Serpentina

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por Ricardo Tacioli Serafini

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No ano em que a televisão foi inaugurada no Brasil, com a exibição das primeiras imagens pela TV Tupi de São Paulo, e um antes do formato LP estrear no mercado nacional com o disquinho Carnaval em long-playing (Capitol/Sinter), chegava às melhores lojas um novo 78 rotações do cantor Nelson Gonçalves (1919–1998). A bolacha deveria aquecer o ensolarado carnaval de 1950. E aqueceu.

Já com prestígio na praça, o crooner de 30 anos de idade entrou no estúdio da RCA Victor, no Rio de Janeiro, no dia 9 de outubro de 1949, para superar a gagueira e cravar na cera duas músicas de autores veteranos e campeões.

Mas a história desse disco não surgiu em 1950, como sugere a crônica oficial. Foi numa dessas noites paulistanas, em que o mau-humor estaciona seu possante na garagem, dá duas buzinadinhas e avisa pelo interfone que está subindo, sacumé? Teimosia em fim de semana, quando se deve guardar o sábado e coisa e tal. Mas, não, mete-se ao computador num sabadão de chuva. De muita chuva. De repente, puft… o apartamento e toda Alfredo Ellis perdidos numa escuridão sem fim. E aí, negão?

Foi entre Elvis Presley, Garoto, Luiz Gonzaga, Celly Campello, Trio Surdina e Ronnie Cord que saltou um 78 rotações com rótulo bicolor, laranja-e-preto, de apelo carnavalesco, com siluetas de homenzinhos no alto.

Com a manivela do gramofone bem tensionada e a agulha nos primeiros sulcos do prato negro, o gaúcho apresentou sua primeira aposta. “Serpentina”, marcha composta pelo letrista, jornalista e escritor paulista David Nasser (1917-1980) e pelo redator e humorista Haroldo Lobo (1910-1965), espremeu-se para sair da fantástica caixinha de madeira e orelha dourada com uma esquadra instrumental encorpada.

“Guardo ainda / Bem guardada / Serpentina / Que ela / Jogou / Ela era uma linda Colombina / E eu / O pobre Pierrô”, canta individualmente Nelson, com deixa para o coro de mulheres com vozes estridentes repetir o draminha romântico. Logo depois, arremata, ingênuo… “Guardei a serpentina / Que ela me atirou / Brinquei com a Colombina até às sete da manhã / Chorei quando ela disse / Vou me embora, até amanhã / Pierrô, até amanhã!”

Mas Nelson não foi o único quem lamentou a despedida da Colombina criada por Haroldo e Nasser. Em 1949, o diretor Watson Macedo (1918-1981) cortou a fita vermelha de sua quinta comédia, a chanchada Carnaval no fogo. A película preto-e-branco da Atlântida selou a estréia do ator José Lewgoy e contava com estrelas do cinema nacional da primeira metade do século XX, como os comediantes Oscarito e Grande Otelo, o galã e cineasta Anselmo Duarte, e a atriz e cantora Eliana Macedo, sobrinha do diretor e uma das “namoradinhas do Brasil”.

Mas tanto papo apenas para dizer que “Serpentina” integrou os números musicais do filme, mas pelo gogó de Jorge Goulart, cantor carioca sete anos mais moço que Nelson que iniciara a carreira em 1945. Essa versão do senhor Nora Ney, que também cantou “Balzaquiana”, de Wilson Batista e Nássara, um de seus maiores acertos populares, não chegou ao disco. Com direção musical de um dos regentes da Rádio Nacional, o paulista Lírio Panicalli, a trilha ainda convocou craques da música popular de então, como os Vocalistas Tropicais (“Daqui não saio”) e Francisco Carlos (“Mulher me deixa em paz” e “Meu brotinho”), e composições de Zequinha de Abreu (“Tico-tico no fubá”, por Eliana Macedo), de Pedro Caetano e Antônio Almeida (“Traz o meu pandeiro”, por Marion) e de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti (“Marcha do gago”, pelo comediante Oscarito).

Essa edição de “Serpentina” chegou ao CD em 2003 pela curitibana Revivendo Discos (Carnaval – Sua história, sua glória – Vol. 31). E há uma fina versão instrumental no LP Pixinguinha e sua banda – 40 anos de sucesso (Musidisc, 1979). Enfim, uma peça rara. 

Mas raridade mesmo está no lado B desse 78. Com a mesma sinfônica e com o mesmo coro estridente, Nelson Gonçalves solta o pé do acelerador e solfeja “Tanto bate até que fura”. Apesar de seu potencial radiofônico e carnavalesco, o samba de Pereira Matos e Geraldo Gomes parece que seguiu as pegadas de seus autores. Nem a música, nem Pereira e nem Geraldo ficaram pra contar história.

Gravado no mesmo dia de “Serpentina”, o samba tem como moral “a esperança é a última que morre”. O esguio e ex-garção e boxista peso-médio não desiste e brada com uma dicção de fonoaudiólogo “Eu sei / Que ela não tem amor / Mas eu tô louco por aquela criatura / Não desanimo / Como diz o ditado / Água mole em pedra dura / Tanto bate até que fura / Tem que vencer / A tua resistência / Com insistência, sem desanimar / O pingo d’água quando fica sem parar / Demora um pouco, mas no fim tem que curar / Eu sei”.

A temática da despedida e da esperança das duas faixas dissolvem-se em seus arranjos sacolejantes. Afinal, foram compostas para incendiar o carnaval de 1950 e as células-chaves para isso foram moldadas a mão: letras curtas, repetição do mote e ritmo-chiclete, para colar a corpo e a cabeça. “Serpentina” e “Tanto bate até que fura” exibe um Nelson Gonçalves cheio de hormônios, que se mantiveram ativos até o fim da vida. Mas foi necessário um blecaute para que a farra do Nelsão ocupasse minha sala…

“Serpentina”
(Haroldo Lobo e David Nasser)

RCA Victor
Nº 80.0630-A / Matriz: S-078948

Gravada em 09.10.1949
Lançada em janeiro de 1950

“Tanto bate até que fura”
(Pereira Matos e Geraldo Gomes)

RCA Victor
Nº 80.0630-B / Matriz: S-078946

Gravada em 09.10.1949
Lançada em janeiro de 1950

Foto de Ricardo Tacioli Serafini

Ricardo Tacioli Serafini

(Jundiaí/SP, 1971) Cientista social e produtor.

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