. Ela deve ter se deparado com algumas dificuldades e cansou. “Não quero mais cantar!” Parece que ela era muito bem tratada pelo Silvio Santos, ganhava uma grana legal. Mas mesmo assim, mais para o final da vida, ela fez uma coisa ou outra, como o programa de televisão com o Herminio Bello de Carvalho, que está recuperando os programas da TVE. Então, temos algumas coisas dela no final de vida, cantando uma maravilha, não com a mesma voz que ela tinha quando era nova, mas com interpretação muito bonita.
Tacioli — Você tem discos da Aracy?
Cristina Buarque — Lá no Rio existe um negócio chamado Collector’s [n.e. Site dedicado à música brasileira das décadas de 1940 e 1950] que tem esses 78 rotações tudo em fita. A qualidade não é boa, é fita cassete. Comprei em fita tudo o que ela gravou em 78 rotações. Depois, um pesquisador amigo meu levantou o que ela fez em LP, pegou as fitas que eu tinha, e o que ele não conseguiu encontrar com uma qualidade melhor, usou dessas fitas mesmo. Assim, fizemos a discografia completa da Aracy de Almeida. Tenho isso em CD, que já deu uma melhorada no som, mas as gravações que eram muito ruins e não se acharam melhores, ficaram assim, ruins mesmo! São 16 CDs, numa média de 24 músicas. Isso é tudo o que ela gravou. Eu tenho isso!
Tacioli — E da Revivendo?
Cristina Buarque — Os discos da Revivendo já têm o som melhor, vêm com explicação e com as letras das músicas. Da Collector’s só vem a fita, nome da música e do autor. Mas a Revivendo tem tudo espalhado. Compro muita coisa da Revivendo, mas tem um disco da Aracy com Cyro Monteiro, daqui a pouco tem um da Aracy com não-sei-quem, e repete algumas músicas. Mas a qualidade é melhor, sempre.
Tacioli — Você tem um acervo fonográfico legal?
Cristina Buarque — Durante muito tempo da minha vida eu fui comprando. Na época do LP, eu tinha 13, 14 anos, eu já comprava coisas como Cyro Monteiro, Aracy, Pixinguinha. Mas também fui perdendo muita coisa pelo caminho. Esse negócio de emprestar, nego não devolve, isso acontece muito. Mas a minha discoteca não é grande coisa, não! Tenho muita coisa porque vou comprando em fita. Em fita tenho o completo da Aracy, do Déo, do Cyro Monteiro. E quando fiz aquele disco do Wilson Baptista comprei muita coisa da Collector’s. Tem muita coisa espalhada com o Quatro Ases e um Coringa, Anjos do Inferno, Roberto Paiva, Gilberto Alves, Odete Amaral. Tem muita coisa espalhada e não dá para comprar tudo, não.
Tacioli — O Zeca me falou que você se preocupa bastante em preservar suas fitas, gravando tudo em CD. Como é isso?
Cristina Buarque — Meus filhos me presentearam com um “fazedor de CD pirata” [risos], então agora fico fazendo isso. Dei de presente para um amigo meu o que sobrou do Wilson Baptista. Um CD com coisas muito boas que sobraram do disco que fiz e que não entraram no álbum. Fiz o segundo e acabei gravando seis CDs só com músicas maravilhosas do Wilson Baptista, umas 150. Nessa pesquisa do Wilson não cheguei a tudo, ao repertório completo dele, não! Ele tinha umas duzentas e tantas músicas, e muita coisa eu não encontrei.
Zeca Ferreira — E sem contar as que não estão no nome dele.
Cristina Buarque — Tem isso! Mas na Collector’s compro esses cantores mais conhecidos. Daí pintam cantores que gravaram dois 78 rotações, sabe assim?! Não vou achar isso. Quer dizer, se eu procurar muito até acho, sempre tem um pesquisador que tem. Mas do Wilson Baptista deu muita música boa, cerca de 150. E não botei o que não gostei.
Tacioli — Tem planos para se fazer um outro disco?
Cristina Buarque — Plano para se fazer disco tenho um monte. O problema é gravadora. Isso aí é que é mais difícil.
Dafne Sampaio — O seu mais recente é o segundo do Noel Rosa, que saiu pela Kuarup, como o primeiro, não?!
Cristina Buarque — O primeiro tinha saído por uma gravadora francesa, depois venceu o contrato, e fizemos o relançamento pela Kuarup. E para esse segundo já fizemos direto. Mas é um disco barato de se fazer, somente voz e violão. O Henrique Cazes toca violão e conta as histórias.
Zeca Ferreira — E foi gravado ao vivo.
Cristina Buarque — O primeiro show nós fizemos há 10 anos. Ficamos um tempo fazendo o primeiro e depois mudamos o repertório, bolando o segundo. E foi esse que a gente gravou.
Dafne — Então, uma produção voz e violão poderia ser uma saída para outros discos, aumenta as possibilidades?
Cristina Buarque — O que pega mesmo são as editoras das músicas. Como gravo muito samba antigo que foi editado, as editoras tomam contam da música e cobram uma fortuna. Se eu quiser gravar um disco independente, não vou conseguir porque a editora pede muito dinheiro por um samba desses. Agora, se é uma gravadora, tem aquele lance de se pagar depois. A gravadora já tem uma coisa direta com as editoras. Por isso que não dá para fazer um disco independente. Hoje em dia gravar um disco é muito fácil. Tem gente que tem estúdio em casa, dá para gravar legal, gravar digital, fácil para o cara que tem as músicas ou que grava um disco de inéditas que não foram editadas. Aí, com uma autorização direta do compositor, ou se ele mesmo é compositor, não tem problema. Isso dá para fazer tranquilo. Mas você gravar um disco de velharia como eu gosto [risos], já fica difícil. Aí tem que ter uma gravadora.
Mas há pouco tempo você se empolgou com um projeto, não?! Como o show estava bom, você pensou em gravar um disco e, quando foi ver, percebeu que era inviável.
Cristina Buarque — Eles pedem 500 reais por música, uma coisa assim!
Tacioli — Isso foi com o Eles por elas?
Cristina Buarque — Foi. Um show com um monte de mulher cantando músicas feitas por homens para ser cantadas por mulher, e que foram gravadas pela Aracy, Carmen Miranda, Odete Amaral, Dircinha, Linda, Isaurinha Garcia. Tinha muita música engraçada. Mas são músicas que para se gravar tem que ter uma gravadora para liberá-las junto às editoras.
Tacioli — Esse show não passou por São Paulo?
Cristina Buarque — Não, não! Fizemos em dois teatros no Rio e em São José do Rio Preto. E era muita gente, aí o negócio fica difícil. Ganhávamos 10 reais por show. [risos] A base do “ganha-se pouco, mas é divertido”. [risos] E todo mundo tem outros trabalhos… Você vai parar para ensaiar e depois ficar no prejuízo? Não dá certo, não!
Tacioli — Cristina, você está falando que precisa de uma gravadora, ainda mais se tratando dessas músicas antigas. Como é sua relação com as gravadoras? Você começou na RCA, né?!
Cristina Buarque — É, comecei na RCA, onde gravei dois discos. Depois fui para a Continental, fiz um disco. Em seguida, fui para a Ariola, quando ainda era uma gravadora nova. Hoje pertence à BMG, e assim tenho quatro discos na BMG: dois da RCA e dois da Ariola, que eles não relançam. São discos raros! Eles relançam umas músicas, tipo “Quantas lágrimas”, que sai nessas coletâneas de samba a toda hora. Os discos mesmos, em si, muita gente nem sabe que existem.
Tacioli — Engraçado que com o centenário da RCA uma série de discos voltou ao mercado.
Cristina Buarque — É, eles estão lançando.
Tacioli — Mas você não sabe se algum dos seus está nos planos da BMG?
Cristina Buarque — Ah! A gente não sabe de nada. E se eles relançam, não avisam. Mas não sei se eles estão pensando nisso. Também não tenho mais contato com ninguém, faz tanto tempo que gravei lá. 74, 76 e depois 80 e 81. Tem mais de 20 anos, já mudou tudo, a gravadora mudou de nome. Não tenho contato com eles, não!
Tacioli — Como foi a experiência nessas gravadoras?
Cristina Buarque — Foi um tempo diferente, né?! A gravadora não tinha a menor ideia do que você ia fazer. Eles pagavam tudo, aceitavam tudo. Eu morava ainda em São Paulo quando fiz esses dois primeiros discos, quer dizer, os músicos do Rio vinham a São Paulo para gravar. Hoje em dia nunca que a gravadora faria isso com uma cantora que está começando. Dino, Abel Ferreira, conjunto Época de Ouro, o pessoal da percussão (Luna, Marcal, Eliseu, Jorginho) e César Faria, esse pessoal todo a gravadora mandava vir, pagava hospedagem e tudo. Não existe mais isso! É um outro tempo! Lembro-me que a distribuição dos discos na época não era muito boa, mas você tinha condições de gravar discos sem a gravadora dizer o que você teria que fazer. Hoje é assim: “Agora você vai gravar um disco fazendo isso, fazendo aquilo”.
Zeca Ferreira — Temático!
Cristina Buarque — É, temático! [risos] Naquele tempo não tinha disso, não! No estúdio, a gente e o produtor escolhíamos o repertório, escolhíamos quem ia tocar, quem ia fazer arranjo. Às vezes não tinha arranjo, fazia-se na hora, cada um pegava seu instrumento, dava uma ideia e pronto. Era mais fácil nesse ponto. Por isso os discos antigos são diferentes dos que se tem hoje. A arte era uma coisa mais livre.
Almeida — Tem alguma coisa a ver com o papel do produtor hoje em dia? Hoje parece que o produtor chega e põe uma grife em um disco/artista.
Cristina Buarque — É, hoje o produtor é muito ligado à gravadora, que é ligada ao departamento de venda, ao departamento de marketing. Às vezes chamam uma pessoa para gravar um disco e convocam um produtor que ela não conhece. “Você vai chegar, vai fazer esse tipo de música assim, o arranjador vai ser não-sei-quem”. O cantor chega sem conhecer… Isso nas grandes gravadoras. Mas estão pintando os selos pequenos, e muitas pessoas estão partindo para essas alternativas. Isso está acontecendo demais. É bom, porque com o CD ficou mais fácil fazer disco independente. Um tempo atrás, cheguei a fazer disco independente, mas em vinil. Era uma complicação!
Zeca Ferreira — Como é que foi a distribuição desse disco independente, o Cristina e Mauro Duarte?
Cristina Buarque — Foi debaixo do braço mesmo. A gente ia fazendo show e levando LP para vender. Fizemos uma tiragem de 2 mil exemplares, que era o mínimo que se fazia. Chegamos ainda a levar em algumas lojas. Era um negócio engraçado, a gente botava aquelas caixas que cabiam 30 discos em carrinho de feira e íamos para a cidade. Levávamos para uma loja. Aí o dono da loja vinha e conversava com a gente, “Pô, mas como vocês estão fazendo disco independente? As gravadoras não querem? Mas que absurdo!” E botava o disco tocando alto. “Mas que maravilha!” Ficávamos felizes, íamos para o botequim do lado e ficávamos tomando cerveja. A gente deixava os discos em consignação. E depois para receber o dinheiro era uma confusão! [risos] O dono da loja nunca estava. [risos] E aos pouquinhos a gente foi recolhendo os discos que tinham sobrado nas lojas. Ficamos sem dinheiro, pois a maior parte das lojas não pagaram. Vendíamos mesmo em shows.
Zeca Ferreira — E por esse disco muita gente pergunta, não?!
Cristina Buarque — Hoje esse disco é uma raridade.
Dafne — Nesse álbum o Mauro Duarte também cantava?
Cristina Buarque — Também. Quase todas as músicas eram dele. Fizemos show durante muito tempo, e só depois resolvemos fazer esse disco. Pintou uma grana e gravamos o disco, que foi muito bem cuidado, num estúdio legal, que é o Odeon, no Rio, com técnico, que gravava mais o pessoal de samba. Uma produção que saiu cara, mas ficou legal. E ainda acho que consigo lançar esse disco em CD por algum selo que venha a topar.
Zeca Ferreira — Desse disco não tem uma história que vocês encontraram o Geraldo Babão?
Cristina Buarque — Foi depois que a gente fez o compacto.
Zeca Ferreira — Era outro disco?
Cristina Buarque — Era. Geraldo Babão foi um grande compositor do Salgueiro e a gente o encontrou num ônibus. Ele trabalhava como trocador do ônibus. Disse que estava aposentado, mas que precisava de uma graninha para continuar sobrevivendo. Estava doente, ficou um tempão com câncer, mas ainda trabalhava como trocador de ônibus. Aí pintou a ideia de se fazer esse samba, “Resgate”, que fala desses compositores que tinham outras profissões, já que só a música não dava. Muitos deles morreram sem ser conhecidos.
Tacioli — A quem pertence a matriz do disco Cristina e Mauro Duarte?
Cristina Buarque — Pertence a mim e à família do Mauro.
Tacioli — Então basta o interesse de algum selo em relançá-lo?
Cristina Buarque — É só pintar um selo a fim de lançá-lo! Muita gente procura por esse disco.
Zeca Ferreira — Pelo menos na Internet e em shows, muitos ainda perguntam por esse álbum. Você não tem mais?
Cristina Buarque — Tenho o “Lpzão”, a matriz não sei onde está ou onde foi parar. Acho que se perdeu pelo caminho.
Zeca Ferreira — Mas você não tem muitas cópias, tem?
Cristina Buarque — Tenho uns três discos. Nenhum zerinho, um arranhadinho, outro sujinho. Se não acho um, pego o outro. Tem um restinho lá. Teve uma época em que saiu uma parte desse LP em um disco de um selo pequeno no Rio chamado SACI, que era do Maurício Tapajós. Ele fez um CD em homenagem ao Mauro Duarte. Pegou uma parte desse disco, como também gravações da Clara Nunes, do Paulinho da Viola, do Paulo Cesar Pinheiro. Também foi uma tiragem pequena. Depois morreu o Maurício Tapajós, acabou o disco, que se tornou uma raridade. Acho que foi lançado em 1994.
Tacioli — Como era o Mauro Duarte, Cristina?
Cristina Buarque — Um sambista carioca que, na verdade, era mineiro. Nasceu em um lugar do lado de Juiz de Fora chamado Matias Barbosa. O pai dele trabalhava numa fazenda e foi para o Rio quando ele tinha uns seis anos. Foi morar em São Cristóvão por um ou dois anos, era uma família muito grande. Depois foi para Botafogo, onde morou a vida toda. Aliás, é onde ele está enterrado. Era um compositor muito conhecido daqueles blocos antigos de Carnaval. Botafogo era um bairro muito forte em Carnaval. O Mauro era considerado pelo Paulinho da Viola, que conviveu com ele nessa época, como o melhor compositor de Botafogo. Depois ele teve muita música gravada pela Clara Nunes. Praticamente em todo disco dela tem duas músicas dele. Acho que só em uns dois discos é que não têm samba do Mauro. Ele foi da época do Rosa de Ouro [n.e. Quinteto formado por Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Anescar do Salgueiro e Jair do Cavaquinho, que foi a base do espetáculo homônimo produzido por Herminio Bello de Carvalho em 1965, que revelou Clementina de Jesus e ressuscitou a ex-vedete Araci Cortes], mas quando o grupo foi gravar mais três discos na Odeon já como Os Cinco Crioulos, o Paulinho da Viola já estava com sua carreira solo, e o Mauro entrou, substituindo-o. Ele também participou de um show chamado Mudando de conversa, com Cyro Monteiro, Nora Ney e Clementina. E depois ficou mais conhecido com os sucessos gravados pela Clara, Paulinho da Viola, João Nogueira e Roberto Ribeiro. Fizemos vários shows, e somente mais tarde gravamos esse disco. Continuamos a fazer shows e vendendo discos. Fizemos muita coisa até 88. Em 89 comecei a fazer parte do coro que acompanhava o Paulinho da Viola. E nesse ano o Mauro morreu.
Tacioli — Queria que você falasse um pouquinho sobre sua infância, como era, e como surgiu sua relação com música. Que tipos de recordação dessa época você tem?
Cristina Buarque — Quem me apresentou essas figuras do samba antigo que gosto até hoje, Mário Reis, Francisco Alves, aquelas coisas de dupla, discos do Noel, Aracy, Cyro Monteiro, foi meu irmão mais velho. [n.e. Sergio Buarque de Holanda Filho, o Sergito] Ele adorava esse tipo de música e eu ouvi muito. Fora isso, tinha o lance da Miúcha… Aí era uma espécie de Família Trapo. Ela tinha mania de juntar todo mundo. Ela tocava violão e distribuía vozes para a gente, as irmãs, uma espécie das Pastoras do Ataulfo Alves. Fizemos isso muitas vezes. Então existia esse negócio de cantar em casa desde meus 6, 7 anos. E, lógico, iam juntando outras pessoas. Essa cantoria em casa rolava muito. Isso é o mais para atrás que me lembro. Depois a Miúcha foi morar fora, e o Chico já estava começando como compositor, quando começamos a fazer isso com ele também. E com o tempo a gente foi juntando, conhecendo amigos em São Paulo que gostavam de música, de samba, um que tocava violão, outro que tocava atabaque, que parecia atabaque de macumba — não se usava tantã naquela época e ainda não tinha o surdo. Era uma coisa de juntar amigo para cantar, e hoje no Rio vejo uma mocidade que faz isso, que gosta de ouvir samba antigo, cavucar, pesquisar. Eu e minhas irmãs fazíamos isso naquela época, quando tínhamos 16, 17, 18 anos. Mas esse negócio de gente nova tocando e cantando não era muito comum nem em São Paulo, nem no Rio. Também não éramos profissionais, fazíamos porque gostávamos mesmo.
Tacioli — Você nasceu em São Paulo?
Cristina Buarque — Nasci e morei muito tempo em São Paulo. Fui para o Rio com 26, 27 anos e já com quatro filhos. Só minha filha caçula é que nasceu no Rio.
Tacioli — De que forma essa história de ouvir sambas antigos apresentados por seu irmão mais velho determinou sua carreira, já que ela é, artisticamente, muito coerente?
Cristina Buarque — É, de repente foi ficando. Também fui conhecendo o pessoal que naquela época era novo, como o Paulinho da Viola. Tinha muita gente começando, mas, ao mesmo tempo, tinha também os compositores mais antigos que ainda estavam vivos. Com 18, 19 anos eu ia muito para o Rio. Convivia com Cartola, Candeia, Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus, Ismael Silva. Esse é o pedaço que tenho a maior pena de não ter gravado mais coisas. Ainda tenho restos de coisas… Outro dia achei uma fita bem velha, com o Nelson Cavaquinho tocando, eu, minhas irmãs e primas cantando com ele. Na casa do Candeia também gravei alguma coisa, e tenho uma fita com Donga tocando violão. Ele tocava “Patrão, prenda o seu gado”, e a filha dele, Lígia Santos, fazia coro. Ele fazia aquele ponteado e dava aquelas batidas no violão, fazendo o ritmo e tocando ao mesmo tempo. É um negócio lindo! E ainda reclamava dizendo que a mão já não estava mais obedecendo. Ele estava bem velhinho.
Tacioli — Você já tinha essa preocupação em registrar esses encontros?
Cristina Buarque — Eu registrava alguma coisa, mas como íamos em grupo, sempre alguém gravava e depois passava a fita para a gente copiar. E não era nem em cassete, era naquele gravador que tinha um rolinho pequeno. Não cabia muita coisa, não! Quando o cassete começou não era todo mundo que tinha. Tenho pena de não ter registrado mais essas coisas. Tive mil vezes com o Nelson Cavaquinho, mas gravei pouco. Tenho coisas, mas muitas se perderam. Esses caras faziam música e se esqueciam. Convivi também com muita gente da Velha Guarda da Portela, gente que já morreu, e hoje ficamos tentando lembrar. O Monarco lembra muito sambas dos outros, mas não é a toda hora. E muita coisa se perdeu com quem morreu. Francisco Santana, que era um grande compositor! Alvaiade é um que teve mais músicas conhecidas por ter sido gravado por cantores da época de discos e rádio. A Velha Guarda apareceu naquele disco que o Paulinho da Viola produziu em 70 [n.e. Portela, passado de glória, RGE, 1970] e depois muitos cantores gravaram músicas deles. Mas Alvaiade é um que já gravava desde mil e novecentos e nada. Ele já tinha sido gravado por um monte de cantor famoso.
Zeca Ferreira — Agora, você e o Mauro Bolacha (Mauro Duarte) também começaram a registrar sambas de outros da velha guarda.
Cristina Buarque — A gente começou com essa ideia com o Francisco Santana, ir na casa dele e ver o que ele tinha no baú. “Vai lembrando, vai lembrando!” Tivemos a ideia, não fizemos e o Francisco Santana morreu um pouco depois. Aí fizemos isso com o Manacéa. Tenho uma fita com o Manacéa que fizemos na casa dele. Ele tem sambas lindíssimos! E com certeza não é tudo, porque eu ficava reclamando. “Lembra mais, lembra mais!” Um tempo antes falei para ele ir anotando as músicas que ele ia se lembrando. O pessoal é muito velho. E tem uma coisa que me falaram por causa do Jair do Cavaquinho, que fez um disco muito bonito agora, mas que ainda não saiu. “Fala uma música!” “Não, essa é muito diferente. O pessoal não vai gostar!” Então tem isso, eles acham que a coisa é diferente, quando não, pintam músicas maravilhosas. Não tem que ser aquela coisa que nego grava, que faz sucesso, não! Tem umas coisas diferentes que também podem fazer um sucesso danado. É que eles têm vergonha de mostrar.
Tacioli — Você acha que essa realidade que a gente vive ou que se vivia os influenciava a mostrarem ou não uma música?
Cristina Buarque — O que acontecia antigamente com o pessoal da Velha Guarda é que eles se reuniam sempre e faziam músicas assim, contando coisas que aconteceram, deles, a história de uma mulher, de um amigo. Tudo virava música. Não tinha aquele negócio de fazer música pra ser gravada. Eles nem imaginavam que um dia alguém iria gravar. Era um prazer mostrar música para os outros. Às vezes tinha concurso na Portela, o chamado samba de terreiro, hoje samba de quadra, mas não era música de carnaval, não era nada. Eles ficavam ali, mostrando um para o outro e todo mundo fazia o coro. Por não existir essa ideia de gravar, de fazer sucesso, as músicas eram muito bonitas. Era contando uma história da vida que aconteceu, músicas engraçadas, músicas mais líricas, com a melodia toda trabalhada. Hoje não, é aquele refrãozinho, aquela coisa para aprender rápido, como virou o samba-enredo. A diferença do samba-enredo antigo para o de hoje é enorme. Até no andamento. Hoje é tudo corridinho para dar tempo da multidão passar, tudo naquela marcha. Antes era na cadência, mesmo! Este papo tá virando uma coisa meio saudosista, né?! [risos] [muda a voz, imitando uma velhinha] “No meu tempo, meu filho…”
Almeida — Nessas fitas antigas têm coisas inéditas?
Cristina Buarque — Têm! Um grupo muito bom do Rio chamado Dobrando a Esquina está gravando um disco agora, e como existe esse problema das editoras, eles ficaram por muito tempo procurando coisas inéditas. Eles gravaram e eu fiz uma participação nesse disco, cantando um samba inédito do Candeia. Ainda tem muita coisa por aí!
Tacioli — Para o álbum Tudo azul também existiu uma pesquisa prévia, não?
Cristina Buarque — Muito, muito!
Tacioli — Como você participou desse disco?
Cristina Buarque — Eles fizeram várias reuniões na casa da Marisa Monte para lembrarem de músicas, e ela foi gravando tudo. Tinha também uma equipe que trabalhou com ela que catou tudo que foi gravado. Ela fez uma pesquisa durante um tempão. E como eles falaram que eu tinha alguma coisa, ela me pediu e eu passei o que eu tinha, coisas de compositores que já tinham morrido e que eles não se lembravam. Às vezes eles lembravam da primeira ou da segunda parte. E alguma coisa do que passei foi até usada no disco. A Marisa Monte ficou com um material enorme. Ela disse que pretende fazer um outro disco. É muita coisa boa que eles têm! Ela está fazendo agora um disco com o Argemiro, da Velha Guarda da Portela, e parece que vai lançar o do Jair do Cavaquinho, que já foi gravado. Acho que devem sair pelo selo dela. [n.e. Phonomotor, distribuído pela EMI]






Tacioli — Você sabe dizer quando é que se manifestou sua preocupação em registrar esses encontros com sambistas da velha guarda? Teve um momento específico ou foi uma coisa natural?
Cristina Buarque — Não, eu tinha uma coisa ou outra espalhada, mas aí me pediram para ajudar a levantar o repertório do disco do Nelson Cavaquinho, o último que ele fez. Apareceu um amigo meu de São Paulo, o Chicão, que tinha as fitas que gravou em sua casa com o Nelson Cavaquinho. O Chicão me emprestou as fitas que tinham um monte de coisas que nem eu conhecia, e que nem o Nelson se lembrava. Fui também à casa do Nelson e ele se lembrou de várias músicas. Aí juntei muita coisa do Nelson Cavaquinho. E quando as pessoas sabem que você está fazendo um trabalho assim, elas acabam ajudando. Quem tem muita coisa e me ajudou, principalmente no disco do Candeia, foi o Paulo Cesar Pinheiro, por causa da Clara (Nunes). A Clara gravava mesmo. Tanto com a Velha Guarda, como com o Candeia e Nelson Cavaquinho. Ela gravava tudo e o Paulinho tem essas coisas, muita música de compositor antigo. Não é que eu preciso levantar um arquivo ou uma coisa assim. Isso eu não tenho, não! O que eu tenho, está lá. Às vezes pinta um trabalho, e nêgo oferece coisas que ele tem.
Tacioli — Mas você disse que quando era mais nova, você ia para não-sei-aonde e gravava esses sambistas. Esse interesse nasceu por quê? Você consegue identificar?
Cristina Buarque — Não era interesse, não! Quando você vai ver um troço que você gosta, você grava e depois fica ouvindo. É legal! Mas não tinha essa ideia de preservar, que é o que eu devia ter tido. Hoje eu teria muito mais coisas. Tenho pena de não ter feito mais isso. Tenho pena!
Tacioli — Cristina, você nasceu em São Paulo, mas mora no Rio há anos e grava muito sambista carioca. Como você definiria sua relação com São Paulo e Rio de Janeiro?
Cristina Buarque — Engraçado, não sei te dizer isso, não.
Tacioli — Ao mesmo tempo, sua primeira gravação foi uma música do (Paulo) Vanzolini.
Cristina Buarque — Foi. “Chorava no meio da rua”, isso em 67. Vanzolini foi amigo do meu pai e da minha mãe, que é quem tinha maior resistência a esse negócio de música. Ela queria que eu estudasse. Eu era meio vagabunda, e ela tinha medo de “Vai virar cantora de rádio!”, essas coisas assim. Minha mãe tinha um pouco de bronca. E como Paulinho Vanzolini era muito amigo deles, ele conseguiu dobrá-la e me botou no disco cantando essa música. E no outro ano já fiz uma música no disco do Chico. [n.e. “Sem fantasia”, gravada no álbum Chico Buarque de Hollanda — Vol. 3, de 1968] Aí começou a virar bagunça!
Tacioli — Então o Vanzolini foi um dos responsáveis por sua vida artística?
Cristina Buarque — O Vanzolini e o Fernando Faro foram os responsáveis pelo começo da minha carreira. O Faro foi quem fez esse negócio de arrumar a gravadora e produzir meus primeiros discos. Eu nunca tinha pensado em ser cantora. Tinha participado de um disco aqui, outro ali, e cantava em casa. Não achava que ia ser uma cantora.
Almeida — Você achava que ia ser outra coisa, Cristina?
Cristina Buarque — Cheguei a estudar Fonoaudiologia [risos], mas parei no 3º ano. Também não sei se eu queria ser uma fonoaudióloga! [risos] Achei que era interessante, entende?! Tinha uma parte ligada à Anatomia que eu não conseguia entender, aqueles pedaços de ossos, pedacinhos de nervos. Eu não conseguia decorar, não! Eu gostava de Fonética e de Psicologia. Mas tinha que aprender essa parte ligada à Medicina, e aí fui largando o curso.
Dafne — A que se deve essa distância entre sua participação no disco do Vanzolini e do Chico e a gravação de seu primeiro LP?
Cristina Buarque — É, tem um espação aí. 67, 68. Depois fiz uma coisa ou outra, participei do disco do Chico Maranhão, do Carlinhos Vergueiro, mas acho que já foi depois de eu gravar. Eu fazia coisas em televisão com o Fernando Faro, como o programa com o Ismael Silva. [n.e. MPB Especial, 1973] E eu estudava, não pensava que ia ser cantora, não! Em 74 acho que fiz um desses programas com o Faro, e ele perguntou se eu não toparia fazer um disco. Ele conversou com o pessoal da RCA Victor, que se interessou. Fizemos dois discos. E o Faro ainda produziu o terceiro, na Continental.
Tacioli — Que recordações você tem desse primeiro disco? Como é que foi a sensação de estar gravando seu primeiro trabalho, de escolher repertório?
Cristina Buarque — É, isso eu adoro fazer. O Fernando Faro apresentava muita coisa que eu não conhecia. E tinha uma pessoa que também ajudava muito com repertório que era o Miécio Caffé. [n.e. Ilustre cartunista e colecionar de discos, 1920–2003] Nunca cabe num disco tudo o que a gente gostaria de gravar. Fizemos o primeiro, dois anos depois fizemos o segundo. É, na verdade eu teria que ter gravado muito mais.
Tacioli — Tem uma história interessante desse primeiro disco, Cristina?
Cristina Buarque — Eu me lembro de que os músicos do Rio vieram a São Paulo, e o Paulinho da Viola participou tocando cavaquinho em “Quantas lágrimas”.
Zeca Ferreira — Você conhecia todo esse pessoal do Rio quando eles vieram gravar seu disco?
Cristina Buarque — Deixo eu ver… Acho que já conhecia o Luna, o Marçal, o Eliseu, o Dino. Não lembro como os conheci. No Rio sempre tinha “homenagem a…”. Peguei isso uma vez, “Homenagem ao Pixinguinha, Donga e João da Baiana”, no Orfeão Portugal, um lugar lá na Tijuca. Aí eu ia para o Rio. Fui também muitas vezes ao Teatro Opinião. Xangô da Mangueira, Clementina de Jesus, esbarrava com esse pessoal, mas eu não era amiga desses músicos que foram participar do disco. E como eles gravaram o LP e voltaram para o Rio, eu não tinha como lançá-lo, fazer shows, essas coisas. Nessa época eu quase não fazia show. Ao mesmo tempo eu estava começando a ter filhos. Então era mais uma coisa de gravar o disco. Gravei o segundo disco, e o primeiro show que fiz foi com o Carlinhos Vergueiro, na rua Doutor Vila Nova, onde tinha um teatro. É uma travessa da Maria Antonia. E fizemos com músicos do Rio e outros de São Paulo.
Zeca Ferreira — Quem veio?
Cristina Buarque — Xixa do Cavaquinho, Jorginho do Pandeiro, Dino. O Faro arrumou um programa na TV Cultura para descolar as passagens. Eles vieram e fizeram o programa. Acho que até fiz o programa com o Dino, cantando uma música dele, para eles poderem fazer o show. Mas era difícil. Eu não convivia muito com músicos de São Paulo. O meu negócio era com o pessoal do Rio. Eu ia sempre pra lá. Depois que mudei para o Rio comecei a trabalhar mais, fazer shows, uma coisa mais profissional. Esses dois discos que gravei em São Paulo eram “gravar o disco e cuidar de filho”. Não tinha aquela veia artística! [risos]
Tacioli — E “Quantas lágrimas”?
Cristina Buarque — “Quantas lágrimas” é desse primeiro disco. Foi engraçado. Peguei aquele LP que o Paulinho da Viola fez com a Velha Guarda em 70. Eu gostava do disco todo. Foi quando cheguei a conclusão de que eu era portelense. Lá no Rio uma escola de samba é como time de futebol. Aqui em São Paulo as pessoas não tem muito disso, ou não tinham. Naquela época eu não tinha muito ideia de escola de samba. E quando vi esse disco, “Pô, a Portela é muito boa, todo mundo é muito bom! Vou gravar uma música!”. Mas fui gravá-la quatro anos depois, não sabia nem qual delas eu gravaria, já que gostava de todas. Regravei o “Quantas lágrimas”. E foi um sucesso. Naquela época não tinha jabá, música de trabalho. Começou a tocar devagarinho e aí a RCA lançou um compacto simples. Já existia o LP. Como lançaram o compacto, muita gente nem sabe que existe esse LP. Tiraram do LP o “Quantas lágrimas” e acho que do outro lado era uma música da Ivone Lara. O que vendeu muito foi o “compactozinho”, não o LP. E só fui conhecer a Velha Guarda depois disso.
Tacioli — Você ainda não conhecia a Velha Guarda da Portela?
Cristina Buarque — Não, não conhecia, não! Um dia fui na casa do Manacéa, ele chamou um monte de gente, e ficamos cantando a tarde toda. Volta e meia o Manacéa ligava, “Vou fazer uma peixada aqui”. Aí eu pegava o trem, ia para o Rio, lá para a casa do Manacéa. Fui a vida toda amiga deles. Mas os conheci, acho, em 75.
Tacioli — Se não me engano, o sucesso de “Quantas lágrimas” em seu disco fez com que na reedição do disco da Velha Guarda da Portela a música saísse…
Cristina Buarque — É, trocaram a ordem. A música que abria o disco era “Levanta cedo”. “Quantas lágrimas” era a última do lado A, ou do lado B. Daí botaram na frente.
Zeca Ferreira — Promoveram, né?! [risos]
Cristina Buarque — E é uma gravação linda do Manacéa com a Velha Guarda. É bonito! Esse disco é todo bonito!
Tacioli — E você depois voltou a regravar “Quantas lágrimas” em um outro álbum.
Cristina Buarque — Não, nesse disco que eu fiz com o Mauro Duarte tinha um pot-pourri que era parte do show da gente, e entrava a primeira parte do “Quantas lágrimas”. Era só porque tinha a seqüência das músicas, uma resposta para a outra.
Tacioli — Pelo jeito você não acompanhou a gravação desse disco da Velha Guarda da Portela, de 1970?
Cristina Buarque — Não, não acompanhei de perto, não! Ganhei esse disco no ano em que ele saiu, ano em que a Portela ganhou o Carnaval. Ano também em que “Foi um rio que passou em minha vida” estava fazendo muito sucesso. Naquela época eu ia muito para o Rio, mas não tinha essa grana para ver desfile. Então fui para a concentração sem conhecer ninguém. Dali só conhecia o Paulinho da Viola e um ou outro compositor. Na concentração eles cantavam “Foi um rio que passou em minha vida”. A escola passava — era na Presidente Vargas ainda, não existia o Sambódromo — e conforme ia terminando, os caras iam saindo e começavam a cantar de novo “Foi um rio que …”. Um negócio emocionante! Nesse mesmo ano saiu o disco da Velha Guarda.
Zeca Ferreira — Ele não fez sucesso, fez?
Cristina Buarque — Não, o disco teve uma tiragem muito pequena e foi mal divulgado. Pouquíssimas pessoas tinham esse LP, uma raridade durante muito tempo. Quatro anos depois, “Quantas lágrimas” fez sucesso, e com a morte do Natal (da Portela), a gravadora relançou o disco, mas mudou sua capa. [n.e. O bicheiro Natalino José do Nascimento, mais conhecido por Natal da Portela (1905–1975), um dos fundadores e patrocinador da referida escola de samba de Oswaldo Cruz] Botou um desenho ou um retrato, não me lembro, do Natal na capa — originalmente era o Paulo da Portela, mas a gravadora tirou e botou o Natal. [risos]
Zeca Ferreira — Mas no lugar da foto? Ou era outra capa?
Cristina Buarque — Era outra capa.
Zeca Ferreira — Aquela capa é muito bonita.
Cristina Buarque — É bonita! Fizeram isso e ainda trocaram a ordem das músicas. Botaram “Quantas lágrimas” em primeiro lugar. O Paulinho da Viola, que era o produtor do disco, chiou, e a gravadora recolheu. E só agora foi sair em CD com a capa original. Mas com a ordem das músicas trocadas.
Tacioli — Cristina, você se considera uma pesquisadora?
Cristina Buarque — Eu cato, não sou pesquisadora. O pesquisador é aquele cara que tem um material enorme, fruto de anos de levantamento. Muita gente acha que sou pesquisadora, mas não sou, não! Dou umas catadas, ou faço, esporadicamente, uma pesquisa sobre uma coisa ou outra, mas não sou pesquisadora. Para ser pesquisadora tenho que ter um material que eu não disponho, discos que eu não possuo. Também não cuidei muito disso, fui dando, fui emprestando. Não sou pesquisadora.
Tacioli — Mas você tem um método?
Cristina Buarque — Conheço muita coisa e tenho boa memória.
Tacioli — Mas como você armazena materialmente essas informações?
Cristina Buarque — Estou querendo organizar, mas não sou muito organizada. Se falam de uma música e tenho isso em casa, não sei onde está. Tenho que ficar procurando. Estou querendo listar tudo o que tenho e onde está. Vai ser um trabalho grande, porque muita coisa está em fita.
Tacioli — E como esse tipo de pesquisa, de catação, tem se acentuado nos últimos anos, já que seus discos mais recentes são “temáticos”?
Cristina Buarque — São, né?! Os dois do Noel e o do Wilson Baptista. O Noel foi o seguinte: quando saiu aquele livro do João Máximo e do Didier sobre Noel [n.e. Noel Rosa: uma biografia, ed. Universidade de Brasília/Linha Gráfica Editora, 1990], eu e o Henrique Cazes conversávamos muito. Lemos o livro na mesma época. Daí o Henrique teve a ideia de fazer um show só com voz e violão. Fiquei meio apavorada porque nunca tinha feito show assim. Gosto de pôr um monte de gente para cantar! [risos] Dar uma descansada! Além de alguns sucessos, incluímos músicas menos conhecidas. Deu certo e fizemos o segundo. Do Wilson Baptista foi uma ideia do Herminio Bello de Carvalho. Antigamente era uma coisa regular, já que eu gravava disco de carreira e escolhia o repertório. Há muito tempo não faço isso. O último que fiz, gravei em 90, chamado Resgate, do produtor japonês Tanaka. Ele fez o disco e o lançou no Japão. Saiu aqui também, pela SACI, mas com uma tiragem pequena. Acabou.
Tacioli — É o mesmo Tanaka da Velha Guarda?
Cristina Buarque — É ele mesmo. Esse foi em 90, o último que escolhi o repertório. Fiz em 74, 76, 78, 80 e 81. Isso dentro das gravadoras. Depois só fui fazer em 85 um independente com o Mauro, e esse em 90. Quer dizer, não existe uma coisa regular. Em seguida fiz esses dois com o Henrique, de Noel Rosa, e o Wilson Baptista, que foi uma ideia do Herminio. A gente estava conversando sobre o Wilson Baptista, e ele perguntou se eu não gostaria de fazer um disco. Da Lei de Incentivo Fiscal até encontrar alguém que se interessasse em bancar o projeto, demorou mais de dois anos.
Tacioli — E a que se deve esse tempo de um disco para o outro? Relação com as gravadoras, como você havia dito?
Cristina Buarque — É. Gravadora grande hoje em dia nem pensar. Como é que se diz? Não estou encaixada no perfil. [risos] Tem que ser por selo pequeno. E tem essa coisa de editar música, essa dificuldade.
Tacioli — Mas mesmo para os discos produzidos nas décadas de 70 e 80 existe um espaço de tempo razoável de um para o outro.
Cristina Buarque — É.
Tacioli — Por que esse hiato entre os álbuns?
Cristina Buarque — Quando gravei em 74 fiz um contrato com a RCA Victor de dois discos. Fiz um em 74, e outro, dois anos depois. Acabou o contrato. Aí o Faro arrumou para eu ir para a Continental. Era um disco. Depois fui para a Ariola, quando ainda era uma gravadora nova. Fiz dois discos em anos seguidos. Acabou o contrato e a gravadora não se interessou pela renovação. O disco não vendeu quase nada, mesmo! O disco que vendeu mesmo foi o compacto de “Quantas lágrimas”. Eles falam “Primeiro sucesso”. Eu digo “Primeiro e último”. [risos]
Dafne — Em 85 foi lançado o álbum Flores em vida, do Nelson Cavaquinho. Como você participou desse disco?
Cristina Buarque — Foi a partir dele que comecei a pesquisar mais repertório. O disco foi produzido pelo Carlinhos Vergueiro, que me chamou para ajudá-lo nessa parte. Saí catando essas coisas de Nelson Cavaquinho, tanto com o próprio, que estava vivo, como com as pessoas que tinham fitas com ele. Ele mesmo não se lembrava de tudo. Um dia lembrava-se de uma música, em outro dia, de outra. A obra do Nelson Cavaquinho é imensa e muito boa. O Afonso Machado, do conjunto Galo Preto, fez recentemente um trabalho grande sobre isso. Ele até andou pegando algumas coisas comigo. O Afonso tinha uma música que eu morria de vontade de ouvir, já que ouvi o Nelson cantá-la uma única vez. E o Afonso me arrumou uma gravação dessa música.
Dafne — Qual é a música?
Cristina Buarque — Chama-se “Entre a cruz e a espada”, uma música bonita à beça, do Nelson Cavaquinho com Guilherme de Brito, acho. É linda! Então foi aí que comecei a catar músicas por autor. Às vezes penso em fazer isso com os autores menos conhecidos. Ontem, por exemplo, o Sérgio Cabral falou muito do Haroldo Lobo. [n.e. 1910–1965] Mas se você falar “Haroldo Lobo”… Não é um Ataulfo Alves, um Noel Rosa. Porém, ele tem muita música que fez sucesso! É muito bom! Existe um monte desses assim, que o nome não é tão conhecido, mas são tão bons quanto os mais conhecidos. Haroldo Lobo, Roberto Martins, Ciro de Souza. Existe um monte.
Dafne — Haroldo Lobo é autor do “Alá-lá-ô”? [n.e. Gravado em 1941 e composto com Antonio Nássara]
Cristina Buarque — É. Ele fez muita marcha de Carnaval e samba bonito.
Zeca Ferreira — Só para pegar esse mote de catação. O Tacioli estava me perguntando o que você tem feito de projeto. Citei o “Eles por Elas”, um show que poucas pessoas tiveram oportunidade de assistir. Algumas ficaram sabendo pela imprensa, que também não colabora muito.
Cristina Buarque — A imprensa dificulta muito hoje em dia você fazer qualquer coisa.
Zeca Ferreira — Esses espetáculos têm uma coisa que você faz muito bem que é roteiro. Não sei se quando você cata ou está ouvindo música, você já está pensando em roteiro. Você poderia falar do roteiro do “Eles por Elas”, que tem um monte de brincadeira de uma música com a outra.
Cristina Buarque — É uma coisa que eu gosto muito de fazer. Como tenho a memória boa para esse tipo de música — samba antigo — gosto de fazer essa brincadeira, uma música que cabe em outra. Esse show trouxe músicas que compositores homens fizeram para ser cantadas por mulher. É muito engraçado! Uma das cantoras do grupo falou “Nossa, o que eles pensavam da gente!”. [risos] Tem uma do Wilson Baptista que diz “Estou me desmilinguido igual sabão na mão da lavadeira”. É muito bom, né?! O Herminio me apresentou um samba que eu não conhecia, gravado pela Isaurinha Garcia, que fala “Eu não sou pano de prato para suas mãos enxugarem”. [n.e. “Eu não sou pano de prato” (1941), de Mário Lago e R. Martins] [risos] Eles são muito engraçados. O show tinha várias músicas da mulher sofredora, com dor de cotovelo, mas também das mulheres revoltadas, daquela que bate no cara, daquela que gosta de apanhar. Fomos juntando. Eu me amarro em fazer roteiro de brincadeira.
Tacioli — Nos shows de hoje é difícil você identificar uma linha de condução.
Cristina Buarque — É, uma linha, uma historinha. Quem faz isso muito bem é o Herminio Bello de Carvalho. Estou aprendendo muito com ele. Estamos fazendo um trabalho juntos agora! Ele tem essa coisa da historinha. Ele pede para você escrever letras de música e sempre faz uma observação engraçada do lado: “Ela é tinhosa!”, uma coisa assim. [risos] O Herminio vai vendo o que é a letra para encaixar com uma outra. Vira tudo personagem.
Zeca Ferreira — E sobre o Cabo Laurindo?
Cristina Buarque — Comecei a catar essa história por curiosidade de saber quem foi o Cabo Laurindo. Li, acho que em um livro sobre o Wilson Baptista, que esse personagem que aparece em muitas músicas não existiu na verdade. Eu estava cantando um samba desses e o Xangô da Mangueira perguntou “Quem é esse Laurindo? Nunca conheci esse cara! Isso é invenção!”. A primeira música em que se falou de um cara chamado Laurindo foi em “Triste cuíca”, que é um samba de trinta e poucos, do Noel. E o Wilson Baptista, em quarenta e não sei quantos, falava que o Laurindo havia ido para a Guerra. E aí fiquei procurando… Haviam dito que existia um samba em que o Wilson queria matar o Laurindo porque ele não aguentava mais a história dessa figura. Iria matá-lo num crime passional na Mangueira. Ele ia cair na ribanceira, não-sei-o-quê. Fiquei procurando em toda a discografia do Wilson Baptista, pelos nomes, pelas datas, tentando descobrir isso, mas não achei. Então gravei nesse disco do Wilson Baptista uma sequência do Laurindo, que vai e volta da guerra.
Dafne — Com “O comício em Mangueira”!
Cristina Buarque — É! E quem fez muita música falando em Laurindo foi o Herivelto Martins. Até no livro sobre o Wilson Baptista, o autor diz que ele se gabava por ser o compositor que mais falava do Laurindo, mas acho que já encontrei mais músicas do Herivelto. [risos] Uma amiga minha do Rio, a Teresa Cristina, está fazendo uma pesquisa sobre Zé da Zilda. Ela achou um samba que eu tinha lido nesse livro, um samba que o Zé da Zilda fez para gozar o Wilson Baptista. Diz que o Laurindo havia ido para a Guerra, mas ficou lá atrás. [risos] Como é que é? [canta] “Conversa Laurindo / peço que não leve a mal / você não foi onde estava o rival / anda dizendo que lutou como herói / e no entanto nem saiu de Niterói / Aproveitou a nossa vitória / E assim conseguiu o seu nome na História / Agora vejo você falando que viu a cobra fumando / Lá na linha de frente / Nem eu nem você fizemos nada / Ficamos na retaguarda / Aplaudindo nossa gente.” [risos] É muito bom, né?! E agora o Herminio me deu uma gravação da Isaura Garcia — ele está catando umas coisas da Isaurinha Garcia — em que aparece esse samba do Wilson Baptista, de querer matar o Laurindo, só que não está no nome do Wilson Baptista e é anterior ao “Cabo Laurindo”. Encontram o Laurindo morto. É um samba bonito pra caramba! Ele apareceu morto na ribanceira ou no morro da Mangueira. Então deve ser esse samba. Agora, não sei se é do Wilson Baptista. Está em nome de outra pessoa, mas não me lembro agora.
Zeca Ferreira — Ou roubaram a autoria ou a ideia?
Cristina Buarque — É, ou como o Wilson Baptista era malandro pra caramba, de repente já existia o samba e ele… Mas existe esse samba que fiquei procurando para botar no CD. Inclusive não obedece uma sequência cronológica, já que ele foi gravado antes do “Comício em Mangueira”, que é da época da Guerra. Esse é de 41, acho. Quer dizer, mataram o Laurindo, e depois de morto, ele foi para a Guerra!
Tacioli — Dá para fazer uma biografia do Laurindo.
Cristina Buarque — É, virou uma brincadeira, um fez um samba sobre o Laurindo, [canta] “Laurindo desce o morro gritando / Não acabou…”, isso é Herivelto. Aí outro fez mais um samba, e assim começou esse negócio sobre o Laurindo, que é um cara que nunca existiu! [risos]
Zeca Ferreira — Laurindo não é um nome comum, não é um João.
Cristina Buarque — É! E esse “Comício em Mangueira” é um negócio emocionante, a volta dele, o discurso, as pessoas chorando. E é tudo mentira! [risos]
Eu cato, não sou pesquisadora!"
Tacioli — Cristina, quando você conheceu o Herminio Bello de Carvalho?
Cristina Buarque — Conheci o Herminio há muito tempo, mas só fiquei mais próxima dele depois da homenagem ao Maurício Tapajós, em 95. Fizemos vários trabalhos juntos. O Maurício queria fazer um lançamento dos discos da gravadora dele, e pediu para o Herminio fazer um roteiro. E o Herminio fez uma pequena traição com o Maurício. O Maurício era um cara tão bom, zelava tanto por tudo e por todos, que deixava de se cuidar. “Vamos fazer um show em homenagem ao Maurício sem ele saber?” O Maurício já estava muito doente. Tínhamos reuniões e tudo, e o Maurício achando que estávamos preparando o show de lançamento da SACI, mas era uma homenagem a ele. E aí ele acabou morrendo, o que facilitou as coisas pra gente, porque eu estava me sentindo muito culpada. “Pô, Herminio, o Maurício não vai gostar disso. Ele não vai querer uma homenagem.” “Não, tá na hora, temos que fazer!” A morte dele facilitou as coisas. Fizemos um show lindíssimo, emocionante. Aí fiquei muito amiga do Herminio, participei bem de perto de coisas que ele fez, como a produção do disco e do show Chico Buarque de Mangueira, vi como é esse negócio de roteiro e roubei algumas ideias dele. Mas às vezes dou umas para ele também.
Tacioli — O que você tem a dizer desse pessoal novo do Rio, Cristina?
Cristina Buarque — Isso tem muito lá no Rio. Você vai para a Lapa na sexta, sábado e domingo, a mocidade — esse pessoal de vinte e poucos anos — está tocando e cantando um repertório com essas velharias. E o pessoal está se interessando! É gente que não ouve esse tipo de música em rádio e televisão. Eles foram se interessando por essa música, pesquisam coisas, vão ao Museu da Imagem e do Som procurar fitas, trocam informações com outros. E são vários grupos que se misturam e, de repente, forma-se outro conjunto para se apresentar em bares da Lapa, Praça Tiradentes. E o pessoal que vai assistir conhece os sambas e canta junto. Isso é uma coisa que as gravadoras, as rádios, as televisões não estão querendo ver, que esse tipo de música dá o maior pé. E a mídia trata como folclore. Às vezes sai uma matéria com a mocidade, diz que o cara gosta de tocar pandeiro porque as menininhas olham, essas besteiras! Não se olha a importância disso, que é esse pessoal tirar do nada, sair procurando e cantando.
Dafne — Em São Paulo isso também tem acontecido. O Quinteto em Branco e Preto é um dos que mais se destacam.
Cristina Buarque — Esse pessoal lá no Rio não faz quase televisão ou rádio, faz bar das 11 da noite às 3 da manhã todo fim de semana. Tem gente que faz três dias, na quinta, sexta e sábado. Não sei como eles aguentam isso num bar, às vezes, com um som ruim, um monte de gente conversando e gritando, mas sambando. Faço isso num dia e fico morta dois. Eles fazem direto e o bar fica muito lotado, dentro e na calçada, e as pessoas aprendem as músicas. O trabalho desse pessoal é muito bonito, porque estão fazendo uma divulgação da música boa e não estão ganhando nada. Claro que é legal quando fica muito cheio, dá uma graninha, mas pelo trabalho que eles têm, não é proporcional.
Tacioli — Quem você destaca desse grupo, Cristina?
Cristina Buarque — Principalmente o pessoal que está com a gente nesse trabalho. O grupo Semente, com a Teresa Cristina que é a cantora, e o Dobrando a Esquina. Tem também um grupo chamado Anjos da Lua.
Zeca Ferreira — Tem o jongo.
Cristina Buarque — Tem o pessoal que trabalha com o jongo lá na Serrinha, que até tem viajado, mas não estou tão por dentro disso. Sei que tem muita criança e que esse pessoal fica levantando as músicas para não se perderem. Parece que estão gravando um disco agora.
Tacioli — De uma mesma forma, o choro também está numa fase boa.
Cristina Buarque — O choro também. Tem a gravadora do Maurício (Carrilho), a Acari, que todos os discos são maravilhosos. Ele construiu o estúdio na parte de cima da casa do pai dele, que mora no térreo lá em Acari. Na parte de cima tem um teto de amianto. É quente! Peguei aquilo antes do estúdio ser montado. Numa tarde de verão eu ia daqui a ali, pegava um chope, e quando chegava na mesinha, ele já estava quente. [risos] Mas eles construíram o estúdio com ar condicionado. É muito bom, e tudo o que eles fazem lá é muito bom. Fora isso, tem o Choro na Feira que fica cheio de gente. É uma feira normal, lá em Laranjeiras. Eles começaram a sentar lá e tocar.
Zeca Ferreira — E a passar o chapéu.
Cristina Buarque — Passam a caixa do cavaquinho [risos], e nego bota um real, dois reais. No final não dá para nada, mal paga a condução, mas é uma alegria. Já fizeram disco e se apresentam no Rio. Está virando uma coisa profissional.
Zeca Ferreira — Eles são profissionais!
Cristina Buarque — É, são músicos profissionais.
Tacioli — A que se deve esse momento? Você tem alguma teoria?
Cristina Buarque — Acho que as pessoas estão meio cansadas de tudo que está se vendo por aí de música. Ao mesmo tempo em que partem para fazer música, elas estão estudando. Por exemplo: o músico que toca choro tem que estudar, tem que conhecer a obra do Pixinguinha, do Jacob, do Ernesto Nazareth. Já o cara que toca pagode não conhece a música do Ataulfo Alves, toca de qualquer jeito, de orelhada. E esse pessoal do samba que está vindo estuda música, porque são esses sambas antigos que têm uns troços mais rebuscados do que essa coisa mais fácil que as gravadoras estão fazendo.
Tacioli — Cristina, dá para dizer que essa turma mais nova de sambistas tem um fundo ideológico ao optar por esse repertório e esses artistas da velha guarda? Como uma espécie de resistência?
Cristina Buarque — Ah! Acho que eles cantam o que gostam, mesmo! E de repente um conhece duas ou três músicas do Zé da Zilda, “Pô, vamos procurar mais coisas!”, aí vão no Museu da Imagem e do Som (MIS) e ficam catando, copiando fita, com dificuldade, porque o MIS tem esse negócio de cobrar uma fortuna por música. Essa mocidade faz isso porque tem interesse.
Tacioli — Engraçado, porque a imprensa folcloriza esses estilos mais antigos, considerando-os estáticos, e veste esses artistas novos com nostalgia.
Cristina Buarque — Tipo “Que velhinho bonitinho!”. Li outro dia um artigo da Lena Frias, que fez muita coisa boa no Jornal do Brasil, dizendo que se cansou de ver a cultura do Brasil, que é um país que tem tanta coisa boa, ser tratada como uma coisa exótica. Não se noticia o que acontece em cultura. O que existe é “Vamos fazer uma matéria sobre um cara que é bonitinho, um velhinho bonitinho que faz não-sei-o-quê, não-sei-onde”. Isso acontece muito. Hoje a imprensa está nisso, entende?! É muito difícil você divulgar um trabalho legal. Agora, você tem que ter a figura do assessor de imprensa, que muita gente tem [risos], pra ficar mandando aquelas notinhas para o jornal. “Cara, fiz um show, fui aplaudido de pé”, é o próprio assessor de imprensa do artista quem manda. Vira uma coisa de vaidade. Para se fazer um show você tem que ter um assessor de imprensa para ficar em cima, tem que ter o gancho da mídia. [risos] Não adianta você mandar fax e e-mail. E aí tem a reunião de pauta… Então é foda! [risos] Você tem que ter o assessor de imprensa que conhece todo mundo no jornal e que consegue plantar a notícia. É tudo assim. A cultura não interessa mais!
Tacioli — Alguns jornais buscam nas reuniões de pauta definir “a próxima tendência” da cultura. Se acharem que essa moçada nova do Rio pode ser vista como uma tendência, eles vão dar capa e fazer um auê, caso contrário…
Cristina Buarque — E é a mesma coisa das gravadoras. De repente, o pagode está vendendo, vamos fazer um monte de disco de pagode. E aí vira esse troço. É um emburrecimento geral! E isso, naturalmente, passa para o leitor, que é o cara que não está por dentro, que não conhece o meio. Ele fica sem saber que existe essas coisas, como a Lapa. Vai para o Rio, fica num hotel querendo ouvir música boa, mas o cara vai mandá-lo ver as mulatas. O que ajuda muito lá no Rio é a Agenda do Samba & Choro. Ali tudo é divulgado.
Tacioli — A Agenda tem “correspondentes” em outros estados.
Cristina Buarque — É. Não mexo com computador, não entendo nada disso, mas gostaria só por causa dessas coisas, ver o que está acontecendo, os comentários. É um negócio ótimo, porque na imprensa tradicional você não tem como saber o que está rolando.
Zeca Ferreira — Mas quando você vai fazer show em outros estados a história muda, não?
Cristina Buarque — Em São Paulo já melhora. Fiz um show em Brasília que saiu na primeira página do Caderno de Cultura. Ali também não acontece muita coisa, qualquer novidade na cidade já é notícia. Antigamente isso também virava notícia no Rio, hoje não vira mais.
Tacioli — O Herminio falou em uma entrevista ao Estadão que esse tipo de trabalho que vocês exercem tem muito a ver com formação de público, mas é uma tarefa dolorosa.
Cristina Buarque — É muito difícil por causa disso. Já tive momentos de me desanimar. Não tenho um assessor de imprensa! [risos] Aí batalha, batalha e o jornal não dá nada, não tem público, ninguém fica sabendo. Isso para tudo, discos e shows.
Zeca Ferreira — Mas a terceira idade é fiel, né?! [risos]
Cristina Buarque — É, a terceira idade… Ontem você viu, né?! Tudo branquinho na platéia. O meu público é esse! [risos] Também quero o quê? Faço show com o Roberto Silva, faço show cantando o repertório da Aracy de Almeida, Noel Rosa. [risos] Tem muita gente nova que gosta, que se interessa por esse tipo de música, mas também tem muito velho. Gente da minha idade, com 50 anos, não vai muito a esse tipo de show, não! É muita cabecinha branca.
Tacioli — Você já pensou em gravar obras de compositores mais novos?
Cristina Buarque — Olha, quando fiz os meus discos de gravadora, eu misturava um pouco. E surgiu uma ideia no tempo da SACI, e que foi conversada com o Maurício Tapajós, em fazer um disco com músicas do Paulo Cesar Pinheiro e seus parceiros. Mas o Maurício morreu, a SACI acabou e essa ideia ficou parada. Esse disco precisa ser feito! De repente não sou eu, mas alguém tem que fazer esse negócio. O Paulinho é um cara que tem muita música no baú. Ele tem uma facilidade impressionante para fazer música, e tem muitos parceiros, do pessoal mais antigo ao mais novo.
Dafne — E fora o Paulo Cesar Pinheiro, teria mais alguém?
Cristina Buarque — O Paulinho é meu contemporâneo, não é novo. Dos novos teria a Teresa Cristina, essa menina do grupo Semente. Ela está fazendo muita música bonita. E não conheço mais coisas de gente nova. Ela eu acompanho porque estou sempre na Lapa. Mas ainda não é uma pessoa conhecida em São Paulo.
Tacioli — Mas você também já trabalhou como compositora?
Cristina Buarque — Muito pouco. Fiz coisas de brincadeira para blocos de Carnaval.
Tacioli — E com o Mauro Duarte?
Cristina Buarque — Com o Mauro fiz a letra de um samba que ele havia feito, mas achava curto. Fiz dentro da melodia e do tema dele, mas assim meio de brincadeira, usando as palavras difíceis. E no Bloco do Barbas eu também fazia uns pedaços, só de brincadeira. Hoje em dia lá no Rio todo mundo está fazendo samba para bloco. Não faço mais, não! Quando não tinha muito quem fizesse, eu até dava uns palpites. Tem tanta música boa que fico achando que se eu fizesse, ou não faria uma tão boa, ou estaria arriscada — como conheço muita música — a fazer um troço que já foi feito. Morro de medo disso! Então, não faço, não! E não sei fazer muito coisa séria, só faço na palhaçada. [risos]
Zeca Ferreira — Na Europa definem sua música como samba sensual.
Cristina Buarque — É, o CD Sem tostão… A crise não é boato foi visto numa loja de lá com a definição “Samba sensual”. [risos] Agora, por que é sensual, eu não sei? [risos] Não tem nada a ver. É muito estranho.
Tacioli — Nós entrevistamos o Mauricio Pereira e ele afirmou seu desencantamento com a arte, com a música. Um dos temas interessantes da conversa foi a perda do sagrado na arte. Segundo ele, por uma série de circunstâncias, hoje não se produz mais clássicos. Como você definiria o sagrado da música dos anos 30 aos 50 com que você tanto flerta? O que se tinha de especial na construção daqueles sambas? Você consegue ver isso?
Cristina Buarque — Não sei o que ele está dizendo como sagrado. Acho que existia uma qualidade e um compromisso maior tanto com a melodia quanto com a letra. E como se fazia música boa, o outro compositor tinha que fazer uma boa também, e assim por diante. É completamente diferente o tipo de melodia que se fazia do que se faz hoje na área do samba. Para fazer sucesso hoje não é preciso uma música boa. Aliás, quanto mais fraca, mais se toca.
Almeida — O que ele dizia é que se tinham produções contundentes, coisas que não queriam se passar por nada. Ele falou até que a década de 90 foi a década das coisas quererem ser alguma coisa, ou se passarem por algo, e não serem de fato.
Tacioli — A década da moda, da imagem.
Cristina Buarque — É, aí tô um pouco por fora, não sei muito. É uma coisa mais fútil.
Tacioli — Hoje em dia é difícil você falar em grandes discos ou shows antológicos.
Cristina Buarque — É. Muitas vezes percebemos que a música é o menos importante. Você tem que ter um monte de coisa acontecendo em volta, bailarinos, cenários e coisas assim.
Almeida — Eu estava vendo na TV um show do Zezé Di Camargo & Luciano e, de repente, desceu um helicóptero. Parecia cenário dos Trapalhões.
Cristina Buarque — É tudo megaproduções. É tem muito isso. Na música, ou você tem de um lado isso, essas coisas de mega, tudo mega, ou você tem uma coisa pobrezinha, só com a música mesmo, onde não rola divulgação. E essas coisas mega são um acontecimento, todos os jornais dão. Quer dizer, a música é o menos importante, ela perdeu sua importância.
Tacioli — Você acha que dá para se dizer em modernidade do samba, que existe uma linha evolutiva do gênero?
Cristina Buarque — É, todo mundo diz que tem que evoluir, até samba-enredo. A essa altura, não tenho que achar isso, acho que piorou mesmo e pronto! Não tem que evoluir! Se for evoluir para pior, prefiro que fique parado do jeito que está.
Tacioli — Fala-se muito isso do choro, mas é curioso porque é um gênero que tem quase 150 anos e sua estrutura é moderna. Dizem que o choro precisa se modernizar para conquistar as gerações mais novas.
Cristina Buarque — É, mas hoje você tem o choro mais moderno que é superlegal. E esse cara que toca o mais moderno, também toca o tradicional. Todo mundo do choro conhece e gosta do tradicional. Não tem “Ah! Isso é coisa de velho!”
Tacioli — E isso se encaixa ao samba?!
Cristina Buarque — Não, para o samba não dá para dizer isso. O samba-enredo tem que virar marcha. Às vezes um show tem cinco instrumentos de percussão e mais bateria, não tem as coisas da harmonia, o violão, o sopro, o cavaco. É batucada, mesmo! O importante é o ritmo para o pessoal sair dançando. Você não ouve o que a pessoa está cantando, se tem letra, se tem música, isso não é mais importante. O importante é o ritmo e a dança.
Tacioli — Cristina, estamos quase encerrando.
Cristina Buarque — Vou só ligar pra baixo para, de repente, segurarem um pouco. Às vezes tem aquele negócio de “Meio-dia tem que sair, senão paga outra diária”. Mas nesse hotel eles são ótimos. “Não, qualquer coisa fale com o Tiago”. O Tiago é o próprio! [risos] Aliás, meio-dia já rola. Vocês querem uma cervejinha?
Tacioli — Não posso, estou chumbado!
Almeida — Eu também.
Dafne — Eu vou aceitar.
Zeca Ferreira — Eu também.
Cristina Buarque — Só para pedir o número certo. Sobrou, dançou! Quantas serão?! Tem uma na geladeira. Quorum de um, dois, três, quatro. Meia dúzia! Se for ele mesmo que atender?! [risos] “Olha, daqui a pouco vou embora, mas manda meia dúzia de cervejas!” [risos] [fala com a recepção do hotel] “Bom dia, eu queria te pedir meia dúzia de Brahma Extra, pode ser? Tá?! Isso, obrigado!” [risos] Lá no Rio tem um botequim que sempre leva cerveja em casa. Ligo, “Bom dia!” “Bom dia, quanto tempo, tava com saudade! Quantas vão? Cinco e cinco? Não vai cigarro, não?! Não vai Coca-Cola? Então tá, pode deixar!” Desligo o telefone e daqui a pouco o cara chega. Não preciso dar endereço. Ele já sabe onde é. Agora, aqui é a mesma coisa, “1010, né?!”. E o cara do Rio pergunta “E não vai nenhuma visita na sua casa, não?!”. [risos]
Tacioli — Você consegue ver uma característica do samba de São Paulo?
Cristina Buarque — Conheço pouco. Tô morando no Rio, venho para São Paulo nesse negócio de show e aí saio com eles [os filhos]. Normalmente as pessoas não conhecem essa minha faceta. Tenho fama de boêmia, mas durmo muito cedo. Não saio e não vejo o que está acontecendo. Normalmente faço o trabalho e volto para o Rio.
Dafne — Mas pensando Vanzolini, Adoniran, enfim…
Cristina Buarque — Pois é, quando eu morava aqui, acompanhava muito o Vanzolini, que ia lá em casa, cantava muito. Adoniran conheci pouco. Conheci porque se gravava muita coisa dele. Ele aparecia muito na televisão. E também o Gudin, que é da minha geração, é um compositor que faz sambas. Isso é o que eu conheço mais.
Tacioli — Mas você vê algo que diferencie o samba de São Paulo do Rio?
Cristina Buarque — Vejo assim: o Vanzolini é um tipo de compositor que é totalmente diferente do Adoniran e do Gudin. O Gudin faz um samba muito parecido com o de compositores do Rio. Agora, o Vanzolini e o Adoniran são diferentes de tudo que se tem no Rio, mas não sei se isso é o samba paulista, entende? É a linha do Vanzolini, como o Ataulfo Alves tem a sua. É uma coisa muito característica. O Adoniran ainda mais, porque ele tinha aquele linguajar do Brás, da Mooca. Ele cantando tinha aquele sotaque, que ficou muito caracterizado como samba paulista, mas não sei, acho que é a característica dele, que tem a ver com São Paulo simplesmente porque ele citava os bairros paulistanos. E Vanzolini, outra linha. Eu não sei definir o que é o samba paulista, o que é o samba carioca.
Tacioli — Você chegou a conhecer o Adoniran?
Cristina Buarque — Pouco. Tive uma duas vezes com ele nessas coisas que tem um monte de gente. Acho que foi através do Carlinhos Vergueiro, que trabalhou muito com ele, fomos na esquina beber alguma coisa. Lembro-me que ele conversando era muito engraçado, supersimpático, superlegal. Mas foi uma ou duas vezes que estive com ele.
Tacioli — E você ainda tem contato com o Vanzolini?
Cristina Buarque — Há muito não falo com ele, justamente porque estou no Rio e quando venho para cá tenho pouco tempo. Mas recebo sempre notícias dele, porque sou amiga de seus filhos.
Tacioli — Você sabe se ele está compondo alguma coisa?
Cristina Buarque — Não sei. Estavam preparando um disco com músicas dele. Não sei em que pé está!
Zeca Ferreira — Com todas, não?!
Cristina Buarque — Com todas as músicas dele. Na verdade, ele nem quer ser considerado um compositor. Ele é zoólogo, como é se que chama isso? Ele não considera muito essa parte da música, mas é um excelente compositor.
Tacioli — Você guarda alguma mágoa na sua trajetória artística?
Cristina Buarque — Mágoa?! [respira fundo e começa a chorar, de brincadeira] Nhé, nhé, nhé!! [risos] Hoje, sinto assim, às vezes dá vontade de parar, e aí entendo essa história da Aracy, porque tudo é difícil, você tem que ter o assessor de imprensa. O samba é tratado como uma coisa menor da música brasileira. Tenho visto assim. O tratamento que se dá para gente do samba é diferente do tratamento que a chamada MPB recebe, não sei por quê, já que o samba também é música popular brasileira. Mas isso existe, foi feita essa divisão, e o pessoal do samba é tratado como primo pobre da música. Sempre!
Tacioli — Você acha que o samba sempre foi tratado assim?
Cristina Buarque — Sempre, não. Na década de 40, a música brasileira era basicamente o samba, e o sambista às vezes fazia valsa e marcha. [Chega a cerveja] Zeca, agora você faz o serviço de bar!
Zeca Ferreira — Pode deixar.
Cristina Buarque — É meio complicado esse negócio, não sei te dizer, sinto essa diferença no tratamento com o sambista. O equipamento do som não precisa ser de primeira qualidade. Não sei te explicar o que claramente passa na minha cabeça.
Tacioli — Quando você começou sua carreira já existia esse sentimento?
Cristina Buarque — Não, estou sentindo hoje, é uma coisa mais recente. Uma elitização da música para um lado. O Paulinho da Viola tem por que reclamar. O samba pode ser uma coisa meio de improviso, sabe?! Não precisa ter um tratamento. Não sei te explicar, fico meio embaraçada.
Zeca Ferreira — Não precisa de avião, vai de ônibus! [risos]
Cristina Buarque — É. O cara vai fazer um show “Olha, preciso de um camarim com telefone, frutas tropicais, toalhas, não-sei-o-quê”. Sambista nunca vai pedir essas coisas, imagina, né?! E nem tem! Se tiver uma cervejinha está bom. “Ah! Dá umas cervejas para os velhos que fica tudo certo!” É isso que sinto. E aí fica muito difícil fazer uma coisa de qualidade. Para um determinado artista poder fazer um disco legal, a gravadora dá mordomia e grana. Para um disco de samba, não! “Esse orçamento está muito caro, vamos ter que fazer com menos grana”, entende?!
Dafne — Tira a cuíca!
Cristina Buarque — É, tira a cuíca! “Pô, mas vai ter cavaquinho em todas as músicas?!” [risos] É isso. Aí tem que ficar discutindo.
Zeca Ferreira — Fui ver o show da Velha Guarda da Portela em Campinas. Ela tinha um ônibus para ir e voltar no mesmo dia!
Ricardo Tacioli — No mesmo dia?!
Cristina Buarque — Colocaram todos num Cometão. Na Velha Guarda da Portela tem gente com 70, 80 anos. Nem sei qual foi o cachê que eles receberam para fazer isso.
Ana Buarque — É a mesma história do réveillon em que ia ter a tenda do samba. Ninguém sabia quanto ia ganhar.
Cristina Buarque — É, foi em 2000. Ia ter o palco do samba. Nem me avisaram. Depois eu soube que seria depois da meia-noite. Quer dizer, é pedreira. Você vai para lá antes das 10 horas da noite para passar o som à tarde, não tem como sair, tem que ficar por lá. E soca cerveja nas pessoas. Tem uma hora que a cerveja está quente ou não tem mais cerveja, está todo mundo bêbado, e você tem que esperar passar de meia-noite para fazer o show. E aí, disse, “Fazer réveillon é barra pesada! Você não tem como chegar, não tem como sair. Tô precisando de grana, mas… Qual é o cachê?” “A gente ainda não sabe, primeiro estamos fazendo um contato com as pessoas. Você vem aqui, assina um papel e depois a gente vê quanto pode pagar!” [risos] Não existe isso?! Aí quando fui falar com as pessoas que ele disse que estariam nesse palco, todas já tinham assinado. Então, o próprio sambista não se dá valor. Como é que você assina um papel para fazer um show se nem sabe quanto é que você vai receber, para chegar lá às 6 horas da tarde e ficar até às 3 da manhã. É um absurdo! Pô, o próprio sambista fica se sujeitando a essas coisas.
Zeca Ferreira — Paulo da Portela não vingou, né?
Cristina Buarque — Paulo da Portela era longe disso. Ele ficava fazendo a cabeça das pessoas. O cara tem que ser elegante, tem que se valorizar.
Enterro no Irajá é uma festa! Sempre saio trêbada!"
Tacioli — Em outubro de 2001 Nelson Cavaquinho teria completado 90 anos.
Cristina Buarque — A data de nascimento do Nelson Cavaquinho é muito confusa, porque ele nasceu em um ano, mas foi registrado em outro. Outro dia eu estava comentando que se os 90 anos dele foram em 2000, como o do Adoniran, o show que fizeram aqui em homenagem aos 90 dele e aos 90 do Adoniran, na verdade não seriam 180, e sim 182 anos de samba. Tava esse papo aí, mas não me lembro agora.
Tacioli — Você chegou a participar de alguma dessas comemorações?
Cristina Buarque — Não.
Ana Buarque — Tiveram essas comemorações, mas no enterro do Nelson Cavaquinho não tinha gente para segurar o caixão.
Cristina Buarque — Isso foi impressionante!
Ana Buarque — Na hora de fazer uma festa que tem o gancho da mídia, tem um monte de gente.
Cristina Buarque — Eu soube da morte dele de manhã cedo. Ele morreu de madrugada.
Tacioli — 1986, não?!
Cristina Buarque — Não me lembro, acho que foi. Ele morava no Jardim América, e o caixão estava na sala de sua casa. Tinha uns dois carros de jornal — naquele tempo a imprensa ainda se interessava por isso. Não foi aquele tipo de enterro que os cinegrafistas ficam pulando sobre os túmulos. Tinha jornalista sério. Foi um carro com o caixão, dois carros da imprensa, e o carro que eu estava. A viúva dele foi com a gente, não tinha lugar para ela ir. Quando chegou na Mangueira — acho que demorou para se espalhar a notícia da morte do Nelson Cavaquinho –, puxou-se o caixão do papa-defunto, e haviam três pessoas. Faltava uma para carregar o caixão. Não havia ninguém da Mangueira na quadra. Um gari que estava varrendo a rua se ofereceu e levou. Claro que depois foi chegando muita gente. A Zica foi quem providenciou a bandeira para botar no caixão, providenciou suco para dar para a Durvalina, a viúva. Depois é que virou, as pessoas foram chegando. Mas isso é um outro tempo da Mangueira. O pessoal antigo talvez tenha um tratamento melhor lá, não sei. Na morte do Nelson Cavaquinho, fiquei como aquele samba dele na cabeça “Mangueira, quando morre um poeta, tudo chora”. [n.e. “Pranto de poeta”, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito] Mas depois chegou todo mundo. Em seguida morreu o Francisco Santana, da Portela. Arrumaram um ônibus para levar o pessoal da Portela ao Irajá, cemitério onde os sambistas geralmente são enterrados. Foi um ônibus cheio. A Kombi com o caixão fez um tour pelos pontos que ele frequentava em Madureira e Oswaldo Cruz. Passou em frente à Portelinha, onde foi fundada a Portela, subiu a rua onde ele morava, e as pessoas acenando. Foi um negócio emocionante!
Ana Buarque — Acho que você vai ter que ser enterrada no Cemitério de Irajá! [risos]
Cristina Buarque — Eu falo isso, mas mamãe sempre reclama. [risos] Irajá é um cemitério muito legal porque tem um monte de botequim em volta. [risos] Enterro no Irajá é uma festa! Em todo enterro que fui lá saí trêbada. [risos] Geralmente o pessoal da Velha Guarda é enterrado lá. E o único cemitério que tem na Zona Sul do Rio é o São João Batista, em Botafogo. É ruim de botequim, só tem uma barraquinha na porta. Minha irmã descobriu a casa de uma senhora em que você bate no portão, e ela vende a bebida. Tem um estoque. Fora isso, não existe nada. Mas em Irajá tem botequim um do lado do outro.
Zeca Ferreira — Enterro de sambista na Zona Sul não dá certo.
Cristina Buarque — É, não dá muito, não! Às vezes não tem nem música, ao contrário do Irajá, que sempre tem. O Irajá é sempre uma festa. Se eu morrer amanhã de manhã, quero ser enterrada no Irajá! [risos]
Dafne — São os sambistas da Velha Guarda da Portela que sempre são enterrados no Irajá?
Cristina Buarque — Não são todos, mas a maior parte. É automático, morreu, “Já tô indo para o Irajá”.
Tacioli — Você se lembra do enterro do Cartola?
Cristina Buarque — Não, não sei onde eu estava quando ele morreu. Não fui ao enterro dele, não!
Zeca Ferreira — O do Marçal foi bom, não?
Cristina Buarque — Do Marçal foi lá no Jardim da Saudade, ruim para chegar, longe. Fui outro dia num enterro lá e as biroscas que havia na porta foram mandadas embora. Então, tem que dar uma bela caminhada para se sentar num botequim e tomar uma cerveja gelada.
Zeca Ferreira — E ainda joga no bicho, né?!
Cristina Buarque — Do Nelson Cavaquinho foi isso. Ganhei no bicho com o número da sepultura dele. [risos] Isso se usa muito no Rio. Quando é enterro de sambista, muitas vezes os jornais botam o número da sepultura. E o do Nelson Cavaquinho ganhei na centena, não foi na milhar, não! Fiz um jogo com o Mauro Duarte. Foi ele quem foi jogar. Eu estava dura pra caramba, ia pegar uma grana emprestada para comprar material escolar. Aí ele foi encontrar comigo e “Não vai pegar dinheiro emprestado nenhum! Está aqui, tamo rico!”. [risos] “Vamos para o botequim!” “Vamos ali?” “Não, vamos ali que tem chope!” Chope é muito mais caro. “Garçom…” [risos] Coisa que a gente não fazia há muito tempo.
Zeca Ferreira — Que só falava em morte.
Cristina Buarque — Que falava muito em morte. Quando comentei isso com a minha mãe “Aí minha filha, que horror!”. “Que horror nada, fiquei com grana! Mesmo dividindo a centena por dois, deu para comprar o material deles [os filhos] e ainda sobrou dinheiro para tomar chope e fazer umas compras para casa”. Foi legal.
Tacioli — Esses assuntos dão um livro.
Cristina Buarque — Ah! Dão. Mexer com essas coisas de morte, morte de velho… Tem histórias muito boas e engraçadas. O primeiro deles que peguei foi do Alvaiade. Ele morreu, acho, em 1981. Fiquei impressionada! Foi a primeira vez que fui ao Cemitério do Irajá. Depois, todo mundo foi para um botequim. Mas eles cantaram tanto! Cantaram um samba melhor que o outro. “Ele morreu de quê?!” “Ah! Não sei, tava velho mesmo!” E já se cantava outra música. Morte pra eles não tem uma importância tão… Vive morrendo gente ali. Cada vez que vou lá… “Morreu não-sei-quem, filho de não-sei-quem”.
Zeca Ferreira — Estas histórias que você está contando são todas de sambistas mais velhos, mas como é que foi o enterro da Clara? Deve ter sido barra pesada.
Cristina Buarque — Da Clara foi uma loucura. Todo mundo ficou sem entender, um negócio absurdo, uma coisa de erro médico. Foi choque anafilático, uma operação besta. Ela era muito nova e muito popular. De Madureira, onde foi velada, para o São João Batista, em Botafogo, tem chão. Não deu nem para chegar perto, tinha muita gente. Uma vez, para você ver como é que é, a Doca, que é pastora da Velha Guarda da Portela, disse, “Cristina, você não foi ao enterro do Mano Décio da Viola?” “Ô Doca, eu nem conhecia o Mano Décio. Conhecia suas músicas, mas não era amiga dele”. Na mesma época tinha morrido o Mijinha, que era um grande compositor da Portela. Falei pra ela, “Fiquei chateada porque não deu para ir ao enterro do Mijinha”. “Ah! Não, do Mijinha tinha pouca gente, mas do Mano Décio foi uma beleza! Tava o Roberto Ribeiro, não-sei-quem, não-sei-quem”, e começou a enumerar. [risos] “Aí fomos para o botequim, acabamos com a cerveja, e partimos para um outro e cantamos até o dia clarear”. É, enterro é assim.
Ana Buarque — E a história do Cabelinho?
Cristina Buarque — É, esta está até no livro da Velha Guarda. Foi no enterro do Manacéa. No enterro tem um negócio que é emocionante: as pessoas vão andando, tem o caixão, e o surdo vai fazendo aquela batida. Tum… Tum… Aqueles passos de cemitério, meio “sinistrão”. Aí vai indo, chega no lugar onde vai ser enterrado. Às vezes alguém fala alguma coisa. E botam lá o caixão. Tem sempre que cantar um samba do cara, um sucesso. Do Manacéa, cantaram “Quantas lágrimas”. E o Casquinha lá no surdo. Aí quando acabaram o “Quantas lágrimas”, começaram a jogar aquela cal e cimento, e Cabelinho [sonoriza] “tum ri quis tum, tum tum”. É o final Portela [risos], que ele chama de “pára de cagar, bumbum”. Toda a música da Velha Guarda da Portela termina assim. E ele fez isso no surdo. O Paulinho da Viola falou “Cabelinho, que é isso?!”. Ele disse “Final Portela. O Manacéa me ensinou assim. Acabou, final Portela!”. [risos] Ele acabou com o Manacéa como se acaba uma música. Impressionante! [risos] Final Portela, é muito bom! Foi ele quem me ensinou.
Tacioli — E do Carlos Cachaça?
Cristina Buarque — Eu tive algumas vezes com ele. Mas do enterro fugi porque o Carlos Cachaça virou uma coisa muito badalada. Já vi que ia ficar essa coisa de televisão, e tenho horror quando as pessoas chegam para você assim: “Você pode dar um depoimento?”. Aí vem aquelas frases que são horrorosas, “O Brasil ficou mais pobre sem não-sei-quem”. [risos] Mas fui algumas vezes à casa dele. Ele tinha uma memória impressionante. E já velhinho, com problema nas pernas e surdo, falava rápido, ágil, lembrava de tudo. Parecia um cara de 30 anos falando, isso com noventa e não sei quantos. Tive num aniversário dele um ou dois anos antes dele morrer. Tinha um aparelho de surdez, que ele dizia que não funcionava. Fui nesse dia com o Herminio, que pegou o aparelho. “É a bateria, tem que levar não sei onde!” E mexendo, já querendo entender o negócio, desconfiou. “Tô achando que ele não quer ouvir!” [risos] Ele não estava mais querendo ouvir, não tinha mais saco. Aí começou a chegar gente para tocar e cantar. Coitado! Não pode beber, não tá ouvindo nada, e aquele monte de gente! [risos] Acho que ele já estava meio sem saco, mas continuava falando muito! Ele gostava de contar história. Era um cara impressionante o Carlos Cachaça.
Dafne — Nessa entrevista ao Estadão, você fala que o Herminio, como todo mangueirense, era um bom portelense.
Cristina Buarque — Falo pra sacaneá-lo. Essa coisa da rivalidade é tudo brincadeira. Mas, na verdade, todo mangueirense é, no fundo, portelense. [risos] Pelo seguinte: a ala de compositores da Portela tinha uma quantidade enorme de gente boa. Hoje tem pouca gente. Da Mangueira, você conhece um ou outro. E tem até outros que são menos conhecidos que deveriam ser mais, como Gradim, que foi um grande compositor. Aquela coisa de falar de Nelson Cavaquinho, Cartola, Cachaça e não se falar mais de muita gente boa que tinha por lá. Mas a Portela tinha um número maior de bons compositores. Numericamente ainda tem muito. Então, para quem gosta de samba, pode ser mangueirense, mas no fundo é bastante portelense por isso. Tem muito samba bom.
Tacioli — Nessa sua vivência com os sambistas da velha guarda, você sentia que eles ficavam magoados por essa falta de reconhecimento?
Cristina Buarque — Não muito, não!
Tacioli — Ou eles compunham independentemente de se gravar ou não?
Cristina Buarque — Eles faziam músicas para contar história, para mostrar pra eles. Não tinha essa coisa de música para gravar, não! Nem passava pela cabeça deles, a não ser do Alvaiade, que era um sambista que já havia sido gravado. Não sei se o Alvaiade era um cara que frequentava mais estúdio e rádio, mas suas músicas foram mais gravadas.
Zeca Ferreira — Você falou que o pessoal que vai à Lapa conhece as músicas que são cantadas lá. “O quitandeiro” é um puta sucesso, todo mundo canta no Semente! E os caras falam que no terreiro também existia esse tipo de sucesso. É um sucesso que independe do rádio, espontâneo. “Esta melodia” é um exemplo.
Cristina Buarque — É, “Esta melodia” [n.e. De Bubu e Jamelão, gravada por Cristina em 1976, LP Prato e faca] fez há muito tempo sucesso na Portela, foi gravada e depois ficou esquecida. Agora a Marisa Monte gravou [n.e. No disco Verde anil amarelo cor-de-rosa e carvão, EMI-Odeon, 1994] e voltou a ser um sucessão de novo. Como a Teresa Cristina que canta “Embrulha que eu carrego”, do Alvaiade. Um samba que fez sucesso na década de 40. Agora, quem está na Lapa já conhece.
Tacioli — Bom, então essa falta de reconhecimento existe com todos esses artistas?
Cristina Buarque — Existe, existe. De repente sai uma matéria enorme sobre um cara, e todo mundo comenta. Depois se ele precisar de divulgação para alguma coisa, não vai ter porque já apareceu outro dia. Mas se for o show do Caetano Veloso ou do Chico, vão mostrar o ensaio, a estreia, o que for.
Tacioli — Cristina, acho que é isso.
Cristina Buarque — Tá tudo certo? Bom, qualquer dúvida, falem com o Zeca. De repente falo meio enrolado, não dá para entender.

Poeta, produtor, compositor, provocador cultural e boêmio: de Aracy a Cartola.

Ela é uma das principais cantoras de mpb surgidas nos anos 1990.

Um dos nomes mais importantes da sanfona foi um melodista privilegiado.

Ele é parceiro de Aldir Blanc e um dos titulares do samba e da boemia cariocas.