Soberano do samba sincopado desde os anos 1950, ele queria apenas falar do presente.
São Paulo/SP | 2002
Nome: Germano Mathias
Data e local de nascimento: 02 de junho de 1934, São Paulo/SP
Data e local de morte: 22 de fevereiro de 2023, Franco da Rocha/SP
Ofício: Cantor e compositor
Discografia: 18 álbuns desde 1957
Entrevistadores: Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Max Eluard, Ricardo Tacioli e Sérgio Seabra
Produção: Ricardo Tacioli
Texto de abre: Sérgio Seabra
Fotos: Dafne Sampaio
Transcrição e edição de texto: Ricardo Tacioli
Revisão de texto: Rogério Trentini
Agradecimentos: Sonoe Juliana
Entrevista realizada em 2002 na residência de Germano Mathias, em São Paulo/SP.
Em pouco mais de duas horas de entrevista, as pernas de Germano Mathias não se aquietaram, tensas, como que se antecipando à tônica do corpo, o tão expressivo corpo — também ele sincopado — de quadril forçado ao suingue nos 47 anos de carreira. Os olhos esbugalham, a língua se contrai, se contorce. A energia dissipada contamina, o faz rir, sozinho e conosco.
Tipo irreverente, promotor do mais reconhecível dos sotaques paulistanos, nobre falido, morador da extrema Zona Norte paulistana. Quando chegávamos à entrada de seu conjunto de prédios — uma familiar construção da Cohab –, perueiros reunidos, com seus veículos de trabalho, discutiam a segurança no bairro.
Foi rei. Na década de 1950, inaugurou transmissões de TV em Pernambuco. Era campeão de vendas. Shows por todo o Brasil. Sensação branca e paulista no carioca mundo da música negra. Pagava aos amigos noitadas no Jockey Clube. Bebida, mulheres, cavalos.
Passado.
Que não comove o sambista na grandeza mas incomoda o homem pelas escolhas que hoje julga equivocadas e que o fizeram herdar o passatempo laico das palavras cruzadas e a atenção abrangente e racional à “literatura metafísica”. De Kardec ao hinduísmo, as bases para a ausência de culpa e a aceitação do carma: a expiação dos 20 anos sem gravar disco próprio, de dureza, de shows aqui e ali para a paga da feira.
O presente, diz Germano, não tem “classe”, nem “elã”! Mas mesmo o elã — registre-se — há tempos perdeu a vivacidade. Germano, o homem, não se encontra no mundo, não encontra espaço para sua excêntrica elegância. Por isso tem os olhos no futuro. E com dois novos CDs na praça e três projetos na cabeça, quer reencontrar o sucesso. Daí sua preocupação excessiva em nos mostrar o disco, faixa a faixa, durante a entrevista. O mesmo disco que ouvíamos antes de partir para o encontro.
A entrevista que se segue foi realizada, por tudo isso, em clima tenso, mesmo que entrecortado por momentos de gargalhadas genuínas. Estávamos ansiosos em busca de um homem convicto de ser tão-somente um sambista — o que não é pouco, mas, por isso, preocupado em falar apenas do seu tradicional samba sincopado, que nenhum outro executa nos tempos atuais. “Sou o único!” — exaltou-se.
Por buscar essa individualidade, queríamos todos despi-lo do personagem, do discurso e da indumentária que o acompanha. De seu lado, pediu para que não o fotografássemos sem seu chapéu. Por instinto ou dever profissional, Dafne Sampaio fez as fotos que julgou necessárias. Cabe ao leitor e ao próprio Germano decidir se, durante a conversa, fizemos o mesmo. Alô, Raul Gil, você tira o chapéu para Germano Mathias?
[Após a equipe se acomodar na sala do apartamento de Germano Mathias]
Germano Mathias — O fato é que… tem que ter roupa de sambista. Ele não tem. Tem roupa de sambista? Ele parece comum, como qualquer um que anda pela rua. Ele é o Zeca Pagodinho… anda como quiser. Mas aí ele aparece careca! Pô, tem que ter uma banqueta de sambista. Você vê o espanhol… quando ele dança, dança com uma roupa característica. A portuguesa é a mesma coisa, com aquela roupa de portuguesa. Até o alemão… o alemão não tem aquele traje que ele usa? Que é o tirolês, não é?
Daniel Almeida — Mas como fica a identidade de cada um?
Germano — É, fica sem identidade, né?
Almeida — Não. Se todos se vestissem iguais?
Germano — Não, iguais, não! Diferente, mas mesmo padrão. Se a camisa dele é verde, a minha é amarela, mas o cara tem que andar de camisa! Se a camisa dele é comum, você põe uma que se destaca. Eu, por exemplo, agora estou com uma camisa comum… Você tá tirando muita foto sem chapéu, né?
Max Eluard — Não, ele tá vendo um negócio.
Germano — Deixa eu pegar o chapéu. Não tira um monte sem chapéu porque não gosto. Fica ruim.
Max Eluard — Fica não.
Germano — Fica uma coisa comum…
Max Eluard — Mas Germano, você vê hoje em dia alguém que tenha essa…
Germano — Por isso você me desculpe… Não vou assistir a show por causa disso. Vou te contar, as coisas de hoje em dia estão completamente… estão no senso do… eu não entendo. Não é mais como era… Eu não entendo. A não ser em determinadas circunstâncias, eu acho que… a indumentária de hoje, viu?
Max Eluard — Mas o que você acha que se perdeu?
Germano — Perdeu a… como é que se diz? Não é a personalidade…
Ricardo Tacioli — Identidade.
Germano — Não é bem identidade, perdeu o elã. Hoje é tudo muito esculachado. Você sabe disso. Tudo muito largado, tudo… a aparência… Em vez do cara ficar com uma aparência boa, fica com cara de bicho. Fica com cara de quem saiu da cadeia. Você pode ver… aquele cara que aparece na TV… pra que aquilo? Aquela… como é que ela chama? Aquela do canal 9…. Luciana Gimenez. Pra quê que aquele cara aparece com aquilo? [n.e. Germano refere-se aos chapéus do DJ Zé Pedro] O que simboliza? O que quer dizer aquilo? É um troço ridículo, uma coisa extravagante. Porque cê sabe… tudo o que é demais, tudo que sai do padrão… Eu vou te contar… Aquilo que tem valor, hoje não tem mais valor! Só tem valor hoje o que não tem valor! Mudou o negócio (ri).
Almeida — Que essência é essa que se perdeu?
Germano — Hein?
Almeida — E o que é essa essência?
Germano — Quero me lembrar da palavra. Tô com a palavra na boca e esqueci. Daqui a pouco te digo… Perdeu… [grita] a classe! Perdeu-se a classe! A pessoa não tem mais o ridículo. Perdeu-se a classe. Perdeu o…
Tacioli — Senso do ridículo.
Germano — Perdeu-se o elã, perdeu-se a elegância, perdeu-se tudo!
Almeida — Mas…
Germano — Não é melhor o cara ter uma boa aparência? Ah, taí. Perdeu-se a boa aparência. Perdeu-se. Graças a Deus que, onde eu for, faço sucesso. Com todos os meus 68 anos. Vou e ainda faço sucesso. Ainda bem que eu não ando desse jeito. Não ando. Desculpe, vocês usam brinquinho? [risos]
Almeida — Já usamos.
Germano — Porque quem usa brinquinho foi ou é ou tá pra ser! [risos] É ou não é?
Almeida — Mas, Germano, você não acha que por trás dessa indumentária pode ter uma alma sensível?
Germano — É, mas o hábito faz o monge! E não é só no Brasil, isso é no mundo inteiro.
Sérgio Seabra — Germano, concordo com você que as pessoas têm esse hábito de se vestir…
Germano — Porque mudou tudo, né?
Seabra — … — e de se comportar. Só que essas pessoas que usam brinco, esse tipo de coisa… a sociedade de hoje, não a de 30 anos atrás, não só aceita como estimula.
Germano — Por causa da alma que ainda… Sou adepto da metafísica. O espírito evolui de uma maneira, mas não evolui de outra. Poxa, mas você tá me filmando sem o chapéu? Não faça isso! Cadê o chapéu? Minha Nossa Senhora! Eu já me preparei pra tudo isso…
Dafne — Você não gosta mesmo, então?
Germano — Não! O chapéu dá a característica de sambista. Não é uma entrevista de samba?
Dafne — É uma entrevista com você.
Germano — Não é uma entrevista de samba? Então, meu negócio é falar sobre a carreira, sobre o samba. Sem chapéu fica horrível! Fico parecendo um gringo! O chapéu dá a característica de sambista… A característica.
Tacioli — Você usa o chapéu desde o começo de sua carreira, Germano?
Germano — Sempre usei. Sempre usei. No comecinho, não. No comecinho era assim… Isso aqui foi feito em 2001 e foi feito pra Internet também. [n.e. Mostra uma extensa matéria produzida pelo jornal O Estado de S. Paulo]
Tacioli — Saiu no Estadão.
Almeida — Ô, Germano, e esse cabelo escuro?
Germano — Ah, eu pinto. Preciso pintar, se não fico parecendo velho demais.
Almeida –Desde o começo da carreira?
Germano — Não, aí eu era moço, pô!
Almeida — Ah, você não era loirão, então?
Germano — Eu era moço aí.
Tacioli — O Moreira da Silva tinha essa elegância de que você fala?
Germano — Tinha, claro. Tudo tem uma característica. As pessoas não usam logotipo? É para identificação. Se não, fica comum. É como eu disse… Se eu entro na linha dos sambistas que estão gravando agora, fica um caminhão cheio de japonês. Fica tudo igual. Você compra o disco do Dudu Nobre, do Zeca Pagodinho, do Jorge Aragão, é a mesma coisa, o mesmo estilo. Vou entrar nas águas deles? Tenho que fazer uma coisa diferente, com qualidade. Se prestarem atenção, vão ver que tem muita qualidade. É uma coisa que tem arte. Essa foi a razão pela qual cheguei à conclusão de que esse disco tem condições de mostrar para os sambistas jovens como é que se faz um sincopado. Um samba malandreado (sic), elaborado. É difícil, não é qualquer um que canta dessa maneira.
Tacioli — Fora você, Germano, há alguém hoje em dia que faz o sincopado?
Germano — Não tem ninguém. Por isso que gravei 14 músicas de um compositor só, porque não tem quem faça. A juventude não sabe fazer esse estilo. Você já viu como são os sambas de agora? Eles não sabem fazer… [cantarola e batuca] “Sou bamba / Venho da periferia / Não alugo moradia”… Eles fazem isso? Com soquinho e tudo mais. Sincopado. No Rio tem quem faça esse tipo de samba, mas aqui, não. Mas como não tenho ligação lá no Rio, falei com o Elzo Augusto. Ele é o único que sabe fazer esse estilo aqui e que está vivo. O resto morreu tudo… Jorge Costa, o Ary Cordovil fazia bem. Quem mais? O Zé Keti… ele fazia bem o sincopado. Gravei uma porção de coisas dele. “Nega Dina”. Mas não tem mais quem faça sambas como o Zé Keti. Os sambas do Jorge Aragão são muito bonitos, os do Zeca Pagodinho também… E eles têm uma sorte de serem muito bem aceitos pela mídia. Eu também… se tivesse o mesmo trabalho que eles têm na mídia, eu também me destacaria.
Max Eluard– E por que você acha que a mídia escolhe o Jorge Aragão e o Zeca Pagodinho e não o Germano Mathias?
Germano — Aí é que eu não sei. Precisa perguntar pra eles. Só se for discriminação porque sou velho. Só se for isso. Ou eles não dão valor, ou discriminam.
Seabra — Você ficou 20 anos sem gravar. Como surgiu a idéia de fazer esse disco?
Germano — É o seguinte. O Wilson Souto Jr. é meu fã. Ele era diretor da Warner, mas tinha uma gravadora também. Eu nem sabia. Chamava-se Atração. E ele é muito amigo do Elzo Augusto, que disse que tinha uns sambas sincopados e que queria produzir alguma coisa. O Wilson se interessou — porque é um samba que não tem mais por aí — e me chamou. Escolhemos 14 de 40 sambas que o Elzo tinha. Era para ser gravado na Warner, mas, quando chegou a fita nas mãos dele, ele saiu da Warner. Não sei por qual motivo. E ele resolveu lançar pela gravadora dele, a Atração. Mas teve outra coisa. O Wilson chegou a mostrar a fita lá na Warner e… não sei se você sabem, mas a Warner comprou a Chantecler. E agora eles vão lançar um disco que eu fiz na Chantecler. Tô até com o contrato aqui. Eles ficaram mordidos porque o Wilson levou o CD para a Atração. Esse disco da Chantecler é só com sambas de carnaval em estilo lento, cadenciados, como “A fonte secou”. [n.e. Samba de Monsueto, gravado por Raul Moreno (Tufic Lauar), sucesso do carnaval carioca de 1954] Mas tem uma outra novidade nesse disco. Existiu um músico chamado Boneca. Não sei se ele ainda está vivo. Ele era um virtuoso, tocava de tudo. Ele tocou nesse disco da Chantecler um negócio que ninguém tocou em lugar nenhum. Uma ocarina! Sabe o que é uma ocarina? Ficou bacana pra chuchu. Ocarina é um instrumento com oito furos, parece um bumerangue, e é feito de barro. No dicionário tem. Vou pegar pra você verem. Então, é isso, tem esses sambas de carnaval cadenciados, bem cadenciados, e com uma ocarina. Olha o que diz aqui?
Almeida — Você gosta de ouvir seus discos?
Germano — Gosto. Gosto muito. Sou meu fã. [risos] Vou botar pra vocês ouvirem o samba “São Paulo, mãe-madrinha”. Vocês conhecem? É uma homenagem a São Paulo. [coloca a música] Olha que homenagem linda!
Tacioli — Além do samba, que outros gêneros de música você ouve em casa?
Germano — Gosto de forró, mas dos forrós antigos. [coloca “Costela predileta”]
Max Eluard — Tô vendo que você tem muito prazer em ouvir seus discos. Como é que você fez com todos esses anos sem gravar?
Germano — Veja bem, não é que fiquei sem gravar. Participei de alguns discos mas não era eu somente. Não estava sozinho. O primeiro que gravei sozinho foi lançado há 43 anos pela gravadora RGE. E a Som Livre comprou a RGE. Mas são sambas de 43 anos atrás. Foi relançado como As 20 preferidas. Depois gravei a História do samba paulista, que saiu pela CPC-UMES, com o Oswaldinho da Cuíca. Gravei duas músicas, “Bandeira do Timão” e “Último sambista”.
Max Eluard — Mas você não tinha esse prazer em ouvir um disco seu, de carreira. Como foi ficar sem esse prazer?
Germano — É, não tinha. Mas, depois, o SESC lançou um coisa minha… Essa é minha filha. [dirige-se à filha] Todos esses jornalistas da Internet falaram que vão fazer eu ficar feito na vida [risos]… Feito bobo! [risos] O SESC lançou…
Tacioli — O MPB Especial do Fernando Faro.
Germano — Só que uma pessoa precisa comprar todos os CDs da caixa para ter o meu! Tem que gastar R$ 80,00 pra ouvir o Germano Mathias. O Germano Mathias não vale tanto assim! [ri] Vamos com calma.
Max Eluard — Mas quero saber do seu sentimento.
Germano — Muito grande. Graças a Deus estou tendo apoio. Só preciso agora da televisão pra mostrar o meu trabalho. Mas não entrevista. Entrevista não dá retorno. A não ser a Gabi. [n.e. Refere-se ao programa televisivo de entrevista da jornalista Marília Gabriela, atualmente no SBT] A Gabi faz diferença. Você fica lá uma hora, falando da carreira, pode mostrar o disco… Ela é vista no Brasil inteiro. E ainda falo que, quem comprar esse disco, vai estar ajudando o sambista pobre e desamparado. [risos] Mas olha… Vamos ver aquele negócio da ocarina. Esperem um pouquinho que tá saindo um cafezinho especial.
Tacioli — Esse disco novo, o Talento de bamba, está dando um grande impulso…
Germano — Mas o que vai dar impulso mesmo é cantar na televisão. Por exemplo, cantei “São Paulo, mãe-madrinha” no Jô Soares e já teve repercussão.
Max Eluard — E em que outros programas da TV você acha que poderia se encaixar?
Germano — No programa da [Luciana] Gimenez, na Adriane Galisteu, no Clodovil…
Seabra — No Raul Gil?
Germano — O Raul Gil é um problema, porque quem decide é a produção do programa, e na produção só tem gente jovem que não me conhece. Mas, olha, achei o negócio da ocarina… [lê] “Instrumento de sopro, oval, com embocadura curta e que lembra o perfil de uma cabeça de ganso. Geralmente de barro. Com oito orifícios, quatro para a mão direita e quatro para a esquerda, correspondentes às notas da escala diatônica”. Que instrumento esquisito! Ninguém conhece!
Max Eluard — Fala de onde vem?
Germano — Não. Não fala. Tem “it” aqui… talvez seja italiano [n.e. Na verdade, a ocarina é de origem africana]. Como eu já tenho sotaque italiano mesmo. [ri] No Rio de Janeiro falaram “O disco está muito bom, acompanhamento excelente. O sambista passeia dentro do ritmo, mas aquele sotaque italiano…” [risos] Filha da puta!
Max Eluard — Engraçado que ainda haja isso, do samba de São Paulo ser segregado no Rio. Como era na sua época?
Germano — Eu ia pro Rio, sim. Eles me engoliam, tinham que me engolir. [risos] Que nem o Zagallo.
Max Eluard — Mas havia isso?
Germano — Sempre existiu. Os cariocas acham que somente eles podem cantar samba. Quer dizer, até aceitam mineiro ou baiano cantando samba, mas paulista não pode. Por causa do sotaque italiano. Mas onde é que eles vem ganhar dinheiro? [risos] Se fossem depender do Rio de Janeiro, já tinham ido pro beleléu. [ri]
Max Eluard — E como São Paulo está de samba hoje em dia?
Germano — São Paulo é a cidade principal do samba. Sambista ganha dinheiro em São Paulo. Vocês sabem disso. Toda hora vocês vêem no jornal… Leci Brandão, Jorge Aragão, Zega Pagodinho…
Max Eluard — Tá… Aqui é o lugar onde se ganha dinheiro com samba, mas é onde se faz samba? Quem é, hoje em dia, o sambista bom em São Paulo?
Germano — Tem o Oswaldinho da Cuíca. Ele me acompanha.
Almeida — Você começou em programa de calouros no rádio, né? Como você vê esses programas, como o Fama, da TV Globo?
Germano — Olha, esse povo todo que tá aparecendo agora… Não vai ter canto para eles. Sabe por quê? Porque todo mundo quer ser cantor hoje em dia e satura a praça. E não é todo mundo que ganha dinheiro. É a lei da oferta e da procura. Quando tem muita quantidade, cai o valor. Só ficam os que tem carisma.
Tacioli — Hoje é mais difícil ser artista?
Germano — Ah, é. Pela quantidade que tem… E a qualidade não é muito boa. Muita quantidade e pouca qualidade. Acho que vou ser jornalista. [risos] Ainda faturo um dinheiro porque… Tenho 46 anos de carreira. Peraí! De 1955 até 2002 são 47! Quase meio século de carreira. Sou muito conhecido… A polícia toda me conhece! [risos]
Tacioli — Como foi o começo de sua carreira? Gravar o primeiro disco…
Germano — Foi… Aliás, aqui tem, aqui diz tudo. [Aponta para a matéria do Estadão] Não preciso nem repetir.
Almeida — É melhor que você fale, Germano.
Germano — É comprido para explicar.
Almeida — Mas é bom ouvir essas histórias.
Germano — Demora muito.
Almeida — O que você gosta de falar em entrevista, então,?
Germano — Gosto de falar do CD. Gosto de falar sobre o presente. Tem muita coisa que não me lembro. Está tudo aqui. Tenho que falar sempre as mesmas coisas nas reportagens.
Almeida — Por exemplo, nunca li nada sobre sua infância.
Germano — A minha infância… É uma coisa que não me lembro mais. Foi uma infância comum, normal.
Dafne — Onde você morava?
Germano — Nasci no bairro do Pari, 2 de junho de 1934.
Dafne — Como era o Pari na época?
Germano — Não sei, não sei, eu era pequeno. Era um bairro comum, normal. Não era como Vila Isabel! Era um bairro normal como qualquer outro.
Seabra — Nesse material tá escrito que você começou a batucar em rodas de engraxates da Praça da Sé. Notaram que você tinha talento…
Germano — Eu ia pra escola e, quando voltava, parava naquelas rodas de engraxates, sambistas, ali na Praça João Mendes e na Clóvis Bevilaqua. Era um samba muito bem feito. Era um folclore na época. Eles batucavam e passavam o chapéu para comprar cachaça, maconha… E o que precisasse. [risos] E eu ficava ali. Parecia que eu me identificava com aquele cenário. Comecei a batucar até que um amigo meu falou que eu podia me inscrever em um programa de calouros. O programa se chamava Aí vem o Pato!, apresentado por Jaime Moreira Filho, já falecido. Ganhei o primeiro lugar com o samba “Minha nêga na janela”… Não, o samba se chamava “Na Barra Funda”. Aí, abriu um concurso na Rádio Tupi. Eles estavam procurando um substituto pro Caco Velho, que era uma estrela na época. E tinha que ser aqui de São Paulo porque era mais barato.
Seabra — Havia esse ambiente nos engraxates, mas onde você morava não havia…
Germano — Não tinha. Era tudo na cidade. As gafieiras…
Max Eluard — Mas não havia um preconceito com a batucada nessa época?
Germano — Não. Quero dizer, o pessoal reclamava porque havia os escritórios e fazíamos batucada de dia, de tarde, toda hora! [risos] Aí, baixava a polícia descendo porrada nos vagabundos. [risos] Mas era uma batucada bem feita, era folclore.
Max Eluard — E você lembra quando deixou de ser um problema e as pessoas passaram a gostar, pedir mais, comprar discos?
Germano — Não lembro. Só lembro quando entrei no rádio. Tornei-me profissional em 6 de outubro de 1955. Tirei a carteira na Divisão de Diversões Públicas, que todo artista era obrigado a ter, e vinha escrito assim “Cantor e executor de instrumentos exóticos”. [risos]
Max Eluard — A latinha de engraxate.
Germano — Era um tempero que eu usava. Hoje em dia não serve mais.
Tacioli — É mesmo?
Germano — Por causa do eletrônico que existe hoje em dia. Não faz mais sentido. Por mais sonoridade que tenha, perde o fogo da música.
Dafne — Mas no disco não dá para usar?
Germano — Dá, mas também não estou usando muito. É apenas um detalhe… Fiz um breque em uma música nesse disco [“Pega leve”]. Não queria fazer, me encheram o saco pra fazer. [risos] E tem outra… Se eu perder essa latinha não encontro outra. Porque não existe mais esse tipo de lata. As latas de graxa de hoje não têm mais tampa.
Max Eluard — Sua família tinha alguma ligação com samba?
Germano — Não, minha família era uma negação em matéria de música. Sou português por parte de mãe, carioca por parte de pai e crioulo por parte do vizinho do meu pai. [risos] Cantor de samba? Parece um alemão, porra!
Max Eluard — E sua família apoiou, no começo, sua carreira?
Germano — Apoiou. Já havia morrido quase tudo [risos] Então, agora estou feliz porque esse CD pode me projetar novamente nas paradas. Mesmo que seja a Parada de Lucas [Zona Norte do Rio de Janeiro]. [ri]
Max Eluard — Parada de Taipas. [risos]
Almeida — Mas o que tem de melhor em se fazer sucesso?
Germano — Ah, meu filho, o trocadinho. Ganhar cascalho. Porque não tenho aposentadoria. E agora tá mais difícil de aposentar. Mas, olha, eu não sou caro, não! [risos] Leva o show com acompanhamento e tudo.
Tacioli — Quem te acompanha no show?
Germano — O Oswaldinho da Cuíca, o Odair Menezes, no cavaquinho, o Renatinho, no violão, ceguinho, bom demais…
Dafne — Violão 7 cordas, né?
Germano — É. São cinco músicos. Com isso dá pra estourar o saco de todo mundo. [risos]
Max Eluard — E quanto shows você faz por ano?
Germano — Depende. Agora tá parado. Cada vez inventam uma desculpa. Primeiro era o apagão, aí, depois, veio a Copa do Mundo e, agora… Temos um nome bonito… Turbulência financeira! [risos] Mas tô com um disco novo e as perspectivas são boas.
Tacioli — Olha o cartão do Gafieiras.
Germano — É um conjunto?
Tacioli — É o nosso site.
Germano — Ah, o site. Depois você me passa direitinho, porque a minha filha pega no computador. Tem também um amigo meu que é compositor, o Caio Silveira Ramos [n.e. Autor da biografia Samba explícito — As vidas desvairadas de Germano Mathias], que é chefe lá na Assembléia Legislativa. Grande amigo meu. Ele me adora. Toda hora me liga perguntando se estou bem de saúde. Bem de saúde, estou, mas continuo broxa do mesmo jeito! [risos] Fui ao médico e ele disse que talvez com meia hora de massagem ele funcione! [risos] Vocês tem que ver o que conto no show. Quando a barra é pesada eu mando… “Posso contar para vocês como foi minha última aventura sexual?” “Pode, pode!” “Olha, é pesada, hein!” Peço licença pro diretor do show e começo… “Estava passeando lacrimejantemente pelas alamedas públicas da capital bandeirante quando encontrei uma colegial… 15 aninhos e não era mais virgem! Então, a convidei para irmos ao lugar secreto. Chegamos lá e eu tirei toda a minha roupa. Fiquei peladão em cima da cama… Pedi pra ela também se desnudar, porque eu estava excitado. Mas quando ela tirou a roupa, o meu pipi estava deitado em cima da barriga. [risos] Ela veio, mas o meu pipi nem se mexeu. [risos] Ela viu que eu estava em uma situação constrangedora e disse, “Germano, posso dar um beijinho no seu pipi?” “Pode, ele está necessitando mesmo desse carinho.” Mas nada. Então, ela disse, “Posso fazer uma chupetinha no seu pipi?” “Pode, querida.” Perguntei se estava bom e ela disse, “Tá parecendo chocolate” “Mas está bom assim?” “É, que nem chocolate. Quanto mais chupa, mais mole fica” [risos] E o povo cai na risada. Aí, eu me invoco… “Minha filha, vou mostrar pra você que enquanto houver língua e dedo, mulher não me mete medo!” [ri] Então, eu enfiei a cara no mato, comecei a comer agrião na vala! [risos] Aí, ela me pediu pra colocar os óculos. Pensei, “Meu Deus! Ela é tarada! Ela gosta que eu faça essas coisas de óculos”… Aí coloquei os óculos… Logo depois ela pediu pra eu tirar os óculos. Por quê? “É que de óculos você me machuca e sem óculos você fica lambendo o colchão” [risos] O povo dá risada. Tenho quatro sambas de sacanagem.
Almeida — Cante um trechinho.
Germano — Tem um que se chama “Terreiro de Itacuruçá”. Digo pro povo… “Olha, vou receber uns espíritos aqui, mas não me responsabilizo pelos espíritos que baixarem aqui. Posso cantar? É barra-pesada e sou apenas o intermediário, o cavalo”. Então, começo. [Cantarola e batuca] “Fui convidado / Pra ir em um terreiro em Itacuruçá / Vejam vocês o que fui arrumar / Mas tem uma coisa / Nunca mais vou lá / Em Itacuruçá / Andei a noite inteira levando poeira / Foi de amargar / Só de madrugada foi que cheguei lá / No tal terreiro de Itacuruçá / Ao chegar no terreiro / Um tal canguru veio me falar / Primeiro o senhor tem que ir no gongá / Pedir ao preto velho pra lhe consultar”… [interrompe para explicar] Aí, faço um monte de barulhos, tremo todo, e o preto velho baixa em mim… [Germano arregala os olhos e põe a língua de fora, “está possuído”] “Caboclo mamadô / Língua de ouro de 2002” [risos] E o povo, quaquaquá. Quem faz essas coisas hoje? Só eu mesmo que sou um irreverente… Aí, tem outros personagens que eu brinco… “E dizer saravá / Justamente na hora que eu estava salvando a polícia chegou / Levou todo mundo / Eu fui o primeiro / Só o macumbeiro é que não entrou / Porque se mandou”. Tem outras três músicas assim. Ah, vou ali pegar a latinha e o repertório.
[Vai e volta com uma maleta onde estão um chapéu, a latinha, o repertório e o par de sapatos de couro de bode]
Tacioli — Olha só… Brilhando.
Almeida — Quantos anos tem essa latinha?
Germano — Ah, faz tempo, ganhei de um amigo meu.
Seabra — Você preza tanto a elegância… Fale-me dessa sua indumentária branca?
Germano — Não, branco, não. Fico parecendo pai-de-santo. Não se usa mais branco. Vou ficar parecendo pai-de-santo ou médico.
Tacioli — Ou barbeiro.
Germano — Tenho que estar no padrão, mas sem imitar. Olha aqui meu repertório… “Samba da periferia”, “Produto brasileiro”, “Amor perfeito”, “Pega leve”, “Costela predileta” — umas músicas do CD que têm que trabalhar -, “Malandro não vacila”… Essa aqui não tá no CD, mas é um samba que canto de malandragem no estilo do Bezerra da Silva… [canta] “Malandro que é malandro, cumpade, não vacila / E você anda vacilando, cumpade, lá na vila / Malandro que é malandro / Pisa no chão devagar / Chega bem de mansinho / Que é pros hômi não notar / Sabe entrar e sabe sair / E criança respeitar / Não mexe com mulher alheia / Que é pra na cadeia a mulher não virar / Viu / Olha que lá em Itaquera”… Não sei mais, até esqueci. Quando fico emocionado me perco.
Almeida — Porque você se emocionou com essa música?
Germano — Não é com essa música. Eu me emociono com as coisas. Quero falar tudo de uma vez só e não dá. Quero contar tudo… “Olha que lá em Itaquera / Apesar da fama tem nêgo bacana / Mas você chegou lá meu cumpade / Trocando a mão pelo pé / Entrou na casa do Loki e fez arrasta pé / Usou e abusou e na marra transou com a mulher do Mané / Se fosse em Guaianases, o bicho comia / Se fosse em Guarulhos, você sumia / Se você em São Miguel ou Capão Redondo, você morria / Se fosse em Osasco, você virava churrasco / De quê? / Churrasco de malandro / Que só respeita malandro quando tá de quatro”. A turma dá risada. E eu abro com um samba explícito. Não tem o sexo explícito? [risos] Então, eu fiz o samba explícito! Esse faz um puta sucesso! O samba é meu, é de minha lavra. Lavra dá impressão de trabalhador… [risos]
Almeida — Trabalhar na terra…
Germano — Trabalhar na terra. Lavra. Diz assim… “Ela amanhece pendurada na janela do lado de lá / Do lado de lá / Eu amanheço pendurado na janela do lado de cá / Se você me perguntar / O andar onde ela mora / Não vai dar pra entender / Entender / Se perguntar a ela o meu nome / eu garanto ela não saberá dizer / Mas o diabo do pai dela fica todo invocado / Quando me vê na janela / Tá todo mundo perturbado / Tanto do meu lado / Como do lado dela” [risos]… “Eu sei que ela fica o dia todo pendurada virada pra cá / Ela sabe que eu fico o dia todo pendurado virado pra lá / Virado pra lá / Se ela está se divertindo / Está curtindo a dela do lado de lá / Eu também tenho direito de estar curtindo a minha do lado de cá” [risos]. Aí, no final eu exagero… [aumenta o tom] “Se ela está se divertindo / Está curtindo a dela do lado de lá / Eu também tenho direito de estar curtindo a minha do lado de cá” [ri]. E todo mundo “quáquáquá”. [cantarola e batuca] Eu faço o breque do canguru. Esse breque foi em homenagem quando o Brasil ganhou na Austrália, na Copa…
Tacioli — Não foi nas Olimpíadas?
Germano — Então, depois tem “Mulher ciumenta”, que é demais. [cantarola] “O homem casado não agüenta / Menino chorão e mulher ciumenta”. Essa é a parte pesada! No final do show eu arraso, aí, apelo… “O homem casado não agüenta / Menino chorão e mulher ciumenta / Quando chego em casa encontro sentada / Televisão ligada assistindo novelas…” [faz voz de choro] “Reynaldo Gianecchini!” [risos] “Fábio Assunção! Eu fico toda molhada!” [ri] “Menino chorão e o fogo apagado / Pia toda suja de pratos e panelas / Se falo em jantar / Ela quer brigar / Vai miserável / Vai / Pensa que eu não revistei você seus bolsos / E você estava com um cartão / Magali massagista / Vai na massagista! / Não me toque, hein! / O Chico bateu na porta…” [ri] Você sabe o que é? O Chico bateu na porta…
Tacioli — Imagino. [risos]
Germano — O Chico bateu na porta? Quer dizer que ela está de paquete. “Tô de bandeira vermelha, por favor, não me procure. Se você quiser, mate uma cotia a soco” [risos]. Ah, quando eu tô fazendo o negócio da língua, eu digo assim… [faz os barulhos com a língua] “Caboclo mamador, língua de ouro 2002”, aí, digo “Vocês vêem o que um velho tem que fazer pra ganhar dinheiro? ‘Ce vê o que tem que fazer?” [risos] Aí eles morrem de rir. Então, o outro é “Maria pé-de-boi”… “Ô Maria Pé-de-Boi / Ô Maria Pé-de-Boi / Deixa de tomar pileque / Foi assim que a outra foi / De dia essa nega dorme” [faz barulho de ronco]. A Maria Pé-de-Boi tava encachaçada, com a língua aberta, e de repente apareceu aquelas baratas americanas que têm aquelas antenas… [risos] aquelas baratas viciadas em naftalina. Naftalina pra ela é moleza. [ri] E entrou dentro da boca da Maria Pé-de-Boi. A Maria deu uma cuspida e a barata caiu dura só com aquela bafo de cachaça. Morreu. [risos] Aí, sigo… “De dia essa nega dorme / De noite faz arruaça / Chega de manhã cedinho / É puro bafo de cachaça / Meto o facão na madeira / Meu facão sabe cortar / Se você não andar direito / Meu facão vai trabalhar / Ô Maria Pé-de-Boi / Ô Maria Pé-de-Boi”… aí já é o final do show, “Aí, o terreiro tá que é poeira só / Muita gente vai chorar quando eu fechar meu paletó / Aí, o terreiro tá que é poeira só / Muita gente vai chorar quando eu fechar meu paletó / Olha que vida danada / Meu pai morreu assim / Cuidando da vida dos outros / E esquecendo de cuidar de mim / Que enterro vagaroso / Foi um caso muito sério / O defunto se invocou / E foi a pé pro cemitério”. [risos] Aí, o amigo que tava no velório disse assim, “pro mé tinha, mas pra enterrar o vagabundo não tinha?”, e ainda chegou um compadre dele com uma bagana… [assopra] “Cumpadi, eu sei que você gostava!”. [risos] O povo morria de rir. “Cumpadi, essa aqui é curtida no mé, curtida no cacau, cumpadi”. Na cara do defunto. [ri] Aí, eu digo, “Quando Deus criou o mundo / Fez um pouquinho de tudo / Fez nega pra dançar samba”… e eu faço que nem a nega [sai rebolando], skindô, skindô, que nem a nega… tô só imitando a nega, viu? [risos] Porque toda vez que imito a nega tem alguém aí fora com a mão no bolso. “Gostei do rebolado!” [risos] Olha, o meu show é um espetáculo.
Almeida — Germano, você é meio ator também, né?
Germano — Sou ator e sou à toa também. [ri] Fiz uma novela, Brasileiros e Brasileiras…
Almeida — No SBT.
Germano — É, eu era um velho vagabundo chamado Nivaldo. Só esses papéis que me dão pra fazer. [ri] Não me dão papel de mais classe, não. Opa, deixa eu pegar o cafezinho…
Seabra — Você tem muitas passagens engraçadas no show, mas e de casos que realmente aconteceram?
Germano — Caso real eu contei no programa do… meu Deus, como era o nome daquele cara que fazia caipira… Rolando Boldrin. Eu fiz e ficou tão engraçado que repetiu no fim do ano nos melhores momentos do programa dele. É o seguinte: eu tinha um mês de profissional e estava acostumado em cantar em São Paulo. E, não sei, encasquetou na cabeça que, se eu fosse pro interior, o pessoal não ia me entender, o pessoal não ia entender o meu samba. O pessoal do interior só gosta de música caipira. E fiquei meio inibido. Se eu cantar samba de malandro aqui, ninguém vai entender nada. Mas o primeiro show foi na cidade de Tietê, ou antes da cidade, não lembro direito… Entrei meio assim, não entrei entusiasmado. Fiz o show, sambava meio assim com medo [risos], pensando que o povo não ia me aceitar. O pessoal bateu palma, mas também não foi aquilo, porque não rendi o que tinha de render. Quando eu saio, que Deus o tenha em bom lugar, o saudoso Miguel, da dupla Ouro e Prata, disse assim, “O que aconteceu com você?” — “Ah, não sei, é que estou acostumado lá em São Paulo e aqui estou perdido. Aqui o pessoal gosta muito de música caipira…” — “Você tá ficando louco, rapaz? O seu samba é aceito em qualquer parte do Brasil e do mundo. Você tem que fazer o que está acostumado a fazer, aquilo que você sabe quando você entra com aquele ânimo, aquela alegria.” Porque eu entrava pulando quando anunciavam, “Agora, com vocês, Germano Mathias, o sambista da nova geração.” Cantar que era bom, nada, só palhaçada! [risos] Aí, ele falou, “Vou te dar um estimulantezinho”. Era um bolinha verde que deixava doidão. Depois vim a saber que era Perventin. Aí, me deu uma bolinha daquelas, “Você vai ver como agora você vai funcionar bem.” [risos] Então, o Astrogildo Silva me anunciou, “Agora o mais novo contratado da Rádio Tupi de São Paulo para a Caravana da Alegria, o sambista da nova geração, Germano Mathias!” Aí, eu entrei. O Miguel só ria. “Não sou de briga / Mas estou com a razão / Ainda ontem bateram na janela…”, do primeiro disco… Não canto mais esse samba, esse samba é racista. “Ainda ontem bateram na janela do meu barracão / Saltei de banda, peguei a navalha e disse / Pula moleque abusado / Deixa de alegria pro meu lado / Minha nega na janela diz que tá tirando linha / Êta, nega tu é feia que parece macaquinha.” Aí, já era, já estragou tudo. As negras achavam que eu chamava elas de macacas. Não canto mais esse samba. Na época era engraçado, há 50 anos, 46. No final todo mundo bateu palma. Sambei e tal. Olhava pro Miguel lá na coxia e ele ria. “Então, mais um número do Germano Mathias”, mais um número… Foi aí que eu me caguei todo. [risos] Pedi o tom pro Regional, “Escuta, será que é Ré ou Sol Maior?”. E enfiei dois dedos no rabo e cocei. [risos] Distraí, fiquei distraído demais. [risos] Esqueci que eu estava no palco. Fiquei à vontade demais, acho que a bolinha fez efeito. O povo começou a dar risada e eu não sabia porquê. O Astrogildo dizia assim, “É um jovem sambista, um artista novo, vocês têm que perdoá-lo!” [risos] “Perdoar o quê? O que eu fiz?” Ah, rapaz. E o povo, “Coça de novo! Quá quá quá quá”. Cheguei nos camarins e perguntei se tinha ido bem. O Miguel, “Até demais, se o povo não tivesse gostado de você… você enfiou dois dedos no rabo e coçou na frente de todo mundo!” Aí, me lembrei que era verdade. Fiquei com uma vergonha. [risos] Fiquei por último. Esperei apagar todas as luzes para sair… Com vergonha do povo. Todo mundo foi embora… Mas sabe esses caras de bar, molecão, que fica enchendo o saco, gritaram, “Olha coça-coça aí!” — “Coça-coça é a puta que te pariu!” [ri] Os filhos da puta me chamavam de “Coça-Coça”. Foi uma passagem da minha vida negra, né.
Seabra — Tiveram mais passagens? Porque, quando estávamos vindo pra cá,… você não bebe?
Germano — Não, nada.
Seabra — E nunca bebeu?
Germano — Já bebi. Tomava cerveja, vermute, Ferroquina…
Almeida — O que é Ferroquina?
Germano — Ferroquina era um tipo de vermute que melhorava a…
Almeida — Circulação.
Germano — Como eu posso dizer? Melhorava o funcionamento do lagartão. [risos]
Tacioli — E melhorava mesmo?
Germano — Uma vez a Aracy de Almeida chegou pra mim… “Germano Mathias!”, com aquele jeito dela carioca, “Como vai? Tens envernizado muito esse lagartão?” [risos] Era um barato. Ela era debochadona, falava palavrão feito louca. Uma vez vi umas mocinhas pedindo autógrafo pra ela, “Dona Aracy! Dona Aracy! Me dá um autógrafo, dá bem bonitinho!” — “E não é pra ser bonitinho, sua putinha!” [risos] Chamou a fã de putinha! [ri] A Aracy era demais. Irreverente toda vida. É que na época ela não falava muito em cena. Ela era pior que a Dercy Gonçalves.
Tacioli — Você era bastante amigo da Aracy?
Germano — Eu me dava bem com ela.
Germano — Olha, aqui é uma cena do Catedrático do samba, um curta-metragem… Ganhou em Kiev na Ucrânica um prêmio de… como é mesmo o nome? Não é honra ao mérito.
Almeida — Prêmio do Júri?
Germano — Não. Como é mesmo o nome?
Max Eluard — Menção Honrosa?
Germano — Como é…
Tacioli — Não é Menção Honrosa?
Germano — Isso, Menção Honrosa. Você falou, né? Não escutei. É, velho só dá mancada. [risos]
Max Eluard — E como foi fazer esse filme?
Germano — Esse filme foi… Ele tá muito pobre… Eles fizeram autêntico demais. Tem somente eu fazendo batucada, não tem harmonia nenhuma…
Max Eluard — É só você cantando…
Germano — E falando sobre a minha vida. Aí, quando as pessoas entravam pra ver o filme, ganhavam um lencinho pra chorar. [risos]
Max Eluard — Por que era triste?
Germano — Não… de raiva! [risos] Tão ruim o documentário que eles choravam de raiva. “Porque fui perder meu tempo pra ver essa merda?” [ri]
Max Eluard — Mas você não gostou?
Germano — Gostei, mas podia ter sido feito com mais… cavaquinho, violão, com harmonia. Não tem harmonia. Só eu com batucada, pô! Peguei uns engraxates do tempo antigo, um tal de Jarrão.
Max Eluard — Você não gostou da parte musical?
Germano — Ficou pobre a parte musical. E o resto eu falando, caracterizado.
Max Eluard — Você não gosta muito de falar do passado?
Germano — Não gosto, não. Primeiro, porque não guardo as coisas. Não me lembro de data. E segundo… [grita] Benhê! Benhê! Benhê! Oh, meu Deus, será que ela saiu? Quero mostrar pra vocês… Ganhei um diploma de Bacharel do Samba da Ordem da Palheta Dourada…
Tacioli — Da X-9.
Max Eluard — Mas só termina de falar isso que você estava dizendo, de que não gosta de falar das memórias… Você não se lembra de datas e…
Germano — Benhê, me dá o negócio dos discos pra eu mostrar pra eles.
Dona Ivone — Qual, velho?
Germano — Aquele negócio da sacola que eu pedi pra você tirar de lá.
Dona Ivone — Ah, tá.
Germano — Pedi pra você tirar e você esqueceu. [cochichando] Tenho que tomar muito cuidado com ela senão ela joga o coador quente de café na minha cara. [risos]
Max Eluard — Germano, mas você tava dizendo…
Germano — Sabe que ela me amarrou com um café coado na calcinha? Fiquei apaixonado. Tô gamadão até hoje. [cochicha] Ela não gosta que eu fale essas coisas. [ri] Pornografia. [Dona Ivone volta] Quanto tempo estamos juntos, bem?
Dona Ivone — 28.
Germano — Vinte e oito anos que ela me atura.
Dona Ivone — 28 anos que eu aturo esse homem. [risos] Agora tem que ir até o fim. [ri]
Germano — Sabe o que ela fez comigo? O prêmio que ela quis por me aturar todo esse tempo? Tive que fazer uma apólice pra ela não ficar na rua da amargura. [risos] É verdade. Quando falei pro Donizete… ele morria de rir. O Donizete passou uma tarde aqui que nem vocês. Mas eu fiz ele dar risada… Não queria mais sair daqui. Tomou uns 80 cafés e falei assim…
Dona Ivone — Querem mais café?
Todos — Aceito.
Germano — Mas vocês ainda foram felizes porque teve um engasga-gato pra comerem. [risos] [referindo-se ao nuggets] O Donizete só tomou café. Saiu daqui preto de tanto tomar café. Não teve nem um biscoitinho, coitado. Falei, “Olha, deixa passar a turbulência financeira que eu te convido pra vir aqui novamente”. [ri] Não é que a gente esteja duro, a gente tá numa altura que urubu não alcança. [ri]
Tacioli — E como você conheceu a Dona Ivone?
Germano — Conheci numa gafieira do Clube Paulistano. Uh, ela esava linda. Quando passou rebolando aquele pudim de mamão! [risos] Fiquei louco. Disse, “Boa noite, gentilíssima, posso me entusiasmar?” [risos] Eu disse, “Deus faz e a natureza conserva”. Aí, eu peguei e já arrastei para o campo de aviação. Bem nas entrecofas. [risos] Ela se apaixonou e não quis nem saber se língua de tamanduá era escada rolante de formiga. [risos] Ela não gosta quando eu falo essas coisas.
Almeida — Germano, você sempre se deu bem com a imprensa?
Germano — Sempre. Porque não sou orgulhoso, não tenho orgulho. O orgulho ficou na barriga da minha mãe quando ela morreu. Sou a pessoa que sou. Sou muito leal, muito verdadeiro. Sou incapaz de trair uma pessoa. Inclusive, quando moço, eu era muito farrista, depois mudei por causa da ciência que abracei.
Almeida — Que ciência?
Germano — Vou até botar os óculos.
Seabra — Diga pra gente.
Almeida — Não, agora o papo ficou sério.
Germano — Eu me tornei adepto da Metafísica. Tenho dois hobbies hoje em dia. São coisas que ajudam muito a minha mente. 68 anos não é brincadeira. Muita coisa eu não lembro, então tenho que estar sempre agitando a mente. Gosto de palavras cruzadas. É meu hobby. E literatura metafísica. É mole ou quer mais? Quer ver aqui, ô…
Tacioli — Tem uma prancheta.
Germano — É, meu filho, sou organizado. Adoro organização. Fico filho-da-puta com a época de hoje em que as coisas são todas ao contrário. Demoram para fazer as coisas. Falam que vão fazer num dia e não fazem. Erram o nome das coisas. “O meu Mathias é com H, H de homem e M de macho!”. Machucado. Não gosto de ver meu Mathias sem H. Então, aqui faço assim, olha como é que eu faço. Esse é meu hobby. Faço tudo. Já ganhei prêmio, mas tenho os dicionários todos ali, né! [risos] Se não tiver os dicionários… Faço tudo. Esse “C” significa certo e conferido.
Tacioli — Desde quando você faz palavras cruzadas?
Germano — Ah, faz anos. Sempre gostei.
Almeida — Mas você guarda?
Germano — Não, depois que compro outro, jogo fora. Já está pronto, né? Mas faço no capricho. Olha, esse aqui eu não acertei. Esse foi duro. Isso aqui é dificílimo… Cruzadas silábicas. Grifograma… Isso aqui também é muito bom.
Tacioli — Esse eu não conheço.
Germano — É assim… “O pensamento que se formará no esquema da direita é de célebre escultor francês”, que é August Rodin… diz assim, “Seu nome será lido nas iniciais dos conceitos”. Agora, para você acertar aqui, tem que dar tudo certo e passar para cá o pensamento dele. O pensamento dele: “Em toda de…”
Dafne — Deve ser “deformação”.
Germano — “Em toda deformação…” Deformação?
Almeida — Mas tem um “M” ali.
Germano — Ah, então eu esqueci. Errei aqui. Foi no “F” que eu errei. É “sefardin”. Faltou o “F” aqui. Puta merda! Você vê como é que é! [risos] “Em toda deformação, em toda mácula, a verdade interior irrompe mais facilmente do que em traços regulares e sadios.”
Almeida — Pelo amor de Deus!
Germano — Esse aqui eu fiz bem, também. Outro Grifograma. “Os versos do poema que formarão na direita são do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade… as iniciais do conceito formarão o título da poesia onde foram extraídos.” A poesia chama “Mais viveremos”. E aqui diz: “Muitas vezes julgamos ver a aurora e sua rosa de fogo à nossa frente. Era apenas na noite uma fogueira.”
Almeida — E a leitura metafísica?
Germano — Metafísica é tudo que é transcendental. A base da Metafísica é Allan Kardec. Depois você passa para Teosofia, Budismo, Esoterismo… Tudo que acaba com “ismo”, menos comunismo. [ri] Entende? Então, eu aceito a lei da reencarnação e vivo dentro da lei do carma atualmente. “Carma” é uma palavra indiana da metafísica budista que significa “ação e reação”, que é professada pelo espiritismo. Causa e efeito. Não existe efeito sem causa, nem causa sem efeito. Então somos hoje o que construímos no passado e seremos no futuro o que construímos no presente. Quem semeia vento, colhe tempestade. A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória. Então tudo o que nos acontece tem duas razões de ser, ou é uma prova ou é uma expiação. Prova é quando você passa pelas coisas para ver qual atitude que você toma e ter conhecimento de causa. Expiação é pagar o passado.
Tacioli — E desde quando você está envolvido com a Metafísica?
Germano — Comecei depois que resolvi me regenerar…
Dona Ivone — Olha aqui o cafezinho.
Germano — Obrigado, querida! Depois eu dou uma bitoquinha em você, viu? [risos]
Dona Ivone — [rindo] Pára com isso!
Germano — Eu não apresentei, né? Essa aqui é a minha mulher, minha cara-metade. Ela falou, “Tô agüentando isso há 28 anos? Como assim? Não! Vamos dar um jeito nisso!”
Dona Ivone — Eu, 28 anos?
Germano — Tá louco, viu?
Dona Ivone — Mas não tem jeito mais, né? [ri e sai]
Tacioli — Mas, quando você estava começando a carreira, que relação você tinha com
religião?
Germano — É o seguinte. Comecei a me interessar depois que passei por uns sofrimentos na minha vida muito grandes, e queria saber o porquê desse sofrimento. Então, vim a saber que todo o sofrimento que a gente tem é resultante de nossos erros passados. Agora, a Teosofia diz: “Deus, na Sua infinita misericórdia”… Deus é onisciente, onividente e onipotente. Você sabe o que querem dizer essas três palavras? Onividente é quem tudo vê. Onisciente, tudo sabe. Onipresente, tudo pode. Agora, se ele criou a vida assim… Por isso que tenho medo de Deus, tenho medo dele como o Diabo tem da cruz… Não tenho medo do Diabo, tenho medo de Deus, porque a gente não entende por que a vida tem que ser assim… Nós nascemos simples e ignorantes com propensão para o bem e para o mal… Acontece que existem dois grandes segredos e a natureza íntima da alma ninguém sabe. Ninguém é testemunha da hora em que se nasce, nem da hora em que se dorme, nem da hora em que se morre. Durma-se com um barulho desse. [ri] Então, Deus não podia nos ter criado com todos os atributos da divindade? A gente já não podia ter nascido sabendo tudo? Não podia ter nascido com os bons sentimentos? Tem pessoas que fazem coisas que nem um bicho faz. E é um ser humano. Nascemos para felicidade. Essa é a definição, mas para apreciar a felicidade precisamos saber quanto ela custa.
Tacioli — E você já sofreu bastante.
Germano — Sim, sofri muito. Porque gastei muito dinheiro inutilmente… [dirige-se ao Dafne] Opa, você quer que eu bote os óculos? De óculos eu machuco. [risos] Pra dar aquela pinta de sambista intelectual.
Almeida — Sambista metafísico! [risos]
Germano — Metafísico! Sabe o que é Metafísica? É um inventário sistemático… orra, agora vocês mexeram comigo. Vocês mexeram no meu fraco…
Tacioli — Vou perguntar, hein? Germano, o que é Metafísica?
Germano — Metafísica é o inventário sistemático dos conhecimentos provenientes da razão pura. É a teoria das idéias. [ri]
Tacioli — Muito bom.
Germano — Então, eu vivo dentro da lei do carma. Tudo o que faço hoje em dia, desde que levanto até a hora em que vou dormir, é pensando no futuro. Porque, depois que morremos, o futuro continua. Nada morre, tudo se transforma. A teoria do pai da Química moderna, Lavoisier, estava certa. Na natureza — não foi o que ele disse? — nada morre, tudo se transforma. Então nós largamos esta carcaça e entramos em outra vida, na quarta dimensão. Nós entramos naquela dimensão… Mas aí você me pergunta, “Você tem prova disso?”, você pode me perguntar… Você sonha?
Almeida — Eu? Sonho.
[pergunta a todos e todos dizem sim]
Germano — Vocês repararam que se a gente tá sonhando com coisas boas, o gozo é maior do que se estivéssemos em estado de vigília, isto é, acordado? E se a gente sonha que tá sofrendo, o sofrimento é maior? O pesadelo… É ou não é? Então, essa é a vida que nós vamos levar depois que morrermos. Nós nunca morremos! Pra gente conseguir coisas boas no futuro — até gozos! — e não ter sofrimentos drásticos, temos que viver no imperativo da lei do carma. Então, tudo o que a gente faz tem que ser… fazer a coisa certa… procurar não fazer nada errado. E se, às vezes, a gente faz uma coisa errada que não dependeu da gente, a gente não pode se culpar. Por exemplo, quando um soldado mata na guerra, ele não é culpado. Não é culpado das atrocidades que cometeu. Que nem o policial. Eles são instrumentos da lei do carma, como o médico. O médico nos corta, faz a gente sofrer pra caramba… Vocês já foram operados? [todos dizem não] Nem queiram! É um sofrimento filho-da-puta! E a gente ainda beija a mão do médico: “Obrigado, doutor! O senhor me salvou! Isso é que é médico!”. Fez você sofrer que nem um danado! [risos]
Almeida — E o que te tranqüilizou nessa busca foi saber que a coisa não acaba aqui?
Germano — O que me tranqüilizou foi saber que a gente tem um ser superior que nos dá as coisas de acordo com o nosso merecimento. Então, aquele que se arrepende sinceramente de uma coisa muito grave… O arrependimento somente não é o bastante! Ele vai tem que sofrer depois a lei do carma. Se o camarada se mata… Ele tem que vir na matéria com a seqüela do que fez com o corpo anterior. As doenças servem para tirar os venenos que trazemos no corpo espiritual. Catarro, pus, todos esses venenos que saem do corpo… São “morbos psíquicos”! Puta que o pariu! Vai falar bem assim na puta que o pariu! [risos] Então, não se vingue! Nunca se vingue! A não ser numa situação de defesa pessoal… Como é? Como é? De… quando você mata o outro pra não ser morto?
Dafne — Legítima defesa.
Germano — A não ser numa coisa dessa. Então, como eu estava dizendo… aquele que é obrigado a fazer as coisas como soldado numa guerra, não é culpado. Ele é um instrumento da lei do carma para fazer o outro padecer.
Seabra — Você disse que gastou muito dinheiro…
Germano — Ah, gastei muito dinheiro em farras!
Seabra — Conte um pouco sobre essas farras.
Germano — Eu ia pro Jockey Club… Jantava no Jockey Club com quatro mulheres! [ri] Não dava conta nem de uma, queria quatro! [risos]
[Dona Ivone voltou para deixar mais petiscos]
Germano — Isso quando tinha dinheiro! [ri] Agora eu não dou conta nem da minha nega, coitadinha! [ri] O que eu estava dizendo mesmo?
Seabra — Sobre essas farras…
Germano — Jantava no Jockey Club com tudo do bom e do melhor… Eu e meu falecido compadre — que Deus o tenha em bom lugar! -, Toninho Lopes, que era compositor… Foi um companheiro de farras. Ele era ator! Como fazia eu dar risada! Sério. Fazia tudo na brincadeira, mas era sério! Dizia: “Mestre! Mestre! Sentai aqui”. Era eu que pagava tudo, né? Nós íamos em um restaurante, ele chacoalhava o lenço e dizia: “Mestre! O Rei do Samba! Sente aqui, por favor!” Gastei tudo com ele em farra. [risos] Aí, eu pegava e dava um dinheiro pra ele jogar nos cavalinhos… Deixava as mulheres na mesa e ia ver qual o cavalinho que estava melhor pra escolher. Eu falava, “Vai lá! Joga pra mim e pra você.” Aí, perdia. E morria de dar risada. Em vez de ficar triste, morria de dar risada. Olha que ignorante eu era? Eu só não era mais grosso por falta de espaço! [risos] Se São Paulo fosse maior [ri]… Quero dizer, fiz muita besteira na minha vida, viu?
Seabra — Quanto tempo durou essa fase?
Germano — Até 67, por aí. Até 67 eu ainda estava numa boa!
Seabra — Foram, então, uns dez anos?
Germano — Dez anos de farras. Mas também eu trabalhava muito. Era muito requisitado para shows. E eu pensei que isso não fosse acabar.
Almeida — Mas você pensou em se garantir? Em comprar carro, casa…
Germano — Perdi tudo. Acabei vendendo tudo. Até o carro vendi. E agora não posso dirigir porque estou tomando um remédio chamado Estugeron… E ele me dá sono. Se eu ficar parado na direção, durmo. O médico falou que se eu dormir posso acordar ou no céu ou no inferno. [risos] Dependendo do meu merecimento! [risos] Depois vendi o carro… Apesar de agora minha filha estar se separando do marido… Mas com esse negócio de me chamar de sogrinho, sogrinho, ele queria que eu emprestasse o carro. E ele é um louco na direção. Aí, minha filha ia ficar viúva e eu sem o carro. Então, para não emprestar, vendi o carro. [risos] Botei na poupança, mas a poupança não está rendendo nada. [ri] E agora com essa “turbulência financeira”, o dinheiro está acabando. [ri] É uma verdade. Quem fala a verdade não merece castigo! [risos]
Seabra — Uma coisa boa… você têm essa…
Germano — Facilidade?
Seabra — … De conversão, né? De largar a farra para ter mais contato com essa vida metafísica.
Germano — Mas é por causa do meu discernimento!
Seabra — Mas você não perdeu esse humor, que é de escárnio, né?
Germano — Ah, claro. Tenho horror ao sofrimento. Eu tinha falado uma coisa importante agora há pouco… O que eu falei? Era…
Almeida — Você falou em discernimento.
Germano — Isso. Por que resolvi adotar essa literatura metafísica? Porque tenho discernimento e razão desenvolvida. A gente tem que saber o que é certo e o que é errado. E a pessoa só aprende com lágrimas, com conhecimento de causa. A pessoa tem que cuidar de seu corpo. Isto aqui é um patrimônio… O corpo material é um patrimônio que vai ser devolvido ao almoxarifado Terra… Porra, almoxarifado Terra? [risos] Somos culpados pelo que fazemos ao outros, mas também pelo que fazemos ao nosso organismo. As doenças têm duas razões: ou são provenientes da nossa má conduta com nosso próprio corpo — porque temos que gostar do nosso corpo! Até o dia em que Papai do Céu nos tirar dele! Temos que tomar suco de uva, suco de frutas, leite, parar de fumar, não beber mais, cuidar do corpo, porque todas as impurezas que você botar no corpo, terão que sair em forma de doença. Acho que não precisa ser muito inteligente para saber isso, não é?
Tacioli — Então, tudo tem um porquê?
Germano — Não há efeito sem causa, nem causa sem efeito.
Tacioli — Mas jogando esse raciocínio para a sua carreira, você acha que esse tempo em que ficou sem gravar…
Germano — Me deu muita experiência.
Tacioli — Mas tem um porquê também. Pela farra…
Germano — Pelo sofrimento. Porque fiquei muito relegado ao segundo plano. Eu, com as minhas orgias, não levava a vida a sério. Eu era muito irreverente… Então, isso foi um dos motivos que fizeram com que eu ficasse relegado ao segundo plano. Eu era um pouco intransigente.
Tacioli — Você magoou muita gente?
Germano — Com certeza devo ter feito isso. Porque depois comecei a não seguir mais um caminho certo, não obedecer mais o que a gravadora mandava. Hoje, se a gravadora mandar cantar na privada, eu vou. Vou mesmo. A gente tem que sofrer para aprender. Hoje dou valor ao dinheiro, antigamente eu não dava.
Seabra — Isso é um ponto interessante… Em que momento você discordou da gravadora? Qual foi o motivo?
Germano — Comecei a ficar relegado a segundo plano… E aí veio o iê-iê-iê que ajudou a me enterrar… Veio a bossa nova, música italiana, música estrangeira… Tudo isso ajudou a me enterrar. E eu já não estava muito bem visto pela mídia, né?
Max Eluard — Por quê?
Germano — Não, não era assim também. Eu era tido como irresponsável. Eu botava muita banca… Essa era a verdade. Pensei que era Deus no Céu e eu na Terra.
Max Eluard — Você queria que tudo fosse do seu jeito?
Germano — Isso… Eu ganhava dinheiro. E gastava.
Tacioli — Mas em que momento você discordou da gravadora? Você se lembra?
Germano — Não fui eu quem discordou, foi a gravadora que discordou de mim. [ri] Começaram a me encostar. Eu não gravava mais. Também houve o momento em que o samba estava por baixo. Na época do iê-iê-iê, quando se falava em sambista, não deixavam nem entrar na emissora. Hoje em dia o samba está em alta. Há muito tempo o samba está em alta, e vai continuar em alta.
Max Eluard — Por que o samba voltou?
Germano — Tô desconfiado que o brasileiro ficou mais patriota. E as emissoras também começaram a executar mais a música brasileira. Bons intérpretes… Logicamente, isso também é um carma meu que resgatei. Depois de tanto tempo em segundo plano, acho que já paguei todos os meus pecados. [ri] E, agora, tô voltando. Inclusive tive muita sorte na gravação. Com 68 anos tô com voz boa, apesar da minha voz ter cinco efes: fina, feia, fraca, fuleira e fudida. [risos] Fina, feia, fraca, fuleira e fudida… Puta que o pariu, não tem mais efes! [risos]
Tacioli — Mas você sempre achou que sua voz era…
Germano — Pra samba a minha voz é boa. Porque eu pareço um crioulo paulista cantando. O carioca diz que tenho um sotaque italiano. Então, sou um crioulo paulista cantando.
Seabra — Você tem um sotaque paulistano legítimo!
Germano — Legítimo.
Max Eluard — Da gema.
Seabra — Você podia abrir uma escola de idiomas.
Germano — Realmente. Não é dizer que sou italianado, não! Não sou italiano.
Seabra — Não, é o paulistano legítimo.
Germano — Faça o favor, pode entrar. Vocês querem ir lá? Querem tirar a água do joelho?
Tacioli — Daqui a pouquinho eu vou.
Germano — Quer afinar o contrabaixo? [risos] Quando alguém se levanta no show, eu mando, “Já vai lá, meu filho?! Mais de três chacoalhadas é considerado masturbação! [risos] Ô, a última gota é sempre da cueca, viu?”… O cara fica sem graça. [ri]
Tacioli — O que você acha da bossa nova?
Germano — A bossa nova é bom pra quem sabe tocá-la. O João Gilberto… Eu nunca me adaptaria à bossa nova. Meu negócio mesmo é o samba, samba ritmado. A diferença do samba carioca para o paulistano é isso, o samba paulistano é ritmado. Ele não é lento. O samba carioca é mais cadenciado. [imita uma batida de surdo batendo na mesa] E eu tenho a felicidade de estar sozinho nessa área.
Tacioli — Você acha isso legal?
Germano — Eu só preciso da divulgação. Porque ninguém pode dizer que esse CD não está bom. Pode? Em sã consciência? Tô cantando sem desafinar, tô fazendo bossa, tô cantando em divisão marcante. Tô fazendo o samba como ele é. Sou sambista tradicional.
Almeida — Você falou que tenta ficar no padrão, mas sempre colocando sua personalidade. Você nunca incluiu num CD esse seu lado que é mostrado em shows? Contar piada…
Germano — Não, porque pode não passar pela censura. Ficaria um disco muito pornográfico. Não se pode fazer isso em disco, somente em show.
Max Eluard — E é bacana quando você faz no show coisas que não tem no disco. O show passa a ter outro valor.
Germano — Claro. Qual é a sua graça?
Max Eluard — Max Eluard.
Germano — Sábias palavras proferidas pelo Max Eluard. [risos] Sábias palavras. [ri]
Max Eluard — Obrigado, obrigado. [risos]
Germano — Então… Agora ou vai ou racha. Tenho a impressão de que se eu for para televisão cantar o primeiro samba da periferia, o povo vai saber como está o disco. Então, vê que está realmente dançante, é samba de gafieiras, sincopado.
Seabra — E há espaço, casas noturnas, para tocar o CD e dançar?
Germano — Depende deles tocarem. Tudo vai depender da aceitação que eu tiver nas rádios. Principalmente nas emissoras que tocam samba, MPB.
Max Eluard — Você acha que aparecendo na TV as rádios vão tocar ou tocando nas rádios você aparece na TV?
Germano — Ambas as coisas, mas o rádio ajuda muito.
Max Eluard — O rádio é o que chama para a televisão.
Germano — Ajuda muito. Mas, às vezes, não. Depende… Mas fazendo uns programas de televisão, mostro a qualidade do que está gravado.
Max Eluard — Você é otimista, Germano? Vejo os programas que você citou — o da Adriane Galisteu, o da Luciana Gimenez -, e eles costumam dar muito mais espaço para essa nova geração de pagodeiros, esse povo que toca hoje… Você acredita que eles vão lhe dar algum espaço?
Germano — Depende dos produtores. Se forem produtores jovens, mas que sabem dar valor, eles me chamarão. Mas tem muito produtor jovem…
Max Eluard — Mas você não acha que para isso acontecer não depende muito de uma estrutura da própria gravadora?
Germano — Perfeitamente. Tem uma moça chamada Meire que falou que vai atacar “de televisão”. Então, estou esperando… Tô que nem mulher grávida, sempre esperando. [risos]
Max Eluard — Mas você está contando com essa estrutura?
Germano — Tô contando. Se essa estrutura funcionar, vou ficar numa boa. Mas se não funcionar, continuo na merda do mesmo jeito. [risos]
Max Eluard — Piorar não vai. [risos]
Seabra — Esse “ficar numa boa” é vender quantos discos?
Germano — Não sei. Tô tão por fora que nem sei mais quanto se vende. Mas vai sair outro CD… Agora é calça de veludo ou bunda de fora. Até aqui eu não tinha nada, agora terei dois CDs. É aquele da Warner que vai sair…
Tacioli — Qual é a duração do contrato com a Atração?
Germano — Um ano e meio. Com direito a fazer mais um CD. Vai terminar em 10 de dezembro de 2003. E aí a gente vai escolher. Tem três projetos: o tributo a Caco Velho, tem outro de forrós bem ritmados da década de 40 e 50 e sambas de morro das décadas de 40 e 50 que ninguém sabe, só eu sei.
Max Eluard — Sambas de São Paulo?
Germano — Sambas do morro do Rio. Que fizeram sucesso… [cantarola e batuca] “Encontraram o sapato de Maria / E junto dele seu vestido de algodão / Atirado no asfalto da avenida / A notícia dolorida machucou meu coração”… Você vê que a linha melódica é outra… “Me contaram que ela estava toda nua / Sambando no meio da rua / Sambando de pé no chão / Na quarta-feira de cinzas ela vai ver / Quando voltar para o nosso barracão”… Vai levar um cacete, que eu vou lhe contar! [ri]
Dafne — De quem é essa música?
Germano — Tudo de… É de 40, 1940!
Dafne — Mas você sabe quem é o compositor?
Germano — Olha, eu nem sei. Se não achar o compositor tem que colocar D. R., Direitos Reservados. Quando aparecer o compositor com uma comprovação, paga-se a ele. Tem aquele… [cantarola e batuca] “Eu já vi que a minha sina”… Ah, “Alguém me cumprimentou / Boa noite! Como passou? / Eu não passo tão bem como passa o senhor / Tenho o coração ferido / E o lar abandonado / Vivo recordando a fingida mulher do passado / Quando este alguém perguntou / Qual era a razão da minha nostalgia / Eu respondi com tristeza / Quem sente saudade / Não tem alegria / Ele então olhou pra mim / Abraçou-me e respondeu / Vamos tomar um pileque / Que seu sofrimento é bem igual ao meu.” [risos]
Almeida — Muita boa.
Germano — Viu que bacana? Tudo samba dessa linha.
Almeida — Você lembra tudo de cabeça?
Germano — Ah, eu tenho 300 sambas na cabeça. E esses sambas só eu sei, ninguém mais lembra, ninguém mais sabe. Vou botar o título no CD de Sambas daquele tempo. Gravar com Escola de Samba, trombone e clarinete… [cantarola, batuca e imita som de trombone]…. “Eu vou ficar / Eu vou / Sem os carinhos seus / Mas não faz mal / O meu penar entrego a Deus”… Tudo pra frente, pra cima! “Na vida / Só tenho tido amor fingido / Desilusão / Mas entrego a Deus todo o sofrimento meu / Eu vou ficar / Sem os carinhos seus / Mas não faz mal”… isso é que é gostoso! Eu vibro com isso! Quer ver outros dessa época… “Tenha pena de mim / Não posso mais / Ai meu ciúme / O meu amor não volta mais”… São coisas que… “Meu sofrer é profundo / Já vi que o mundo me abandonou / Quem me vê a sorrir / Pensa que eu sou feliz / Mas feliz eu não sou.” Sambas bonitos! Ninguém sabe esses sambas! Aqueles que sabiam, já morreram.
Almeida — Você não canta um tocando na latinha?
Germano — Não, não, a latinha é somente pra fazer breque.
Tacioli — Os projetos de discos são ótimos.
Germano — É, são três. Por exemplo, esse do forró tem três forrós, cada um com uma letra só.
[silêncio]
Germano — Tem o “Coco com C”, “O Forró do F” e “Coco do M”… tudo com a letra C, tudo com a letra F, tudo com a letra M.
Tacioli — Ah, entendi.
Germano — [cantarola e batuca] “O Coco com C é competente / Cachimbo, café, cachaça, cadarço, cordão, corrente / O Coco com C é competente / Cachimbo, café, cachaça, cadarço, cordão, corrente / Cantando Coco com C consegui confirmação / Carro, carroça, caminhão / Coelho cantou / Coração comovente / Cachimbo, café, cachaça, cadarço, cordão, corrente / Com C começo cantando / Consagração, companhia, carreiro, cavalaria, colega, camarada / Campo, corte, cruado, confirmado, conferente / Cachimbo, café, cachaça, cadarço, cordão, corrente” … “Este que é o Forró do F / Cantador que não é bom / Quando vai cantar esquece / Este que é o Forró do F / Cantador que não é bom / Quando vai cantar esquece / F, ferreiro, ferro, fogo, farinhada / Furada, faca, facada, facão / Felicidade, fé, fogueira, fechadura / Flores, favela, fartura, Frederico, furacão / Folia, fumo, fubá, filho de forró, feijão, farinha, farofa, frio, fiandeira, Filosofia / Foto, furado, formoso, fuxiqueiro, fervoroso, Fernando, fragoso e feira”… [risos]
Tacioli — Muito bom.
Almeida — E o M?
Germano — O M é… [cantarola e batuca] “Mané mandou / Maria, Mateus / Murilo mandou o meu / Martelo no meia ma / Quando eu canto esse coco / A minha língua treme / Quem fizer outro coco em M eu amarro e mando matar / Eu sou um matuto moço / Morou no mato é madeira / Mandioca, manipuêra, marco o modo de mudar / Mandei Matias amarrar moi de marmeleiro / Malaquia, marinheiro, mangueiro, maracujá / Esse meu coco é maneiro, mas é ruim de se cantar”… Com bom acompanhamento, ninguém mais faz, ninguém sabe… é tudo liso! É um forró liso! Não tem aquela divisão de forró.
Tacioli — O Jackson do Pandeiro era um ótimo divisor…
Germano — O Jackson era grande. Mesmo o menino… o Jacinto Silva… Jacinto Silva, não, ele morreu… O Genival Lacerda. Quando ele começou foi assim. Ele fazia… [cantarola e batuca] “Constança / Não se meta com Anita / Essa nega é esquisita / Que vieram me falar / Porque o ambiente ali não presta / O chamego da mulesta só é bom pra quem é de lá / Desculpe eu me meter no seu assunto / Mas ali cheira a defunto / Que vieram me falar” [risos]… “Malandro pra ficar ali por perto / Tem que estar de olho aberto / Pisar no chão devagar” [ri]… Tudo nessa base, né?
Tacioli — Mas qual ponto em comum há entre o forró e o samba?
Germano — Tem, tem. É o irmão do samba. O forró antigo… O moderno, não.
Tacioli — Mas quais são os elementos que se comungam?
Germano — A divisão. [batuca para mostrar a semelhança] Mas, às vezes, o forró pode ser mais lento, mas é na divisão, chama-se divisão marcante. Não pode atrasar! Se você ouve os pagodes de hoje em dia, parece que é tudo meio atrasado, não está junto com o cantor. Já reparou? Não é entrosado! O cantor canta de um jeito e o acompanhante faz de outro. É por isso que gosto desses sambas que canto, porque é tudo casadinho, não atrasa. Eu sou o único que canta nesse estilo e desse jeito vou acabar morrendo de fome! [risos] Se não tiver quem goste [ri]… ô velho filho-da-puta! Vai cantar assim na puta que o pariu. [ri]
Seabra — Vamos imaginar que você faça mais um CD na Atração e uma outra gravadora lhe convida para fazer um desses três.
Germano — Não, eu não quero sair da Atração, porque a gravadora foi que… Não costumo defecar no prato que como. [risos] Orra, puta que o pariu! Defecar…
Max Eluard — É uma cagada chique.
Germano — Não costumo defecar no prato que como. Só se a gravadora Atração não me quiser mais, mas enquanto ela me quiser, eu não vou para outro lugar.
Seabra — Mas se uma gravadora lhe oferecer…
Germano — A Atração foi a única que me abriu o caminho. Esse CD foi mandado pra tudo que é gravadora porque estava naquele impasse… A Warner não resolvia, então, o compositor, o Elzo [Augusto], mandou para as outras. Ninguém quis. Só a Atração quis. Então, se faço sucesso na Atração, não posso chutá-la. Tenho que dar lucro pra eles, porque eles deram lucro pra mim. Se não fizer isso, não vivo dentro da lei do carma. Não façais aos outros o que não queres que façam a ti mesmo.
Almeida — E você é grato a mais alguém?
Germano — Sim. Ao Elzo Augusto, o compositor. O Oswaldinho da Cuíca, que sempre me apoiou muito… Você diz do meio artístico, né?
Almeida — É.
Germano — O Jô Soares… Já fui duas vezes ao programa dele. Foi o único programa que se lembrou de mim. Mas antes eu estava sem disco. Agora tenho disco pra trabalhar. Você sabe que o cartão de visita do cantor é o disco.
Max Eluard — E composições suas?
Germano — Eu tenho… Mas eu acho que meus sambas não estão muito bons. Acho que existem coisas melhores do que as minhas.
Max Eluard — Você não é muito exigente com você mesmo?
Germano — Sou. O último samba que fiz foi… “Todo mundo morre / Só eu não vou morrer / Vou ficar para semente / Cá no meu modo de ver / Todo mundo morre / Só eu não vou morrer / Vou ficar para semente / Plantada no seu jardim / Só pra ver você meu bem / Jogar água em cima de mim / Se você não me regar / A chuva irá me regando / Se você não me regar / A chuva irá me regando / E florescendo numa linda planta eu irei me tornando”… Foi uma história… fui em um velório de uns caras aí, uns vagabundos, lá no Rio… Ah, não, foi em São Paulo. Cheguei e já estava todo mundo chapado de maconha, cheio de cachaça… velório de vagabundo é assim [risos], todo mundo aproveita pra queimar bastante fumo e tomar cachaça. Aí, apareceu um cara e disse uma coisa que nunca ninguém tinha pensado antes… “Nascemos, temos que morrer!” [risos]
Max Eluard — Um filósofo.
Germano — Filosofia de malandro. “Nascemos, temos que morrer!”… E um outro falou assim… pensei que ele fosse mandar, “Falou a voz da ignorância”, mas não… [dirige-se ao cachorro] Dá um beijinho no vovô, dá… Isso, que bonitinho, meu negrinho, pretolinha…
Max Eluard — Ele é corintiano também?
Germano — Corintiano da gema. Outro dia, o Palmeiras marcou um gol e ele balançou o rabinho, mas não com muita intensidade… pensei, “Pô, não é que meu cachorro tá virando casaca!”… Mas não era, estava dizendo, “Foi impedido, não valeu!” [risos]
Tacioli — Dizia, “A regra é clara”.
Max Eluard — E você jogava bola?
Germano — Não, nunca fui bom de bola, não.
Seabra — Germano, em algum momento você gostaria de ter nascido negro?
Germano — Olha, acho que se eu tivesse nascido negro teria mais oportunidade. [ri] Como sambista, né? Mas como eu estava dizendo… O cara disse assim, quer dizer, pensei que ele fosse dizer “Falou a voz da ignorância”, mas não. Ele falou, “Diz que tem uma religião aí na Bíblia dos hindus, que são os vedas”… Todo mundo, porra, vagabundo falando essas coisas… “Os vedas dizem que quando a gente morre pode voltar em um animal ou em uma planta, reencarna em animal ou em planta”… [faz barulho de baforada] Devem ter razão. [risos] “Tô cumpadi, pega aí!”, “Ah, o cumpadi tem razão mesmo”. [risos] Aí, eu tive a idéia de fazer o samba: “Todo mundo morre / Só eu não vou morrer”. Ah, e outro falou assim, “Ia ser bom se a gente nunca morresse”, e um outro emendou, “Só se ficar pra semente”. Eles me deram a idéia do samba: [cantarola e batuca] “Todo mundo morre / Só eu não vou morrer / Vou ficar para semente / Cá no meu modo de ver / Todo mundo morre / Só eu não vou morrer / Vou ficar para semente / Plantada no seu jardim / Só pra ver você meu bem / Jogar água em cima de mim / Se você não me regar / A chuva irá me regando / Se você não me regar / A chuva irá me regando / E florescendo numa linda planta eu irei me tornando”.
Max Eluard — E o que você não gosta nos seus sambas?
Germano — Acho que tem coisa melhor…
Tacioli — Com licença, vou ali afinar o contrabaixo. [risos]
Germano — Por favor, tire a água do joelho.
Max Eluard — Então, você acha que tem coisa melhor?
Germano — Acho. Acho que os sambas que tenho são melhores daqueles que faço. Mas se tiver uma oportunidade de gravar… Se a gravadora quiser…
Max Eluard — Porque nenhum desses três projetos tem músicas suas. Você já gravou um disco somente com músicas suas?
Germano — Não. Já gravei músicas minhas, por exemplo “Guarde a sandália dela”, com parceiros… mas só com músicas minhas, não. Mas vamos ver, tô com essas idéias aí. Quer ver, tenho até aqui… ah, esqueci de mostrar pra vocês… LPs meus, antigos. Gravei 17 LPs. Deixa ver se tem alguma coisa. Olha aqui… a trilha da novela Cambalacho, quando cantei… “Jerônimo era um herói anônimo / Cheio de homônimos / Mas não perde o pique”… aqui eu entrei de convidado no disco dessa sambista de São Paulo, Giba Rocha… tô cantando, “Acabou-se a luz Maricota / Vamos embora / Porque essa turma é capaz de botar as manguinhas de fora / Vai ser um tal de lesco-lesco e piripipi / Esses caras são folgado e podem estragar você”… é a história de um cara que vai tocar em um pagode, e o negócio lá é barra pesada… todo mundo se encoxando feito louco… então, acaba a luz e, imagina, se o negócio era brabo com a luz acesa, imagina depois que apagou a luz? Passaram a mão até no cara [ri]… deixa eu mostrar os outros. Não sei onde tá o diploma… acho que me roubaram o diploma na mudança… o diploma de bacharel. Agora só tenho ele na contracapa dos LPs.
Tacioli — A fotografia do diploma.
Germano — Olha esse aqui… Eles pegaram minhas primeiras gravações e juntaram com o Gilberto Gil.
Tacioli — Famoso esse disco.
Germano — As primeiras gravações… podiam ter me chamado pra regravar, né? Só que ele [Gilberto Gil] tá um malandro bicha que eu vou te contar! [risos] Trancinhas…
Max Eluard — Trancinhas, brinquinhos, hummm…
Germano — Ah, vá pra puta que o pariu! E eu também tô com cara de bicha aí! Duas bichas nessa merda! [ri]
Max Eluard — Ah, eles só pegaram as músicas.
Germano — É porque a Philips era a antiga PolyGram.
Tacioli — 1978, né? Qual foi a resposta desse disco?
Germano — Orra, comprei até móveis com o dinheiro desse disco. Ganhei um dinheiro bom com isso aí. Vendeu bem.
Max Eluard — Olha a latinha! [segura um de seus primeiros discos]
Germano — Aí eu estava começando a carreira. Estava novo.
Tacioli — É a mesma latinha?
Germano — Era o Tony Curtis da Barra Funda [risos], o Marlon Brando dos pobres. [risos]
Tacioli — Você tem esperança de que esses LPs saiam em CD?
Germano — Eles saem. Saiu um que nem tenho aí. Foi o meu primeiro de 12 polegadas… porque tive o primeiro de 8 polegadas e depois o de 12… o título eraIncontinência ao Samba. No CD virou As 20 Preferidas. Vai sair agora esse que eu gravei na Chantecler há 23 anos, o tal disco que tem a ocarina.
Tacioli — Como era o seu relacionamento com o Adoniran Barbosa?
Germano — Eu não cantava o tipo de samba dele.
Tacioli — Mas você conversava com ele? Eram amigos?
Germano — Conversava. Dávamo-nos bem. Nunca houve nada entre nós. Mas os sambas dele não eram do meu gênero, eram mais Demônios da Garoa.
Max Eluard — Você não gosta do estilo?
Germano — É o estilo de um crioulo apedeuta, quer dizer, um crioulo ignorante que não sabe nem ler nem escrever, e o cotidiano dele. Você vê que ele fala tudo errado. “Nóis fumo”, “nóis vai”… [imita Adoniran Barbosa] “Nóis vai, porque nóis vai, porque nóis vorta!”… E eu não, eu cantava as letras sem serem erradas, né?
Max Eluard — E o Geraldo Filme?
Germano — O Geraldo Filme era bom. Cheguei a gravar um samba dele.
Max Eluard — Aliás, foi o primeiro samba dele gravado.
Germano — É, “Baiano capoeira” [n.e. Ginga no asfalto, 1962, Odeon]. Fui eu que gravei… “Tem que ser agora / Vamos resolver aquele velho assunto / Não sou tatu para morrer cavando / Nem perna de porco pra virar presunto / Vou te fazer defunto”. Faz tempo, umas coisa a gente esquece… “Vamos procurar um território diferente / Pra resolver essa situação / Não ponha as banca aqui no meu distrito / Pra mim não invadir tua jurisdição / Não acredito em homem valente / Pois o meu nome ainda não morreu / Cante de galo lá no teu terreiro / Porque aqui no muro quem canta sou eu / Vacilou morreu”. [risos]
Max Eluard — Essa é do Geraldo Filme?
Germano — Em parceria com o Jorge Costa.
Seabra — [mostrando a capa de um dos primeiros discos do Germano Mathias] Realmente era um sambista diferente! Parece filme de Hollywood.
Germano — Você vê como era o chapéu da época, a aba, camisa listrada…
Seabra — Aqui você tinha quantos anos?
Germano — Ah, meu filho, eu tinha… puta merda… comecei em 1955, tenho que fazer a conta… isso foi gravado em 1956. De 1934 a 1956… quantos anos eu tinha?
Tacioli — 22 anos.
Max Eluard — Era um menino.
Germano — Já tinha saído do Exército.
Dafne — Você serviu?
Germano — Fui expulso. [risos]
Dafne — O que você fez?
Germano — Nem te conto. [risos]
Tacioli — Ah, conta sim. [risos]
Germano — Arrumei uma confusão lá em Osasco. Eu era do 2º Regimento de Artilharia Antiaérea. Arrumei uma confusão, puxei o sabre… Ainda bem que não furei o cara, só bati na cabeça dele… Depois veio um outro e me deu uma pedrada.
Max Eluard — Mas isso no quartel?
Germano — Não, foi na rua. Em Osasco. Numa quermesse. Houve inquérito policial militar e tudo mais. Aí o coronel chegou pra mim e perguntou… “O que é que você quer? Ficar seis meses na cadeia ou ser expulso?” Preferi ser expulso. Ficar seis meses na cadeia? Eu não! Pediu pra escolher. Na rua eu me dou melhor que nessa porcaria. [risos] Eu fazia muita coisa errada. Era muito mal-visto no quartel. Uma vez peguei uma mochila e botei na estátua de D. Pedro II. [risos] Não, não, era o Duque de Caxias.
Tacioli — O patrono.
Germano — Botei a mochila e escrevi assim… “Você que inventou, você que carregue!” [risos] Fiquei 15 dias na cadeia por causa disso. [risos]
Germano — O lugar em que mais tive cartaz foi no Rio Grande do Sul. O gaúcho gosta muito de samba desse estilo. Paraná também. Estive também em Pernambuco. Inaugurei a TV Jornal do Comércio de Recife. Eu, Maísa Matarazzo, Agostinho dos Santos e Éder Jofre, que era campeão na época. Hoje não vou nem à esquina em TV a cabo. [risos] Eles me chamaram para fazer entrevista, mas eu quero cantar. Se não for para cantar, eu não vou. A MTV também me convidou. Mas era entrevista e entrevista não me dá retorno… pelo contrário, depõe contra mim. [risos]
Seabra — Mas se for uma entrevista com umas palhinhas, como você tá fazendo aqui?
Germano — Eles não querem. Porra, toda vez tem que falar as mesmas coisas. Com vocês é diferente. É um outro tipo de entrevista… É uma entrevista que realmente vai me beneficiar. Quero fazer é televisão que vai para o Brasil inteiro. Nessa entrevista vai ter imagem?
Tacioli — Somente as fotos. E como você viu é uma entrevista longa que a gente publica na íntegra. É grande.
Germano — Porra. Nunca tive uma coisa dessa. Teve essa aqui, mas tenho medo que você não ache essa. [n.e. Aponta para a matéria do jornal O Estado de S. Paulo]
Tacioli — Mas não se preocupe. Se eu não achar eu entro em contato.
Germano — Olha, tem uma, duas… Vou fazer o seguinte, vou dar uma lida pra vocês… “O catedrático do samba sincopado Germano Mathias saiu das rodas de batucada de engraxate do Centro de São Paulo para programas de rádio e TV. Lançou discos e compacto e é fonte de inspiração para gerações em 45 anos de carreira”… agora tô com um pouco mais, agora são 47… “ele prefere ficar fora da mídia a se deixar levar por modismos como o pagode e se mantém fiel às tradições do samba.”
Max Eluard — É verdade que você prefere ficar fora da mídia?
Germano Mathias — Eu não. Prefiro nada. Ele que escreveu aqui. [risos]
Max Eluard — Estava achando esquisito.
Germano — Já tirou tudo? [dirigindo-se ao Dafne que acabara de fotografar as capas dos discos]
Dafne — Sim.
Germano — Vê lá o que você vai fazer com a minha vida! Você é a salvação da minha lavoura. [risos]
Dafne — Confie em mim.
Germano — Agora aqui… “A trajetória do cantor e compositor Germano Mathias, com ‘th’, como faz questão de lembrar, paulistano da gema, ou melhor, do Pari, confunde-se com a própria história do samba de São Paulo. Germano confessa que sempre foi fascinado pelo samba e que essa paixão começou cedo ainda na adolescência. Aos 16 anos era comum encontrar o estudante filho de um carioca e de uma paulista, e neto de portugueses, nas rodas de batucada dos engraxates no centro da cidade. Na saída da escola encontrava com os engraxates e perdia a noção do tempo. Nem mesmo Germano sabe explicar a facilidade que teve para aprender a batucar nas latinhas de graxa que o destacavam nas praças João Mendes e Clóvis Beviláqua. ‘Acho que é um dom nato, nasci sabendo’, resume. Ainda nessa época começou a freqüentar as gafieiras onde sempre arrumava um jeito de burlar a censura a menores de idade. Não demorou muito para ser convidado a participar da bateria da Escola de Samba Rosas Negras tocando frigideira. Foi um amigo, Toniquinho Batuqueiro, que o incentivou a investir na carreira. Na Rádio Nacional concorreu e venceu seu primeiro programa de calouros, mas o sucesso começou mesmo na Rádio Tupi no programa À Procura de um astro, onde ganhou todas as eliminatórias. O segredo de Germano estava em suas presepadas, além de cantar fazia mímicas coreografadas que agradavam ao público, porque na época os cantores eram muito parados. Com a vitória ganhou um contrato com a Tupi. Germano é o maior representante do samba chamado sincopado, ritmo com batida e divisão marcante, que exige um entrosamento perfeito entre voz e acompanhamento”… Porra, definiu bem aqui, viu? Tem que colocar isso na reportagem… Isso aqui é a definição certa. “O seu primeiro sucesso foi ‘Minha nega na janela’. Além de impressionar pelo talento, a aparência do sambista, que mais parecia um embaixador austríaco, um diplomata romeno segundo as brincadeiras da época, também chamava atenção das pessoas”…, porque me ouviam no rádio e achavam que eu era crioulo. Eu fui o primeiro branco a fazer tudo o que o negro faz… “O estilo diferente no modo de se apresentar e cantar o colocou em posição de destaque no cenário musical. O acompanhamento percussivo feito com latinha de graxa se tornaria uma de suas marcas registradas”.
Seabra — Mas, Germano, você reclama que falam sempre a mesma coisa, e agora está lendo toda a matéria do Estadão!
Germano — Mas caso vocês não a encontrem.
Seabra — Não, fica tranqüilo.
Germano — Ele colocou aqui ‘canção’, mas eu canto samba, não canto canção.
Tacioli — A gente está encerrando. Se eu precisar de alguma coisa… Falamos de muita coisa aqui…
Germano — Pode ligar. Estou sempre à disposição. Aproveita e coloca meu celular na reportagem… Tô vendendo show à baciada. [risos] 3 pau na mão, eu sento até no colo do diretor. [risos]
Max Eluard — Põe até brinquinho. [risos]
Tacioli — É isso então.
Germano — Quer dizer que encerramos com chave de fenda. [risos]
Max Eluard — Tem alguma coisa que a gente não falou que você gostaria de falar?
Germano — Deixa eu ver…. acho que não. Falei sobre o documentário, falei sobre… o que a Ivone queria que eu falasse? Ah, eu tomei parte de dois filmes brasileiros!
Tacioli — É, eu ia perguntar. Tinha a novela…
Germano — Tem a novela também. Era a novela que a Ivone queria que eu falasse. Sempre esqueço… Era uma novela tão ruim que saiu logo do ar. [ri]
Dafne — E os filmes?
Germano — Os filmes foram bem, eram chanchadas… Um do Oswaldo Sampaio, chamava-se O Preço da vitória [1959]. Era sobre a primeira Copa do Mundo que se ganhou.
Tacioli — De 1958.
Almeida — Você aparecia cantando, atuando, ou os dois?
Germano — Cantando… batucando numa latinha de engraxate. Aí eu tinha que dar uma pernada no sujeito pra ele cair, mas ele não queria cair! “Mas eu sou o mocinho!”… “Você tem que cair, caramba!” [ri]… E ele, “Eu não. Vou dar cartaz pra você? Nenhum branco me derrubou até hoje, você não vai me derrubar!” [risos]
Tacioli — Era o Nerei Silva?
Germano — Lembra do Nerei Silva? Não queria cair até que o diretor disse que ele tinha que cair de qualquer jeito. Aí ele caiu… Caiu de má vontade, de bunda no chão. [ri]
Tacioli — E qual foi o outro?
Germano — O outro foi Quem roubou meu samba? [n.e.1959, de Hélio Barroso e José Carlos Burle] Com o Ankito… da Cinedistri… nem me lembro mais o ano… tinha uma cena de morro muito boa.
Tacioli — E pintaram mais convites?
Germano — Para cinema não… Logo depois acabaram as chanchadas. Tinha muito filme com artistas cantando, era o que mais chamava as pessoas, dava bilheteria. Hoje ninguém coloca mais os artistas cantando.
Tacioli — E se hoje lhe convidassem para um personagem que não fosse ligado à música?
Germano — Não, personagem não. Sou muito ruim de decorar. Demoro muito, mas depois que decoro… esqueço logo. [risos]
Seabra — Germano, com esse seu poder de palco, você já pensou em ser pastor?
Germano — Se desse dinheiro eu seria. [risos] Se der dinheiro, eu tô lá!
Seabra — Costuma dar. [risos]
Germano — Orra, mas veio uma gangue grande, hein?
Almeida — É sempre assim. De cinco pra cima!
Max Eluard — Germano, prazer enorme!
Germano — Desculpem qualquer coisa… Vocês sabem que velho só dá mancada, né? [risos]
Seabra — Muito prazer.
Tacioli — Obrigado pela atenção.
Germano — A casa aqui está à disposição de vocês, viu? Não se avexem, se estiverem passando por aqui, podem subir para tomar um café… Porra, quase peguei a carteira dele! [risos] A mão já entrou direto… É o costume! [risos] Vão com Deus! Boa sorte e muito obrigado. Fico aguardando.
Tacioli — Te aviso quando estiver pronto.
Germano — Mas você tem que arrumar uma peruca dessa pra mim! [referindo-se ao cabelo de Ricardo Tacioli] [risos] Que peruca bacana! Que cabeleira, que cabeleira! [risos] Liga não, gosto de brincar.

"Não vim aqui fazer gracinhas!"

"Mario de Andrade andava na minha calçada!"

"Eu cato, não pesquiso!"