Arrigo Barnabé, por Jefferson Dias

Arrigo Barnabé

Artista símbolo da ‘vanguarda paulista’ fala de seu desejo infantil de ser inventor e rememora a vida antes e depois de sua principal criação, o álbum ‘Clara Crocodilo’, um marco na música popular pós-1980.

GAFIEIRAS | São Paulo, 26.out.2011

Ele foi a maior sensação quando surgiu em cena em 1979. A sua “Diversões eletrônicas”, composta com Regina Porto, levou o caneco no 1º Festival Universitário da Música Popular Brasileira, promovido pela TV Cultura. Poucos meses depois, foi a vez de “Sabor de veneno” — nome que batiza sua banda — conquistar os prêmios de Melhor Arranjo e Melhor Interpretação (para Neusa Pinheiro) no Festival MPB da TV Tupi, vencido por Fagner (“Quem me levará sou eu”) e seguido por Walter Franco (“Canalha”). Segundo o jornal Cidade de Santos em 25 de novembro daquele ano, Arrigo “(…) ousou avançar algumas escalas e sair do lugar-comum, numa colagem sonora mesclando estilos e ritmos, do erudito ao baião, até desembocar num rock progressivo e provocar uma verdadeira zorra no auditório”.

Intencionalmente, o menino que sonhava ser inventor “de avião, de carro, de coisas” entregava ao público as primeiras pistas daquela que seria sua principal criação: Clara Crocodilo.

Lançado de forma independente em 1980, o álbum é uma espécie de história em quadrinhos musicada e narrada pela voz rouca e tensa de seu criador em diálogo com um coro feminino. Tudo sob uma trilha sonora imprevisível e impossível de se assoviar. Na bula dessa nova música visual estavam elementos do atonalismo/serialismo/dodecafonismo e da cultura pop representada pelas HQs, a estética e a temática dos programas policiais de rádio, anúncios publicitários e personagens escanteados pelas grandes cidades, do motoboy à prostituta. Não deu outra: ao tensionar a “linha evolutiva da música popular brasileira” e fugir do formato “canção”, foi vaiado em festivais, não tocou em rádios, não foi cantado em karaokês e amargou seu primeiro fracasso comercial, mas não artístico.

Quatro anos depois, em 1984, prestigiado e até citado por Caetano Veloso em “Língua”, uma das faixas do disco Velô, Arrigo defendeu a mesma receita em seu segundo álbum, Tubarões voadores, com participações de Paulinho da Viola e Rita Lee, mas agora lançado e distribuído por uma grande gravadora. No entanto, o resultado repetiu a sina do LP anterior.

Mas Arrigo não estava sozinho. O crédito do insucesso de massa é parcelado com outros nomes da cena independente de São Paulo naqueles primeiros anos de 1980. Premê, Grupo Rumo, Língua de Trapo e Itamar Assumpção, representantes da movimentação musical mais relevante depois do Tropicalismo, conquistaram o público universitário (de onde parte egressa), agitaram a cena local e estabeleceram um novo capítulo na música brasileira. Sem um programa de tv para ventilar os novos sons e ideias, como costuma defender Arrigo, essa “vanguarda paulista” mal cruzou as fronteiras de onde nasceu, e até hoje não foi totalmente reconhecida e degustada.

Paralelamente à carreira de músico, Arrigo inaugurou em 1981 sua prolífica relação com o audiovisual, ao estrelar o curta-metragem A estória de Clara Crocodilo, de Cristina Santeiro.

Com composições gravadas por Maria Bethânia, Gal Costa e Ney Matogrosso, mas com contas a pagar, em 1987 cedeu ao mercado e lançou O suspeito, disco de 11 faixas compostas com vários parceiros, como Hermelino Neder e Roberto Riberti, e participações de Vânia Bastos, Itamar Assumpção, Mário Manga e Ana Amélia. Um flerte explícito com o pop vigente, com direito a videoclipe (“Uga uga”) assinado pelo dominical Fantástico, da TV Globo, e incursões não muito à vontade em programas de auditório, como o Cassino do Chacrinha e Clube do Bolinha. Peixe fora da água, o mergulho pop não vingou.

Retomou a carreira discográfica no início dos anos 1990, intensificando sua produção musical nas décadas seguintes, quando também se dedica à música de concerto. Dela se destacaram suas duas óperas, O homem dos crocodilos — Um caso clínico em dois atos (2001), com libreto de Alberto Muñoz, e Enquanto estiverem acesos os avisos luminosos (2005), com libreto de Bruno Bayen, e suas três missas, uma para Arthur Bispo do Rosário (1911–1989), artista plástico que passou boa parte da vida em instituições psiquiátricas, outra para o amigo Itamar Assumpção (1949–2003), com que dividiu teto, palco, alegrias e angústias, e a Missa Nóia (2019), encomendada pelo Coro da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp).

Esta entrevista foi realizada pouco depois de Arrigo ter completado 60 anos. Ao receber a equipe do gafieiras naquela manhã de outubro de 2011, avisou que havia dormido muito pouco. Mesmo assim, o pai do “inimigo público número 1” distribuiu bom humor, inquietações e ótimas histórias sob um script que tentava fugir do que sempre é lhe perguntado.

Falou-se pouco dos discos, quase nada dos festivais, como o MPB-Shell 1981 e 1982, ou de seus primeiros anos como “símbolo renovador da música brasileira”. Não se comentou de quadrinhos, Robert Crumb, Will Eisner e Luiz Gê, amigo e responsável pelo visual dos dois primeiros e cultuados LPs. Também não se falou da banda maioral Sabor de Veneno, extensa e intensa, e evitou-se decifrar os códigos eruditos de sua obra, influenciada por Béla Bartók, Igor Stravinsky e Arnold Schöenberg.

Os assuntos que correram pela sala ampla foram algumas de suas memórias mais remotas em Londrina, onde nasceu em 14 de setembro de 1951, e o seu pensamento vivo: a paixão pelas séries audiovisuais, o seu trabalho como ator e suas referências, a dureza na vida e nos campos de futebol pouco afeitos ao seu talento, os mistérios da existência, a relação com a Censura, o cinema da Boca do Lixo e a atração pelo universo dor-de-cotovelo e desesperançoso de Lupicínio Rodrigues.

Apaixonado pelo ritmo e pela dissonância como “ferramenta de agressão”, Arrigo Barnabé é um dínamo, não pára de produzir: lançou um livro de memórias e reflexões (O fim da infância, 2019), participou de mais filmes, fez discos, shows e foi tema de dois documentários (Amigo Arrigo, de Alain Fresnoit, e Homem crocodilo, de Rodrigo Grota), como também assoprou em 2024 vinte velinhas para o seu programa Supertônica, na Rádio Cultura FM. Mas, todo esse gás não é somente para quitar seus boletos, manter-se em forma e honrar o nome na praça; é, sim, seu antídoto para lidar com as surpresas da vida e os grilos na cuca. E, como “quem cala consente”, Arrigo não se cala, cria. Afinal, invenção sempre foi o seu negócio.

Ficha corrida

Entrevistado
Arrigo Barnabé
Nascimento
14/set/1951, Londrina/PR
Ofício
Compositor, intérprete, pianista e ator
Entrevistadores
Max Eluard e Ricardo Tacioli
Fotos
Jefferson Dias
Texto de abertura
Ricardo Tacioli
Data e local
26 de outubro de 2011, na residência de Arrigo Barnabé, São Paulo/SP
Arrigo Barnabé e Gafieiras, por Jefferson Dias
Arrigo Barnabé e Ricardo Tacioli no sofá, Max Eluard junto à câmera e Pedro Nakano ao computador. (Crédito: Jefferson Dias/Gafieiras)

Sumário

Ouça um trecho da entrevista

Arrigo Barnabé
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(enquanto a equipe ajusta o equipamento)

(…)

Arrigo Barnabé — Esse é um roteiro da Ana Carolina. Vocês manjam?

Max Eluard — Sim. Das tripas coração, né? (n.e. Diretora, roteirista e produtora, Ana Carolina, 1943, é reconhecida pela trilogia sobre a condição feminina: ‘Mar de rosas’, 1977, ‘Das tripas coração’, 1982, e ‘Sonho de valsa’, 1987)

Arrigo — Eu vou fazer um papel.
Max Eluard — Que massa.

Arrigo — Vou fazer um pirata. (risos) É pequenininho, mas é interessante, bem bacana. Filmo domingo agora.

Ricardo Tacioli — Em São Paulo?

Arrigo — É!

(…)

Max Eluard — Bom, aqui está tudo certo.

Arrigo Barnabé — Toda hora vem alguém aqui (me entrevistar).

Ricardo Tacioli — É?

Arrigo Barnabé — Sei lá, quase uma por mês, fazer entrevista contigo. Tese, TCC… Bicho, é um negócio impressionante! Gente que está fazendo filme ou documentário. Outro dia veio um pessoal de Santa Catarina que está fazendo (um filme) sobre o Rogério Sganzella. (n.e. Cineasta, roteirista e produtor catarinense, 1946–2004, diretor de ‘O bandido da luz vermelha’, de 1968, e ‘Nem tudo é verdade’, de 1986, em que Arrigo interpreta o diretor e ator Orson Welles)

Tacioli — E é bacana ter essa troca, das pessoas virem aqui falar contigo? Às vezes, a insistência em um assunto deve cansar, né? Mas, pelo que você está me dizendo, são assuntos diversos, né?

Arrigo — Isso faz parte, não é um negócio que você não pensa se…

Tacioli — Se doi ou não.

Arrigo — Não, isso faz parte, é do ofício.

Tacioli — Beleza?

Max Eluard — Aqui tudo certo!

Arrigo — Não dá pra ter frescura, não dá pra ter frescura! (risos)

Ricardo Tacioli — Arrigo, a TV está no centro da sala. O que você gosta de assistir?

Arrigo — Eu gosto de assistir à essas séries americanas: Seinfeld eu acho muito legal. E como não assisti a tudo ainda, volta e meia passa algum que eu não vi. Gosto de assistir também ao Two and a half men, se bem que ele é meio esquemático, mas é interessante, é legal. Eu tô curtindo muito The good wife. Acho muito legal!

Tacioli — O que tem de legal?

Arrigo — Muito bem montado, o roteiro muito bem feito. Os caras atuam muito bem. A atuação é muito boa. A mãe do promotor público é uma ótima atriz e a menina, a good wife, é muito boa atriz também. Ela trabalhou nos Sopranos. Sopranos é um espetáculo; eu vi, comprei, porque eu não assisti na época em que passou na TV. Eu não me liguei e não assisti. Mas daí comecei a assistir lá nos Estados Unidos; em 2008 fui fazer uma residência lá e eles tinham os DVDs; comecei a assistir e fiquei impressionado. O que é aquilo, né? Assisti às duas primeiras temporadas lá; e quando (voltei), eu comprei tudo. E é muito bom Sopranos. Nossa Senhora! Depois eu assisti também à À sete palmos. Sabe qual é esse?

Tacioli — Eu não sei.

Arrigo — Ah, esse é muito interessante. Sabe qual é?

Max Eluard — Sei!

Arrigo — São os caras que têm uma funerária e o pai morre. Então ficam a mãe e os três filhos. A menina que vira artista plástica; então é muito interessante ela na faculdade, trabalhando com artes plásticas e tal e, de repente, faz umas fotos e ganha muito dinheiro, fica meio célebre, mas depois desaparece. O irmão gay, que é o cara que faz o Dexter, que tem um namorado negro. (n.e. O ator Michael C. Hall, que também interpreta o personagem Dexter Gordon na série ‘Dexter’, 2006–2013) E um outro, o irmão mais velho, que é um cara que não quer saber da funerária e tal, se envolve com uma menina que tem um irmão que é bipolar e que surta, entendeu? É muito interessante! Pô, é muito bem feito. Os roteiros são espetaculares! Os americanos fazem roteiro muito bem. Nossa, acho muito bom!

Max Eluard — Eu vi uma série, acho que ainda não estreou no Brasil, mas muito interessante, Treatment, com Gabriel Byrne, sabe? Ele é um psicanalista e cada episódio é uma sessão de análise com um paciente diferente. (n.e. ‘In Treatment’, série da HBO lançada em 2008; no Brasil, ganhou em 2012 versão dirigida por Selton Mello e intitulada ‘Sessão de terapia’)

Arrigo — Ah, eu ouvi falar disso!

Max Eluard — O mais genial da série é sua estrutura, porque cada paciente é um dia, é um episódio. Então, dura toda a semana, e se você assiste (somente) à segunda, você vai ver um cara; se você assiste a (outra) segunda, você vai ver a segunda sessão dele. E a série é assim: terça é outro cara, quarta é outro cara, quinta é outra pessoa, e na sexta é ele (o psicanalista) fazendo análise.

Arrigo — Ah, bacana!

Max Eluard — Essa estrutura é genial, muito simples: você faz seguindo um personagem, né? Vou ver somente às quintas, vou ver somente como é o caso daquele cara.

Arrigo — Como chama?

Max Eluard — Treatment.

Arrigo — Eu tinha ouvido falar, mas faz tempo, há um ano.

Max Eluard — Acho que está na segunda ou terceira temporada nos Estados Unidos, mas nem saiu ainda aqui.

Arrigo — É muito legal.

Saca só o estilo do Raul em show no Festival Internacional de Jazz de São Paulo, em 1977. (Crédito: Reprodução)

Tacioli — Mas a TV te consome, consome o tempo do seu dia, Arrigo? Você dedica um tempo pra TV pra essas coisas que você gosta?

Arrigo — À noite, depois do jantar ou, às vezes, eu janto vendo TV.

Max Eluard — Mas qual é a função dela no seu cotidiano?

Arrigo — Ah, eu, minha mulher e minha filha, a gente senta e assiste à televisão por duas horas e meia.

Max Eluard — Como entretenimento mesmo, não como um olhar crítico ou buscando novidades?

Arrigo — Não, a minha mulher fez cinema, né? Ela é psicanalista, mas se formou em Cinema. Antes de fazer Psicologia, ela fez a faculdade de Cinema, trabalhou em alguns filmes. Então, ela olha com outro olhar. E eu também trabalhei em cinema… Então você tá sempre olhando de outra maneira.

Max Eluard — Não se aparta desse olhar.

Arrigo — Eu vejo muito como os caras atuam. Eu olho muito a atuação, quando o cara é ruim, você vê quando não está atuando bem. Olha o corte, “que corte estranho!”. Então tem um olhar um pouco técnico. Agora, tem umas coisas que são muito engraçadas, né? Seinfield é muito engraçado. Friends tem umas coisas legais. O Frasier é uma série muito bacana. São dois irmãos psicólogos, e um tem um programa de rádio, em que ele responde perguntas e faz aconselhamento ao vivo. Muito legal!

Max Eluard — Quem está no seu rol de grandes atores?

Arrigo — Puta, Jack Lemmon é um puta ator, acho ele demais! Vittorio Gassman, Henry Fonda… Tem uns atores brasileiros espetaculares: Lima Duarte, Nelson Xavier… Tem atores brasileiros muito bons!

Tacioli — Mas o que mais te chama a atenção?

Max Eluard — Mais ou menos por aí… Pensando nos atores brasileiros, tem um tipo de atuação que você gosta? De um tempo pra cá, a gente quase embarcou numa ditadura do hiper-realismo, de uma escola de atuação em que finge que não está atuando. Tem algum jeito de atuar que você gosta mais?

Arrigo — Olha, eu acho mais legal uma coisa de você viver o momento… Um negócio que mudou completamente a minha visão de atuação foi o que eu li do (ator e diretor) Paulo José falando. “Ator quer construir personagem? Ator faz! Ator tem que fazer, não tem que construir nada, sabe? O cara tem que fazer!” E aí eu me lembrei de quando atuei pela primeira vez com o Sganzerla, em Nem tudo é verdade, em que eu falava: “Sganzerla, o que você quer?” “Não, faz aí!” E eu fazia os negócios… E ele falava: “Tá muito bom!”. “Mas tá bom isso? Eu não pensei em nada!” (risos) Eu falava, “Não, tá legal, né?”. E a (atriz) Helena Ignez: “Arrigo, tá muito bom!”, e eu ficava com aquele negócio… Faço uma coisa natural, que vem da minha atuação no palco com música. Eu tive algumas experiências, morei com atores, então tive contato com esse universo. Eu fazia um negócio muito ligado à performance, ligado a esse tipo de coisa. E quando vi o Paulo José falando, falei “Por isso que o Sganzerla gostava daquilo que eu fazia!”. Eu fazia, você tem que fazer, o ator faz, porque você não vai representar. Depois eu fiz teatro também, fiz uma peça com o Hamilton Vaz Pereira (n.e. Dramaturgo, ator, diretor e compositor carioca, 1951, foi o líder do grupo teatral Asdrubal Trouxe o Trombone) Acho que fizemos umas 40 récitas e foi super legal também. O teatro é muito gostoso, porque cada vez você instaura o tempo. E quando você está fazendo cinema, você também instaura o tempo. Você começa um tempo ali.

Max Eluard — E o mundo, né?

Arrigo — É, como se fosse uma nova vida, né? É muito, muito legal.

Tacioli — E o pirata que você vai fazer agora também é isso? (n.e. Arrigo participou do filme ‘A primeira missa ou Triste tropeços, enganos e urucum’, da diretora Ana Carolina, lançado em 2014 e baseado no quadro A primeira missa no Brasil, de Victor Meireles, 1832–1903)

Arrigo — Ah, o pirata eu não sei. É um pirata em inglês, tenho que falar em inglês (ri), então vamos ver como é que vai ficar.

Tacioli — Então, se é “pega e faz”, não tem um pirata-referência?

Arrigo — Não, esse pirata da Ana Carolina fala o “Ultimatum”, do Fernando Pessoa, do Álvaro de Campos, em inglês. Então é um texto… Eu tenho que ainda dar uma estudada nele, pegar um sotaque. Eu falei: “Olha, eu falo inglês, mas ninguém vai achar que eu sou inglês!” (risos) “Não, tudo bem!” O filme todo é a primeira missa. Bem interessante! São os caras fazendo a primeira missa e entra uma equipe de filmagem, mas é tudo em estúdio, meio Dogville, sabe? Acho que vai ser legal. (n.e. Longa-metragem de Lars Von Trier lançado em 2003, com Nicole Kidman e Paul Bettany, ‘Dogville’ tem como cenário a planta baixa de uma casa desenhado no chão do estúdio de gravação)

Nunca ganhei dinheiro com o meu trabalho!

Max Eluard — Só pra terminar a questão da atuação: você já estudou, Arrigo? Ou era somente o processo de ensaio para uma peça ou um filme específico?

Arrigo — Não, nunca estudei.

Max Eluard — Nem teve um mestre?

Arrigo — Não, nunca. Eu me lembro da minha mãe declamando. Minha mãe declamava muito bem quando a gente era pequeno, em Londrina. Não tinha televisão, então a gente tinha uma atividade muito mais familiar. Minha mãe declamava bastante pra gente; ela era muito expressiva. E a gente fazia teatro em casa. A gente tinha uma coleção de livros infantis, em que um dos livros era teatro infantil, com um monte de pecinha. A gente montava — eu, meus irmãos, meus primos — e apresentava pros adultos.

Max Eluard — O que ela costumava declamar?

Arrigo — Ah, minha mãe declamava essas coisas que eram meio chavões dos anos 30, 40. “Deus”, do Olavo Bilac, né? Casimiro de Abreu, eu acho que aquela “Oh! Que saudades que eu tenho da aurora da minha vida / Da minha infância querida”, né? (n.e. O poema “Meus oito anos”, lançado em 1859 no livro ‘Primavera’, do poeta carioca Casimiro de Abreu, 1839–1860, pertencente à segunda geração do Romantismo brasileiro) Declamava um poema muito interessante, que era super bom, que era a história de um saltimbanco. Os caras roubam a filha de um cara do circo, que diz: “Corri a Espanha e a França, corri a Itália também à procura da criança, esperança estremecida!”, um negócio assim. É um poema lindo! E ele encontra. No fim, ele está num júri sendo acusado porque ele matou o saltimbanco. Aí ele conta a história que, quando viu a filha, depois não sei quanto tempo, reconheceu por um sinal carmesim que ela tinha: ela fazendo piruetas na corda bamba. Aí o cara (encenando com a voz grave): “O crânio lhe esmigalhei!”. E pergunta para o júri: “Eu sou réu, pode me condenar!”. Aí o juiz, o júri responde e o inocenta. Bem interessante!

Max Eluard — É uma narrativa em forma de verso.

Arrigo — É uma narrativa.

Tacioli — Isso com quantos anos, Arrigo?

Arrigo — Ah, eu lembro disso desde pequeno.

Max Eluard — A sua primeira memória da infância é mais de atuação do que musical.

Arrigo — Muito mais.

Tacioli — E dessas peças que vocês armavam em casa, teve alguma que foi um sucesso doméstico?

Arrigo — Não, a gente fazia A cigarra e a formiga, fazia essas coisas (ri), umas outras pecinhas lá. Depois, no ginásio, tinham sessões no Grêmio, e a gente tocava, né? A gente tinha um grupinho de teatro e montamos algumas peças. A gente escrevia a peça. Eu tinha um livro do Ibsen em casa, era segundo ano do ginásio, e a gente pegava somente o nome dos personagens e inventava a história. (ri) Fizemos a morte de Júlio César, o assassino das luvas negras. A gente escrevia a peça e representava. (n.e. O norueguês Henrik Johan Ibsen, 1828–1906, um dos criadores do teatro realista moderno)

Tacioli — A morte está em vários momentos: do assassino, da morte (do Júlio César)…

Arrigo — Ah, sim, é mesmo! É menino, né, cara? Bangue-bangue! (risos) Eu estudava em um colégio masculino e não tinha convivência com meninas, era uma coisa bem masculina, então era uma coisa de ação mesmo (ri). Tinha bastante ação!

Raulzinho & Impacto 8: (e/d) Betinho, Bill Vogel, Romildo, Raul de Souza, Oberdan Magalhães, Robertinho Silva, Fredera e Hélio Celso. (Crédito: Facebook Raul de Souza)

Tacioli — E você falou que não tinha TV em casa. Quando ela chegou, qual foi a sua impressão?

Arrigo — Acho que a TV chegou em Londrina em 64, mas era assim: passava uma hora por dia. Aí começou a passar duas horas por dia de televisão. Então vinham uns videotapes, vinha o Peter Gunn, o Thin Man. Eu tinha uns 13 anos. Aí meu pai comprou televisão depois que começou a ter uma programação mais ou menos normal. Eu me lembro quando começou a passar o Bonanza, aos domingos.

Max Eluard — Reprisa agora.

Arrigo — E o Peter Gunn que não passa! O Peter Gunn era bem interessante, com trilha ótima do Henry Mancini. Era segunda-feira o Peter Gunn, terça-feira era The Thin Man, o Homem-Sombra, quarta-feira o Mr. Lucky, quinta-feira o Impacto, não, quarta-feira era o Fugitivo. Sexta-feira era o Impacto, com Boris Karloff. Sábado passava Rota 66, que era um filme road movie, né? E domingo, Bonanza. Então, a quinta-feira era Os Intocáveis. Você vê como isso passou durante um tempo, eu (até) guardei a programação! (risos) E a gente não perdia! Era o máximo!

Tacioli — (A TV) chegou quando você era pré-adolescente…

Arrigo — É, já era adolescente, estava com 13, 14 anos. Quando começou a ter programação mesmo eu tinha 13 pra 14. Então, a gente ia muito ao cinema; teatro a gente não via porque não tinha em Londrina.

Tacioli — Qual era o tamanho de Londrina nessa época?

Arrigo — Tinha uns 200 mil habitantes. Não era uma cidade pequena, mas não era grande. Eu andava a pé pra todo lado.

Tacioli — E a geografia de onde você morava, como era? Como era a sua casa? Onde ficava?

Arrigo — Em Londrina todas as casas tinham quintal. Casa geminada só vim ver em São Paulo. Isso não existia. Tinha espaço, sabe? A gente jogava bola no quintal. E todas as casas tinham quintal. Era um pouco recuada na frente, dos lados. Tinha varanda atrás, a gente almoçava na varanda, que dava pro quintal, com um gramado verde, tinha um pé de lima da Pérsia, um pé de ameixa, um pé de limão rosa, mamoeiros… Então, era bem legal, era bem legal mesmo! Hoje em dia é tudo prédio; a casa onde eu morava é prédio. A cidade está com quase 600 mil habitantes, ficou muito grande.

Tacioli — Qual era o bairro?

Arrigo — Eu morava no centro.

Tacioli — Centro?

Arrigo — É, acho que é centro, na Rua Paranaguá, quase esquina com a Sergipe. Acho que é o centro hoje.

Tacioli — Como era a formação familiar, quem morava nessa casa com quintal?

Arrigo — Eu, meus dois irmãos, o Marcos e o Paulo, meu pai e minha mãe.

Tacioli — Seu pai e sua mãe… o que cada um fazia?

Arrigo — Meu pai é escrivão. E minha mãe, ela ficava em casa, cuidava dos filhos, arrumava a casa. Do lar, como se chamava antigamente. Meu pai trabalhava como escrivão do cartório da Segunda Vara Cível e Comércio. Nas férias eu trabalhava com ele. Eu registrava sentença. O processo passava todo no cartório, né? O cara entrava com o processo no cartório e ali dava o seguimento: do cartório era mandado para o juiz, o juiz mandava devolver para o cartório, mandava o Oficial de Justiça fazer alguma coisa. A gente mandava dar vista às partes, né? Então, os advogados vinham e pegavam o processo. Eu tinha um fichário em que eu dava baixa; o advogado pedia ver o processo, você entregava pra ele, anotava no fichário e tal. Então, eu fazia essas coisas, trabalhei com isso.

Tacioli — Esse foi o primeiro emprego?

Arrigo — Foi o primeiro emprego. Foi assim que eu consegui comprar o meu primeiro LP, o Jovem Guarda, que o Roberto Carlos cantava “Quero que tudo vá pro inferno!”. Eu me lembro que fiquei em dúvida: tinha o Dois na bossa — Número um, com a Elis Regina e o Jair Rodrigues. A Elis cantando o “Arrastão”, que era maravilhoso. Mas “Quero que tudo vá pro inferno” era um negócio irresistível. Irresistível! Eu tinha 14, 15 anos e ainda dançava nos bailinhos. Era demais! Trabalhando no Fórum que eu fiz isso.

Tacioli — E esse disco foi bem aceito em casa? Você chegou lá com o Jovem Guarda.

Arrigo — Não tinha problema, não tinha problema nenhum.

Tacioli — Mas você queria ser o Roberto Carlos? Tinha esses sonhos?

Arrigo — Não, na realidade eu queria ser inventor, queria trabalhar na área de invenção.

Max Eluard — Cientista? Tipo Professor Pardal?

Arrigo — Cientista.

Tacioli — Departamento de invenção!

Arrigo — Eu queria fazer isso (ri). Eu queria trabalhar com invenção, queria fazer um avião, inventar um outro carro, inventar coisas! Meu tesão era esse, era o que eu gostava. E como eu achava que isso aí era química, então eu queria fazer Química, fazer Engenharia Química. Depois eu descobri que Engenharia Química não fazia isso, era uma outra coisa, um negócio mais chato, bem mais chato. E aí acabei desistindo da Química. Nessa época eu me lembro que pensei em fazer Arqueologia, Paleontologia eu pensei também, que era uma coisa que me interessava.

Tacioli — Mas que não tem muita coisa de invenção, né?

Arrigo — Não, aí é mais aventura! Na minha cabeça é mais aventura. (risos)

Tacioli — Mas teve alguma invenção digna de nota?

Arrigo — Não.

Tacioli — Você nunca inventou nada?

Arrigo — Não, nada, a gente fazia uns foguetinhos. Nada, nada! Eu tinha um laboratório com um amigo meu japonês, o Mário Nakatsukasa. Ele morava em frente à minha casa. A casa dele era uma de madeira, se não me engano lá (em Londrina) tinha muitas casas assim, eles não pintavam a madeira, era madeira aparente, era a tábua com mata-junta. A minha casa também era de madeira. Quase todas as casas eram de madeira. E o Mário morava recuado, afastado, então era um terreno grande e eles plantavam mandioca nesse terreno, sabe? Mas, muitas vezes não plantavam e o terreno ficava vazio. Era terra, uma coisa meio japonesa mesmo. Era bonita aquela coisa, só terra… Aí tinha uma passarela de cimento que ia até a varanda da casa. A mãe dele era costureira e o pai era mecânico, trabalhava na retificadora. Eles tinham um galinheiro que foi desativado. Então, eu e o Mário fizemos um laboratório nesse galinheiro. Mas deu tanto trabalho limpar as prateleiras de bosta de galinha, cara! Limpamos tudo aquilo, raspamos e lavamos, e fizemos um laboratório. Ali era o maior barato: era o nosso laboratório, era o máximo! A gente ficava lá fazendo coisas!

Tacioli — Tem alguma história?

Arrigo — O Mário fez Primeira Comunhão comigo. Eu lembro que uma vez a gente pegou uma mosca, cortamos, jogamos amoníaco, coitadinha, meu Deus do céu!

Max Eluard — Ainda bem que era uma mosca, não um passarinho!

Arrigo — A gente vivia comprando enxofre, salitre. A gente misturava enxofre, salitre e carvão para fazer pólvora, mas nunca conseguia, né? (risos) Enxofre queima lentamente, misturado com salitre dá uma combustão bonita. A gente comprava também cloro. Algumas coisas a gente conseguia ter algum acesso, sabe? Uma vez um tubo de ensaio explodiu na minha cara, mas nunca aconteceu nada demais.

Tacioli — Com casa de madeira também era perfeito pra tudo isso.

Arrigo — Ah, não, a gente era criança, né? Dez anos! E era tudo com muito espaço, não era um negócio apertado, sabe?

Tacioli — E que rumo tomou o Mário?

Arrigo — O Mário era mais velho que eu, quando a gente ficou amigo, a gente ainda convivia porque ele era mais velho que eu, mas a partir de uma idade tem uma separação muito grande, vocês sabem disso: o cara é um ano mais novo e você já não fala com ele.

Max Eluard — Na adolescência, né?

Arrigo — É.

Max Eluard — Você nunca vai falar com um moleque de 13 (anos), né?

Arrigo — É, fica uma coisa distante. Aí a gente se afastou, mas ele montou um conjunto chamado The Black Scorpions. Eu lembro disso! Eles tinham umas roupas que a mãe do Mário fazia, se não me engano: tinha um escorpião negro aqui atrás, negro com escorpião branco ou branco com escorpião negro. Eram quatro músicos: um deles estudava acordeão no meu conservatório, onde eu estudava piano. O Mário tocava bateria. Outro dia no Facebook eu fiquei sabendo desse cara que tocava acordeão, o Berini, acho que é o nome dele. Berrine, Bertini… Eu não me lembro. Ele é músico profissional hoje. O Mário eu não sei. Tentei achá-lo no Facebook, mas não achei. Não sei o que foi feito, se ele ainda está vivo.

O trombonista Raul de Souza. (Crédito: Silvio Aurichio)

Tacioli — Como foi sua formação religiosa?

Arrigo — Eu era bem católico, bem religioso. Minha mãe era espírita e a gente foi criado dentro do catolicismo. Meu pai era católico e minha mãe era ligada em religião, conhecia muito bem a Bíblia, que era uma coisa que os católicos não conheciam. O católico não conhece a Bíblia! É incrível! (ri) O católico não conhece a Bíblia! Você tem que conversar com um protestante para encontrar gente que conhece a Bíblia. E minha mãe conhecia. Eu lembro de os mórmons irem em casa, pedirem pra entrar e conversar com a família, e também de minha mãe discutindo com eles. Ela conhecia a Bíblia, argumentava e tal. Depois ela foi Rosacruz. Então, nesse período, a gente já estava conhecendo as coisas do misticismo oriental, eu estava entrando em contato com a yoga, com budismo. Já se conhecia a vida do Buda, né, tinham muitos japoneses em Londrina, então, tinham as igrejas japonesas, xintoístas. Você ia ao cemitério e os japoneses faziam uma cerimônia de enterro diferente. Então, você tomava contato com outras religiões. A minha professora de piano era batista. O conservatório onde eu estudei era batista. Eu convivia com os protestantes, namorava uma das meninas presbiterianas, e os caras eram muito bons em música, muito bons, muito melhores que os católicos. Eu assistia ao culto presbiteriano e batista, tinha amigos batistas, luteranos, então eu assistia (aos cultos), achava interessante aquilo… Lembro de ter ido uma vez, em um fim de semana, a um acampamento dos Presbíteros Independentes e um pastor foi conversar com a gente. Eu era católico, mas por causa da minha mãe eu conhecia a Bíblia, então eu tive uma formação bem ligada em religião mesmo, sabe? (Sou) muito preocupado com religião.

Tacioli — Você teve alguma experiência mística ou ligada à religião que te marcou? Digo isso com relação ao divino, algo como “Deus me ajudou aqui”… Como você lidava com a “burocracia religiosa”?

Arrigo — Não, nunca dessa forma. É um negócio muito mais filosófico, muito mais como uma coisa pra você tentar entender e tentar estabelecer parâmetros de coerência, entendeu?

Max Eluard — Essa relação com a religião como evoluiu, Arrigo, para onde foi?

Arrigo — Eu sou muito interessado em religião. Tanto que no Supertônica a gente já fez (entrevistas com) vários religiosos, de várias religiões diferentes. Acho o maior barato! Eu comecei a conhecer a Yoga por meio de um amigo meu, Beto Herrero, que foi o cara que me falou do Kafka também. E ele me deu o livro 14 lições de filosofia Yogue, de Yogue Ramacharaca. Aí eu comecei a ler aquilo e foi demais! Comecei a conhecer essas coisas e a ver que o catolicismo não me respondia.

Max Eluard — Deixava lacunas.

Arrigo — Nesse período eu conheci um cara que se chama Thomas Merton. É um escritor, um padre. Sister silence, se não me engano, desses que fazem voto de silêncio. Outro livro dele é Montanha dos sete patamares. Eu tinha uns 18 anos quando comecei a ler esse livro e não terminei porque era um livro que estava na biblioteca do Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos, então tive que devolver e voltar para estudar em Curitiba. Acho que estava fazendo cursinho em Curitiba. Mas lembro que foi impressionante o pouco que eu li desse livro sobre como ele foi chamado para a vocação religiosa. Ele era escritor meio beatnik. E eu fui me interessando por tudo que era ligado à religião. Nessa época, existia um chamado O despertar dos mágicos, que foi a grande sensação, uma moda. Vocês conhecem esse livro?

Tacioli — Eu não conheço.
Max Eluard — Não.

Arrigo — Do Louis Pauwels e Jacques Bergier. Um livro que falava sobre misticismo, que fala que a suástica é um símbolo tibetano. “E o Hitler trouxe os caras do Tibet; ele tinha aquelas manias místicas, era meio astófico”, então, eles começam a fazer uma reavaliação do misticismo. Esses caras (Louis Pauwels e Jacques Bergier) falam muito do Josué de Castro, que é um geógrafo brasileiro. (n.e. 1908–1973, autor do livro ‘Geografia da fome’, publicado em 1946) Então era uma coisa louca e a gente se interessava por isso e, principalmente, pela ioga. Eu me lembro que li um livro muito interessante do Swami Vivekananda; depois li um livro da Indra Devi. Aí vi uma entrevista do Victor Binot no Pasquim. Ele foi um iogue, um cara que começou Ioga, um precursor depois do Hermógenes. Fiz ioga um tempo, mas já era uma coisa mais hataioga. Então, eu tinha muito interesse na questão da iluminação. Daí eu conheci o Krishnamurti, que o Beto (Herrero) também falou, que é um cara muito interessante. Mas também se você entrar naquilo, você fica num beco sem saída. Mas é muito interessante de qualquer forma, é um cara brilhante, espetacular. E aí eu conheci o Sufis, e continuo a ter interesse até hoje. Às vezes eu vou à missa, entende? Tento entender o catolicismo do ponto de vista do Thomas Merton, da experiência mística. Então, se eu tive alguma experiência, talvez (tenha sido) quando fiz a Primeira Comunhão, (quando) eu estava tão imbuído daquele primeiro contato com o divino que talvez tenha sido uma coisa especial! Eu não senti nada diferente, mas foi um momento bem marcante.

Tacioli — Era nesse sentido também que eu dizia. Também tenho uma formação católica e o que me marcou foi ter sido São José numa procissão, com o menino Jesus e a Maria. (risos)

Arrigo — No Corpus Christi, em junho?

Tacioli — Deve ter sido.

Arrigo — Eles fazem aqueles tapetes de flores no chão?

Tacioli — Isso não tinha, mas essa foi uma experiência que me marcou por toda a cena que tinha. Você teve algum momento como esse ou como coroinha, por exemplo?

Arrigo — Não, não fui coroinha. Meu irmão mais novo foi coroinha, o Paulinho, e eu fui cruzado, só. Era mais essa essa questão do mistério, é o que você intui.

Tacioli — O mistério para você é um departamento importante, né, porque a teologia, a paleontologia, as invenções…

Arrigo — E você existir é um mistério, né? É um mistério existir.

Tacioli — E essa equação hoje está melhor resolvida do que anos atrás, o existir?

Arrigo — É claro, está melhor resolvida, mas é tudo difícil, porque junto com isso vem a vida profana. (ri) E a vida profana é complicada.

Tacioli — É mais complicada que essa outra.

Arrigo — É, conciliar as duas coisas, os dois lados…

Tacioli — Arrigo, (falando) ainda dessa fase de 1951 a 70. Quando você nasceu, o Brasil ainda não era campeão mundial de futebol. Você se lembra do impacto da conquista do primeir título?

Arrigo — Eu lembro bem, cara. Eu tinha sete anos ou quase sete anos. Meu pai era fanático por futebol. E os nomes dos jogadores eram nomes muito infantis, muitos com uma vogal só, como o Vavá, uma consoante e uma vogal. Vavá, Didi. Era quase uma onomatopeia. Didi, Pelé, Zito, Zagalo, Garrincha, Pepe.

Max Eluard — Era uma onomatopeia.

Arrigo — É. E você escutava aquilo no rádio. Meu pai ficou super feliz (com a conquista)! Meu pai chegou a jogar e ele me deu um rojão. Lembro da porta da cozinha da casa da minha avó, da mãe do meu pai, eu segurando o rojão assim e ele colocando fogo e quando começou “shhhhhhhhhh”, eu joguei no chão. (risos) Fiquei com medo, não consegui soltar o rojão. Meu pai comprou o disco da Copa do Mundo de 58: (canta) “Aleguá, guá, guá / Urra, urra / Brasil / Verde, amarelo, cor de anil / São as cores do Brasil”. Tinha todos os jogos narrados no disco e tinha as fotografias dos jogadores. Tinha três dos Santos: o Zito, o Pepe e o Pelé.

Max Eluard — Você já tinha optado pelo Santos?

Arrigo — Já era santista.

Max Eluard — Teve um momento em que você balançou pela Portuguesa?

Arrigo — Não, isso foi quando meu pai me mostrou o time para eu escolher. E eu vendo dois jogadores no brinquedinho: um jogador era negro, vestido de vermelho e verde, é um puta negócio vivo, né? O outro era um cara branco, mas um branco quase enjoativo, com camisa branca, calção branco e meia branca. Eu não achei a menor graça naquilo. Eu ia torcer para a Portuguesa , mas aí eu perguntei o nome (dos times). “Como é que chama?” “Essa aqui é Portuguesa!” Eu gostei do nome Portuguesa, achei muito simpático. Talvez porque é um nome feminino, não sei. “E esse outro?” “Esse é o Santos!” “Ah, Santos porque tem muito santo no time?!” Eu nem sabia que tinha uma cidade chamada Santos. Aí meu pai falou: “É, porque tem muito santo”. Eu achei engraçado. Meu pai queria (que eu torcesse) para um daqueles times, porque o Santos e a Portuguesa estavam super bem, tanto que, se eu não me engano, nesse ano, 1956, 57, eles disputaram a final do campeonato. O meu irmão mais velho torcia pro Corinthians. Ele começou a torcer pro Corinthians porque foi o campeão do Quarto Centenário, em 1954. Meu pai era palmeirense. E o meu irmão mais novo é Fluminense. Meu pai adorava o Fluminense também. E aí ele mudou, meu pai virou santista, era época do Pelé, “Não, agora torço pro Santos!” (ri). Ele desistiu do Palmeiras. Ele gostava muito de futebol. Acho legal isso, não tinha um negócio como tem hoje, do cara obrigar o filho a torcer pelo time dele. Você escolhia o time, sabe? Era um negócio lúdico.

Tacioli — E seu pai jogou, então?

Arrigo — Meu pai jogou. Ele jogou contra o Tim. Sabe o Tim, que foi técnico? Acho que foi técnico do São Paulo. O Tim do Fluminense. Meu pai jogou contra o time do Fluminense que tinha o Tim. (n.e. O atacante paulista Elba de Pádua Lima, o Tim, 1916–1984, foi um dos ídolos do Fluminense, e como técnico considerado um dos grandes estrategistas do futebol brasileiro da época) Os padres salesianos de Campinas, onde meu pai estudava, estavam com esse time, que era muito bom. No segundo ano do colégio, no colegial acho — era Científico, como se chamava -, eles trouxeram o Fluminense. Naquela época esses times faziam isso, era uma coisa muito menos profissional. E vieram jogar com (os alunos)… Meu pai fala que eles deram uma canseira nos jogadores, porque eles eram moleques que corriam pra cacete, mas os caras eram muito bons, colocavam a bola onde queriam. Depois meu pai veio pra São Paulo, ele treinou, se eu não me engano, no Palmeiras. Ele podia ter feito carreira, dizem que era muito bom. Ele era meio-armador, jogava na ponta-esquerda, na ponta-direita. Aí o pai dele foi para o Paraná com a família toda, e lá ele chegou a jogar. Aí as pessoas diziam que ele era o melhor jogador da região, no norte do Paraná. Os filhos, tudo grosso, mas grosso! (ri)

Tacioli — Você se arriscou, Arrigo?

Arrigo — Eu jogava. Eu adoro jogar. Sou grosso, mas jogava. Claro que jogava. Porra, jogava bola direto. Eu, meus irmãos, a gente jogava muito, mas éramos grossos. (risos)

Max Eluard — Mas ele chegou a ser profissional?

Arrigo — Meu pai jogou; ele fundou o Londrina, que se chamava Operário! Ele rompeu o menisco; lembro dele chegar em casa gritando, com os caras segurando ele e um colocando a perna no lugar. E minha mãe levando a gente pra longe pra não vê-lo. Ele berrava, era uma coisa assustadora! Ele nunca mais jogou futebol. E aí ele treinou, passou a treinar um monte de time, tanto que nos álbuns de fotografia dele tinha vários times que ele treinava. Ele montou um timinho para a gente. Nos primeiros jogos ele já tirou a gente e nos colocou na reserva.

Tacioli — Qual era o nome do time?

Arrigo — Ypiranga. Meu pai era fã do Ypiranga, um time que foi muito bem aqui em São Paulo durante uns dois ou três campeonatos, no final dos anos 40, começo dos anos 50. Foi um espetáculo! Na Internet vocês devem achar isso. Então, o meu pai falava sempre do Ypiranga, do Ypiranga, do Ypiranga. Então, o time era o Ypiranga. E tinha o Y. E na época tinha um refrigerante chamado Yuki, e o pessoal, pra gozar da gente, dizia que o time era o Yuki. Deu tanto trabalho pra conseguir comprar um jogo de camisas. Eu enchi o saco de tanto advogado lá no cartório com o livro de ouro pra gente conseguir comprar um jogo de camisas. Conseguimos e aí bordamos. Acho que minha mãe bordou os distintivos.

Tacioli — E da fase futebolística, você lembra de alguma grande jogada que você fez ou aquela que não fez, mas planejava?

Arrigo — Não, não lembro. Mas eu lembro que eu cheguei a jogar bem entre os grossos. Entre os grossos eu era bom. (ri) Teve um campeonato de futebol de salão no Colégio Marista. A minha classe tinha um time muito bom, tinha uns caras que eram muito bons: oZampar, o Ivaldir Masi, o Carpo, puta craque, o Jorge Bastos, que dizia que o Carpo era o professor dele de futebol, o Pedro Alli e o Marcos Furtado, meu cunhado, (eu) namorava a irmã dele. O Marcos Furtado jogava no gol, jogava também na linha, jogava bem, pegava bem no gol, era um cearense. O Jorge jogava mais na defesa, o Pedro Ali também, o Carpe e o Zampaio jogavam na frente. O Carpe e o Zampaio eram muito bons. E eu e o Nunes éramos reserva, mas éramos muito esforçados. A gente chegava a entrar, a jogar; ganhei medalha, ganhamos o campeonato. Ganhamos sendo que não éramos os mais velhos. Jogamos contra o time de cara mais velho, do terceiro colegial, entendeu? E ganhamos o campeonato! Então, o nosso time era legal. Isso eu me lembro que foi uma coisa bacana! (…)

Tacioli — Mas quando se tem um pai que é craque, existe um peso…

Arrigo — Mas eu nunca o vi jogar, ele se machucou logo. Às vezes penso, “Talvez tenha sido por isso (que fomos grossos)”, mas éramos grossos e ponto. (risos) Hoje em dia eu jogaria melhor, porque seria muito menos afobado, sabe? Na época tinha muita ansiedade pra jogar, né?

Tacioli — Mas qual era o atributo do Arrigo no campo? A velocidade?

Arrigo — Eu jogava bem na frente e via o jogo. Eu conseguia ver o jogo.

Tacioli — Não do banco, mas do campo.

Arrigo — Não, eu conseguia ver o jogo. Ver, ver, ver, distribuição, sabe? Eu conseguia ver o jogo. Eu conseguia pensar o jogo, mas eu era ruim. (ri) Eu tinha que me sentir à vontade no campo pra conseguir jogar bem, entendeu?

Tacioli — Isso serve pras outras áreas da vida? Você tem que sentir à vontade?

Arrigo — É, claro. Isso também tem um pouco a ver com você entrando no palco, né?

Tacioli — E aí, como é a sua rotina hoje?

Arrigo — (respira fundo) Eu acordo muito cedo, cinco horas da manhã, quero dizer, quatro. Agora eu tô acordando às cinco, né? Hoje acordei à uma da manhã e não consegui dormir mais. Mas normalmente no horário de verão eu acordo às cinco, no outro horário eu acordo às quatro. Nove e meia, dez horas eu já tô dormindo. Às vezes, trabalho de manhã ao computador, compondo ou escrevendo arranjos. Fico na Internet vendo coisas também, vejo minhas correspondências, meus problemas e tal. Ultimamente tenho tocado um pouco de violão de manhã, que não incomoda ninguém, é baixinho. Fazia muito tempo que eu não tocava, muito tempo mesmo, fiquei muito tempo longe do violão. E agora voltei a tocar, meus dedos calejaram, já estão voltando ao normal. E eu componho de manhã, né? Tenho feito algumas coisas ao piano, estudo um pouco. Tem um período em que fico compondo. Fiz três canções no primeiro semestre. Então, eu trabalhava muito de manhã ao piano fazendo essas canções. Faço ginástica, sempre que eu posso vou fazer ginástica, vou pro clube fazer atividade física. Você tem que (fazer exercícios) depois dos 50; fiz 60 agora, (então), nem fale! Você tem que fazer. Então, faço bastante, o máximo que eu posso. Enfim, varia muito, né? Às vezes, tem coisas que eu tenho que fazer. Terça-feira vou sempre pra rádio (fazer o Supertônica), fico o dia todo na rádio. Às vezes, a gente faz aquelas enquetes…

Tacioli — Investigação.

Arrigo — Investigação, eu ia fazer em um dia separado, né? Eu tenho filmado bastante. Esse ano (2011) eu passei um mês em Porto Alegre filmando com o Maurice Capovilla, o Nervos de aço, que é um filme inspirado nas obras do Lupicínio Rodrigues. Eu filmei, fui o protagonista. (ri) Foi bárbaro, foi a maior coincidência! Eu estava fazendo o Caixa de ódio e o pessoal do Canal Brasil estava conversando comigo para eu fazer um DVD. Eles falaram, o Paulinho (Medonça, um dos fundadores do Canal Brasil) me falou, “Olha, o Capô está fazendo um filme chamado Nervos de aço”. Eu falei “Eu quero fazer esse filme! Fala para ele que eu quero fazer esse filme!” Aí o Capô me ligou. “Pô, Capô, venha aqui ver meu show, cara! Tô fazendo show cantando no Lupicínio!” Ele veio, adorou e me convidou pra fazer (o filme). Foi muito legal! E aí o trabalho com ele foi “A gente vai viver aqui. Eu não quero ninguém representando, eu quero vivendo!”. Foi uma experiência muito bacana. Tinha essa coisa que vai ter no filme da Ana, que é o cenário. A gente fez (praticamente o filme todo) num lugar só. A gente ensaiando o show e as cenas rolando, acontecendo as brigas. A minha mulher no filme começa a ter um caso com um dos músicos da banda, e eu tô cantando “Nervos de aço”. Então, foi bem interessante. O filme está todo gravado e já está praticamente montado. Eles estão fazendo tratamento de som agora.

Tacioli — Será lançado em 2012?

Arrigo — É.

Max Eluard — Você fez alguma parte musical no filme ou só atuou?

Arrigo — Eu toquei umas coisas e cantei umas quatro peças. Eu fiz um outro filme no ano passado (2010), em Goiânia, com a Aliyne Fratari, um pouquinho antes de fazer com o Capô, um curta-metragem, em que eu declamava Fernando Pessoa. (n.e. Mañana C’est Carnaval) O que me interessou mesmo foi que eu começava declamando Fernando Pessoa. Então eu achei super interessante isso no roteiro. E também fiz um negócio com Joel Pizzini, Mr. Sganzerla(n.e. Mr. Sganzerla — Os signos da luz, documentário de 2011) E depois que assisti aos Sopranos, eu fiquei muito interessado na atuação, de ver a atuação do Gandolfini e de um músico que atua também ali, um cara que toca com o Bruce Springsteen, que é um dos asseclas dele. (n.e. O ator, cantor e produtor musical Steven Van Zandt é Silvio Dante, conselheiro de Tony Soprano, interpretado por James Galdolfini) Eu fiquei olhando muito a coisa da atuação, porque quando eu estava nos Estados Unidos, eu assistia (às séries) em inglês, eu tinha que forçar o ouvido para entender e não ler a legenda. Aí fiquei muito ligado e comecei a prestar muita atenção na atuação.

Tacioli — Além desse projeto em que você vai atuar como pirata, tem outros no horizonte?

Arrigo — Não, não tem nada.

Max Eluard — Está aceitando roteiros?

Arrigo — Sim, claro! (ri)

Max Eluard — Arrigo, como foi pra você fazer 60 anos e chegar à terceira idade, né? Teoricamente, você já tem direito especial (no transporte).

Arrigo — Já, já usei isso várias vezes, é ótimo! (risos) Olha, eu fui pro Rio no Jardim Botânico e não paguei pra entrar; depois fui lá visitar o Cristo Redentor, levar minha filha pra conhecer, também não paguei. Aqui em São Paulo, fui a uma exposição dos ingleses, dos americanos, ali na Bienal e não paguei. Então, é bacana isso!

Max Eluard — Você tem que apresentar o RG…

Arrigo — É, em alguns lugares eu tenho que apresentar, porque eles não acreditam. Mas, não, 60 anos não têm nada demais, cara! Não quer dizer nada. Você sabe que fez 60 anos porque você tem uma referência. Isso não quer dizer nada!

Max Eluard — Na cabeça, não…

Arrigo — No corpo você sente, sempre sente depois de uma idade, você sente o declínio.

Max Eluard — Acho que depois dos trinta…

Arrigo — Não, não, vige! (risos)

Max Eluard — Você acha que não está bem, mas depois vê como você estava bem, né?

Arrigo — Nossa Senhora, cara!

Tacioli — Com os 30 eu voava, né?

Arrigo — Trinta é uma maravilha; 40 você está ótimo. E depois dos 50 você começa a sentir um pouco, sabe? E depois dos sessenta, não vou dizer, eu acabei de fazer 60 anos.

Tacioli — Quando você fez 60…?

Arrigo — Eu fiz agora, em setembro, dia 14.

Tacioli — Você fez um balanço? Passa esse tipo de coisa?

Arrigo — Não, cara, eu perdi meu irmão mais velho esse ano, sabe? Eu gostava muito dele, (era) muito importante pra mim. Então, essa coisa dos 60 anos não marcou nada; o que marcou pra mim foi essa perda, entende? É um negócio muito difícil, muito difícil.

Tacioli — Mas, Arrigo, em outros momentos da vida não teve um emblema pra você? Ou você viveu como se atua, fazendo, passando?

Arrigo — Não, você sempre acha “Porra, eu tô ficando velho!”. Você sempre acha isso, né? Porra, ainda mais eu que sou meio hipocondríaco. (risos) Você sempre vai achando, mas depois você vê que, “Porra, não tem nada, não tem coisa nenhuma, não tem nada, cara!”. Agora, eu não posso jogar futebol mais. Já há uns 10 anos que eu não posso mais jogar futebol, porque tenho problema de coluna, doem muito as costas. Doem muito, meu! Nervo ciático pega tudo, sabe? Então, já não dá mesmo. Se eu jogar uma partida, eu fico arrebentado. Não tenho condição! Acho que a última vez que eu joguei futebol foi há uns 14, 15 anos. Não, não, faz menos tempo, uns 12 anos, mas eu fico muito dolorido mesmo. Não dá! Você sente esse tipo de coisa. O Chico Buarque tem quase 70 anos e joga futebol, mas ele sempre jogou. O Zé Miguel Wisnik sempre jogou, joga sempre. Tem o Jorge Bastos, amigo meu, que joga sempre.

Max Eluard — O Faro também, Fernando Faro. (n.e. O produtor sergipano criador do programa MPB Especial e Ensaio, 1927–2016, era um apaixonado-praticante do futebol)

Arrigo — O Faro joga ainda. O Nogueira, o Zé Miguel não joga mais.

Max Eluard — Ele tinha uns 70 quando a gente jogou com ele…

Tacioli — O gafieiras tinha um time de futebol e a estreia foi contra o time do Ensaio.

Arrigo — Ah, é?

Tacioli — Perdemos de 12 a 6 e o Faro ainda fez gol.

Arrigo — Mas ele colocou alguns profissionais para jogar ou não?

Tacioli — Então, acho que o mais profissional ali tinha jogado na Itália.

Max Eluard — Ah é, tinha um menino que comia a bola, foi covardia. Enfim, a gente também se arrisca.

Arrigo — Você tem que fazer somente entre grossos. Time de grosso! Grosso contra grosso é uma beleza! (risos)

Max Eluard — É uma beleza, não dá briga!

Arrigo — É! (ri)

Tacioli — Conversando contigo, não se nota a timidez que li em alguns lugares. A timidez é uma característica sua? Foi? Ou está em algum lugar?

Arrigo — Sim, sem dúvida.

Tacioli — Já foi uma barreira?

Arrigo — Nossa Senhora, eu era muito tímido. Extremamente tímido! Quando eu tinha uns 12 anos, eu virei o contrário do tímido, sabem como é que se chama?

Tacioli — O contrário do tímido? O extrovertido?

Arrigo — É, aquele super tímido que fala demais pra compensar a timidez, sabe? Então, eu tive esse mecanismo uma época. Eu era extremamente tímido, Nossa Senhora! Com as meninas…, então, inacreditável, de desmaiar de timidez, de medo! (risos) Era muito difícil. Eu era apaixonado pelas meninas, sempre tive essas minhas paixões e, ao mesmo tempo, era completamente inatingível, tímido de uma maneira absurda.

Max Eluard — De não conseguir falar, né?

Arrigo — É, pra falar uma coisa era um negócio… E na classe os caras me elegeram presidente do Grêmio porque eu ficava vermelho. Eu era bom aluno, era um dos melhores alunos da classe todos os anos do Ginásio, no Colegial não fui tão bom, mas quando me pediam pra falar alguma coisa, eu ficava vermelho. Então, a criança se divertia com isso. Me elegeram presidente do Grêmio porque tinha que ficar na frente e eu ficava vermelho o tempo inteiro.

Tacioli — Era diversão da classe.

Arrigo — Às vezes, eu tocava piano no Grêmio. Cada um tinha que fazer alguma coisa. Eu tocava, meu primo tocava acordeão, a gente montava as peças de teatro. Então, teve uma superação da timidez. Eu me esforcei muito pra ter amigos, pra namorar, pra conseguir superar minhas barreiras de tirar uma menina pra dançar, conversar, sabe? Foi tudo muito difícil!

Tacioli — Mas teve um momento de ruptura, em que você falou “Agora eu entendo como funciona a minha timidez…”?

Arrigo — É, falso, né? Fica aquela coisa falsa, porque você rompe e tal, você fica e tal, mas é tudo mais uma performance, porque por dentro você… Claro, eu sou mais calmo, mais tranquilo, mas tenho uma natureza tímida.

Tacioli — Eu também não sabia que você tem um primo… o Nabor PiresCamargo? (n.e. Nascido em  Indaiatuba/SP em 1902, foi dos mais importantes clarinetistas do país, autor de método amplamente utilizado no ensino do instrumento. Morreu em Mococa/SP em 1996)

Arrigo — Não é primo, é primo da minha avó materna. Minha mulher e minha filha enchem o saco, riem quando eu falo: “Pô, tenho sangue Tupinambá! Eu tenho sangue Tupinambá! Devo ter um pouquinho de sangue negro!” Você vê a foto do Nabor: era escuro. Meu pai, se ele tomasse sol, ele ficava escuro, tipo índio, sabe? Ele não tinha pelo no corpo. Tem um outro irmão dele que também não tinha pelo no corpo. Índio, sabe? Ele ficava bem escuro. Dizem que o avô da mãe do meu pai pegou (sua esposa) no laço, né? (Ele era) um bugre, mas falam que ele era pajé, não-sei-o-quê, mas, enfim, é um sangue forte, o sangue indígena, né? E o Nabor, eu não conheci, mas falavam muito do Nabor. O Nabor toca no Teatro Municipal de São Paulo, (toca) em Londres. O Nabor é grande, mas eu não o conheci, não.

Tacioli — Ele morreu em 1996, né?

Arrigo — É, eu não o conheci, porque era distante. Acho que ele não era primo-irmão, acho que era primo em segundo grau da minha avó. Tenho que conversar com meus parentes em Indaiatuba. Eu tenho a biografia dele aí. Nabor, uma figura. Todo mundo que estuda clarineta e saxofone usa o método dele, uma referência.

Tacioli — Como foi a sua chegada em São Paulo? A sua decisão de vir para cá? E por que São Paulo?

Arrigo — Eu queria ir para o Rio, já que eu ia fazer Engenharia Química, que era uma coisa chata, eu pensei em fazer no Rio, pelo menos ia morar no Rio. E a Escola Nacional de Química, no Rio, era a melhor do Brasil. Eu tinha feito cursinho em Curitiba um ano, e voltei para Londrina, fui fazer exames no Rio e não passei. Se eu fizesse em Curitiba, eu passaria, mas não quis ficar em Curitiba de jeito nenhum, então eu voltei para Londrina. Queria ficar meio ano em Londrina estudando piano. Eu já estava muito interessado em música. E o Marcos, meu irmão mais velho, falou: “Vai para São Paulo, faz um ano de Anglo, não-sei-o-quê”. Meu pai estava convencido a me deixar ficar meio ano em Londrina, mas aí acabei vindo para cá fazer o Anglo, fiz o exame, ganhei uma bolsa parcial. Eu morava numa pensão na Liberdade.

Tacioli — Na Dona Genoveva?

Arrigo — Na Genoveva, é isso. Eu morava na pensão da Genoveva. Milton Hatoum morou lá também. (n.e. Escritor e tradutor manauara, 1952, autor do romance ‘Dois irmãos’, adaptado para TV como minissérie em 2017)

Tacioli — Na mesma época?

Arrigo — Na mesma época! Eu conhecia o Milton aí, a gente era colega de cursinho. Eu lembro que o Milton trouxe uns bombons de cupuaçu, de Manaus. E me deu: “É bom isso aqui?!” Ele falou: “Ah, é muito bom!” Ele tinha umas gírias de Manaus…

Max Eluard — Falar “maninho”…

Arrigo — Maninho, pai d’égua. Lembro que o Milton falava pra mim que queria ser escritor. Ele estava fazendo (cursinho) para Arquitetura e o meu irmão já tinha entrado na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo) e eu sempre pedia para ele desenhar para mim, pedia pra ver as coisas. Eu adorava, né? E ele falou: “Por que você não vai fazer o cursinho para Arquitetura?”. “Eu não sei desenhar, sou péssimo!” “Não, você não precisa saber desenhar. Vai lá, vai lá ver como é que é. Você não paga nada. Vai lá, vai lá, vai lá!” Aí eu fui, né? Aí comecei a fazer umas aulas de desenho com os japoneses ali na Liberdade. Eu achava legal desenhar, mas eu não sabia. Aí comecei a fazer as aulas de Linguagem; o Milton estava fazendo também (para) Arquitetura, estava nas aulas de Linguagem. Aí conheci o Luiz Gê, que também fazia. (n.e. Luiz Geraldo Ferrari Martins, São Paulo, 1951, é ilustrador e professor universitário. É autor das ilustrações das capas e dos encartes dos LPs ‘Clara Crocodilo’ e ‘Tubarões voadores’, de Arrigo Barnabé) Tinha o Massa, o Massacato, que virou meu amigo, e o Antônio Moreira, o Fradinho, que também faziam (para) Arquitetura. E aí comecei a conhecer esses pessoal. Tinha aula com o Pierroni, com o Rondino, com o Villa, com o Silvio, que eram os caras que te mostravam Salvador Dali, “A persistência da memória”, os desenhos do McLaren, um monte de coisa, um puto universo. Eu fiquei encantado com aquilo, quero dizer, eu estava encantado com a parte de artes plásticas na realidade. Fui fazer Arquitetura, mas não tinha a menor noção de projetar, de casa, de nada. Era péssimo!

Tacioli — Isso quando, Arrigo?

Arrigo — 1970. E esse ano foi decisivo pra mim. Eu fiquei fazendo curso de Linguagem e abandonei (o desejo de cursar) Química; meu pai ficou desesperado, eu já tinha um irmão arquiteto. “Dois filhos arquitetos, não-sei-o-quê!” Acho que ele já tinha uma visão que Arquitetura… Aí entrei na Arquitetura; a FAU era o máximo, uma puta escola, Nossa Senhora, espetacular! E era uma escola de formação, uma coisa ampla. Aí, em 1971, fui pro Festival de Verão de Ouro Preto; e eu continuava interessado em música. O Mário Lúcio, em Londrina, era um amigo do meu irmão, que ficou meu amigo, tocava piano muito bem, fazia ITA na época. (n.e. Instituto de Tecnologia de Aeronáutica, localizado em São José dos Campos/SP) Era super inteligente, lia música, tirava tudo de ouvido. A gente conversava muito sobre música. O Mário vinha me falar sempre de alguma coisa: “Você viu que tem uns caras fazendo música eletrônica, Stockhausen?!” Eu lembro que eu falava: “Não tem mulher compositora?!”. Aí ele falou: “Descobri uma compositora, Béla Bartók! Uma mulher, não é, Béla?” Eu falei: “Porra, quem é essa Béla Bartók?”, e fui falar com uma amiga minha pianista, e ela falou que era um homem. Ela falou que ia tocar Bartók e eu fui lá ver e descobri o Béla Bartók; levei o Mário junto. Enfim…

Tacioli — Mas a música neste momento não era uma…

Arrigo — Era uma coisa que eu achava demais e tal, mas nunca achei ia conseguir ser músico. Eu não tinha facilidade, mas tinha a veia de compositor.

Tacioli — Já compunha em Londrina?

Arrigo — Não compunha ainda, não. Já tinha feito algumas coisas de brincadeira em 69 ao violão, mas eu lembro que era uma coisa interessante.

Tacioli — Que tipo de coisa?

Arrigo — Coisa simples, tipo um lunduzinho, assim… Eu fiz ao violão, coisas em cima de arpejos dos acordes, sabe? Eu tinha noção que conseguiria compor e que não seria um bom instrumentista, como não sou, mas seria um bom compositor. Eu sabia que eu ia conseguir compor.

Tacioli — A invenção, né, Arrigo?

Arrigo — A coisa da invenção! Aí fui fazer o Festival de Verão de Ouro Preto: eu, o Fradinho, que é o Antônio Moreira, o Luiz Gê e o Rudy, acho que foi também, um amigo meu da FAU, acho que o Izaías foi também. E ficamos lá fazendo curso; eu fiquei fazendo curso de música, conheci o Smetak, a gente conversava com ele, mostrava seus instrumentos, falava sobre como tinha que ser tocado a música dele e tal, né? Um negócio muito interessante! (n.e. Walter Smetak, 1913–1984, violoncelista, pesquisador, professor e escultor suíço naturalizado brasileiro, inventou mais de 150 instrumentos chamados plásticas sonoras. Foram seus alunos Gilberto Gil, Rogério Duarte, Tom Zé, Gereba e Marco Antonio Guimarães, ex-Uakti) Lembro que o Gê estava fazendo aula de gravura em metal. Enfim, foi muito importante. Aí eu tranquei a matrícula na FAU e voltei para Londrina. Nesse período eu conheci as coisas do Augusto de Campos, Balanço da bossa, esses livros todos aí. Fiquei fazendo música lá; teve um festival que participei tocando piano [uma composição do Robinson (Borba) e do Tonelli], e a Neusa Pinheiro ganhou cantando o “Arrancação”, uma música dela muito boa. E nessa época eu namorei a Neusa, e a gente foi de carona para Salvador.

Tacioli — Foi uma aventura.

Arrigo — Uma aventura! Nossa Senhora! Ficamos lá durante o Carnaval. 1972. Um pouco antes disso, eu e o Mário começamos a compor o “Clara”, em Londrina. A gente fazia assim: “Vamos escolher um compasso? Um compasso de sete. (Vamos) escolher o ritmo? Vamos fazer uma linha de baixo?”. A gente pensava nessas coisas de rock, mas com música erudita, essas coisas mais pesadas. E aí fizemos dois módulos do “Clara”, com o módulo de baixo, com a harmonia e a linha melódica. Aí, voltando da Bahia, retornei à FAU. Nessa época eu conheci o Pessoal do Ceará. Meu irmão tinha ficado amigo deles quando foram se apresentar na FAU. E a gente foi até a casa deles; a Neusa cantou para o Belchior, para o Ednardo. Eu lembro deles cantando, era muito legal; lembro do Belchior cantando, era impressionante! O Fagner eu não conhecia. E a Neusa cantou com eles, acharam que ela cantava bem. A Teti, aquela menina casada com o Ednardo, e tinha um outro cara que fazia Física, esqueci o nome dele. (n.e. Rodger Rogério, cantor, compositor e ator, 1944, foi professor de Física na USP, e, ao lado de Ednardo e de Teti, nome artístico da cantora Maria Elisete Morais de Oliveira, 1950, com quem foi casado, lançou em 1973 o álbum ‘Meu corpo, minha embalagem, todo gasto na viagem’, creditado ao “Pessoal do Ceará”) E depois a Neusa voltou para Londrina, eu fiquei aqui fazendo a FAU, mas já querendo fazer música. Aí eu lembro que os trabalhos que me interessavam na FAU eram (aqueles) mais ligados às artes plásticas. A gente fez um trabalho de Desenho Industrial: deram um motorzinho para a gente fazer alguma coisa e depois eles iriam devolvê-lo para a fábrica. Então nós — eu, a Terezinha, a Deca e, se não me engano, o Zé Prado — resolvemos fazer um trabalho que fosse uma coisa conceitual, que lidasse com essa questão de tirar o motor. Então, fazer uma coisa que vai perder o sentido quando tirarem o motor. Ficamos pensando em muitas coisas, precisamos até destruir o motor. E aí fomos a um taxidermista, compramos um rato empalhado bem feio, um ratão, pegamos o motor e fizemos um carrinho — o Zé Prado tinha feito Engenharia Mecânica na Poli (Escola Politécnica da USP). Fizemos um carrinho, colocamos uma bateria nele que durava cinco dias, enfiamos dentro do rato, costuramos, fizemos um cubo de acrílico lindo nas oficinas da FAU — na época, acrílico era um material nobre — , colocamos o rato se batendo lá dentro, vedamos e entregamos. Mas demoramos pra convencer os caras; quase levamos pau. No fim, (o projeto) foi aprovado. Então, curti pra caralho fazer esse trabalho. Depois eu acabei entrando na ECA, onde fiz uns trabalhos que tinham a ver com essa coisa. (n.e. Arrigo cursou Música na Escola de Comunicações e Artes, a ECA, da USP, entre 1974 e 1979. Teve aulas de piano com Eduardo Hazan, Caio Pagano e de composição com Willy Corrêa de Oliveira) Eu me lembro que o Luiz Gê me falou do Christo, o cara que embrulhava as coisas. Eu falei: “Puta, que demais isso! E barato essa coisa de embrulhar.” (n.e. Christo Javacheff, 1935–2020, artista plástico búlgaro ganhou fama ao empacotar grandes obras arquitetônicas) Aí o Willy deu um trabalho e a proposta era fazer música rasgando uma folha de jornal. Eu peguei, embrulhei a classe inteira com o jornal, fiz duas paredes falsas de jornal, falseei o espaço e coloquei oito atores, um pessoal do EAD (Escola de Arte Dramática da USP), uns amigos, todos embrulhados no jornal atrás das paredes falsas. Tudo, tudo vedado.

Tacioli — Puta trampo.

Arrigo — Puta trampo! Eu e esse pessoal do teatro. Uma das pessoas é a mãe da (cantora) Tulipa Ruiz, foi uma das atrizes que fazia o EAD. Aí eles abriam a porta, entravam e o espaço estava falseado; eles não percebiam que estava falseado, porque era tudo jornal. Aí os caras começavam a se mexer atrás do jornal, começavam a criar aquele barulho, “rrrrrrahhhhhh”. Uma mão rasgava o jornal, saía uma mão de jornal. Saía outra mão. Aí as pessoas saíam vestidas do jornal e começavam a embrulhar quem estava assistindo, sabe? Fiz um outro trabalho também meio assim que mexia com coisa cênica, com os rádios, né? Eu coloquei uma cumbuca com ração, dois patinhos vivos que comprei numa casa de animalzinhos, e um rádio dentro. E tinha um cara rezando, segurando uma gaiola com rádio no outro lugar. Tinha a (cantora) Eliete Negreiros no outro lugar também com o radinho na mão fazendo uma performance. Isso é um negócio que eu dirige lá. E a pessoa entrava, uma de cada vez, com uma lanterna. Então, ela entrava no lugar com a lanterna e ia pegando flash daquilo, porque as coisas começavam a acontecer quando ela entrava. Foi um barato! Era uma coisa que eu curtia demais fazer.

Tacioli — Fica claro que a busca de um conceito foi muito importante. Você como consumidor da arte pop ou do que se apresentava na TV ou no rádio, o que você gostava?

Arrigo — Eu gostava muito do Chico Anysio que passava na TV.

Tacioli — O que era legal do Chico Anysio?

Arrigo — Eu achava o Chico Anysio era demais. Gostava muito dos quadros dele, do que ele fazia, do programa de humor dele. Eu achava super legal. Algumas novelas eu lembro que eu curti. Tinha uma novela espetacular chamada Espelho mágico, Lima Duarte dando um show de interpretação. Rádio: eu escutava alguns programas bastante, como o do Serginho Groisman, do (Maurício) Kubrusly.

Tacioli — Isso quando?

Arrigo — Anos 1970. Escutava esses programas. É, acho que era mais isso que eu curti. O Jô Soares tinha um programa de humor legal também, com uns quadros bem interessantes. Era mais ou menos isso, eu via pouca televisão. Na época não tinha muita opção.

Tacioli — E São Paulo como era nessa época?

Arrigo — Era ditadura, cara, era uma merda! Era uma coisa horrível! Você estava toda hora sentindo que estava em perigo. Ruim pra caralho! E a gente era um bando de louco, né? Por lado tinha uma esquerda que te patrulhava, alienados, e do lado, uma direita que, porra, pelo amor de Deus…

Max Eluard — Vocês também eram comunistas pra eles; tinha esse sentimento?

Arrigo — Mas a gente era muito comunista no sentido verdadeiro da palavra, não de pertencer ao partido. A gente era comunista no sentido de dividir as coisas. A gente vivia dividindo, a gente vivia com pessoas em república, a gente acolhia pessoas que não tinham dinheiro, o pouco que a gente tinha, a gente dividia. A gente fazia redes com amigos, entende? Lembro do Itamar (Assumpção) quando veio pra cá. Tinha rede de amigos que recebia, dava força, ajudava. É aquela coisa: nós éramos muito duros, extremamente duros.

Max Eluard — Agora, você lembra como se materializava, por um lado, esse patrulhamento da esquerda mais fervorosa, e por outro, a repressão, a ditadura?

Arrigo — Não, não tem comparação uma com a outra. A repressão é um negócio e o patrulhamento da esquerda era outro. Claro, era chato porque te depreciava e você vivendo coisas que você acreditava, eu achava errado a diferença brutal de salário brutal, achava errado uma pessoa ganhar muito dinheiro, outra pessoa não ganhar nada. Enfim, achava errado um monte de coisa. E não adiantava nada eu ser um cara de esquerda sem fazer nenhum tipo de sacrifício, continuando com os privilégios. Eu poderia ter tido uma postura “Porra, vou ganhar minha grana aqui! Eu acho que é correto isso, mas eu tô ganhando minha grana!”, mas não, a gente pensava em realmente ter uma vida mais comunitária, em ajudar, em dividir. Eu dividia tudo! A gente tinha essa base cristã, formação cristã, que já tem essa coisa comunista do Cristianismo. Era chato porque você via muitas vezes o cara (ser) de esquerda para comer a garotinha, para ter uma posição, status. Mas não, (a esquerda) era um negócio leve…

Max Eluard — Mais encheção do que…

Arrigo — Não, o pessoal da OBAN foi em casa, na república em que eu morava. (n.e. Sigla da Operação Bandeirante, organização criada pelo governo militar brasileiro em 1969 para investigar e desarticular células contrárias ao regime ditatorial, como também foi o principal agente de tortura e execução de opositores) Eu estava em Londrina, por sorte. No dia anterior eu fui pra Londrina para o Festival de Música. Eles prenderam todo mundo! E começava a chegar gente (em casa) que não acabava, porque tinha nascido o Paulo, que é o meu segundo filho que eu registrei. Eu o adotei, né? Ele era filho da Jane, que morava em casa, que era hippie… E todo mundo estava indo visitar o Paulinho. Os caras da OBAN falaram: “Isso aqui é um aparelho!”. O que tinha acontecido? O (Salvador) Alende tinha caído no Chile e eles foram procurar contatos de pessoas que conhecessem quem estivesse no Chile. Meu irmão namorou uma menina que tinha virado guerrilheira, que estava no Chile. Não sei para onde ela foi depois, mas meu irmão tinha namorado ela e os caras da OBAN sabiam tudo. Foram lá e eles sabiam como eu era no colégio, como eu me comportava, sabiam tudo e de todo mundo. Era um negócio assustador que vocês não fazem ideia! Você não tinha vida privada, você era posse do Estado. É um negócio horroroso, não tem comparação! Então, você reclama do patrulhamento da esquerda, mas não dá pra comparar. Não há nada (que se compare). Não sei o que ela faria se tomasse o poder (ri), mas comparado com o que a gente experimentou ali, era horroroso.

Max Eluard — Os seus primeiros sucessos musicais coincidem com o momento da abertura, o movimento das Diretas… Você participou disso, Arrigo? Você lembra desse momento?

Arrigo — Eu ia às passeatas. Isso foi um pouco antes. Eu fui na missa do Herzog, saí correndo de bomba e entrei no cinema. (n.e. Missa de sétimo dia em homenagem a Vladimir Herzog foi um ato ecumênico realizado em 31 de outubro de 1975 que reuniu oito mil pessoas na Catedral da Sé, no centro de São Paulo) Estava passando King Kong, com a Jessica Lange, a segunda versão. E fiquei no cinema, ninguém me barrou naquela confusão. Eu me lembro bem disso.

Tacioli — Essa situação que o Brasil viveu marcou artisticamente sua criação?

Arrigo — Era péssimo porque eu tinha tanta ideia, cara! Tanta ideia que eu não pude fazer, sabe, que era coisa muito transgressora pra época. Não era na esfera política exatamente, mas era transgressora, então ia ser proibido. Tinha censura!

Tacioli — Você lembra de alguma dessas?

Arrigo — Ah, eu tinha muita ideia! Não me lembro, cara! Eu tinha muitas ideias, muitas! Coisas que eu não levei em frente por causa disso. Acho que um monte de gente passou por isso.

Max Eluard — Porque você constatava que não adiantava…

Arrigo — Não, porque eu tinha que mandar as músicas pra Censura a toda hora. O Gudin conta isso sobre “Infortúnio”. (n.e. O músico e compositor Eduardo Gudin, 1950, foi o idealizador e o diretor do 1º Festival Universitário de Música Popular Brasileira, da TV Cultura, em 1979) Os caras da Censura queriam proibir em “Infortúnio” no Festival da TV Cultura, porque o final dizia: “Ele morreu porque pensou, pensou demais”. E “Infortúnio” está ligado à morte do Herzog. Uma das coisas que inspirou a música pra mim foi o depoimento da Clarice Herzog na televisão falando que queria que a União fosse responsabilizada pela morte do Herzog, que ele não tinha suicidado. Eu vi o depoimento dela e aquilo me inspirou, a imagem da mulher chorosa, em luto, no desespero. Os caras perceberam isso e iam proibir a música de ser classificada no festival. O Gudin pegou duas músicas que eram explicitamente contra o regime e falou “Ó, essas aqui estão classificadas também, mas eu troco por essa!”. (ri) E o censor trocou. (risos) Pergunta para o Gudin isso, cara! Então era uma coisa desse nível. No “Clara Crocodilo” mesmo: “Quem cala consente / eu não me calo / Não vou morrer nas mãos de um tira”. Pô! Como é que eu vou escrever isso? Então você tinha que usar a coisa da violência, que tem muito na narração do Clara, né? Era um negócio complicado.

Max Eluard — Com o Clara você teve problema?

Arrigo — Tive.

Max Eluard — Porque o protagonista era o bandido….

Arrigo — É, tive problema, mas eu lembro que conseguimos passar. O Robinson Borba foi quem produziu o Clara e com o Cesare Benvenuti, que distribuia os independentes aqui, fizeram esse sistema pra aprovar (o disco). Mas acho que “Orgasmo total” sofreu uma restrição, não podia ser tocado em rádio, né? (…) Gente, já estamos ou não?

Max Eluard — Vamos pelo seu tempo.

Arrigo — Que horas são?

Max Eluard — São vinte pra o meio-dia.

Tacioli — Quanto tempo você acha (que temos), Arrigo?

Arrigo — Vamos até meia-dia.

Tacioli — Pode ser? Então vamos!

Max Eluard — Arrigo, você falou sobre a dureza do começo (de carreira), você e todo mundo muito duro, fazendo uma rede de autoproteção, tentando se garantir. O que foi essa relação com a grana? Afinal, você precisa da grana pra sobreviver, mas ela também representa o reconhecimento do trabalho. Você pensava “Preciso fazer uma grana para depois eu poder fazer o que eu quero!” ou “O que eu gosto de fazer tem que me dar essa grana!”. Você lembra como você lidava com isso?

Arrigo — Eu estava me preparando para trabalhar, para fazer carreira acadêmica. Ia fazer a graduação e eu estava vendo que a minha opção era essa, porque eu não tinha a chance. Aí apareceu o Festival da TV Cultura (de 1979) e a coisa foi mudando. Eu consegui um emprego dando aula de música em seguida ao Festival por meio da Regina Porto, que foi minha parceira em “Diversões eletrônicas”. E a Regina me levou para dar aula lá no Biancardi, e aí eu consegui ganhar algum dinheiro. (n.e. Referência à escola de música Academia de Música e Artes, criada pelo cantor lírico José Biancardi) Eu já passei a não depender mais do meu pai, falei pra ele que eu conseguia ganhar o suficiente pra me manter, pra pagar o aluguel numa casa com mais pessoas, claro, né? Não morar sozinho! Morar sozinho era impossível! E, antes disso, eu trabalhei fazendo pesquisas de mercado, de porta em porta, batendo, convencendo a pessoa a usar uma pasta de dente sem rótulo (ri), perguntando para a pessoa se ela usava Gessy. Só servia se a pessoa usasse um creme dental chamado Gessy! Fiz pesquisa de mercado com detergente também. Aí fiz música para filme, pornochanchada. O Ramalho me deu a primeira chance de fazer um filme dele, o Sabendo usar, não vai faltar(n.e. Comédia de Francisco Ramalho Jr. e Sidinei Paiva Lopes, lançado em 1976) (Eram) três episódios. O episódio do Ramalho era Joãozinho, que foi o primeiro filme que o (ator) Everton de Castro fez. E também o primeiro filme da (atriz e modelo) Helena Ramos, se eu não me engano, e o meu primeiro filme, eu fiz a música!

Max Eluard — Na Boca (do Lixo)?!

Arrigo — Na Boca. O pessoal da OCA Filmes que produziu na Boca com o Galante e o Palacios.

Max Eluard — Sempre o Galante.

Arrigo — Aí eu ia lá no escritório do Galante e do Palacios e ficava sentado na sala dele esperando ali pra conseguir um filme, né? Ficava lá e os caras não me atendiam. Aí eu falava: “Não tem nada pra eu fazer?” “Não tem nada!” Ia lá a toda hora. Aí ele me arrumou a Ilha das cangaceiras virgens, que é de um coreano, acho que a Aldine Müller fez esse filme. (n.e. Atriz gaúcha, 1953, uma das musas da pornochanchada) E nesse filme tem uns pedaços do Clara. Foi o coreano que dirigiu, sabe quem é?

Max Eluard — Não.

Arrigo — É um cara conhecido.

Max Eluard — Da turma do Galante também?

Arrigo — É. Esse coreano fez umas coisas legais até. Eu tinha seis horas para gravar a música do filme todo. Aí eu fiz com o Toneli, com o Itamar e com o meu irmão, o Paulinho (Barnabé). Usei música de todo mundo. A gente ia colocando essa música em tal lugar, essa (outra) música em tal lugar. Ia na moviola, media… E o estúdio lá na (rua) Santo Antonio era (reservado por) seis horas. O Toninho Rago, o filho do Rago, foi com a gente. Ele tocava super bem guitarra e foi com a gente também fazer umas coisas, né? (n.e. Antonio Rago, o pai, 1916–2008, foi um importante violonista e compositor, um dos pioneiros do violão elétrico no país) Cheguei lá e tinha uma cena de strip-tease numa mesa de sinuca que, se não me engano, era a Aldine que fazia strip-tease com o Carlos Imperial falando algumas coisas. E nada do que eu fiz para (a cena do) strip-tease o cara gostava, né? E aí eu mostrei o texto do Clara e o cara gostou, né? Estão lá os pedaços do Clara. E assina como grupo Sabor de Veneno, que fez a música do filme. Então eu fiz essas coisas, né? Você ficava atrás de trabalho. Por outro lado, o emprego fixo era difícil porque a escola era o dia todo. Era tudo complicado!

Max Eluard — Mas era uma questão pra você conseguir viver do que gostava de fazer?

Arrigo — Era, claro! Eu preferia fazer isso, era o que eu tentava fazer, né? Aí comecei a dar aula, comecei a ganhar algum dinheiro, mas como se hoje fosse um salário mínimo, uma coisa que conseguia para me locomover na cidade, me virar. Fazendo shows com Clara Crocodilo nenhum músico ganhava ou ganhava muito pouco, muito pouco mesmo. Sei lá, como se em um show hoje eu ganhasse 100 reais. E ficava contente! A gente dividia entre 14, 15 pessoas.

Tacioli — E isso (um time grande) também dificultava.

Arrigo — Dificultava. Os ingressos tinham de ser baratos… Uma coisa muito difícil.

Max Eluard — Não existia a rede do Sesc.

Arrigo — Rede do Sesc não existia. A gente levava o nosso prestígio para o Sesc. A gente lotava o Sesc sem ganhar, ganhando bem pouco mesmo.

Tacioli — O (show do) Tubarões foi no Pompeia, né?

Arrigo — Foi no Pompeia, lotou. Depois o Sesc compensou, me chamou para fazer um monte de coisa, pagaram bem e tal, mas, no começo, a gente ajudou muito o Sesc a se firmar, ter um público…

Tacioli — Arrigo, como você analisa a sua discografia?

Arrigo — Bom, o disco que tem mais unidade é o Clara Crocodilo. Tanto o primeiro, quanto a regravação. É um disco que tem unidade de composição, né? É interessante porque tenho ideias musicais muito claras. Eu gosto muito do material musical. O Tubarões é um disco muito bom tecnicamente, mas é um disco que foi feito antes de ser apresentado (em show), foi feito no estúdio, então ele tem uma frieza, tem uma falta de unidade, que é uma coisa que o palco te dá. Se você se apresentar muito, você consegue chegar a um repertório. Mas não, foi uma coisa que tinha que ter o repertório pronto pra fazer um disco, sabe? Depois tivemos que adaptar esse repertório pra um show, então foi o contrário do Clara, que foram os shows em primeiro. O Tubarões é um disco tecnicamente muito bom.

Tacioli — Saiu pela Ariola.

Arrigo — Saiu pela Ariola, mas não é tão potente como o Clara.

Max Eluard — Mas é engraçado você falar que o Clara, que você considera mais coerente, mais álbum, nasce do show, nasce da coisa cênica. Sua criação nasce da relação cênica, né?

Arrigo — Da relação cênica. Principalmente a música popular é palco, é apresentação, é público, é contato com o público. É direto!

Max Eluard — Desde a mesa do boteco, a serenata, quem que ter a relação com o público.

Arrigo — Ter a relação com o público direto. E o show é onde você amadurece. Tudo amadurece no show. Eu errei de novo quando eu fiz o Gigante negão. Se eu tivesse continuado com Gigante negão, ele ia mudar bastante, mas era muito caro e, enfim, eu entrei numa roubada ali, o cara que produziu foi um erro, né?

Tacioli — E O suspeito?

Arrigo — O suspeito já foi uma outra coisa, com umas músicas que eu podia cantar, mas foi meio um disco de estúdio e depois fiz muito show e acabei fazendo Façanhas, que usa uma parte do repertório d’O suspeito.

Tacioli — O suspeito tinha uma consciência de se aproximar do pop…

Arrigo — Claro, total. Do pop, da bossa nova, da canção, da tradição da música comercial brasileira. Sim, totalmente, superintencional.

Tacioli — E o resultado compensou essa aproximação? Porque eu li numa entrevista sua dizendo que, não sei se naquela época ou um pouquinho antes, você não tinha grana para pagar aluguel.

Arrigo — Ah, sim, sim. Eu lembro que o meu filho estava no (colégio) Equipe, o Roger, e estava fazendo violão no Espaço Musical. (n.e. Escola de música fundada em 1985 pelo compositor, arranjador, pianista e educador Ricardo Breim) Eu pedia bolsa para o pessoal do Espaço Musical e eles não davam. Não davam! Depois o Breim me pedia pra fazer (uma palestra), fui lá, fiz, não ganhei nada, mas pro meu filho ter bolsa lá, não tinha. O Equipe não-sei-o-quê, bolsa? Nada! Ninguém dava bolsa, cara! E eu não tinha (nada), duro, fudido, sem grana, e tinha que me virar pra pagar, arrumar, emprestar dinheiro e tal. Porra, foda, cara!

Tacioli — Esse disco nasceu dessa praia?

Arrigo — Porra, claro! Como é que você faz?

Max Eluard — “Vou tocar no rádio! Vou ganhar uma grana!”

Arrigo — Vou fazer show, vou fazer músicas em que eu possa tocar sozinho.

Max Eluard — Não ter uma baita estrutura.

Arrigo — Que eu possa fazer uma coisa mais simples, entendeu? Foda!

Tacioli — Fora esses problemas todos, foi doloroso ter de fazer esse tipo de “canção normal”?

Arrigo — Não, não… É sempre interessante você fazer isso, embora você faça um desvio de rota, mas é sempre interessante. São problemas que você encontra e que tem que solucionar. É como fazer música para filme: muitas vezes o cara ficava pedindo “Eu quero uma música assim!” e eu tinha que aprender a trabalhar com essas coisas, né? Questão profissional! Também foi difícil fazer show solo em bar, com gente bebendo e falando. Isso foi uma mudança de status muito grande, porque antes você estava no palco, tinha uma posição e aí vai pra um negócio…

Max Eluard — Virar música de fundo.

Arrigo — É, e vira aquela coisa ali no bar, tocando, os caras falando, pedindo “Toca não-sei-o-quê”, aí é difícil, é um bom exercício de humildade.

Tacioli — Foi mais ou menos nessa época também?

Arrigo — Você tem que ficar humilde. Você tem que fazer isso. Pô, quanta gente não fez isso, né? E por que eu não vou fazer?

Max Eluard — E como você lida com os seus fracassos, seus insucessos. Claro. Tem uma frase de um amigo, o Washington Novaes, jornalista, que que eu gosto muito, que ele fala que tem muito orgulho de todos os fracassos dele, de todos os insucessos, que os coleciona com muito orgulho, até mais que os sucessos. Como você lida com o fracasso?

Arrigo — Olha! É difícil falar sobre isso porque eu consegui mais do que eu esperava. Na realidade, mesmo as coisas que foram fracassos, vamos dizer assim, como o Gigante Negão, eu consegui um bom resultado com isso, no fim, você escuta o material, é um material legal, sabe? E eu consegui uma visibilidade muito maior do que eu esperava. Nossa Senhora, eu não esperava mesmo! Eu não esperava! Eu estava tentando ter alguma chance, mas foi muito, muito mais do que eu esperava. Então, percebo agora as coisas de uma forma muito positiva, embora eu não tenha tido um retorno financeiro. Nunca ganhei dinheiro com o meu trabalho! E qualquer outra coisa que eu fosse fazer, eu teria ganhado muito mais, porque eu sou uma pessoa aplicada, sou persistente, então, eu teria conseguido ganhar dinheiro se eu quisesse. Eu tentei ganhar dinheiro com música e não consegui, porque é uma coisa em que eu estava envolvido de uma outra forma, como criador, então isso me dificultou. Eu acho que as coisas foram bem sucedidas, muito mais do que eu esperava. Consegui fazer duas missas, bicho! Porra! A missa que eu fiz pro bispo é uma maravilha. Acho linda, cara! Eu não esperava que eu fosse conseguir fazer isso, sinceramente! (ri) Claro que gostaria de ter tido uma recompensa financeira, ter uma condição de vida melhor, tudo isso, mas eu não posso de jeito nenhum reclamar. Não posso reclamar!

Tacioli — Lupicínio, Nelson Cavaquinho e Arrigo Barnabé. Quais os pontos em comum entre essas três figuras?

Arrigo — Pô, eu me identifico muito com o Lupicínio. O Lupicínio é muito interessante! Ele tem uma ironia, é uma ironia muito interessante! Acho muito legal a música com ironia, de você poder ter essa vertente irônica na música. Isso põe a música lá pra cima, a longevidade dela aumenta muito. O Nelson Cavaquinho já é um cara mais lúgubre mesmo. E é super interessante porque tem essa coisa dele não disfarçar nada, né? Não tem nenhum disfarce ali, ele está cantando a derrota, o luto, um insucesso, enfim…

Max Eluard — Uma aposta no sofrimento, né?

Arrigo — É, mas ele celebra isso, ele fala que isso é digno de ser celebrado. Isso é um barato! O que mais você perguntou?

Tacioli — Os pontos em comum entre esses três…

Arrigo — Ah, é! Tem um cara que eu tô conhecendo agora, eu esqueci o nome dele, é o cara que fez a “Boate azul”, que é uma das músicas bregas mais gravadas. O Reginaldo Rossi a gravou.

Tacioli — Tem mais alguma dele?

Arrigo — Tem uma que fala… Pô, esqueci o nome. Fala de uma casa de show que tinha ali perto do Redondo. Não é do tempo de vocês, né?

Tacioli — O Redondo era ali Consolação.

Arrigo — Isso, isso. Tinha uma casa de show ali.

Pedro Nakano — Seviero?

Arrigo — Seviero, Seviero! Benedito Onofre Seviero, não é isso? Esse cara tem um trabalho muito interessante. (n.e. Compositor paulista, 1931–2016, autor de rancheiras, rasqueados, tangos e guarânias gravados por muitas duplas caipiras e sertanejas, como Zilo e Zalo, Chico Rey & Paraná, Chitãozinho & Xororó, e Tião Carreiro & Pardinho) Qual é a outra música dele?

Pedro Nakano — Vou olhar.

Max Eluard — Santo Google!

Pedro Nakano — “A cartomante”, “A chuva”, “A dama do barão”…?

Arrigo — Essa “A dama do barão” é interessante e tem uma outra que fala de uma casa de show…

Pedro Nakano — “Abismo da dor”?

Arrigo — Não!

Pedro Nakano — “Alma de boêmio”?

Arrigo — Não!

Max Eluard — Estamos somente no A ainda! (risos)

Arrigo — É uma casa de samba que tinha ali perto do Redondo, onde tinha baile. Esqueci, enfim. Esse cara eu tenho curiosidade. (n.e. Gravada por Matogrosso & Mathias, Trio Parada Dura e João Mineiro & Marciano,“Som de cristal”, parceria com Tomás, faz referência à casa de gafieira de mesmo nome localizada à rua Rego Freitas, no centro de São Paulo)

Tacioli — Mas esse suburbano interessa, né?

Arrigo — Acho muito interessante.

Tacioli — Lembro do Supertônica com o Gil Gomes, em que você fala da sua chegada a São Paulo e de quando você o ouviu no rádio…
Max Eluard — É engraçado, principalmente no cinema, essa falta de representação do suburbano, né? Representam-se os pobres, os ricos muito pouco, mas o suburbano é quase esquecido… O cineasta brasileiro adora o pobre, se relaciona pouco com o rico e ignora o suburbano, que não é a pobreza, a miséria.

Arrigo — Mas os caras gostam do pobre nordestino. (ri)

Max Eluard — É quem representa a pobreza.

Arrigo — Você tem pobreza aqui, tem lá em Porto Alegre… Não tem pobreza somente no Nordeste.

Tacioli — Para terminar: como você vê a sua produção de música erudita? E como você se vê no meio erudito?

Arrigo — Ah, sei lá, sou um cara que não sabe escrever direito, (que não sabe) facilitar as coisas para o intérprete. Então, a minha escrita é muito complicada. Para fazer as coisas, eu tenho que ter uma produção minha mesmo. Aí eu contrato os músicos e faço as coisas com esses músicos contratados especialmente. Eu sei que as minhas músicas são bastante difíceis de serem tocadas. As pessoas sofrem muito. Como na música popular, as (minhas) músicas são difíceis. Eu não tenho uma formação muito boa, porque estudei na ECA e a escola era muito ruim na época. Péssima! Parte de técnica de orquestração, por exemplo, não tinha; instrumentação não tinha, escrita não tinha.

Tacioli — Que era uma época em que a Música na ECA estava se estruturando ainda, né?

Arrigo — É. Então, você tinha que fazer tudo sozinho. Então, sou autodidata e tenho algumas lacunas. Tenho umas coisas interessantes em música erudita, mas sou muito crítico com todo o meu trabalho. Sou muito crítico! Nunca acho que está bom. A “Missa do bispo” eu acho boa, é uma coisa bem resolvida, embora algumas coisas ali eu mexeria ainda, no “Kyrie”, com certeza. Enfim, em todas as minhas músicas eu tenho críticas. (ri) Pra todas!

Tacioli — No meio erudito, tem um reconhecimento (para sua música)? Como é que você se coloca nisso?

Arrigo — Não, não tem um reconhecimento, não. Tem reconhecimento parcial, algumas pessoas gostam do que eu faço. A Elizabeth Pinheiro fez uma análise muito boa da minha missa. Algumas pessoas se interessam pelo que eu faço, mas não tenho um reconhecimento meio erudito. Não tenho! Acho que eu não sou burocrático o suficiente. No meio erudito tem uma espécie de burocracia, tem alguns cânones. Não tenho uma formação que me permita preencher todas essas coisas, sabe? Então, tenho algumas falhas que não são aceitas.

Max Eluard — Pecados graves?

Arrigo — Não graves, mas suficientes para não ser bem aceito.

Max Eluard — Não fazer parte da turma…

Arrigo — É isso.

Tacioli — Tem alguém que você olha e (o reconhece) como um herdeiro estético, não um herdeiro no sentido de que você terminou (sua obra), mas alguém que caminha com a mesma preocupação de criação que você tem?

Arrigo — Acho interessante o trabalho do Vitor Kisil, que tem um grupo que trabalha com performance, música com computador e música ao vivo, transformando a música. O Porcas Borboletas tem uma preocupação com isso, um grupo de Minas. Você está falando sobre essa parte musical que tem a ver comigo, né?

Tacioli — Isso.

Arrigo — Tem um pouquinho esse grupo aí de Campinas, como é que se chama? Cumieira? Um pouquinho (a ver comigo), alguma coisa assim. Fiz um trabalho com alguns dos músicos do Cumieira lá em Campinas. (Tem) um pouco no trabalho que o Mário Campos faz com o Coletivo Orquestral da Unicamp também. Não sei, não tem ninguém que eu veja claramente… Dessas pessoas novas, eu vi outro dia a Nina Becker cantando “Quando eu me chamar saudade”. Achei demais! Achei muito legal aquilo. Eu vou fazer um show cantando Nelson Cavaquinho com Ná Ozzetti e o Renato Braz.

Tacioli — E o Tatit.

Arrigo — O Tatit vai ser o mestre de cerimônias. Estou usando como referência para “Quando eu me chamar saudade” a gravação da Nina. Eu achei muito boa, muito bonito o que ela fez com a música. Eu gosto muito da Andrea Dias como autora, principalmente, como cancionista, uma pessoa que faz canção. É muito legal o trabalho dela! Tem outros mais antigos que já são bem conhecidos: o Zé Miguel (Wisnik), que é um cara que eu acompanhei mais ou menos a evolução dele, vi bem no começo… O Zé é um cara que progrediu muito como autor de canção também, mas não é um cara novo. O Careqa também não é novo, é um cara que já tá aí há muito tempo, né? Então, são pessoas que começaram depois de mim. Mais nova seria a Andrea (Dias), mas não é tão nova assim. Sei lá, tem outras pessoas que eu não tô me lembrando.

Tacioli — Beleza. Arrigo, obrigado pelo papo.

Arrigo — Tá bom, cara! Obrigado a vocês!

Tacioli — Vou começar a desmontar (o equipamento).

Arrigo — O Dante (Ozzetti) também é um compositor muito legal, mas é um cara que está aí faz tempo, né?

Tacioli — É.

Arrigo — Cara, caiu meu provisório aqui! Estou fazendo um implante!

Max Eluard — Putz! (risos) Mas não apareceu…

Arrigo — Muito, né? (risos)

Max Eluard — Não apareceu nada, nada mesmo! Eu vi que você estava…

Arrigo — Caiu o provisório! Agora é bom para fazer pirata! (risos)

(…)

Jefferson Dias — Arrigo, vamos fazer uns retratos? Você pode se sentar ali no sofá?

(…)

Raul de Souza fotografado por Dafne Sampaio (em cena) e ambos por Henrique Parra. (Crédito: Henrique Parra/Gafieiras)

Discografia selecionada

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O suingue e o veneno de Raul de Souza

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Faixa 01 “Ilha do Mel” (Raul de Souza), por Raul de Souza
Faixa 02 – “Balada 45” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Arthur Verocai
Faixa 03 – “Sweet Lucy” (Raul de Souza), por Raul de Souza
Faixa 04 – “Balanço Zona Sul” (João Donato), por Raul de Souza e Robertinho Silva
Faixa 05 – “Rio Loco”
Faixa 06 – “Don’t ask my neighboors”
Faixa 07 – “Banana tree”
Faixa 08 – “Piano na Mangueira” (Tom Jobim), por Raul de Souza
Faixa 09 – “Bossa eterna”
Faixa 10 – “Lugar comum” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Robertinho Silva

Expediente

Entrevista realizada em 16 de outubro de 2005, no teatro do Museu da Imagem e do Som, São Paulo/SP.

Entrevistadores: Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Giovanni Cirino, Max Eluard e Ricardo Tacioli
Produção: Dafne Sampaio e Ricardo Tacioli
Transcrição: Marllon Chaves
Edição de texto: Ricardo Tacioli
Texto de abertura: Dafne Sampaio
Fotos: Dafne Sampaio e Henrique Parra
Registro audiovisual: Fernando Almeida e Max Eluard
Agradecimentos: Bureau Export de la Musique Française, Graça Seligman (MIS/SP), Rita Menezes e Teresa Benassi

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