Sua música é samba, jazz e funk. Tocou com Sonny Rollins e Stanley Clarke.
São Paulo/SP | 16.out.2005
Nome: João José Pereira de Souza
Data e local de nascimento: 23 de agosto de 1934, Rio de Janeiro/RJ
Data e local de morte: 13 de junho de 2021, Paris/França
Ofício: Trombonista
Discografia: 15 álbuns desde 1965
Entrevistadores: Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Giovanni Cirino, Max Eluard e Ricardo Tacioli
Produção: Dafne Sampaio e Ricardo Tacioli
Transcrição: Marllon Chaves
Edição de texto: Ricardo Tacioli
Texto de abertura: Dafne Sampaio
Fotos: Dafne Sampaio e Henrique Parra
Registro audiovisual: Fernando Almeida e Max Eluard
Agradecimentos: Bureau Export de la Musique Française, Graça Seligman (MIS/SP), Rita Menezes e Teresa Benassi
Entrevista realizada em São Paulo/SP em 16 de outubro de 2005.
Vocês topam entrevistar o Raul de Souza, aqui no MIS, amanhã?”. Era um sábado à noite e quem estava do outro lado da linha era Teresa Benassi, amiga e coordenadora do setor de áudio e música do Museu da Imagem do Som paulistano. Oferta irrecusável. Não só pelo fato de que o carioca é referência viva, e mundial, quando se fala de trombone, mas também por viver fora do país (na França, há pouco mais de seis anos). A súbita vinda ao Brasil tinha dois motivos, dois lançamentos: um CD (Elixir), gravado com os franceses do Claire Michael Group, e um documentário sobre sua vida (Viva volta, de Heloísa Passos). Convite aceito.
Montamos toda a parafernália para a entrevista sobre o histórico palco do Teatro do MIS e tivemos até o luxo de poder ajustar as luzes e arrastar, um pouco, o piano da casa para fazer o melhor ambiente possível. Raul chegou acompanhado da mulher francesa, Yolene, e logo se mostrou falante e com uma memória das mais afiadas. O homem-músico Raul pode ser descrito como aquele que criou o som moderno, meio jazz e meio gafieira, do trombone brasileiro, ou então o músico-homem que tocou com figuras das mais diversas, desde Tom Jobim até Roberto Carlos, desde Maria Bethânia até Ná Ozzetti, desde Sarah Vaughan até Freddie Hubbard.
A fama de doidão o perseguiu durante um bom tempo e ali, em cima do palco do MIS paulistano, Raul de Souza continuava parecendo doidão, mesmo bebendo apenas água. Talvez seja um jeito meio que sem atenção de ver a vida. Ou talvez um bom humor impermeável a mágoas. Ou ainda uma alegria imensa em jogar conversa fora. Uma coisa é certa: o trombonista é um interlocutor cheio de memórias e detalhes, mas dono de poucos questionamentos. Dá para imaginar que a fala de Raul de Souza tem muitas voltas e só mesmo ele sabe onde vai parar. Jogamos então um óleo na pista e conseguimos um bom pedaço desse carioca do subúrbio, músico do mundo e homem-trombone-doidão.
Raul Souza — Toquei aqui com o Guilherme Vergueiro há muitos anos.
Ricardo Tacioli — Há quanto tempo?
Raul — Não sei. Rita, há quantos anos faz que eu toquei aqui com o Guilherme?
Rita Menezes — Em 80.
Raul — 80? Deve ser o quê, 88, não? Eu cheguei aqui em 86? Foi em 88.
Rita — 88, então.
Raul — E eu fiquei morando aqui. Sempre, como sempre.
Rita — Era dentro de um projeto, não era?
Raul — É, isso.
Teresa Benassi — Foi em um tempo em que eu nem sonhava estar no Museu. Eu fui pesquisando ali e achei isso: “Nossa, o Guilherme, o Raul… Eles estão na lista de prioridades para quando o acervo for digitalizado”. Está tudo bem guardadinho, aguardando o momento exato.
Tacioli — Vou explicar pra você o que faz toda essa rapaziada. Nós produzimos um site de longas entrevistas com artistas da música brasileira (…)
Raul — É, gafieira é a mãe, né? A primeira vez que eu conheci a gafieira foi no Largo do Machado, substituindo um amigo meu do Exército, sei lá, da polícia.
Tacioli — Você lembra o nome dele?
Raul — Manoel. E eu, rapazinho, 18 anos. Gafieira com dois andares. Quando eu entrava, ele sempre fazia assim. [ risos ] Balançava tudo, porque aqueles prédios super antigos, de mil e setecentos, sei lá de quando… Aí fiquei nessa coisa. Havia outra lá na Praça Onze. Como era o nome? Cheira Vinagre! Isso porque havia uma fábrica de vinagre embaixo. [ risos ]
Giovanni Cirino — Isso já na década de 60.
Raul — Não, de 50, cinqüenta e pouco, 52, 53, sei lá, por aí. E depois fui para o Exército. Aí a vida começou a mudar. Mas tem muita história antes. Tem que falar algo mais?
Tacioli — Não, era somente uma apresentação da proposta do site. A gente não tem essa coisa do gancho jornalístico. O papo vai passar pela sua infância, pela adolescência, pela sua vida fora do Brasil, mas sem uma ordem pré-determinada. Então, fique bem à vontade.
Raul — Legal.
Dafne Sampaio — Você é de Bangu?
Raul — Não, nasci em Campo Grande, depois de Bangu. Como era a rua? Rua Matoso? Sei lá, aí eu já não sei. Cadê a certidão de nascimento? [ risos ] Quando eu volto para o Brasil tenho que ir para Campo Grande tirar… Uma confusão! Tudo errado, muito antigo, já não vale mais nada o documento. Somente o passaporte e título de eleitor. Posso votar, legal, né? Antes eu não podia. Aí nasci em Campo Grande e como o meu pai era pastor protestante, pobre, não como o pessoal de agora com quatro, cinco carros… Eu vou chegar a esse ponto mais tarde, não quero passar. Bom, meu avô havia comprado uma casa em Bangu, entre Bangu e Padre Miguel. Havia uma igreja pequena, onde fui consagrado pelo pastor Paulo Lima Macalão, que fazia as traduções para o português dos hinos ingleses e americanos, que é tudo aleluia, tudo dos negões de lá, americanos. E depois vim a saber que as coisas que eu ouvia na infância, nas igrejas americanas de negros cantava-se a mesma música. Cantando com pandeiro, não-sei-o-quê, uma alegria! Eu ia sempre com a minha mãe para a igreja.
Teresa — Olha aqui, Raul: o dia em que você esteve aqui, no museu, com o Guilherme Vergueiro, foi quatro de julho de 89.
Raul — 89.
Teresa — Falou 88; é 89. Em cima, boa memória, hein?!
Raul — Está vendo a organização? É por isso que eu estou aqui. [ risos ]
Dafne — Aí você ia com a sua mãe pra igreja…
Raul — Então eu vi que havia uma banda de música, com coral, com tudo. E eu comecei a marcar o compasso na perna. Isso era a minha mãe quem dizia. Era instintivo. Já era o ritmo. Não o contrário. Era no ritmo. Um dia, já estava com uns oito, nove anos, teve uma festa na casa do Paulo, do pastor maior da igreja, o chefe-geral de todas as igrejas no Brasil. Passou um senhor, o Farias, a primeira flauta da Sinfônica Brasileira, no Teatro Municipal. Ia lá, levava uns arranjos, composição, não-sei-o-quê. Ele ensaiava a banda e eu ficava ouvindo; queria sempre ir para a igreja, mas a minha mãe não podia me levar todo dia. Então eu ia sozinho. Era perto, morava perto. Aí ele passou e falou assim: “Põe o menino pra estudar música!”. Eu me lembro dessa voz, passando. Ele sacou que eu tinha o dom musical, talento, sei lá. E aí começou essa coisa. Mais um ano, doze anos, eu comecei a tocar pandeiro. Não tinha outro instrumento pra eu poder tocar, não havia vaga. Eu sempre me ligava nos instrumentos mais graves. Saxofone-barítono, tuba, trombone. Um instrumento médio, mas é grave. Não é como, por exemplo, um contrabaixo-saxofone. Toca na estante. É um som terrível [ ri ], eu gosto mais da tuba. Cheguei a tocar tuba. Isso na banda da Fábrica Bangu. Com 14 anos eu me expulsei da igreja, eu mesmo. Eu não queria mais ser membro, havia acabado. Era muita proibição; “não pode fazer isso, não pode fazer aquilo”. Não podia nada.
Daniel Almeida — Seu pai não se opôs?
Raul — Não, saí de casa na hora. Me mandei porque ia dar um rolo danado. Meu pai é branco, meio português. Minha mãe é cabocla, da minha cor, cabelo liso igual ao da minha mulher. Minha avó também. Minha avó já vem de uma origem… Bisavó, sei lá? Chinesa.
Tacioli — Como era o ambiente na sua casa? Você falou que moravam todos juntos, seu pai, sua mãe, sua avó, seus irmãos…
Raul — Tudo junto, tudo junto. Ali era o seguinte: do primeiro casamento do meu pai vieram dez filhos. A mulher dele morreu, e logo em seguida, sei lá, um, dois anos, ele conheceu a minha mãe. Já tinha por volta dos 38 anos. Minha mãe era cartomante, jogava carta com as primas, a quem chamava de irmãs porque foram criadas juntas, sabe como é? Bom, mas não sei quem foi que entrou na igreja primeiro, se foi meu pai ou minha mãe, que lia carta.
Teresa — Igreja não permite isso, né?
Raul — Não, não. Ou a igreja ou as cartas. Uma coisa ou outra. Sou o primeiro filho da segunda mulher do meu pai. Eu cheguei a conhecer quatro, cinco irmãos por parte do meu pai. Eram todos brancos, olhos azuis, verdes, não-sei-o-quê. E eu naquele meio… Irmão é irmão, pai é pai. Não havia nada de racial, foi tudo maior amor. Meu irmão mais novo — um ano apenas — se parece comigo; o negócio de olho puxado, chinês, mas cabelo liso, preto. Eu o chamo de “China”. “Ô, China, como é?” Ele toca contrabaixo, faz baile pra terceira idade lá no Rio. Não larga o baile. Todas as quintas, sextas, sábados e domingos. Todo mundo dançando, cantando. Todos adoram estar lá. Então, eu venho daí, dessa família, em que ninguém foi músico, nem meu pai, nem minha mãe. Ninguém.
Tacioli — Mas você tem algum irmão além do China por parte de mãe?
Raul — Não. Da minha mãe, dois filhos somente. E os outros, quatro, cinco, eu não cheguei a conhecer. Eram mais velhos. Um deles teve um dedo mordido por um macaco, deu gangrena e morreu. Aquela história. Macaco, esses macaquinhos… [ risos ]
Dafne — Na floresta?!
Raul — Não, no parque, sabe como é? Aí morreu. E meu pai contava essas histórias… Eu ficava interessado em histórias. Meu irmão, não, é mais quieto. Aliás, eu arrumava confusão pro meu irmão. No primeiro carnaval que participei, eu não tinha instrumento. Eu tinha 12, 13 anos e sempre forte. Havia um português dono de uma carvoaria, num bairro perto da igreja. Eu tocava pandeiro na igreja. Falei pra mamãe: “Vou trabalhar com o português”. Vou carregar carvão num calor de 40 graus, mas tudo bem. Chega sábado e domingo, vou desfilar bem-vestido, de sapato e terno, com a minha bicicleta e arrumar uma namoradinha. Eu queria namorar, mas não podia, era confusão. Mas um dia, nessa coisa de levar e trazer o carvão, passo numa rua e ouço “Pipipipi, pó!”. “O que é isso aí? Está muito ruim!” Era um cara estudando trombone. Eu achei o som muito ruim, terrível. Eu conhecia a escala, dó, ré mi, fá sol, lá, si. Aí bati na porta. “Bom dia, tudo bem? Ouvi uma música aí. Qual é o instrumento?” “Ah, trombone. Você toca?” “Mais ou menos.” Eu falei pro cara que só sabia uma escala. “Ah, toca aqui, toca a melodia.” Não era uma melodia, não, mas apenas algumas notas que aprendi só de olhar o pessoal. Nunca tive professor. Aí peguei. [ tenta reproduzir o som do trombone ] “Pa-ram / Pó-ram-Ri-ru-ri-ru-ri.” Alguma coisa, né?!. Ele falou: “Onde você mora?” “Moro lá embaixo, na rua do Monteiro.” “É mesmo? Leva o trombone contigo. Não quero mais esse negócio aqui. Leva! Depois que você cansar do trombone traz pra mim, tudo bem?! Aqui é minha casa.” Falei que o meu pai era pastor da igreja de Campo Grande, que não havia perigo algum eu fugir com o trombone. “Não. Vi pela sua cara que você não é ladrão. Você é uma pessoa honesta. Leve o trombone.” Mais tarde a gente arrumou um carnaval no meio da rua, lá no ponto final do bonde. Havia bonde! O bonde fazia a volta e retornava para Campo Grande de novo, ou então ia para a Praia de Guaratiba, um lugar legal nessa época. Falei pro meu irmão: “Olha, eu vou pular pela janela”. Porque a casa que morávamos era como de fazenda, a janela alta. “Vou pular pela janela e tu joga a roupa. Eu vou tocar nesse carnaval!” Você não sabe a merda que deu! Pra ele! Pra mim não deu nada. Sujou pra ele. Ai fui pro carnaval, cheguei em casa às cinco da manhã, pulei a janela novamente e coisa e tal. Mas todo mundo — os irmãos da igreja — começou a buzinar no papai. “Eu vi seu filho tocando no carnaval!”
Tacioli — E como foi esse começo de vida de músico, Raul?
Raul — Isso tudo que falei foi quando estávamos em Campo Grande. Quando nós mudamos novamente para Bangu — o papai havia sido foi transferido -, já tínhamos casa própria. Aí começou o meu lance todo com o regional. Tocar em casa de família, em casamento, em aniversário. Pintava sempre uma mixaria. Eu já cobrava. Falava para o flautista: “De graça, cachaça e muito obrigado? Espera aí. E quando acabar a flauta, ninguém vai te dar de presente uma. Pega, sei lá, qualquer 100 mil réis e está bom”. Era dinheiro, havia moeda de ouro e de prata. Dois mil réis, desse tamanho assim, enorme, pesada. E, ao mesmo tempo, entrei para a Banda da Fábrica Bangu tocando tuba. Trabalhei pouco tempo lá. Comecei na máquina de tecelão que era muito rápida, milhões de fios, e se quebrava um daqueles, a máquina parava. Aí, pegava e colava rapidinho. Havia lá, mocozeado, um tromboninho. Eu já tocava choro que tinha aprendido, que havia escutado no rádio, no rádio do vizinho, porque em casa não havia rádio. Aí estou eu lá na porta e digo: “Não vou trabalhar em fábrica nenhuma! Vou tocar nessa banda aí!”. Arrastei um garoto que também fazia parte da igreja e que tocava trompete. “Vem comigo!” E ele disse: “Não vamos entrar jamais nessa banda”. “Deixa de ser negativo! Vamos no positivo! Venha comigo. Eu falo com o maestro.” O mestre da banda era um tenente do exército. Tinha a bota e aquela perneira de couro, engraxados, cabelo baixinho. E ele batia com uma baqueta na perna, na perneira, bem casca-grossa. Bom, estou lá na porta e quando acabou de tocar um dobrado, ele olhou pra porta e falou: “O que você quer, menino?”. “Quero fazer parte da sua banda.” Ele falou: “O que você toca?” “Qualquer instrumento. Toco qualquer um!” “É mesmo? Então toca aquela tuba ali!” Era uma tuba com a boca pra lá. Eu olhei assim… “Essa tuba com a boca pra lá, humn, isso aí é uma outra história!” Essa foi a tuba que o Felipe Susa mudou, que era um maestro, compositor português, que até hoje toca. Todas as tubas eram fabricadas com a boca pra cá. Aí o Felipe Susa falou: “Olha aqui, vou mandar fabricar uma tuba maior, em si bemol, que é mais grave, e com a boca pra mim. Quero ouvir o que escrevo”. Aí estou vendo um outro mulato, super gente fina, que tinha com uma tuba king, com campana pra cá. Olhei pra cara do neguinho e ele sorrindo. “Como é, tudo bem?” Eu digo: “Olha, eu não entendo nada… Me ajuda aqui que eu falei para o maestro que eu sabia.” “Ah é? Não tem nada, não. A seqüência é essa aqui.” “E essa nota aqui?” “Dó.” “E essa aqui pra baixo?” “Si.” Era tudo grave. Eu digo: “Ah, vou de ouvido”. E ia ter um dinheirinho porque eram todos empregados do Guilherme da Silveira, que era o dono da Fábrica Bangu. Essa era a banda dele. E a maioria que tocava ali havia sido militar do Exército, da Aeronáutica, da Marinha. Era tudo velhinho. Então pra eles era o maior prazer ter uma banda pra tocar novamente depois da reserva, da aposentadoria, né? E eu fui ficando ali.
Almeida — E aí você ficou tocando tuba?
Raul — Fui tocando a tuba. Fiquei empregado lá, com uniforme e tudo. Era na Fábrica Bangu. Logo o doutor Farias, que era o chefe-geral, falou pra mim: “Raul, desiste desse negócio aí. Não dá certo. Você larga as suas máquinas e leva mais de 15 pessoas pro banheiro. Todo mundo pára de trabalhar pra ouvir você tocar choro no banheiro. Não pode! Pára com isso e fica na banda, tudo bem?!” Aí estou lá com o tromboninho, que começou a dar problema… Terrível o velho trombone! Dei pro meu sobrinho e arrumei um trombone na banda, um super antigo da Weril [n.e. Empresa brasileira de instrumentos musicais de sopro, fundada em 1909 ]. Bom o trombone, de metal, tudo legal. Arrumei emprestado junto com o Marçal, que era o chefe do departamento, da partitura. O engraçado é que eu me lembro de todo esse pessoal, me lembro de todo mundo. E quando havia procissão na rua, a banda ia toda uniformizada, calça azul, túnica branca, cheia de divisa; havia cinco divisas. Parecia um coronel, tudo engomado, camisa, gravata preta, o sapato brilhando. Ali não tinha pra ninguém! Bom, um dia, terminou o concerto, que foi perto da igreja, fui na (sede da) banda, botei a tuba lá e peguei meu trombone, e pus dentro de um saquinho que minha mãe fazia com coisas da escola. O trombone era qualquer coisa. Tinha esparadrapo, chiclete. Era um chuveiro! Si bemol já era! Conclusão: estou indo pra casa, por volta de umas nove e meia, dez horas da noite, um calor de 40 graus, Bangu… Conhece Bangu? Nem sonhe! Quarenta graus às dez da noite. Um calor louco! Ali era um horror, cercado pelo morro, o sol fica ali o tempo inteiro, e vem a noite, o sol fica lá, na terra. Dá para fritar um ovo no asfalto. Bom, estou indo pra casa, quando, de repente, falei: “Não vou pra casa agora, não. Vou ser obrigado dormir, estou ligado”. Cheio de música na cabeça. “Vou entrar aqui.” E entrei numa rua onde eu ensaiava com o regional, uma rapaziada mais velha que eu. E o pai de um dos violonistas tocava no grupo do Pixinguinha [n.e.Instrumentista, compositor, orquestrador e arranjador carioca, Alfredo da Rocha Vianna (1897–1973) foi um dos responsáveis pela “modernização da música popular brasileira” nas décadas de 1930 e 40]. Era um senhor de idade, o Cecílio. E eu estava sempre tocando com ele. Tocava tudo do Pixinguinha, tudo o que era choro no trombone. Um regional, com violão, cavaquinho e flauta e trombone no lugar de flauta e saxofone. Super legal! Fazia aquelas festas em casa de família. Mas, de repente, ouço um saxofonista: “Quem é esse cara?”. Fui chegando e entrando na casa. Eu não sabia que, aquele dia, era o aniversário do Cecílio. Havia uma festa enorme, com gente pra burro. E quem estava tocando lá? O Pixinguinha! Era o próprio cara quem estava tocando lá. Com um litro de cachaça de nome Resende, que era um álcool, uma caixa de cerveja, sentado e tocando saxofone. E eu passei do lado, fui direto pra cozinha, nem olhei para o lado. [ risos ] Direto porque eu sabia que ia dar confusão pra mim. Aí quando eu cheguei na cozinha, tirei o quepe e botei em cima de um negócio lá, olhei e havia uma porção de copinhos pequenos brancos, de batida de não-sei-o-que, coco, maracujá. Eu não bebia nada, apenas vinho doce que o coroas diziam pra mim: “Vinho doce é bom pra você, que é garoto; vai ficar forte”. Tomava um só e já ficava meio cabreiro, porque era doce. Conclusão: tomei aquele negócio ali e aí vem o Cecílio. “Olha, falei com o Pixinguinha. Você vai tocar uma música porque ele quer te conhecer, quer te ouvir. Vamos lá, deixa de vergonha!” Aí eu fui. “Boa noite, como vai o senhor?” “Sente aí, menino, e toque uma música pra mim. O Cecílio fala muito bem de você.” E pegou a cachaça. E eu já saí com uma música dele. “Pan pan”, todo mundo já sabia e partiu comigo. Ele ficou olhando assim, e eu fiquei olhando pra ele. Aí, ele abaixou o olho, pegou o saxofone e saiu atrás de mim, fazendo os contracantos que ele fazia. Toquei outras músicas. De repente, ele pára uma música e fala assim: “Não pode ficar mais aqui, não. Vai pra cidade e me procura. Estou sempre por lá, na Copacabana ou na Continental. Estou sempre ali.” Tudo bem. Tomei uma cerveja, estava acreditando em tudo, Pixinguinha, pó! Aí, uma semana, falo pro papai que eu tenho que ir pra cidade falar com o Pixinguinha e enrolo a mamãe. “A senhora sabe quem é?” “Não sei quem é, não.”
Max Eluard — Nessa época, o que Pixinguinha representava pra você?
Raul — As músicas que eu escutava dele, do grupo, juntamente com o Benedito Lacerda, eram uma coisa do melhor. Até então, eu havia escutado e conhecia jazz ou samba. Foi a primeira música de choro que eu comecei a ouvir depois da igreja. Então, por esse motivo fiquei emocionado em conhecê-lo e tocar junto.
Tacioli — E hoje, o que Pixinguinha representa?
Raul — Representa o pai da música brasileira instrumental. Existiram outras pessoas fazendo música também, mas eu acredito que ele foi o pioneiro do lado mais moderno da história, tanto em composição, quanto em harmonia e melodia. E ritmicamente até também. E aí, botei um terninho, gravata e entrei no trem. Marechal Floriano com a Rio Branco. Tudo bem, não tem condução, não tem bonde, não tem ninguém. Vou a pé. Saltei na Central, entrei à esquerda e andei até a Rio Branco. Cheguei à Rio Branco, o bar estava lá… Em cima dele é que ficavam a Copacabana e a Continental. Entrei. Sem graça, subi, segundo andar. Havia uma orquestra [ Tabajara ] tocando. Aí eu parei e perguntei: “Vim procurar Seu Pixinguinha”. “Quem? Seu Pixinguinha? Ele vinha aqui há uns 12 anos.” [ risos ] “Pô, há 12 anos que ele não vem aqui? Mandou procurá-lo aqui, viado! Tudo bem, tudo bem.” Mas aí comecei a me interessar pela orquestra; é outro tipo de coisa. Pra mim tudo era novidade.
Dafne — Aquela orquestra era a Tabajara?
Raul — Era. Daí eu conheci o Severino de cara, clarinete. [n.e. Célebre maestro, clarinetista, saxofonista e compositor pernambucano, Severino Araújo de Oliveira (1917) dirige há décadas a Orquestra Tabajara ] Todo mundo novinho, bonito. O Zé Bodega [ n.e. 1923–2003 | Considerado um dos dez melhores saxofonistas (tenor) brasileiros de todos os tempos e irmão do maestro Severino Araújo, da Orquestra Tabajara ], o Marinho. E fiquei ali ouvindo a orquestra e o cara dizendo pra mim: “Não pode ficar aí não”, aquela ignorância antiga. “Não pode ficar aí!” “Só um pouco, deixa eu ouvir esse acorde, essa melodia.” “Não pode, não pode!” “Tudo bem, tudo bem” e desci, fui até o bar tomar guaraná. “Para onde vou agora? O que vou dizer à mamãe?” Aí eu já tinha me excluído da igreja. Aí ela vai dizer: “Bom, você está no mundo, o mundo é isso aí. Mundo de mentira, um mundo não-sei-de-que, mundo de não-sei-o-que-lá. Volta pra Jesus de novo!” [ risos ] “O que vou dizer à mamãe?!”, continuei… Tomei aquele gole de guaraná e, de repente, entra um cara com um violão pendurado, falando como pato rouco: “Dá uma cerveja aí”. E quem era o cara? Nelson Cavaquinho. Aí, chegou, olhou pra mim, viu aquele saco e falou: “Isso é um trombone?”. “É, um trombone.” “Trombone é difícil, tem que estudar muito. Dá uma cerveja aí.” [ risos ] “Pô, eu vim procurar o Pixinguinha.” “Quem? O Pixinguinha? O Pixinguinha eu não vejo há mil anos. Estou sempre por aqui, almoço aqui, tomo a minha cerveja…” “Que legal!” “Você mora onde?” “Eu moro lá pro meio do bagulho, na Padre Miguel.” “Ah, não perde tempo, não.” Só nesse papo ele tomou uma cerveja. [ risos ] “E não perca tempo. Vai na Hora do Pato, da Rádio Nacional [ n.e. Programa de calouros de grande audiência conduzido por 16 anos pelo radialista Jorge Cury. Mais tarde passou a se chamar Aí Vem o Pato ]. Hoje é quinta feira, dia da inscrição. Vá lá e se inscreva na Hora do Pato; vá também na Tupi e se inscreva no programa do Ary Barroso. No mesmo domingo você toca e ganha em dois lugares.” E olhou pra minha cara: “Você tem cara de tocar bem. Você vai ganhar, não vai perder nada. Perdeu no encontro, mas vai ganhar muita coisa, em dois programas no mesmo dia”. “Você acha mesmo?” “É lógico! Vai nessa!” “Tudo bem. Prazer!” E nem perguntei o nome dele.
Tacioli — Mas você não sabia que era o Nelson Cavaquinho…
Raul — Eu? Não! Pra mim era um louco qualquer que saiu de casa, na mão. [ risos ] E veio inspirado me dar essa idéia, de ir nas duas rádios. Aí fui lá e me inscrevi para o domingo seguinte. Fiquei pensando em não botar o meu nome todo, não era possível. Tinha que ter um nome qualquer pequeno. Aí eu falei João José pro cara, o meu nome da carteira de identidade, João José. E lá também no Ary Barroso, João José. Aí fui pra casa à tardinha. “E como foi?” “O Pixinguinha estava gravando não-sei-onde, e então falei com um senhor.” Pra mamãe tanto faz um senhor ou um louco, não sabia quem era mesmo. E nunca ia saber. Aí, no domingo, comecei a avisar os amigos. “Olha, me esperem na estação de Bangu que vou ganhar esse negócio lá.” Lavei o trombone, cuspe, não havia nada de óleo; era cuspe. E fui lá, onde comecei a passar a música que eu ia tocar junto com a regional do Claudionor Cruz. “Vai para o trono?” E a platéia toda: “Vai!”. Botavam o sujeito numa poltrona enorme, com uma coroa de rei na cabeça. Era para músico e cantor. De repente vem um molequinho com um cavaquinho, toca um choro de não-sei-quem, ganha também e empatou comigo. Fui ficando pra trás. “Sai o Raul?” “Não!” “E esse outro?” “Ficam os dois?”. E aí empatou e dividimos o dinheiro. Ele, que era mais velho do que eu, pediu logo um rabo-de-galo, uma cachaça com um negócio dentro; tomou uns três daqueles e saiu batido. Fui cuidar do meu interesse. Meu espaguetinho, um sanduíche qualquer pra fazer hora.
Tacioli — Que música você apresentou lá?
Raul — Não me lembro, essa não me lembro.
Tacioli — E o rapaz saiu…
Raul — Ele foi embora. Tocou o negócio dele, um choro, e foi embora. Morreu logo em seguida, coitado. Também era do bairro, Realengo, uma estação antes de Padre Miguel. Tocava bem. O irmão dele tocava trombone, pistom, o Jair, que conheci depois, já no clube. Aí fui começando a conhecer o que era clube, o que era gafieira. Completamente diferente o tipo de música… Ops, aí já era a hora do Ary Barroso. Fui lá, e comecei a tocar uma música, um choro.
Cirino — Ali era mais rigoroso.
Raul — Ali era mais rigoroso. Um choro com o Regional do Canhoto, um choro do Pixinguinha; difícil. Peguei a reta e fui andando. Aí passou um camarada atrás que falou assim: “Está muito moderno, menino!”. E foi andando. E segui tocando. Terminei. E perguntei quem passou aí me dizendo que estava muito moderno. Havia sido o Jamelão [ n.e. José Bispo Clementino dos Santos (1913), cantor e intérprete de samba-enredo da escola de samba Estação Primeira de Mangueira ]. Aí ele voltou e falou: “Está muito moderna essa música, muito difícil para o povo entender. Você conhece o maestro Carioca?”. “Não!” “A música dele é essa aqui: ‘Paran, pararan’…”, e começou a cantar pra mim. Falei: “Pô, é tudo isso? De novo, de novo”. Decorei aquela música ali mesmo, a segunda parte e tudo. Não me lembro o tom em que ele cantou, mas achei que era por ali mesmo. Pra mim não havia tonalidade, era qualquer uma. Peguei e saí tocando. “Está vendo?! Esse está melhor!” E foi embora. Aí, finalmente chegou a hora de me apresentar. O Ary com aquele óculos engraçado pra burro, a maior platéia, quietinha. Ele falou assim: “Tenho o prazer de convidar aqui um rapaz de nome João José, trombonista. Esse nome não dá, não me agrada muito, mas quero ver. Vem cá, João José”. Aí chego eu, com o trombone na mão, moleque. “Você vai tocar o quê?” “Vou tocar um choro.” Como é o nome dele?” E o Canhoto lá… Aí contei a história. “Passou o Jamelão dizendo que estava muito moderna uma outra música que eu queria tocar…” “Não tem nada, toca esse aí que eu quero ver.” Já gostou da minha atitude de falar, sem entrar com vergonha, com medo ou receio. Aí saí tocando. Nota cinco, que era a nota máxima. Pô, mil e quinhentos réis, dinheiro pra burro! Naquele momento existia esse programa de rádio do Ary e o outro do Jorge Curi, a Hora do Pato. Aí, fiquei lá, esperando. Aí ele [ Ary Barroso ] veio, me deu um papel e foi embora. Com esse papel passei num caixa que me deu um recibo para receber na quinta-feira. Em dinheiro, sem cheque. Aí voltei na quinta pra pegar o dinheiro. Uma bolada de dinheiro, que maravilha! Não havia ladrão nessa época. Lógico que existia, mas se desse bobeira, se saísse na rua contando o dinheiro. Fui pra casa naquela alegria, todo mundo contente, maior carnaval. E comecei a vir para a cidade, já a conhecia mais ou menos. Aí, somente comprava roupa cara, camisa de seda, meia de seda, sapato da Clark; super elegante. Comecei a esticar o cabelo, como os negões americanos… Passava uma goma e queimava. Pelo amor de Deus, ficava 15, 20 minutos com aquele negócio na cabeça pegando fogo. Agora lava a cabeça, água fria. O cabelo ficava lisinho. [ ri ] Mas era coisa da moda. Fazia um penteado, pegava e mudava pra cá, mudava pra lá. Todo mundo usava isso antigamente.
Tacioli — E mulherada gostava.
Raul — Lógico, era uma coisa moderna. Elas — as negonas — também usavam, mas pente quente.
Tacioli — Raul, essas imagens, essas lembranças, você tem muito claro na cabeça, não?
Raul — Sim.
Dafne — E isso tudo antes de você entrar para o Exército. Você tinha dezessete anos?
Raul — Eu tinha dezesseis.
Tacioli — Você não tinha outra expectativa fora a música?
Raul — Não, não tinha idéia. Mas mesmo com a coisa da musicalidade, do som na cabeça, havia uma coisa de médico, de doutor. Eu queria ser doutor. Sei lá como é que era, mas sempre gostei de orientar, de dar idéia; sempre gostei de ser conselheiro. O doutor, pois é, conselho: “Não faça isso. Toma isso aqui!”. [ risos ] Sei lá como é, mas a minha idéia era essa.
Almeida — Mas você chegou a trilhar um caminho pra ser doutor?
Raul — Que nada. Mamãe me colocou na farmácia. Na farmácia comecei a fazer experiência. [ risos ] Não dava certo. Vendia remédio errado. Imagina um garoto, 14, 15 anos de idade, recebia uma receita do médico, olhava assim, “Pô, será que é aquilo ali?” [ risos ] Só no Brasil mesmo! Aí eu dizia pro farmacêutico: “Sou eu quem vou pegar isso aqui? Está maluco!”. Não podia. Eu trabalhava no balcão, quero dizer, eu tinha que conhecer tudo. “Eu tenho que estudar, tenho que estudar, vou estudar. Quero sair.” E abandonei esse negócio. Mas foi no Exército que conheci o Edison Machado, baterista. [ n.e. 1934–1990 | Baterista integrante dos grupos Rio 65 Trio, Bossa Três e Sergio Mendes Trio e autor de três discos-solo, entre eles o fundamental Edison Machado é samba novo, de 1963 ] Tocou comigo no Sergio Mendes & Bossa Rio. O primo dele, o Toninho, tocava acordeom, mas não era profissional. Mais tarde tornou um empresário. Mas com o Edison era o maior barato.
Dafne — Foi antes do Exército a escolha pelo trombone de válvula?
Raul — Não foi minha escolha.
Dafne — Não foi escolha?
Raul — Não, foi o que tinha ali na mão do amigo. Esse aí que vem a história da primeira pessoa a me ensinar três ou quatro escalas. E foi o tempo em que esteve vivo, coitado. Era mecânico de uma companhia de ônibus. Ele tinha 18, 19 anos de idade. Era mecânico de uma companhia. Tocava trombone de pistom bem, som bonito, e conhecia trombone de vara também. Ele falou comigo: “Vai chegar um trombone de vara pra mim, aí eu te passo esse trombone”. Era um trombone francês de cilindro, não era de pistão. Era cilindro, bem pequenininho, assim, segurava na mão. Aí chegou esse trombone de vara e ele deu o outro pra mim e começou a me ensinar. Esse era em Dó maior. Então já havia Ré menor, Ré maior, Dó maior, Dó menor, sabe como é, e fui armando por aí. E depois fui descobrindo outras tonalidades… “Como é mesmo? Ah, tá, obrigado. Me dá uma cachaça aí!”. Assim fui aprendendo com o meu colega, no bar.
Dafne — Mas você chegou a tocar trombone de vara?
Raul — Não, fiquei somente nesse daqui, porque a vontade mesmo, real, era saxofone-tenor, mas meu pai não tinha dinheiro, custava mil réis a mais, sei lá quanto a mais… Então eu fiquei naquela idéia do saxofone, tocando aqui, várias notas, muitas notas. Não tinha dificuldade pra mim.
Dafne — Mais rápido.
Raul — É, aqui no pistão. Eu acho até que sou o único mais rápido no mundo no trombone de pistão. Isso dito pelo pessoal americano, lá. Rápido nas frases, coisa que não são usadas pelo trombone, pelo tamanho dele, toda a extensão de uma nota para a outra.
Tacioli — Nessa época, Raul, quem era referência no trombone de pistão e de
vara?
Raul — Ninguém, não havia ninguém.
Tacioli — Raul de Barros? [ n.e. 1915–2009 | Uma das referências do trombone brasileiro e das gafieiras, é autor do samba-choro “Na Glória” ]
Raul — Depois. Mais tarde que eu fui conhecê-lo e já no ponto dos músicos. E por eu ter participado desses dois programas, conheci o Manoel Araújo, que logo ficou meu amigo, “Toque o meu trombone”, começou a me dizer. “Isso aqui é o Si bemol.” “Onde é o Dó?” “O Dó é lá embaixo. Si, Dó.” “Aí já fica complicado. Si, Dó.” Era tudo pertinho, muito mais rápido.
Cirino — Tecnicamente uma coisa parecida com trompete?
Raul — Pode ser até… A mesma técnica, somente a clave é diferente, clave de Fá é do trombone, mais grave; de Sol, do trompete.
Cirino — Na sua cabeça o som que tinha era do tenor?
Raul — Do saxofone. Tecnicamente, porque eu escutava o Zé Bodega, o Cipó [ n.e. Saxofonista, arranjador e líder de diversas orquestras e grupos por onde passaram figuras como Paulo Moura, Geraldo Vespar, Norato, Paulo Lacerda e Peninha, entre muitos outros ], que depois o conheci e com quem toquei junto. Eu ficava ligado em um programa de rádio que tinha a Orquestra Tabajara, a Orquestra Carioca, a orquestra do Cipó, orquestra de não-sei-de-quem, sabe como. Eu ficava ouvindo o rádio no vizinho, tomando uma cervejinha escondido do velho, e ouvindo. Aí começou um programa de música americana de orquestra, tipo música de filme, com Doris Day [ n.e. 1924 | Cantora e atriz norte-americana, intérprete de sucessos como “Que sera, sera (Whatever will be, will be)” ], Harry James [n.e. 1916–1983 | Trompetista norte-americano e líder de uma famosa big band de jazz da época do swing, na década de 1940 ], Louis Armstrong [ n.e. 1901–1971 | Trompetista norte-americano e um dos instrumentistas mais influentes da história do jazz ]. Eu escutava muito. Ia ao barbeiro e conversava com ele: “Você ouviu o programa de ontem?”.
Cirino — E o seu nome, Raul, quando mudou?
Raul — Foi o Ary Barroso quem trocou o meu nome. No segundo programa do Ary que eu fui, dois meses depois do primeiro — eu viciei no negócio -, toquei o choro que eu queria tocar, aquele que o outro passou falando que era moderno. Aí, o Ary falou: “Você de novo aqui? Mas hoje esse João José vai sumir. Você vai passar a ser Raulnito”.
Almeida — E tem uma explicação?
Raul — “Você tem mais cara de Raulito do que de João José!” O Ary falou, tá falado. E ficou Raulito por alguns anos. Depois eu mudei, porque Raulito é espanhol. Pra nós aqui é Raulzinho. Aí mudou. Raulito ou Raulzinho, o que eu quero é tocar!
Almeida — A disciplina da Aeronáutica chegou conflitar com a música?
Raul — Havia uma confusão: falta de tempo e, naquela ocasião, eu era um soldado. Mas tinha um amigo, que era 2º Sargento, que gostava muito de mim e que dizia: “Não, tá aqui, isso aqui.” [ sugerindo que Raul estudasse teoria musical ] “Mas não tenho tempo, não!” Nunca me interessei em estudar nada. Tenho muita coisa na cabeça, de ouvido. Não sabia que aquela coisa da leitura musical [ ler partituras ] facilitaria tudo na frente. Eu escutava, tinha tudo o que era instrumento da banda de cor na cabeça. Instrumento, flauta, não-sei-o-quê, tudo na cabeça. A leitura musical não me interessava. Ler pra quê? Deixe eu aqui na minha onda. Eu não queria ler, não queria estudar. Mas o que você perguntou mesmo?
Almeida — Se a disciplina da Aeronáutica…
Raul — Pois é, a disciplina, soldado tudo engomadinho, cabelo cortado, tudo certo. Bom, eu tocava na banda. E aí surgiu o convite para organizarmos um quinteto ou um sexteto para tocar na hora do almoço dos oficiais nos outros quartéis. E eles nos pagavam. O 1º Sargento tocava saxofone-alto… Era o Liberalino, um nome assim, e ele foi quem conseguiu um cachê pra gente. Almoçávamos lá e pegávamos aquele dinheirinho. Não havia baterista, como também não havia bateria. Assim, eu tocava bumbo, ou caixa, ou prato. Eu tinha noção de ritmo e… “Vou ganhar esse dinheiro!” Botei outro cara com trombone no meu lugar e toquei “bateria”. E o (Edison) Machado dando tiro de canhão, porque havia feito um curso pra cabo. Eu falei pra ele: “Mas você não toca bateria? Não quer tocar na banda?”. “Que banda, que nada! Banda de dobradinho ruim!” “Dobradinho ruim?” A sala dele ficava embaixo da banda. E ele não subia, não queria ouvir o dobrado. E eu gostava: “Você tem que se interessar, bicho. Tem coisa linda ali. As partes de contrabaixo, de saxofone, de clarinete, de oboé, de fagote, de tudo. É uma banda com 40 pessoas”. Eu era o quarto trombone. Primeiro, segundo, terceiro, quarto trombone, e lá estou eu [ imita o som do trombone ] “Panpanpan”. Aí esperava. “Panpanpan” E mais pausa… Não, quero tocar aqui, quero ser o terceiro trombone, porque tem mais nota aqui.” E até chegar ao primeiro. E cheguei. Mesmo quando havia pausa, eu tocava pausa também. Saía batido… “Paparapapa”. Não respirava! E o maestro dizia assim: “Tem nota a mais aí!”. Eu dizia: “Eu sei, eu sei.” [ risos ] E todo mundo dava risada porque eu lia a pausa, lia e tocava tudo. Não queria saber, não queria descansar um minuto.
Almeida — E tinha que ler?
Raul — Tinha, tinha que ler. Com a banda Fábrica Bangu aprendi muita coisa. Comecei ver dobrados, mesmo brasileiros, compostos pelo Joaquim Neve, que foi professor, maestro e compositor, que morava no Méier e que ensinou muita gente, como o Paulo Moura. Deu aula de harmonia e de composição pra muitos saxofonistas do Rio. Tinha três filhos. O Um deles, o Drauzio Kuntz, morou muitos anos em São Paulo, tocava clarinete e saxofone-alto. Havia também o Wagner, alemão. [ n.e. Na verdade, Kuntz Wagner ] O Joaquim havia sido preso; comunista, revolucionário, não-sei-o-quê. Botaram ele numa cadeia qualquer. E ele conseguiu pintar de branco a parede da cela e escreveu um dobrado de nome “Janjão”. Com todas as vozes, pra banda toda. O Drauzio se tornou sargento da Aeronáutica comigo, no mesmo tempo, no mesmo dia. Fomos juntos do Rio de Janeiro pra Curitiba. Drauzio loirinho, baixinho de cabelo louro, olho azul. Ele era o meu conselheiro.
Tacioli — Ele dava conselho?!
Raul — “Não bebe, não, pára o cigarro! Vai estudar! Vai aprimorar a sua musicalidade com o conhecimento técnico. Vai fazer arranjos. Você fica enchendo a cara, não dorme, nem nada. Só quer tocar!” Ele me orientava muito, o Dráuzio.
Dafne — Você prestou serviço militar no Rio?
Raul — No Rio.
Almeida — Em que ano?
Raul — No Rio, em 52, 53. Um ano. Em Curitiba foi de 58 a 63. Foi um contrato que eu assinei com a Aeronáutica. Engajamento por cinco anos. De 3º a 1º Sargento. Quando recebi a divisa de 1º Sargento, dei baixa. Não quis mais saber. Fui para o Rio, já em 63. Montaríamos, em 1964, a Sérgio Mendes & Bossa Rio.
Max — Raul, sua memória é muito boa, você lembra de datas e de muitos detalhes…
Raul — Graças a Deus. Você não imagina o que passou por aqui…
Max — E como é sua relação com o passado? É uma relação de saudades?
Raul — De saudades, é uma coisa interessante…
Almeida — Não parece, você não demonstra isso, de dizer “Aquilo lá era bom…”.
Raul — Tem essa coisa no subconsciente, mas já passei por tantas outras bem melhores depois disso, que deixei pra trás. Logicamente, momentos fantásticos, momento de noitada, de tomar duas, três bolinhas pra ficar ligado, e vamos embora, outra noite, outra noite. Trocava de camisa e cueca e continuava. Vários dias assim na rua, porque não queria perder o que estava acontecendo, diariamente. No Rio, primeiro, e depois em São Paulo. Conheci São Paulo em 56 num festival no Teatro Cultura Artística. E conheci São Paulo naquele ano com o Paulo Moura, João Donato, Edison Machado (bateria), Luís Marim (contrabaixo) e o Wagner (trompete). Jazz, nada a ver com samba.
Tacioli — Foi a primeira vez?
Raul — Primeira vez, e acho que foi o primeiro concerto de jazz em São Paulo. Parece, não sei bem. Aí conheci o Edson Maciel [ n.e. Trombonista, também conhecido como “Maciel Maluco”, foi integrante da Orquestra Tabajara ], que tocou comigo e que participou do Sergio Mendes & Bossa Rio. Ficamos amigos desde o primeiro dia, desde a primeira nota. “Pa-pá”, ficamos amigos. Depois deu uma discussão danada… Chamava meu trombone de máquina de escrever. “Você com essa merda de máquina de escrever”, porque era muita nota, e ele era mais delicado na idéia. Eu não queria saber! Chegava o meu solo e eu “Pu-á!”… Eu antecipava o solo, “pum”, caía no solo. Ele ficava doido! Me chamava de “meu irmão mais novo”, “Você é meu irmão mais novo!”.
Tacioli — Qual foi sua impressão quando esteve pela primeira vez em São Paulo?
Raul — Fiquei louco, porque o que havia de orquestra, de clube, de cabaré, de boate… E tudo com músico. Orquestra, arranjo, tudo, negócio lindo, bonito! É por isso que eu não queria perder. Eu não queria ir pra casa. Fazer o quê em casa, dormir? Vai dormir, pô, tem um outro negócio que vai começar agora, às cinco horas da manhã, vai até não sei que hora, sabe como é? Quero dizer, ficava naquela vida, né? Esse é um grande momento que existiu no Brasil. Por sinal, no mundo inteiro, eu acho.
Almeida — Grande momento do quê?
Raul — Da vida, anos 50, de liberdade geral, de dinheiro, todo mundo com dinheiro, muito bem-vestido. Todo mundo, não é dez, vinte. Músico, arranjador.
Almeida — Parecia que ia dar certo.
Raul — Parecia que o mundo ia dar certo. Essa é a história.
Tacioli — E quando começou a dar errado?
Raul — Pô, aí já é… [ risos ] Não quero falar de guerra. Quero falar de 1981 nos Estados Unidos, ano da minha última gravação que fiz lá. Eu tinha assinado por cinco discos e no terceiro a companhia cancelou os dois demais. Eu estou vendo já fechar a loja, loja super antiga, de quatro andares… Vejo tudo fechar, falir, sabe como é? Na Sunset Boulevard. Aqui também, no Brasil, e em todo lugar do mundo. E a década de 50 foi uma época fantástica, fantástica. Algumas pessoas não agüentaram, foram embora, viajaram, porque a loucura era muita, mas prazerosa, de curtição da vida, do momento. Havia dinheiro pra tudo, gasta aqui, ganha ali de novo.
Tacioli — Você acha que essa impressão não era presa somente à juventude?
Raul — Não, não. Porque eu, como mais jovem, sempre me interessei em falar com as pessoas mais velhas, de mais experiência. Jovem é o mesmo papo: “Vamos queimar um?!”, “Vamos!”; “Vamos tomar outro?!”, “Vamos!”. Quero dizer, na frente do velho não vai queimar um porque ele não vai gostar. “Não, menino, pára com esse negócio, aí. Comigo não! Quer tomar uma cervejinha? Toma cervejinha, mas isso aí, não!” E a polícia prendia… [ ri ] Então pra polícia não prender, o que você fazia? Ia à farmácia, comprava umas bolas, Lexamil, e ficava tomando um de vez em quando. Tinha um amigo meu que se chamava Boneca…
Almeida — Em que ano era isso? Década de 50 já?
Raul — Já. O lance das bolas?
Almeida — É.
Raul — Isso até antes, bicho. Eu peguei o bonde andando, já. [ risos ] Isso já vinha de antes. Quem escapou, está vivo. Aí, quem não conseguiu, foi embora cedo.
Almeida — Quem eram os doidões, Raul, aqueles que você viu usando uns lances ou tomando bola?
Raul — Porra, muitos, muitos. Eu conheci, quero dizer, no Norte, na minha primeira viagem que fiz pro Norte, pra Bahia. Da Bahia, fomos para Aracaju, e tudo de pau-de-arara. Um ano durou a viagem, porque o empresário ia na frente, pegava o dinheiro no clube, ia pro cassino, jogava e perdia tudo. Sobrava somente o dinheiro do ônibus, avião, sei lá, e viajava para o outro lugar, pegava o dinheiro adiantado e a gente ia atrás. “Cadê o cara?” Eu com o filho dele, o Cláudio Mário.
Dafne — Vocês caçando o empresário.
Raul — Caçando o empresário, o pai do Mário. Então já imaginou o que a gente passava. Veja só, fiquei numa pensão no Maranhão um mês, mais ou menos. Almoçava, jantava, tomava café-da-manhã, tudo, morava ali. Era perto da zona, do pessoal. Bom, aí um dia ouvi falar: “Pô, sabe quem está naquele hotel ali? Baden Powell com Cyl Farney!” “Baden Powell?” Fui lá falar com o Baden. Não havia nenhuma gravação minha até então. Conhecia o Baden do Ponto dos Músicos quando era moleque. Fui lá conhecer o Cyl Farney. E o Baden também… Estava lá com a guitarra, sem parar. Aí, estou tocando no teatro, e quando vou pra frente, vejo dois caras, um branco e um negão. Os dois juntos. Falei: “Ih, branco e negão juntos? Isso não está me cheirando bem!”. De repente, no final da música, eu olhei e cadê os caras? Desapareceram! Não vi mais. “Porra, o que será? Policiais?” Fica naquela paranóia. “Não pode ser polícia! Não pode ser polícia! Bom, tudo bem. Vou para o hotel, tchau!”. E saí. Aí, no caminho do hotel, a praça, o hotel do Cyl Farney… E entrei em um barzinho de esquina. Eu conhecia todo o bairro, andava à pé o dia inteiro por ali. Havia uma festa, música, aquele falatório. “Vou tomar um negócio qualquer aqui pra dormir, já é quase meia-noite.” O negão e o branco estavam lá. Aí veio o branco falar comigo. Super elegante e tal. “Que maravilha! Que concerto não-sei-o-quê.” “Pô, você gostou mesmo?” Tudo bem, tudo bem. “Vamos lá pra mesa comigo.” Aí, quando conforme eu andava, comecei a sentir um cheiro de fumo dentro do bar. “Os caras não são polícia nada. É gente boa, sangue bom!” Bom, o pessoal dá uma cerveja pra mim. “Não quero cerveja. Faz uma caipirinha!” Pegaram o copo, um copo enorme de caipirinha e a minha garrafa de cachaça. Mexi, mexi, bastante limão, tomei aquele negócio, e o pessoal com o cachimbo da paz pra cá e pra lá, todo mundo alegre, sem problema. Isso por volta de 53, 54. Para a família eu estava perdido; ninguém sabia onde eu andava. Aí falam: “Vamos pra praia? Vamos pro rio? Banho de rio!” “Vamos!” Fui para o hotel pegar o calção. Deixei o trombone lá e voltei praiano. Daí entramos no carro do cara e saímos… Oito da manhã e lá estamos tomando banho de cuia. Entra no rio e sai e volta e peixe frito. Ficamos naquele negócio. Quando voltei para o hotel, dois dias depois, cadê a banda? Havia ido embora! [ risos ] A banda desapareceu! E dei graças à Deus.
Almeida — Afinal, você estava tomando calote.
Raul — Calote? E o som? Se o som fosse legal, deixava o calote pra lá e curtia o som. Mas nem isso. Era horrível! A confusão era tão grande, que eu, um dia, lá pro lado de Maceió, falei: “Pô, conheço um cara que ouvi falar no Rio, que se chama Ari Moreno. E esse cara toca guitarra e imita Getúlio Vargas, imita jogo de futebol na guitarra. Vou chamar esse cara pra me salvar aqui. Pô, daqui a pouco vou ser apedrejado. O grupo é muito ruim, muito ruim. Toda hora que eu via no meio do caminho um saxofonista bom… “Quer entrar na banda?” “Quero!” E entrava pra melhorar o negócio. A banda estava ficando enorme. O pandeirista era investigador de polícia. “Arruma um fumo pra gente aí!” Ninguém quer mais nada. Tenho investigador pra arrumar as bolas pra mim. Aí chegou o tal Ari Moreno com uma morena, uma morena enorme que dançava rumba na época do mambo cubano. A mulata rodava e o pessoal olhava a perna. Ficava tudo parado. Todos os homens do clube lá. A mulata e o Ari salvaram a viagem.
Almeida — Distraiu a plateia.
Raul — É, distraiu a platéia e salvou a viagem. Depois arrumei passagem pra voltar pro Ceará, pra Fortaleza. E como já havia passado pelo Ceará, eu havia conhecido o Ivanildo, saxofonista-alto, que depois gravou vários discos, e o Paganini. Aí é que veio o lance da bola. Cada vez tomava três, quatro, cinco bolas…
Almeida — De uma vez.
Raul — Aí saía tocando piano na parede. [ risos ]
Cirino — E como foi a passagem para o saxofone?
Raul — Aí é triste.
Cirino — Porque era uma coisa que você, desde criança, gostava…
Raul — Aí foi triste. Quando cheguei nos Estados Unidos, eu já havia gravado com a Flora Purim o primeiro disco dela gravado lá na Milestone, Fantasy Records e Prestige, três companhias de jazz juntas lá em São Francisco [ n.e. Na verdade, Raul tocou no segundo disco de Flora pela gravadora americana, Stories to tell (1974), e não no primeiro, Butterfly dream (1973) ]. Fui convidado e gravei. George Duke fez alguns arranjos. Eu já o conhecia. Levava as composições dele e as cantava para a Flora. “Essa aqui, essa aqui!” E ficamos amigos assim. Gravamos. Depois disso, o lançamento do disco, em São Francisco novamente, no Kingston Corner, um clube de jazz. [ Pára e bebe um pouco de água ] Tem que pagar a Lindóia? [ risos ] E aí, meu amigo, vem o Orrin Keepnews [ n.e. 1923 | Um dos mais renomados produtores de jazz nos EUA, fundador dos selos Riverside e Milestone ], que era o produtor executivo da Fantasy Record, que havia produzido John Coltrane [ n.e. 1926–1967 | Saxofonista norte-americano (tenor e soprano), autor de clássicos como Blue train, de 1959, e A love supreme, de 1964 ], Miles Davis [ n.e. 1926–1991 | Trompetista norte-americano, autor de clássicos como Kind of blue, de 1959, e Bitches brew, de 1969 ], todo mundo. Ele havia passado por lá e, quando passou por mim, disse: “Você continua com aquele som bonito!”. “Pois é. Quando será a minha primeira gravação na companhia?” “Tem que colocar esse som bonito pra escutar… Vamos ver mais tarde.” E passou um tempo até que voltei pela terceira vez a São Francisco. A Flora já não estava mais. Havia sido presa por negócio de … Ficou um ano presa. Mas era uma prisão fantástica: acordava de manhã, às quatro, pra limpar todo o negócio, e depois saía pra estudar canto e voz na universidade. Só nos Estados Unidos! Aí voltava à tarde, dormia de novo lá — tinha um negocinho pra dormir, sem problema nenhum. Aí chegou a oportunidade para eu gravar meu primeiro disco lá, na Milestone. Gravei o Colors, que trazia como convidado especial Cannonball Adderley [ n.e. 1928–1975 | Saxofonista (alto) norte-americano, autor de discos como Somenthin’ else, de 1958, e Mercy, mercy, mercy, de 1966 ]. É um disco completamente diferente, não havia samba, nem funk, sabe como é? A concepção vai mais ou menos pra isso aí, mas não chega, porque o Jack DeJohnette [ n.e. 1942 | Baterista norte-americano que já acompanhou Miles Davis e Keith Jarrett e é autor de discos como Album, album, de 1984 ] inventou uma história, ritmo diferente no meio daquela confusão toda das músicas que eu havia escolhido para gravar. É interessante o disco, o Colors. Aí quando o Cannonball terminou de gravar, falei pra ele no meu inglês terrível, mas que músico entende: “Você faz assim, faz pra lá, não-sei-o-quê…”. Continuei: “Eu queria colocar uma orquestra aqui, uma banda…”. “Ah, my brother, trompetista?” “Não”. Eu estava em pé. Caí sentado quando ele falou J. J. Johnson. [ n.e. 1924–2001 | Influente trombonista norte-americano, autor de discos como Nuf said, de 1955, feito em parceria com o também trombonista Kai Winding ] Caí sentado, porque J. J. Johnson, o rei da técnica, da sonoridade e da interpretação, foi o segundo trombonista americano que ouvi na casa do Maciel na ocasião do festival que teve em São Paulo, em 56. [ n.e. I Festival de Jazz que teve uma versão em LP lançada pela gravadora RGE ] O funk eu já havia escutado no programa do Paulo Santos na Rádio Nacional do Brasil, em meados dos anos 50. O Paulo Santos, juntamente com o Cazé, saxofonista de São Paulo… E o Cazé foi convidado pelo Paulo Santos para participar de um concurso de jazz na Rádio do Brasil, no Rio. E nós fomos. Eu encontrei com ele lá, conheci ele. “Vai tomar o quê?” “Vou comprar uma garrafinha de cachaça pra gente.” “Pô, então vou ter que ir lá embaixo. Ei, vem cá menino.” Um amigo meu lá. “Compra uma lá de Minas, daquelas boas de Minas. Tem dinheiro, Cazé?” “Um pouco.” “Porque eu não tenho nada.” Eu não tinha um tostão, trombone aquele trombone. Continuou trombone furado, cheio de esparadrapo, de tudo. E ele com saxofone Selmer, e eu olhando o saxofone: “Pô, saxofone Selmer!”. Mas o alto nunca gostei. Toquei, gravei, tudo, mas nunca me interessei muito pelo som. Sempre coisa grave na cabeça. Eu gosto de ouvir outras pessoas tocarem, mas eu não. Bom, aí ganhamos aquele prêmio, tomamos a cachaça toda. Ganhamos esse prêmio, Cazé como saxofonista, eu como trombonista. Estou crente que vou começar a trabalhar mais no Rio, melhor trombonista do ano. Isso dado, quando chegava assim pro Honorato, trombonista, pro Manoel Araújo [ n.e.Trombonista e irmão do maestro Severino Araújo, da Orquestra Tabajara ], pro Nelsinho, tudo trombonista fantástico… “Olha aqui, esse prêmio é de vocês, pó!” “Não, não! Eu não.” “Ninguém aqui improvisa. Todo mundo aqui cria um sistema de contracanto na hora do improviso. Quem improvisa é você. Você é o primeiro cara, dentro do Brasil, a improvisar. Nelsinho falando. “Né, Honorato?” “É.” Honorato, um negão enorme. “É, é. Raulzinho, cabrito…” Ele me chamava de cabrito. “Cabrito é legal.” Ninguém quis o prêmio. Fiquei com aquele prêmio. Quero dizer, a idéia de trabalhar mais acabou aí. Esse foi o motivo pelo qual fui para Curitiba servir a Aeronáutica. Eu e mais alguns profissionais da época.
Cirino — E o saxofone, Raul?
Raul — Agora, voltando para o saxofone. Depois do meu disco eu havia gravado com Sonny Rollins. [ n.e. 1930 | Saxofonista (tenor) norte-americano, autor de discos como Saxophone colossus, de 1956, e Alfie, de 1966 ] Foi ele quem me convidou. Eu havia mudado de Boston para Los Angeles. “Quero você na viagem. Tudo bem?” “Tudo bem, tudo bem. A hora que você quiser…” Sonny Rollins, pô, não tem dia! Estou lá, ganhando três mil dólares aqui, mais quatro mil ali, cheio de dinheiro. Aí minha mulher americana falou: “Vamos arrumar um apartamento na praia!”. “Olha, isso aqui está assim, mas não vai render. Não está rendendo juros no banco. Quando acabar, acabou. Como vai ser?”. “Não, vamos na praia, vamos pra praia!” Aí saí com ela num domingo, meio-dia, fomos para uma praia, para outra, e para mais outra. Não conseguimos nada. E voltando pra casa às sete e meia da noite, indo pra garagem do meu prédio, havia um carro parado na minha vaga. Um carro grande, como um Cadilac, enorme. Não dava pra encostar ali. “Vou dar uma marcha-ré aqui, sair e encostar lá fora, na rua.” Encostei lá e fiquei de frente para o prédio. E a rua, mão e contramão. De lá pra cá não havia ninguém. Do lado direito, alguns carros bem longe. Mas, de repente, estou no meio da rua, e se não sou músico, eu não estava aqui pra contar história, veio um carro… Saí correndo pra frente, mas o cara me pegou e quebrou minha perna. O fêmur. Era um chofer de táxi. Fiquei embaixo do carro. Agora, a minha maior sorte foi a seguinte: havia vários carros estacionados e apenas uma vaga… Eu caí nessa vaga. Se eu bato a minha cabeça em algum lugar, eu não estaria aqui. Eu tinha uma bolsa de couro enorme, da época de hippie, cheia de coisas, que ficou presa embaixo. Eu não pude me mexer. E o taxista encostou o carro e veio me ver se tinha morrido ou não. “Ah, não morreu, tudo bem!” O cara foi embora. Ele não me socorreu. E minha mulher gritando: “Help!”, mas no meu ouvido!. “Saia daqui, pó! Help é pra lá, para o pessoal, pó! Você tinha que ter pego a placa do carro. Estou quebrado e tenho que ir para um hospital. Vai lá, chame alguém!” Aí chegou um sujeito e “O que foi? Chamem uma ambulância, polícia!”. Cinco minutos e já havia fechado toda a rua. Eu, com dinheiro no banco e em casa, mas sem carteira de seguro social. Eu estava esperando chegar meu Greencardpara casar novamente. O advogado fez uma confusão com o divórcio do meu primeiro casamento. Pegou o meu dinheiro e não fez nada; um advogado de bosta! Eu estou lá, casado, mas sem papel. Não podiam me botar na rua, me deportar. Bom, vou para o hospital. No primeiro hospital tiraram radiografia de tudo, do fio de cabelo, da unha, de tudo. A barriga estava com 15 radiografias. Aí o médico perguntou: “Você tem seguro social? Não! Saia daqui agora!”. Já que eu estava numa cama com roda, a minha mulher me arrastou pra fora para esperar uma ambulância do governo me pegar. Já do lado de fora, completamente dopado, com aquela dor longe — e sabendo que estava todo quebrado -, chega uma ambulância com um negão dentro. Pô, não vou chorar aqui. Vou ficar quieto. O negão está chorando, todo quebrado.” Aí, cheio de dor, todo quebrado, vem a luz na hora da operação. Dois médicos. Um pra operar e o outro pra ajudá-lo. Falei “Ninguém vai cortar a minha perna”. E falando para o assistente: “Fala para o seu amigo, o doutor, pra dar um jeito de colocar aquele peso, fazer um negócio qualquer para levantar a perna. Eu não quero que ele me abra a perna pra botar ferro por dentro. Sou músico e toco em pé. Não toco sentado!”. Aí ele falou para o médico: “Traction!”. “Bom, O.K. Você está escolhendo isso aí, acho que é o melhor.” Agora, segura as pontas. Um parafuso, um negócio assim na ponta, botou aqui e… [ imita o som do aparelho cirúrgico ] “Uuuuuá!”. Era elétrico. “Uuuuuá!” “Caraaaalho!” E eu somente olhando, conversando, faz de conta que não está acontecendo nada. “O que você toca?” “Toco trompete.” E o doutor lá. “Mas toca mesmo? Você gosta de Miles Davis?” [ risos ] E isso até chegar na terceira peça que é a mais grossa, usada pra poder suspender a perna e ficar assim. Tração. E nessa posição durante três meses e meio, compadre. Deitado. Três meses e meio! Cabelo desse tamanho, magrinho, parecia um faquir. Aí, o Sonny Rollins foi lá me ver. Botou uma touca, óculos escuros, passou num mercado qualquer e me trouxe um saco enorme de fruta. Não aparecia ele com aquele saco. Coisa de músico mesmo, sabe? Você imagina o Sonny Rollins fazendo compras? [ risos ] Um quilo de banana, um quilo de maçã, melancia… Fruta é fruta, põe aí. Um saco enorme. Aí, quando me olhou, parou e ficou assim…”Tudo bem, o pior já passou.” A enfermeira pegou os negócios que ele comprou e ele começou a conversar comigo. “Pô, gostaria tanto que você estivesse comigo nessa turnê”. “Pois é. Infelizmente aconteceu isso aqui, agora só na recuperação, não sei quando. Estou dopado. Sono de bolas.” Pela minha experiência antiga (com bolas), eu tinha que tomar mais. Então a receita do doutor eram duas somente. Duas de manhã, duas meio dia, duas à tarde e duas à noite pra dormir. E havia uma neguinha, que era minha enfermeira, para quem eu dizia: “Pega aquelas bolas, põe aqui!”. Ela contava umas histórias tristes. Eu a consolava. “Não é nada disso!”
Almeida — Você conta um monte de coisa, vai pra um lugar, muda, se está errado, volta e a coisa se certa. Você nunca sentiu medo?
Raul — Não, medo, não. Sempre tive confiança no que vou fazer, mesmo sendo errado, como foi com a bebida, uma coisa errada. Bebi a ponto da auto-destruição por eu não trabalhar, trabalhar pouco. E pelo músico que sou sempre procurei melhorar, melhorar, melhorar. Isso independe do país; na minha época você melhorava sozinho. Hoje em dia, não, a garotada quer tocar e apresentar um trabalho novo sempre. Mas naquela época, não. O Clóvis, irmão do Cazé, morreu jovem, 22 anos de idade. Ele tocava demais da conta. Ele, em vez de ir para os Estados Unidos, para qualquer lugar, ficou por aqui. Medo de viajar, de encarar um negócio diferente lá fora. É a coisa da coragem. O Maciel, por exemplo, esse maluco — eu o chamava de “Maluco” — foi convidado por Tommy Dorsey [ n.e. 1905–1956 | Trombonista norte-americano e líder de uma famosa big band de jazz da época do swing na década de 1940 ] para participar da orquestra dele. E naquela época, um mulato neguinho na orquestra… É ruim, não vai entrar. Mas ele não quis, porque não tinha confiança, firmeza. E essa coisa sempre tive comigo. Vamos nessa que não tem problema. Se não der certo aqui, dá ali. Mas deixem-me voltar para a história do saxofone. Aí, já não podia mais ficar no hospital depois de três meses. Eu tinha um médico especial, especialista. O médico que me operou, eu o expulsei. “Não, não quero mais esse aqui, não! Merda!, está enchendo o meu saco.” Ele e os outros médicos pegavam a minha perna e faziam assim. “Porra, o que é isso aí?!” Um dia apareceu médico do Exército, um major. Eu falei: “Pô, major, que maravilha, o senhor vai tratar de mim aqui”. “Deixa eu ver esse negócio.” Ele não trabalhava lá, ia somente dar um help, uma ajuda, né? Aí ficou sendo o meu médico por quase dois meses e me ajudou até o final. Era ele quem falava com o médico-geral para ver a radiografia. Todo dia tinha radiografia, todo dia. Graças a Deus conseguiram colocar a perna no lugar. Depois que eu saí de lá, conheci uma médica, não massagista, mas doutora que trabalha somente com osso e músculo. Essa aí cuidou de mim. Sempre ficava uma perna mais curta que a outra. Mas quando eu estava numa daquelas noites, com aquelas bolas todas pra não dormir, dorme aqui, não dorme, sempre chegava um cara da enfermaria. Imagina, enfermaria com 14 pessoas. Saia um bom e entravam dois loucos. Enfermaria do pessoal que chegava quebrado; era a maior confusão. Você não conseguia dormir. Nessa ocasião o Hermeto, que estava o Robertinho Silva trabalhando com o Egberto Gismonti e com o Luís Alves, morava em Los Angeles, quase perto de mim. E o Robertinho e o Egberto estiveram lá. “Bicho, tenho que sair. Aqui é a primeira enfermaria! Todo mundo que chega quebrado vem pra cá. Sou o mais antigo daqui. Acho que lá no final tem uma outra enfermaria. Olha pra lá, Robertinho… Robertinho, olha pra lá! Está vendo uma porta igual a essa daqui?” “Tô.” “Então vem cá. Ei, Egberto, você que trabalha com negócio de eletricidade, som e elétrica, tem algo ligado ali. Desliga esse negócio ali. Você, Robertinho, vai empurrando essa cama aqui por esse corredor. Não olha pra trás. Como filme, ‘Não olhe pra trás!’. E me leva para aquele outro negócio, que deve ser uma outra enfermaria. Se não for eu volto, pelo menos faço uma viagem. Vamos nessa.” E lá não era outra enfermaria. Estava saindo um bebum. “Pô, graças à Deus vocês vão me tirar daqui. Vou voltar a tomar meu conhaquinho!” O cara inchado com o fígado estourando, um daqueles alcoólatras que estava preso ali. E nesse lugar só havia uma janela, uma janelinha, e aquele calor do inferno, verão. Falei para o Robertinho: “Tira a cama dele dali, dá marcha-ré na minha pra eu ficar de costas para a janela”. Conclusão: desapareci do hospital. Ninguém sabia de nada. Uma confusão danada no hospital, sobe e desce, “Desapareceu o Raul!”, “Pô, aquele cabeludo black power!”. Todo mundo me procurando. O Robertinho e o Egberto me deram esse presente. Aí, quando falo com o Robertinho… “Ei, Robertinho, você se lembra disso, bicho? Põe o cérebro pra funcionar, tira a bateria — afinal, de um lado é música e de outro é o pensamento. Vamos lá… Você se lembra disso?”. Ele me olhava assim: “Porra… Lembro, não”.
Almeida — Ele não lembrava dessa história.
Raul — É o que faz a noite…
Teresa — O Raul fala mais que o homem da cobra [ mais de meia hora e ainda não revelou como começou a tocar saxofone ]. Eu já estava prevendo isso, mas a gente…
Raul — Deixa eu terminar! Ele quer fazer uma pergunta, mas deixa eu terminar… Aí, conclusão:estou lá, naquela confusão, minha cabeça a mil por hora. O táxista, o louro, deve ter pensado que “O negão com branca… É gigolô!”. O cara não vai saber que são casados… Pela cabeça do louro, eu era um gigolô e deve ter dito “Vou matar esse cara!”. Foi por isso que ele me atropelou, parou o carro e veio ver se havia matado ou não. “Ah, está vivo, então vou embora.” E foi…
Dafne — Falando em história…
Raul — Mas não terminou, não terminou… [ risos ]
Dafne — Tá bom, tá bom!
Raul — Aí me veio na cabeça o seguinte: sou brasileiro, carioca, malandro velho. Fui atropelado na rua e aqui são os Estados Unidos. Vou descolar um dinheiro do prefeito. [ risos ] Como vou ficar? Sairei daqui em cadeira de rodas, depois muleta e bengala. Vou ter que alugar tudo isso. Nada é de graça. E tenho que pagar o hospital, que é do governo, mas tenho que pagá-lo. Mesmo comendo salsicha com pão, sanduíche comcatchup… Três meses e meio comendo esse negócio. Somente de vez em quando uma sopinha. Pô, e para eu ir ao banheiro? Não ia nunca ao banheiro, nunca! Tinha que tomar purgante fortíssimo. Era a a maior agonia que você pode imaginar. Bom, agora vem, agora vem a história melhor… [ risos ] Falei com a minha ex-mulher: [ fala baixinho ] “Você vai lá em Beverly Hills — não em Downtown — e descola dois advogados jovens. Fala tudo, que fui atropelado, que você estava presente, que fui quebrado no meio da rua… Faça isso!”. “Não!” “Faaaça isso, não seja tão americana. Como vou pagar o aluguel? Como vou ficar sem tocar trombone por não sei quanto tempo? Como vai ser? Vá lá!” Aí ela foi e, dois dias depois, ela volta. “Vamos descolar o negócio?” “Pega o cheque”. Aí foram dez mil dólares pra mim e cinco mil para os dois, que dividiram. Tem que ser inteligente, malandro no bom sentido. Aí saí do hospital, mas tinha que pagá-lo. Doze mil dólares, uma coisa assim. O cara falou: “Você vai pagar?”. “Vou” “Assina aqui.” Mas eu já tinha mudado de apartamento. [ risos ] Como vou subir dois andares com cadeira de rodas? Impossível! Tinha que morar em um apartamento térreo. [ fala baixinho] “Muda de apartamento que vou assinar o negócio lá…” Eu tinha uns amigos músicos que ajudaram minha ex-mulher. Bom, aí um dia comecei a pensar: “Como vou tocar trombone deitado? Não vai dar certo. Agora é oportunidade do saxofone-tenor”. E um amigo meu saxofonista, Ion Muniz, estava morando em Nova York. Liguei pra ele: “Ion, você vai ver pra mim um tenor Selmer, um daqueles antigos”. “Por quê?” “Estou todo quebrado.” “Está melhor?” “Já estou em casa. Veja quanto custa um que eu te mando o dinheiro.” “Legal.” Aí ele me telefonou. “Vai custar 850 dólares, com estojo, boquilha e não-sei-o-quê. Vou te mandar. Falei pra minha mulher: “Vamos comigo comprar uma palheta, que este negócio está sem palheta.” Aí cheguei: “Qual é a palheta que o pessoal usa? Vou começar a estudar agora. Não pode ser uma palheta dez”. “Dez não existe. O máximo é quatro e meio, cinco. Mas a dois, dois e meio está boa pra você.” “Legal.” “Que boquilha é?” “Seis, sete.” “Dois e meio está bom.” É outra coisa, nada a ver com o bocal do trombone. Aí, cheguei em casa e coloquei a palheta. “Bom, deve ser por aqui.” Aí comecei a lembrar do Cipó, do Zé Bodega, dos músicos, como era a posição, Dó… “Onde fica o Dó? Onde está isso, aquilo?” Tudo que os caras faziam, eu fazia… Outra posição na cadeira. “Onde fica o Sol? Opa, saiu legal o Sol! Se saiu o Sol, sairão todas.” Peguei tudo na hora. Então, de Si bemol até o Fá, que é o final do instrumento, tudo certo. Aí convidei o Moacir Santos [ n.e. O consagrado saxofonista, compositor e maestro pernambucano morreu aos 80 anos de idade no dia 6 de agosto de 2006 ]. “Moacir, comprei um tenor!” “Tenor, meu filho?” “É.” [ risos ] “Vem aqui porque de Si bemol até o Fá eu estou sabendo. Quero saber do Sol. Aqueles caras [ imita o som rasgado do sax ] “Uuuá!, Uuuá!”, quando cuspe o Sol e grita no tenor. “Como é?” “Bom, vou aí.” Viajou uma hora e meia de carro até chegar em casa. “Pô, que maravilha, um Selmer?” “É, um Selmer. Toca aí. Estou louco pra ver onde está o Sol, mudar de posição. Pô, onde está, onde está?!” “Aqui, meu filho.” [ imita o som do saxofone ] “Papáripará” “Porra! Mas está muito rápido, não estou vendo nada.” Não me ensinou nada. Inventou umas histórias, começou a falar dos caras, devolveu o saxofone e foi embora. Depois toquei com ele. Festa em casa de família, quero dizer, em casa de milionários, de família milionária.
Tacioli — Vocês se falam de vez em quando?
Raul — Com o Moacir? Não. Não tem tempo. Quando vou pensar em telefonar, ele já viajou. Não falo. Estou em Paris, ele nos Estados Unidos. Comunicação meio complicada, mas quero vê-lo. Ele está meio doente. Gostaria de vê-lo. Está fazendo show. Está com oitenta e lá vai…
Max — Raul, e dessas histórias todas que você contou, o que ficou hoje pra você? Como está a sua vida?
Raul — Maravilha, maravilha. [ pausa ] Estou vindo ao Brasil sempre, isso é bom para reciclar, ver os amigos. Poucos amigos, mais amigos fora. Aí fico triste porque o outro morreu, o outro continua no goró. Quando passa de uma certa idade, tem que parar. Se esses caras vão nessa, acabam morrendo mesmo, mas por outro lado, é alegria, meu irmão.
Max — Como foi sua decisão de ir para a França?
Raul — Para a França eu já havia ido várias vezes, desde 65; depois em 66 em Montecarlo, onde fiquei quatro meses. Foi lá que eu comprei o meu primeiro trombone meio baixo, que hoje em dia é chamado de trombone completo. Eu lancei esse modelo de trombone nos Estados Unidos. Hoje em dia é usado nas escolas, é quase obrigatório, isso graças à sua sonoridade, ao seu timbre… Fui o primeiro a tocar como solista, porque é um instrumento pesado, não é leve.
Tacioli — Raul, qual é a história da apresentação de amanhã?
Raul — Amanhã é o dia de composições, de idéias novas. Eu, o meu cunhado, que é pianista e compositor, e o pessoal do grupo, como o baixista que é casado com uma turca, então está sempre na Turquia. O meu cunhado um dia me telefonou e disse: “Tenho um negócio aqui; vai dar uma coisa diferente no fim da música. Vem cá!”. Eu morava perto dele e a gente se encontrava quase todo dia. Começou nessa coisa e acabamos gravando. Havia outro baixista que casou com uma indiana e hoje mora na Índia. E entrou esse rapaz no lugar. Ele substituiu uma vez; tocava percussão no contrabaixo. “Não, não! Pensa um pouquinho, pensa!”, porque se baseava no ritmo da Turquia, afinal estava sempre tocando com o pessoal de lá. Agora está tocando bem, está legal! Bom garoto, gente finíssima! Patrick. As músicas passam pelo ritmo africano, com vozes, flamengo, jazz, funk e funk brasileiro. Há uma música minha que fiz em homenagem ao bairro em que eu morava. Chama-se “San Remy”. Falei: “Pô, San Remy!”, afinal sou o São Raul. Tem lá o dia do San Raul.
Teresa — Qual o dia de São Raul?
Raul — Eu não sei. Acho que é 19 de julho.
[ fala em francês com a esposa Yolene ]
Teresa — É o dia do meu nascimento!
Raul — É mesmo? É mais ou menos nesse dia. Acabei tocando percussão. Arrumei tumbadoura e tudo. Tá vendo só como foi bom o passado? [ ri ] Foi bom! Gravei percussão e depois a melodia em cima. Legal. “San Remy”. No show há também a menina que canta, que fala um negócio. Eu falo no meio também. Tem uma entrevista do Wayne Shorter [ n.e. 1933 | Saxofonista (tenor e soprano) norte-americano, autor de discos como Adam’s apple, de 1966, e Native dancer, de 1974, feito em parceria com Milton Nascimento ] falando do Coltrane, me contando que ele tocava e estudava demais, que ficava o dia inteiro somente estudando. Há eletrônica também; computador. O computador ajudou muito o meu cunhado organizar as vozes; tem passarinho no meio, tem uma porção de coisas. Ah, tem uma fala minha — que ela gosta [ aponta para a esposa ], em que falo do Brasil, “Brasil, Brasil brasileiro, não-sei-o-que-lá”, que é o país do pandeiro… Mas por essa brincadeira com a minha voz, já estou sendo convidado pra falar num curta-metragem do Sílvio Back. Eu e o Guilherme Vergueiro musicamos o filme sobre o Stefan Zweig. [ n.e. 1881–1942 | Escritor austríaco, autor de livros como Brasil, um país do futuro ]
Teresa — Você já viu esse curta [ Viva volta ] que vai estrear amanhã?
Raul — Ah é, vi no Rio. Vai passar amanhã.
Tacioli — O que você achou?
Raul — Está bom. Está curto, né? [ risos ] Curtinho.
Teresa — Que justamente é o encontro da imagem e do som. É o filme e a música. Primeiro passa o filme, porque em São Paulo não estreou ainda. Só estréia mesmo, porque São Paulo é feriado, porque ele estréia com ele também no palco logo depois. Então a gente passa nesse palco, e logo depois entra ele com a banda, e pra gente também vai ser uma noite memorável.
Raul — Todo mundo vai ficar legal. E depois, quarta feira eu estou indo lá, terça feira, eu toco no Blen Blen. Aí, quarta feira em Belo Horizonte, no festival de jazz lá. Vou tocar com o grupo, e depois com o Toninho Horta, meu irmão de tudo, my brother. Esse é um gênio, gênio!
Tacioli — Você volta pra Paris quando?
Raul — Paris? Depois vou a Curitiba. Fazer uma première em Curitiba. A cineasta é de lá, mora lá. E vamos ver se consigo mais dinheiro da Petrobras… [ risos ]
Teresa — Pra fazer um média, pelo menos!
Raul — Porque o [ filme ] de 21 minutos está feito. O de 15 minutos é para cinema; o de 21 é para televisão. Um outro longa que vai ser… Se deixarem eu falar… [ risos ] Como aqueles filmes de cowboy: “O mocinho morreu?!” “Não, somente semana que vem!” [ risos ]
Dafne — Raul, parece que o curta traz a história do búfalo, do passeio público de Curitiba. Qual é a verdade dos fatos?
Raul — Está no filme?
Dafne- Você não falou? Então não está no filme. Melhor ainda.
Raul — Não, somente eu com a Bethânia já deu quase sete minutos. E a Bethânia cantando. Ela foi a minha especial convidada.
Tacioli — Cantando atualmente? Mas o filme vai também pra 69, não?
Raul — Não, já foi. Isso aí foi quando eu vim da Europa, de Montecarlo, em 68. E ela me convidou para fazer um programa de televisão. Aí o Pierre Barouh pegou eu e ela e botou no curta-metragem dele. [ n.e. O filme Saravah, de 1969, recém-lançado pela gravadora Biscoito Fino ] Eu sempre falo: Cadê aquele…?” Se o meu advogado falar fica pior… Você perguntou da tristeza, não? Não há tristeza comigo. Tudo bem, estou vivo, graças a Deus, e aconselhando todo mundo: “Não beba!” Atenção! Quer beber, beba, mas o dia que der um negócio no fígado, aí você vai dizer: “Pô, o Raul estava certo. Bem que ele dizia!” [ risos ] É o seguinte: eu, com aquela idéia de ser doutor, sempre imaginava um remédio pra mim. E no mesmo bar eu tomava o remédio, qualquer coisa estranha. “Me dá um Undemberg!” Tomava o Undemberg, dava um tempo, tomava uma água mineral, um café e tudo de novo. “Me dá um conhaque!”, tudo de novo, sabe como é? Dias e dias. Graças a Deus estou vivo.
Tacioli — E qual seu remédio hoje, Raul, qual é o seu preparado, tônico?
Raul — Água, suco de abacaxi e muita feijoada [ risos ] com aquele pé-de-porco, joelho. Eu levo a Yolene naqueles pés-sujos no Rio. Rabada, feijoada… Ela come tudo!
Tacioli — Raul, como você analisa sua discografia? Qual é o caminho que existe nela?
Raul — Eu acho até que há um seguimento, uma continuação, como nos primeiros discos gravados nos Estados Unidos. Não estou falando do Colors, que foi uma coisa diferente, mas do Sweet Lucy, Don’t ask my neighbors e do Til’ Tomorrow comes. Hoje é uma coisa seguindo aquilo ali, mas mais atual. Elétrico, com vozes, computador. Uma coisa interessante, musicalmente falando muito mais interessante que o computador, sabe como é, com composições do…
Tacioli — Você falou do improviso, que improvisava bastante e que isso era uma das suas marcas. Esse virtuosismo, em algum momento aqui no Brasil, causou um isolamento, das pessoas dizerem “O Raul é diferente; vamos deixá-lo de lado.” Houve esse tipo de coisa?
Raul — Teve, e desde 56, depois do prêmio do Cazé. [ n.e. 1932–1978 | Saxofonista e clarinetista que trabalhou com figuras como Dick Farney, Jongo Trio e Sylvio Mazzuca, além de ter formado o grupo Casé & Seu Conjunto na década de 1960 ] Pra mim, melhor, tudo bem. Estou estudando, isso é um prêmio, né, como nota 5, “Fica no trono!”.
Tacioli — Isso existe hoje ainda?
Raul — Não, hoje em dia há um reconhecimento. Muito reconhecimento pelo que provei como músico tocando saxofone, tocando flugelhorn — nesse CD toco flugelhorn. No mundo existe um suíço ou alemão que, se não me engano, toca trombone-tenor, saxofone e flugelhorn ou trompete. Somente dois no mundo! E isso por causa de embocadura e da sensibilidade. Nenhum instrumento tem a ver com o outro. São todos inimigos! Trompete é inimigo do trombone; o trombone é inimigo do saxofone, e assim vai. Cada instrumento uma cabeça diferente, uma maneira de interpretar, de tocar, de tudo. Eu, agora, estou tocando saxofone-barítono, que veio a calhar porque é a minha voz [ risos ]; sou barítono. Saxofone-alto e tenor, tudo bem, trompete, tudo bem, mas não é o que eu gostaria de ouvir. O saxofone é pesado, seis quilos, mas não tô nem aí. Penduro aqui e vamos nessa! Dá um nó aqui no dedo, porque é muito grande, comprido. É desconfortável porque é grande. Os seis quilos você esquece, o negócio é tocar. Quanto mais tocar diminui os quilos: quatro e meio, três… [ risos ] Tem que pensar em diminuir, não em aumentar. É o maior barato!
Tacioli — Você já provou o que tinha que provar? Há mais alguma coisa pra provar?
Raul — Provar, não, somente aconselhar. Por isso eu fiz os métodos para saxofone, trombone e trompete, pra deixar pra rapaziada aí. Eu não posso ensinar improvisação. Faço um acorde num piano e “Improvisa aí! Ré menor, com isso aqui, não-sei-que-lá, a escala é essa!”. “Essa escala aqui corresponde a quatro, cinco acordes.” Escala diminuta. A escala pentatônica menor… Vão ficar loucos. Se contar há, mais ou menos, 4 mil e 800 escalas. Tem um livro escrito por um gênio russo nos anos 40, 50 que o Coltrane comprou e levou pra casa. Tocou o livro em uma semana. Também tenho esse livro em casa. Imagina, todas as escalas! Aí passava a tocar o livro inteiro por dia, das sete da manhã às sete da noite, comia um negocinho e voltava. Quatro mil e oitocentas escalas.
Cirino — Que livro é esse?
Raul — Humn… Não se te dizer… Como é o nome? É em inglês… Algo como “O segredo das escalas”…
Teresa — Enfim, improvisação não se aprende…
Raul — Até aprende, mas se a pessoa tiver uma idéia e começar a ouvir Pixinguinha, por exemplo. O que ele fazia por detrás do Benedito Lacerda não era improvisação, era contracanto, que é uma invenção dele, eu acho. Eu não tenho informação de outra pessoa que tenha feito isso. Então, ele era o pai dessa coisa de improvisação. Você vai aprendendo, você vai lendo… Por exemplo, tem um curso na Berkley School que ensina a pessoa improvisar. Agora, o cara é careta, improvisar careta… [ risos ] Outro acorde dentro da escala, quero dizer, fica um negócio sem expressão. [ riso ] Na improvisação você tem que criar uma melodia sobre a melodia dentro da harmonia que está sendo tocada ali. Eu, por exemplo, posso improvisar uma música várias e várias vezes a mesma música completamente diferente que não vou repetir uma nota.
Tacioli — Aquele conselho do Jamelão…
Raul — Aquele eu esqueci… [ risos ] Aquilo de muito moderno, pelo amor de Deus. Ele quis me ajudar, pedindo para eu tocar uma música mais comercial, não tão complicada para o ouvinte… Pra mim, que estava vindo de Bangu, não queria nem saber. Se o pessoal de Bangu aplaude, o daqui também vai aplaudir. Na minha cabeça todo mundo é igual, todo mundo escuta a mesma música, gosta da mesma música, não tem diferença.
Tacioli — Mas como você equilibra o gosto do ouvinte e aquele que você sente? Como isso funciona, por exemplo, quando você vai gravar um disco?
Raul — Gravar é completamente diferente de tocar ao vivo. Ao vivo você tem mais liberdade. Na gravação, você tem que saber medir pelo tempo. Antigamente, não. Coltrane tem um solo de 28 minutos. Tem um disco inteiro somente com duas músicas… Pra usar todo o sistema que ele estudou. Aí você vê a autocriação da improvisação. Essa música de um lado do disco só já começa [ sola ] “pó, pó, pó, turanruranruran! / pó, pó, pó, turanruranruran!”. São só quatro compasso de uma música que tem umas oito harmonias. [ solfeja rapidamente batendo a mão na coxa ] O coitado do McCoy [ McCoy Tyner, pianista do quarteto de Coltrane] dava quatro e ficava assim centrado. [ risos ] “Deixa ele aí…” E o Elvis Jones [ baterista ] sorrindo como o Robertinho… Vocês viram o filme? O baixista — louco! — sem sem parar, metendo o pau. Igual esse aí, não vai aparecer nunca, nunca, nunca. Pode tocar bem. Tem vários caras tocando saxofone-tenor bem nos Estados Unidos, inclusive o filho dele, o Ravi, mas não chega lá… O Marsalis toca bem pra burro, mas não chega. Porque não adianta, é o cara, o fundador, o cara que inventou … bom, o que a minha empresaria está querendo dizer, está batendo palma…

"Não vim aqui fazer gracinhas!"

"Mario de Andrade andava na minha calçada!"

"Eu cato, não pesquiso!"