Por meio de longas entrevistas, o Gafieiras reúne histórias da música produzida no Brasil. Esse é seu negócio. Um bate-papo descontraído com artistas e profissionais que ocupam diferentes posições nesta engrenagem que é a expressão artística mais popular, vulgar e acessível.
A música está em todo o canto, seja como produto, seja como um componente avulso da vida cotidiana. Por isso, o Gafieiras não se fecha em um ou outro gênero ou estilo, o que poderia dar uma certa consistência editorial, mas entende que o subjetivo (o desejo de se manifestar), as infinitas funções que a música têm e uma série de determinações sociais constroem aquilo que ajudam a moldar a nossa existência. Afinal, não são somente as prediletas do Spotify, os discos que se acumulam ou os shows que se paga para assistir que espelham a identidade de qualquer sujeito. Outras seleções musicais aleatórias à predileção individual compõem essa memória social e posicionam o ouvinte no tempo e no espaço: do jingle à trilha sonora de uma novela, do sopro melodioso do amolador de facas às cantigas de ninar.
Ao tentar se despir daquilo que é categorizado como “música boa ou de qualidade”, o passeio pelo dial é mais surpreendente e revelador, e permite descobrir outras camadas da tal identidade brasileira. Convidar aqueles e aquelas que raramente teriam voz no espaço ocupado historicamente por gêneros e artistas eleitos como representantes de um bom gosto é bagunçar a festa, deixá-la mais divertida, surpreendente e livre de não-me-toques.
Desde a popularização da Internet e das ferramentas digitais, os registros estão muito mais diversos e as histórias são contadas por quem, de fato, as vivem. Reconhecer esses protagonistas e tratá-los com o mesmo cuidado e apreço editoriais que outro estilo chancelado receberia, é mudar a angulação pela qual se entende a música no Brasil. E isso sempre foi um motor criativo do Gafieiras, que não deixa de reconhecer seu lugar de privilégio e seus preconceitos.
A entrevista nua e crua de duas a três horas de duração é o formato escolhido para expor essas histórias, em que o primeiro plano é a voz e o pensamento de quem está do outro lado da mesa. Estimular o passeio crítico pela própria trajetória, valorizando a oralidade, os acentos e as pontuações da vida real aproximam o leitor ou o ouvinte da experiência do/a orador(a) convidado(a).
Soma-se ainda que essas entrevistas não têm o apreço investigativo que os aficionados desejam; guia-se pelo interesse do não-letrado, pelo respeito à diversidade e pela inclusão do leitor ou do ouvinte, para que a mesa sempre fique aberta a todas as pessoas.
Nesta nova temporada, depois do silêncio iniciado em 2016, uma quebra do protocolo que o próprio Gafieiras estabeleceu como padrão: pode-se, em diversos momentos, abrir mão da condução de uma entrevista feita por vários entrevistadores, para um único. O afamado conflito de agendas agora é novo inquilino, e uma estrutura mais enxuta pode conviver com oportunidades e sortes de toda a natureza e garantir um novo ritmo de realização e de publicação. O censo de urgência deve superar o do cerimonial.
Por fim, como tiro de largada, serão publicadas entrevistas inéditas do acervo, como as de Guinga, Nasi e Odair José; também algumas pré-Gafieiras que colaboraram para a conceituação do que viria a ser este projeto. Tudo em nome dessa diversidade de vozes e de origens, da importância de se iluminar trajetórias invisibilizadas e contribuir para a ampliação da memória da música popular. Entrevistas como a de Pena Branca que, realizadas em outro contexto, podem se perfilar às originalmente feitas pelo Gafieiras.
É isso, minha gente.
Avante!
São Paulo, março de 2024
editor. Ricardo Tacioli
conselho diretivo. Edson Natale e Ricardo Tacioli
fotógrafo. Renato Nascimento
assessoria jurídica. Olivieri Associados
colaboradores. Débora Pill, Edson Natale, Renato Nascimento, Rubens Amatto (Casa de Francisca), Willian Galdino (Olivieri Advogados Associados)
agradecimentos Agência Thema (Thea Severino e Márcio Freitas), Aloisio Milani, Andreia do Nascimento, Celso de Campos Jr., Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Greg Lixandrão, Jefferson Dias, Max Eluard, Otavio Valle (Tatau), Roberto Di Stadio
equipe Dafne Sampaio (até 2011), Daniel Almeida (até 2009), Max Eluard e Ricardo Tacioli
parceiras(os) em entrevistas Alexandre Pavan, Ana Costa Santos (Analu), Cristina Ceschi, Diego Arraya, Douglas Rodrigues, Edson Natale, Euclides Marques, Fernando de Almeida, Flávio Monteiro, Flávio Rosselli, Giovanni Cirino, Henrique Parra, Itamar Dantas, Jefferson Dias, João Correia, João Paulo Pereira, Julio de Paula, Keka Reis, Lia Machado Alvim, Manoela Ziggiatti, Manu Maltez, Mauricio Pereira, Max Eluard, Pedro Nakano, Pitris Claudino, Renato Nery, Rune Tavares, Renato Nascimento, Roberta Valente, Rogério Trentini, Rubens Amatto, Sérgio Seabra, Thaís Taverna, Tim Bernardes, Zé Luiz Soares
transcritoras(es) Adriana Campos, Andreia do Nascimento, Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Fabiana Gallardo, Jairo Fajersztajn, Marllon Chaves, Marcos (Jaca), Paulo Nunes, Ricardo Tacioli
colunistas Alexandre Matias, Alexandre Petillo, Breno Martins Campos, Dafne Sampaio, DJ Paulão, Daniel Almeida, Marcelino Freire, Marcelo Aith, Mauricio Pereira, Renato Cunha, Ricardo Tacioli, Sérgio Seabra, Seu Miranda, Thaty Mariana
fotógrafas(os) Carolina Bittencourt, Dafne Sampaio, Fernando Almeida, Fernando Angulo, Flávio Serafini, Jefferson Dias, Henrique Parra, Kika Braga, Luciana Mendonça, Maurício Hirata, Renato Nascimento, Thaís Taverna e ao Grupo de Fotografia do Gafieiras
revisor(a) de texto Ana Lima Cecilio (2003), Rogério Trentini (2002–2009)
desenvolvedores Eric Mantoani (2011), Flávio Rosselli (2002–2010), Renan Magalhães (2011–2016), Sérgio Seabra (2001)
designers Alexandre Ferreira (2011), Flávio Rosselli (2002–2010), Renan Magalhães (2016)
agradecimentos À todas(os) citadas(os) acima + Adriana Balsanelli, Adriana Rielo, Agenda do Samba & Choro (+ Paulo Eduardo Neves), Alessandra Balles Cestarolli, Aloisio Milani, André de Oliveira, Antonio Gutierrez (Gutie), Bar Brahma, Bar Cu do Padre, Bara, Benjamim Taubkin, Bruno Garcia, Bruno Medina (Los Hermanos), Bureau Export de la Musique Française, Canto da Ema, Carol Misorelli, Carolina Toledo, Célia Chaves, Central das Artes, Celso de Campos Jr., Cervantes, Cidão (in memoriam), Cris Olivieri, Cybercafé Na Rede, Daniel D’Angelo, Daniela Camargo, Daniela Weiers, Denise Pinto, Eliane Verbena, Eliza Capai, Erica Atarashi, Erico Azevedo, Espaço Revista Cult, Fellipe Ciccone, Felippe Rosenburgo, Fernando Maranho, Filipe Cavalieri, Glória Gadelha, Graça Seligman (MIS/SP), Ivan Vilela, Jefferson Dias, João Cícero, João Correia, João Mário Linhares, José Jacinto do Amaral, Julio Moura, KK Manomi, Letícia de Paula, Lia Machado Alvim, Lili Molina, Lilian Aidar, Lola, Lua Nova, Luciana Cruz, Luiz Paulo Lima, Macan Studios, Manoela Ziggiatti, Manu Maltez, Marcel Arede, Márcia Duarte, Márcio de Paula (Rádio Gazeta), Marco Bailão, Maria de Fátima Rimoli, Maria Luiza Kfouri (in memoriam), Mariana Nogueira, Mauricio Pereira, Max Eluard, Mylton Severiano (in memoriam), Mônica (Palavra Cantada), Nelson Valencia, Patrícia Decia, Paula Gomes, Paulinho Rosa, Pedro Alexandre Sanches, Pelão (in memoriam), Raquel Zangrandi, Raquel Zorzi, Renato Nascimento, Ricardo Alexandre, Ricardo Pieralini, Rita Menezes, Rivaldo Corulli, Roberta Valente, Roberto Ruiz, Rodolfo Figueiredo, Roger Carlomagno, Rogério Trentini, Rozana Lima (Villagio Café), Rubens Amatto, Sérgio Fogaça, Sergio Mansur Andalaft, Sérgio Seabra, Showlivre, Sonia Hamburger, Sonoe Juliana Ono Fonseca, Tatiana Engelbrecht, Tatiana Librelato, Teresa Benassi, Thaís Taverna, Thiago L. Marques, Viviane Eduardo, Walquíria Raizer, Zeca Ferreira, e a todas(os) participantes dos Matinês e projetos especiais.