São Paulo/SP | 24.ago.2013
Um dos principais produtores de música brasileira,
ele é responsável pelo primeiro disco de Cartola e Adoniran Barbosa.
Um dos principais produtores de discos do Brasil, João Carlos Botezelli, o Pelão, vive cada vez mais distante da boemia que tanto o inspirou. Um AVC (acidente vascular cerebral) quase o tirou de campo há pouco mais de quatro anos e encoleirou parte de suas paixões: o uísque, as noitadas e o Marlboro, que ainda dribla ressalvas e orações.
Nascido em 1942 em São José do Rio Preto (SP) e criado em São Paulo, este filho de italiano deixou de lado os ensinamentos da escola agrícola para se formar com a orquestra de Enrique Simonetti (1924–1978), maioral nos salões dos anos 1950 e 60. O maestro italiano levou o garoto para a TV Excelsior, onde daria seus primeiros passos profissionais. Na juventude ainda trabalharia em escritório de publicidade, festivais de música popular, e iniciaria a milhagem pelos bares das capitais paulista e carioca. Desses, o Jogral, casa de samba criada em 1964 pelo compositor Luiz Carlos Paraná (1932–1970) na Galeria Metrópole, centro de São Paulo, foi essencial para concretar sua devoção à cultura popular. Pelo histórico reduto de jornalistas e intelectuais passariam nomes como o de Paulo Vanzolini, Chico Buarque, Martinho da Vila, Jorge Ben, Paulinho da Viola, Adauto Santos e Inezita Barroso. Ali também nasceria o selo Marcus Pereira, crucial na trajetória de Pelão.
Possivelmente a gravadora independente de maior legado na fonografia brasileira, a Marcus Pereira foi concebida e gerida pelo publicitário de mesmo nome sob o estatuto de registrar e difundir as coisas do “Brasil autêntico”. Em sua curta existência (1973–1981), parte dos 144 títulos lançados teve a mão e a cabeça de Pelão. Discos do trombonista Raul de Barros, do clarinetista Abel Ferreira, do pioneiro do samba Donga, de uma série sobre música popular do Sul e Centro-Oeste, e quatro álbuns de escolas de samba do Rio de Janeiro multiplicam a importância do selo e do produtor. Como se não bastasse, em 1974, Pelão, via Marcus Pereira, lançou o primeiro disco individual de Cartola; e também o de estreia de Adoniran Barbosa, mas por outra gravadora, a multinacional Odeon. E foi por ela que deu às boas-vindas ao mercado um ano antes, com o LP Nelson Cavaquinho (1973), o segundo do sambista mangueirense. A trinca de obras-primas (Nelson/Adoniran/Cartola) criada em menos de dois anos projetou o nome de Pelão junto ao meio artístico e à imprensa. Responsável não somente pela existência, mas pela forma, ele deu uma aula de produção nesses clássicos da fonografia brasileira: sem caricatura, a carga dramática dos protagonistas é dona do primeiro plano.
Seu trânsito pelo mundo do disco deixou marcas em diversas gravadoras, como na citada Odeon, na nascente Eldorado, para onde foi levado em 1975 pelo jornalista e diretor artístico Aluízio Falcão após sairem da Marcus Pereira, na extinta RGE e no selo Velas, de Vitor Martins e Ivan Lins. Na década de 1980, criou e produziu para a Elebra — empresa do setor de eletrônica — a série Memória, seis discos-brindes com repertório de música popular brasileira. No período em que residiu no Rio de Janeiro, no fim dos 1970 e início dos 1980, pela TV Globo, atuou na criação do especial Esses músicos notáveis e seus instrumentos maravilhosos (1979) e do programa Festa do samba (1980), além de produzir o festival MPB-Shell (1981/82).
Com o amigo e jornalista Arley Pereira, encabeçou nos anos 2000 A Música brasileira deste século por seus autores e intérpretes, projeto viabilizado graças à parceria entre a Fundação Padre Anchieta e o Sesc/SP, que reeditou em CD e livro dezenas de títulos dos programas MPB Especial e Ensaio, criados por Fernando Faro nas TVs Tupi e Cultura.
Pai de duas filhas, casado desde 1979 com Cristina e morador há mais de 30 anos do bairro das Perdizes, em São Paulo, Pelão recebeu em 2013 o trio de entrevistadores e a fotógrafa Thais Taverna para um papo de duas horas de duração. Quitação de uma dívida antiga do gafieiras, esta entrevista revela que sob a feição carrancuda está um sujeito que se emociona com facilidade, zeloso das amizades, das boas histórias e da boemia. Dela se tornou um amante à moda antiga. Lamas, Riviera, Jogral, Bar do Zé, Parreirinha e Bar do Alemão são algumas das testemunhas de como se tornou tão personagem da cidade como seus amigos Paulo Vanzolini e Adoniran. É um “homem verde de noite”, referência setentista àqueles que dormem de dia para viver à noite. Desconhecido da maioria, Pelão tem em muitas de suas criações a eternidade que tantos pagam para sonhar.
Nome completo: João Carlos Botezelli
Data e local de nascimento: São José do Rio Preto, 1º de outubro de 1942
Data e local de morte: São Paulo, 1º de setembro de 2001
Ofício: Produtor musical

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Pelão — Aquele negócio do Jogral deu pé, né? (n.e. Referência às gravações em vídeo para um documentário sobre O Jogral, “casa de samba” dos anos 1960 e 1970 criada pelo compositor Luiz Carlos Paraná)
Max Eluard — Na verdade, a gente não terminou.
Pelão — Não terminou, mas o pouco que vocês fizeram deu pé.
Ricardo Tacioli — Saiu uma matéria no (jornal) O Valor Econômico falando do processo, das entrevistas…
Pelão — Eu me lembro… Os amigos meus economistas, cheios de dinheiro, viram.
Tacioli — Esse é um projeto que a gente quer muito terminar, Pelão. Na época a gente conversou contigo, com o Vanzolini… (n.e. O zoólogo e compositor paulistano Paulo Emílio Vanzolini, 1924–2013, autor de “Ronda”, “Volta por cima”, “Praça Clóvis” e “Samba erudito”)
Pelão — Com o Vanzolini é bobagem falar. O Vanzolini é vaidoso, ele acha que é (tudo) ele. “Pô, então, quem era melhor sambista de São Paulo, Vanzolini?” “Ah, eu não entro nessa disputa. Eu tenho três títulos acadêmicos!” Ah, vá pra puta que o pariu! Eu brigava com ele todo o sábado. Eu ia no Alemão, ele ia também, a mulher dele cantava (n.e. A cantora Ana Bernardo), e ele queria falar comigo, queria ficar perto de mim. Ele começava a falar e eu “Para, Paulo! Eu estava lá, você esqueceu?”. “Ah, então vamos para outro assunto.” (risos)
Tacioli — A entrevista que fizemos com ele foi lá no Instituto Biológico.
Pelão — Lá em cima mesmo, na sala dele?
Tacioli — Foi na sala dele.
Pelão — Oloco! Os bichos começam a andar.
Tacioli — A sala é assustadora. (…) André, se você quiser sentar.
Pelão — Claro, o André é o chefe.
Tacioli — É o braço direito.
André de Oliveira — Queria saber onde é melhor para sentar? Aqui mesmo?
Thaís Taverna — É.
Pelão — Senta aí.
Max Eluard — Aí ele vai virar muito pra você. Aqui é melhor, André.
Pelão — Já tirou o André do meu lado.
Thaís Taverna — Esse é um remédio?
Pelão — Não pode colocar a marca? É isso?
Max Eluard — Não, pode.
Thaís Taverna — Não, é porque está no quadro e fica estranho. Posso por pra cá? Obrigado.
Pelão — Não adianta eu querer te sacanear.
Tacioli — Pelão, eu trouxe uns discos, uns LPs, todos que você já conhece. São alguns que tenho em casa…
Pelão — Isso aí eu tenho tudo.
Tacioli — Você tem tudo, Pelão!
Pelão — Você está com todos!
Tacioli — Olha só este! (LP Carlos Cachaça)
Pelão — Esse é grande, esse eu não tenho. O LP sumiu. Pode ficar pra mim! (risos)
Tacioli — Vou pedir pra você autografar esse disco.
Pelão — Esse vai ficar pra mim. (risos)
Tacioli — Então, eu autografo.
Pelão — Carlos Moreira de Castro. Ê, Carlos Cachaça! Esse cara orientou muito o Cartola. E fez até música que colocou o nome do Cartola. Esse foi um grande homem, o cara que construiu a Mangueira. O Morro da Mangueira era de um português. O português que alugava. Era analfabeto. Então ele pegou um afilhado dele, que era o Carlos Cachaça, pra tomar conta, para cobrar. Ele é quem fazia os contratos, os recibos. E assim foi fazendo… Porra, como eu adorava esse maluco!
Tacioli — Você teve contato com ele até quando, Pelão?!
Pelão — Até a morte dele.
Tacioli — Foi nos anos 90, né?
Pelão — Na morte dele já não falava mais. A Mangueira no (programa) Roda viva disse: “Nós damos todo o apoio a ele”. Que “dá apoio”? Os caras falavam que davam todo o apoio, mas (ele) estava jogado na sala da casa dele, um chiqueiro, todo imundo. Foi muito triste a última vez em que fui visitá-lo. A barra já estava pesada. Tinha o Buraco Quente ali, você via umas casas, entrava em um corredorzinho, antigamente era uma entrada de carro, e eu escuto: “Clef, clef!”. Nego com um berro na minha cara. “Aonde vai?” “Eu vou ver o Seu Carlos.” “Quem é você?” “Amigo do Carlos Cachaça.” “Vai, olha que nós estamos de olho daqui.” Eu, tremendo, mas disfarçadamente, cheguei lá. E aí eu vi o Carlos jogado na sala. Foi triste! Eu tentei conversar com ele, mas eu falava uma coisa e ele falava outra. O Carlos era aquele camarada que saía cedo pra ir comprar peixe na feira no domingo e voltava pra casa às cinco da tarde com umas flores na mão. “Taí, menininha!” Ele olhava pra mim e falava: “Não falei?!”. Era um poeta.
Tacioli — Pelão, esse foi o único disco do Carlos Cachaça?
Pelão — Foi o único. Ah, você falando do Carlos, que saudade que me deu. E ele era o relações públicas da Mangueira. Ele fazia os discursos para receber as pessoas, os políticos; ele era quem conseguia a primeira escola para a Mangueira, o primeiro telefone, tudo no discurso. Era uma figura linda! Ele era assim: ele vinha aqui, tinha uma confusão, ele falava tudo e ia embora. O Carlos era aquele que passava. Eu sei que eu saía várias vezes atrás dele pela Mangueira. Várias não, umas cinco, seis. Eu subia o morro e “Ei, você viu o Seu Carlos?” “Seu Carlos estava aqui, saiu. Deve ter ido lá para a casa do Padeirinho.” “Me ferrei.” Eu gostava da casa do Padeirinho, mas era lá no Pendura a Saia, era longe. Já está gravando?
Tacioli — Já estamos gravando.
Pelão — Eu não aprovei a minha… (risos)
Tacioli — O seu discurso…
Pelão — A minha voz…
Max Eluard — A gente deixa para o final, se você não gostar, não precisa assinar.
Pelão — O Carlos foi o cara que fixou o Cartola na Mangueira, foi o cara que estava na primeira reunião para fundar a Mangueira. Quando resolveram tudo, ele saiu, não assinou a ata. Começa assim, ele já era assim no morro.
Max Eluard — Por que ele não quis assinar a ata de fundação, Pelão?
Pelão — Não, ele achava que já tinha conversado muito, ia conversar em outro lugar. Eu perguntei porque ele não foi a bordo do navio Uruguay com o maestro…
Tacioli — Stokowski? (n.e. Uma das ações empregadas pelos Estados Unidos nos anos 1940 dentro da Política da Boa Vizinhança que trouxe ao Brasil, Argentina e Uruguai o maestro Leopold Stokowski, 109 músicos da All American Youth Orchestra e técnicos da Columbia Records para gravarem a típica música latino-americana. Em 1940, subiram a bordo do navio S. S. Uruguay para gravarem suas músicas artistas como Cartola, Pixinguinha, Jararaca & Ratinho e a Mangueira. Parte dos registros está no disco Native brazilian music)
Pelão — É, com o Stokowski, aquele chato que estava em missão de diplomacia dos Estados Unidos para fazer amizade. Daí ele falou: “Ah, eu fui, Pelão, eu fui, sim. Estou te falando, só que não cheguei lá. Eu parei em um monte de bar. E no último bar em que eu parei, era ali perto da Central, eu resolvi ficar, porque era tão legal, estava tão bom. E lá eram aquelas coisas chatas, encontrar o Villa-Lobos, aquela turma”. “Ah, tá legal!” Ele saía em todo o lugar.
Max Eluard — Mas não era uma coisa ideológica, era mais uma coisa de estar no mundo, não ir porque ele saiu solto…
Pelão — O Carlos tinha uma coisa de bom: ele olhava pras pessoas e sentia as pessoas. Ele sempre tinha uma palavra pra alguém. Esse disco ganhou prêmio do centenário do disco no Brasil. Foi APCA, não, foi Associação dos Produtores Musicais do Brasil. Pô, deram logo pra mim. É muito lindo esse disco! Pra mim é um grande disco, eu gosto! Ah, Carlos Cachaça! Nessa gravação teve uma (história) genial: o Raul de Barros afinando o trombone, “pó pó pó / pó pó pô”, e ele estava meio invocado. “Quem é que nós vamos gravar, Pelão?”. “Pó pó pó!” E caiu a vara do trombone. Ele ficou puto, pegou a vara, colocou e fazia “ploft ploft”. “Pelão, quem é esse filho da puta que você inventou?” (risos) E eu rindo, a vara pifou. Foi genial!
Tacioli — E como foi a sessão de gravação, Pelão?
Pelão — Foi ótima. Eu pedi para o João de Aquino fazer os arranjos, ele fazia muito bem. (n.e. Violonista, compositor, cantor e arranjador carioca) Ele fez e foi outra calça justa na gravação. O João de Aquino estava lá distribuindo as partes (n.e. Abreviação para partituras) e entra o Meira, que foi o professor de violão dele. Deu uma tremedeira nele, correu para dentro do estúdio e me pegou lá na técnica: “Seu puto, vai lá reger, vai lá dar quatro pra ele. Eu não vou!”. Ele respeitava muito o Meira, como todo mundo respeitava. E o Meira fumando cigarro. Ele fazia assim… “Vamos, vamos, eu quero ver novela!” E foi uma das últimas gravações do Meira, acho. (n.e. O violonista e compositor Jayme Thomás Florence, o Meira, 1909–1982, integrante do Regional do Benedito Lacerda e do Canhoto e professor de Baden Powell e Raphael Rabello)
Tacioli — E como era colocar o Carlos Cachaça no estúdio? Ele já tinha passado por um estúdio para gravar?
Pelão — Ele tinha ido algumas vezes. Ele tinha ido uma vez numa gravação do disco Fala Mangueira, disco importante que o Herminio (Bello de Carvalho) fez, em que participa de uma faixa e meia, sei lá. Pra mim foi um belo disco, adorei aquele disco. Muito bem feito! Se você pensar, teve uma sacanagem nesse disco ou nessa época, porque rimos muito. Era um puta astral e fora que o Seu Carlos disse que não precisava pegá-lo em casa, que ele ia sozinho. A gente gravava em um estúdio ali perto da Central. E não é que ele chegava na hora. E eu sei que ele gostava do disco. Também era o único, né?
Tacioli — Pelão, como você se define?
Pelão — Eu? Eu sou um homem, sou homem. Tenho barba, não preciso de tratamento, não. Me defino assim: como eu gostava muito de política antigamente, levei muita porrada e sofri muitas decepções, era duro, eu fiquei esperto, comecei a fazer uma coisa que eu gostava, que era gravar a voz do povo, gravar a cultura mais próxima do chão do povo, para que com isso o povo pudesse subir cantando, então seria a revolução pela cultura. É uma coisa meio maluca…
Max Eluard — E como você vê esse projeto tantos anos depois?
Pelão — Ah, se eu for pensar direito, valeu muito a pena, porque tem hora que eu tenho mania de pensar em amigos meus que já subiram para o andar de cima e falar com eles. “Oi, tudo bem? Hoje é o seu aniversário. Ainda bem que você está aí e não naquele porre chato!” Pô, é um puta time, rapaz! Quem diria eu ser amigo de todos esses caras? Sabe, me dá uma puta alegria, um puta prazer. E faço sempre uma pergunta: “Por que eles gostam de mim?” ou “Por que eles gostaram de mim?”.
Tacioli — E qual resposta você chega, Pelão?
Pelão — Ah, não seria difícil eu achar uma resposta, não, mas eu não quero essa resposta, prefiro continuar ser aquele amigo, aquele companheiro deles.
André de Oliveira — Pelão, principalmente dos discos que você gravou em 1974, você era muito amigo de todos aqueles músicos, tinha uma relação bem próxima a todos eles.
Pelão — Tinha. Primeiro eu conhecia as pessoas.







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Fulano Beltrano
Max Eluard — Primeiro vinham as amizades e depois os discos.
Pelão — Eu queria conhecer como era o cara, pô! Não adianta eu chegar, botar o cara no estúdio e gravar. Eu não estou gravando o cara! Eu tenho que saber como é a vida dele, como era o som dele na época, onde ele nasceu, como ele se vestia, o que ele bebia, quem eram os amigos dele, o que ele pensava… Por aí eu já sentia o cara. E eram todos muito legais!
André de Oliveira — E eles eram parecidos de algum modo?
Pelão — Não, acho que eram bem diferentes! Uma vez, quando gravei o grande Padeirinho naquela História das Escolas de Samba… (interrompe e fala com Max que começa a fumar) Só não joga cinzas no chão! (risos) Eu pedi para ele cantar “O grande presidente”, ele não queria cantar em 74, porque ele tinha medo da Censura ainda. Pô, marco o cara. Ele morava lá em cima, no Pendura a Saia. A casa tinha uma varandinha assim, era um perigo, você enfiava o pé num buraco e ia parar lá embaixo. (risos) Dormi muito ali naquela varanda. Não que eu quisesse dormir, mas porque estava de porre e ali era só pra fechar os olhos. (n.e. Nome artístico de Osvaldo Vitalino de Oliveira, 1927–1987, Padeirinho foi um importante sambista mangueirense)
Max Eluard — Pelão, nesse processo de fazer amigos e levá-los para o estúdio para fazer discos, teve algum caso em que você se decepcionou, você se arrependeu, na hora de gravar a figura não era bem aquela que você tinha construído, ou isso sempre te fez levar para o estúdio figuras que geravam um trabalho bem feito, com prazer?
Pelão — Tinha que ser ele, como ele era… Uma vez um cara disse que não poderia ter gravado um cara como o Nelson Cavaquinho com aquela voz. Eu falei: “Você estava falando do Louis Armstrong outro dia. Ele pode, né?!”. A voz do Nelson era linda, naquela rouquidão você via todos os balcões de bar onde ele encostou a barriga.
Max Eluard — Então nunca houve uma decepção nesse processo de construir as amizades e levá-las ao estúdio?
Pelão — Não, o duro era conseguir quem aceitasse. Então, eu tinha que esperar a hora e “Pumba!”. O Cartola, vocês sabem disso como um monte de gente… Uma hora que cheguei da minha velha ronda aos bares… Vai reabrir o Ele & Ela, mas me falaram que é de um grande chef aí…
André de Oliveira — Eu te falei.
Pelão — Você me falou que é um grande chef, né? Aí vai virar uma merda aquilo, onde tinha o Juvenal, o garçom que te pegava e mostrava o relógio ali do Itaú, onde era da Willy’s ainda, “É legal, são tantas horas”, ele tirava o relógio dele, “Tá vendo, certinho! Quer comprar?”. (retomando) Então, o duro foi convencer lugar pra fazer e não dar prejuízo, embora tenha essa porra de “Disco é cultura”, pra eles disco tem que vender. Esse disco (do Cartola) não vendeu quase nada, o do Carlos Cachaça, vendeu cinco mil, ele se pagou. Eu nunca gastei muito, só gastei no do Radamés, aí era a Som Livre que pagava, foi o disco mais caro que eu fiz na minha vida, preço de hoje daria uns 600 paus, mas pus tudo. O Radamés queria gravar na Rússia, e quando falei com ele que a gente ia gravar “Maria Jesus dos Anjos”, que era uma cantata, ele falou “Pô, que alegria, você vem de São Paulo pra me falar isso! Muito obrigado! Vamos gravar na Rússia, né?!”. “Não, Radamés, vai ser aqui, você vai ter que revisar alguma coisa?”. Ele gostava de escrever pra músico. (n.e. Radamés Gnattali, 1906–1988, pianista, maestro, compositor e arranjador gaúcho)
Tacioli — Pelão, eu li sobre o disco do Cartola ou Nelson Cavaquinho que o Tinhorão escreveu na época dizendo que chegou um “paulista com vocação carioca”. Como era essa relação de ser paulista, de São José do Rio Preto, de gravar tantas figuras do Rio de Janeiro? Como era visto?
Pelão — Eu tive algumas pequenas confusões, mas eu não ligava, sai pra lá. Eu chegava no Rio e pá, pá, pá, gravava, voltava pra São Paulo, disco pronto. Eu aparecia sempre no Lamas. O Lamas era o meu Alemão lá no Rio. E tinha alguns amigos lá já. Tinha o Amilton, da Rádio JB, meu irmão até hoje, o Moacir Andrade, que é um texto maravilhoso, é um cara que conhece muito. Não põe copo d’água na minha frente! (risos) Mas eles ficavam meio enciumados, “o que que paulista sabe?”.
Max Eluard — Ainda mais com aquela briga de que São Paulo não tem samba, né?
Pelão — Não, isso eu nunca comentei, nunca comentei. Foi uma sacanagem andando na noite de São Paulo, saindo do restaurante lá na Santo Antonio, uma cantina, indo pra noite, que o Vinicius queria ir em alguma boate, algum lugar que tivesse samba, e ele comentou assim, porra, mas não foi por maldade. O Vinicius sabia que o faturamento dele era aqui. O Vinicius não queria saber nada de diplomacia, diplomacia já tinha passado na vida dele. Ele queria era ter sucesso. A pior que eu sofri foi quando eu fiz a História das Escolas de Samba. O Sérgio Cabral ia fazer o levantamento. Tudo marcado, eu cheguei lá e falei: “Pô, Serjão, chegamos!”. “Pelão, me desculpe, eu não fiz nada!” “Mas a gente começa a gravar terça-feira!” Isso era num sábado. “Eu já tenho tudo marcado, músicos de base que me seguram, depois vem os músicos das escolas.””Pois é, eu não fiz nada!” “Ah, tá legal, tudo bem!” Ele falou: “Você vai lá no lançamento do meu livro?”. ”Ah, eu vou, vou arrumar um tempinho, amigo é amigo! Você é um cara importante, está lançando mais um livro!” Eu sou amigo do Sérgio, fique bem claro, se quiser eu mostro um livro da Mangueira que o Arley (Pereira) fez que tem o Sérgio Cabral pequenininho num aniversário do Cartola, foto que o nosso governador perdeu a chance de ser presidente, pode ser ainda um dia, estamos aqui no Brasil. Mas aí eu saí como um louco. “Vou gravar isso!” Saí atirando, louco! Pedi um pouco de orientação para a Dona Ivone, que ela sabia mais e ela é séria. Ela sabe que tem música dela que nego entrou de parceiro e não fez nada, e ela fala: “Esse cara eu não quero! Não vou cantar do lado dele”. Tá certo, você tem o meu respeito. Aí a Mangueira eu não precisava, tinha tudo na cabeça, era só fazer os contatos e colocar o cara lá no estúdio, lá na Joaquim Silva. E aí eu saí. Você acredita que até a outra segunda-feira, às quatro e quinze da manhã, eu estava com os quatro discos prontinhos e mixados debaixo do braço? Aí meu Deus! Tem uns caras da USP que querem saber “A sua formação? Que título você tem?”. “Caralho, que título que ensina a gente a fazer isso? Escute sempre os mais velhos e tenha amigos!” A minha vida é assim, sempre respeitei e falei com os mais velhos, sem acreditar totalmente neles. Eu sou safado, né, sem acreditar totalmente neles, até dando força pra eles dizendo que tinha sido maravilhoso, tinha sido porra nenhuma, mas os caras estavam ali. E pra amigo, amigo é amigo, o resto é resto.
Tacioli — Você zela muito pela amizade, né, Pelão? Amizade pra você é um patrimônio.
Pelão — É! Tanto que eu esnobo, tenho poucos dedos para falar de amigos. Isso pra mim foi fundamental. E o Aramis Millarch que sempre falava “Pô, você fala uma coisa e dali a pouco está aprontando! Não é assim!”. “É assim, é assim!” Eu fui a Curitiba fazer o repertório do Nino Rota na casa do Aramis, que ele tinha todos os discos do Nino Rota, até uma ópera pra crianças. Ele ficou todo feliz, estava um artista plástico importante de lá do Paraná, tem umas pinturas deles no Santos Dumont, no Rio, lá no Aeroporto de Curitiba, esqueci o nome dele. Passei uma tarde maravilhosa com o Aramis gravando, ou fingindo que estava gravando, anotando. O que eu fiz ali eu já sabia tudo, e o pior é que eu estava produzindo pra mim no começo, quero dizer, era do meu bolso mesmo. Mas fiz e ele ficou feliz da vida. Grande cara o Aramis! Perdemos um puta cara! Ele não ganhou nada nem depois de morrer! A Maria Helena quis vender a coleção de discos e de filmes, que era uma das mais completas do Brasil, e não conseguia. Acabou vendendo para um cara que tem um sebo lá e vai vender a dois, três reais cada disco. E algumas com o comentário, com a matéria dentro, que ele tinha escrito sobre o disco, pra você ter mais informações.
Tacioli — A gente ouviu a entrevista que você deu para o Aramis. Tem uma entrevista gravada na época do lançamento de um desses discos daqui.
Pelão — Ah, é?
André de Oliveira — Na Internet tem o acervo dele.
Pelão — Ah é?!
André de Oliveira — (…) em que você consegue ler e ouvir a entrevista, todos os artigos dele.
Pelão — Eu tenho alguns CDs aí que eu não tive coragem de ir a fundo. A gente era muito amigo. Eu sacaneava ele: “O Aramis, o santo!”. Maria Helena, mulher dele, fantástica, o filho, fantástico. O chato de falar assim é que a gente lembra dos amigos que estão por aí, mas não em carne e osso. O negócio é você pegar e falar “Vou fazer!”. Só tem que ter a preocupação de fazer direito. Se você tem um belo microfone e vai captar a voz ou o som daquele instrumento, você não precisa de mais de porra nenhuma! Já está gravado ali! “Não, vamos equalizar!” “Vai o cacete! Eu não nasci para morar em estúdio!” É uma coisa chata, é muito chato!
Max Eluard — Incomoda essa perfeição que o trabalho em estúdio…
Pelão — Não é perfeição, é uma desperfeição…
Max Eluard — É uma assepsia que tira a alma.
Pelão — É que muda a sua voz, muda o seu jeito. Agora não pode ter mais aquele triscado no violão. “Não pode!” Porra, é a alma do filho da puta que está ali suado, tocando. É o nervosismo dele. “Pronto, sai junto com as notas!” Aquilo faz parte, vai falar que não!
Tacioli — E pra você, Pelão, o que é o erro, então?
Pelão — (silêncio) Erro… É que a gente não pode falar muita coisa e dar exemplo, tem gente viva ainda aí.
Max Eluard — Se entrega!
Pelão — Tem gente viva! O erro é você dar um passo maior que as pernas, achar que o cara tinha que ser daquele jeito. “Não, ele fez isso, mas não é bem assim!” É a opinião sua, né! E você fala com o cara e ele nem ouviu falar naquilo. O erro é não fazer de coração aberto, fazer pensando naquilo que eu te falei, pra pegar o povão lá pelas entranhas e trazer pra fora, nem passar pela cabeça, só pra mostrar pra ele! “Estamos aqui, hein?!” Nem precisa pôr máscara, e nem precisa quebrar nada, só se colocar: “Estamos aqui!”. Já está bom.
André de Oliveira — Na coleção Música popular, do Centro-Oeste e Sudeste, no primeiro disco a Nara Leão e o Renato Teixeira cantam bastante. Por que vocês fizeram essa opção de colocar eles cantando em vez dos…
Pelão — Precisava ter alguém mais jovem, tem muito mais pessoa de raiz se você for analisar um a um. E a Nara pra mim sempre foi a cantora brasileira, de Roberto aos tropicalistas, que ninguém conseguiu mudar a cabeça dela, sabe?! Ela fez de valsinha a rock. E ela coloca a voz como brasileiro, estilo pra mim do Mário Reis. Ela vai até um pouco mais a frente. Qualquer um pode cantar com ela. E o Renato Teixeira é outro cara que sempre se preocupou, sempre andou na roça, sempre viu o povo, sempre foi chegado. Aquele Chico Loca de Ubatuba, na verdade, quem deu pra gente, foi o Renato Teixeira. Era ele que conhecia aquela parte do Estado, já tinha feito pesquisa. E era amigo, ele sempre ia. Quando a família ia para Taubaté, ele ia muito a Ubatuba. O Renato nasceu em Santos, né?
Tacioli — Pelão, a formação do seu gosto musical como se deu, por onde passavam os sons e a música?
Pelão — De casa, da Pizzaria do Martins, na Vila Mariana, o Neneu, o dono, ficava escutando rádio no caixa e era só de Moraes Sarmento pra cima.
Max Eluard — Mas quando você veio pra São Paulo, Pelão? Você veio com qual idade?
Pelão — Com meses.
Max Eluard — Ah, você somente nasceu no interior.
Pelão — Nasci, tenho muito prazer de ter nascido lá. Hoje a música caipira é lá.
Max Eluard — Mas voltando para sua vinda a São Paulo, seu pai ouvia o que em casa?
Pelão — O meu pai odiava escutar o Orlando Silva, porque a minha mãe gostava.
Max Eluard — Mas era de ciúme?
Pelão — Claro que era! (risos)
Tacioli — Mas do que seu pai gostava, Pelão?
Pelão — Ele não era muito de ouvir rádio. Ele falava que ele gostava e tudo. Lembro uma vez que o Valter Foster veio aqui no dia do meu aniversário, “Ô, Walter, como você está velho e acabado!”. Olha que sacanagem! Mas depois orquestras e bailes de formaturas ele ia em todos, principalmente na Orquestra do Simonetti eu ia do primeiro ao último baile dele. Ia a todos. É claro que a gente dançava uma ou outra, tinha umas moças que tiravam a gente, mas eu ficava na frente da orquestra. Então, eu sabia de onde tinha vindo cada músico, e você via que a maior parte deles era do interior, tocava em bandinhas de lá, tinha um trombonista, o Nelson, de Tupã, todos tinham sua passagem musical lá na cidade deles, no interior. E eu adoro o interior!
Tacioli — E o que tinha de especial a Orquestra do Simonetti, qual era a marca?
Pelão — Tudo! Primeiro tinha ele. Ele era italiano e eu também sou. Tenho a cidadania. De vez em quando eu recebo umas coisas aí que tem eleição pra eu votar e eu digo “Pô, mas não me mandaram a passagem!”, eu ligo para o Consulado e digo “Quando vem a minha passagem?”. Eu sou italiano! E viva Malatesta, grande anarquista! (n.e. Errico Malatesta, 1853–1932, teórico e ativista anarquista) Agora já passou essa de anarquista, mas…
Tacioli — Mas a Orquestra do Simonetti…
Pelão — A Orquestra do Simonetti era fantástica. Foi a melhor orquestra de salão que o Brasil teve. Adorava os arranjos, o repertório, e a amizade que eu fiz com o Simão, o Simonetti, eu chamava ele de tio, que era pra muitas vezes furar o baile para entrar, e ele me chamava de sobrinho. Fui muito amigo dele, valeu a pena. Pô, tudo isso é pergunta? (olhando para o roteiro do entrevistador)
Tacioli — Tem mais aqui, Pelão! (risos)
Max Eluard — Fora as do André!
André de Oliveira — Você começou a trabalhar com ele?
Pelão — Comecei a trabalhar na RJS, na Reinaldo, Jaques e Simonetti, que a gente fazia programas para televisão. O Simonetti Show, teve o Dick Farney na TV Record, depois Simonetti Produções foi para a Tupi, na verdade, ela bancava os artistas que ia para a Tupi e depois recebia 10, 15% a mais dos Diários Associados, dos donos da Tupi. Foi assim que acabei indo para a Tupi e fiquei lá. Não era bobo de sair de lá.
Tacioli — Esse começo de carreira era anos 60?
Pelão — No Simonetti, um pouco antes. É 60.
Ricardo Tacioli — Você é de 42, é isso?
Pelão — É.
Tacioli — Mas nessa época, da mocidade, dos vinte e poucos anos, no começo dos anos 60, havia a bossa nova, o iê iê iê, como essas outras músicas chegavam pra você? O que você curtia antes de trabalhar como produtor de discos?
Pelão — Eu gostava de alguma coisa da bossa nova, mas nunca fui muito afim. É que a gente tem de separar: letra é letra, música é música. Sabe aquele negócio, bunda é bunda, cu é cu? Eu gosto de música, eu gosto do ritmo, o ritmo mexe com você. A criança nasce e só dá uma chorada depois do primeiro toque que leva na bunda. Esse é primeiro canto que nós temos na vida. E aí continuamos ligamos à música, ao ritmo que nós temos no nosso coração. Então, tudo isso liga o homem.
Tacioli — Você falou da bossa nova. E outros (ritmos)?
Pelão — O iê iê iê, pois é. Um dia nós estávamos lá na Simonetti Produções, não tinha ninguém, estávamos eu, o Geraldo que vendia baile também, e aí chegou um cantor que estava com muito sucesso na praça com “O calhambeque”. “Vocês não querem me empresariar?” Eu olhei e saquei quem era o cara. “Olha, nós infelizmente vamos perder o senhor aqui pro Geraldo, que é um cara que vai se dedicar muito à sua carreira e vai ser bom pra você, porque no momento não podemos pegar mais ninguém, senão acabamos não vendendo ninguém mais.” E o Geraldo: “Eu? Por que eu?”. E foi o primeiro empresário do Roberto (Carlos). Ganhou um bom dinheiro até que o Marcos Lázaro roubou ele. (n.e. Paulista de Baguaçu, o sanfoneiro Geraldo Alves foi também empresário de Altemar Dutra e Reginaldo Rossi, além de artistas da Jovem Guarda. Lançou em 2016 a biografia O mestre das estrelas)
Tacioli — E você gostava dessa primeira fase do Roberto?
Pelão — Não. Não, o Roberto virou um deus agora, uma vaca, um boi velho, e todo mundo respeita. Você não respeita um boi velho, uma vaca velha, um cavalo velho? Aí nego já pode falar porque já está velho. Não é o caso comparando um com o outro, porque não tem nada a ver, porque o outro é grande mesmo, como o Niemeyer. O Niemeyer falava o que queria, o que chegasse na cabeça dele, falava bem, com conhecimento. Ele era um brasileiro mesmo!
Tacioli — E mesmo quando o Roberto defendeu a música do Paraná no festival…?
Max Eluard — Em 67, não?
André de Oliveira — 67.
Pelão — Eu me lembro.
Tacioli — Onde você estava quando anunciou (a terceira colocação)?
Pelão — Eu ia ao Jogral sempre. Ó, para o Paraná foi muito bom, foi a música que deu mais grana pra ele de direito autoral. A princípio, nem o Paraná queria, mas como estava o Marcos Lázaro e mais uns esquemas, então ficou todo mundo bonzinho, né? Cantou, bela ajuda, ele pode gravar em cada disco… Me deixem contar outra sacanagem pra vocês: quando eu estava na Globo — eu não gosto de falar da Globo, eu não sou viúvo da Globo — na primeira reunião de criação do especial do Roberto Carlos ia mais ou menos umas 15, 18 pessoas, desde o Borjalo, diretor de produção, Vannucci, sempre, meu querido Vannucci, e eu estava no meio. “O Pelão tem que estar, o Pelão é o cara da música brasileira!”. E me enfiavam lá. E eu só ficava vendo a que horas eu ia sair. Tinha que ser rápido. Então, eu dava umas ideias e pumba, né! E dei desses músicos maravilhosos, ele levava Zé Menezes para tocar com ele, vários músicos, ele e o Radamés tocando… Eu dava ideia e… Nunca fiquei até o fim de um programa do Roberto. É coisa de malandro velho, vagabundo. (n.e. Mauro Borja Lopes, 1925–2004, o Borjalo, foi desenhista e um dos diretores da TV Globo. É o criador da zebrinha da loteria esportiva e do “plim plim” da emissora carioca)
Tacioli — Pelão, mas teve algum gênero ou algum artista para o qual você torcia o nariz e depois o tempo convenceu que aquele rapaz ou gênero musical tinham seus méritos?
Pelão — Não tem, não, que eu me lembre assim, não! (silêncio)
Tacioli — Tem unzinho aí, não tem?
Pelão — É que eu tive um AVC há um ano e meio e as coisas muito ruins apagaram. (risos)
Max Eluard — Reformatou o HD. E mudando de assunto, como foi esse susto, Pelão, o que te fez pensar?
Pelão — Ah, não vamos falar sobre isso, né, eu estou até hoje assim. O médico me proibiu de dirigir, fumar, beber e foder. Aí eu perguntei para o médico: “Dar o cu pode?”. Ele ficou bravo comigo! Aí eu esculhambei ele e fui embora. Mas uma hora você falou de mocidade e eu fui da Mocidade Alegre. Eu me considero ainda, aí do bairro do Limão, desde quando ela desfilava pelo Terceiro Grupo. Eu desfilei com ela e ganhamos. “Ah, fui eu que deu sorte!” Metido só, moleque! Moleque, metido, é aquela merda, novinho você só faz merda! Eu me lembro que era novinho, estava em Recife, aí um amigo meu falou: “Vou te levar numa praia que tem aí, Boa Viagem, um pouquinho longe mas vai ser bom. Vamos comer um peixe que os pescadores fazem na areia!”. Boa Viagem era só mato, não tinha porra nenhuma. “Não sei se vou gostar dessa porra, moro em São Paulo, rapaz, sou dos Diários e Emissoras Associadas!” “Ah, Pelão, cacete, você está aqui trabalhando ou está em férias? Você quer ou não conhecer?” “Vamos, não quero estragar o prazer de vocês.” Uma coisa que eu me arrependi foi sobre comida e não música. Eu cheguei lá e os caras enterraram os peixes em folha de bananeira na areia e cobriram e tacaram fogo em cima. “Puta que o pariu, índio é índio mesmo!” Como eu, moço fino de São Paulo, ia comer aquilo? Minha mãe falou: “Cuidado, veja o que você vai comer, Joãozinho!”. Eu peguei um pedacinho e não sobrou um pedacinho assim pra ninguém. (risos) Eu comi tudo, puta que o pariu! Agora me abriu todo aquele gosto que eu senti.
Tacioli — Qual era a profissão de seu pai?
Pelão — Meu pai foi dono de hotel, de pensão, depois no fim da vida andou dos 60 aos oitenta e tantos com que ele morreu era corretor. Por isso que não gosto de corretor, porque sei que ele é chato. Eles falam: “Me dá o seu telefone!”. “Ô caralho, vocês vão ficar me ligando toda a hora!”
Tacioli — De qual região da Itália vem a sua família?
Pelão — Lá pra cima, né? Vêneto. Não seria lá de baixo. Me acham que eu sou siciliano ou calabrês, porque de vez em quando tem umas brigas, mas isso é só para mexer com o coração.
Tacioli — Você é bravo, Pelão?
Pelão — Eu, não, dizem que eu sou. Se eu fosse não estaria aqui, estaria fazendo a folga de algum cachorro por aí. (risos) Eu estou ficando cada vez mais calmo. O cara fala um absurdo e eu falo “É mesmo?”. Deixa ele pensar em casa o que ele falou.
Tacioli — Vou falar novamente dos anos 70, dos discos. De todas as gravações, há sobras de estúdio? De tudo que está no disco é o que foi gravado?
Pelão — Tem uma ou outra. Eu tenho algumas coisas guardadas. No primeiro disco do Adoniran, por exemplo, a Censura proibiu três músicas. Aí nos outros eu já gravava 15. O duro era tirar uma, tirar duas quando não cabiam. E eu gostava que, mesmo que fosse com mais de 30 minutos, até 38 minutos, de um lado do LP, era legal se você tinha um belo cara para fazer um corte, dava! Era complicado fazer um disco, meu! Hoje você senta ali no banheiro e faz.
Tacioli — Então, sempre havia sobras.
Max Eluard — Uma vez conversando com o (Fernando) Faro, falando de você, ele contou uma história de quando ficou pronto o primeiro disco do Cartola, você levou pra ele ouvir e aí você justificou “Olha, Faro, ainda não terminou, ainda falta colocar a orquestra no disco”. E quando ele terminou de ouvir, ele disse “Pelão, se você colocar orquestra nesse disco você não fala mais comigo!”. E aí no fim, essa história de sempre ouvir os mais velhos, essa fala do Faro te influenciou na hora de fechar o disco? (n.e. O produtor musical Fernando Abílio de Faro dos Santos, 1927–2016, criador dos programas de TV MPB Especial, Ensaio, Móbile e Divino, Maravilhoso)
Pelão — Ele já fez 80 anos, ele tem problemas graves. O Faro fez muita coisa, tem de se respeitar o Baixinho, mas ele erra muito, e tem hora que ele inventa um negócio, “Ah, é, todo mundo está falando bem desse disco? Deixa comigo!”. Jamais, ele nem escutou esse disco! Saudações! (risos) Nem escutou!
Max Eluard — Então, mudando a pergunta, como foi a decisão de deixar o disco somente com o regional? Sempre foi essa a ideia? Naquela época os discos de samba em geral vinham muito orquestrados e esse disco fugiu um pouco disso.
Tacioli — E você falou dessa paixão pela orquestra do Simonetti, então ter um disco do Cartola…
Pelão — É uma pena que todos os meus tocadores de CD pifaram aqui em casa, senão eu mostrava o Raul de Barros pra vocês. Tem regional e tem orquestra, mas ele tocava em baile com grandes orquestras. Onde cabe, coube, e com arranjos da época, não eram arranjos modernos, de hoje. Eu jamais pensei isso. Isso é coisa do Nelson Cavaquinho. Eu encontro o Nelson lá no Teatro Opinião e falei “Porra, Nelson, acabei de gravar o Cartola!”. “Como?” “Acabei de gravar o Cartola!” “Mas você não colocou orquestra, não, né?” “Não, Nelson, por quê?” “No meu você não colocou!” É ciumeira! Pra eles era muito importante colocar violino, mas pra mim não. Jamais!
André de Oliveira — Pelão, o que te atraiu quando você era mais jovem nesses sambistas, nessa música mais popular e não em outro gênero?
Pelão — Primeiro, eu ia muito a baile. Aí eu ouvia música italiana, música inglesa, espanhola, brasileira também mas não era aquilo que o povo dançava. Não era essa a grande festa do povo, do meu país, onde em cada esquina tem um grupo. Na década de 1950 tinha três violões no Brasil. Isso foi o Radamés quem me contou. Três violões. Hoje tem um milhão de violão. Em cada esquina tem um violão. O Radamés adorava vir aqui em São Paulo, tinham uns músicos muitos bons. Aquele menino, aquele pianista, o Porto Alegre, fugiu o nome dele, o Radamés era muito ligado àquele Duo Assad. Aquilo não é um duo, são dois relógios tocando junto! Tique-taque, tique-taque! Não tem erro! Gosto muito deles. Raphael Rabello, de quem fiz um disco também. Foi muito sofrido fazer aquele disco. Eu tive que mandar o técnico sair do estúdio, todo mundo, e eu gravei daquele jeito, não fiz porra nenhuma, só fiquei ali para aparar e dar start e gravar. Mexi em uma coisinha ou outra. Gravamos quase tudo direto. “Mas como você conseguiu?” “Eu deixei ele tocar do jeito que ele queria.” A gente conversava um pouco antes, “O que você acha dessa música?”. O Dilermando era pra ter sido o professor dele. Eu me lembro quando morreu. Foi uma homenagem legal! Era outro que era o meu filho, ele se considerava meu filho. Quando ele soube que estava com AIDS, ele saiu do Rio e veio para cá pra falar pra mim. Falou aqui, na época tinha um sofá aqui. Eu não tinha comprado aquele apartamento ainda. Eu mandei ele embora, mandei para a puta que o pariu, vai me trazer notícia ruim! Eu falei: “Não morre mais dessa porra!”. Depois a gente conversava sempre. Ele era o cara que Deus botou a mão na cabeça e falou “Toca!”.
Tacioli — Quando você conheceu o Radamés, na época d’Os Carioquinhas? Você já estava no Rio nesse momento.
Pelão — Bem antes. Eu o fiz conhecer o Joel Nascimento, fiz ele conhecer e aceitar todo mundo, o Henrique Cazes, esse pessoal. Eu já era muito amigo do Radamés, amigo a um ponto que ele me enchia o saco, ele me ligava às oito da manhã pra falar que ia num açougue lá no Leblon comprar carne e se eu queria alguma carne de lá. “Não sei, eu bebi muito ontem, Radamés!”
Tacioli — E depois do Raphael teve outro violonista em que Deus pôs a mão?
Pelão — O Guinga é um! O Guinga é o cara que nós temos que prestar muita atenção. O Guinga é mais importante que Villa-Lobos pra mim, do que Tom Jobim. O Guinga é gênio! Mas como todo gênio, uma hora fica maluco, esquece de tomar os remédios. É maluco, mas é um cara que eu adoro. Nesse disco do Raul de Barros tem uma faixa que é só ele e o Raul de Barros. Eu deixei para ser a última, precisava acabar o disco naquele dia, e tinha um cara que, de tanto que eu falei o nome dele, eu esqueci, um nordestino, falei “Por favor, me deixa [terminar], só falta uma faixa, eu gravo em 15 minutos no máximo!”
Tacioli — Não é esse daqui não, né, Pelão?! (mostrando o disco)
Pelão — É exatamente esse! É exatamente esse! Tem o “Violão vadio”! Você já escutou esse disco?
Tacioli — Já, bastante.
Pelão — O que você acha?
Tacioli — Eu gosto muito. Foi nele que eu conheci o Raul de Barros.
Pelão — (olhando o disco e sua contracapa) Max e Aramis… Quem vê essas coisas ri muito. Foi nesse que o Abel Ferreira voltou também. O Raul ficou muito puto. Eu dei uma bela prestigiada no velho Abel. Eu gosto muito desse disco e de várias músicas. Tem “Paraquedista”. Esse “Violão vadio” aqui é só violão e o trombone, aquela música do Baden Powell. (cantarola a melodia) Fácil, né, cacete, só os dois! Porra! Teve uma hora que eu dei um grito e falei “Saiam os dois do estúdio!”. Eles saíram e eu estava na porta chamando o elevador. “Pô, Pelão, o que foi?” “Vamos passar essa música!” E já estava escuro, ali dá muita puta, viado, na Lapa, falei “Foda-se!”. Respirei fundo e falei “Vai andando e tocando! Um, dois, três! Vai!” E o Raul de Barros olhando. “Vai, porra!” O Raul de Barros saiu e o Guinga, sem jeito, também. Demos a volta no quarteirão e subimos no estúdio e gravamos. E o Raul de Barros queria colocar o filho dele tocando. Eu enfrentei muitas coisas assim. “É meu filho! É meu primo! É meu compadre! É minha comadre!” Eu não fiz um disco com o Hermeto por causa disso. Eu falei: “Veio, vem cá! Eu quero fazer um disco com você”. “Pô, que bom, Pelão!” “Mas só você!” “Ah, é? Mas o que você quer?” “Você lá na sua terra, lá em Arapiraca, sentado embaixo de uma mangueira tocando sanfona! Mais ninguém! Você e o silêncio do Nordeste, com um canto ou outro de passarinho, ou uma criança ou outra chorando, vai ficar tudo no disco!” Mas, compadre, é muito bom! Vamos fazer amanhã, já?!” “Calma!” Você já vai embora? (dirigindo-se à fotógrafa Thaís Taverna)
Max Eluard — Ela já vai, Pelão.
Pelão — Mas eu vou trocar de roupa! (risos)
Thaís Taverna — É tarde demais, perdeu!
Pelão — Mas eu quero ver!
Thaís Taverna — Quer ver as fotos?
Pelão — É!
Depois eles mandam pra você. Vou para outro trabalho agora.
Pelão — Que trabalho você faz?
Taverna — A gente tem uma coincidência: Rio Preto. O meu pai é de Mirassol.
Pelão — Mirassol!
Sabia!
Pelão — O seu pai era amigo do Clodovil?
Meu pai? Acho que ele tem uns segredos… (risos)
Tacioli — Tchau, Thaís, obrigado.
Pelão — Desculpa alguma coisa. Poderia descarregar as fotos no meu computador!
Max Eluard e Tacioli — Depois a gente te manda.
Thaís Taverna — Se você não gostar, eu volto.
Pelão — Eu posso não autorizar.
Thaís Taverna — Aí é com eles. Obrigado!
Pelão — A gente estava onde?
Tacioli — Falávamos do Brasil, trombone, do Raul de Barros, do Hermeto Pascoal.
Pelão — Do Hermeto! No dia seguinte ele me ligou: “Pelão, você sabe aquele meu compadre que morava do meu lado lá em São Miguel?” ”Sei!” “Eu ensinei ele a tocar baixo e ele vai com a gente também.” Ele foi colocando, colocando, eu falei “Pô, compadre, sinfônica não cabe debaixo de uma mangueira! Não vamos fazer mais, não! Eu passo na sua casa pra falar com você!” Ele falou: “Se não for de tarde, pode ser de manhã, mesmo!”. “Vou ver se eu passo aí!” Porra, vá pra puta que o pariu! Então, o músico tem a cabeça dele, é por isso que eu gosto de chegar pro maestro que vai fazer os arranjos e “Você vai escrever para essa formação!”. Porque eu vejo aquele som, eu sinto o que eu vejo. E, em muitos, eu dou palpite, que vai tal músico, tal músico, de preferência eu pego os mais velhos, que me dão um trabalho filho da puta. Uns perdem a memória depois, uns perdem a mulher, não assinam, não autorizam, e são essas coisas…
Tacioli — Pelão, você tem alguma formação musical formal ou é só essa observação?
Pelão — É só isso! O Radamés falou que, se algum dia eu estudar música, eu vou ficar uma merda! E eu fazia ele mudar arranjo. Eu fiz ele mudar vários arranjos. O Perrone, que era do quarteto dele, quis bater em mim uma vez. “Respeita, esse é o maestro Radamés!” e veio pra cima de mim. O Radamés foi quem precisou dar um esporro nele. Foi legal que me defendeu, me deixou bem na fotografia.
Tacioli — E mudou o arranjo?
Pelão — Mudou.
Tacioli — E convivendo com tantos músicos, você pensou ou chegou a compor?
Pelão — Ah, tem uma música ou outra. Tenho uma com o Radamés, mas eu não fiz quase nada. Ele me ligou e falou “Hoje estou tocando pacas!”. Ele ensaiava oito horas por dia. “Continua tocando, Radamés! Depois eu vou ver se ficou bom!” Porra, vem me encher o saco num sábado ou num domingo. E não tinha celular nessa época, graças a Deus! Ele falou: “Quando você pensa na sua namorada — que era a Maria Cristina -, você pensa em que música?”. “Nenhuma, por que, Radamés?” “Você não cantarola alguma coisa, não vem alguma melodia na sua cabeça?” “Sempre vem, né, Radamés, sempre vem, sempre!” “Fala pra mim como é?” (cantarola) “Tá, daqui a pouco eu te ligo!” Meia hora depois ele ligou com um puta choro legal, mas só com duas partes. “Porra, você está preguiçoso, hein, Radamés! Não vou por o meu nome num choro de duas partes! Cê tá louco? Te dou a chance de fazer um choro pra na terceira parte você virar o jazista maravilhoso que você é, e você…” “Você quer a terceira?!” “Ah, Radamés, faz, pô! Ou não faz, estou com gente aqui em casa!” Nem 15 minutos (depois), toca o telefone: “Já fiz, escuta aí!”. O velho meteu a mão no piano.
Tacioli — E qual é o nome do choro, Pelão?
Pelão — “Pequena”. Tem umas coisas, mas eu não gosto, acho que eu não tenho que compor. Produtor pra enfiar música dele no disco, vá pra puta que o pariu! Não pega bem. Embora o Radamés quis gravá-la no disco que fizemos, mas eu não deixei.
Tacioli — Então ela não tem registro fonográfico.
Pelão — Não, tá louco! Quem quiser pode gravar, mas coloca apenas o nome do Radamés. Aí eu autorizo. Tem a partitura aí, com a letra dele.
Tacioli — E pra você, quais sons “não musicais” que te marcam, sons que você ouve e gosta, que te traz lembranças? Quais estão na gaveta? O que você gosta de ouvir no dia-a-dia.
Pelão — O som que eu tenho na cabeça é o som de um jingle de uma trilha sonora, que o Toninho, do Quinteto, fez para o Banorte. Ele até colocou uma letra, completou, mas pra mim vale aquele “lá-rá-rá” (cantarola) e eu fico pensando nisso o tempo todo. É que ele está lá em cima do lado do homem.
Tacioli — Você falou do homem e dos amigos que estão em cima, como é a sua relação com a espiritualidade, você tem essa relação?
Pelão — Eu gosto muito, eu tenho.
Tacioli — Como ela se dá, Pelão? É por meio de uma religião, por onde ela vai?
Pelão — Vai pelo mesmo caminho que eu produzo as coisas. Se você está relaxado, vem. Tem dia que para dormir é foda! Tem muita gente conversando comigo, porra! E é foda!
Tacioli — Em casa, qual era a formação (religiosa) dos seus pais?
Pelão — Católicos. Minha irmã é espírita, o meu irmão é espírita, eu respeito muito os espíritas, eu acho não se pode discutir religião, porque senão vamos chegar na base dos muçulmanos, sei lá, podem dar tiros na gente. Cada um tem a sua e fica na dele.
Max Eluard — Pelão, dentro do seu jeito de produzir, de cultivar as amizades, de levar essas amizades para o estúdio, nesse processo, qual é a importância da vida na noite, na boemia?
Pelão — Tudo! A melhor parte do dia é a noite, não tem outra coisa. A melhor parte do dia é a noite! E eu sempre gostei da noite. Agora até meia-noite só, uma hora no mais tarde, porque os papos sumiram da noite. Antigamente tinham uns puta papos à noite. Tem algum fio preso aqui ainda?
Max Eluard — Não!
Pelão — Então eu posso sair até a cozinha?
Max Eluard — Claro, claro!
Pelão — Você nem está vendo se o som está saindo bom ou não!
Max Eluard — Eu estou acreditando que está saindo bom, Pelão! (risos)
Pelão — A minha mulher fez café e não serve, não sei! Mas essa fotógrafa é namorada sua?
Tacioli — Não!
Max Eluard — De ninguém, quero dizer, de nenhum de nós três.
Pelão — De nenhum? Ela pega na mão da gente e chacoalha a gente! (risos) Ela trabalha onde?
Ela é frila, free lancer, trabalha como fotógrafa de vídeo e de foto fixa.
Pelão — Estamos gravando em HD, não, porque eu não falo em…
Max Eluard — Em HD.
Pelão — Em HD, né? Eu só falo em HD. (risos)
Tacioli — Pelão, como você avalia a experiência e a trajetória da gravadora Marcus Pereira?
Pelão — Teria sido uma bela experiência se não tivesse tido o Marcus Pereira, se fosse somente o Aluízio Falcão teria sido uma maravilha. A cabeça da Marcus Pereira era o Aluízio, agora o nome era aquele poço de vaidades que era o Marcus. Não vejo onde facilitou, não! Tanto que o Aluízio saiu e eu saí atrás dele.
Tacioli — Daí ele foi para a Eldorado?
Pelão — É, bem depois ele foi para a Eldorado. O Carlos Vergueiro levou ele pra lá. Eu acho que foi importante, acho que tem coisas ali nunca mais serão feitas, agora esse catálogo já passeou pacas. Já foi para a Copacabana, já foi para a W não sei o quê, já foi para o cacete. Agora está na EMI. Quer dizer, pra você usar qualquer coisa disso você vai ter que pedir para a Rainha da Inglaterra. É ruim, né? É isso que o país não enxerga, né. A Continental também. Daqui a pouco as nossas músicas, desde a edição e gravação, vão estar tudo na mão de estrangeiros. Já estão, falta pouco. E aí? Na situação de hoje você pede para uma Warner ou qualquer coisa do Tonico & Tinoco ou de lá atrás, dos caipiras, eles nem falam quanto eles querem. As últimas vezes comigo foram assim. “Qual é a sua proposta?” Eu coloquei a proposta em reais, né? Eles nem vão olhar. Um amigo meu de lá falou, “Pô, Pelão, em reais eles não olham!”. “Em dólar é um caminhão e aí eu me ferro!” Eu tenho esse do Carlos Cachaça, um do Quinteto e tenho mais um disco na Continental. Então, agora todo mundo grava e senta em cima, fica dono do fonograma. (n.e. Após o fechamento da Marcus Pereira, em 1982, seu acervo foi para gravadora Copacabana e logo em seguida para a ABW. Atualmente, pertence à multinacional EMI)
André de Oliveira — Pelão, sua trajetória pessoal e profissional na Marcus Pereira foi muito boa, né? Em 74 você gravou esse, o Donga, Cartola…
Pelão — O Donga é um disco que os chorões aí choram de quatro quando o escutam. Falam muito bem. Lá eu fiz… Eu já tinha gravado na Odeon o Nelson Cavaquinho e o Adoniran. Aí o Théo ia fazer o Centro-Oeste e o Sudeste pra Marcus Pereira e me indicou. Então foi na hora: falei com o Aluízio e ele falou: “Fechado!”. Ô amor! “Fechado! Vem pra cá com a gente!” Aí ele viu que eu era meio foguete, eu fazia tudo rápido e a preços acessíveis, e com tudo assinadinho, todo mundo recebia o seu dinheirinho. O Música Popular do Nordeste começaram a entrar com processo contra eles, não pagaram ninguém. Aí eu fiz a História das Escolas de Samba, que eu acho legal, tem um disco do Evandro também, de choro, legal, eu fiz 14 ou 16 discos lá.
André de Oliveira — Você acha que foi sua fase mais produtiva na carreira?
Pelão — Me deixavam eu fazer, né? Então, eu acabava um e começava outro. Eu tinha uma pauta de 30, 40 discos pra fazer e depois o Aluízio fez uma parte na Eldorado e também o pessoal da Marcus Pereira fez alguns mais. Eu simplesmente não falo nada, não ouvi, não vi… Posso até falar que gosto muito, não vou discutir, minha gente! Tem muito burro dando murro em ponta de faca, e isso dói. E você vê quando eu fiquei doente, eu sei quem telefonou ou foi me visitar. Eu fiquei três meses no hospital, 90 dias! Pessoal de bar, garçom, dono de bar, foi um monte. Temos que saber que, em pelo menos em um lugar, estamos bem. E música também: o Cléber Tófoli, de Londrina, é incrível. Ele é um professor universitário, de matemática, pode? Ele entende de música caipira. Tem um programa de rádio que é um dos mais ouvidos em Londrina, música caipira.
Tacioli — Que é um tipo de música que você gosta também, né, Pelão?
Pelão — Eu gosto da música boa caipira. Você vê, o negócio de voz e viola que eu fiz no primeiro disco do Roberto Correa com a Inezita, eu peguei o título do programa dele que ele tem na rádio lá em Londrina há 25 anos. É um grande irmão esse Cléber Tófoli. Esse sabe mesmo! Música caipira não abro a mão em ficar perto dele. Eu comento alguma coisa. Ele fala: “Você sabe!”. “Eu não sei, fala você!” E ele fala. Então, esses irmãos que você tem espalhado pelo Brasil, cara que vira seu compadre, cara que já andou muito com você, cara que já passou muitas coisas boas e ruins ao seu lado, é legal! Você sabe que a informação dele é verdadeira. Se ele não souber, ele fala “Não sei!”. Ele fala direto: “Isso eu não sei!”. Tem gente que não fica sem responder a uma pergunta. Pode ser qualquer fórmula de Física, o cara fala “Eu acho que…”, entra o achismo no meio e você se fode. Esse “eu acho” precisa se tomar muito cuidado, você pode achar merda.
Tacioli — E o Aluízio Falcão que, como você falou, ele era a alma da Marcus Pereira. Você fala com ele?
Pelão — Eu falo pouco com ele, gostaria de falar mais. A última vez que eu liguei pra ele disse que estava tomando água. Aí eu falei marca de três águas que eu tenho em casa. “Vamos degustar uma água qualquer dia?!” Ele riu muito. É casado com a Nina, outra boa figura. É uma pena, não falo muito com ele. Falo mais com o parceiro dele, o Carlinhos Vergueiro, que assina como J. Petrolino. Fui eu que dei esse apelido pra ele.
Tacioli — De onde veio esse apelido?
Pelão — A gente estava no Rio. “Esperaí que eu preciso passar petróleo na cabeça!” Petróleo era um óleo pra passar no cabelo pra pentear. Eu falei: “Ô, J. Petrolino, vamos embora!”. E aí ficou. Nós temos muitas horas de bar e de papo.
Tacioli — Pelão, e esses roteiros noturnos dos anos 60 até hoje…
Pelão — Agora estou proibido de dirigir, que é a única coisa que eu levo a sério, melhor andar de táxi, mas tem (umas horas) que é ruim sair sem carro. Estou indo mais ao Alemão. Eu retornei ao Alemão, porque há um tempo o Flavinho comprou e trouxe o Eduardo Gudin como sócio. Graças a Deus, eles salvaram o bar! Voltou a ter música. Não adianta, aquilo não dá grana, dá uma merrequinha, é pequeno. “Mas como não dá grana?” Pô, não tem onde as pessoas sentarem! Vai sentar na minha cabeça? Não vai! Onde eu sento cabe um só e eu sou folgado. Sabe onde você conhece o garçom há 27 anos, o tirador de chope há 25, é tranquilo.
Tacioli — O Bar do Alemão é a capa do primeiro disco do Gudin, né?
Pelão — É. Eu estava lá atrás do câmera falando, “Entra você, sai você”!
Max Eluard — Dirigindo a cena.
Pelão — Estava lá. Outro lugar em que eu vou é no Pasquale. O Pasquale tem um restaurante, bela cantina italiana, gosto muito, e ele é um italiano compositor de samba, fundador do Pérola Negra, maravilhoso. É até um pouco engraçado porque nesse negócio de música, de samba, ele fica bravo. Ele tem a ala dele, ele e a mulher dele, todo mundo tem ala no Pérola Negra. Então é legal, de vez em quando eu vou lá ter uns papos com ele e com uns amigos que frequentam lá. Daí é só a turma do Partidão, do velho Partidão.
Tacioli — E por onde mais a música tem chegado pra você, Pelão? Você ouve (música) em casa?
Pelão — Eu escuto. Agora estou organizando todo o meu equipamento que andou dando uns piripaques. (olhando para a foto dada pelo Gafieiras) Mas eu era bonito, tinha uma cadeira boa no escritório. Eu vou mostrar para a minha mulher pra ver se ela vai buscar essa cadeira. Ela emprestou para uma amiga dela.
Max Eluard — E, Pelão, tem alguma coisa na música de hoje, que seja contemporâneo, e que te chama a atenção, que você acha interessante?
Pelão — Acho que não tem uma, não, tem várias.
Contemporânea que eu digo é… O Guinga é contemporâneo, está aí fazendo disco, mas eu digo algo mais recente que o Guinga, algo que tenha surgido nos últimos dez anos, que tenha chamado a sua atenção…
Pelão — Tem a dar com pau. Eu não vou falar um nome porque vão faltar uns quinze. Como outro dia eu vi uma portuguesinha chegar num bar e cantar… Eu queria me suicidar, puta que o pariu! Aí eu fui bater um papo com ela — veja que do caralho! -, eu falei: “Você canta música brasileira?”. “Canto.” Ela conhece muita, mas muita música brasileira. “Mas você tem sempre sotaque!” “Você se engana, eu sei cantar sem sotaque, mas eu sou portuguesa, porque vou negar que sou portuguesa? Somente pelo meu sotaque que vão saber! Então, eu não o tiro!” Legal, né? Canta muito! Tem muita gente nova que tem a dar com pau. Precisava ser feito um festival dois ou três anos seguidos, ou quatro, para dar para o pessoal do primeiro e do segundo crescerem junto… Eu te falo: o João Bosco e o Aldir entraram quando acabaram os festivais. Aí eles demoraram quantos anos para aparecerem? Entenderam? Como tinham muitos outros ali que iam crescer naquele momento. Você cria um movimento, cria uma coisa crescente, mas nego faz o festival diferente. Você pode pegar os discos do MPB-Shell, umas coisas da Globo, o que nós lançamos ali, ficou, ficou mesmo. De vez em quando eu dou uma olhada e vejo, nem preciso escutar, ficou. Então, o Eduardo Dusek que não era nada, ficou. Esse era um maluco maravilhoso! Ficou, está aí, e fazendo um bom trabalho. Você tem que olhar, fazendo um festival, pra isso. Até escolhendo algumas músicas para colocar no festival.
Tacioli — E você ainda acha que o festival é a melhor forma de apresentar (artistas e músicas novos)…
Pelão — Sempre foi, desde Pixinguinha, do Ary Barroso. Ary Barroso apareceu num festival. Pixinguinha também participou… Estou falando de festival, mas antigamente era concurso em rádio, mas era um festival. Você apresentava 12, 14 ou 15 músicas e escolhia uma, um cara que ia gravar um disco.
Tacioli — Havia uma premiação…
Pelão — É, então era festival, não se inventou festival na Record, na Excelsior, na Globo. Nada disso! Tem o nosso diretor técnico aí… (risos)
Tacioli — Ele supervisiona tudo, do áudio ao vídeo.
Max Eluard — E depois escolho as fotos.
Tacioli — Pelão, não vamos alongar muito mais, não, mas somente para…
Pelão — Pode ir um pouquinho mais, só tenho que ver a minha novela às seis.
Tacioli — A novela é sagrada.
Pelão — A “Flor do Caribe”. É o Walter Negrão, que é um grande amigo meu, que é o autor. Eu encontro com ele e ele fala: “Pô, você viu que me fizeram com a música?”. “Ah, está legal!” “Ah, não fala que está legal, está uma merda, porque você não fez?” “Porque ninguém me chamou!”.
Tacioli — Você sempre gostou de novela, Pelão?
Pelão — Não muito, agora é o meu jeito, não estou saindo. Eu aprendi uma coisa com o Dorival Caymmi. Você ligava pra ele por volta das oito horas e ele não podia atender porque estava vendo o Jornal Nacional. Todo mundo sabia disso. Eu ligava às oito para falar com ele porque era mais tranquilo, ele me atendia. “Você eu atendo, mas o resto eu não atendo!” “Mas se o Jorge Amado te ligar?” “Esse fica maluco quando falo que estou vendo o Jornal Nacional e não posso atender. Ele quer saber o que eu sei que ele não sabe! Eu dou muita risada.” Me ligam às seis horas e eu falo “Estou vendo novela”.
Tacioli — O melhor horário pra ligar pra você é depois do meio-dia até às seis horas.
Pelão — É! E depois das oito se quiser marcar no Alemão. É um bar simpático! Stalin, Churchill, Prestes Maia e eu. Só funcionamos depois das onze. (risos) Belo time o nosso, né?
Tacioli — E, Pelão, qual é a sua melhor antítese? Qual é o negativo do Pelão?
Pelão — (falando baixinho) O negativo do Pelão? (silêncio) É você um dia me ver num karaokê! (silêncio) Pode abater, dar tiro, que…
Max Eluard — Que não sou eu! (risos)
Pelão — Que não sou eu e você vai ser absolvido. (risos) Não tenho nada a ver com isso!
Tacioli — E futebol, você gosta?
Pelão — Palestra Itália! O Parmeira! Estamos bem, primeiro lugar estourado, 40 pontos, lá na frente, mas não me pergunta o nome porque eu não conheço ninguém daqueles putos, a não ser o Valdívia, que deviam dar um pé na bunda dele. Agora botaram ele jogando na segunda e ele fez até alguma coisa, mas eu prefiro que vendam ele pelo valor que nós pagamos, está bom. Esse é um safado! A saída do Marcos foi ruim, né, eu adorava o Marcos, adoro ele! Saída do Valdir de Moraes como treinador do Palmeiras, no dia em que mandaram ele embora, me mandaram. Eu tenho a carteirinha de sócio. No dia em que mandaram ele embora, me mandaram também. Eu saí e nunca mais eu pus os pés lá. Vamos ver agora, com tudo novo, se melhora. Vai ficar bonito!
Max Eluard — Se terminar!
Pelão — Termina!
Nunca vi reforma de italiano terminar!
Pelão — Termina! (risos) Aquilo ali não é obra de igreja, não, de “Santi Graci”! (risos) É o Palmeiras! Não me interessa que é Segunda Divisão, mas o meu time está ganhando pacas, jogando bem, não é esverdeado, como é que é?
André de Oliveira — Luverdense.
Pelão — “És verduto?” Como é que é?
Max Eluard — Luverdense.
Pelão — Luverdense.
Tacioli — E no gramado, você jogava? Qual era a sua posição?
Pelão — Era meia-direita ou goleiro. Ou, se não tivesse vaga pra mim, quando estudei em escola agrícola, eu ia de massagista do time. Coitado, rapaz, um menino de Araguari, a gente jogava no interior, então, eu como massagista ficava no bar com o pessoal. Aí vieram correndo me chamar porque acertaram um nosso jogador, eu entrei em campo…
Max Eluard — Com o copo de cerveja na mão…
Pelão — Olhei, a perna dele estava inchada, mas não tinha jeito, aquilo era mandar para o cemitério ou para o hospital. Eu joguei um óleo ali e metia a mão com muita força. O cara berrava e os outros ficavam olhando. (risos) Eu precisava mostrar o meu trabalho de massagista.
André de Oliveira — Pelão, nessa época você já era o Pelão ou era o Pele Fina ainda?
Pelão — Não, Pelão! Esse negócio de Pele Fina não durou um mês. Eles viram que o negócio era mais embaixo.
Tacioli — Com um Pelão massagista eu também sairia correndo.
Max Eluard — Eu não me machucaria nunca! (risos)
Pelão — A gente viajava, a gente pegava o trem, saía de Jaboticabal e ia até Mutum. Mutum não cresceu até hoje, estão lá aquelas dez casas. Foi lá em Mutum que aconteceu isso. Eu esqueci o nome de goiano. Adorava ele, era um baixinho, ele era esperto. (dirigindo-se à Maria Cristina, sua esposa) Cadê o café?
Maria Cristina — Está pronto.
Pelão — Vocês querem cerveja?
Max Eluard — Não, um cafezinho.
Pelão — Café! A cerveja está cara depois que os banqueiros entraram na cerveja.
Tacioli — Pelão, e como meio-campo ou goleiro, teve alguma jogada que você sempre lembra?
Pelão — Eu fiz uma no basquete. A gente foi jogar em Monte Alto, e eu precisava entrar e jogar, né? Eu tinha ido com o time. “Eu entro jogando.” Bola vai, bola vem, aí eu peguei uma bola, não tinha cinco minutos de jogo. Eu saí correndo do lado esquerdo, mas quando vi que estava saindo fora (sic), correndo muito, eu fiz assim e dei um gancho. Chuá! Aí eu bati na mureta e pedi pra sair. (risos)
Tacioli — Foi a única jogada.
Pelão — Porra, mas comentada até hoje! (risos) Eu mesmo me emociono! Chuá! E numa outra, lá em Monte Alto também, teve uma saída, fizeram uma falta, falei “Deixa que eu arremesso”. Inauguração da quadra de vidro do time de Monte Alto. “Bonito o vidro, hein?!” “Bruuum!”
Max Eluard — Espatifou o vidro.
Pelão — Espatifou o vidro. Queriam me bater. “Não vem, não, porque vocês sabem que a minha mão é pesada! Não quero matar um!”
Tacioli — Nessa época você já tinha bigode e barba?
Pelão — Não. Tudo lisinho, bonitinho, rapaz de São Paulo.
Tacioli — E qual uma grande mentira da sua trajetória que sempre contam e você diz “Puxa, isso não é verdade, estão sempre falando de mim” ou de algum disco que você produziu, e aquela história vai sempre se replicando e…
Pelão — Como assim? Bem ou mal?
Tacioli — Bem ou mal. Algo como “sempre falam essa história mas não é verdade”. Uma mentira que se eternizou e virou uma verdade, sabe?
Pelão — Eu tenho pra mim um disco que eu gravei, até esqueci o nome, um tocador de cavaquinho, solista de cavaquinho de Minas, que veio com o regional dele gravar um disco na RCA, que foi pedido de um cara de vendas de lá, quando eu vejo tinha dois violões 7 cordas, e um brincando com o outro. Falei, pode ser um fazendo de seis e o outro de sete. Os dois tocavam o de sete! Porra, eu fiquei zonzo! “Não pode!” Eles brigaram. “Ou gravamos com os dois ou não gravamos!” E outra coisa que eu fiz que não morro de amores, que é um disco muito sofrível, a RCA me chamou para que eu colocasse uns músicos em cima daquele disco da Maria Bethânia em que canta Noel. É difícil, porque ela é tão naquela época, era um desastre. E os músicos que eu levei para colocar em cima era o Heraldo do Monte… Então, os músicos mesmos paravam a gravação e “Pelão, quem fez isso?”. “Eu não sei, mas vai continuar aí!” Esse disco eu não gostei de ter feito, porque pra mim depois de Caymmi e João Gilberto a Bahia fez mais nada. Não pergunte o que eu acho do João porque vou falar que acho o João um maluquinho de pedra, porque não é maluco, ele é vivo, faz aquele gênero dele. Na música brasileira temos uma meia dúzia assim. Quando eu era do Musical, era o único cara do Musical que qualquer coisa eu falava direto com o Boni, então eu trabalhava muito com o Guto, então eu ajudava em trilha de novela, essas coisas. Em um programa do João Gilberto, eu estava na sala do Boni para outra coisa, eu estava no Sexta Super, sei lá, aí entrou o Guto com uma cara branca, “Não vai dar, não vai dar!”. “Não vai dar o quê, porra?!” “Não chegaram os arranjos!” No dia seguinte seria a gravação do programa do João, um especial, aquele com o nome todo dele. (n.e. O especial João Gilberto Prado Pereira de Oliveira, dirigido por Daniel Filho e com direção e produção musical de Guto Graça Mello, foi exibido na TV Globo em 5 de setembro de 1980. No mesmo ano ganhou versão em LP) “Não vai dar! O Claus não mandou os arranjos!” (n.e. O compositor alemão Claus Ogerman, 1930–2016, arranjador de diversos discos de Tom Jobim) E como é que faz, como é que não faz, não tem mais como chegar para amanhã. Aí entra o Waltel Branco, um maestro fantástico, grande violão…
Tacioli — Paranaense, né?
Pelão — É, paranaense, que é um maluco. Ele foi pra Espanha, fez um concerto, chegou um cara baixinho, pegou na mão dele, “Parabéns, você é ótimo, podemos tocar juntos, vamos sair, vamos hablar!”. Ele: “Quem é esse chato?!”. Era o melhor violão que a Espanha já teve, velho, já morreu…
Tacioli — O Paco?
Pelão — Não, velho, já morreu.
Tacioli — O Segovia?
Pelão — Olha, amor, tem uma foto aqui eu sentado em uma bela cadeira! (…) Mas aí entra o Waltel e senta em um sofá lá atrás. (dirigindo-se à sua esposa novamente) Olha como eu estou bem sentado.
Maria Cristina — É!
Pelão — E o Waltel: “O que vocês estão aí gritando? É sobre o programa do João de amanhã?” “É!” “E o que que tem?” “Não vieram os arranjos do Claus.” “Falem as músicas que eu faço os arranjos! Pelão, me bota um copista legal para fazer as partes [partituras], tá?” “Eu ligo para o Loser agora!” “Chama o Loser mesmo, aquele velho precisa trabalhar, e é bom.” Ele anotou as músicas. “A que horas ele ensaia amanhã? Às três horas? Está legal, às duas horas os arranjos estarão aí!” Duas horas o Loser traz os arranjos do Waltel. Waltel sempre foi muito amigo do João, mas quem estava com o cu na mão era a gente. O Alceu Bocchino era quem regia. Bocchino baixou a mão, entrou a orquestra, o João falou “Para, para, para!”. Pensamos, “Fodeu!”. “Vocês viram como o Claus está cada dia melhor?!” (risos) Deu uma tremedeira na perna que eu quase caí. E esse Waltel é o amigo do João. Ele foi depor naquele processo em que o João fez o show lá no Municipal, o João botou ele de testemunha. Aí a juíza perguntou: “Maestro Waltel Branco, o senhor conhece o senhor João?”. “Conheço.” “Então o senhor concorda que ele não pôde ir ao show porque estava doente, com uma gripe?” “Ah, pelo amor de Deus, doutora, a senhora também vai cair nessa? O João não vai mesmo! (risos) Era isso que a senhora queria saber? Posso ir embora!” E ele era testemunha do João e continuaram sendo amigos. (dirigindo-se à esposa Maria Cristina enquanto a equipe toma café) O que é essa que eu não ganhei?
Maria Cristina — É uma…
Pelão — Não, amor, não serve assim, eles vão vir aqui outro dia em que você não vai estar aqui…
Max Eluard — Não vou sair mais daqui!
Tacioli — Amanhã a gente volta, Pelão! (risos)
Pelão — Vocês estão atrasados, não?
Max Eluard — É o limite da memória da câmera, não da nossa!
Pelão — Olha só aquele bolo português!
André de Oliveira — Muito bom o bolo.
Pelão — Só pra eles mesmo? (acende mais um cigarro) O bolo desce melhor com o café.
Max Eluard — Muito bom.
Pelão — Eu tive uma puta sorte, pena não ter nascido dez anos antes.
Tacioli — Por que, Pelão, não ter nascido dez anos antes…
Max Eluard — O que seria diferente?
Pelão — Seria dez anos sem mudar o mercado do disco; eu teria pegado o pessoal da década de 40, ou não, assim está bom…
Max Eluard — Difícil de avaliar…
Pelão — Eu conheci cada cara na minha vida. “Por que eu conheci? Eu fui falar com ele? Não, ele que foi falar comigo. Por quê?”
Tacioli — Mas, Pelão, essa mudança da indústria do disco impactou bastante pra você, para os artistas, como foi essa virada?
Pelão — Pra todo mundo!
Tacioli — O que foi bom e o que não foi tão bom assim? Como você avalia isso?
Pelão — É bom para os grandes nomes, porque alguns mandam piratear o próprio disco e vendem em grandes shows, ganham uma grana; não recolhem direitos, não recolhem porra nenhuma, e pagam três reais em um disco que vendem por vinte. Um dia eu estava numa cidade do interior e vi um caminhão descarregando um monte de caixa de discos. Falei para um amigo meu: “Quem mora aí?”. “É aquele famoso!” “Ele compra disco de caminhão?” “Não, Pelão, isso veio do Paraguai!” Antigamente tinha um escritório no Conjunto Nacional em que você escolhia os discos que você queria. Tinha uns catálogos assim mais grosso que lista telefônica. Mas tinha de tudo: “Você quer o Sinatra? Você quer a vida toda dele em disco? Tudo o que ele gravou? Ou quer qual música?”. Pedia, pagava e te entregavam na sua casa.
Tacioli — Sob encomenda.
Pelão — Esse vinha da China. E tipo noventa centavos, não era caro. Eu gosto de ouvir rádio, mas mais atrás de notícias do que de música. De música já cheguei à minha conclusão: você faz a sua seleção e coloca a sua seleção.
Tacioli — Você faz a sua também, Pelão?
Pelão — Faço. Fiquei com um carro dez anos e fiz uma, toquei umas duas vezes ou três. Se você botar dez discos na disqueteira, você não vai ouvir dez horas nunca. Então, eu tinha um disco para cada momento, para ouvir na estrada. Um dos belos cantores brasileiros foi o Luiz Cláudio, é foda! Pena que não sei onde estão, porque ele passou para CD alguns (discos). Bom esse cara! Esse cara entrou num disco de modinha que eu fiz para a Internacional Seguros. Fiz o disco até o fim, mixei, mandei eles tomarem no cu e fui embora! Briguei com o cara lá, ele me encheu o saco e falei “Não trabalho mais aqui!”.
Tacioli — Mas o que foi que pegou ali, Pelão?
Pelão — Eu nem me lembro o que foi, foi coisinha à toa, acho.
Tacioli — Ouvindo a entrevista do Aramis, que você cedeu em meados dos anos 80, falando dos discos-brinde, e você comentava do disco de modinhas, e da importância desses discos para poder ter um respiro pra colocar o repertório antigo novamente na praça, nem que fosse como brinde de fim de ano de uma empresa.
Pelão — Mas isso ajudava e muito, mas hoje saem alguns, saem muitos. Sabe como? O seu papai uma empresa, eu sou seu filho, estou tocando aqui no banheiro com os amigos, falo “Papai, vou escrever o meu projeto na Lei Rouanet. O senhor banca?”. Aí dá uma boa relação pai e filho, que descontam os impostos. (risos)
Tacioli — Melhora a relação.
Pelão — Você entendeu?
André de Oliveira — Pelão, quando saiu o disco do Nelson Cavaquinho, o Tinhorão ele fala que “apesar da lenda criada em torno da figura de curioso trovador de cabelos brancos, faltava uma prova em disco”. E aí eu ia te perguntar qual era a lenda que tinha em torno do Nelson Cavaquinho, como ele era visto antes do disco?
Pelão — Eu não sei, o Tinhorão também escreve muita merda. Ele é meu amigo. Ele foi um cara importante. É ainda, está vivo. Como é essa frase?
André de Oliveira — Ele fala que apesar da lenda criada em torno da figura de curioso trovador de cabelos brancos, faltava uma prova em disco”. O que eu entendi daqui é que ninguém tinha esse registro dele.
Pelão — Até então não tinha tido um disco como o Nelson era, com o violão dele, com a voz dele. Ele tinha gravado um, mas sem o violão dele. O que é isso? (perguntando para Max Eluard)
Max Eluard — Memória.
Pelão — Ele apagou ali atrás?
Tacioli — Apagou.
Pelão — Mas que equipamento envenenado, né. Quando colocar no computador sai tudo escrito…
Max Eluard — Já transcreve, já edita…
Pelão — Já transcreve, já sai até editado. Eu não sei, você acha que valeu isso que eu falei?
Tacioli — Tudo o que falou, muito, Pelão, muito.
Pelão — O que você vai fazer com isso?
Tacioli — No Gafieiras a gente edita a entrevista e a publica na íntegra. A gente entrevistou recentemente, como você havia falado do Heraldo do Monte, conversamos também com ele.
Pelão — Ele falou?
Tacioli — Falou bastante.
Max Eluard — Foi uma bela conversa.
Pelão — E ele está morando onde?
Max Eluard — Pelão, vou pedir desculpas, mas vou ter de sair correndo, porque preciso pegar minha mulher e meu moleque na festinha.
Pelão — Você vai lá gravar eles! Tchau, velho, bom te ver.
Max Eluard — Tchau, bom mesmo.
Pelão — Desculpa qualquer coisa, se saiu algo errado.
Max Eluard — Foi lindo.
Pelão — Você não vai levar os microfones?
Max Eluard — O Ricardo leva tudo depois. André, valeu.
André de Oliveira — Valeu, Max!
Max Eluard — Depois a gente se fala.
Tacioli — Pelão, você comentou do Tinhorão, que tinha uma relação boa com ele. Como era a sua relação com a imprensa?
Pelão — Muito boa, muito boa. Acho que tinha notícia, mesmo. E era outra imprensa. Tinham caras preparados. Pô, você pegava o Tinhorão, você pegava o Chico de Assis, você pegava o Tárik de Souza, que é um cara fantástico.
Tacioli — Na ativa.
Pelão — É! E tinham outros que não valiam porra nenhuma. Tinha muita gente boa. O Sílvio Lancellotti que cismou em ser cozinheiro e abandonou a música.
André de Oliveira — O disco do Cartola foi muito falado na época e até hoje. Por que você acha que ele se destacou no meio de outras preciosidades que você fez?
Pelão — Sabe que eu não sei porquê? Eu escuto até hoje e falo “Por que?”. Acho que tem belos músicos e o Cartola é um belo poeta, melodista fantástico.
Tacioli — Pra mim fica muito evidente a informalidade, e reforço o que você falou, em deixar o artista…
Pelão — O Cartola entrou no estúdio e não abriu a boca. Eu falava “assim, assim, assado”. Nem para tirar a dentadura ele chiou.
André de Oliveira — Mas você conseguiu fazer com que ele tirasse a dentadura, né?
Pelão — Para não ficar aquele assovio de vez em quando. Ele não usava mesmo, andava com ela no bolso.
Tacioli — Depois do disco, materialmente mudou a vida do Cartola?
Pelão — Mudou totalmente, comprou até uma bela casa lá em Jacarepaguá. Mudou. Ele fazia show o mês todo, ganhando 500, 600 ou mil reais, você vê que mudou bem as coisas, muito bem. Pra ele, para o Nelson, pro Adoniran. O Adoniran tinha mania de falar que eu fui o pai dele no LP. “Tá bom!” Coisa mais fácil de fazer. “Pode gravar amanhã!” “Vai lá, essa música, essa, essa e essa. Todo mundo vai cantar junto!” Nós temos compositores que têm um puta repertório, mas ninguém sabe, ninguém perguntou “quem é esse cara?!”. Então é fácil você fazer!
Tacioli — Pra você, o fato de estar nas ruas, na noite, nos bares, esse trânsito, além da sensibilidade, sempre ajudou…
Pelão — Sempre, a selecionar coisas, a ver o que faltava. “Vamos mudar, vamos fazer isso…”
Tacioli — Mas o sucesso — esses são discos clássicos da discografia brasileira, principalmente esse dos anos 70 –, pra você foi um peso fazer outros discos com essa mesma força? Como foi isso pra você, pessoalmente, na esfera mais íntima? Isso porque são discos muito fortes, emblemáticos…
Pelão — Todo mundo tem mania de perguntar pra mim “Quem é o melhor deles?”. Eu falo: “Todos!”. “Quem é o melhor compositor brasileiro?” “Tem uma lista grande!” “Não pode, estou pedindo pra você falar um nome.” “Um nome eu não falo! Você sabe que tem um monte!” Outro dia quase descobri um Cartola novo no Matogrosso. Eu não fui atrás da coisa, fiquei com medo, sei lá, me bateu o medo.
Tacioli — Mas medo do quê, Pelão?
Pelão — Não sei, de não ir atrás. Dá umas coisas…
André de Oliveira — Recente isso?
Pelão — Faz uns quatro anos. Eu até deixei um disco para eu reescutar, nem sei onde está e nem sei que disco é mais, mas sei que acho, chego ali e bato a mão… Um dia o Nassif estava aqui em casa, ele falou de um pianista cubano, um que tocou em Nova York muito tempo, tem o nome dessa igreja aí…
André de Oliveira — Bola di Nieve.
Pelão — O Bola de Neve. Falei “Eu tenho, vamos ouvir!”. Um monte de fita tudo misturado, peguei e… “Ô, você tem! Dá pra mim! Pelo menos copia pra mim.” Eu sou amigo do Nassif, fiz até um disco com ele, de choro…
Tacioli — O Roda de choro?
Pelão — E fui lançar no Rio de Janeiro. Quando os músicos entraram, aplaudiram, aí o João Macacão sentou, o Nassif deu quatro, começou a tocar e parou. E o Nassif: “Por que você parou?”. “Olha quem está ali na minha frente!” Era o Dino! Então estavam o Dino, o Canhoto, o Meira não foi, Radamés, Jorginho do Pandeiro, estavam os grandes nomes do choro. Eu chamei e eles foram, e todos aprovaram. Eles estavam loucos pra me esculhambar em algo que eu tinha feito, porque eu esculhambava eles. Os caras adoraram! E é bom. Outro dia estava na Sumaré e tocou na Rádio Cultura. “Porra, do caralho! Bom, bem gravado! Essa música? Que música é essa?” E eu vim, estava tudo livre e, de repente, eu fiquei parado na porta da garagem pra escutar. Se entrar na garagem não pega o rádio. E não era aquela que eu tinha feito, do disco do Nassif. Esses discos já me aprontaram duas vezes. Aqui e na Espanha. Eu estava em Barcelona, desci para conhecer o metrô de Barcelona, era à tarde, não tinha movimento. Aí eu sentei, nem me preocupei se ia pegar o próximo, sentei e começo a escutar chorinho no serviço de alto-falante. Eu não sabia quem era. Era o Evandro!
Tacioli — O Evandro foi um sujeito que também não teve o reconhecimento que merecia, né, Pelão?
Pelão — Não teve, não teve. Eu era muito grato a ele por um monte de coisa, ele sempre trabalhou comigo, tocou no meu casamento, porque eu não podia trazer o Época de Ouro pra São Paulo, eles foram tocar de graça pra mim o “Vou vivendo” quando estava saindo da igreja. Pra você ver como eu levo sério a minha vida, “Vou vivendo”. Não adianta, eu preciso dar um jeito de prolongar esses pensamentos, esse jeito que eu gosto de agir, de pensar, de fazer, mas para ser isso eu tenho de ter título, tenho de ser professor, doutor, senão você não pode falar. Mas tem um monte deles que são meus amigos. Tem disco do Adoniran aí?
Tacioli — Do Adoniran eu não trouxe.
Pelão — Mas você tem aquele que tem texto do Antonio Candido?
Tacioli — Eu tenho, sim. Trouxe aqui, mas acho que nem precisa…
Pelão — Esse eu tenho, até dois. Mas você vai deixar o Carlos Cachaça pra mim?
Tacioli — Não faz isso comigo, se você quiser eu copio pra você. (risos)
Pelão — Não, eu quero o disco.
Tacioli — E o Léo Karan, hein? Era um cara…
Pelão — Era muito legal. Esse disco do Adauto Santos…
Tacioli — Ele também é um outro nome que…
Pelão — Aqui são os arranjos do Théo de Barros. Produção e arranjos do Théo. Era pra ser produção minha, daí eu falei “Vamos produzir juntos e você faz.” O Théo é meu irmão, um cara de valor. Esse disco é fantástico, esse disco é inteiro!
Tacioli — E esse daqui: Dalmo Castello?
Pelão — Dalmo Castello é parceiro do Cartola, até do Nelson. Fez “Verde que te quero ver”. Eu ia gravar, mas eles falaram que não porque iam inscrever num festival em Minas, nunca soube desse festival. Ele era parceiro quente mesmo!
(toca o interfone)
Tacioli — Quem mais aqui? E o Paraná…
Pelão — Esse disco eu conheço bem.
Tacioli — Os outros já (mostrei). Você falou do Marcus Pereira, do tributo…
(toca o interfone)
Pelão — Quem é?
Maria Cristina — Tulica!
Pelão — Tulica?! Eu paro tudo! Ela trouxe doce lá da terra dela, de Minas.
Tacioli — Pelão, a gente não quer mais abusar do seu tempo, queremos agradecer…
Pelão — Não, não, fica à vontade, é legal a gente se ver de vez em quando pra nada, pra bater papo, tomar um chope, pra nada! Pô, você só me procura quando você quer, quando tem interesse… (risos)
Tacioli — Mas a gente vem comer o bolo e tomar cerveja.
Pelão — É, porra! Serve pra você também, menino! Esse é filho de um grande jornalista.
André de Oliveira — Quando é o seu aniversário, Pelão?
Pelão — Primeiro de outubro. Até hoje eu tenho conseguido fazer o famoso feijão. O Nassar não perde um. Ele mora aqui também.
André de Oliveira — É, ele mora aqui perto.
Pelão — Você está meio atrasado, se manda… (risos)
Tacioli — Pelão, foi ótimo. Fazia muito tempo… Olá, tudo bem?
(Tulica entra no apartamento)
Pelão — Dá licença, interrompo tudo para atender a Tulica. Vocês estão pensando o quê, que são alguma merda da vida? Eu não quero isso!
Tulica — Eu não ia te trazer isso! Mamãe mandou um beijo!
Pelão — E não veio.
Tulica — Está com gripe, aí já viu…
Pelão — Põe isso pra lá porque senão eles vão comer… (risos) Não, eles vão querer experimentar.
Tacioli — Pelão, tem a parte chata agora.
Pelão — É?
Tacioli — Assinar a autorização de tudo o que a gente conversou…
Pelão — Tá, e quanto ao pagamento, precisa da conta bancária…
Tacioli — É só mandar o boleto que a gente acerta.
Pelão — (ri) Eu mando o boleto? (risos)
Tacioli — Pelão, obrigado mais uma vez! Agora é só a gente desmontar o nosso maquinário…
Pelão — Até que já desmontaram muita coisa…
Tacioli — Já, as câmeras. Pelão, posso tirar o microfone?
Pelão — Pode. Você é o patrão, nunca faz isso.
Tacioli — Nunca faço. Dá licença!
Pelão — E você já conhecia o garoto?
Tacioli — Conheci hoje; o Max já o conhecia.
Pelão — Ele é bom, vai longe, é meio maluco como vocês. (risos) Trabalha muito de graça.
André de Oliveira — Pois é, um problema isso.
Tacioli — É um problema, mas é paixão, né, Pelão, a gente vai tocando…
Entrevista realizada em 24 de agosto de 2013 na residência de Pelão, na zona oeste paulistana.
Entrevistadores André de Oliveira, Max Eluard e Ricardo Tacioli
Produção, transcrição, edição e texto de abertura Ricardo Tacioli
Fotos Thaís Taverna
Registro audiovisual Max Eluard

"Não vim aqui fazer gracinhas!"

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