Inédita: entrevista realizada em 2011 com o cantor e compositor Odair José. (Crédito: Thaís Taverna/Gafieiras)

Em primeira pessoa

Por meio de longas entrevistas, o Gafieiras reúne histórias da música produzida no Brasil. Esse é seu negócio. Um bate-papo descontraído com artistas e profissionais que ocupam diferentes posições nesta engrenagem que é a expressão artística mais popular, vulgar e acessível.

A música está em todo o canto, seja como produto, seja como um componente avulso da vida cotidiana. Por isso, o Gafieiras não se fecha em um ou outro gênero ou estilo, o que poderia dar uma certa consistência editorial, mas entende que o subjetivo (o desejo de se manifestar), as infinitas funções que a música têm e uma série de determinações sociais constroem aquilo que ajudam a moldar a nossa existência. Afinal, não são somente as prediletas do Spotify, os discos que se acumulam ou os shows que se paga para assistir que espelham a identidade de qualquer sujeito. Outras seleções musicais aleatórias à predileção individual compõem essa memória social e posicionam o ouvinte no tempo e no espaço: do jingle à trilha sonora de uma novela, do sopro melodioso do amolador de facas às cantigas de ninar.

Ao tentar se despir daquilo que é categorizado como “música boa ou de qualidade”, o passeio pelo dial é mais surpreendente e revelador, e permite descobrir outras camadas da tal identidade brasileira. Convidar aqueles e aquelas que raramente teriam voz no espaço ocupado historicamente por gêneros e artistas eleitos como representantes de um bom gosto é bagunçar a festa, deixá-la mais divertida, surpreendente e livre de não-me-toques.

Desde a popularização da Internet e das ferramentas digitais, os registros estão muito mais diversos e as histórias são contadas por quem, de fato, as vivem. Reconhecer esses protagonistas e tratá-los com o mesmo cuidado e apreço editoriais que outro estilo chancelado receberia, é mudar a angulação pela qual se entende a música no Brasil. E isso sempre foi um motor criativo do Gafieiras, que não deixa de reconhecer seu lugar de privilégio e seus preconceitos.

A entrevista nua e crua de duas a três horas de duração é o formato escolhido para expor essas histórias, em que o primeiro plano é a voz e o pensamento de quem está do outro lado da mesa. Estimular o passeio crítico pela própria trajetória, valorizando a oralidade, os acentos e as pontuações da vida real aproximam o leitor ou o ouvinte da experiência do/a orador(a) convidado(a).

Soma-se ainda que essas entrevistas não têm o apreço investigativo que os aficionados desejam; guia-se pelo interesse do não-letrado, pelo respeito à diversidade e pela inclusão do leitor ou do ouvinte, para que a mesa sempre fique aberta a todas as pessoas.

Nesta nova temporada, depois do silêncio iniciado em 2016, uma quebra do protocolo que o próprio Gafieiras estabeleceu como padrão: pode-se, em diversos momentos, abrir mão da condução de uma entrevista feita por vários entrevistadores, para um único. O afamado conflito de agendas agora é novo inquilino, e uma estrutura mais enxuta pode conviver com oportunidades e sortes de toda a natureza e garantir um novo ritmo de realização e de publicação. O censo de urgência deve superar o do cerimonial.

Por fim, como tiro de largada, serão publicadas entrevistas inéditas do acervo, como as de Guinga, Nasi e Odair José; também algumas pré-Gafieiras que colaboraram para a conceituação do que viria a ser este projeto. Tudo em nome dessa diversidade de vozes e de origens, da importância de se iluminar trajetórias invisibilizadas e contribuir para a ampliação da memória da música popular. Entrevistas como a de Pena Branca que, realizadas em outro contexto, podem se perfilar às originalmente feitas pelo Gafieiras.

É isso, minha gente. Avante!

São Paulo, março de 2024

No Fusca: o adesivo criado no início dos anos 2000 com a fonte que marcou a primeira fase do Gafieiras. (Crédito: Dafne Sampaio/Gafieiras)

2024/6

Direção e edição: Ricardo Tacioli Serafini
Conselho consultivo: Edson Natale, Renato Nascimento
Fotógrafo: Renato Nascimento
Entrevistadoras convidadas: Ananda Passarelli, Daniela Cucchiarelli, Débora Pill, Paula Carvalho
Site: Ricardo Tacioli Serafini (desenvolvimento) / Agência Thema (direção de arte)
Gestão das redes sociais: Brenda Amaral
Assessoria jurídica: Olivieri – Advogados Associados
Colaboradores: Celso de Campos Jr., João Nascimento, Silvania Araújo
Agradecimentos: Aloísio Milani, Andreia do Nascimento, Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Greg Lixandrão, Jefferson Dias, Leandro Nunes, Max Eluard, Otavio Valle (Tatau), Roberto Di Stadio, Rubens Amatto (Casa de Francisca), Willian Galdino (Olivieri – Advogados Associados)

2017/23

Gestão e manutenção: Ricardo Tacioli Serafini

2001/16

Equipe: Dafne Sampaio (até 2011), Daniel Almeida (até 2009), Max Eluard e Ricardo Tacioli Serafini

Parceiras(os) em entrevistas: Alexandre Pavan, Ana Costa Santos (Analu), Cristina Ceschi, Diego Arraya, Douglas Rodrigues, Edson Natale, Euclides Marques, Fernando de Almeida, Flávio Monteiro, Flávio Rosselli, Giovanni Cirino, Henrique Parra, Itamar Dantas, Jefferson Dias, João Correia, João Paulo Pereira, Julio de Paula, Keka Reis, Lia Machado Alvim, Manoela Ziggiatti, Manu Maltez, Mauricio Pereira, Max Eluard, Pedro Nakano, Pitris Claudino, Renato Nery, Rune Tavares, Renato Nascimento, Roberta Valente, Rogério Trentini, Rubens Amatto, Sérgio Seabra, Thaí­s Taverna, Tim Bernardes, Zé Luiz Soares

Transcritoras(es): Adriana Campos, Andreia do Nascimento, Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Fabiana Gallardo, Jairo Fajersztajn, Marllon Chaves, Marcos (Jaca), Paulo Nunes, Ricardo Tacioli

Colunistas: Alexandre Matias, Alexandre Petillo, Breno Martins Campos, Dafne Sampaio, DJ Paulão, Daniel Almeida, Marcelino Freire, Marcelo Aith, Mauricio Pereira, Renato Cunha, Ricardo Tacioli, Sérgio Seabra, Seu Miranda, Thaty Mariana

Fotógrafas(os): Carolina Bittencourt, Dafne Sampaio, Fernando Almeida, Fernando Angulo, Flávio Serafini, Jefferson Dias, Henrique Parra, Kika Braga, Luciana Mendonça, Maurício Hirata, Renato Nascimento, Thaís Taverna e ao Grupo de Fotografia do Gafieiras

Revisor(a) de texto: Ana Lima Cecilio (2003), Rogério Trentini (2002–2009)

Desenvolvedores: Eric Mantoani (2011), Flávio Rosselli (2002–2010), Renan Magalhães (2011–2016), Sérgio Seabra (2001)

Designers: Alexandre Ferreira (2011), Flávio Rosselli (2002–2010), Renan Magalhães (2016)

Agradecimentos: À todas(os) citadas(os) acima + Adriana Balsanelli, Adriana Rielo, Agenda do Samba & Choro (+ Paulo Eduardo Neves), Alessandra Balles Cestarolli, Aloisio Milani, André de Oliveira, Antonio Gutierrez (Gutie), Bar Brahma, Bar Cu do Padre, Bara, Benjamim Taubkin, Bruno Garcia, Bruno Medina (Los Hermanos), Bureau Export de la Musique Française, Canto da Ema, Carol Misorelli, Carolina Toledo, Célia Chaves, Central das Artes, Celso de Campos Jr., Cervantes, Cidão (in memoriam), Cris Olivieri, Cybercafé Na Rede, Daniel D’Angelo, Daniela Camargo, Daniela Weiers, Denise Pinto, Eliane Verbena, Eliza Capai, Erica Atarashi, Erico Azevedo, Espaço Revista Cult, Fellipe Ciccone, Felippe Rosenburgo, Fernando Maranho, Filipe Cavalieri, Glória Gadelha, Graça Seligman (MIS/SP), Ivan Vilela, Jefferson Dias, João Cícero, João Correia, João Mário Linhares, José Jacinto do Amaral, Julio Moura, KK Manomi, Letícia de Paula, Lia Machado Alvim, Lili Molina, Lilian Aidar, Lola, Lua Nova, Luciana Cruz, Luiz Paulo Lima, Macan Studios, Manoela Ziggiatti, Manu Maltez, Marcel Arede, Márcia Duarte, Márcio de Paula (Rádio Gazeta), Marco Bailão, Maria de Fátima Rimoli, Maria Luiza Kfouri (in memoriam), Mariana Nogueira, Mauricio Pereira, Max Eluard, Mylton Severiano (in memoriam), Mônica (Palavra Cantada), Nelson Valencia, Patrícia Decia, Paula Gomes, Paulinho Rosa, Pedro Alexandre Sanches, Pelão (in memoriam), Raquel Zangrandi, Raquel Zorzi, Renato Nascimento, Ricardo Alexandre, Ricardo Pieralini, Rita Menezes, Rivaldo Corulli, Roberta Valente, Roberto Ruiz, Rodolfo Figueiredo, Roger Carlomagno, Rogério Trentini, Rozana Lima (Villagio Café), Rubens Amatto, Sérgio Fogaça, Sergio Mansur Andalaft, Sérgio Seabra, Showlivre, Sonia Hamburger, Sonoe Juliana Ono Fonseca, Tatiana Engelbrecht, Tatiana Librelato, Teresa Benassi, Thaí­s Taverna, Thiago L. Marques, Viviane Eduardo, Walquíria Raizer, Zeca Ferreira, e a todas(os) participantes dos Matinês e projetos especiais.

Toda música importa! A partir desse tema, Daniel Almeida criou em 2001 uma série de ilustrações, como essa acima, "A música dos estivadores".

Veja os primeiros editorais do Gafieiras

Garçom, mais umas!

O Gafieiras é um site de entrevistas. De grandes entrevistas. Grandes mesmo! Regadas com malte, lúpulo ou cana, essas conversas não têm um gancho. Lançamento de disco? Uma cena? Tendência? Nada disso! É um site de entrevistas. De grandes entrevistas.

O Gafieiras convoca somente jogadores da música brasileira. Dos areões, várzeas e terrenos baldios aos gramados sintéticos e estádios iluminados. Craques vitalícios e instantâneos da música produzida no país. Ídolos de 33, 45 e 78 rotações e até da era digital.

Como o futebol, a música e seus protagonistas precisam ser vistos e apresentados por um outro ângulo. A necessidade de consumir e de nutrir uma indústria cultural desarticulada transformou o mercado fonográfico brasileiro e os meios que o divulgam numa partida de churrasco. Nessas horas, só os bêbados acreditam que a peleja é um clássico.

Reconhecer e assumir a variedade estilística da música nacional é um começo. Encarar seus atores de frente e dar espaço para a argumentação ajuda a desembaçar os preconceitos e revela a consistência do sucesso ou do fracasso. Afinal, todo mundo quer levar o Motorádio para casa.

Livre de esquemas de jogo, da pressão de técnicos e professores e das armações milionárias dos cartolas, o Gafieiras é um combinado sem estrelas abençoado pela gana do São Caetano, do Botafogo de Ribeirão e do Paulista de Jundiaí. É a volta do espírito amador! Do amor pela camisa! Essa liberdade permite a esquadra de entrevistadores tabelar com astros AM, peladeiros da velha guarda, instrumentistas virtuosos, calouros, pop stars e locutores da tradição musical brasileira.

No gramado do Gafieiras a bola corre. Não tem morrinho artilheiro, torcida organizada, estatística, show do intervalo e câmeras exclusivas; replay é repeteco e corner é escanteio. O texto é a fotografia da entrevista, sem edições mágicas, tira-teima ou jogadas debaixo do pano, com dribles, contra-ataques, frangos e gols de placa. Pela ocular privilegiada do fotógrafo, o registro em preto-e-branco do goleador.

Mas nesse casamento do jornalismo com a música brasileira, muitos entraram na dança do flamenguista e bom cabelo Nunes (“Fiz que fui, não fui e acabei fondo”). Para evitar essas derrapadas, o Gafieiras debruça-se sobre a filosofia mateusiana (“O difícil, vocês sabem, não é fácil”), ergue a cabeça, o copo, os braços, brinda, saúda, sobe na mesa, tenta manter a postura, umas para o santo, outras para Leônidas, Jorge Veiga, Pagão, Pixinga, Dadá, Clementina, Robertão e Zizinho. E beijando a camisa, tira do bolso a flâmula, salta, soca o ar e clama pelo garçom: “Mais umas!”.

Tintim a todos, o Gafieiras está em campo.

Ilustração-símbolo do Gafieiras em seus primeiros anos de existência, com a não-romantização da música no Brasil. (Crédito: Daniel Almeida/Gafieiras)

O mesmo microfone para todos

“Há dois tipos de música, a feia e a bonita”, definia Tião Carreiro. Além de atropelar qualquer intenção de normatização da música, a classificação do violeiro e compositor mineiro transfere ao ouvinte autoridade para julgá-la.

Os valores que cada música agrega, os seus agentes, o seu público, a originalidade e a legitimidade de sua produção e, conseqüentemente, sua perenidade são atributos complexos e não absolutos. A música é uma expressão. Traduzir como se dá o diálogo entre a época e o meio em que ela foi criada é fundamental para se evitar caricaturas e condenações gratuitas.

Com isso em mente, e atento aos processos de produção e reprodução que mantêm a indústria cultural, o Gafieiras tenta estender o novelo que compõe a música brasileira. As longas entrevistas publicadas no site são sua principal ferramenta. A escolha dos entrevistados ultrapassa os gostos pessoais. A estratégia é passar o mesmo microfone aos diferentes representantes da música brasileira, e revelar como eles entendem a realidade artística no Brasil, e como nela interferem.

Mas essa apresentação não nasce de uma relação passiva do Gafieiras com os artistas que entrevista. Há, claramente, a consciência de que a variedade de entrevistados estampa diferentes pontos de vista sobre a música produzida no país. Isso viabiliza um panorama crítico e redimensiona a própria história da música brasileira.

As próximas entrevistas do Gafieiras reforçarão esse caminho – divergente e complementar. O rap, o pop, o eletrônico, o sertanejo, o samba, o rock, todos estarão no mesmo salão. Algumas dessas novas entrevistas podem surpreender os leitores que guardam alguma resistência com essa diferença. Superar esse degrau gerará instrumentos para uma discussão fundamentada e menos preconceituosa. Poderá, ainda, promover (em sua escala) uma valorização do que se ouve e do que não se ouve no Brasil. E esse norte é o que o Gafieiras busca seguir.

Cinco anos de história

Em setembro de 2001, num apartamento na Vila Mariana, São Paulo, tentava definir a linha editorial do site que estava prestes a nascer. A matéria-prima era a música brasileira. A idéia para apresentá-la baseava-se na simplicidade da estética e da comunicação. Em vez de um público-alvo, um conteúdo-alvo que fosse compreendido por diferentes públicos. As referências estavam à mesa: a informalidade das rádios AM, as entrevistas coletivas e o humor perspicaz do Pasquim, a modernidade gráfica de César Vilela para o selo Elenco, a certeza da viabilidade de longas entrevistas na internet, a diversidade profissional da futura equipe, e a perenidade das fotos preto-e-branco. O caminho que não interessava também era nítido: páginas excessivamente coloridas, home com navegação vertical, amontoado de seções, utilização gratuita de recursos pirotécnicos e linguagem juvenil.

E foi em novembro daquele ano que a primeira versão do Gafieiras surgiu. Era um bem-bolado entre o sistema de publicação de um blog e a estampa de uma página gratuita. Desenvolvido por Sérgio Seabra, o site de fundo branco e detalhes em vermelho trazia a figura de um rapaz rasgando um pandeiro assinada por Daniel Almeida e a entrevista com Eduardo Gudin.

De lá para cá, muita coisa mudou. Desde seu layout e programação arquitetados por Flávio Rosselli, às entrevistas que já passam de trinta, às notícias e às colunas, além das intervenções no meio físico e na própria Internet (como o Matinê, o especial infantil para adultos que o Gafieiras criou em 2004).

Uma coisa, porém, não se alterou nestes cinco anos. A certeza de que a música brasileira pode ser vista e ouvida de uma outra maneira. Essa percepção faz com que haja um outro entendimento dos processos e dos contextos que envolvem a música; para que se compreenda sua subjetividade (afinal, a música que você gosta eu posso não gostar) e o papel de seus protagonistas (músicos, jornalistas, produtores, ouvintes, etc.). Fundamental também para que o enquadramento da memória da música brasileira deixe de ser exclusiva de “especialistas” e de “jornalistas de produtos”; todo mundo é dono de histórias, basta dar condições para que elas sejam ouvidas, registradas e reconhecidas. O conceito de memória ganha nova dimensão: de sisuda e acadêmica, torna-se viva, atraente e instigante. Afinal, é só reconhecendo-se como agente de uma história para preservá-la e divulgá-la. Sacou? É mais ou menos por aí…