Brincadeiras de roda, estórias e canções de ninar

Quando o quintal era o mundo: infância, imaginação e saudade.
Detalhe do encarte do disco Brincadeiras de roda, estórias e canções de ninar, de 1983, com arte e ilustrações criadas por Elifas Andreato. (Crédito: Reprodução)
Detalhe do encarte do disco Brincadeiras de roda, estórias e canções de ninar, de 1983, com arte e ilustrações criadas por Elifas Andreato. (Crédito: Reprodução)

Por Dafne Sampaio

Publicado originalmente em 2003

Tudo era quintal. Casa eram duas coisas, comer e dormir. O resto, tudo, era quintal. Então, era uma vez este quintal. O rio lá embaixo, a estrada vindo pelo lado, terra batida, e árvores de sombra e sol. O menino podia subir alto e jogar mangas ou jambos pra assustar a menina e ela só ia dizer… menino bobo. Crianção. Imagina só, fazer uma coisa dessas com a filha do Rei da Espanha! Eu vou mandar meu pai dar umas chibatadas nesse… mas ele queria afastar os sapos e salvar a princesa daqueles bichos nojentos. Ela saiu gritando… que medrosa!

Era uma vez a menina e outras meninas, todas em uma roda, batendo as mãos e cantando. O menino, e os outros meninos, ficavam de fora pensando em pular no rio ou tentando entender sobre o que elas… era algo sobre um moço que ia passando perto de um bebedor e o chapéu dele caiu, aí o amor dele pegou… coisa estranha! O que tem a ver chapéu e amor? Oras bolas, quem chegar por último no rio é mulher do padre! E elas riam… uma volta, volta e meia vamos dar. 

Era uma vez uma princesa muito triste que vivia no alto de uma montanha. Foi assim que contaram. E no alto dessa montanha tinha uma figueira. A gente ali em volta prestando atenção. Na verdade era na figueira que a princesa vivia. O quintal todo em silêncio, nem vento. O rio parou. E toda noite a princesa sonhava que um pássaro todo colorido pousava em dos galhos da figueira e cantava uma música muito linda. A música enchia a figueira de flores e a princesa chorava, mas de felicidade. E ela acordava e nada de pássaro, nem flores, nem música. Ela podia descer da árvore, né? Que menina boba! Não fala assim dela, coitadinha, tá esperando o príncipe…

Era uma vez um quintal cheio de árvores, frutos e crianças. Ele ficava todo amarelo durante o dia e azul no final de tarde. Todos brincavam, inclusive os bichinhos pelo chão, brincavam sempre, pelo menos até a vovó chamar. É hora do almoço, é hora do lanche, lavando as mãos. O quintal desaparecia com a voz da vovó, desaparecia também com o fim das férias e desapareceu por completo ali pelos 16 anos com os namoros, os bailinhos e os beijos. Sumiu. E o que foi de vidro, quebrou-se; o que foi de papel, molhou-se; e entrou por uma porta, saiu pela outra; o Rei, meu Senhor, que nos conte outra.

Capa do álbum Brincadeiras de roda, estórias e canções de ninar, lançado em 1983 pelo Selo Eldorado e produzido por Aluízio Falcão. (Crédito: Reprodução)
Capa do álbum Brincadeiras de roda, estórias e canções de ninar, lançado em 1983 pelo Selo Eldorado e produzido por Aluízio Falcão. (Crédito: Reprodução)

Dafne Sampaio

Jornalista, fotógrafo, cientista social e um dos fundadores do Gafieiras

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