Que grande coisa é não ter grandes coisas

Crônica do radialista e jornalista santista (1913-1967), considerado um dos mentores criativos de Adoniran Barbosa.

Por OSVALDO MOLES | 1962

Não me lembro bem se a lua era um peixe de luz no aquário do céu ou se era uma dessas luas gordas que andam precisando emagrecer: essas luas típicas de cenário de ópera para fazer jogo com o soprano enxudioso. Só faltava o tenor entrar e mandar a ária “Parigi, ó cara…”. A ária “Parigi, ó cara…” estaria de acordo com a vida cara e com a lua, mas eu não ouvi o tenor. Ouvi um sapo. Um sapo que um poeta disse “desatarraxa a corda baixa de um violino de tarracha”. Ouvir um sapo dentro da noite é como ouvir a própria noite falando. Mas não era bem sapo. Era a voz do Cibide, no botequim. Eu nunca havia visto charco de pinga dar sapo. Deu o Cibide. E o Cibide disse:

– Que grande coisa é num tê grandes coisas.

Senhores: o Cibide não era bem o Alcebíades, era o próprio Diógenes em pessoa. Porque ele estava defendendo uma teoria precisa de desligamento das coisas da Terra. E dizia que televisão de pobre é ver, assim, na manhã, duas galinhas brigando por causa de uma minhoca. Para as galinhas, a minhoca é uma grande coisa. Para nós, a grande coisa da galinha é o supremo de frango.

E estava contando a história de Diógenes. O Cibide dizia que se tratava de uma personagem bíblica que havia seguido a doutrina cristã. E que tinha, de seu, um tonel, um cajado e uma cuia para beber água. Ora, o Diógenes (o Cibide dizia Giogi), um dia, foi à fonte e viu uma criança beber água na concha das mãos. Então, jogou a cuia fora. O Giogi não queria nada de supérfluo porque achava “Uma grande coisa não ter grandes coisas”.

Quando eu era menino, meu único brinquedo era eu mesmo. Eu brincava comigo como se eu fosse um brinquedo de loja. Brincava com os pensamentos, olhando um rio triste, tão triste que até a água estava fugindo do rio. Numa noite, achei um vaga-lume doente. Ora, um vaga-lume enfermo é como um ceguinho de preço que perdeu a viola com que pedia seu sustento ao povo. Um vaga-lume sem luz é como quem diz: um grau antes da morte. Peguei o vaga-lume pela mão e levei-o para casa.

Lá ficou ele, encolhido, tão encolhido que parecia essa roupa feita, em que a gente bota no bolso o recibo da água e ela já vai encolhendo… E o pior de tudo é que quem tomava conta de mim exclamou:

– Joga essa gafanhoto fora!

Ora, chamar um vaga-lume enfermo de gafanhoto é uma ofensa. E eu fiquei triste, triste, porque ninguém me deu dinheiro para comprar remédio para o vaga-lume enfermo. Assim, com um vidrinho de tintura de iodo e alguma água boricada, achei que o vaga-lume poderia voltar de novo a iluminar a estrada à sua frente e a seguir, passo a passo, os passos da amada e de novo brilhar como uma estrela. Mas o vaga-lume morreu no terceiro dia. Não se se era crupe ou pneumonia ou enguiço no silibim. Mas morreu como um passarinho, encolhido e triste. E quando alguém me perguntava?

– Que é que você vai ser quando crescer?

– Quero ser médico. Pra curar vaga-lume.

Isso foi tudo que tive da vida: um vaga-lume que eu nem sabia naquele tempo que também se chamava pirilampo. Pirilampo é grego, como Diógenes, que jogou a cuia fora. E o Cibide continua falando que a gente não deve querer nada deste mundo: só um pouquinho. Um pouquinho já chaga… porque a “grande coisa é não ter grandes coisas”.

Cibide! Eu não quero grandes coisas! Eu quero meu vaga-lume!

OSVALDO MOLES

Jornalista e radialista (1913-1967), é considerado o “pai” de Adoniran Barbosa.

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