Artista paraibana reflete sobre o melhor momento de sua carreira, além de sua adolescência, religiosidade, discos lançados e as reviravoltas da vida.
“Uma nova Bethânia? Kátia de França, morena bonita que se esconde atrás da roupa que é um misto de cangaço com polícia, é a surpresa do show. Batendo violão com energia incrível e cantando com uma afirmação de piano clássico, ela é aplaudida em cena aberta pela força de sua interpretação. Suas músicas, em que se veem componentes dos Beatles e de tango, alcançam o nível do ‘regional universal’.”
Em uma nota de autoria desconhecida publicada em 22 de julho de 1980, um jornal de Campinas comenta o show na cidade do interior paulista do Projeto Pixinguinha, da Funarte, com Jackson do Pandeiro e Anastácia, destacando a participação da artista ainda novata para o grande público. Catarina Maria de França Carneiro, paraibana de 33 anos, havia lançado no fim do ano anterior seu primeiro álbum, 20 palavras ao redor do sol, e já não usava mais o K em seu nome artístico. Nos shows ao lado do rei do ritmo e da rainha do forró, deixou a timidez que a define fora do palco e se fez entre as majestades.
Hoje, aos 78 anos, Cátia de França é das figuras mais icônicas da música popular brasileira. O citado disco de estreia, produzido por Zé Ramalho e Carlos Alberto Sion e lançado em 1979, foi redescoberto décadas depois por jovens no YouTube, tornando-se objeto de culto. Apesar de ser reconhecida principalmente pela música, suas criações transbordam para a literatura, teatro, cinema e artes visuais, com o vigor de quem cresceu devorando livros e experimentando ritmos e instrumentos como o piano, sanfona, violão, flauta e percussão.
Negra e lésbica, essa pessoense nascida em 13 de fevereiro de 1947 é filha de Exu e foi a primeira mulher a tocar guitarra em um festival de música na Paraíba, em 1970; atuou no teatro político e foi atravessada por João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Manoel de Barros, Eduardo Galeano, Elvis Presley e Thelonious Monk.
Sua música reflete uma mistura rítmica que abraça o rock, o blues, o reggae, a moda de viola nordestina, o galope e o jazz, resultando em um som vibrante e autêntico. Um “universal regional” e não um “regional universal”, como arriscou categorizá-la o periódico campineiro. Ou, como definiu certa vez, “música popular mundial”. Para ela, o humor e a irreverência são fundamentais para lidar com as adversidades, como o “susto do ostracismo”, e a política — algo evidente em suas composições e performances ao vivo.
Esta entrevista coletiva foi realizada dois dias depois dos shows de lançamento do disco No rastro de Catarina, na comedoria do Sesc Pompeia, em São Paulo. Era manhã de 22 de abril de 2024, uma segunda-feira, e o estúdio fotográfico em frente a uma escola pública acolheu a artista e sua produtora Dina Faria. E esses elementos mais “concretos” se mostraram profundamente conectados a pontos fundamentais de sua obra: comunidade, ativismo e educação. Como Cátia canta, “Minha vida é uma rede / Grande é minha luta / Muita é minha sede / Vida feito leito pra embalar / E o destino balançar / Em cada ano que passa / É cada batalha que eu ganho / No risco que não tem tamanho”. Vai, Catarina!
02. Início na música / Tuba / Pixinguinha / Orquestra Tabajara / Nelson Cavaquinho
03. Trabalho na farmácia / Aeronáutica / Trombone / Nome artístico
04. São Paulo / Anos 1950 / Drogas / Baden Powell e Cyl Farney / Estados Unidos
05. Saxofone / Sonny Rollins / Medo / Casé / Acidade nos Estados Unidos / Moacir Santos
06. Vida na França / Show no MIS / Curta Viva Raul! / Maria Bethânia / Discografia / Improvisação
Débora Pill — Posso colocar (o microfone)?
Cátia de França — Pode!
Débora Pill — Pode falar alguma coisinha, Cátia?!
Cátia de França — Opa, certo! Tô feliz demais!
Débora Pill — Pronto! O teste “tô feliz demais” já abençoou [a entrevista]. (risos)
Cátia de França — Estou meio longe da mesa, né, vou me aproximar mais.
Ricardo Tacioli — Cátia, quer café?
Cátia de França — Elas já souberam quando eu tomo café o que que eu viro. (ri)
Ricardo Tacioli — Ah, é?
Cátia de França — Não, é?! Eu tomo água mesmo.
Edson Natale — Ela falou que é um Sonrisal nordestino. (risos)
Cátia de França — Quando eu tomo isso digo coisas instigantes.
Ricardo Tacioli — Você está nervosa?
Cátia de França — Não, não, eu não tô, não!
Ricardo Tacioli — Eu tô! (risos)
Cátia de França — A gente fica, é um território diferente e a gente chegando, mas é uma alegria demais. Eu fico o tempo todo levitando, porque é um reconhecimento… Onde moro não é todo mundo que [me conhece]… Embora internet todo mundo tenha, mas não existe isso [o reconhecimento] quando eu vou ao supermercado. Eu tenho uma vida bem [simples]… Então, eu não tenho essa de saber com quem está lidando, entende? E eu não sou daquele jeito: “Sabe com quem está falando?”! Não! Eu moro numa serra. (n.e. São Pedro da Serra, na região de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro) Eu cheguei lá em 2005; quando eu cheguei, a internet demorava tanto que a gente fazia a palavra cruzada. (risos) Demorava muito. Hoje em dia, não, depois da epidemia [de Covid-19] tem fibra óptica e o povo fugindo para lá, pra serra.
Ricardo Tacioli — A entrevista te assusta ou você lida bem, Cátia?
Cátia de França — Lido bem, lido bem, porque eu adoro contar história… Agora, tem de ir pinçando, porque senão dura três dias e três noites. (risos)
Ricardo Tacioli — Cátia, primeiro quero agradecer. É muito importante essa entrevista pra gente, não somente por tê-la conosco, como também por marcar a retomada do projeto de longas entrevistas, que é o Gafieiras, que começou em 2001 e parou em 2016. A ideia aqui é um bate-papo e depois o Renato fará uma sessão de retratos contigo.
Cátia de França — Ele me falou.
Ricardo Tacioli — Aí a gente reserva uns 20, 25 minutos antes do encerramento para garantir umas chapas bonitas.
Cátia de França — Adorei o nome. Lambe-lambe!
Ricardo Tacioli — Cátia, você lançou nesta sexta e sábado [o disco] No rastro de Catarina. Depois de ter descansado, qual foi sua impressão? (n.e. Os dois shows de lançamento do álbum foram realizados no Sesc Pompeia nos dias 19 e 20 de abril de 2024)
Cátia de França — Eu sou do tempo em que demorava uns 15, 20 dias para vir os efeitos [do show de lançamento], mas hoje em dia…
Edson Natale — Pisca e já era.
Cátia de França — O Instagram vem de todos os cantos, entendeu? Por trás de mim existe uma entidade chamada Dina Faria, que é minha produtora. Ela tem algum mecanismo dentro do celular que revela que tem gente que me ouve até no Cazaquistão. E está repercutindo, com comentários surpreendentes… Tem um jornalista de Pernambuco — eu morei lá de 90 a 96 — o Thales, que é do Jornal do Commercio, um dos jornais da cidade, falou de minha trajetória e como esse disco foi o acerto [de contas], porque existia o 20 palavras, de 79, com produção de Zé Ramalho, com muita coisa de João Cabral, de Guimarães Rosa, de Zé Lins Rego, escritor da Paraíba, e o povo dizia “Icônico!”. Eu estava à tona por causa do disco bem feito e também com o que havia de melhor de músicos na época: Sivuca, Dominguinhos, Bezerra da Silva, Elba Ramalho fazendo vocal para mim, Lucinha Turnbull também tocando. Isso foi em 79. E em 2024, ele [Thales] disse: “Veio…”, não é destronar, mas botou uma cadeira agora ao lado de 20 palavras para causar estardalhaço musical. Então, com essas opiniões, estou muito feliz.
Tacioli — Entre palco e estúdio, o que você prefere, Cátia?
Cátia de França — Eu ensaio como se tivesse uma plateia, não sei como vou inflamar os músicos, cada um com uma cabeça tendo um pensamento, um adora mulher, outro adora cerveja, então eu tenho que fazer valer. Eu gosto de fazer valendo, porque no dia já estou sabendo como é. E ela de novo… Vou ficar o tempo todo falando dela, mas a Dina percebeu que eu rendo mais [quando gravo] como se eu estivesse no palco, porque se me botar no aquário (n.e. Ambiente acústico reservado de um estúdio) para eu colocar a voz definitiva no final, fica certinho, mas fica sem nervura, fica uma coisa meio plastificada, meio contida demais. Mas é uma afirmação na contramão da evolução da música de hoje em dia, de recurso tecnológico. Ela diz: “Vai fazer ao vivo!”. Para muita gente isso é uma coisa de louco, mas a gente está acostumado. O meu diretor, o Daniel [Cahon], que trabalha comigo há muito tempo, ele nunca iria perceber, mas depois viu o resultado. A gente fez sem anteparos, sem umas paredes artificiais que seguram a onda… Não! Foi “Senta, canta!”. Não tinha hierarquia, que deu essa coisa democrática, essa transparência, quase que eu não sabia quem era produtor, porque estava todo mundo no mesmo nível, [todo mundo] tinha direito a falar, era uma tribuna aberta. “Gostou? O arranjo é meu”, então fluiu, não tinha ninguém “Ah, porque eu tenho…”, se eu fosse deixar os meus 50 anos [de carreira] entrar, ninguém ia me engolir, entendeu? Isso foi uma emoção só! E muito tempo sem fazer, e no momento certo, para quem saiu de uma epidemia, a gente ficou com resquícios. E tem as consequências que a gente só vai saber depois, como essas fúrias de uma hora para a outra. Eu sou uma pessoa pacífica e tímida, então, de onde vem essa raiva subterrânea? A culpa é dela, [da pandemia], uma maldição bíblica que se transformou em realidade para botar a gente no eixo. Então, as músicas do disco são isso.
Tacioli — Foi fácil essa escolha [do repertório]?
Cátia de França — Ela pode ser produtora, mas tem uma coisa cirúrgica, porque ela saiu com bisturi, pinçando, pinçando, pinçando, e uma visão cinematográfica: ela olhava e via a siamesa das músicas, uma letra que nem sabia da existência da outra, ela juntou e deu essa dupla, que é “Fênix” com “Nossa Senhora”. (n.e. Referência às duas partes da música “Fênix”, faixa de abertura do disco ‘No rastro de Catarina’) Agora, as inspirações são o que eu leio. Em uma coluna que o Paulo Coelho tinha n’O Globo, ele comenta sobre Nossa Senhora. Eu li e engravidei ali, naquela hora. Eu sinto o baque, é como um médium recebendo uma história. Aí fiquei observando e criando — porque tenho os cadernos em que eu anoto tudo, que eu os chamo de Caderno Severina.
Tacioli — Caderno de Severina?
Cátia de França — Não, Caderno Severina. Eu copio tudo: as inspirações chegando, a letra, o que eu vejo, o que chega até a mim, o que alguém disse, o livro que eu li. Televisão eu estou filtrando um pouco, porque está meio ópio, então não quero fugir. Ou fico lúcida, ou me lasco. E ficou difícil para dormir, porque é uma babá eletrônica, que é ótimo, quando está enchendo o saco, a gente desliga. Mas agora eu tirei mesmo para eu poder dormir direito e ficar mais perto das coisas.
Natale — E, Cátia, você falou em inspiração e sua mãe Adélia…
Cátia de França — Adélia de França Carneiro.
Natale — Adélia de França.
Cátia — É Adélia de França Carneiro, a minha mãe.
Natale — Então, Adélia continua sendo uma inspiração pra você?
Cátia de França — Nem parece que ela tá no andar de cima, porque em tudo que eu me meto, eu sei que ela tá [comigo]… E esses elogios que vocês me fazem desde que eu pisei aqui nesse ambiente, ela vê que… Como ela me chamava: “Minha filha única de pais idosos: ‘meu cristalzinho’!”. Ela me chamava de “cristal”.
Natale — Que bonito!
Cátia de França — (ri) Mas é coisa de mãe, né? Na verdade, dos 15 aos 19, eu interna no colégio, não era esse cristalzinho, então ela me deu livros para eu conviver.
Natale — E ela te alfabetizou com canções?
Cátia de França — Sim, (canta) “Era um B com A, BA; B com E, BE” e era muito musical a minha casa. Era uma miscelânea. Meu pai boêmio, então entrava somente música de sofrência: Nelson Gonçalves, Núbia Lafayette, e muito tango, ele adorava. A razão de eu tocar sanfona não era o forró em si, era “La cumparsita”, “Mano a mano”, mas o que me fez sobreviver na sanfona foi o forró. Aí toquei na banda do Zé Ramalho. Mas a minha mãe era essa coisa do livro, e a minha inspiração, o meu alicerce é literário. Aí eu mergulho naquilo e procuro captar uma veracidade tão grande que muita gente pensa que eu fiz “Porto de Cabedelo”, do disco 20 palavras, porque eu sou oriunda de lá, que eu nasci em Cabedelo, mas não, é porque eu li sobre [aquilo], entendeu? Então, tudo isso eu procuro. Um dos maiores presentes que me deram foi um livro Cinco mil verbetes de Guimarães Rosa. Foi um presente do meu biógrafo de Uberlândia, que é professor de universidade. (n.e. Possivelmente se refira ao livro ‘O léxico de Guimarães Rosa’, de Nilce Sant’anna Martins, lançado em 2001 pela Edusp, com mais de 8 mil verbetes)
Débora Pill — Vou pedir licença pra você. (para ajustar o microfone de lapela)
Cátia de França — Sim, eu também gesticulo…
Débora Pill — Vou pegar um gancho com [o som das] crianças [da escola] ao fundo? Você falou do livro e do seu caderno; você tem a memória da primeira vez em que você se expressou escrevendo, usando a palavra?
Cátia de França — Foi no Jornal da Paraíba.
Débora Pill — Criança?
Cátia de França — Ah, criança?
Débora Pill — Criança.
Cátia de França — Não era tão criança, porque o jornal era das artes, sobre livros que vinha dentro de um jornal da Paraíba. E quem tomava conta desse semanário, desse jornal, era o marido de uma enfermeira que cuidava da gente, da família. Aí ela disse: “Luiz Fernando está mandando nesse negócio!” Mamãe: “Cátia está fazendo umas anotações e eu até que gosto!”. Mas mamãe não era de me elogiar de corpo presente para não me dar muita asa; a gente estava conversando com a Maria, com a enfermeira. Aí eu publiquei uma coisa minha no jornal.
Débora Pill — De cara?
Cátia de França — Sim, foi isso. Saí nesse jornalzinho que saía no domingo.
Ricardo Tacioli — Você lembra sobre o que era [que você escreveu]?
Cátia de França — Não, não me lembro, não.
Ricardo Tacioli — Não tem guardado?
Cátia de França — Devo ter, meu acervo é uma doidice, porque por onde eu passei, com os descasamentos, foi ficando um pedaço. Eu consegui juntar; ficou um tempo sendo cuidado por Dina e a companheira dela, e agora ela mandou da Paraíba para onde eu estou, na Serra. Mas tem outros; quando eu morei em Pernambuco tem coisa minha lá, tem coisas minhas na outra casa da serra… Estou querendo juntar isso tudo num canto só. Agora, eu tive uma coluna de crônicas diárias já com mais idade, chegando do Pernambuco, do colégio interno, em 1966, 67. E o povo achava que a pessoa tinha 60 anos, mas era eu chegando, porque fui para o colégio com 15 e voltei com 19, formada professora. E isso está lá no acervo do Jornal da União, que é o jornal do Governo. Aí um rapaz que estuda música na universidade fica mandando para mim no iPhone, escrito meu.
Natale — Você tinha quantos anos?
Cátia de França — Dezenove, vinte anos, porque em 62 eu fui para esse colégio, eu cursava o terceiro ano, não sei como se diz hoje, ao que equivale, mas eu ia sair formada professora, normalista, não era pedagoga, como de universidade.
Ricardo Tacioli — Você lembra o nome do colégio?
Cátia de França — Me lembro: Educandário Nordestino Adventista, era de religião… como é que a gente diz? (n.e. Complexo educacional pertencente à Igreja Adventista do Sétimo Dia oferecia ensino fundamental, médio, técnico e superior em Teologia. Foi criado em 1943 em Belém de Maria, Pernambuco, a 120 quilômetros de Recife. O ENA encerrou suas atividades em 2000 após sofrer com as enchentes daquele ano)
Débora Pill — Prostestante?
Cátia de França — Sim, isso. E mamãe não era de religião nenhuma, mas se você sentasse com mamãe, ela sabia o calcanhar de Aquiles de cada religião. Freiras, o papa, ninguém escapava, mas ela dizia que “se eu deixá-la sem religião na escola, ninguém vai ser [amigo dela]. Vai ser exorcizada!”. “Ah! Quem é a sua amiguinha?” “Ah! Ela não batizou, ela não é filha de Deus!” Eu ia ser irmã de Macunaíma! (risos) Aí ela me botou [na escola], fiz com 12 anos a primeira comunhão, ganhei o piano que eu tenho até hoje
Natale — Esse piano está onde?
Cátia de França — Está guardado na casa do amigo meu, porque eles diziam “Menina, aluga esse trambolho!”, não era de cauda, era um piano de apartamento, mas quando alugava tiravam um pedaço. Era um piano alemão de apartamento. E eu não estou louca de me desfazer do piano alemão de uma professora que o comprou um piano com salário. E é muito querido, eu tenho loucura [por ele]. Aí está na casa do amigo meu, o Déo, tem parceria comigo, é policial rodoviário. Déo Nunes! Tem um nome parecido com o de desodorante. (risos) (n.e. De autoria de Cátia de França, o reggae “A gente tinha combinado” foi gravado ao lado de Déo Nunes)
Ricardo Tacioli — E o Déo mora onde?
Cátia de França — Lá em João Pessoa, no bairro dos Estados. Eu não fiz um documento “Estou recebendo o piano de Cátia de França…”, mas a filha dele não tinha nenhum pendor [para a música], e devido ao conviver — porque se você convive com o instrumento… -, [hoje] a menina toca, né? Então tá lá.
Débora Pill — Por que você falou que parecia uma velha escrevendo?
Cátia de França — Sim, era o teor das conversas.
Débora Pill — Mas escrevia sobre o quê?
Cátia de França — Era o dia a dia. Eu tenho, o menino mandou, o Mateu. E depois que terminar [a entrevista], eu posso passar para vocês. Era por isso que o povo [dizia] “Essa senhora…”, e eu também escrevia sobre músicas. No jornal predominava o que havia de melhor na área de músicos, de jornalistas. Era um jornal do governo, mas a redação era uma loucura. Carlos Aranha, que é um compositor, um jornalista; Anco Márcio, que era o Paulo Francis da época. (n.e. Carlos Aranha, 1946–2024, foi jornalista, crítico musical, cronista e escritor. Foi um dos coordenadores na Paraíba do Movimento das Diretas Já e desde 2009 era membro da Academia Paraibana de Letras. O paraibano Anco Márcio de Miranda, 1944–2013, foi diretor, ator, autor de peças infantis, poeta, teatrólogo e jornalista) Era uma coisa fantástica trabalhar naquele jornal! Só não deu certo quando me botaram na rua para cobrir o que fosse. Aí eu fiquei em pânico! Minha história era em uma área em que eu me sentia segura, agora sair para cobrir acidentes, tiroteio, política, aí ficou meio [estranho] e viram que não era minha, e eu voltei para a redação.
Ricardo Tacioli — Você ficava na redação?
Cátia de França — Na redação. E continuei com essa coluna que existiu por muito tempo porque agradou. Todo mundo comprava o Jornal União pra ler aquela senhorinha.
Ricardo Tacioli — A coluna tinha nome?
Cátia de França — Não tinha, não! Era o título e eu assinava Kátia de França, com o K. Tiraram o K por ser uma coisa de numerologia. Então eu assinava Kátia de França. Mas o teor [da coluna] era variado… Eu mesma li e fiquei “Menina, que coragem!”.
Natale — Você gostou do que leu?
Cátia de França — Gostei, gostei. Tive orgulho de mim mesmo. É, mas honrando a coisa que eu convivia lá em casa, mamãe, Dom Hélder Câmara bem grande no pôster. (n.e. Nascido em Fortaleza, CE, Dom Hélder Câmara, 1909–1999, foi arcebispo emérito de Olinda e Recife e um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB. Foi uma das vozes dos direitos humanos durante a ditadura militar no Brasil, 1964–1985)
Natale — Sua mãe era bem politizada, né?
Cátia de França — Ô, menino! Agora, não era aquela como goteira, né, “Você tem que ser! Você não-sei-o-quê-não”. Eu fui sentindo na pele a injustiça. E o livro de cabeceira dela era a Geografia da fome, de Josué de Castro, que eu fui achar na Serra. (n.e. ‘Geografia da fome: o dilema brasileiro: pão ou aço’, obra clássica do médico, geógrafo e ativista pernambucano, 1908–1973, foi publicada originalmente em 1946 e defendia a tese que a fome coletiva era um fenômeno mundial atrelado a sistemas econômicos e sociais) Fizeram um dispensário numa lan house, o dono se irritou com alguma coisa e “Estou dispensando a biblioteca!”. E aí eu cheguei. Eu não tinha a Geografia da fome. E aí tinha e antigo! “Quem quiser pegar, que pegue!” Eu disse, “O quê? Isso não existe na casa, o livro de minha mãe…” Aí, peguei, levei!
Ricardo Tacioli — Você tinha lido na época?
Cátia de França — Não, não, não, não! Mas eu fui interna, fui para o colégio em 1962, em uma área onde predominava o Julião, das Ligas Camponesas, e o colégio era americano e evangélico e super severo. (n.e. O advogado, político, escritor e ativista da reforma agrária no Brasil Francisco Julião, 1915–1999, foi uma das lideranças das Ligas Camponesas, fundadas pelo Partido Comunista do Brasil em 1945)
Natale — Você foi para o colégio interno para estudar ou porque você era uma adolescente rebelde e a sua mãe e seu pai quiseram te enquadrar um pouquinho? (risos)
Cátia de França — Eu levei tudo meu: minha coleção de Elvis Presley, as fotos coloridas… E eles rasgaram. Faziam uma fogueira pública com tudo que era lixo dos alunos, porque não estudavam [ali] somente descendentes, filhos de pais evangélicos; quem dava dinheiro ao colégio eram os filhos de usineiros, que davam as cartas. Eu fui porque a minha mãe disse: “Eu quero botá-la porque não tenho tempo de prepará-la, que ela saiba costurar, cozinhar, para quando surgir o pretendente!”. “Tem escola no Rio Grande do Norte que prepara.” A minha mãe disse, “Vou perguntar. Eu não tenho rodeios. Tem presença masculina?” “Não, são moças dirigidas por freiras.” “Não quero! Quero ela num canto que tenha a presença masculina.” Aí fica difícil, porque colégio naquele tempo… mesmo que só encontrasse na hora de estudar e na hora de se alimentar. Aí eu fui para esse colégio que tinha [meninos e meninas]; tinha como se fosse uma figueira antiga e até ali era território feminino, dali para lá era a área dos rapazes. O nosso prédio era La Smirna, tirado da Bíblia, e o dos meninos era Castelo Forte. E para os rapazes, dizem, não sei se é [verdade], botavam um tal de salitre, que era uma substância para acalmar os odores e os humores, arrebatamentos, porque se você bota pólvora e fogo junto… E acontecia! O americano estendeu [o terreno da escola], eram morros e não tinha como controlar aquilo tudo; eles criavam vacas. Era uma fazenda e a gente consumia o que plantava. E muito mato, o nego planta outras coisas, o “cigarrinho do diabo”, como diziam… (ri)
Ricardo Tacioli — Qual é a sua lembrança desse período, foi um período bom, gostoso?
Cátia de França — Foi, foi… Eu cheguei e entendi como seria. Agora, eu tinha esse hábito que era a música, e aí eu fico loura, linda, um metro e não sei quanto, porque eu toco piano, que é o meu instrumento, e violão. Então, nas festas da escola era eu que acompanhava, [quem fazia] a trilha sonora, eu ia para o piano porque eu tinha ouvido. [Quando tinha] a Festa dos Estados, que se apresentava com bandeira e aqueles negócios todos, eu tirava a música de cada estado. E música estrangeira também tirava. Então, eu era a queridinha. Só que começou a gente a me observar, a preceptora era alemã. “Você é a Catarina?”, meu nome civil. “Quando ela toca, os alunos parecem que mexem mais, mas não é da cintura para cima, é da cintura para baixo.” Aí começaram a ver umas coisas… Mas desmontou mesmo quando me pegaram na hora do estudo imitando a Elvis Presley com a vassoura, “Be-bop-a-lulla”. Molhei o cabelo para fazer a trunfinha, o topete, aí não teve conserto.
Ricardo Tacioli — Mas o que aconteceu?
Cátia de França — Aí cessou a história, o acesso aos outros alunos, às festas. Mas eu vi que se eu me entregasse, eles me…
Ricardo Tacioli — Porque ali nos anos 60, o rock, o Elvis, era…?
Cátia de França — Foi de 62 a 66 que eu fiquei lá dentro…
Ricardo Tacioli — A fase do Elvis já é uma fase mais…
Cátia de França — Sim, isso, já tinha servido ao Exército, era todo comportadinho.
Ricardo Tacioli — Mas para escola…
Cátia de França — Porque essa história de “Pélvis”, que ele mexia da cintura para baixo dançando e as meninas enlouqueciam. E eles queimavam tudo, livros de Adelaide Carraro, um livro de uma escritora homossexual, como era o nome dela, meu Deus, não-sei-o-quê Dias. Tinha mais! Discos de Ray Conniff quebraram. Discos de Elvis também. (n.e. Nascida em Vinhedo, SP, a escritora Adelaide Carraro, 1936–1992, foi grande vendedora de livros na década de 1970, apesar de sofrer com a censura do governo militar. Considerada uma “escritora maldita”, em sua obra predominavam temas eróticos e de denúncia social. A outra escritora mencionada por Cátia de França possivelmente é Cassandra Rios, pseudônimo de Odette Pérez Ríos, 1932–2022. Com uma obra dedicada ao universo lésbico, Cassandra também foi duramente perseguida pela ditadura militar. Foi a primeira escritora a vender mais de 1 milhão de exemplares.)
Ricardo Tacioli — De Ray Conniff também?
Cátia de França — Tudo! Na divisão dos territórios, existiam postos, umas coisas, dizendo até onde a gente podia ir, a tal da figueira imensa. A [fogueira era feita] ali mesmo. Tinha o rio e a vila dos professores. Então, assistia-se à queima. E não era um galpão imenso onde todos dormiam juntos. Eram quartos de quatro moças: a mais ajuizada tomava conta das outras três. Obviamente, eu não era ajuizada (ri), e a cama era de navio, de dois andares. O sino acordava a gente cedo e a gente orava. Tinha culto antes de comer, depois da alimentação, depois de escola, na classe de aula.
Natale — Era uma escola que tinham poucos negros e negras?
Cátia de França — Tinham poucos.
Natale — E sua mãe foi a primeira professora negra da Paraíba.
Cátia de França — Isso.
Natale — E você já tinha consciência do racismo?
Cátia de França — Tinha!
Natale — Além dessa violência de queimar livros, como era a questão do racismo dentro da escola?
Cátia de França — Dentro da escola? Era tudo como sempre, falando de Deus, uma coisa velada, mas eu tirava isso de letra, porque se eu me entregasse… E mamãe disse: “Estou lhe mandando e volte professora!” E quando eu fiz alguma plantação, fiquei 15 dias em casa, a mamãe disse: “Não é a que eu mandei. Eu conheço a saúde da minha filha pelos quadris!” Todo crioulo tem um [quadril] avantajado. A mamãe disse: “Ela foi de um jeito e voltou esquálida!” Porque eu me batizei na igreja, aquela coisa que o mundo vai se acabar e eu…
Ricardo Tacioli — Você se batizou na igreja…?
Cátia de França — Sim, na Igreja Evangélica. E tudo isso mexeu com mamãe. Mamãe não imaginou que chegasse a isso, né? Me batizei, porque ela me deu uma Bíblia pra levar, que eu tenho até hoje.
Ricardo Tacioli — E foi por isso que ela falou que você deixou de ser o cristalzinho dela?
Cátia de França — Sim, foi. No colégio masculino, fui ficar 15 dias, quando voltei, ou eu ficava debochada, porque tinha essa história do bullying, de piadas, mas [pensei] “se eu tiver uma turma que seja testa de ferro”, aí, pronto, e eu me emendei pra turma do Climério, um dos filhos de usineiro.
Ricardo Tacioli — A turma do Climério.
Cátia de França — Sim, a turma do Climério, eu fiz parte. Eu nunca recorri a nada que pudesse me alterar. Eu queimei esse olho aqui com álcool. Eu tive um pé no alcoolismo. Eu não queria nada de fazer viagem, até hoje… Uma coisa que eu não sei que hora eu vou voltar, como é que vai ser. Eu quero parar agora e voltar. Por exemplo, o Santo Daime é uma coisa fantástica, já toquei para montarem um centro no Ceará, mas eu sei que até tirar os demônios da gente tem muita coisa. E isso é uma coisa difundida, a União do Vegetal e o Santo Daime. A minha mãe de santo me obrigou a tomar. “Tome uma colher de sopa!”, ela é muito dominadora. Eu tomei e cuspi na planta (risos), mas ela não viu, Deus me livre! É uma resina dos dois cipós. Mas até lavar você…, porque é um estrago, é por cima e por baixo. Você vomita e tem diarreia. Eu tenho uma amiga que Deus já levou, uma surfista, que tomava o copo assim — a gente não diz tomar, é beber — e não sentia nada. Vital Farias tomou dois dedos e enlouqueceu querendo voltar. (n.e. Cantor e compositor paraibano, 1943–2025, autor de “Aí que saudade de ocê”) Agora você tem que fazer a viagem todinha e voltar. Eu tenho essa coisa que altere, e você também pode se alterar sem recorrer a uma substância, são essas viagens que a gente faz quando começa a andar nos territórios… Eu sou muito mística: fui católica até os 15, depois fui evangélica, fui Seicho-no-ei…
Ricardo Tacioli — Você consegue traçar a linha do tempo da sua religiosidade, espiritualidade?
Cátia de França — Consigo. Eu noto que para quem fica de fora fala “mas ela [pula] de galho em galho, não fica num canto só”, mas hoje eu chego perto e sei o que cada uma dá, porque Jesus já dizia, a gente vê na Bíblia, “os caminhos são vários, mas Deus é um só”, agora para você chegar lá… Cada um desses [caminhos] por onde andei me deu uma coisa boa. Dos evangélicos… só a Bíblia chegar e eu conviver, porque você não pode querer que as pessoas sejam… Porque até quem andava com Jesus [duvidava]. Você só acredita que o Senhor voltou se botar o dedo onde está a cicatriz. Os caras andavam com Ele, Ele andava em cima das águas e imagine a gente hoje, tendo que acreditar no que não [vê]. E com o Candomblé também, que chegou depois no Nordeste; é tudo dialeto e predominam pessoas do povo. A gente quer um Deus, um Orixá que fale e eu entenda em português. Agora, dialeto divide. Eu sou do Queto, tem casa do Jeje, tem casa de Angola, então, eu vou pinçando, mas todos têm imperfeições, porque onde tem a mão humana e o dinheiro, quase sempre há um deslize. É um negócio de louco! Se você for se prender a isso, você vai ficar órfão mesmo, você não vai acreditar em nada… As coisas vão se revelando para mim e vêm com a maturidade, e também não enlouquecer… O brasileiro é muito hipocondríaco. Eu me lembro lá em casa que quase não se ia ao médico, nem mamãe nem meu pai, mas meu pai muito menos. Remédio para fígado se tomava a revelia. Bicarbonato de sódio, Elixir Paregórico. Não ter uma vacina para uma epidemia, muita gente se foi de medo mesmo. Eu não tive nem tempo para pensar, botar uma máscara. Eu me lembro que na serra [o vírus da Covid-19] não vai vir aqui, não, “que doidice é essa!”. A gente foi para um lugar chamado Macaé de Cima. E você está aqui para uma história, para uma missão. Para cada um de nós tem uma missão, a gente tem de descobrir porque Ele poupou a gente… Ele é muito misericordioso. Não fui [sempre] assim como estou sendo agora, sensata, porque a embriaguez deixa a gente muito irresponsável. E eu bebi muito, comecei a beber para criar coragem, para aguentar as vaias dos festivais universitários. Existe quem aplaude e existe quem vaia. É horrível! Então, “Mulher, tome Dreher! Tome e você vai se sentir maravilhosa!”. E eu adorei como fiquei. Seria ótimo se pudesse ficar 24 horas assim, mas era somente para cantar.
Ricardo Tacioli — Isso era nos anos 70 ou antes?
Cátia de França — Eu comecei em 66. Quando eu voltei, mamãe disse para um jornalista: “Vamos botar ela na música, porque ela está com medo de tudo, no ônibus ela nem puxa o negocinho para descer! Ficou totalmente anormal!” Aí o Diógenes disse “Vamos compor!”. E aí eu fiz a primeira com ele e veio uma pessoa especialista que disse “Essa música tem vários ritmos: começa com tango, vai para o samba, para o rock. Não, tem que ter uma coisa coerente”. (n.e. O poeta e jornalista pernambucano Diógenes Brayner,1947, é parceiro de Cátia em “Mariana”, vencedora do IV Festival Paraibano de MPB, em 1970) Aí foi ensinando a gente, a gente fez, e conseguiu classificar uma e por aí [foi]… Então, foi minha mãe que pediu a ele pra me inserir no [meio]. E isso já era 66, 67, 68. Aí eu comecei a participar e viajar. A mamãe disse: “Se não quer ser professora como eu, tire a Ordem dos Músicos pra te respeitarem”. Fui fazer o teste e tenho até hoje essa carteira de músico.
Ricardo Tacioli — Mas o Dreher chega em que momento?
Cátia de França — Na hora de cantar publicamente.
Ricardo Tacioli — Já nesse período?
Cátia de França — Sim, nesse período, porque começou a ter um festival em Campina Grande, comecei a ir para Recife. E Recife, na época, era como ir para Nova Iorque, porque tinha televisão, Jornal do Commércio e tinha TV Rádio Clube, do Chateaubriand. (n.e. Assis Chateaubriand, 1892–1968, jornalista, político, embaixador e empresário paraibano, foi dono do maior conglomerado de comunicações do país entre os anos 1930 e 1960) Então era outra coisa. E comecei a fazer esses programas e aí quase sempre o teatro me chamava. Eu participei do grupo de teatro de Marcus Siqueira, político de Recife. (n.e. Dramaturgo e teatrólogo paraibano, 1940–1981, criador do engajado Teatro Novo do Recife que, em 1976, passou a se chamar Teatro Hermilo Borba Filho)
Natale — Foi com esse grupo que você foi para a Europa?
Cátia de França — Não, foi com o grupo de Campina Grande. (n.e. Grupo folclórico da Fundação Artístico-Cultural Manuel Bandeira, criado pela escritora e professora Elizabeth Figueiredo Agra Marinheiro) Eu nunca tinha andado de avião e, de repente, estava eu em Portugal e Espanha. Era um intercâmbio de jovens do Lions Clube. E Elba [Ramalho] era a cabeça da história, que disse: “A gente não tem dinheiro para levar quatro, cinco músicos para acompanhar esse coral”, que era um coral falado. “Chama a Cátia e mais dois!” E chamou o Wellington e o Zezé, e eu fui porque tocava muitas coisas, os dois também, então nós três virávamos uma sinfônica. E a gente viajou. Eu tratei de me garantir porque ninguém ia acreditar que eu tinha ido para a Europa, de jeito nenhum. Então, eu vendi minha passagem (da volta), comprei uma máquina [fotográfica] e fiquei na frente da Arena de Touro: “Óie eu aqui!”, no primeiro andar de um ônibus, “Óie eu aqui!”. Mas como é que eu ia voltar para o Brasil? Eu gastei o dinheiro. Aí a professora Elizabeth Marinheiro: “Eu dou…”. “Vou lhe ressarcir, que história é essa, lhe pago no Brasil, mas eu tive que provar que estive aqui.”
Ricardo Tacioli — Tem essas fotos ainda?
Cátia de França — Tenho, tenho, tenho. Tem umas com a Elba, que mostrou a gente em Lisboa. Agora, a mulher que levou a gente era uma louca, a dona Elizabeth, botou a gente de terno de giz, tanto os rapazes, como as moças. Estamparia de gangster, né? (risos) Os gangsters não têm [ternos com] risquinho? E obrigou a gente a cantar o hino da Nossa Senhora no aeroporto de Lisboa. (canta) “Ave, ave / Ave Maria”, o povo passava assim, né? Gangsters cantando… (risos)
Débora Pill — Gangsters de Deus!
Cátia de França — É! Não ia nunca ir contra ela, é uma sumidade, tem um título de quem estuda profundamente o português. Dona Elizabeth, de Campina Grande, muito amiga de Elba. Ela e o esposo foram. Ela foi quem levou a gente tudinho. A gente ficou na Casa do Brasil na Espanha. Agora, eu nunca viajei de avião, e aí, de repente, “Será que não tem nenhuma paradinha para abastecer?” (risos), “Não, minha senhora!”. Aí eu recorri ao velho álcool e ficou tudo “divino, maravilhoso”. O escritor era o Virgínius da Gama e Melo, uma sumidade, foi também. (n.e. Advogado, escritor e professor universitário paraibano, Virgínius Figueiredo da Gama e Melo, 1923–1975, era apaixonado pela boemia e autor de ‘O alexandrino Olavo Bilac’ e ‘Tempo de vingança’) Era como se fosse uma comitiva, não somente a gente e os estudantes, tinha o personagem…
Natale — Virgínio?
Cátia de França — Virgínius da Gama e Melo, ele foi. Ele também tinha medo também de viajar de avião: ele tomou algumas coisas e teve de ir deitado nas cadeiras. (risos)
Ricardo Tacioli — Exagerou nas doses.
Cátia de França — Foi. Eu nem fiquei junto dele porque sugestiona, né? “Vou ficar aqui no meu canto, deixa ele pra lá!” E procurei sair de perto de dona Elizabeth, porque ela estava bem nervosa.
Daniela Cuccharelli — Queria voltar na timidez. Eu, obviamente, sou tímida, e queria entender como você lida com a timidez depois que parou de beber?
Cátia de França — Parei em 96 [quando] fui operada do mioma. Quem me operou foi o irmão de Elba, o Dr. Tonzinho: “Você tem que parar! Está numa anemia profunda que nem transfusão de sangue vai [resolver]. Você vai tomar papa de hemácias. E não pode mais beber, nem fumar!”. E sem contar que os espíritos do terreiro, as entidades, vieram. Literalmente subiram nos meus pés: “Se você voltar a beber, eu lhe levo!”. Depois de receber um fax desse, mais nunca [bebi]. E eu vi que, como o médico disse, “não eram seus amigos”. Não era possível sentir para onde eu estava indo, eu já estava cantando somente sentada. E a falta de respeito porque você não se dá… “Que cachê?! Dá um uísque 12, 20 anos, sei lá o quê!” Isso é terrível. Em Olinda, onde morei, foi o tempo em que mais decadente, porque é uma cidade que é um eterno carnaval. É uma loucura! E com quem eu estava envolvido emocionalmente, a família era conhecida, o pai vereador, era uma alegria, o tempo todo se vive para quando chegar o Carnaval de Olinda. Aí uma amiga, uma pessoa do tempo da minha mãe, minha mãe carnal, disse “Eu vou lhe levar na casa de uma mãe de santo porque você está…”. Estava tão grave a coisa que eu fui e fiquei para ter um processo todo de limpeza, de acompanhamento. E estou até hoje nessa casa.
Ricardo Tacioli — Como chama a mãe?
Cátia de França — A mãe de santo é Lúcia de Oxum, é um dos maiores terreiros de João Pessoa.
Débora Pill — E quando você fala que não anda só, que é uma das práticas espirituais, você sente, Cátia, quem é que está junto, se são os seus ancestrais, se é a sua mãe, se são os seus guias? Como é a sua relação com esse mundo invisível no dia a dia?
Cátia de França — De uns tempos para cá, acho que quando você vai adquirindo uma maturidade e merecimento, eles chegam perto mesmo. Mas eu sinto. Mamãe é uma constante. Não sei se é uma prepotência eu alegar isso, mas o beija-flor pousou em mim ontem, e ela [Dina] fotografou… Daqui a pouco era a abelha… [Para onde] eu ia, tinha abelha. Eu fui fazer um documentário, e a abelha também. Quanto mais expande meu nome, a responsabilidade cresce, né? Aí danou-se mesmo… O povo fala: Você já está com 77, vá para uma praia dessas em que a rede é armada dentro do mar, [fique] comendo coquetel de camarão. Porque quando a cobrança vem… E, principalmente, de quem eu sou filho, né? Sou filho de Exu!
Débora Pill — Exu?
Cátia de França — É Exu, é de frente. Tive de fazer Iemanjá para eu não pirar, e as cobranças dele… Ele não quer brincadeira. Então, onde eu moro lá na Serra tem um canto dele, que sensatamente eu fiz.
Pixinguinha abaixou o olho, pegou o saxofone e saiu atrás de mim, fazendo os contracantos!
Natale — O seu processo de composição mudou muito durante o tempo? Você continua conversando com os rios?
Cátia de França — Continuo. Eu engravido, não necessariamente de uma coisa que eu ouço, mas predomina o livro, e eu sei quando é que vai [pintar]… Por isso que essa coisa [do livro] estar na nuvem, publicações ao vivo, “Sou ultrapassada? Não!”, eu chego perto do livro pelo cheiro, pela textura das páginas. Fica fazendo parte de mim, metade livro, metade centauro. Eu convivi desde pequena, me lembro, quando chegava o Nobel era uma doidice, aqueles da capinha branca, impecável. E mamãe: “Luva! Tem que pegar esse livro de luva por causa do suor da mão”. Então, meu pai, um crioulo de 1,90 m, de luva. Ele ficava danado de raiva, [porque tinha] a mania de passar saliva para [virar] a folha e de dobrar a página para marcar onde parou, e a mamãe enlouquecia, entende? E eu continuo nessa coisa da inspiração, mas eu preciso de tempo também. Agora estou colhendo os frutos…
Natale — Sua mãe era Adélia, e o nome de seu pai?
Cátia de França — Sebastião Higino Carneiro; o Carneiro meu é dele e o França é dela, que vem de minha avó, Severina de França, do interior da Paraíba, lavadeira, e o meu avô por parte de mãe não assumiu essa gravidez da lavadeira e ficou sem o Moura, que é de um grande comerciante, ele tinha um casarão que tinha de tudo no interior. Então, ela dizia que o pai não assumiu e ficou essa coisa. E no documento dela tinha “Parda”, o que a enlouquecia. Ela queria ou “Preta” ou “Branca”. Agora o cabelo era bem tuim, e do meu pai eu herdei esse cabelo bom, entre aspas, bom. Ele era um criolão apaixonante!
Ricardo Tacioli — A gente vê pelas matérias e também te conhecendo a importância da sua mãe, né?
Cátia de França — Sei.
Ricardo Tacioli — Do seu pai, o que você guarda?
Cátia de França — A honestidade. Ele foi colocado de lado antes do tempo, aposentado porque não se submeteu a ser laranja, alguma falcatrua dentro da delegacia, ele era do Trânsito, depois foi para a Polícia mesmo. Tinha uma tal de palmatória para os presos falarem, confessarem. Então, ele não quis entrar nessa coisa e o aposentaram. Aí ele adoeceu galopantemente. Claro, tinha umas sequelas de álcool, mas ele foi embora muito [rápido]… Adoeceu sem fazer nada. Ele ficava na Paraíba e era assíduo frequentador da parte da cidade boêmia, os cabarés. Hosana era o mais famoso de João Pessoa; em Recife tinha o Buraco de Otília, na rua da Aurora. De repente tiraram isso dele…
Ricardo Tacioli — Isso para a sua mãe não era nada bom…
Cátia de França — Não, de jeito nenhum! E ele teve um filho com outra mulher. Aí as amigas de mamãe: “Menina, você é quem segura isso aqui, agora está tendo essa casa para hospedar rapazes e moças, os filhos dos fazendeiros.. Você não precisa mais desse homem!”. Mamãe endoidou quando disseram isso. “Casa sem macho é casa de Noca!” Revidou logo. Eu tenho um cordel em que falo sobre isso, escrevendo sobre quem foi meu pai, minha avó, essa coisa toda… (n.e. Minha vida em cordel) Aí ele se entregou na boemia e quando voltou, voltou com sífilis. Mas ela o recebeu.
Ricardo Tacioli — Ele morreu quando, Cátia?
Cátia de França — Em 1975. Eu estava aqui fazendo teatro na Brigadeiro do Luiz Antônio.
Ricardo Tacioli — Aqui em São Paulo.
Cátia de França — Isso, era com o grupo Chegança, de cunho político, de Mendonça. (n.e. O ator e diretor pernambucano Luiz Mendonça, 1931–1995, fundou o Movimento de Cultura Popular no Recife e, ao chegar no Rio de Janeiro, criou o grupo Chegança, que unia teatro, circo, blocos carnavalescos e teatro de revista) Mendonça recebeu o [Prêmio] Molière, mas ele dourava a pílula e quase sempre os censores não entendiam o que estava ali, o teor político. E as peças passavam… Ele colocava uma pessoa que estava fazendo sucesso na novela e todo mundo ia, né? Luthero Luiz, Tânia Alves, Elba [Ramalho], Tonico…
Ricardo Tacioli — Tonico Pereira?
Cátia de França — Isso. Era uma maravilha, fazia sempre. Então, fizemos A peleja de Lampião contra o dono do Inferno, sucesso. Ficamos na Brigadeiro Luiz Antonio, no Teatro Aplicado, que hoje tem outro nome, não sei se de ator ou atriz, e em cima do teatro a gente dormia. Os solteiros dormiam em camas de campanha, e aí tinha uns lofts, uns quartinhos para quem era casado. Obviamente, Tânia era casada, a Elba, que fazia o papel de Lampião. E por aí.
Ricardo Tacioli — O que é o lado B da Cátia?
Cátia de França — O lado B da Cátia é eu pegar Apuleio, que é um personagem que se perdeu na cheia do Rio Amazonas que Manoel de Barros aborda dentro de uma canoa perdida. Aí eu musiquei… É uma coisa! O bugre, “Rogaciano”, o índio, também é dele. Aí, fica na cabeça do diretor musical que é monótono e, para o começo da conversa, bota todo mundo sentado, quase sempre viola e isso é ótimo, eu adoro, fica como um concerto, porque em pé você canta com todos os órgãos. E na cabeça dele [do diretor musical] é mais fácil botar as pessoas para dançar, possíveis erros não são vistos. E sempre está consumindo alguma coisa. E já o concerto, o lado b meu, aí tem muita coisa bonita, mesmo do José Lins do Rego, “O moleque Ricardo”, ninguém imagina, “Poço das pedras”. Tem coisas magistrais! “Teresa Beiçuda”, que é uma prostituta. “Focinho de Lebre do Coração”, um menino que vai para a escola não pelo que vai aprender, mas [pelo que] vai comer, porque em casa não tem. Isso ele retrata de um jeito…, mas o nome é ótimo: “Focinho de Lebre do Coração” é o nome do menino. Fiz um xote que é uma coisa! Esse disco, No bagaço da cana, é acompanhado por uma orquestra enxuta, uma orquestra sinfônica somente de mulheres: tem harpa! Viajar com esse povo todo [é difícil], mas você pode enxugar e fazer um quinteto de cordas, que dá jeito. E se quiser [enxugar] mais, a gente pode, ser eu e o Cristiano, né? É como se fosse o John McLaughlin e o Di Meola. (risos) Porque aí fica bom para quem vai levar [o show], a gente viaja para qualquer parte do mundo sem gastar hotel, passagem aérea; nós dois é um jogo, é uma hemorragia, uma alegria. Eu e ele. E ele fez os cálculos: [estamos juntos] há mais tempo; eu pensei que era com o diretor do Rio de Janeiro. Essa banda do Rio assimila que a internet cospe em cima dela. Esses meninos que gravaram o disco No rastro da Catarina, não, conviveram desde pequeno [com a minha música], porque o pai tinha minhas coisas. E hoje estão tocando comigo, entende? Aí é outro departamento, embora eu nivele isso, não tem história de hierarquia ou distanciamento. Comer comigo tira qualquer hierarquia, eu comendo me transformo. (ri) Eu sou aquariana, então sou muito esfomeada, adoro comer e saio do sério. Eu noto que sempre fico temerária com um almoço para decidir coisas com empresários sofisticados: é um perigo! (risos) É um perigo porque sai a diva, entra o Macunaíma. (risos)
Natale — E você gosta muito de viajar, né?
Cátia de França — Gosto, mas eu tenho medo, não ando de elevador, né? Não, não, não! Eu fiquei trancada.
Natale — Mas você desceu de elevador hoje no hotel.
Cátia de França — Sim, graças ao floral que eu estou tomando. (risos) Muita coisa saiu já e ela [Dina] me inspira confiança, ela diz: “Vamos, vamos!”. Então tem essa faceta…
Natale — Você viajou pelo Brasil todo com o Sonora Brasil, com a Ceumar e com a Déa Trancoso. (n.e. Projeto temático criado em 1998 pelo Sesc que mapeia e apresenta ao público diferentes expressões musicais do país. Tema da 22ª edição (2019), Líricas contemplou a presença feminina da música brasileira)
Cátia de França — Sim! Aquilo foi uma mistura, imagine! Agora, se eu tivesse tomado conhecimento do mapa astrológico das duas, eu não sei se eu teria topado. (risos) Eu teria topado, mas iria preparada! Eram duas arianas. Duas arianas!
Débora Pill — É quente!
Cátia de França — É, sabe? A Déa Trancoso é inteligentíssima! E as coisas que ela escreve?! É uma coisa visceral! E de onde ela vem, uma pessoa sofrida… E Ceumar é uma sereia que caiu de alguma coisa de Ulisses, né? Mas meu coração não bateu forte, em momento algum entrou coisa carnal, não, (risos) porque não avisa quando vem uma tendência, mas, não. E arianas, vige, já tinha um casamento com a ariana, catastrófico; um empresário meio escorregadinho… Mas [o Sonora Brasil] deu certo demais, enxuto, sem gastar com som e provando que tem garganta, né? Chegava nos cantos mais incongruentes do mundo, salão de festa no Pantanal virou teatro. Era uma honestidade! A Déa fez um tema para mim que fala em Exu. Acho que foi em Bauru ou em Campinas, uma doidice: tinha uma senhora na primeira fila que estava querendo comer o fígado da Déa, onde tem gente que não quer conversa com qualquer coisa espírita, porque ela abre mesmo. E ia para uma doçura, o fio condutor da coisa, o repertório, foi muito bom em todas [as líricas], não somente nós três. Eu fui ver as outras líricas, me danei de onde eu estava, peguei um táxi e fui ver a Badi [Assad] junto com as outras… Eram umas misturas! A Regina e a outra… Eu que sabia o que era, fiquei [de cara], menina! A Badi…!
Ricardo Tacioli — Teve um lançamento…
Cátia de França — Sim, está passando. Hoje meti o dedo e estava a Ceumar. “Eu estou vendo, você já viu?!” “Eu não tive tempo!” É uma coisa! Foi muito bom aquilo. Pena que acabou no susto, também pudera, por causa da pandemia.
Débora Pill — Cátia, qual é o signo da sua mãe?
Cátia de França — O medo para descobrir, quando amarro com as coisas da mania. Levei tempo para saber que minha mãe nasceu na independência dos Estados Unidos, 4 de julho. Era a história dela. E quem descobriu foi uma companheira minha: “Oxente, sua mãe nasceu no mesmo dia do meu filho!”. Eu digo, “Menino, eu odeio tanto ele!”. (risos)
Débora Pill — Em algum momento você falou que não vê mais hoje em dia o humor da sua mãe. Queria que você falasse sobre…
Cátia de França — Sim, é que eu herdei isso, a minha tia também era [bem-humorada].
Débora Pill — Você é muito irreverente.
Cátia de França — E mamãe era. A mamãe dando aula nessa casa da gente, na Menna Barreto e, não sei se devido ao calor, ela queria dar aula em lugar aberto e tinham os coqueiros que já estavam plantados quando chegamos lá. Ela dando aula e caiu um coco nela: “pow!”. Um coco quando vem, se ele estiver seco, é uma história, se ele estiver com água, se for verde, [é outra]. “Vige, matou!” Ela virou-se, pegou aquela quartinha de barro — em todo canto da casa tinha — e tomou banho para [evitar um] possível derrame, porque ela recorria a essas coisas, não ia nessas coisas da Medicina. A gente sabe que se tomar uma cerveja preta, Caracu, evita-se um derrame, mas ela não chegou a tanto, porque ela não bebia, botou água gelada para espraiar o possível sangue. Ela tomou banho literal na frente dos alunos e rindo. “Senhora, vai trocar de roupa!” “Eu vou, mas deixa eu terminar o que estou fazendo no quadro negro.” Me contaram que tinha um caroço nas costas que estourou com o movimento dela escrevendo e, com aquilo, a blusa colou. “Está acontecendo alguma coisa nas costas da senhora! A senhora se feriu!” E ela não se retirou logo. Mas a doença que a pegou tem um outro nome, não sei se somente no interior da Paraíba diz que a pessoa fica bobinha, que fica divagando… Alzheimer?! Foi o que a pegou. E eu não estava na área. A biblioteca dela, com os livros mais caros, o Flávio Tavares, que é um artista plástico de lá, ia para ler os livros da minha mãe. Eram livros caríssimos, e muitos se aproveitaram, entende?
Ricardo Tacioli — Foi doado depois?
Cátia de França — Quanto eu tomei conhecimento, eu enchi vários Fuscas de livro e levei para a casa de uma amiga na praia para salvaguardar. Aí, Vital Farias me ajudou com o Fusca dele. Ficou na casa de uma amiga; e essa amiga se separou do marido, que bancava esse casarão, e aí [os livros] foram para a Academia Paraibana de Letras por meio do Luiz Carlos, que era professor de Gnose, que eu não sei o que é isso. Não existe nada escrito dizendo que eu dei [os livros], mas eu corri atrás. Crispim já se foi, que estava na gerência da casa, da Academia, e não quero tirar, porque se estivesse em outra área, já não existia mais nenhum. (n.e. O advogado, jornalista e escritor paraibano Luiz Augusto Crispim, 1945–2008, presidiu a Academia Paraibana de Letras, também conhecida como Casa de Coriolano de Medeiros, entre 1984 e 1991) Então, quero ao menos uma placa com o nome da biblioteca com o que a mamãe dizia: “Essa biblioteca é uma homenagem para Coelho Lisboa”. Pronto, uma placa: esses livros são de Adélia de França, doação dela, Biblioteca Coelho Lisboa. Eu prefiro isso à pilhagem que fizeram.
Ricardo Tacioli — Quanto ela morreu, Cátia?
Cátia de França — 62.
Ricardo Tacioli — A sua mãe morreu quando?
Cátia de França — 62.
Ricardo Tacioli — 62?
Dina Faria — Não.
Cátia de França — Não foi não? Quando foi que ela morreu?
Dina Faria — (19)75.
Cátia de França — Porque em 75 foi meu pai, eu estava aqui em São Paulo e não pude ir ao enterro. Ela foi depois dele. Ele foi e eu estava aqui em São Paulo e não pude ir para a cerimônia. E ela eu estava fazendo um show em Campina Grande quando aconteceu. E passou muito tempo na casa de repouso e eu não sabia que ela tinha nascido em Pernambuco. Depois foi para a Paraíba, pelo interior, onde exerceu a profissão. Pedras de Fogo, Rio do Peixe, Guarabira, e tudo nesses cantos têm ruas com o nome dela. Em João Pessoa tem uma escola que o menino filmou, o Murilo.
Daniela Cucchiarelli — É no Valentina, né?
Cátia de França — Sim, isso, pronto, onde é o terreiro da minha mãe de santo. São fazendas enormes que, depois, loteando, viraram conjuntos habitacionais bem do povo. A minha casa que me deram é Mangabeira 8, que é depois que Mangabeira acaba, começa a Valentina. Aí me deram essa casa, que é a única que eu tenho e está lá.
Ricardo Tacioli — A Dani morou lá?
Daniela Cucchiarelli — Morei lá um tempinho.
Cátia de França — E agora fizeram um shopping que valorizou que só e calçaram as ruas, porque antes, quando chovia, a gente tinha de sair de canoa.
Daniela Cucchiarelli — Mudou muito rápido, né?
Cátia de França — É isso, é Cidade Verde.
Dina Faria — 13 de janeiro de 81.
Cátia de França — E eu dizendo que era 62, mas geriatricamente… (risos)
Daniela Cucchiarelli — Quero voltar um pouquinho. Você falou da internet, que te colocou em vários outros países e em contato com outras pessoas, de outras gerações. O caminho contrário aconteceu também, você conheceu coisas novas, trocou com pessoas…?
Cátia de França — Eu não sei navegar muito, prova é que o Instagram é a Dina que [pilota]… A minha história é demais no Zap (What’s App), mas se eu utilizasse mais as coisas que chegam e ela traduz para mim…, a rapidez com que as coisas acontecem… E não existe acaso. Por exemplo, fizeram um setlist grande, em letras garrafais, nesses lugares que param ônibus, e colocaram a Taylor [Swift] e logo em seguida o meu nome… Quando é que a Taylor ia saber que eu existo? (n.e. Propaganda por meio de cartaz/tela digital em parada de ônibus) E os depoimentos, como esse cara da Tratore, que estava no show e chegou no camarim — eu nunca vi mas pode chegar, não é porque é o fulano [da Tratore], é o ser humano que está vindo e dizendo: “Seu primeiro disco chegou para mim [quando] eu tinha 18 anos”. Aí vê que doidice, o homem é o Tio Patinhas da história.
Daniela Cucchiarelli — E essa geração nova que está cantando…
Cátia de França — Sim e dizendo que me ama. Onde eu passo é uma doidice. Porque antes, não! Agora, “A minha tia me deu uma fita cassete! Meu pai deixou… Minha mãe tinha… Fulano se separou e ficou para trás o 20 palavras!”. De repente, cantar junto as letras… Ontem mesmo passei o dia [fazendo] esse documentário de Araras, tudo novinho, e a menina que toca piano, que teve a ideia, diz que Araras é bem um local meio preconceituoso, e ela “Vamos pegar a Cátia de França porque mudou a minha vida!” Ela toca piano e o esposo, violão. O outro também, que tomava conta do som, a que filmava, e esses depoimentos — “A sua música mudou a minha vida!”- e tudo isso é em dose cavalar. E levava um tempo para chegar até mim. Hoje mesmo, a maneira como vocês me trataram, eita, pronto, o Brasil me ama e eu não sabia. (risos) O que é a função da Tratore?
Dina Faria — Distribuidora digital.
Cátia de França — Pronto, sim. E eu estava junto da Taylor, não? Foi numa parada de ônibus?
Dina Faria — Eles fizeram um reels numa parada de ônibus com shows da semana: aparece Taylor Swift e depois Cátia de França! (risos) A Taylor Swift não sabe quem você é!
Cátia de França — Eu também não saberia quem ela é, mas ela esteve ano passado e vi o resultado aqui em São Paulo.
Débora Pill — Eu vou aproveitar para falar de uma que talvez você não saiba, Jota Mombaça, uma artista multidisciplinar como você, que é conhecida pela desobediência de gênero. Ela é do Rio Grande do Norte e está morando entre Itália e Alemanha. É genial! Está com uma exposição até 11 de maio e diz que foi criada ouvindo o seu disco.
Cátia de França — Eita! Sim, eu sei!
Dina Faria — Eu mandei pra você!
Cátia de França — Sim, queriam me ver
Débora Pill — Vocês foram à exposição?
Dina Faria — Não deu para ir.
Débora Pill — É muita influência!
Cátia de França — Sim, é isso mesmo. Ela [Dina] me mostrou… Eu fico…
Daniela Cucchiarelli — A Juliana Linhares fez um show cantando somente suas músicas.
Natale — Cátia, dessa relação que ela citou, da Juliana Linhares fazendo uma homenagem, quando você conheceu Clementina de Jesus foi o inverso, né, você à frente daquela mulher. Como foi esse encontro? Você se lembra desse momento?
Cátia de França — Me lembro, me lembro, porque foi criado todo [um contexto]. Foi para o disco Estilhaços e eu já não tinha mais aquele apoio [da gravadora], porque Zé Ramalho e nem Carlos Sion, que orquestrava toda a coisa, não estavam mais comigo. Então, o disco tinha de sair mas não era mais com aquela gestão do disco anterior, do 20 palavras. Então, botaram um produtor que eu não conhecia, mas que era do interesse da CBS, mas para sair um disco não igual, mas com o teor do 20 palavras, foi [chamado] o Paulo Carvalho, que já se foi e que era o arranjador de Zé [Ramalho], Elba, Marina. É dele a música que o Ney Matogrosso canta (canta) “Acorda América do Sul”. Ele era o autor dessa música. (n.e. “América do Sul” foi composta por Paulo Machado e lançada por Ney Matogrosso no álbum ‘Água do céu-pássaro’, em 1975 pela gravadora Continental) Ele perguntou como eu queria que a música fosse cantada e eu disse que deveria ser com a dona Clementina. Ele disse: “Então, vamos!”. Mas quando expôs isso para o produtor, não encontrou respaldo; ele não entendeu, ele era da banda Os Incríveis. Mas em momento algum não houve um obstáculo, porque o maestro não permitiu, o Paulo Carvalho, e ele, claro, sensível e competente, criou uma atmosfera de chegada do Orixá nesse estúdio, e não era um estúdio famoso, não. O Havaí fica na Presidente Vargas, num prédio de aspecto militar. Quando ela chegou, tinha uma aréola de flores quase da altura dela e uma cadeira como se fosse um trono. Chegou ela e a filha Olga. E antes tomaram cuidado para ela [conhecer a] música, para saber do que se tratava. Mas por trás disso tem a mão de um grande produtor dela, o Hermínio Bello de Carvalho. Ele gosta de mim até hoje, tipo assim, dele me mandar um convite para eu ver uma entrega de prêmio no Teatro Municipal. (…)
Ricardo Tacioli — E o Hermínio estava na gravação?
Cátia de França — Estava não. Eles perguntaram: “Quem é essa Cátia de França?”. Ele criou a possibilidade dela aceitar, e ela aceitou e foi bonito demais! Aí quiseram relançar o Estilhaços mas ficou meio difícil, porque pediram tão alto os direitos autorais que o menino que lançou o 20 palavras, o Rafaelzinho, está meio assim. Ele está vendo se lança o Estilhaços de novo. (n.e. Rafael Cortes é um dos sócios do clube de assinaturas de discos Três Selos, responsável em 2021 pela reedição em vinil de ’20 palavras ao redor do sol’)
Ricardo Tacioli — “Meu boi Surubim” é um dos destaques do disco.
Cátia de França — É, e é Guimarães Rosa, aboio dos vaqueiros que deságua na minha realidade, tem muito a ver com No rastro da Catarina, o rastro, porque tem uma entidade no terreiro que minha mãe recebe — na Bahia não se gosta muito de caboclo, só em cima do Orixá mesmo, já a gente, não… E a minha mãe é Ibope mesmo, a grande tônica para ela trabalhar, para o povo chegar perto… já o Orixá precisa ter o Erê para traduzir, quer dizer, é o tradutor, mas o povo quer logo de imediato, “Quero meu marido de volta!”, e ele diz “Faça isso, isso e isso!”, e o marido volta. Então é isso que o povo quer, rapidez. Então eu convivo com ele, ele me adora, porque gosta do “Meu boi Surubim”. Quando ele está em pé, ele diz “Neguinha!” e lá vou eu cantar. (canta) “Ê, lá vai o gado / do trote rasgado…”. Ele gosta demais, dá um rodeio. E deve estar me inspirando, porque essa coisa de ficar toda voltada para o disco [novo], posso até demorar a dormir, mas eu me volto. É a história de’u entrar com o chocalho, porque tinha de ter elementos teatrais, [além de] usar o conduíte para criar um som que lembre a chegada de uma santa, de Nossa Senhora. O conduíte eu usei aqui em 75 para criar a atmosfera do Lampião no Inferno; eu usei folha de flanders para dar o relâmpago, o som de trovão para a peça, e o conduíte para dar essa aura. E eu consegui. (n.e. Cátia de França foi sonoplasta, instrumentista e diretora musical entre 1974 e 1976 de espetáculos como ‘Lampião no inferno’, de Jairo Lima com direção de Luiz Mendonça, e ‘Viva o cordão encarnado’, de Luiz Marinho, também sob direção de Mendonça) A folha de flanders não deu, não, porque a que usei era maleável e fazia bem, mas me passaram uma de aço e avião nenhum ia querer… Uma loucura! (risos) Mas cortou, não era o novelão, mas deu certo, o público entendeu, porque se ficou com a mão assim, consegui o que eu queria…
Ricardo Tacioli — Cátia, acho que o Renato tem uma pergunta.
Renato Nascimento — Você estava falando sobre santos e religião. Há pouco tempo você falou que é filha de Exu.
Cátia de França — Sim.
Renato Nascimento — Exu é o Orixá da Comunicação. Você nunca fez esse paralelo com a sua timidez, nunca causou essa curiosidade depois que descobriu ser filha de Exu?
Cátia de França — Tem hora que sou eu, tem hora que é ele. Quando perguntaram: “Cátia e Catarina?”. Pra poder separar é a mesma coisa daquele rio do Amazonas, tem hora que não se mistura.
Renato Nascimento — E você se comunica muito bem.
Cátia de França — E o outro Orixá é Iansã, que conduz o Ogum, que é uma coisa que eu tenho medo. Claro, essa história evito falar, quando tiver de ser, vamos ver… Todos nós temos o lado X e o lado B. Tem um lado meu que é Puma, isso de origem americana, e o outro lado é Aranha. Eu saio do sério, não tenho qualificação do elemento quando aparece uma aranha na minha vida. Eu moro no mato e lá é um pires, um prato fundo, tipo disco voador, e eu entro [e fico isolada]… E, lamentavelmente, é uma doidice, porque é a minha mãe, né? Gato eu tenho vários, que é o Puma, mas essa história de conviver com a queda, eu sei tudo, eu diferencio quando cai no closet, o barulho que ela faz quando [cai]. E as grandes não fazem mal, mas as mínimas, de bananeira, que mata as pessoas. É uma loucura! Eu uso lança-chamas, faço um com um cabo de vassoura bem grande, com jornal amarrado e molhado com álcool.
Ricardo Tacioli — Lança-chamas?
Cátia de França — É, lança-chamas. Quando eu boto fogo… “Tuffff!” “Você vai incendiar a casa, não-sei-o-quê. Que loucura! Você é maluca!” Mas ninguém acredita. E essa história de que é mais fácil “Chame o vizinho!”, que doidice, que tem seu marido… A aranha não diz “Vou chegar às 7 horas!”… [risos] Imagine, se ela levar o marido dela fica um negócio meio incongruente, “Venha matar a aranha!”, imagine, porque tem uma música que fala de aranha. (n.e. Possivelmente Cátia de França se refira à música “A barata”, do grupo Só pra Contrariar) Então, chamar o marido dos outros porque eu tenho medo começou a ficar estranho, então eu fui para o lança-chamas. Que doidice! (risos) É non-sense, porque eu sei que é a minha mãe, mas ela surge e é terrível.
Natale — Cátia, em uma entrevista você definiu que o tipo de música que você faz é música popular mundial. Continua?
Cátia de França — Mais do que nunca, porque quando vem é de cunho de raiz, o lado B das histórias. A música da Florbela, “Eu”, (n.e. Poema da poeta portuguesa Florbela Espanca musicada por Cátia de França) saiu uma sofrência, e ainda boto uma citação dos Beatles. Ela fazia parte do repertório das Líricas, que vinha abaixo o teatro quando eu cantava. E a [guitarrista] Lucinha Turnbull estava presente na primeira vez; eu não sei ler, mas a citação dos Beatles está dizendo e casa perfeitamente com o sofrimento de Florbela. Fazia parte com as criações belíssimas das duas, da Ceumar, que era choro total de tão bonito que são as canções…
Daniela Cucchiarelli — Um outro tema que vi que você usou em uma entrevista que achei bonito é “música de coragem popular brasileira”.
Cátia de França — (ri) Foi?! Eu nem me lembro, é uma doidice!
Daniela Cucchiarelli — Tem uma coisa política, de protesto, nas suas letras.
Cátia de França — Sim! Por exemplo, essa parceria com Socorro Lira, em plena loucura desse homem que chamaram para fazer parte do reino (n.e. Referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro), e como vai consertar [porque] antes era uma alegria ver a bandeira nacional e hoje em dia a gente fica achando… E eu li a letra que é uma discussão sobre horta, legumes e verduras, e esses arrebatamentos que tenho não podem ser de dia, então foi de madrugada. E os meus gatos são muito ciumentos. Eles estavam sonolentos, dormindo, porque senão [podem interferir], têm medo de qualquer som diferente. E nasceu ali, até o riff, nasceu rock! E gravei para não esquecer, porque não sei mexer no iPhone, eu tenho um iPhone 4, já está no 14, imagine como é a minha vida (risos), mas ele funciona e é uma gracinha. E é vendido, não é comprado novo. E consegui capturar e mostrei pra ela [Socorro Lira]. Ela queria James Taylor, queria folk, e mandou a versão dela, “Vamos gravar folk!”. Eu mostrei para os meus músicos, mostrei para mim mesma, eu me arrepiava, “Que é isso! Não vou fazer, não!”, e criou um… nunca houve isso, entre mim e uma parceria, e foi infantilidade dela. Ficou um mal-estar, mas eu não cantei, não. Se mostrar como ela gravou e mandou e como ficou, que é como é pra ser mesmo, porque é uma resposta, é o homem [Jair Bolsonaro], acho que ela deve ter feito pensando nisso. É rock, o grito e tudo, a colocação, e dizendo como tudo foi na corda bamba, não tem tempo que apague os estragos. E eu queria, porque eu tenho “20 palavras”, mas é João Cabral, o texto é dele.
Ricardo Tacioli — E o que tem de música no João Cabral?
Cátia de França — Primeiro, ele não gosta, né? Ele não gostava. Música pra ele… Eu cheguei perto por causa da filha, porque musiquei os filmes dela tudinho. Quase não ria. A primeira vez que eu vi foi na [revista] Piauí, em que aparece ele rindo, porque ele tinha uma enxaqueca crônica, uma dor eterna tomando um comprimido. E a filha [dele] foi a minha tradutora, o fio condutor, da maneira mais amável, “Assine embaixo, permita que ela entre, permita que ela use seu trabalho e bote o nome num disco, 20 palavras girando ao redor do sol. Foi a intervenção de Inês Cabral e ele permitiu. E a gente até chegou a ir em um almoço de domingo no apartamento no Aterro do Flamengo, e sem contar que, literalmente, o neto, o Sereno, conviveu comigo, tinha um cavaquinho para ser parecido com o meu violão grande.
Débora Pill — Fale mais sobre cinema. Queria ouvir você falar sobre trilhas, você fez muita coisa…
Cátia de França — Foi o que originou “Rio Capibaribe”, uma felicidade! Uma coisa é você fazer vendo o copião, outra coisa é eu ir para lá [sentir] cheiros, a comida, ir para a minha terra, tudo impregnado do que me pertence. Naquele tempo, para fazer um filme era tudo na ponta do lápis, se eu desse uma de diva, se eu pedisse “Só faço se eu for para Pernambuco!”, uma doidice! Mas ela compreendeu, sensível, e eu e o marido dela, o Lula Côrtes, que é uma coisa que nego não deu de vida, porque ele não era só aquilo, era artista plástico, irreverente, louco e lindíssimo! Cabelo longo! Era um negócio que a gente até ficava confusa. [risos] Você me traz água? Eu já estou admitindo um bocado de coisa. (ri) O meu lado de Maria Padilha. (risos) Não tenho nada contra: tenho amigas minhas, como a Marlene, que faz música comigo, artista plástica de Olinda, não admite: “Mas isso é uma incongruência!”. “Se tu estivesse aqui! Tu vieste de onde? De chocadeira?” (…) Eu perdi a virgindade com o Luiz (de) Marillac, que era assessor do governador [da Paraíba] Pedro Gondim (1961–1966), uma espécie de Miguel Arraes da época. E era crioulo e a mamãe queria os netos. E a família dele é Marillac Toscano; eu era muito amiga da irmã dele, Luíza. [Ele] com o ares palaciano, muito prepotente, um ego por conviver no palácio com o governador. Ele fazia tudo para as mulheres se jogarem no chão. Eu não me jogava no chão porque eu já era Cátia de França. (ri) Começou a coisa de química. (…) E não fiquei cobrando coisa nenhuma a ele, não. E mamãe adorou, porque era moreno, né? A família não ia dizer, “Ah, é uma criolinha!”, mesmo que eu fosse Cátia de França, não queria saber nada disso. E depois ele foi me ver numa festa que o Sesc de João Pessoa fez para comemorar os meus 50 anos. Nesse tempo eu andava muito com roupa africana e a banda era a Banda Absurda, só moça tocando. Aí ele chegou com mesuras dele. Agora, ele é que acabou o namoro, porque estava quase um pré-casamento, todo mundo querendo muito, do lado de cá, mamãe, porque que ele é intelectual, e do lado de lá, né? Mas por causa de uma mulher que ele tinha há muito tempo, uma manicure, disse “Eu vou fazer um escândalo na escola da mãe dessa menina que ela não vai mais nunca se aprumar!” Ele ficou com medo da amante e quando ele terminou, me pegou despreparada, porque eu estava certa de que ia chegar aos finalmentes. Aí eu boto isso no meu cordel. Quando aconteceu isso o homem estava pisando na lua. Naquele momento em que a televisão [mostrou], foi quando aconteceu o fora, o toco. E na mesma hora meu pai estava tendo um pré-infarto. Foi tudo junto! Eu botei isso no cordel. Um verso que nasceu na hora: “um homem pisando na Lua e o outro pisando no meu coração”, me lascando. Mas estava bem construído. “Sabe de uma coisa: vou com vingança, vou assumir mesmo, vou arrancar a porta desse armário!” E, pronto, escancarei mesmo!
Daniela Cucchiarelli — Você chegou a tocar na Parada Gay em João Pessoa, né?
Cátia de França — Sim, sim, e também quando eu fiz o [show do Rumos Itaú Cultural em 2008] aqui era o Dia do Orgulho Gay. Nunca vi tanto gay junto; o baterista era muito homofóbico, e o menininho, filho dessa amiga minha, que tocava percussão comigo, entrou no elevador do hotel e, claro, tinha [gay] em todo canto. São Paulo fica uma euforia só e o baterista querendo ranger os dentes, fazer piada. E eu digo: “Mas só faltava essa: eu não poder cantar hoje à noite porque quebrei os dedos da cara dele!”. (risos) Agora, que dia, é muito bonito, muito girassol! E eu vim agora fazer quatro dias no Itaú, de uma outra coisa, e [a Parada] estava também. (n.e. Vencedora do Prêmio Milú Vilela, Cátia fez quatro shows no Itaú Cultural em junho de 2023 celebrando os 50 anos de sua carreira) Menina! E eu nem preciso falar, porque o meu lado agreste…, mas teve um tempo em que eu ficava [quieta]. No colégio interno foi terrível. Descobriram! E foi por isso que fui passar os 15 dias em casa.
Ricardo Tacioli — Foi por isso.
Cátia de França — Foi por isso. “Manda ela para o psiquiatra pra cuidar, para encaminhar!” Mamãe endoidou. “Minha filha não tem nada disso, nem psiquiatra, nem vai… Os 15 dias serão de engorda. Ela vai engordar que ela está seca como ao bacalhau. Devolvam minha filha com saúde, porque vocês me devolveram… E não inventem mais coisa nenhuma que não consta, porque eu quero ela professora, e não alterada.” Aí, pronto, fui. Na época eu estava pré-noiva do Sérgio, sobrinho do Padre Pires; ele foi porque tinha que entrar uma pessoa comigo. Houve um ensaio da cerimônia e eu era muito gaiata, eu me defendia com coisas engraçadas, porque aí todo mundo me aceitava, mesmo sabendo o que eu era, porque ficou de domínio público que eu era gay. As turmas riam muito comigo. Aí, nesse dia, para ensaiar como fazer a condução, de braço com o noivo que ia comigo, para onde ia o canudo, o diploma, estender a mão para apertar a mão de quem me entregou [o diploma] à mesa, e uma bolsa, era muita coisa para gerenciar. (ri alto) Isso tudinho pra esclarecer! (ri) Eu não sei o que aconteceu, mas tem gente que [diz que] balancei o noivo (risos), aí estraguei a cerimônia. “Pra que vocês disseram que a culpa era minha”, mas, não, deu certo. Agora, ele adoeceu, quebrou a casa inteira, e mamãe disse: “Não quero!”. Tinha um senão, ele tinha um surto e a mamãe disse “Ele vai acabar com o meu cristralzinho!” (risos) A casa era em frente da nossa, porque ela queria ficar de olho. “Daqui de cima eu vejo!” Então, desfez tudo.
Ricardo Tacioli — É curiosa a relação que você tem com a sua mãe, de uma admiração enorme, mas ela tem uma presença muito forte e de uma certa repressão.
Cátia de França — Tem.
Ricardo Tacioli — Então tem esses dois momentos…
Cátia de França — É, uma coisa dual… Aí eu criei uma certa implicância.
Ricardo Tacioli — Você brigava com ela?
Cátia de França — Não, não, não chegava a isso, mas ela sacava que… Depois ela se aquietou mais.
Ricardo Tacioli — Ela ouviu o seu primeiro disco?
Cátia de França — Não, chegou não, teve as histórias [da doença], mas ela sabia que ia dar certo, porque eu fiz o Flávio Cavalcanti e ela tomou conhecimento. Ela só não gostou porque ele prometeu, na época, mil reais e não tinha dinheiro nenhum dentro do envelope, que era para comprar tal da televisão.
Natale — Não tinha?
Cátia de França — Tinha não, o rádio [um dos prêmios] era físico, um rádio imenso, potente, pegava até os mandarins. Agora, o dinheiro não tinha, não era como o Silvio Santos, não tinha dinheiro nenhum dentro [do envelope]. (risos)
Natale — Ele dizia que tinha?
Cátia de França — Sim, claro, entrega pública, sim, total! Aí quando eu perguntei, riram de mim. “Eu disse à minha mãe que eu ia mandar o dinheiro para ela!” “Não, minha filha, todo mundo que ganhou… Isso é só uma coisa [cênica]!” O rádio era pra torar mesmo, G&E, grande, pesado. E era um evento em que cheguei e escolhi (canta) “Se você não me queria / Não devia…”, mas em ritmo de blues. Eu gosto dessa praia. (n.e. Referência à “Não me deixe em paz”, de Monsueto e gravada na época por Alaíde Costa e Milton Nascimento no álbum Clube da Esquina, de 1972) Era piano, baixo e bateria da TV Educativa do Rio. toda levada mesmo à Nina Simone. E deu certo, por isso que eu fui galgando as eliminatórias. E o júri era a [atriz] Márcia de Windsor, Erlon Chaves, e tinha aquele incongruente que dava muito não pra gente… Não era o Pedro de Lara, não, era um outro, mas não sei dizer o nome…
Natale — Zé Fernandes? (n.e. O músico, maestro, cronista, radialista e crítico musical José Fernandes de Mendonça, 1925–1979, fez fama de jurado jogo duro nos programas Flávio Cavalcanti e Silvio Santos)
Cátia de França — Sim! Elke [Maravilha] não sei se estava. E foi um evento que ganhou Áurea Martins e Emílio Santiago. Eu perdi para esses dois! Quando disseram, digo, “Menino!”.
Ricardo Tacioli — Cátia, estou preocupado com o tempo.
Débora Pill — Meio-dia e dezessete.
Ricardo Tacioli — Dina, tudo bem a gente ter mais 15 minutos de papo e depois as fotos?
Dina Faria — Sim.
Ricardo Tacioli — Então a gente tem mais 15 minutos.
Cátia de França — E passei pelo Chacrinha também, mas não com a gravadora dizendo “Trate bem, é fulano!”. Não é que foi tratar mal, mas toda uma coisa real, sem cerimônia, salamaleque. Prova é que eu cantando “Estilhaços”, ele com aquela buzina tocando em cima pra ver se tu prestas mesmo, pra te levar ao erro. Mas pode cair a emissora que eu faço o que eu vim fazer. Aí eu vi como não havia um respeito, mas, fiz o Chacrinha, pronto.
Ricardo Tacioli — Programa de auditório já com o disco Estilhaços, né?
Cátia de França — Sim, isso, cantando porque foi bem tocado. E até hoje as pessoas que fazem voz e violão pelo mundo afora, principalmente no Brasil, “Estilhaços” é bem [tocado]… E virou hino do povo hippie, esses de rua que fazem artesanato. Eles chegam pra mim e contam “É ‘Estilhaços’!”.
Ricardo Tacioli — Um período mais silencioso, pelo menos em relação à exposição e ao disco, foi em 85, 86 com o disco Feliz demais.
Cátia de França — Sim.
Ricardo Tacioli — Que momento da sua vida ele fotografou? Pelo menos pela capa, é um disco que difere dos dois primeiros.
Cátia de França — É, e também o conteúdo. Feliz demais eu não podia estar com aquela expressão, eu estou bem contida e com uma sisudez. E feito de madrugada, com pouco dinheiro. Eu não me lembro qual era a moeda, mas era uma sacola de Compre Bem, setecentos e teretetê para fazer de tudo, e músico foi pinçado… O disco foi pelo selo de Jairo Pires, que estava conosco lá na CBS quando eu e o Zé Ramalho entramos. Ele dava as cartas lá, entendeu? Nesse tempo [do ‘Feliz demais’], não, ele já tinha saído. Aí o Chocolate, que era da Phillips, que trafegava com as coisas bem sucedidas fonograficamente, disse: “Eu fui escutar uma turma cantando forró aqui na rua da Carioca, no Rio, e Cátia de França lá tocando, é uma coisa assim, tem que gravar um disco”. Aí ele vendeu essa ideia para Jairo, Jairo aceitou e, pronto, assim foi feito na Senador Dantas, perto do McDonald’s, naquele centro nervoso do Rio de Janeiro, mas feito no final da noite, mas não como foi o 20 palavras, nove horas da manhã sem hora pra acabar, com o que havia de melhor. [Em ‘Feliz demais’] eu estava com uma banda pinçada; gente minha só tinha o zabumbeiro e o vocal. E uma ideia de botar bateria eletrônica, não tenho nada a ver com isso! Aí teve que refazer, a pessoa do baixo também não… aquele nervosismo, e teve de ser refeito por Doda Ferreira, um grande baixista do Rio de Janeiro. E aí, pronto, foi feita aquela coisa…
Ricardo Tacioli — É um disco em que você não se vê muito?
Cátia de França — Não, eu estou dizendo a condição, mas as músicas trazem meu pensamento. Ali era feito de uma forma precária, infeliz. A gente tinha uma melodia, porque eu no piano sou muito jazz, né? Eu fiz um tema no piano e dei para algumas pessoas musicar e todo mundo congelou e se assustou, sei lá. Aí mostrei para a Dina, que pega a letra de “Meu pensamento” e deu o que vocês viram gravado, que é um momento de’u sem tocar nada devido à convivência com o teatro bem sucedido, porque eu não tive aula convivendo com Tânia Alves, poder dizer um texto teatralmente e assumir uma coisa que é outro mundo. Porque se eu estou com violão, estou me defendendo. Antes eu tocava sentada de medo que eu tinha. Aí a Inês Cabral disse: “Em pé, mesmo que a perna trema, o povo veja, mas se exponha, corra isso!”. Pronto, eu fiquei…
Ricardo Tacioli — A Inês é responsável.
Cátia de França — Sim, por isso, na Casa de Estudantes, aquela casa que a repressão derrubou. A diretora foi ela e ela disse isso, “em pé!”, e mudou o nome de K pra C… Aí você sem nada na mão é outra história, porque eu canto com tudo que tem direito. E eu gosto desse outro lado americanizado, e é um nonsense, porque se estou lutando contra essa opressão que vem de lá, os Trump da vida, mas é o meu lado negro, o meu lado do algodão, nos trilhos do trem, o que eu ouvi. Tem um amigo meu, o Tota, que gravou negritude lá no Festival, em 1971, e me trazia discos importados americanos, como Thelonious Monk, que tem mania igual a eu de ficar rodando no ponto só. Eu tenho manias terríveis. Tem a ver a loucura de conviver, né? A economia de Dizzy Gillespie, que lembra o pianista de Gal.
Natale — Foi nessa época que você conheceu Nina Simone?
Cátia de França — Sim, porque ouvia tudo. Com Inês também, mas é mais Espanha por causa do pai, de trazer isso tudinho. É a soma de tudo. E com o Tota era extremamente americano. Aí vai o piano lá para casa, um barrilzinho de vinho, não era de chope, era de vinho, botou couro, era quase como se fosse Ilú de Umbanda, aí, pronto, tocando. Mamãe: “Que coisa ótima quando vocês ficam aqui! Aí sei onde ela está!”. O problema era esse. (risos) Aí o menino me olhava e dizia: “Ela quer dizer o quê com isso?”. Eu dizia: “Deixe para lá!”. (risos) O piano era guardado na biblioteca e a gente ficava horas. E eu ouço e eu tenho, eu gosto, entendeu? Eu ouço à exaustão uma homenagem que o Barack Obama fez para Paul McCartney. Eu tenho isso no YouTube, eu boto… (n.e. O ex-presidente dos Estados Unidos homenageou o ex-Beatle em 2010 ao entregar o prêmio Gershwin de Música Popular, na Casa Branca) Eu fui tocar no aniversário de uma fã minha e ela tinha Estilhaços. “Meu aniversário de 60 anos eu quero o show de Cátia de França!” E lá foi a gente pra Rondonópolis. Ela pediu o que queria ouvir e aí foi outra [história], ela pegou o lado b: “Menina passarinho”, “Hoje tem futebol”. Aí eu e o violeiro a gente dissecou, e é aí que a internet ajuda: peguei como era, fiz as partituras do meu jeito, porque eu não sei [ler partitura]… O que tiver matemática eu fico tossindo, por isso que eu não ensino, não sou professora, e música é matemática: semifusas, colcheias… Aí eu fiz as partituras com cifra, eu sei, só não sei assim quinta aumentada, aquelas aranhas, né? Isso eu não sei, mas eu fiz com a orquestra sinfônica e conto os compassos. Boto a minha partitura de “No bagaço da cana” e conto. Às vezes conto 17 compassos e eu consigo, entro certinho, porque eu boto os meus desenhos e o maestro é o meu cúmplice, ele sente e me dá as entradas.
Ricardo Tacioli — Você é um metrônomo!
Cátia de França — Sim, porque tudo meu é muito ritmo. Então eu ouço isso e faz o maior bem do mundo.
Ricardo Tacioli — Gente, mais alguma?
Débora Pill — Não temos tempo!
Ricardo Tacioli — Cátia, o que a idade, o tempo, traz de bom para você e o que ela tira?
Cátia de França — Me dá a sabedoria, a maturidade, como é que eu diria, não ter pressa também, embora eu seja cardiacamente [acelerada], mas eu sou nonsense o tempo todo, mas deve ser Ele, o meu pai que é. E as limitações físicas, porque o que me salva deve ser isso, a minha irreverência, fazer os outros rirem, isso faz muito bem para mim; eu vou embora, mas vai ficar uma aura. E isso não vai mais tirar da gente mais nunca, como uma frase de caminhão, um negócio meio lugar comum: “você se torna responsável pelo que cativa”, que era a coisa do Pequeno Príncipe. Então, é o lance do efeito gatilho, e aí vem toda uma coisa que você descobre: a ginástica! Eu tenho uma música “Academia lanchonete”, que é o povo cuidando muito do físico, é uma loucura, mas eu descobri que, antes do show, dormir é uma coisa boa pra mim, fazer ginástica. Eu não sabia que a batata da perna é o segundo pulmão. Descobri, então eu faço 50 vezes, porque irriga, né? E o lance da mão, que fechava e não abria, aí é para torar os dedos. A minha mão direita o povo elogia muito, porque ouvindo à exaustão o guitarrista Santana, mas eu podia me mentir agora e dizer “Baden Powell” para ficar na… (risos), mas eu tenho outro lado, então era Santana, o ceguinho José Feliciano, porto-riquenho, mas para furar mesmo, entendeu? Era o lance impregnando mesmo, entrando e ficando e se exteriorizando, então é essa mão que o Yamandu [Costa] viu tocando na Lapa e disse “O que é que é isso?” para uma virada que eu dou num rock, “Minha vida é uma rede”, que está no show e no disco, acho, Hóspede da natureza. A visão, o olho queimado pelo álcool, aí eu tenho que usar um outro óculos para poder enxergar a partitura. E eu não me vejo com esse, como é o nome do celular que é quadradinho?
Ricardo Tacioli — Tablet?
Cátia de França — Sim, não me vejo, porque todo mundo usa isso hoje, maestros, músicos. Não! Para qualquer parte do mundo que eu for, tem que ter estante e meus books, com as letras e meus hieróglifos, porque é justamente a partitura que inventei para eu poder até trafegar pelo mundo. Então, é isso que eu sinto, [o tempo] me deu maturidade para descobrir isso, o que eu como, o que eu leio. Eu não como carne desde 1983, então são 40 anos sem carne vermelha. Eu não trouxe o livro que o rapaz fez um apanhado; em 2004 a monografia dele foi pegar a minha obra todinha e pinçar os personagens: quem é esse Sete Casaca lá de “Coito das araras”, e aí ele diz o livro e a página. Quando eu participo de coisas, assim como a de vocês, que é só cantar e falar, perguntas, essa apostila me ajuda muito. É o Luiz Carlos, de Areias, lá do interior da Paraíba. Os personagens estão tudo ali, para dizer de onde eu tirei as cantorias de “Meu boi Surubim”, (canta) “Menina não tem pena do meu coração sofredor” e, de repente, ouvi uma coisa aí “onde pisa / nasci flor”, que é um ponto de Umbanda lá de um caboclo ou de Oxóssi, ou mesmo de quem cuida das plantas, que é o Ossanha, que quando quer conversar com ele diz (brada) “É ô, é ô!”, porque todos têm um grito, um brado. E o dele é o mais pungente possível, (brada) “É ô, é ô!”, e aí ele responde, ele está na mata. Tem Oxóssi. Agora, o Ilá, o grito do Orixá das epidemias, até eu fico…, porque é o Omulú, que é da palha e a gente não vê. Pipoca é o xodó dele, então no tempo da epidemia era colocada [pipoca] na entrada de casa. E quem era de dentro feito era despachar as quartinhas; tinha uma quartinha no pé de cada Orixá com água. E por aí vai… Vamos marcar mais pra frente uns cinco dias… (risos)
Ricardo Tacioli — Cátia, quero agradecer muito a sua paciência.
Cátia de França — Paciência? Você não viu como eu fiquei feliz?
Ricardo Tacioli — De ouvir aqui as nossas perguntas, de dividir esse momento com a gente.
Cátia de França — Ô, meu filho, muito obrigado. Me chame mais vezes.
Ricardo Tacioli — E, Cátia, agora é um momento de registrar a alma…
Cátia de França — Sim, eu sei, dependendo de quem está por trás, pega seu ângulo, o melhor ou o pior, ou fotografa o seu demônio, entendeu? (risos)
Natale — É a essência, não é o ângulo, é a essência!
Cátia de França — É isso! Tem uma figura notável na música popular brasileira que me fotografou, foi uma coisa terrível. Eu não vou citar o nome da pessoa, é uma figura, é um músico, é homem, me fotografou no Rio de Janeiro. Como é aquele macaquinho? Babuíno, não é? Sim, eu fiquei a própria! Para estar com aquela expressão, eu devia estar cantando “Kukukaya”, e pegou… Eu disse: “Vige Maria, ele não me ama, não!”. (risos) E eu tenho minhas passagens: ganhei prêmio de um salão de fotografia. Fotografei, em Botafogo, entre duas garrafas de Brahma, um rapaz assim, bem solitário, com dor do cotovelo; foi com a câmera potente da filha de João Cabral, Inês, que tem umas máquinas fotográficas que valem um quitinete, um apartamento (ri). Fotografei e ganhei um prêmio. E também pintei. Eu tenho o meu traço na naïf. Acabei um casamento e, para não enlouquecer, descobri que eu podia pintar. Aí veio um crítico de arte e disse “Gente, quem são essas telas?!”. “São minhas!” “Você é naïf!” Pronto, eu expus também, tem esse outro lado meu.
Ricardo Tacioli — Continua pintando?
Cátia de França — Não estou tendo tempo, mas está lá dentro. De vez em quando eu faço. E ainda bem que estão guardados, porque tanta mudança, vai para tanto canto…
Daniela Cucchiarelli — E os cadernos estão guardados também?
Cátia de França — Estão, vige maria, guardo, porque se extraviarem…
Débora Pill — Agora precisa de um museu pra guardar, né?
Cátia de França — Uma fundação, né? E, de preferência, embaixo ter um teatrinho para eu fazer esses pocket shows.
Ricardo Tacioli — Cátia, só vou tirar [o microfone de lapela].
Cátia de França — Sim, meu filho.
(Cátia de França se posiciona para a sessão fotográfica, enquanto a equipe começa a recolher os equipamentos)
Natale — Nossa, quanta história!
Débora Pill — Essa é a parte 1, né?
Ricardo Tacioli — É a parte 1. Cátia, depois do almoço a gente continua. (risos)
Cátia de França — Aí eu quero!
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Faixa 01 – “Ilha do Mel” (Raul de Souza), por Raul de Souza
Faixa 02 – “Balada 45” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Arthur Verocai
Faixa 03 – “Sweet Lucy” (Raul de Souza), por Raul de Souza
Faixa 04 – “Balanço Zona Sul” (João Donato), por Raul de Souza e Robertinho Silva
Faixa 05 – “Rio Loco”
Faixa 06 – “Don’t ask my neighboors”
Faixa 07 – “Banana tree”
Faixa 08 – “Piano na Mangueira” (Tom Jobim), por Raul de Souza
Faixa 09 – “Bossa eterna”
Faixa 10 – “Lugar comum” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Robertinho Silva
Entrevista realizada em 22 de abril de 2024 no estúdio fotográfico de Renato Nascimento, Lapa, São Paulo.
Equipe entrevistadora:Daniela Cucchiarelli, Débora Pill, Edson Natale e Ricardo Tacioli
Produção: Ricardo Tacioli
Transcrição, edição de texto e texto de abertura: Ricardo Tacioli
Fotos: Renato Nascimento e acervo de Cátia de França
Agradecimentos: Carlos Alberto Sion e Dina Faria
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