Alaíde Costa, por Jefferson Dias/Gafieiras

Alaíde Costa

Da bossa nova ao Clube da Esquina, ela é da geração que deu voz e letra à mulher na música brasileira.
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SÃO PAULO, 23 de julho de 2012

Alaíde cresceu ouvindo vozeirões, sambas, baiões e boleros. Cresceu sonhando ser professora e virou cantora que não cantava o que queriam, “coisas mais animadas e com agudo”. Trincou a moldura “artista negro é para cantar sambão”. Gostava de uma “música esquisita”, como afirma, e que naquele Rio de Janeiro dos anos 1950 estava para ganhar forma, nome e fama.

De sua estreia profissional em 1954 como crooner da orquestra do Dancing Avenida, onde marmanjos pagavam para dançar e beber, até seu primeiro LP, Gosto de você (1959), a jovem carioca forjou seu estilo musical: sambas-canções, bossas e jazz de temática romântica. Sua interpretação macia, seu timbre e sua precisão a tornaram uma cantora de câmara, a “cantora dos músicos”. Basta ouvir seu álbum de 1995 com o pianista João Carlos Assis Brasil. Mínimo e máximo.

A moça tímida que saiu do Rio de Janeiro em 1962 para se casar em São Paulo não ficou somente na música popular: nessa mesma década dividiu o palco com o violonista Turíbio Santos e protagonizou no Teatro Municipal de São Paulo o show de canções renascentistas Alaíde alaúde, dirigido pelo maestro Diogo Pacheco. No entanto, viu o sucesso de perto apenas em dois momentos: quando calou o Teatro Paramount (SP) com “Onde está você” no show O fino da bossa — que lhe garantiu espaço no rádio e contrato de dois anos com a TV Record — e ao dividir o microfone com Milton Nascimento em “Me deixa em paz”, faixa do LP Clube da esquina (1972).

Fitando sua pequena e emblemática discografia, nota-se a coerência musical e de interpretação. Saltam registros valiosos, como o álbum de 1965, homônimo, e Coração (1976), produzido por Milton Nascimento e instrumental com figuras como João Donato, Toninho Horta e Robertinho Silva.

Os anos 2000 foram mais generosos, pelo menos no que se refere ao número de discos gravados. De todos, o mais recente, Canções de Alaíde (2014), é motivo de orgulho por se tratar do primeiro que traz exclusivamente suas músicas solo ou em parceria com Vinicius, Jobim, Geraldo Vandré e Herminio Bello de Carvalho.

Então com 76 anos de idade, a fã de Dalva de Oliveira reencontrou o Gafieiras na noite de 23 de julho de 2012. A primeira vez havia sido em 2009, quando posou para João Correia, um dos sete fotógrafos da exposição Pioneiras, organizada por este site. Alaíde chegou sozinha, e depois de escanear o ambiente, esparramou gargalhadas, frases curtas e um pouco de sua história. Em três horas e meia não hesitou em falar da infância, racismo, Vandré e do amigo e parceiro Johnny Alf, também negro, precursor da bossa nova e pouco celebrado.

Ao lado de suas contemporâneas Dolores Duran e Maysa, Alaíde é uma das responsáveis em dar letra feminina — e não somente voz — à música brasileira. Tarefa que nunca deixou de cumprir.

por RICARDO TACIOLI

Alaíde Costa, por Jefferson Dias
Alaíde Costa com Roberta Valente, Ricardo Tacioli e Alexandre Pavan (dir.). (Crédito: Jefferson Dias)

Alaíde Costa — Tem que falar muito? Eu não sou muito…

Ricardo Tacioli — As entrevistas são com vários entrevistadores batendo papo, tomando cerveja…

Alaíde Costa — É nessa mesa?

Ricardo Tacioli — É nesta mesa! Fico aqui, a Roberta (Valente) fica ali, o Alexandre (Pavan); o Max (Eluard) participa também da entrevista, e o Jeff vai fotografando… A entrevista leva umas duas horas; é uma conversa.

Alaíde Costa — Por que Gafieira?

Ricardo Tacioli — Gafieiras porque…

Alaíde Costa — Gafieiras?

Ricardo Tacioli — Quando a gente colocou esse nome a intenção era o de entrevistar diversas pessoas que produzem música no Brasil independentemente do estilo. Colocar todo mundo num mesmo salão, num mesmo espaço, como se fosse uma gafieira. A gente quer ver a história de cada um relacionada à música…

Alaíde Costa — Eu já cantei em gafieira! [risos] Crooner…

Ricardo Tacioli — Sim, no Dancing Avenida…

Alaíde Costa — É!

Ricardo Tacioli — Vamos falar disso. Alaíde, você toma uísque, cerveja?

Alaíde Costa — Um uísquinho.

Ricardo Tacioli — Com gelo ou sem gelo?

Alaíde Costa — Deixa eu ver: sem gelo

[silêncio]

Max Eluard — Você mora no Bonfiglioli?

Alaíde Costa — Moro.

Max Eluard — Perto de onde?

Alaíde Costa — Você conhece por ali?

Max Eluard — Conheço um pouco…

Alaíde Costa — Sabe onde é o ponto final do ônibus Belém?

Max Eluard — Não.

Alaíde Costa — Na Otacílio Tomanik…

Max Eluard — Ah, sei, sei…

Alaíde Costa — Não tem o ponto final de ônibus ali? Em frente ao ponto de ônibus tem um prédio, eu moro na ruazinha ao lado do prédio. Moro numa rua que eu acho o nome muito bonito…

Max Eluard — Como que é?

Alaíde Costa — Se chama Acalanto de Bartira. Bonito, né?

Max Eluard — Você sabe a origem desse nome?

Alaíde Costa — Não, porque Bartira foi uma índia, né?

Max Eluard — É.

Alaíde Costa — Então deve ser alguém que cantava pra índia, qualquer coisa assim.

Max Eluard — Ou o canto dela.

Alaíde Costa — Ou o canto dela.

Max Eluard — Nome de rua costuma ser tão feio…

Alaíde Costa — Eu morava na Capital Federal. Quando voltei do Rio, quis comprar a minha casa por aqui, mas não teve como, muito caro. Eu morava numa casa alugada. Mas como não teve como comprar por aqui, fui para o Jardim Bonfiglioli.

Max Eluard — Mas aqui está mudando muito, verticalizando, estão construindo muito prédio. [n.e. A entrevista foi realizada no Sumarezinho, bairro da zona oeste paulistana]

Alaíde Costa — Até a casa que eu morei virou qualquer coisa de comércio.

Max Eluard — Quando você mudou pra cá a primeira vez, você morava aqui na Capital Federal?

Alaíde Costa — Não, a primeira vez que eu vim, em 1961, morei ali na Martins Fontes. Não, Martins Fontes, não, na Martim Francisco, Santa Cecília. Fiquei lá alguns anos. Depois fui pro Alto de Pinheiros.

Max Eluard — Nessa época mesmo, anos 1960?

Alaíde Costa — Década de 1960.

Max Eluard — Alto de Pinheiros devia ser uma chácara, né?

Alaíde Costa — Era.

Max Eluard — A estrada da boiada.

Alaíde Costa — A estrada da boiada, de terra ainda…

Max Eluard — Nossa! E era a Diógenes…

Alaíde Costa — De terra…

Max Eluard — E ia até Sorocaba, né?

Alaíde Costa — É? Eu não sei.

Max Eluard — É. Ia até Sorocaba, o pessoal levava os bois para Sorocaba ou de lá pra cá.

Alaíde Costa — Depois de lá, eu mudei muito viu!

Max Eluard — Alma de cigano.

Alaíde Costa — É, depois da Estrada da Boiada eu vim morar aqui no Sumaré de novo, na Apinajés, lá embaixo. Um prédio quase de esquina, pequenininho, eu acho que ainda existe. Depois eu me mudei pro Rio. Fui pro Rio Comprido. Olha como eu mudei! Do Rio Comprido eu voltei pra São Paulo e morei na Rua Augusta. [risos] Não, primeiro eu morei uns meses ali na Aclimação, na José Getúlio. Morei com o Zé Luiz. Conhece o José Luiz Mazziotti? [n.e. Cantor e compositor nascido em Rio Claro, 1948, parceiro de Sérgio Natureza]

Ricardo Tacioli — Sei, sei…

Alaíde Costa — Então, ele me hospedou lá. Eu estava procurando casa, né? Fiquei uns meses lá. Aí achei esse apartamento na frente do Auditório Augusta, em um prediozinho pequenininho também.

Ricardo Tacioli — Quando que foi isso, Alaíde?

Alaíde Costa — Foi em 1973.

O pianista Waldir Calmon. (Crédito: Coleção Almirante/Acervo MIS)
O pianista e compositor mineiro Waldir Calmon (1919-1982), dono da série fonográfica Feito para dançar e da boate Arpège, no Rio de Janeiro. (Crédito: Coleção Almirante/Acervo MIS)

Max Eluard — Alaíde, a primeira vez que você mudou para cá foi em 1961, naquele boom da bossa nova, né?

Alaíde Costa — Mas eu fiquei até 1969.

Max Eluard — O cenário da bossa nova não era mais forte no Rio nessa época?

Alaíde Costa — Era, mas aqui acontecia muito também.

Max Eluard — Você veio pra cá em 1961 por qual motivo?

Alaíde Costa — Porque eu casei com um paulistano. [risos]

Max Eluard — Ah, sim!

Alaíde Costa — Aí tive que vir.

Ricardo Tacioli — E ele aceitava a sua carreira?

Alaíde Costa — Ele era locutor da Eldorado, era jornalista.

Max Eluard — Então ele entendia…

Ricardo Tacioli — Esse foi o motivo da vinda… Pensei que já tivesse alguma coisa arquitetada, porque a Claudette (Soares) veio (antes)…

Alaíde Costa — Não! Ela veio e daí eu vim. Vim mais porque ela ficou na minha cabeça “Vem, vem, vem!”. Aí um belo dia eu vim e conheci a peça! [risos] E acabei ficando! Mas ela vivia me chamando “Vem, está bom aqui!”. E realmente estava bom.

Ricardo Tacioli — Você frequentou o Jogral?

Alaíde Costa — Frequentei, mas não por muito tempo, foi antes de eu voltar para o Rio, em 1968, 69, por aí.

Max Eluard — Era ali na Avanhandava ainda?

Alaíde Costa — Na Avanhandava.

Max Eluard — O Luiz Carlos Paraná estava vivo ainda… [n.e. 1932–1970. Nascido em Ribeirão Claro, PR, o cantor e compositor foi o idealizador e dono do Jogral, importante boate paulistana dos anos 1960 e 1970. É autor de “Maria, Carnaval e cinzas”, gravada por Roberto Carlos, “De amor e paz” (com Adauto Santos), por Elza Soares, e “Flor do Cafezal”, por Cascatinha & Inhana]

Alaíde Costa — Estava.

Ricardo Tacioli — Você lembra do Paraná? Como ele era?

Alaíde Costa — Ele vivia lá. Ele morava no prédio ao lado (do Jogral) e vivia lá…

Ricardo Tacioli — Foi um bar importante.

Alaíde Costa — Mas o mais importante pra nós foi o João Sebastião Bar. O João Sebastião foi o máximo, sabe? [n.e. De propriedade do jornalista Paulo Cotrim e localizada na Rua Major Sertório, na Vila Buarque, a casa foi um dos quartéis-generais da bossa nova em São Paulo nos anos 1960]

Ricardo Tacioli — E o que é que ele tinha?

Alaíde Costa — O Jogral era assim: não tem rodízio de comida, de churrasco? [risos] Lá era rodízio de…

Max Eluard — De cantor…

Alaíde Costa — De cantores, né? Já no João, não. Pra mim, pra Claudette, pra Ana Lúcia e para outros mais. O Jogral misturava muito.

Ricardo Tacioli — Quem que eram os donos do João Sebastião Bar?

Alaíde Costa — Paulo Cotrim. Era jornalista também, já faleceu há muitos anos.

Ricardo Tacioli — Ficava ali na Veridiana?

Alaíde Costa — Quase esquina. Major Sertório.

[Toca o interfone]

Ricardo Tacioli — Alô! Fale para subir, por favor! (…) É a Roberta! (…) Quando a gente fez a exposição Pioneiras, aquela em que o João Correia foi fotografá-la no salão de beleza, o Jeff foi para o Rio fotografar a Dóris Monteiro, a Claudette também foi fotografada e ela falou também bastante do João…

Alaíde Costa — A Claudette cantava sentada em cima do piano… [risos] Era muito engraçada…

Max Eluard — Femme fatale.

Alaíde Costa — Hein?

Max Eluard — Fazendo o papel da femme fatale.

Alaíde Costa — É! Um piano de cauda e ela sentada em cima. [risos]

Ricardo Tacioli — Tem saudade desse período?

Alaíde Costa — Ah, a gente sempre tem, né? Ah, mudou muito, né? Tudo! [silencia] Tinha coisas boas naquela época…

Ricardo Tacioli — E hoje está mais difícil ter espaço para cantar?

Alaíde Costa — Ah, eu acho. Eu digo, casas noturnas, né? Ou tem as grandes casas ou não tem! [ri] E naquela época tinham muitas.

Ricardo Tacioli — Tinha vida noturna.

Max Eluard — Havia muitas casas, não era somente um ou dois lugares, casas de show, né? Todos os lugares…

Alaíde Costa — É! Igrejinha, Ela, Cravo e Canela, tinha muita coisa. [n.e. Duas importantes boates paulistanas dos anos 1960 e 1970, ao lado de outras casas de música como O Jogral, Cambridge, João Sebastião Bar, Catedral do Samba e Baiúca. Ela, Cravo e Canela foi inaugurada por Claudette Soares e Pedrinho Mattar em 1967] E tinha bastante programas de televisão.

[Roberta Valente entra no apartamento]

Roberta Valente — Com licença! Oi, boa noite, tudo bem?

Alaíde Costa Oi, tudo bom, e você?

Roberta Valente — A gente se conheceu quando te dei uma carona.

Alaíde Costa — Ah foi?!

Roberta Valente — Foi. Do (bar) Genésio, Vou Vivendo, um desses aí.

Alaíde Costa Ah! Eu vi que te conhecia. Vou Vivendo com certeza não foi. Deve ter sido o Genésio ou Filial, um deles.

Ricardo Tacioli — Rô, cerveja, uísque…

Roberta Costa — Eu não bebo! [risos]

Alaíde Costa Ah, é?! Deixa eu fazer uma brincadeira que uma moça fez uma vez comigo. Eu cheguei na casa dela, toda cheia de cerimônia e não-sei-o-quê. Era a primeira vez que eu ia lá, né? Uma vizinha minha. Aí ela: “Quer uma cervejinha?”. E eu toda sem jeito: “Ah, não, não quero, não!” Aí ela fez assim: “Graças a Deus! Eu quero mais é que sobre pra mim!” [risos]

Roberta Valente — Acabou a cerimônia ali.

Alaíde Costa — Aí eu fiquei tão sem graça e ela começou a rir de mim, né?

Roberta Valente — Você teve que aceitar.

Ricardo Tacioli — Alaíde, aqui não tem nove horas, não!

Roberta Valente — Eu quero uma cerveja! Só faltava eu?

Ricardo Tacioli — Falta o Pavan.

Roberta Valente — Pavan!

Ricardo Tacioli — Alaíde, você fala com o Herminio de vez em quando? [n.e. Referência ao poeta, compositor e provocador cultural carioca Herminio Bello de Carvalho]

Alaíde Costa — Falo.

Ricardo Tacioli — Falei do Pavan e você na hora, “Eu conheço!”. Mas o conhece pelo Herminio?

Alaíde Costa Pelo Herminio.

Ricardo Tacioli — Acho que a gente pode começar, né? O Pavan já conhece o ritmo e aí se enquadra…

Roberta Valente  Trouxe uma colinha de perguntas malígnas. [risos]

Alaíde Costa — Ah, é? Não vem, não, hein!

Ricardo Tacioli — Eu também sempre tenho a minha colinha, mas nunca uso.

Roberta Valente — Eu também não, mas em todo o caso.

Ricardo Tacioli — Não está nervosa, não, né, Alaíde?

Alaíde Costa Não! [risos]

[Toca o interfone]

Ricardo Tacioli — Fale para ele subir, por favor. Pronto, o Alexandre Pavan chegou. Alaíde, tudo o que a gente vai perguntar, você já respondeu.

Alaíde Costa Olha lá, hein! [risos]

Roberta Valente — As perguntas mais íntimas vamos deixar para mais tarde. [risos]

Alaíde Costa — Mas eu não conto!

Ricardo Tacioli — São 50 anos de carreira, né? Você começou em 1954.

Alaíde Costa Não! Eu começo a contar a minha carreira a partir de 1956, quando foi o meu primeiro trabalho profissional. Até então eu cantava em programas de calouros. Em 1956 eu tive convite pra cantar no Dancing Avenida. Esse foi meu primeiro trabalho profissional [n.e. A casa noturna Dancing Avenida funcionava nos anos 1940 e 1950 como táxi-dancing, em que os frequentadores pagavam para dançar com as bailarinas da casa ao som das orquestras. O tempo da dança era anotado em uma ficha ou cartão. Essa espécie de casa foi comum não somente no Brasil, mas em países como o México, onde ficaram conhecidas como Las Ficheras. Localizado na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, o Dancing Avenida foi responsável pelo início profissional de cantoras como Elizeth Cardoso, Ângela Maria e Alaíde Costa, todas como crooner de orquestras]

Ricardo Tacioli — Foi o tiro de largada.

Alaíde Costa Humn, humn! E eu sou meio surda, sabia, né? [risos]

Roberta Valente — Nós também somos.

Alaíde Costa — Não, mas eu sou mesmo!

Roberta Valente — Ah, é?

Alaíde Costa Já operei os dois ouvidos. Um operei duas vezes.

Max Eluard — Mas qual é a causa, Alaíde?

Alaíde Costa Otosclerose.

Roberta Valente — E eu li que você deu um tempo na carreira antes do Clube da esquina. Foi por causa disso?

[Chega Alexandre Pavan]

Alaíde Costa Oi, Pavan!

Alexandre Pavan — Há quanto tempo!

Alaíde Costa Tudo bem?

Alexandre Pavan — Tudo bom!

Alaíde Costa Não é bem que eu dei uma parada, deram uma parada em mim, porque sem gravar, você quase não aparece, né? E naquela época o disco era muito importante, né? Agora é mais fácil gravar, tem as produções independentes, aquela coisa toda…

Roberta Valente — É, hoje você grava um disco em casa.

Alaíde Costa É, mas aquela época era…

Roberta Valente — Era bem mais complicado.

Alaíde Costa A cada movimento (musical) era um convite maluco, né? E eu não aceitava. Então ficava fora…

Roberta Valente — Entendi. Em algumas matérias que eu li atribuem essa pausa de uns três, quatro anos ao seu problema auditivo.

Alaíde Costa Não, mas eu operei os ouvidos depois do Clube da esquina, que está completando 40 anos agora.

Ricardo Tacioli — A Alaíde está nervosa, ela falou! [risos]

Roberta Valente — Mas são perguntas fáceis. Você sabe responder todas!

Ricardo Tacioli — Você tem resposta pra todas!

Alaíde Costa Certo. [risos]

Ricardo Tacioli  Alaíde, você vem do Meyer, né?

Alaíde Costa Nasci no Meyer mas fui criada na Água Santa. Eu não tenho nenhuma lembrança do Meyer. Fui pequena pra Água Santa.

Ricardo Tacioli — E como era Água Santa?

Alaíde Costa Água Santa era um lugar bem tranquilo, bem mato mesmo. Foi muito legal pra mim. Tive várias amiguinhas por lá e conheci uma moça que, depois de muitos anos que virei cantora, e ela também, eu passava por lá e ela dava varadas da minha perna! [risos] Não sei o porquê, ela dava varadas na minha perna. Acredita em um negócio desse?

Alexandre Pavan — Você disse que você virou cantora e ela também…

Alaíde Costa E ela também! Mas eu não vou falar o nome dela…

Alexandre Pavan — Fala! [risos]

Alaíde Costa Ela mesma conta essa história, a Elza Soares!

Roberta Valente — Nossa, na mesma época vocês se tornam cantoras?

Alaíde Costa É.

Ricardo Tacioli — Você passava e ela só com a varinha de marmelo…

Max Eluard — Vocês não eram amigas?

Alaíde Costa Não, éramos conhecidas… Aliás, eu conheci a Elza quando comecei a cantar mesmo, que eu ia lá pra Rádio Nacional e ela ia também. Tinha um grupinho de meninas amigas dela, eu passava, elas me vaiavam. [risos] Já tinha essa coisa.

Roberta Valente — De torcida?

Alaíde Costa Tinha essa coisa da torcida. Eu não tinha torcida, mas ela tinha… Aí eu passava e uma delas falava “Eu sou Alaíde Costa!”, e as outras “Uuuuuuuh!” [risos] Aí a outra falava “Eu sou a Elza Soares!”, daí todas (aplaudiam). [risos] E eu, coitadinha, passava ouvindo aquilo… Muito engraçado, muito engraçado! Eu me lembro até o nome da mãe delas: Durvalina. As filhas de Durvalina! Vocês me devem! [risos]

Roberta Valente — Olha só! E você lembrou essa história com a Elza muitos anos depois?

Alaíde Costa — Ah, sim, ela conta pras pessoas que me batia, batia na minha (perna)… Eu era magrinha, muito magra, sabe?! Eu passava e “pá!”. Ela com as filhas de Durvalina.

Roberta Valente — Mas você não batia também?

Alaíde Costa Não! [risos]

Ricardo Tacioli — E o que mais você lembra de Água Santa?

Alaíde Costa De Água Santa? Ah! Eu lembro que primeiro morei numa rua chamada Leandro Pinto que é perto da rua em que moravam as filhas de Durvalina e a Elza morava um pouquinho mais pra cima, num largo que eu não me lembro do nome. Largo da Água Santa! Acho que sou andarilha por causa da minha mãe, a minha mãe adorava mudar (de casa). Ela mudou para a rua Bórgia Reis. Foi ali que eu conheci as meninas, né? Eram cinco irmãs e eram minhas amigas. Ou foi o contrário? Não, primeiro foi na Bórgia Reis e depois foi na Leandro Pinto, onde eu me tornei cantora. Também é tanta coisa pra lembrar, né? Você esquece…

Ricardo Tacioli — Mas você tem uma memória boa…

Alaíde Costa É?

Ricardo Tacioli — É, você fala nome de rua, agora há pouco você estava lembrando um monte de números…

Roberta Valente — O nome das meninas!

“O público jovem se conquista pela palma que bate!”

Alexandre Pavan — E os seus pais eram do Rio? Como era a sua família?

Alaíde Costa A minha mãe nasceu em Vassouras.

Alexandre Pavan — Interior…

Alaíde Costa — É, e o meu pai era gaúcho.

Alexandre Pavan — E eles se conheceram no Rio?

Alaíde Costa Acho que sim, né? Eles devem ter se conhecido no Rio.

Ricardo Tacioli — E eles faziam o quê?

Alaíde Costa O meu pai era forneiro, que cuida dos fornos grandes. E minha mãe cuidava da casa, lavava uma roupinha pra ajudar…

Alexandre Pavan — Gostavam ou tinham alguma relação com música?

Alaíde Costa Não muito, né? Depois que os meus pais se separaram, minha mãe casou de novo. O meu padrasto era ligado em música. Aí já tinha um rádio em casa.

Ricardo Tacioli — Antes não tinha rádio?

Alaíde Costa Não tinha rádio. Eu era bem menina, né?

Roberta Valente — Você tinha quantos anos quando eles se separaram?

Alaíde Costa Nove. E daí eu comecei a ouvir rádio e comecei a gostar de música. Mas eu sei lá, acho que sou meio doida: desde aquela época eu já gostava de uma música diferente, sabe? E foi bem difícil pra mim…

Ricardo Tacioli — E o que era uma música diferente ali, Alaíde?

Alaíde Costa Isso foi de 11 para 12 anos. O meu irmão, mais moço que eu, me inscreveu num programa de calouros num circo, porque eu vivia cantarolando em casa. “Ah, você vai, porque todo mundo fala que você canta bem, e eu te inscrevi”. “Mas eu não vou!” Eu era muito tímida. “Se você não for, a polícia vem te prender!” [risos] “Então eu vou!” Daí eu fui, mas era adulto misturado com criança, não-sei-o-quê, e eu acabei ganhando o prêmio.

Ricardo Tacioli — Você lembra o que você cantou?

Alaíde Costa Eu cantei uma música que Vicente Celestino cantava, que era o que tocava, né? Uma música até muito bonita, chamada “Minha terra”, que não era aquele dramalhão e tal. [n.e. Um dos artistas mais populares do país na primeira metade do século XX, conhecido como A Voz Orgulho do Brasil, o tenor, compositor e ator Vicente Celestino (1894–1968) eternizou temas autorais como “Coração materno”, “Pensando em ti”, “Mia Gioconda”e “O ébrio”] Daí eu cantei a “Minha terra” e ganhei o prêmio. E lá no bairro mesmo, na rua onde eu morava, na Bórgia Reis, um senhor resolveu montar um palco, um palanque no quintal da casa dele e fazer o programa de calouros lá. Aí toda semana eu ia e ganhava! [risos]

Ricardo Tacioli — Tinha prêmio, Alaíde?

Alaíde Costa Tinha prêmio, mas era bobagem, né? Eram prendas! Dinheiro mesmo que era bom, (nada)… [risos] Só no circo eu ganhei um dinheirinho. Que mais? Eu estava falando do Seu Álvaro, do palanque do Seu Álvaro… Eu ia toda semana, toda semana, até que aos meus 13 anos, uma mulher que era vizinha da minha mãe resolveu me inscrever na Rádio Tupi. “Mas o que eu vou fazer na Rádio Tupi?” Era um concurso que o Paulo Gracindo fez pra escolher uma menina pra cantar com um menino. E o nome do menino? Chuvisco! [risos] Aí era a dupla Chuvisco e Chuvisca! [risos] E eu ganhei o concurso. Eu me lembro que eu cantei uma música que era sucesso de Carnaval da Linda Batista: “Confesse”. [n.e. Na verdade, o samba de Sátiro de Melo e Nelson Trigueiro chama-se “Confesso”. Foi lançado por Linda Batista em 1949 em um disco de 78 rotações que ainda trazia outro samba, “Se me der na cabeça”, de Jorge Tavares e Nestor de Hollanda] É bonita! Naquela época era a chance que os compositores tinham através do Carnaval. Então eu cantei essa música “Confesse” e acabei ganhando o concurso. Aí fui várias vezes (à Rádio), disputei com outras meninas, e cantei outras músicas…

Ricardo Tacioli — Você tinha um ídolo nessa época? Você, tão menina, 12, 13 anos, gostava de algum cantor, alguma cantora?

Alaíde Costa Eu gostava muito… Peraí, com 12, 13 anos? Não, ainda não.

Roberta Valente — O Vicente Celestino era uma referência?

Alaíde Costa Não, não era. Era o que eu ouvia.

Ricardo Tacioli — E o que você não gostava, Alaíde?

Alaíde Costa Ah, não digo! [risos]

Ricardo Tacioli — Começa com qual letra? [risos]

Alaíde Costa Ah, não digo. Tinha muita gente que eu não gostava…

Ricardo Tacioli — Mas eles já se foram.

Alaíde Costa Não, é por isso mesmo.

Roberta Valente — Eles, os filhos…

Alaíde Costa É por isso mesmo.

Ricardo Tacioli — Então vamos falar dos vivos. [risos]

Alaíde Costa Já com os meus 15, 16 anos comecei a ouvir a Rádio Clube do Brasil. O Silvio Caldas tinha um programa semanal na Rádio Clube. Um dia ele cantou uma música chamada “Noturno (Em tempo de samba)” e eu falei “É essa música que eu quero pra mim! Noturno (Em tempo de samba)”… [n.e. Samba de Custódio Mesquita e Evaldo Ruy lançado por Sílvio Caldas (1908–1998) em 1944 e regravada por Elizeth Cardoso, Jamelão, Áurea Martins e pela própria Alaíde em 1973 no disco Alaíde Costa & Oscar Castro-Neves] Daí, toda vez que ele cantava — ele não cantava sempre, né? — eu escrevia a letra, escrevia um trecho da letra, porque não dava tempo também de escrever tudo, e ia memorizando a música. Aí aquela ficou (sendo) a minha música predileta, “Noturno (Em tempo de samba)”. Eu já havia começado a cantar em programas de rádio porque a tal da dupla não deu certo.

Roberta Valente — Chuvisco e Chuvisca?

Alaíde Costa Não, não deu… Aliás, fizeram até uma música ridícula para a dupla! [risos] A letra era do Paulo Gracindo e a música do Claudionor Cruz.

Roberta Valente — Oh!

Alaíde Costa Veja bem como era, eu não vou cantar, vou dizer a letra do Paulo Gracindo: “De onde vem essa pretinha / Parece que levou chuva / Não gosto de preta feia / Mas esta preta é uma uva”. [risos]

Roberta Valente — Meu Deus!

Alaíde Costa Isso ele cantava pra mim! [risos]

Ricardo Tacioli — Nossa!

Alaíde Costa Eu respondia uma coisa doida, sabe? Muito louco, muito louco, mas não deu certo a dupla. Aí eu comecei a cantar em tudo que era programa de calouros. Cheguei a cantar no Arraiá mineiroque era um programa que a Claudette (Soares) também cantou. Cantei no Papel carbono com o Baden (Powell), no Pescando estrelas… O Baden também participava. “Na hora do papo, pescando estrelas…” e não-sei-o-quê… Aí, de repente, resolvi que não ia mais cantar. [n.e. O programa de calouros Papel carbono foi criado e conduzido por Renato Murce (1900–1987) e revelou nomes como Dóris Monteiro, Ângela Maria, Roberto Carlos, Ivon Cury, Agnaldo Rayol e Ellen de Lima]

Alexandre Pavan — Por que?

Alaíde Costa Ah, sei lá, sei lá, não quis mais cantar…

Max Eluard — Mas isso menina ainda.

Alaíde Costa Isso com os meus 15 para 16 anos.

Ricardo Tacioli — A sua mãe aprovava você…

Alaíde Costa Ah, todo mundo queria que eu cantasse, menos eu. Era sempre empurrada. Depois que eu ganhei esse programa que eu vou contar cantando “Noturno (Em tempo de samba)”, eu me animei.

Roberta Valente — Tomou gosto!

Alaíde Costa Eu fui no (programa do) Ary Barroso, ele era crítico! Foi assim a história: a minha mãe lavava roupa para uma professora. Um dia essa senhora falou “Ah, Manuela — era o nome da minha mãe — por que você não traz a Alaíde pra ficar com as meninas e ir pra escola. Eu dou uma ajuda e não-sei-o-quê, ajudo nos estudos, ela fica com as meninas à tarde, e quando eu voltar ela vai pra casa”. Longe pra caramba da escola que eu estudava. Eu estudava no Encantado. Ia do Encantado para a Praça da Bandeira. Longe, muito longe, só tinha bonde, né? Um dia eu comecei a cantar, cantarolar, ela estava em casa e ouviu. “Por que você não vai ao Ary Barroso? Você canta bem!”. “Ah, Dona Vanda, eu tenho medo do Ary Barroso”. “Que medo o quê? Vai lá!” Eu já sabia o “Noturno (Em tempo de samba)” e de tanto a mulher falar eu fui. Aí eu fui no Bandolim de Ouro, comprei a partitura e me inscrevi. Aí me chamaram. Eu cheguei lá e não pude cantar no dia que eu fui chamada porque a partitura estava em outro tom. É uma música muito elaborada.

Roberta Valente — Tinha que levar a partitura para os músicos lerem lá, é isso?

Alaíde Costa Para um pianista, né? Ele falou assim: “Não vai dar! Vou falar com o Ary e você volta na próxima semana porque vou passar para o seu tom”. E ele fez isso…

Roberta Valente — Você lembra o nome do pianista?

Alaíde Costa Lauro Paiva. E aí eu voltei na semana seguinte com aquele medo, né? Eu tinha medo mesmo dele! [n.e. Pianista, organista e compositor baiano, Lauro Paiva radicou-se no Rio de Janeiro nos anos 1950 e lançou diversos discos até meados dos anos 1960]

Roberta Valente — Claro, ele era uma fera, né?

Alaíde Costa Ele: “O que você vai cantar?”. “Noturno (Em tempo de samba)!” “De quem é?” “Custódio de Mesquita e Evaldo Ruy”. “Vai cantar?” “Vou!””Vamos ver!” Eu cantei e ele me deu a nota máxima, que era cinco. Aí eu tomei gostinho… Na semana seguinte, já me inscrevi no Papel carbono. Aí entra a pessoa que eu admirava, uma cantora chamada Neuza Maria. Ela cantava assim, bem diferente das cantoras da época. Eu gostava de todas, mas ela, nossa! Eu aprendi muito com Dalva de Oliveira. Embora eu cante assim, de uma forma bem diferente da dela, aprendi muito com ela, mas não tinha muito a ver com a Dalva.

Roberta Valente — Você gostava da Carmen Miranda?

Alaíde Costa Eu era muito menina. Eu gostava, gostava, mas não cheguei a acompanhar muito né?

Roberta Valente — E a Aracy de Almeida?

Alaíde Costa Gostava. Quando eu estudava no Encantado, muitas vezes eu ia até o Meyer porque a minha mãe já tinha separado do meu pai e eu ia visitá-lo. Ele morava no Caxambi, aí eu descia no Meyer. Eu passava pela porta dela na rua Dias da Cruz…

Roberta Valente — Você passava de propósito pra encontrá-lo?

Alaíde Costa Não, eu passava porque pegava o ônibus ali. Eu parava pra ver se a via, né? [risos] E muitas vezes eu a vi.

Ricardo Tacioli — E você chegou a ter alguma história com ela, de cantar junto, encontro de bastidores ou de programa?

Alaíde Costa Não, de cantar junto, não. A primeira vez que eu falei com a Aracy, ela me apresentou a quem? Ao Herminio Bello de Carvalho!

Roberta Valente — Foi ela que te apresentou ao Herminio?

Alaíde Costa No Jogral, ali da Avanhandava. Ela levou o Herminio lá e foi ali que a gente se conheceu.

Alexandre Pavan — E nesse começo de carreira de cantora, Alaíde, você não havia tido nem uma aula de música? Na escola você tinha aprendido alguma coisa de música ou era somente de ouvir o rádio?

Alaíde Costa Não, tudo de ouvido.

Alexandre Pavan — Em algum momento você estudou música, pegou algum professor?

Alaíde Costa Muito tempo depois. Eu não sei, mas eu não tinha piano em casa, mas eu chegava nos estúdios, sentava lá e mexia no piano e saia alguma coisa. Foi uma coisa de intuição mesmo. E depois na Rádio Clube do Brasil tinha um grande compositor e pianista que sempre me dava umas dicas, o José Maria de Abreu. Ele falava “Faz assim!”, me dava umas dicas. Vim estudar um pouquinho muitos anos depois, porque (antes) eu não tinha condições, né? [n.e. Compositor paulista de Jacareí, José Maria de Abreu (1911–1966) é autor de clássicos da era de ouro do rádio, como “Boa noite, amor” (com Francisco Matoso), “Você” e “Alguém como tu” (ambas com Jair Amorim)]

Roberta Valente — Considero uma audácia você ir ao Ary Barroso cantar “Noturno (Em tempo de samba)”, que é a música difícil para qualquer cantor. É linda essa música!

Alaíde Costa É linda, né? Fiquei anos pra conseguir gravar essa música, mas muito tempo, muito tempo, ninguém aceitava…

Roberta Valente — Pois é, e pouca gente a conhece. Eu a conheci num tributo ao Custódio Mesquita, com a Rosana Toledo. Depois, pesquisando, descobri que você a tinha gravado também. Fui atrás da sua gravação e fiquei ouvindo, ouvindo, ouvindo…

Alaíde Costa Com o Oscar Castro-Neves. Arranjo bonito, né? [n.e. O violonista e compositor carioca Oscar Castro-Neves (1940–2013) é um dos nomes importantes da primeira geração bossa-novista. Participou do famoso Festival de Bossa Nova do Carnegie Hall, em Nova York, 1962, e radicou-se a partir de 1966 nos Estados Unidos, onde tocou com Sérgio Mendes, Flora Purim e Quincy Jones]

Roberta Valente — Lindo!

Ricardo Tacioli — Alaíde, você falou que nessa época você não tinha muito a ver com o jeito que as cantoras da época cantavam…

Alaíde Costa É, por isso que eu cantava…

Ricardo Tacioli — Como elas cantavam?

Alaíde Costa Elas cantavam bem, mas era assim, aqueles vozeirões. Era isso que o povo, os produtores queriam e eu não tinha pra dar. Então me davam a nota máxima. Eu ganhava os programas de calouro, mas não tinha chance profissional.

Max Eluard — Pra gravar ninguém queria…

Alaíde Costa E daí em 1956 um músico da Rádio Clube do Brasil, não, já era Mundial — a Rádio Clube fechou, pegou fogo, alguma coisa assim, e abriu como Mundial — me convidou pra fazer um teste no Dancing Avenida. Fui fazer o teste. Ele ainda falou assim: “Ó, é um teste, eu não sei se vão te aprovar!”. Fui e me aprovaram, mas aí eu tinha que cantar de tudo, tudo o que você pode imaginar, porque ia trocando de ritmo o tempo todo, né?

Max Eluard — E nesse momento qual foi a coisa mais estranha que você cantou, mais fora daquilo que você gostaria de cantar?

Alaíde Costa Eu não cantava, tive que aprender muita coisa…

Roberta Valente — Bolero, por exemplo?

Alaíde Costa Meu primeiro 78 rotações tem um bolero de um lado. [n.e. O primeiro disco de Alaíde Costa é um 78 rotações lançado em 1956 pelo selo Mocambo. Trazia dois sambas-canções, “Tens que pagar”, de Airton Amorim e da própria Alaíde, e “Nosso dilema”, de Hélio Costa e Anita Andrade. Em 1957, já pela Odeon, em outro 78 rotações, gravou o bolero “Tarde demais”, de Hélio Costa e Raul Sampaio] Na época era o auge dos boleros. E acho que o do tango também, né, porque tive que aprender muito tango e não versões, né? Tinha as versões, mas cada versão esquisita… [risos] Eu sempre preferi o original.

Roberta Valente — Você cantava foxtrote?

Alaíde Costa Tudo, minha filha! Baião e tudo mais! [risos]

Alexandre Pavan — Qual era a orquestra do Avenida nessa época, Alaíde?

Alaíde Costa Era um quinteto: Quincas e seu quinteto, que se chamava Os Cariocas, não…

Ricardo Tacioli — Os Copacabanas.

Alaíde Costa É isso mesmo, Os Copacabanas! [n.e. Trata-se do grupo Quincas e Os Copacabanas, liderado pelo saxofonista e maestro Quincas] E depois eu saí de lá, fui para o (Dancing) Brasil, aí cantei com o Ubirajara Silva, o pai do Taiguara. [n.e. Maestro de orquestras de dancing e bandoneonista morto em 2012] Depois voltei pro Brasil e fui lá que eu já cantava com outro grupo, que era d’O Gaúcho do Acordeom. Foi lá que surgiu a minha chance de gravação.

Alexandre Pavan — A gente está falando da época do Dancing Avenida?

Alaíde Costa Finalzinho de 1956 ou começo de 1957, por aí.

Alexandre Pavan — É nessa época que você começa a circular mais entre os músicos, porque até então você era muito nova, né?

Ricardo Tacioli — Você já tinha 20 anos?

Alaíde Costa É, espera aí: em 1952 eu tinha 16, então 20, né?

Ricardo Tacioli — É, em 1956.

Alaíde Costa Vinte.

Alexandre Pavan — Quem você conhece de músicos na noite?

Alaíde Costa Havia os intervalos, tinha o descanso, aí saía pra fazer um lanche ali na Cinelândia, onde se podia andar à vontade, né? Era bem light. Aí eu conversava muito com Ataulfo Alves, ele tinha um ponto de encontro de compositores na Cinelândia, embaixo daquele hotel que pegou fogo, Serrador. Hotel Serrador! Não tem o Rival? Era lá na esquina…

Alexandre Pavan — Do outro lado?

Alaíde Costa Não, saindo do Rival, indo sentido daquele parque…

Alexandre Pavan — Sentido Aterro?

Alaíde Costa Isso! Na esquina, não faz uma curva assim? Ali era um hotel chamado Hotel Serrador. Tinha, não lembro bem o nome, uma a boate que o Grande Otelo trabalhava lá. Tinha a Norma Bengell… Muita gente passou por aquela boate do Serrador… [n.e. Boate Night and Day] E embaixo era um ponto de encontro de músicos, de compositores… Ali eu conheci o Erasmo Silva. [n.e. Cantor e compositor baiano (1911–1985) radicado no Rio de Janeiro onde fez a dupla Verde e Amarelo com Wilson Batista. É autor do samba-canção “Dá-me tuas mãos”, gravado por Elizeth Cardoso e Nelson Gonçalves. Trabalhou no departamento de divulgação da gravadora Odeon] A gente conversava, porque eles também iam lá no Dancing, dançavam de vez em quando. Aí conversava muito, né? Mas o Ataulfo eu já conhecia, ele morava próximo à Água Santa, né? E eu sempre passava na rua que ele morava.

Ricardo Tacioli — Elegante?

Alaíde Costa Muito elegante.

Roberta Valente — Era gente boa?

Alaíde Costa Gente finíssima! Aliás há pouco tempo a Lua Music fez uma homenagem a ele.

Roberta Valente — Um álbum triplo.

Alaíde Costa Por sugestão minha: “Vamos fazer Ataulfo!”.

Roberta Valente — Que maravilha! Eu gravei.

Alaíde Costa Foi sugestão minha, pode perguntar para o Thiago. [n.e. O jornalista e produtor musical Thiago Marques Luiz]

Roberta Valente — Que maravilha!

Alaíde Costa Aliás, eu cantei uma música dele que as pessoas não conhecem. O Thiago ficou doido! É muito linda! E aí, ali no Dancing, um técnico de som da Odeon mandou um cartãozinho que queria falar comigo. Fui falar com ele. Ele falou assim: “Olha, gostei muito da sua voz, você tem um jeito de cantar bem diferente e o diretor da Odeon é um moço assim muito avançado e tal. Eu vou pedir um teste pra você. Quem está gravando lá é a Sylvinha Telles. [n.e. Uma das pioneiras da bossa nova, a cantora e compositora carioca (1934–1966) lançou em 1956 a canção “Foi a noite”, de Tom Jobim e Newton Mendonça, um dos marcos do novo estilo] Ele tem a cabeça aberta pra todos os tipos de música.”. Que bom, pensei. Aí eu fui lá, fiz o teste e fui aceita. E esse diretor era o Aloysio de Oliveira, né? E daí fui aceita e comecei na luta. [n.e. Um dos mais importantes produtores musicais brasileiros, o cantor e compositor carioca (1914–1995) integrou o Bando da Lua — grupo de apoio de Carmen Miranda –, e foi parceiro de Tom Jobim. Criou a gravadora Elenco nos anos 1960, época em que foi casado com a cantora Sylvia Telles]

Ricardo Tacioli — Mas antes teve o disco da Mocambo?

Alaíde Costa Pois é, esse disco da Mocambo foi em 1956 enquanto eu ainda no (Dancing) Brasil, no Dancing Avenida. Gravei e falaram pra mim que o disco não ia sair, que a gravadora ia fechar, que não-sei-o-quê. Só tomei conhecimento desse disco anos depois. Não tinha (o disco), aliás, não tenho.

Alexandre Pavan — Faliu? [n.e. Mocambo foi um selo da fábrica pernambucana de discos Rozenblit, inaugurada em Recife em 1953]

Alaíde Costa É, falaram que ia fechar mas continuou lá em Recife, né? E eu fiquei sem saber.

Ricardo Tacioli — E, Alaíde, como foi a primeira vez que você entrou em um estúdio para gravar? Você cantava no Dancing, em rádio. Tinha alguma diferença ou expectativa entrar no estúdio? Havia glamour? O que tinha?

Alaíde Costa Era muito esquisito. Sabe por que? Era muito diferente do que é hoje. Era assim: aqui ficava o grupo que tocava e ali o cantor; só tinha um biombo separando e se errasse (a música) parava tudo. Tinha que recomeçar e não tinha aquela coisa de arrumar e não-sei-o-quê. Era tudo ao vivo, não tinha essa coisa de colocar a voz depois. Aliás, eu acho muito melhor, eu não gosto de colocar a voz em nada, eu gosto de já gravar, fui acostumada assim, fica mais autêntico.

Roberta Valente — Respira junto…

Alaíde Costa É. Então, achei esquisito, né? Fiquei muito tensa, ainda não tomava calmante naquela época… [risos]

Roberta Valente — Uisquinho nem pensar.

Alaíde Costa Não, não tomava calmante… [risos]

Roberta Valente — Ah, esse calmante!

Alaíde Costa Aí, nervosa pra caramba…

Ricardo Tacioli — Você tinha algum ritual para espantar esse nervosismo?

Alaíde Costa Não, não tinha nada, inexperiente mesmo.

Ricardo Tacioli — Mas você chegou a pensar que sua timidez pudesse ser um obstáculo na sua carreira nesse momento em que você estava começando a vida profissional?

Alaíde Costa Não, eu não pensei, não, mas as pessoas diziam: “Ah, você precisa ser menos tímida”. Mas é uma coisa que até hoje (eu tenho). Eu estou descontraída aqui, mas me põe em um lugar assim…

Max Eluard — Cheio de gente desconhecida…

Alaíde Costa É, eita! Eu fico muito inibida mesmo. E quando eu vou cantar? Ah, é um suplício até hoje!

Max Eluard — Você sofre?

Alaíde Costa É sério! Eu entro lá e aí meu Deus! É uma coisa!

Max Eluard — Mas o que é?

Alaíde Costa Eu não sei o que é, é timidez mesmo… Quando eu estou sozinha, eu só me solto depois da segunda, terceira música, mas é difícil.

Max Eluard — Só voltando um pouco, Alaíde, quando você falou que sentiu o gosto de cantar logo no começo, você era levada, era empurrada…

Alaíde Costa Era empurrada mesmo.

Max Eluard — Mas qual foi o sentimento de pegar o gosto? Você lembra o que bateu na hora?

Alaíde Costa Foi quando eu fui ao Ary (Barroso), que ele me deu (a nota máxima). Ele era muito crítico.

Max Eluard — Mas foi somente por ele ter gostado ou teve alguma outra coisa?

Alaíde Costa Ah, acho que foi porque eu escolhi uma música difícil e era aquilo que eu queria pra mim.

Roberta Valente — Um desafio.

Alaíde Costa É, isso, era aquilo que eu queria pra mim. E daí, lá na Rádio Clube do Brasil, eu conheci uma pessoa incrível: Johnny Alf. Olha como eu sou louca: uma cantora chamada Mary Gonçalves gravou um LP de 10 polegadas com algumas músicas dele. Eu aprendi e ia cantar em programas de calouros. [risos] Sério mesmo! [n.e. Convite ao romance, disco lançado pela gravadora Sinter em 1953, com oito faixas, sendo quatro sambas-canções de Johnny Alf. Com acompanhamento instrumental de Quincas (sax), Zé Menezes (guitarra), Ari Ferreira (flauta) e Irany Pinto (violino); direção musical e arranjos do maestro Lyrio Panicali]

Alexandre Pavan — Já era uma divulgadora do Johnny.

Alaíde Costa Isso! Mas falavam assim: “Mas, menina, essa música?! Por que você não canta aquela que está fazendo sucesso, você tem mais chance?”.

Roberta Valente — Claro, ninguém sabia acompanhar! [risos] Imagino o pianista com “Noturno (Em tempo de samba)”.

Alaíde Costa Não, mas naquela época você ia às lojas e comprava as partituras. Era mais fácil.

Ricardo Tacioli — Nesse período dos anos 1950 tinha muito samba-canção, né?

Alaíde Costa Muito samba-canção. Eu cantei muito samba-canção, lógico. Muita Dalva de Oliveira, que eu adoro! Dalva de Oliveira, Dircinha Batista, Linda Batista, todas elas, eu cantava o repertório delas. Ângela Maria… Eu não tinha um repertório próprio, e por mais que eu tivesse, como crooner não dava, tinha que cantar tudo.

Alexandre Pavan — Você falou que sempre gostou de coisas diferentes e citou o episódio do “Noturno…”, do Custódio Mesquita. E o Custódio hoje é um compositor que hoje ninguém sabe quem é. Além dele, e mais pra frente, Johnny Alf, quais eram os compositores diferentes?

Alaíde Costa Ah, tinham vários. Valzinho, José Maria de Abreu, que eu cantava muito também, ele gostava muito de mim, me ensinava as músicas, eu ia no programa de calouros e cantava. Tinha o Ismael Neto, que tinha umas coisas muito lindas. Ah, tinha muita gente, mas esses foram os que tive mais contato. Garoto também tinha umas coisas lindas…

Ricardo Tacioli — Você chegou a conhecê-lo?

Alaíde Costa Não.

Ricardo Tacioli — Ele morreu em 1955.

Alaíde Costa Não, não cheguei a conhecê-lo.

Roberta Valente — E o Herivelto, você o conheceu?

Alaíde Costa Conheci.

Roberta Valente — Acompanhou o momento de sua separação com a Dalva?

Alaíde Costa Acompanhei. Tenho uma foto belíssima com a Dalva. Depois eu vou mostrar pra vocês.

Ricardo Tacioli — Alaíde, o Pavan perguntou sobre os compositores que tinham a mesma preocupação estética que você tinha. Havia outras cantoras e cantores que tinham essa preocupação pelo gosto do diferente, do que era diferente naquela época?

Alaíde Costa A Neuza Maria. Eu gostava mais da intérprete do que das escolhas. Ela cantava, mas fazia uma confusão lá no repertório. Cheguei a gravar uma música que ela gravou, que é muito bonita, “Murmúrios”, que era bem diferente para as coisas da época. [n.e. Cantora paulistana, 1928–2011, Neuza Maria começou a carreira nos anos 1940 e fez sucesso na década seguinte. Gravou de tudo: samba, bolero, fox-trote, baião e jingles] Tinha a Mary Gonçalves com quem aprendi as músicas do Johnny. Quem mais, hein?

Alexandre Pavan — Você ouvia a Zezé Gonzaga?

Alaíde Costa  Ah, tinha a Zezé também.

Roberta Valente — Dolores (Duran)?

Alaíde Costa Mas a Dolores, a Sylvinha, vieram depois dessas aí que eu estou falando. E tinha o Dick (Farney), o Lúcio (Alves), o Johnny… Tinha uma turminha que fazia uma coisa diferente. Tinha Os Cariocas também, né? Os Cariocas eram demais já naquela época.

Ricardo Tacioli — Você lembra do primeiro disco que você comprou?

Alaíde Costa O primeiro disco que eu comprei, por incrível que pareça…

Ricardo Tacioli — Vicente Celestino!

Roberta Valente — Foi o seu! [risos]

Alaíde Costa Por incrível que pareça, o primeiro disco que eu comprei foi do Astor Piazzolla.

Roberta Valente — Olha!

Max Eluard — Falou que tinha que aprender cantar tango… [risos]

Alaíde Costa Não, não, não, não foi por isso, não! Foi porque eu ouvi no rádio, não sei por que milagre, Astor Piazzolla cantando um tango, já em 1956, um tango muito diferente.

Max Eluard — Já era o “tango novo”?

Alaíde Costa Já. Aí eu fui e comprei. Ele se chama Piazzolla… o no?, não era tão moderno quanto foram os outros, mas já era moderníssimo. Foi o primeiro que eu comprei.

Alexandre Pavan — Gostava de uma coisa diferente mesmo.

LP Eduardo Gudin, de 1973. (Crédito: Reprodução)
Capa do primeiro LP de Eduardo Gudin, de 1973, fotografado no Bar do Alemão, em São Paulo. (Crédito: Reprodução)

Ricardo Tacioli — Dentro desse período, anos 1950, tiveram alguns fatos marcantes. Onde você estava quando soube da morte do Francisco Alves?

Alaíde Costa Parou o Rio de Janeiro inteiro.

Ricardo Tacioli — Você lembra onde você estava?

Alaíde Costa Em casa

Max Eluard — Foi uma comoção nacional.

Alaíde Costa Foi, eu estava em casa. O Francisco Alves até cantava umas músicas bem bonitas. Tinha muita coisa bonita.

Ricardo Tacioli — E da Carmen?

Alaíde Costa Da Carmen? Também foi outra que parou o Rio, aqui eu não sei (como foi), mas foi em 1949?

Ricardo Tacioli — 1955.

Alaíde Costa 1955? Em 1949 foi o…

Roberta Valente — 1952 foi a morte do Francisco Alves… Não sei se teve alguma marcante em 1949.

Alaíde Costa Teve alguma coisa em 1949 que eu também não lembro, eu não lembro.

Ricardo Tacioli — Eu não lembro.

Alaíde Costa Mas eu vou lembrar.

Ricardo Tacioli — Antes de pensar em ser artista, quais eram as opções (profissionais) que você vislumbrava?

Alaíde Costa Com toda a minha timidez eu queria ser professora. Adoro ler e escrever até hoje. E era uma coisa que eu pensava. Eu tinha uma senhora que dava aula particular, né? Aí eu arrumei um caderno e um lápis e fui pra lá. Aí minha mãe me procurando, me procurando, me procurando, até que alguém tinha me visto entrar na casa e falou pra ela: “Ela tá lá na Dona França”. Ela foi lá. E a Dona França: “Não, deixa a menina, deixa a menina!”. “Mas eu não posso pagar, Dona França!” Aí a Dona França começou a me ensinar. Eu tinha uns seis pra sete anos.

Alexandre Pavan — A Dona França foi sua primeira professora?

Alaíde Costa Minha primeira professora.

Max Eluard — Então você não ia na escola nessa época ainda? (A Dona França) foi antes de começar a escola?

Roberta Valente — Ela te ensinou a ler?

Alaíde Costa É, é uma história muito longa, essa história da minha alfabetização, porque eu queria estudar, mas deixa pra lá…

Max Eluard — Conta!

Ricardo Tacioli — Fala, Alaíde, faz parte.

Alaíde Costa Eu falei que não ia contar nada.

Roberta Valente — Conta.

Alaíde Costa Só essa. O meu pai fez o favor de não me registrar, não registrou nenhum dos filhos. Eu só fui ser registrada pelo meu padrasto. Já tinha nove anos quando eu entrei no colégio municipal, estadual, não sei. Acho que na época também mulher não podia ir sozinha registrar (o filho). Então foi isso que aconteceu…

Alexandre Pavan — Então você não podia estudar porque você não tinha registro (de nascimento) para ser matriculada. Mas quando você entrou no colégio as noções básicas você já tinha…

Alaíde Costa Era a primeira da turma, era a primeira!

Alexandre Pavan — Você já sabia ler?

Alaíde Costa Sabia, mas eu não fiquei tanto tempo com a Dona França, porque a coitada morreu, né? Não fiquei muito tempo, mas fui alfabetizada por ela.

Ricardo Tacioli — E esse gosto pelo magistério também se deve à Dona França?

Alaíde Costa Ah, sim. Eu tinha vontade mesmo, achava bonito ser professora. Hoje eu não acho bonito, não, porque é tanta luta. É muito difícil!

Roberta Valente — Acho até mais difícil do que ser cantor.

Alaíde Costa É, mas naquela época os professores eram bem…

Alexandre Pavan — Respeitados.

Alaíde Costa E ganhavam bem.

Roberta Valente — Eram tão respeitados quanto um advogado ou um médico.

Alaíde Costa É.

Max Eluard — Esse gosto pelo diferente era consciente? Você pensava “Eu quero diferente!”? Ou não, era o seu gosto que não coincidia com o gosto da maioria?

Alaíde Costa Acho que era o meu gosto que não coincidia. Não é que eu quisesse o diferente, eu só achava que eu não queria aquilo que acontecia. Então em casa era uma luta, “Canta isso, canta aquilo, canta uma coisa mais animadinha!”. [risos]

Roberta Valente — Uma marchinha de Carnaval!

Alaíde Costa “Canta uma coisa mais animadinha, canta uma música que tenha agudo!” Tinha que ter agudo para mostrar que tinha voz, aquelas coisas, né? E eu “Não, não vou, não quero!”. Era muito engraçado. A minha mãe me infernizava. Ela falava: “Você só fica cantando essas músicas. Canta uma música que tenha agudo, que você mostre a sua voz!”. “Mãe, eu não tenho voz!”, falava pra ela.

Ricardo Tacioli — Mas a sua mãe tinha um gosto por um tipo de artista ou por uma música que você pensa e lembra dela?

Alaíde Costa Não, ela gostava de qualquer coisa que tivesse muita alegria ou muito agudo! [risos]

Ricardo Tacioli — Ou os dois juntos!

Alaíde Costa Ou os dois juntos. Não, sério mesmo. Na realidade, da família quem me curtia era o meu irmão mais moço. Ele sempre me apoiou. A família queria que eu cantasse o que ela gostava.

Ricardo Tacioli — Esse irmão é o Adilson?

Alaíde Costa Isso.

Ricardo Tacioli — Se não me engano, esse primeiro disco, da Mocambo, já tinha música sua?

Alaíde Costa Isso, chama “Tens que pagar”. Desde cedo eu mexia no piano, compunha as minhas músicas e tal, e daí, agora eu posso falar, né? [risos] Agora eu posso falar, mas é verdade mesmo, antigamente se dava parceria. A gente dava parceria pra radialista, discotecário, pra música entrar (na programação). Ainda mais euzinha que vinha no comecinho (de carreira). Eu fiz letra e música. Uma letra boba, mas foi eu que fiz.

Roberta Valente — Você lembra de ter dado parceria para quem?

Alaíde Costa Um discotecário chamando Airton Amorim.

Roberta Valente — Ele não é parceiro do Monsueto (de Menezes) em “Me deixa em paz”? [n.e. Samba lançado em 1951 por Linda Batista e regravado 20 anos depois por Alaíde e Milton Nascimento em compacto simples do cantor e, no ano seguinte, como faixa do disco Clube da esquina]

Max Eluard — Deve ter sido nesse esquema também.

Roberta Valente — Também? Eu não sabia!

Max Eluard — “Põe meu nome aí senão não toco a sua música!” [risos]

Alaíde Costa Os próprios autores ofereciam a parceria,. E foi o que me aconselharam. Eu cheguei com a música que era minha e aí falaram: “Dá a parceria para alguém, dá pro Airton Amorim”…

Ricardo Tacioli — Qual foi a motivação para esse título “Tens que pagar”?

Alaíde Costa Uma bobagem. [risos]

Max Eluard — Era acerto de contas…

Alaíde Costa Vingança! [risos]

Max Eluard — E ele pagou?

Alaíde Costa Sei lá!

Ricardo Tacioli — Como você vê sua trajetória como compositora, dessa primeira música até hoje?

Alexandre Pavan — E, complementando, como é esse processo de criação? Você falou que brincava no piano mais com a cabeça…

Alaíde Costa Ah, a cabeça, né? Vem a intuição, aí eu sento lá, vou procurando os acordes, não-sei-o-quê, aí faz…

Alexandre Pavan — E aí você decora a música na sua cabeça ou grava tudo num gravador?

Alaíde Costa Não, eu vou decorando, eu escrevo pra não esquecer.

Roberta Valente — Mas você compunha sem instrumento?

Alaíde Costa Não, desde sempre mexendo no piano.

Ricardo Tacioli — Você vê uma evolução, um caminho, desse momento pra hoje? Você acha que amadureceu como compositora?

Alaíde Costa Ah, com certeza.

Ricardo Tacioli — Tem momentos mais importantes?

Alaíde Costa Com muita certeza. Eu acho que eu gostaria de conseguir, antes de partir daqui, fazer um CD só com as minhas composições. Eu sou muito crítica, então pra eu querer fazer isso é porque eu sei que as coisas são legais, são bonitas… [n.e. Nos dias 20 e 21 de abril de 2013, a cantora apresentou o show Canções de Alaíde no teatro do Sesc Santana, em São Paulo. No ano seguinte, lançou finalmente seu primeiro disco de autora, de mesmo nome do show, com produção de Thiago Marques Luiz]

Alexandre Pavan — E você tem alguns bons parceiros?

Alaíde Costa Tenho.

Ricardo Tacioli — Tem outros do quilate do Airton Amorim que não fizeram nada?

Alaíde Costa Não.

Ricardo Tacioli — Só ele?

Alaíde Costa Só ele.

Ricardo Tacioli — Foi o primeiro…

Alaíde Costa Primeiro e único!

Roberta Valente — Mas ele divulgou bastante.

Alaíde Costa Mas essa música não, porque eu não falei que o disco…

Ricardo Tacioli — Falou que o disco não saiu…

Alaíde Costa Anos depois que eu fui tomar conhecimento dele.

Roberta Valente — Entendi.

Ricardo Tacioli — Como o Pavan mencionou, quais são os parceiros com quem você tem uma construção mais profícua?

Alaíde Costa Ah, tenho uma composição com o Herminio (Bello de Carvalho) que eu renego hoje. Sabe por que? Assim, inconscientemente, fiz um plágio e, meu Deus do céu, meu Deus do céu, um dia ouvindo, acho que a (rádio) Eldorado, que tem ou tinha um programa de músicas clássicas às seis da tarde, tocou o início (da música) igualzinho, igual, igual… Falei: “Meu Deus!” É um prelúdio! Não sei se é do Chopin, eu não sei, mas é igual, mas somente o comecinho… Assim, logo de cara! Se fosse lá pelo meio… [risos]

Ricardo Tacioli — Põe ele na parceria também: Chopin, Alaíde e Herminio. [risos]

Max Eluard — Depois que você ouviu essa música, que você a identificou, você adquiriu consciência de que já tinha a ouvido antes de compor a sua música?

Alaíde Costa Não, não.

Max Eluard — Foi coincidência?

Alaíde Costa Isso! Olha, como eu acho também que foi coincidência com uma música do Piazzolla, que é daquele LP Maria de Buenos Aires. [n.e. Com música de Piazzolla e libreto de Horacio Ferrer, este tango-ópera estreou na capital argentina em 1968] Eu sou fanzoca do Piazzolla! Tem poesias e músicas cantadas e instrumentais. Enquanto o parceiro dele, não lembro o sobrenome, falava, ele ficava ao fundo com a orquestra… Sabe “Folhas secas”, do Nelson do Cavaquinho? O comecinho é igual. Eu não acredito que o Nelson tenha chegado lá no Piazzolla para fazer isso, né?

Ricardo Tacioli — E isso tirou o seu sono…

Roberta Valente — Ela renegou a música… [ri]

Alaíde Costa Cada vez que falam: “A sua música com o Herminio…” me dá uma vontade de sumir!

Roberta Valente — Como chama a música?

Alexandre Pavan — “Cadarços”?

Alaíde Costa “Cadarços”. E o Herminio falou: “O Maurício Carrilho é doido por essa música! Ele ainda não ouviu o prelúdio!” [risos] [n.e. Composição de Alaíde Costa com Herminio Bello de Carvalho, “Cadarços” é a faixa 10 do LP Águas vivas — Alaíde Costa canta Herminio Bello de Carvalho, de 1982]

Alexandre Pavan — Você tem uma parceria com o Tom Jobim também, não é?

Alaíde Costa Eu tenho uma com o Tom Jobim, duas com o Vinicius…

Roberta Valente — Com o João Gilberto também?

Alaíde Costa Não! Ah, mas foi o João que me levou para conhecer os meninos da bossa nova. Me levou, não, me deu o bolo, mas eu fui. [risos]

Roberta Valente — Deu o caminho.

Alaíde Costa É, me deu o caminho. A última parceria que eu tive foi com o Johnny. Mas foi ao contrário: o Johnny só faz música, né, aí eu estava fazendo um show com ele no Sesc Pompeia e no segundo dia ele chegou com um papelzinho assim, dobrado. Ele era tão tímido quanto eu. Até que hoje eu estou bem solta, né?

Alexandre Pavan — Os dois juntos não conversavam… [risos] Faziam músicas e eram tão tímidos que…

Alaíde Costa Aí ele chegou com um papelzinho dobrado e colocou na minha mão. “O que é Johnny?” “Leva e leia!” “O que será? Leva e leia?!” [risos] Aí no trajeto eu fui lendo. Era uma letra bonita, não tinha título, nada. No dia seguinte, no domingo, eu falei assim: “Johnny, que poesia bonita!” “É pra você musicar!”. “Johnny, para eu musicar pra você?” “É, pra você musicar!” Eu falei de novo: “Mas, Johnny, para eu musicar pra você?” “É, vire-se!” [risos] Aí eu me virei. Nessa época eu estava tendo aulas lá no CLAM com o Giba Estebez, que é o meu pianista. [n.e. Criado em São Paulo em 1973 pelo pianista e ex-Zimbo Trio Amilton Godoy, o Centro Livre de Aprendizagem Musical, CLAM, é uma escola de música popular e de jazz] Eu cheguei lá e “Giba, me ajuda aqui nesse acorde. Giba me ajuda aqui!”. Aí eu acabei musicando e ele (Johnny) adorou. Como não tinha nome, eu coloquei “Meu sonho”, que a letra vai por esse caminho de sonhos, né?

Alexandre Pavan — Quando foi isso?

Alaíde Costa Foi há uns sete anos, mais ou menos.

Alexandre Pavan — E você sempre manteve contato com o Johnny?

Alaíde Costa Não, eu não sei se você lembra de um show comigo, o Johnny e a Nana? Foi um final de semana, acho que há uns sete anos, por aí…

Alexandre Pavan — Você falou que sempre estiveram juntos. Vocês vieram pra São Paulo na mesma época ou ele veio um pouquinho antes?

Alaíde Costa Eu acho que ele veio antes, mas até então eu não tinha me aproximado dele.

Ricardo Tacioli — Você divulgava as músicas dele, mas…

Alaíde Costa É…

Alexandre Pavan — Mas não tinha uma amizade.

Alaíde Costa Não. Aí um dia eu fiz um programa chamado Brasil 60 e não-sei-o-quê, nos anos 50, 58 ou 59. Eu vim fazer esse programa que era apresentado pela Bibi Ferreira e daí a Ana Lúcia, lembra da Ana Lúcia…? [n.e. O programa Brasil 60, da atriz e cantora Bibi Ferreira (1922), inaugurou em 1960 a TV Excelsior e foi inovador por utilizar pela primeira vez o videotape. O sucesso do musical televisivo foi responsável pelas edições em anos posteriores, como Brasil 61Brasil 62]

Roberta Valente — Que gravou com o Geraldo Vandré?

Alaíde Costa É! A Ana Lúcia falou assim: “Sabe quem é que está cantando no Lancaster? O Johnny! Vamos lá?”. Eu já tinha gravado (o programa) e ele já tinha me visto em televisão. Aí eu fui lá no Lancaster. Tinha que subir umas escadas lá em cima na Augusta e eu me sentei com a Ana. Aí, de repente, ele anunciou a minha presença. “Ai, meu Deus do céu!” [risos] “Ai meu Deus do céu!” Ele me chamou para dar canja! Ele pediu pra eu cantar “Dindi”, que havia acabado de gravar. “Mas meu tom, Johnny, é complicado! Eu canto em Si maior!” Agora, de tanto falarem que o tom era difícil, passei pra Dó!” [risos] Não, passei porque eu tinha dificuldade porque Si maior é um tom difícil para piano. Tem uns tons que são complicados. Aí ele: “Não, vamos lá” e me acompanhou! E saiu bonitinho, saiu direito. É por isso que eu comecei a amizade com ele…

Alexandre Pavan — Ó, e que começo, hein?!

Alaíde Costa É.

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Alexandre Pavan — Essa sua vinda pra São Paulo foi sua primeira saída do Rio pra trabalhar fora?

Alaíde Costa — Não, eu já tinha vindo várias vezes nesse (programa) Brasil. Era em que ano? Eu acho que era em 1958.

Alexandre Pavan — Nessa época a bossa nova estava começando…

Alaíde Costa — Tava começando…

Ricardo Tacioli — Mas já se chamava de bossa nova?

Alaíde Costa — Em 1958 já era bossa nova.

Ricardo Tacioli — Mas se falava bossa nova como um estilo? Como se identificava?

Alaíde Costa — Quando começou essa história de bossa nova, que eu comecei a frequentar as reuniões de bossa nova nos apartamentos, que não eram só o apartamento da Nara Leão, era o da mãe do Nelson Motta… Por exemplo, a primeira reunião que eu fui foi na casa do Bené Nunes, pianista. Eram em vários lugares. Tinha um compositor chamado Nilo Queiroz que dava reuniões na casa dele.

Roberta Valente — Ele foi do Trio de Ouro?

Alaíde Costa — Não.

Ricardo Tacioli — Não, aquele era o Nilo Chagas.

Roberta Valente — Nilo Chagas era Trio de Ouro.

Alaíde Costa — Onde nós estávamos?

Ricardo Tacioli — Nas reuniões…

Roberta Valente — Nos apartamentos…

Alaíde Costa — Não, isso eu sei, a perguntar anterior.

Roberta Valente — Se já era chamada de bossa nova…

Alaíde Costa — Não, pois é, não era, não tinha nome quando começaram essas reuniões que o João falou que tinha uns meninos fazendo uma música diferente, que achava que eu tinha tudo haver com aquilo.

Ricardo Tacioli — Mas o João frequentava essas reuniões?

Alaíde Costa — De vez em quando, muito de vez em quando ele aparecia, mas era muito raro.

Ricardo Tacioli — Falou “Vá lá!” mas ele não foi.

Alaíde Costa — É, eu fui e não conhecia ninguém.

Roberta Valente — E como você foi recebida?

Alaíde Costa — Muito bem porque inclusive o Bené já tinha cruzado comigo na Rádio Nacional. Ele era casado com a Dulce Nunes. Ela me tratou bem, ela muito simpática e foi ali que eu conheci a turma toda: Oscar Castro-Neves, Carlinhos Lyra, Menescal, Ronaldo Bôscoli, Nara, que ainda não cantava, só era namoradinha… Mas não tinha nome, não. Aí, um belo dia, surgiu esse nome aí: bossa nova! Esquisito!

Max Eluard — Você lembra a primeira vez que você ouviu esse nome?

Alaíde Costa — É, eu ouvi: “Bossa nova não-sei-o-quê!”; “Festival de bossa nova”,vai ter um show de bossa nova. O primeiro show mesmo que houve foi na Escola Naval em 1959… Teve um aqui também, em São Paulo, no Teatro Record, quando veio uma turma grande do Rio. Vieram a Silvinha, eu, o Carlos Lyra, a Nara, quem mais? Uma menina chamada Laís Bezerra…

Alexandre Pavan — Esse (programa) que você está falando é do Walter Silva?

Alaíde Costa — Não, não, não.

Roberta Valente — Foi na Record…

Alaíde Costa — Um show no Teatro Record só de bossa nova. Participaram o Juca Chaves, a Elza Soares, o Geraldo Vandré…

Ricardo Tacioli — Sérgio Ricardo participou também?

Alaíde Costa — Não, nesse não! E quem mais que estava ali que eu me lembre? Não me lembro de mais ninguém… Acho que a Norma Bengell estava.

Ricardo Tacioli — Alaíde, se não me engano, o LP Canção do amor demais foi lançado em 1958 com a Elizeth Cardoso. Você lembra da sua impressão quando você ouviu aquele disco?

Alaíde Costa — Nossa, fiquei louca!

Ricardo Tacioli — Louca de raiva ou de… [risos]

Alaíde Costa — Nossa, louca pelas composições, por tudo, né? Muito lindo, nossa! Fiquei apaixonada!

Ricardo Tacioli — Você chegou a acompanhar o processo (do disco graças à) proximidade com alguém?

Alaíde Costa — Não.

Roberta Valente — Você já conhecia a Elizeth?

Alaíde Costa — Já.

Roberta Valente — Como vocês se conheceram?

Alaíde Costa — Na Rádio Nacional. A Rádio Nacional era praticamente o ponto de encontro de todos, de todas. E Canção do amor demais é muito lindo.

Alexandre Pavan — E o João Gilberto, como que vocês se conheceram? Você falou que ele pediu para que você fosse até (o apartamento) mas ele não foi. Então vocês já se conheciam?

Alaíde Costa — Não, não conhecia. Foi assim: conheci (o João) por telefone. Eu estava lá fazendo meu segundo 78 rotações na Odeon e não sei porque o João estava lá. Mas eu não vi João. Aí ele mandou o Aloysio (de Oliveira) falar comigo, que tinha os meninos fazendo uma música diferente, que achava que meu jeito de cantar tinha tudo a ver e tal; que a música que eu havia escolhido era bem assim, não era bossa nova, mas estava ali próxima, né? Aí ele gostou e o Aloysio falou assim: “Tem um moço, o João Gilberto, aquele que tocou no disco da Elizeth…”. Não, foi antes do disco da Elizeth! É, foi antes, foi antes do disco da Elizeth. “É um moço assim, assim…”. Ele citou o violonista do disco, até então os outros não tinham aparecido, não é isso mesmo? Carlos Lyra, Oscar Castro-Neves. Foi depois, sim… E daí um belo dia ele ligou lá, eu nem tinha telefone em casa, foi uma vizinha que deu o telefone, aí eu fui atender e era ele. “É o João! Tem um lugarzinho assim…”; e “pa-pa-pá”, eu anotei num papelzinho e fui da Água Santa para o Jardim Botânico. Pensa bem, é longe pra caramba. Naquela época era tudo muito longe, né? E aí chego lá e nada de João. Eu também não tinha visto o João. Falei assim: “O João está?”. Achei engraçado que todo mundo riu, não, não deu risada, não, um olhou pro outro assim e riu.

Roberta Valente — Será que ele já tinha aquela fama?

Alaíde Costa — Já. [ri]

Ricardo Tacioli — E como foi o primeiro encontro mesmo?

Alaíde Costa — Com o João?

Ricardo Tacioli — É.

Alaíde Costa — O primeiro encontro já foi assim: eu estava pra fazer o meu primeiro LP na RCA e o João estava numa dessas reuniões que foi na casa de um fotógrafo chamado Chico Pereira. Ele adorava música, sabe? E recebia gente sempre. E eu tinha um amigo que conhecia bem o João e falou assim: “Ah, você podia ir dar uma força e fazer um violão pra ela”. Aí ele se animou e foi pra fazer esse tal de violão, né? Chegou lá, a gravadora não aceitou, porque não acreditava ainda na bossa. Tinha lá um violonista, aliás, um fantástico violonista, mas que não sabia aquela coisa da bossa nova, não sabia mesmo, somente aqueles meninos lá.

Ricardo Tacioli — Quem que era esse violinista?

Alaíde Costa — O Zé Menezes! [n.e. O multi-instrumentista das cordas José Menezes de França (1921–2014), cearense de Jardim, trabalhou na Rádio Nacional, onde teve um programa com Garoto, foi integrante do Sexteto Radamés Gnattali, fundou nos anos 1960 o grupo Os Velhinhos Transviados, e a partir de 1970 assumiu a direção musical da TV Globo. Assinou a trilha sonora de programas como Os Trapalhões, Chico City e Viva o Gordo]

Roberta Valente — Ah, o Zé Menezes!

Alaíde Costa — Fantástico, né? Mas ele não sabia, na época não sabia. Aí, o João, milagre, mas milagre, milagre, às dez horas da manhã estava lá na RCA, mas não deixaram (ele gravar). Conclusão: a minha bossa nova parece rumba. [risos] Sério! Põe lá pra vocês ouvirem.

Ricardo Tacioli — E com o João você nunca gravou?

Alaíde Costa — Não.

Alexandre Pavan — Graças a RCA.

Alaíde Costa — E depois encontrei com ele na Nacional. Tem uma foto histórica, né?

Alexandre Pavan — É, tem uma série de fotos em que vocês estão na praia. Tem um banco…

Alaíde Costa — Não, ali é a Praça Mauá.

Alexandre Pavan — Ah, é a Praça Mauá.

Alaíde Costa — A Praça Mauá, em frente a Rádio Nacional. Então, nunca mais, nunca mais encontrei o João.

Alexandre Pavan — Mas essas fotos em que vocês estão juntos foram (produzidas) por quê?

Alaíde Costa — Porque a gente saiu junto da Rádio e tinha um fotógrafo da Radiolândia, qualquer uma daquelas (revistas), fotografou e acabei tendo a foto.

Alexandre Pavan — O registro que a RCA não fez o fotógrafo fez, né?

Roberta Valente — E você não o viu mais desde quando?

Alaíde Costa — Aí, não vi mais. Uma vez, ou melhor, eu o vi uma vez em que ele já morava nos Estados Unidos e veio fazer uma apresentação aqui na Record, no Teatro Record. Aí eu fui assisti-lo… Isso tem muito tempo!

Ricardo Tacioli — E nos últimos 20 anos…

Alaíde Costa — Não, nunca mais, 40 anos…

Roberta Valente — Nem ver e se nem falar?

Alaíde Costa — Nem falar, nada, nada. E ele fala?! [risos]

Ricardo Tacioli — E eu sempre achei que vocês fossem amigos…

Alaíde Costa — Não, não! Assim como o técnico de som da Odeon, ele também foi um anjo na minha vida, né?

Roberta Valente — E você também nunca mais o viu?

Alaíde Costa — Quem? O técnico? Eu o vi no dia do teste, no dia da gravação; quando eu voltei ele havia sumido, sumiu, nem a Odeon soube me explicar o que que aconteceu com o moço. Alguns anos atrás um dos filhos dele ligou pra mim, alguém deu o telefone. Ele ligou, disse que gostaria muito de me conhecer, de conversar, que ele havia lido uma entrevista minha em que eu falava do pai deles, nem eles sabiam do pai.

Ricardo Tacioli — Como ele chamava mesmo?

Alaíde Costa — Stênio. Nem eles sabiam do pai, sumiu assim…

Roberta Valente — Que loucura! E aí você o conheceu, você o recebeu.

Alaíde Costa — O menino? Ele ficou de me ligar de volta pra gente se encontrar, mas acabou…

Ricardo Tacioli — Alaíde, além do Stênio e do João Gilberto, tiveram outros anjos, nomes importantes que abriram portas pra você?

Alaíde Costa Ah, sim, sim. Por exemplo, o Moacyr Machado, que era diretor da Odeon aqui em São Paulo. Ele me viu cantando com o Milton (Nascimento). O Milton fez o lançamento de um desses discos dele no Teatro Municipal e sabia que eu estava lá e me chamou para dar canja, né? Eu já havia gravado com ele no Clube da esquina e estava sem gravar havia muitos anos. Daí fui assistir ao show do Milton e ele me convidou pra cantar. Eu estava lá na plateia. Ele sabia que eu estava. Aí fui lá e cantei o “Me deixa em paz” com ele. E pediram bis, aquela coisa toda. Ele falou: “Agora é com você!”. Aí eu cantei “Primavera” com o Wagner Tiso. [n.e. Música de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes gravada por Alaíde pela primeira vez em 1974] E esse Moacyr estava lá e falou assim: “Passa lá um dia desses pra gente conversar” e aí eu voltei a gravar.

Alexandre Pavan — O Milton falou “Vamos gravar o ‘Me deixa em paz’” ou foi sua a sugestão da música? Quem a escolheu? [n.e. Samba de Monsueto de Menezes e Airton Amorim lançado em 1951 por Linda Batista]

Alaíde Costa Não. Foi assim: eu estava num programa chamado Almoço com as estrelas e ele estava também. Ele se apresentou antes de mim e daí o Airton, como é…?

Ricardo Tacioli — Airton Rodrigues.

Alaíde Costa O Airton Rodrigues falou assim: “Milton, agora você fica aí que eu vou chamar uma pessoa que eu gosto muito e eu sei que você gosta muito também. Fica aí que você vai tocar com ela.” Mas eu não havia ensaiado com ele. Eu cantei com o trio com quem eu estava me apresentando em um lugar chamado Casa Forte, que era o Luiz Mello e seu trio. E lá no Casa Forte eu cantava o “Me deixe em paz” e fazia o maior sucesso.

Roberta Valente — Mas em ritmo de samba ou já lento?

Alaíde Costa Não, já daquele jeito que foi gravado. Daí, quando terminou, o Milton ficou lá, ele não conhecia essa música. Depois ele falou: “Desculpa, eu não conhecia (a música). Olha, nós vamos gravar essa música”. Falei assim: “Ah, é? Que bom!”. Aí passou o tempo, passou, passou: “Esqueceu!”. [risos] Um belo dia eu recebi uma ligação da Odeon. Não era o Moacyr Machado, era uma outra pessoa me convidando pra ir até o Rio pra gravar com o Milton “Me deixa em paz”.

Roberta Valente — Você considera o Milton um desses anjos?

Alaíde Costa Sim, porque foi ele que praticamente me fez voltar ao disco. Antes foi um período de muita mudança. Tive até proposta para gravar “Serenata do adeus” em ritmo de iê-iê-iê. [risos] Juro, juro mesmo! Sabe essas coisas que estavam acontecendo. E música de protesto, que não é a minha praia.

Ricardo Tacioli — Pelo que vi, esse período sem gravar foi de 1966 a 72. Foi isso mesmo?

Alaíde Costa Foi de 1965. A última vez que eu gravei foi em 1965. [n.e. Neste ano, a cantora lançou Alaíde Costa, álbum de 12 faixas que reunia “Sonho de um Carnaval”, de Chico Buarque, “Estou só”, de Johnny Alf, “Terra de ninguém”, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, “Diz”, de Walter Santos e Teresa Sousa, além da autoral “Tudo o que é meu”, parceria com Vinicius de Moraes. O disco contou com orquestrações dos maestros Erlon Chaves e Oscar Castro-Neves]

Ricardo Tacioli — Então nesse período de sete anos ficou recebendo propostas que não tinham a ver…

Alaíde Costa Indecorosas.

Roberta Valente — E não teve nada a ver com seu problema de audição…

Alaíde Costa Não! Eu só operei depois do Clube da esquina, depois do meu LP com Oscar Castro-Neves. [n.e. O disco Alaíde Costa & Oscar Castro-Neves, lançado pela Odeon em 1973, marcou o retorno da cantora aos estúdios para trabalhos individuais]

Alexandre Pavan — E que problema de audição foi esse?

Alaíde Costa Eu tive um problema chamado otoesclerose. O otorrino falou que a pessoa já nasce com o problema e quando atinge uma certa idade é que começa a aparecer. E apareceu justamente numa época muito difícil de trabalho, de tudo… E sem gravação a coisa ficava mais difícil.

Alexandre Pavan — E quais são sintomas da doença? Doía o ouvido?

Alaíde Costa Dor nenhuma.

Alexandre Pavan — Mas o que é?

Alaíde Costa É um zumbido. Quando eu deitava parecia que tinha uma pessoa cansada no meu ouvido, sabe? E quando tinha lugar muito silencioso, eu também sentia muito (isso).

Ricardo Tacioli — O fato de viver na noite, de viver cantando, da amplificação sonora, isso prejudicava mais ainda, intensificava o problema?

Alaíde Costa Humn, humn.

Alexandre Pavan — Agora nesse período de sete anos o que você fez?

Alaíde Costa Cantei!

Alexandre Pavan — E sem gravar…

Alaíde Costa Continuei cantando por aí afora mesmo sem gravar, né?

Roberta Valente — Você já estava em São Paulo, né?

Alaíde Costa Já. Aí, cantei no Igrejinha, no Jogral, esses lugares assim.

Max Eluard — E nesse período teve o AI-5, época em que a ditadura recrudesceu, e você falou que essa música de protesto não te atraía, não era a sua praia.

Alaíde Costa Não.

Max Eluard — Mas como que era a sua relação, Alaíde? Você era cobrada? Tinha um policiamento por parte dos músicos?

Alaíde Costa Não, não.

Max Eluard — Tinha espaço para você fazer a sua música…

Alaíde Costa Ah, claro, claro! Eu me lembro que, acho que foi em 70, a situação mais complicada que eu passei na vida artística. Foi em 71 em que eu fui convidada para cantar no Festival Internacional da Canção uma música do Hermeto Pascoal. O Hermeto Pascoal, sabe como é que é, né? [risos] Daí ele fez um arranjo, a música bonita, sabe?

Roberta Valente — Qual era a música, você lembra?

Alaíde Costa Chama-se “Serearei”. É toda com umas palavras, uns dialetos, umas coisas assim, mas a música era muito bonita. Ele fez um arranjo todo cheio de coisas, aí, pá e pá, quase dez minutos só de introdução. [risos] E eu lá parada e o povo “Uuuuuh!” [risos] O Maracanãzinho inteiro…

Roberta Valente — Nossa, que situação! [risos]

Alaíde Costa O Maracanãzinho em peso me vaiando… [risos]

Max Eluard — E você não tinha ainda aberto a boca…

Alaíde Costa E eu lá paradona! Dez minutos também é exagero, mas uns cinco… Mas um arranjo, aliás, dificílimo para entrar na música… Ai meu Deus, que sufoco! E ainda com aquele povo todo vaiando… Meu Deus!

Roberta Valente — Mas você conseguiu?!

Alaíde Costa Aí eu entrei e o povo vaiava… E o povo vaiava! Mas era o Festival Internacional da Canção e tinha um júri bem selecionado, e a música foi classificada! [risos] Aí lá fui eu para a final.

Alexandre Pavan — Garantia de mais vaias.

Alaíde Costa Eu acho que era a segunda. Aí eu entrei, começou a vaia, aquela vaia toda… E daí cortaram o meu som. Falaram que teve um problema técnico, que não-sei-o-quê, que eu tinha que sair, os músicos saíram… Aí foi todo mundo preso lá pra dentro do Maracanãzinho, não tinha camarim, eram aqueles lavatórios. Todo mundo preso.

Roberta Valente — E aí?

Alaíde Costa Ouviram que no meio da música o Hermeto ia colocar uns porcos… [risos] “Vai colocar uns porcos lá no palco!” [risos] Foram pesquisar e não tinha porco nenhum. E eu tinha que voltar no final da música, no final, porque, se eu não entrasse, o Hermeto teria que pagar uma multa de não-sei-quanto. E eu não queria. “Não entro mais! Não vou, não vou!” E o Hermeto: “Ah, eu vou pagar multa!”. Aí tá, lá fui eu. Vaia de novo! [risos] Aí menino, chegou uma hora que me deu um nervoso tão grande que eu peguei e falei assim: “Gente!”, no que eu falei “Gente!” cortaram o som. Aí eu joguei o microfone longe…

Alexandre Pavan — Baixou o Sérgio Ricardo…

Alaíde Costa Hã?

Alexandre Pavan — Baixou o Sérgio Ricardo.

Alaíde Costa É! Joguei o microfone longe!

Max Eluard — Pra cima da plateia?

Alaíde Costa Joguei longe… Não, era distante da plateia, joguei o microfone… Aí o povo, bah! [risos]

Ricardo Tacioli — Me dá mais microfone!

Alaíde Costa Aí começaram a me aplaudir! [risos] Daí sim, quando voltamos tinha mais polícia, gente presa, o Roberto Freire, lembra do Roberto Freire, né?

Alexandre Pavan — Ele estava como jurado.

Alaíde Costa Estava. Ele foi lá saber o que estava acontecendo e foi preso! Sabe, foi um auê! Inventaram que eu ia ler um manifesto subversivo [risos] só porque eu falei “Gente!”. Ó, deu pancadaria e tudo! Eu não apanhei, não, mas pelo amor de Deus!

Ricardo Tacioli — Alaíde, você é ou era amiga do Geraldo Vandré?

Alaíde Costa Sou.

Ricardo Tacioli — E desde quando?

Alaíde Costa Ah, desde os programas de calouros, como o Pescando estrelas. Ele cantava com o nome de Carlos Dias, depois ele mudou para Geraldo Vandré, que não sei se é o nome verdadeiro, né?

Ricardo Tacioli — E como você acompanhou esse percurso dele: primeiro nos programas de calouros, depois para o “Caminhando e cantando”?

Alaíde Costa O “Caminhando e cantando” veio depois, porque ele chegou a participar de algumas reuniões de bossa nova, chegou a compor com o Carlos Lyra. Daí o “Caminhando e cantando” veio depois, sei lá o que deu nele, na cabeça dele, que ele resolveu mudar o perfil…

Ricardo Tacioli — Acho que há uns dois anos ele voltou a dar uma entrevista, ele reapareceu. Você tem contato com ele ainda? [n.e. Em 2010, Geraldo Vandré foi entrevistado pelo jornalista Geneton Moraes Neto, da GloboNews]

Alaíde Costa De vez em quando, né? Mas ele faz umas propostas assim: “Vamos fazer um show?!”; “Vamos, Geraldo, vamos sim!”; “Mas não aqui no Brasil!”; “E aí, fazer show onde, hein?” [risos] “Aqui no Brasil eu não canto!” Aí teve uma história do Geraldo: houve um show ali no Pacaembu na posse da (Luíza) Erundina como prefeita (1o de janeiro de 1989), estava o Suplicy, não-sei-quem… Aí o Sérgio Ricardo ligou pra mim: “Alaíde, estamos com um problema aqui: o Geraldo Vandré disse que só vai se você for buscá-lo”. Lá fui eu buscar o Geraldo. Ele tinha, não sei se tem ainda, um apartamento na Martins Fontes.

Roberta Valente — Tem ainda.

Alaíde Costa Aí lá fui eu buscar o Geraldo. E lá foi ele. Chegou lá e já deu um problema: um segurança não queria deixá-lo entrar. Veio o Suplicy: “Não, pode deixar entrar!”. Ele estava injuriado por causa disso. E cheguei lá e cantei. A atrevida aqui cantou as “Bachianas n° 5”, de Villa-Lobos. Eu não tinha quem me acompanhasse, aí cantei a capella. [risos] Foi tudo muito bem. Aí eu anunciei o Geraldo Vandré. Todo mundo feliz, nossa, Geraldo Vandré! Aquela praça veio abaixo, sabe? Aí ele falou assim: “Eu vou apresentar a vocês a última composição minha, que se chama ‘Fabiana’, para a Força Aérea Brasileira”. Aí recitou a tal da “Fabiana”. Ai meu Deus, não tinha nada a ver, né? Todo mundo ficou decepcionado, sabe?

Ricardo Tacioli — Mas não foi vaiado?

Alaíde Costa Não, não foi mas…

Ricardo Tacioli — Foi um constrangimento geral.

Alaíde Costa É. Daí, de vez em quando, a gente se fala, mas ele com aquelas manias de cantar fora do Brasil estragou tudo.

Roberta Valente — Você o conheceu no comecinho da carreira. Há quem diga que ele não foi torturado. Ele mesmo deu um depoimento negando tudo, né?

Alaíde Costa — Ah, eu não sei, porque ele ficou muito tempo fora do país. Eu não sei, mas ele tem uma cicatriz que ele não tinha antes… Não sei, de repente tem os acordos…

Roberta Valente — Mudando de assunto, você conheceu o Mário Reis?

Alaíde Costa Ah, tá me tirando? [risos] Não, não tinha como, eu era muito criança.

Roberta Valente — Mas o Mário Reis viveu no Copacabana Palace até a década de 1970, né?

Alaíde Costa 1970? Ah é?

Ricardo Tacioli — E gravou Chico Buarque.

Alaíde Costa Ah, é mesmo? Desculpe a vergonha que eu passei… [risos]

Alexandre Pavan — Pensei que você não gostava dele…

Alaíde Costa Ah, não, eu entendi a pergunta se eu conheci pessoalmente, foi isso.

Roberta Valente — Foi isso…

Alaíde Costa Foi isso?

Roberta Valente — Mas você gostava?

Alaíde Costa — Gostava, gostava… Ele cantava bem diferente também.

Roberta Valente — Por isso que eu perguntei.

Ricardo Tacioli — E quem canta diferente hoje? Ou quem compõe que você gosta?

Alaíde Costa Ah, meu Deus! Tem tanta gente legal, mas eu prefiro não citar quando me fazem esse tipo de pergunta porque, como diz a gíria, é uma saia muito justa pra nós. Cita uma, aí você encontra a pessoa: “Ah, você falou de fulano e não falou de mim”. “E as cantoras da nova geração, o que você acha?” Eu não acho porque é uma situação muito complicada. Prefiro não falar.

Roberta Valente — Você só vai falar depois que desligarem a câmera?

Alaíde Costa Não! [risos] Mas não é? Aí fala de uma, tem uma que é tanto sua amiga e você gosta mais da outra que não é tão sua amiga e aí fica aquela situação. Ou amigo mesmo, né?

Ricardo Tacioli — Olha, a gente está caminhando para o finalmente, somente pra não estender demais…

Alaíde Costa Então deixa eu molhar a palavra.

Roberta Valente — Ouvi em uma entrevista que você falou que em um desses festivais que você ganhou, o prêmio era um programa na TV Tupi.

Alaíde Costa É, foi esse da Record. Era assim: o público entrava e votava no cantor ou cantora que queria. Aí eu me lembro que o Geraldo Vandré e o Carlos Lyra ficaram empatados e eu ganhei sozinha. Era um programa chamado No balanço do samba, mas ficou somente três meses no ar. Foi uma coisa assim, relâmpago.

Roberta Valente — Ah, entendi…

Ricardo Tacioli — E com a sua timidez, como é que você lidava com a câmera, Alaíde?

Alaíde Costa Humn…

Ricardo Tacioli — Programa mudo

Alaíde Costa Não, falar mesmo eu não falava, hoje eu até que falo muito.

Ricardo Tacioli — Alaíde, você se acha uma artista reconhecida por tudo o que você fez? Como é que você lida com o reconhecimento?

Alaíde Costa Ah, eu nem sei, não sei avaliar isso não. Uma coisa eu sei: as pessoas respeitam o meu trabalho, respeitam a forma como conduzo a minha carreira, de não entrar nessa de concessões. Mas eu não faço isso de não entrar nas concessões pra ser diferente, é porque o que me atrai é o que eu faço, então sigo meu caminho e pronto.

Alexandre Pavan — E você tem bastante trabalho? Você consegue fazer os seus shows ou você poderia fazer mais?

Alaíde Costa Ah, poderia, de certo, acontece de eu ficar meses sem fazer uma…

Alexandre Pavan — Sem fazer uma apresentação?

Alaíde Costa É.

Alenxandre Pavan — Para a classe artística é uma música tão rica, que deu tanta coisa pra economia brasileira e pra sociedade e ainda hoje não se tem um plano de aposentadoria decente para o músico. Se você tivesse seguido a carreira de professora sua situação não seria diferente. Você vê alguma evolução? Você tem uma carreira tão extensa, conhece tanta gente, acompanhou e tem amizades com todas as gerações, como você vê a sua geração em relação às anteriores?

Alaíde Costa Da minha geração tem poucas sobreviventes. Da minha geração somente a Claudette Soares, Dóris Monteiro… Acho que não tem mais ninguém, todas já se foram…

Alexandre Pavan — E o reconhecimento da Claudette é maior do que o seu, não estou falando em relação…?

Alaíde Costa Eu sei, sei, mas isso eu não sei responder.

Alexandre Pavan — Mas a sua geração, pela importância que teve, ela foi bastante reconhecida? Tem o reconhecimento que merece?

Alaíde Costa Bom, eu sei que, que quando faço as minhas apresentações, sou muito bem recebida e sempre tenho público. Então, o reconhecimento do público eu tenho. Acho que o (reconhecimento) da mídia é que eu não tenho, não falo de um modo geral, porque tem várias pessoas da mídia que me apoiam, mas de um modo geral a mídia está voltada para o modismo, para quem está aparecendo, e com isso, os outros, não estou falando somente de mim e da Claudette, muitos outros vão ficando para trás, quando há espaço para tudo, né?

Roberta Valente — Você tem um empresário?

Alaíde Costa Eu tenho. [n.e. O produtor Nelson Valencia, que também empresariava Johnny Alf]

Ricardo Tacioli — Quando se fala de bossa nova, algumas figuras que foram tão importantes quanto você e o Johnny Alf ficam a margem desse reconhecimento para a bossa, né? Como é isso? É difícil pra você, Alaíde?

Alaíde Costa Sabe o que eu acho? Quando eu cheguei ali naquelas reuniões, eu já era uma profissional. Então eu vi um pouco de interesse que eu levasse a coisa mais, sabe, como eu quis gravar e gravei muitos deles antes mesmo do João, entendeu? E aí depois esquecem, esquecem… Eu já era profissional, mas vivi aquilo tudo…

Ricardo Tacioli — Você foi uma ponte quando interessava…

Alaíde Costa Humn, humn.

Ricardo Tacioli — E quais são os seus planos?

Alaíde Costa Ah, planos eu tenho… Um deles é gravar as minhas composições.

Alexandre Pavan — E você continua compondo?

Roberta Valente — Quantas músicas você tem?

Alaíde Costa Ah, eu nem sei, não tenho muitas, mas um pouquinho; trinta eu tenho, né?

Roberta Valente — Estão registradas?

Alaíde Costa Não.

Roberta Valente — Não?!

Alaíde Costa Não, mas algumas estão em uma editora. É a mesma coisa, né?

Alexandre Pavan — Mas estão na sua cabeça?

Roberta Valente — Ou no papel?

Alaíde Costa Ah, sim, sim, uma vez eu fiz uma apresentação na UMES, aqui em São Paulo cantando só as minhas composições.

Roberta Valente — Eles gravavam? Você não tem esse registro gravado?

Alaíde Costa Não. Ou melhor, eu tenho sim, mas aquela coisa que não chegou a ser um CD, sabe? Depois dessa minha apresentação é que começaram a fazer os CDs…

Alexandre Pavan — Você continua tendo aula de música no CLAM?

Alaíde Costa Não. Eu tive bolsa, mas aí cortaram a minha bolsa… [risos] Contenção de despesas.

Ricardo Tacioli — Cortaram a bolsa da Alaíde!

Alexandre Pavan — Você que tem uma história que é inegável, que a gente só tem que aplaudir, você continua tendo aula de música ou continua querendo aprender, fazer coisa nova…

Alaíde Costa Ah, eu aprendo todo dia. Cada vez que eu vou cantar, eu aprendo um pouquinho, comigo mesma mas eu aprendo…

Roberta Valente — Lembrei de uma coisa: um amigo meu alagoano que é violonista e mora em Brasília me contou que uma vez estava no camarim com o Raphael Rabello, com você e com um grupo, e que aí o Raphael falou assim: “Alaíde, dá um Lá!”. E aí você deu um Lá e o grupo inteiro afinou em cima do seu Lá. [risos] Você lembra disso?

Alaíde Costa Não, não lembro. Ah, acho que foi em um daqueles projetos do Herminio, Projeto Pixinguinha, que fiz com o Raphael Rabello, Turíbio Santos e Copinha.

Ricardo Tacioli — Alaíde, se deixar a gente vai madrugada afora…

Roberta Valente — Tem mais alguma coisa que você quer contar pra gente que não foi perguntada?

Alaíde Costa Não.

Roberta Valente — Às vezes o entrevistador peca, né?

Alexandre Pavan — O Herminio passa muito trote em você?

Alaíde Costa Passa. [risos]

Ricardo Tacioli — Qual foi o último?

Alaíde Costa Ah, tem um tempinho que ele não passa.

Ricardo Tacioli — Mas teve um clássico? Um que você não esquece, que você lembra e fala “Eu ainda vou pegar esse Herminio!”?

Alaíde Costa Ele passa muitos.

Roberta Valente — Como assim, por telefone?

Alaíde Costa É.

Roberta Valente — Ele liga falando que é outra pessoa.

Alaíde Costa Não, ele muda a voz. Aí eu caio… [risos]

Alexandre Pavan — E você já deu o troco nele?

Alaíde Costa Não.

Alexandre Pavan — Dá o troco nele, mas com a sua voz vai ser difícil, né? [risos]

Alaíde Costa Num outro dia eu mesma ri, porque liguei para um amigo meu e falei assim: “Sabe quem está falando?”. [risos] Ele falou: “Larga mão de ser boba!” [risos] Uma vez eu fui a uma reunião, num desses programas que tinha na Record que era do Eduardo Moreira, você conheceu o Eduardo Moreira?

Ricardo Tacioli — Não, eu não conheci. [n.e. Adolfo Eduardo Moreira, produtor de programas de música brasileira da TV Record]

Alaíde Costa O Paulinho Nogueira falou assim: “Ah, vai ter uma reunião na casa do Eduardo e ele está te convidando. Vamos lá!”. O Eduardo era o produtor. Aí eu fui. Cheguei lá, uma mulher me olhava, mas ela me olhava com uma cara esquisita do tipo “Ih, quem é essa aí?”. E eu não tinha feito nada pra ela. De repente, alguém me apresentou. Daí eu comecei a conversar com ela e ela falou assim: “Eu não gostava de você!”. “É?” “Não, não você a cantora, você a pessoa.” “Ué? Por que? Eu não te conhecia.” Aí ela falou assim: “Porque o meu marido falava assim pra mim: ‘Isso que é delicadeza! Essa mulher que fala assim, fala assado…’. E eu não gostava mesmo, eu achava que você falava assim para fazer charme!”. [risos] Ai meu Deus! Louca, né? Quem é que consegue fazer charme tantos anos assim?

Roberta Valente — Além das suas músicas, tem alguma que você gostaria de ter gravado e não gravou?

Alaíde Costa Tem, tem muitas.

Roberta Valente — Sou apaixonada por pelo menos metade da sua obra.

Alaíde Costa — Obrigada.

Alaíde Costa E eu tenho uma música que imagino que ficaria incrível com você que é a “Obra-prima”, do Lúcio Cardim. Você conhece? “Levar você de mim é mais fácil que trazer / Difícil é fazer você feliz…”.

Alaíde Costa Ah, conheço…

Roberta Valente — E fiquei imaginando se você conhecia.

Alaíde Costa Não, nunca me passou pela cabeça.

Roberta Valente — Essa é uma que eu gostaria de ouvir você cantar. [risos]

Alaíde Costa Hum, sabe “A dama de vermelho”, do meu disco com o Oscar Castro-Neves?

Roberta Valente — Sei…

Alaíde Costa Já ouviu?

Roberta Valente — Já, mas não me lembro…

Alaíde Costa Quem cantava era o Chico Alves.

Roberta Valente — Do repertório dele?

Alaíde Costa Eu adorava.

Roberta Valente — Essas músicas do Oscar, do Luverci, essas que você gravou, considero tudo uma obra-prima. Você conheceu o Bom Motivo, aquele bar que ficava na rua Lacerda Franco em Pinheiros?

Alaíde Costa Fui lá uma vez, mas como júri de um festival.

Roberta Valente — De um festival de música que eles fizeram… Eu estava lá! O dono desse bar cantava todas essas músicas que ele conheceu por seu intermédio. Era uma das poucas pessoas na noite que cantava suas músicas, que são dificílimas.

Ricardo Tacioli — Alaíde, foi difícil (a entrevista)?

Alaíde Costa Não.

Ricardo Tacioli — Não, né?

Roberta Valente — A gente podia caprichar mais nas perguntas…

Ricardo Tacioli — Agora vai começar a parte difícil… [risos]

Alexandre Pavan — A próxima meia hora vai ser…

Ricardo Tacioli — Alaíde, vou fazer minha pergunta faixa-bônus: qual momento de sua carreira que você considera seu auge artístico?

Alaíde Costa Foi o “Onde está você” no Teatro Paramount, porque foi um festival que teve, mas não um desses competitivos.

Roberta Valente — Era uma mostra.

Alaíde Costa É, tinham várias cantoras. Deixa eu ver se eu lembro: Ana Lucia, minha amiga que faleceu há pouco tempo, Paulinho Nogueira, Claudette, Oscar, Nara, Wanda Sá, muita gente, né? O Oscar sempre foi meu companheiro desde a bossa; ele ligou pra mim: “Vou fazer os arranjos pra você. Chego amanhã”. Ele chegava um dia antes do show. “E o que você vai cantar?” Eu havia escolhido “Tristeza de amar”, do Luís Roberto e Geraldo Vandré, e eu nem me lembro da outra música que escolhi. Acho que foi “Lágrima”, que era uma música dele. Aí ele falou assim: “Lalica” — ele me chama de Lalica — “acabei de compor uma música com o Luverci” — o Oscar só teve parceria com o Luverci. “Eu acabei de compor com Luverci e da próxima vez você vai cantar, tá?”. “Ah, é? Tá bom. Deixa eu ver.” Depois que eu havia cantado com ele, falei “Não vai ser da próxima vez, vai ser amanhã!”. Aí aprendi a música, fui lá e cantei. No meio da música, o pessoal ficou em pé e começou a aplaudir uma música inédita! E eu comecei a chorar! Eu chorava tanto, mas eu chorava tanto! Foi um momento…

Roberta Valente — O auge.

Alaíde Costa É. E foi dali que começou aquela moda de aplaudir no meio. Começou comigo ali no Paramount.

Roberta Valente — O Oscar mora há muitos anos fora do Brasil, né?

Alaíde Costa Em Los Angeles.

Roberta Valente — Você já pensou em ir pra lá trabalhar com ele? Você teve convites?

Alaíde Costa Eu tive convites. Dá vontade de bater na minha cara. Sabe quem me convidou? Oscar Peterson! E eu não fui!

Roberta Valente — Por que?

Alaíde Costa Ah, eu estava com dois filhos pequenos, casada, aquelas coisas, né? Ele veio fazer uma apresentação ali no que agora é Cultura Artística. Era a TV Excelsior. Ele veio fazer uma apresentação ali e tinha um moço que o apelido dele é Paulo Dana. Esse Paulo Dana pegava os artistas estrangeiros, americanos, franceses e levava nos lugares que ele sabia que tinha boa música. Eu estava fazendo um show com o Johnny, a Ana Lucia e Paulinho Nogueira em um lugar chamado Canto Terço, que era do lado do João Sebastião Bar. Eu estava cantando “Insensatez”. De repente, eu vi que mudou o som do Johnny. Era o Johnny que me acompanhava e mudou o som. Eu olhei e era o Oscar Peterson! Ele pediu licença pro Johnny! Saiu nos jornais no dia seguinte: eu e ele tocando, me acompanhando. Tenho os recortes de jornais. Já pensou? Não falo inglês, não entendo nada. Ele conversou com o pessoal, (disse) que era pra eu ir no Cultura Artística, que ele ia me convidar para cantar, mas aí o marido não deixou porque era um show, era mesmo, um show montadinho. Um saindo já fazia diferença, mas eu acho que os meus amigos iam entender, né? Mas o meu marido ficou no meu pé.

Max Eluard — Ficou morrendo de medo…

Alaíde Costa Ficou morrendo de medo… [risos] Aí (o Oscar Peterson) falou para o Johnny que queria me levar…

Roberta Valente — Você acha que o casamento atrapalhou sua carreira?

Alaíde Costa Não, não… Foi somente nessa situação, mas também eu não iria mesmo, porque largar dois filhos pequenos, sei lá, eu não iria mesmo… Mas ele cortou a chance de eu cantar com ele (Oscar Peterson) naquele teatro.

Ricardo Tacioli — Alaíde, são quase 11 horas, senão a gente começa uma outra entrevista. Tem um monte de capítulo que a gente nem passou por cima…

Roberta Valente — Nem falamos do Vinicius, da história do piano… Se você foi apaixonada pelo Vinicius ou não…

Alaíde Costa Fiz um Ensaio que vai passar dia 29. Eu te falei, né?

Ricardo Tacioli — Falou.

Alaíde Costa Aí o Faro [n.e. Fernando Faro, produtor e diretor do programa Ensaio, da TV Cultura] fica “Fala do Vinicius. E aí…?” [risos]

Ricardo Tacioli — Mas, Alaíde, e o Vinicius?

Alaíde Costa Todo mundo quer saber o que é que o Vinicius fez para me dar o piano. Ah, pelo amor de Deus! O que o Vinicius fez, não, o que eu fiz!

Roberta Valente — Não, eu não ia fazer essa pergunta.

Alaíde Costa Não, mas querem saber.

Roberta Valente — Eu ia perguntar da música “Amigo amado” que ele fez a letra e te deu.

Alaíde Costa É. Em 1960 eu fui levada pelo Baden à casa do Vinicius que ele queria me conhecer. Me ouviu, gostou muito e não-sei-o-quê… Lá fui eu pra casa do Vinicius. Quase todo dia tinha reunião na casa de Vinicius. E todo mundo ia lá pra casa de Vinicius. E eu sentava lá ao piano e mexia aqui, mexia ali. O Moacir Santos de vez em quando aparecia lá. Ele falou assim: “Por que você não vai estudar com o Moacir?”. “Mas, Vinicius, eu não posso estudar com o Moacir. Como é que vou estudar com o Moacir? Pra começar, eu não tenho piano.” “Ah, você vai estudar com ele. Você sai de lá e vem estudar aqui.” O Moacir morava ali na Glória. Não tem a Taberna, naquela rua que sobe? Então, Moacir morava ali e o Vinicius lá no Parque Guinle. Falei assim: “Eu vou falar com o Moacir, pode deixar por minha conta”. Daí fui estudar com o Moacir. O Moacir tem aquele esquema que o CLAM tem: são dois pianos, um para o aluno e outro do professor. O Moacir já tinha esse método. Comecei mas infelizmente (durou) poucos meses, porque ele já estava para ir para os Estados Unidos. E quando ele já estava com tudo certo para ir, falou assim: “Você não quer comprar o piano?”. “Ah, Moacir, eu não tenho condições de comprar o seu piano.” “Conversa com o Vinicius. Ele é tão seu amigo, conversa com ele. Ele paga o piano pra mim e você vai pagando pra ele.” “Ai, Moacir, eu não vou…” E não falei nada com o Vinicius, mas ele mesmo foi e falou: “Ó, eu estou querendo vender o piano pra Alaíde e ela disse que não tem condições, mas como ela gosta tanto e leva muito jeito, eu achava que este piano devia ficar com ela”. Eu sei que o piano foi pra mim. Antes eu saía e ia pra casa dele para estudar. O Vinicius falou assim: “Você é uma boba mesmo, né? Por que que não falou que o Moacir queria vender o piano e que você não podia comprar? Nós somos amigos ou não somos?”. Todo mundo acha que ele tinha interesse em mim, mas não tinha, ele gostava de mim. Do jeito que ele era, não sairia em tudo quanto era manchete? Todas saíram, não foi? Não é verdade?

Ricardo Tacioli — Não sei. Mas ele tinha uma conversa boa, né?

Alaíde Costa Ah, se tinha! [risos]

Roberta Valente — Nossa, devia ser um perigo!

Alaíde Costa Mas ele era uma pessoa muito legal! Daí deu nisso! No piano! O Moacir foi embora e eu comecei a me virar sozinha lá, tentando fazer as minhas composições. Aí um dia eu cheguei na casa dele e falei: “Vinicius, olha a música que eu fiz”. Daí ele sentou do meu lado, na época ainda tinha um daqueles gravadorzinhos… Aí ele falou: “Bonita! Eu vou gravar. Posso gravar?”. “Pode, lógico!” E ele gravou as duas que eu tinha feito. Ele tomava todas, vocês sabem [risos], mas ele se cuidava muito, né? Ele mesmo ia pra clínica.

Roberta Valente — Ele se internava.

Alaíde Costa Um dia ele foi para a Clínica São Vicente. Ele ligou: “Alaidinha, vem cá. Vem aqui me fazer uma visita que eu tenho um presente pra dar pra você”. Aí eu cheguei lá. “Abra a gaveta. Tem um presente pra você.” Eu procurei, procurei, não vi embrulho nenhum… [risos] Já pensei num presente. “Vinicius, eu não achei!” “Mulher, não tem um papelzinho dobrado? Pega ele!”. Eu peguei e eram as duas letras das duas músicas que eu tinha feito. Uma se chama “Amigo amado” e a outra “Tudo que é meu”. Presentão, hein?

Roberta Valente — Nossa Senhora!

Ricardo Tacioli — É isso aí.

Alaíde Costa Aí a história do piano. [risos] Não terminei a história do piano… É o calmante, é o calmante que solta a língua! [risos] Olha a vergonha que eu já passei: cada vez que eu encontrava, não ganhava dinheiro. Naquela época era amor a arte mesmo! Não se ganhava dinheiro não, gente! Fazia, fazia aqueles shows de graça, ia para a televisão de graça, tudo de graça… para aparecer, mas não ganhava dinheiro. Quando ganhava era uma miséria que mal dava pra…

Roberta Valente — Pagar a condução…

Alaíde Costa Pra suas despesas. E eu cantava na noite, aqui e ali, para sobrevivência mesmo. Como eu já tinha o piano, já não ia mais ao Vinicius. E quando tinha alguma reunião, me convidava, e eu chegava: “Ai, Vinicius, não tenho nenhum dinheiro para te dar, estou envergonhada”. “Ah, deixa isso pra lá!” Passaram-se acho que quase dois anos e eu sem um tostão! [risos]

Alexandre Pavan — Nenhuma parcela!

Alaíde Costa Não! Nenhuma parcela! Eu não ganhava. Ou eu pagava o piano ou morria de fome. Ou pagava o piano e ia para o meio da rua com o piano e tudo. Aí um belo dia, sei lá o que deu nele, eu falei “Vinicius, e aí, não tô podendo pagar o piano!”. Ele falou assim (gritando): “Para de falar nesse diabo deste piano! O piano é seu, fica com esse diabo desse piano!”. [risos]

Roberta Valente — Ele ficou bravo?

Alaíde Costa Ficou bravo. E aí eu fiquei com o diabo do piano até hoje. [risos]

Ricardo Tacioli — É aquele que foi fotografado (para a exposição Pioneiras)?

Alaíde Costa É.

Roberta Valente — Aquele em que você está ao piano, com as fotos na parede?

Alaíde Costa É. Só que era marfim.

Roberta Valente — E agora?

Alaíde Costa Agora escureceu. Houve um tempo em que ele deu cupim, lá no Rio ainda, foi difícil arrumar um lugar para consertar porque ele é de uma marca, Delarue, francesa, e só tem um lugar no Rio, lá em Piedade. Ele foi para lá, mas voltou marfim. Quando eu vim para cá, que eu precisei arrumar, aí eu consegui um moço na Aclimação e escureceu tudo gratuitamente para mim. Ele é bem antigo. Comigo ele está há quantos anos? Sessenta?

Ricardo Tacioli — Uns cinquenta e pouco?

Alaíde Costa Não, não, meu filho, eu estou com 76. Comigo ele está há quanto tempo?

Alexandre Pavan — Uns cinquenta e pouco. Ele te quando em quem ano?

Alaíde Costa Sessenta e um.

Alexandre Pavan — Cinquenta e um anos.

Alaíde Costa Não, não, sessenta.

Alexandre Pavan — Cinquenta e dois anos contigo. Nada mal, um piano que foi do Moacir Santos, dado pelo Vinicius e agora é seu. Pedigree melhor que esse!

Roberta Valente — Você falou que tem dois filhos.

Alaíde Costa Três. Três filhos, quatro netos e um bisneto.

Roberta Valente — Alguém seguiu a carreira?

Alaíde Costa Tem um filho que é bom, viu?

Roberta Valente — É?

Alaíde Costa Você não conhece o Marcelo?

Alexandre Pavan — Conheço.

Alaíde Costa O Marcelo já fez produção até para o George Benson.

Roberta Valente — Nossa! [risos] Marcelo Lima. E ele canta?

Alaíde Costa Canta e toca bem. Eu sou crítica, se não fosse bom…

Roberta Valente — Mas ele seguiu a carreira de músico ou não?

Alaíde Costa Está seguindo.

Roberta Valente — Queria ouvir. Quantos anos ele tem?

Alaíde Costa Que idade o Marcelo tem? [ri]

Alexandre Pavan — Faz tempo que não o vejo.

Alaíde Costa Mas ele não aparenta a idade que tem. Quarenta e…

Roberta Valente — Vendo por você, eu imagino, né? [risos] Parece mais nova que eu. [risos]

Alaíde Costa Mas é da raça, né? Quarenta e… Ele é de 1966.

Roberta Valente — Quarenta e cinco.

Alaíde Costa Mas não aparenta. Parece um meninão, ele se sente… [ri] O bisneto é dele.

Ricardo Tacioli — Querida, muito obrigado pela entrevista. Não foi dolorida, não? Correu fácil, né?

Alaíde Costa Humn, humn. Tem entrevistas que a gente faz, ai meu Deus, que deixa a gente tão assim, aqui foi fácil.

Ricardo Tacioli — Mas conta aquele segredinho para terminar, que você não falou para ninguém e quer falar pra gente? [risos]

Alaíde Costa Que segredo? Segredo é para quatro paredes! [risos]

Ricardo Tacioli — É isso, obrigado. A gente pode continuar conversando aqui, mas somente para finalizarmos.

Alaíde Costa Não estava gravando, não, né?

Ricardo Tacioli — Esse foi só o treino. Vamos começar agora.

Alaíde Costa Não, essa última parte agora.

Ricardo Tacioli — Tem algum show marcado?

Alaíde Costa No momento, nada.

Ricardo Tacioli — E quando você se apresenta, quem vai contigo, quais são os músicos? Tem um time fixo?

Alaíde Costa Depende da situação. Às vezes posso ir com quatro, às vezes ir com três, às vezes posso ir com dois, às vezes com um. [ri] No Ensaio eu fui com quatro. Giba, Fernando Correia, conhece?

Roberta Valente — Conheço, adoro.

Alaíde Costa Conrado Paulino e Vitor Alcântara.

Roberta Valente — O Conrado foi quem gravou o outro programa Ensaio com você.

Alaíde Costa É.

Roberta Valente — O Vitor também.

Alaíde Costa O Giba começou tocar profissionalmente comigo. E os meninos, também. Eu conheci o Giba, ele ia fazer 22 anos, já está com 45. Muito tempo juntos. E os meninos também, mas na maioria das vezes eu me apresento só com o Giba, porque pedem um. Aí vou com o piano que é mais completo. Ou se pedem um violão, vou com o Conrado ou com o Fernando. É sempre com esse grupo quando é escolha minha, porque eu faço muito shows, apresentações por aí em que eu não tenho escolha.

Ricardo Tacioli — E sobre o racismo, vi em uma entrevista sua ao site Entrecantos. Você mesma citou em diversas oportunidades…

Alaíde Costa Na bossa aconteceu isso.

Ricardo Tacioli — Teve um momento em que o racismo foi muito…

Alaíde Costa Aconteceu isso, não é pessimismo, não! Acho porque eu e o Johnny ficamos discriminados. Acontecia tudo lá, não sei quantos anos de bossa nova, e…

Alexandre Pavan — E ninguém chamava…

Alaíde Costa Os dois fora. E depois eu fiquei sabendo que mesmo no comecinho, na minha ausência, me chamavam de ameixa. “Ameixa não vem hoje, não?”.

Roberta Valente — Você contou isso em uma entrevista, mas contou isso rindo.

Alaíde Costa É! Eu contei rindo, mas é uma discriminação. Porque não falar “A Alaíde! A Lalá não vem”, mas “Ameixa!”? Como tinha a Ângela Maria como Sapoti, eu tinha de ser a Ameixa.

Max Eluard — E isso te magoava?

Alaíde Costa Não, não! Eu não sabia que me chamavam assim, eu fiquei sabendo muito depois.

Roberta Valente — Como você descobriu?

Alaíde Costa Por um livro do Ruy Castro.

Roberta Valente — Você descobriu no livro?

Alaíde Costa É! Se bem que ele pegou muito o bonde andando. Fala tantas coisas ali que não são verdadeiras.

Ricardo Tacioli — Teve um outro momento (de racismo) além desse da bossa nova, Alaíde?

Alaíde Costa Não, não, não. Sentia que torciam um pouco o nariz, é chato falar isso, mas eu aparecia mais que eles, gostavam mais de mim, vou fazer o quê?!

Alexandre Pavan — Eles ficavam incomodados?

Alaíde Costa Ficavam. Nos 20 anos de bossa nova eu fui convidada. Foi aqui no Teatro Municipal organizado pelo Zuza Homem de Mello. E lá fui eu. Cada um cantava duas ou três músicas. O povo adora “Onde está você”. Bis, bis, bis! Eu saí e o povo não parava de chamar. “Mais um!”. Voltei, dei o bis. E no dia seguinte, o Zuza veio falar comigo: “Vamos ter uma reunião”. [ri] Teve a reunião. “Em hipótese alguma pode ter bis!” Porque o único bis… Fulanas virando a cara pra mim, juro por Deus! Foi engraçado! A carapuça já serviu, né? Não prestou, né? E bis de novo! Aí eu saí. Depois de mim entrava o Trio Tamba. E ele entrou e o povo “Mais um, mais um!”. E o Trio Tamba saiu. Se não fosse o Dick Farney eu não dava esse bis. O Dick Farney falou: “Deixa a mulher entrar, gente! Que palhaçada é essa!”. Daí o Zuza deixou eu entrar para dar o bis, porque o Dick Farney bateu o pé. Barra-pesada! Uma vez, sobre esse negócio de racismo, ninguém falou, eu ouvi: não tinha um tal de Vicente Leporace, que tinha um programa de rádio na Bandeirantes? Aí ouvindo o rádio lá, entrou o programa dele, de vez em quando eu ouvia. No dia seguinte, o “Onde está você” já estava tocando nas rádios; a RGE estava gravando lá (no Teatro). Foi um LP com vários participantes. Alguém levou uma fita, porque não deu tempo de fazer o LP, e ele tocou. “É, uma crioula com mil anos de samba dando uma de May Britt agora!”. May Britt era uma atriz loura, de cabelo comprido, francesa. Falou isso! Eu ouvi!

Roberta Valente — Você respondeu?

Alaíde Costa Responder o quê pra ele? O que tem a cor com a música? As grandes cantoras americanas são negras. A maioria, não? Aqui não pode ser cantora negra, ser cantora negra tem que sambar, tem que rebolar, cantar sambão, não pode! Aliás, acho que somente eu canto esse tipo de música, não tem uma outra que cante. Não tem, não! Não pode, é proibido!

Alexandre Pavan — É impressionante. (O racismo) está tão arraigado… Outro dia, alguns anos atrás, um ator de novela no Faustão [n.e. Rodrigo Lombardi que participava como jurado do quadro Dança dos famosos], perguntado sobre um ídolo que ele tinha, fala do Sammy Davis Jr. “Quando ele abria a boca ele virava um loiro de olhos azuis!” E você vê o que ele fala e ele não percebe o que falou. “Ele era baixinho e tal, quando ele começava a dançar e abria a boca virava um escandinavo de olhos azuis!”

Max Eluard — Aí melhorava.

Alexandre Pavan — É um absurdo, é um absurdo!

Alaíde Costa É complicado.

Alexandre Pavan — Você falou de cantoras americanas. Tem alguma que você gosta?

Alaíde Costa Tem várias. A primeira que eu ouvi e que me tocou foi a Sarah (Vaughan), mas muita gente acha que eu tenho muito da Billie (Holiday). Sei lá, tenho da Billie, ela é a Billie e eu sou a Alaíde. [risos] “Quando eu ouço a Billie eu lembro de você.”

Alexandre Pavan — Você conheceu a Sarah pessoalmente?

Alaíde Costa Não. Conheci a Ella (Fitzgerald). Assisti a um show dela.

Ricardo Tacioli — Alaíde, você assistiu a minissérie sobre a Maysa?

Alaíde Costa Ridícula, injusta!

Roberta Valente — Por que?

Alaíde Costa A Maysa não era daquele jeito. Ela gostava da sua birita, mas ela não era depravada do jeito que colocaram lá, não! Não era! Não tive muita convivência, mas ela não era assim.

Roberta Valente — Mas se o próprio filho dela fez…

Alaíde Costa Mas o próprio filho tinha raiva da mãe!

Alexandre Pavan — Nem conheceu a mãe direito.

Alaíde Costa Ainda que fosse, jamais ele poderia ter feito o que fez. Eu comecei assistir e larguei pra lá.

Alexandre Pavan — O Lira Neto, que fez a biografia que deu origem à minissérie, criticou a série.

Roberta Valente — Está bem diferente do livro. Gostei do livro. [n.e. Maysa — Só numa multidão de amores, 2007, do jornalista Lira Neto]

Ricardo Tacioli — Alaíde, mais uma vez… [risos]

Alaíde Costa Quer que eu vá embora? [risos]

Ricardo Tacioli — Engraçado, Alaíde, porque as entrevistas do Gafieiras já demoram duas, três horas e as pessoas que leem as entrevistas falam “Pô, Ricardo, você sempre fala que está terminando depois de duas horas” e as entrevistas continuam… E é isso… Ficamos preocupado com o entrevistado, com o seu tempo, mas se deixar… É bom falar do passado, do presente? É importante?

Alaíde Costa É gostoso!

Ricardo Tacioli — Mesmo os momentos mais difíceis de lembrar?

Alaíde Costa É bom. Como é aquele ditado, pra mim não tem tempo quente, pra mim está tudo na santa paz. Não estou nem aí com nada. Por isso que ainda vivo, porque se eu fosse me estressar, ih… (silêncio) Eu consigo não revidar, entendeu? Fez pra mim? Ih, eu faço de conta que não aconteceu, faço de conta, mas faço mesmo. Eu consigo fazer isso. Na hora eu falo “Chega!”, mas amanhã já acabou. Isso ajuda a gente a viver.

Ricardo Tacioli — Você chegou a ver as fotos da exposição Pioneiras?

Alaíde Costa Olha, eu recebi uma que ele mandou, com a Solange, a cabelereira.

Ricardo Tacioli — Ah, sim. Na internet você não chegou a ver as fotos?

Alaíde Costa Não, não!

Ricardo Tacioli — Vou mostrá-las pra você!

Alaíde Costa Cadê o João?

Ricardo Tacioli — O João mudou para Leme, teve uma filha. Falei que íamos te entrevistar, ele ficou contente, mandou um abraço. Ele é do time! Depois te mostro as fotos. Tem a do piano…

Roberta Valente — A do cabelo é demais!

Alaíde Costa Parei de fazer as tranças, porque estava com muita queda de cabelo. Tenho de ter muito cuidado. Já faz um ano que não uso (tranças). Há dois anos fiz um projeto muito lindo, procurem na internet, em homenagem a Yemanjá. Sete cantoras negras cantando músicas em homenagem a Yemanjá. Aí eu estava lá. Houve um em um ano e outro no ano seguinte: 2009 e 2010.

Roberta Valente — Virou CD?

Alaíde Costa Não, eles fizeram um DVD. É da Fundação Palmares, mas não foi comercializado. Procurem que vocês acham. É lindo, lindo. Um espetáculo com uma grande orquestra. Tem a Margareth Menezes, Luciana Mello, Paula Lima, Rosa Maria, eu, Daúde… São sete! É muito bonito! Só com canções de Yemanjá. E nesse primeiro fui ainda com as trancinhas. É esse que aparece no Youtube. Mas no segundo, que foi no ano seguinte, eu fui com esse cabelo.

Ricardo Tacioli — Vou te mostrar as fotos!

Alaíde Costa, por Jefferson Dias
Alaíde Costa. (Crédito: Jefferson Dias/Gafieiras)

Seleção musical | Alaíde Costa

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Faixa 01 “Ilha do Mel” (Raul de Souza), por Raul de Souza

Faixa 02 – “Balada 45” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Arthur Verocai

Faixa 03 – “Sweet Lucy” (Raul de Souza), por Raul de Souza

Faixa 04 – “Balanço Zona Sul” (João Donato), por Raul de Souza e Robertinho Silva

Faixa 05 – “Rio Loco”

Faixa 06 – “Don’t ask my neighboors”

Faixa 07 – “Banana tree”

Faixa 08 – “Piano na Mangueira” (Tom Jobim), por Raul de Souza

Faixa 09 – “Bossa eterna”

Faixa 10 – “Lugar comum” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Robertinho Silva

Expediente

Entrevista realizada em 23 de julho de 2012, na residência de Ricardo Tacioli, São Paulo/SP.

Entrevistada: Alaíde Costa Silveira Mondin Gomide (08/dez/1935, Rio de Janeiro, RJ)
Equipe entrevistadora:
Alexandre Pavan, Max Eluard, Ricardo Tacioli e Roberta Valente
Produção, transcrição, edição de texto e texto de abertura: Ricardo Tacioli
Transcrição: Marllon Chaves
Fotos da entrevista: Jefferson Dias
Registro audiovisual: Max Eluard
Agradecimentos: Nelson Valencia

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