Por Mauricio Pereira
Publicado originalmente em 2003
Eu nasci no dia 8 de novembro de 1959, na Maternidade de S.Paulo, ali na Frei Caneca, colado na Paulista. Um lugar onde gente da classe média nascia, nessa época.
Não nasce mais, a maternidade fechou.
Eu me lembro de algumas coisas da Maternidade. Não do dia em q eu nasci, obviamente. Minha tia operava lá, foi ela quem fez o parto na minha mãe. Minha mãe ia buscar ela lá de vez em quando, eu ia junto. Então: a maternidade era toda de pastilha, e isso me chamava a atenção, tinha um cheiro e uma consistência q me lembrava umas balinhas pastilhinhas redondinhas da Lacta, q vinham num saquinho pequeno, pareciam bolinhas de futebol-de-botão. Outra: tinha um vitrô com uma cegonha desenhada em vidro leitoso, com umas flores, tulipas, copos-de-leite, aquelas flores de brejo, tudo com o mesmo sabor das pastilhas (será q eu tou inventando?). Mais: as enfermeiras com aqueles sapatos e meias brancos, aqueles sapatos faziam elas andarem sem fazer barulho nenhum. Muito intrigante. Mas o principal mesmo é q no canto de cima do estacionamento (mais pro lado da Paulista) tinha um belíssimo parquinho. Pensando bem, talvez não fosse belíssimo, só consigo me lembrar dum trepa-trepa (apropriado pruma maternidade, né?). De qualquer modo, tudo isso foi só pra lembrar q ali tinha uma amoreira. Sabe lá o q é isso, meu? Uma amoreira! Pra vc q lê talvez não queira dizer nada, vc pode estar careca de ver pé de amora. Pode ser, pode não ser. Mas ali foi a primeira vez q eu vi uma – na Vila Olímpia era difícil – e comi amora pra cacete. Fiquei vermelho. Num canto do estacionamento do lugar onde as mulheres iam dar à luz e esvaziar sua barriga, aquela amoreira deu à luz uma pá de amora e eu caí de boca, pari ali um grande amor pelas amoras. Deve ter rolado numa manhã de 67, 68. Um espanto, a coisa mais sensacional do mundo, inesquecível (mesmo eu não lembrando nada direito). Talvez tenha sido minha primeira experiência sexual: seduzido por uma amoreira mais velha do que eu.
Amora, amor, trepa-trepa, maternidade, enfermeiras, cegonhas, pastilhas, flores do brejo, novembro: tudo é sexo, de um certo modo.
Contei só pra falar do quanto um paulistano médio pode ser jacu, isso é cultura, imagino. Sete anos, e virgem de amora. Imagina se fosse uma mangueira, então… E pensar q tem gente q faz de tudo pra desfrutar do nosso way of life…
Por outro lado, tentando ser otimista (e salvar minha reputação de pasmo), essa história pode não ser mera jacuzice, pode ser só a sorte (a arte?) de enxergar a vida com olhos de poesia, e então qualquer pequena coisa se torna grandiosa, espantosa, solene, encantadora: vira arte, vira expressão de algum mistério biruta do universo, uma bruta efeméride. Por um lado é bom: com a visão de uma simples amoreira, vc economiza a grana q vc gastaria, por exemplo, no cinema (mas aí não rola a balinha de amora q eles vendem lá: não dá pra ter tudo na vida).
A Maternidade fechou no ano passado. Faliu, ou algo assim. Não consigo entender muito bem como é q uma maternidade consegue ir à falência se nunca pára de nascer gente. Talvez os partos estivessem caros, talvez tenha rolado o habitual desvio de verba. Isso também é cultura, imagino. Me senti um pouco órfão. Toda vez q eu ia tocar no Crowne Plaza (o teatro do hotel ali em frente) eu me sentia voltando às origens. Feliz mesmo. Sem contar q o pessoal do Crowne é super querido e faz a gente se sentir no útero, o q pode compensar a falta da maternidade. Meu primeiro show em recinto fechado (grã-fino, hein?) depois do Mulheres foi ali. Mas o meu primeiro show mesmo depois do Mulheres foi no Viaduto do Chá, um dia antes do tal show no Crowne. Sintomático, né? Dum monte de coisa. Eu fiquei logo achando q aquilo eram sinais muito especiais: meu primeiro show como Mauricio ser na rua, bem no centro da minha cidade natal, de graça, em cima do Viaduto do Chá, na hora do almoço daquele bando de gente. Um parto público, ao vivo, em q eu pari e nasci ao mesmo tempo. O mais gozado: eu toquei bem no coração da minha cidade, e ninguém ali me conhecia. Lição número 1: o preço de ser guerrilheiro se paga no ego… Ou ainda: não ter nunca nenhuma música tocando em novela da Globo faz lá sua diferença. Tinha inclusive um pentelho dum bêbado ali na minha frente, a meio centímetro da minha cara, com seu formidável bafo velho de vinho ruim (bafo ruim de vinho velho?), q ficava o tempo todo pedindo (baforosamente, eu garanto) pra eu cantar Fagner, Fagner, Fagner… Cantei um pedacinho de uma q tava – obviamante – numa trilha duma novela da Globo naquele momento (92?): “quem é rico mora na praia, e quem trabalha nem tem onde morar…”. Delírio: rei do viaduto do Chá. E já fui aprendendo mais outra coisa sobre esses shows de rua: o freguês sempre tem razão, tamos ali pra servir (na medida do possível), e, last but not least: na rua não tem muito isso de artista, abriu a boca e juntou gente em volta pra ouvir, automaticamente vc é um camelô. Mais um camelô, e a concorrência é forte. Logo, é bom aprender a raciocinar como um. Vantagem: quando camelô faz show em teatro, ele tem muito mais argumento pra vender pro público aquela uma dúzia de canções…
Esse textinho aqui é dedicado pra a memória do Frank Zappa, Mother of Invention (ó a maternidade aí de novo). Nem sempre eu consigo identificar muita influência no meu modo de trabalhar, mas esse cara certamente é uma.
Pergunta pro André…
tchau, beijão, até +
Mauricio
notas de rodapé.
– a tal música do Fagner, fui fuçar, se chama “Pedras q cantam”, do Fausto Nilo e Dominguinhos, tava na novela das 8 da Globo em 92, “Pedra sobre pedra”, do Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares;
– a Maternidade de São Paulo continua fechada, sem data pra reabrir. Liguei lá. Fechada. Causa, pelo q eu apurei em notícias na net: o popular “desvio de verba”, coisa e tal.
Mauricio Pereira