A passos largos

Da fuga de um menino ao disco de um cangaceiro: a surpreendente história de Volta Seca.
O menino-cangaceiro Volta Seca (1918-1987) e a capa de seu disco de 10 polegadas, que revelou "Acorda Maria Bonita" e "Mulher rendeira". (Crédito: Reprodução)

Por Edson Natale

Naquele pedaço de terra em Sergipe, silêncio e medo foram cúmplices. Pé ante pé, com cuidado e leveza, Antônio dos Santos atravessou o terreiro e se atirou no mundo, feito um estilingue. Tinha 11 anos de idade em 1929, e é assim que começa a história de um disco.

O combustível para criar coragem e partir foi o pavor de levar mais uma surra da madrasta. Caminhando, ele atravessou Itabaiana e seguiu seu rumo  comendo e bebendo o que encontrava ou o que lhe davam por caridade. Sabe-se lá quanto tempo levou entre o dia da fuga e aquele outro em que foi forçando a marcha até encontrar Lampião e ser aceito pelos bandoleiros.

Antônio não foi a primeira criança a integrar o bando do “rei do cangaço”. Antes dele, aportaram ali os garotos Beija-Flor, Deus-te-Guie, Zé Roque e Robinho, todos incorporados com as funções de banhar cavalos, lavar utensílios, carregar água, limpar os acampamentos  e espirar as vilas, fazendas e cidades para colher informações.

Mulheres também faziam parte do grupo. A mais famosa foi Maria de Déa, também chamada de Maria do Capitão enquanto esteve viva, mas que entrou para a história como Maria Bonita depois de sua decapitação pela política, em 1938. São tristes as narrativas dessas mulheres. Ou dessas meninas.

Dadá foi sequestrada da casa dos pais aos 12 anos de idade, mesmo dia em que foi estuprada por Corisco, o Diabo Loiro. José Baiano, outro membro do bando, carregava sempre um ferro de marcar gado com as iniciais de seu nome, que deixava em brasa para marcar o rosto, a virilha, as nádegas ou as coxas das mulheres que usavam cabelos curtos ou vestidos acima da linha dos joelhos.

Quanto a Lampião, sua fama era tanta que ultrapassou todas as fronteiras e chegou aos Estados Unidos em 1931, quando o jornal The New York Times o classificou como “o bandido mais famoso da América do Sul”. No Brasil, as notícias e fantasias a respeito de suas batalhas impulsionaram a criação e a venda de produtos, como o disco. Lançado pela gravadora RCA Victor, no qual Castro Barbosa interpreta um samba de J. Thomas debochando da recompensa de cem contos de réis prometida pelo governo federal para a captura daquele sujeito que, diziam, tinha o coração na sola dos pés.

A propaganda também não perdeu esse bonde. Na Revista Boa Nova, em 1933, podia-se ler o seguinte anúncio:

“Campeão, pelo terror de seus crimes, é o pavor dos sertanejos. O bandido que invade os lares, levando a toda parte o soffrimento e a morte, não ataca de frente, jogando sua vida na luta leal. Esconde-se nas trevas, açoita-se nos barrancos, embuça-se nas portas para de lá espalhar a destruição e a morte. Também a brisa de ventre, aninhando-se sorrateiramente no corpo humano, provada a explosão de males infinitos, pelo relaxamento do intestino.

Para o combate ao banditismo de Lampião o paiz arma os seus soldados adestrados. Para combater a prisão de ventre, as pílulas de vida do Dr. Ross, na dose de uma ou duas por noite, são as armas seguras, de efeitos infallíveis.”

Da cadeia aos estúdios

O menino Antônio, que havia fugido de casa para se livrar dos sopapos da madrasta, não teve tanta sorte nesse sentido, porque continuou apanhando – até crescer e criar coragem, inteligência e força para se defender e atacar. Quando isso aconteceu, já era conhecido como Volta Seca. Esteve preso três vezes e conseguiu fugir em duas delas, o que ajudou a consolidar sua fama de ser um dos cangaceiros mais astutos do bando. O jornalista e escritor Joel Silveira, sergipano como Antônio, entrevistou-o na Penitenciária da Bahia em 1944, e a conversa foi registrada em seu livro Tempo de contar, que apresenta Volta Seca como o lugar-tenente de Lampião. Em uma das respostas, ele conta: “Todo mundo gostava de enxugar a mão em mim, mas depois endureci o cangote, e o primeiro que me apareceu com ares de pai, recebi com a mão no rifle”.

Na terceira vez que esteve preso, sua pena foi reduzida de 145 anos para trinta, e depois para vinte, até ser solto por meio de um indulto concedido por Getúlio Vargas em 1951. Livre, ele pôde aceitar o convite do cineasta Lima Barreto para trabalhar em O cangaceiro, um dos principais filmes da Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Volta Seca deveria assegurar que todos os detalhes da vida no cangaço fossem retratados de maneira verossímil, por isso vetou, entre outras, a cena em que Galdino, personagem inspirado em Lampião, chicoteava o rosto de um sujeito; explicou que a cara de um homem é sagrada e nela não se bate, basta matá-lo.

Esse filme marcou a estreia da cantora lírica Vanja Orico no cinema brasileiro. Antes disso, em 1951, quando estudava no conservatório Academia di Santa Cecilia, em Roma, ela atuou no primeiro longa-metragem de Federico Fellini, Mulheres e luzes – Moema, sua personagem, a certa altura toca violão e canta “Meu limão, meu limoeiro˜. Essa experiencia, inclusive, a levou a gravar seu primeiro disco em 78 rpm, com essa canção de um lado e, do outro, “Coplas”, composição sua a partir de um texto do poeta espanhol Federico García Lorca.

Foi também nas filmagens de O cangaceiro que o então ator coadjuvante Adoniran Barbosa conheceu os integrantes de um conjunto originalmente batizado de Grupo do Luar, mas que mais tarde passou a se chamar Demônios da Garoa, criado por Arnaldo Rosa. Durante muitos anos eles acompanharam Adoniran, que viria a compor e interpretar clássicos como “As mariposa”, “Iracema””Saudosa maloca”, “Samba do Arnesto”, “Tiro ao Álvaro”, e “Trem das onze”.

O cangaceiro ficou cinco anos em cartaz na França e foi exibido em mais de oitenta países depois de receber os prêmios de melhor filme de aventura e melhor trilha sonora no Festival de Cannes de 1953. Foi na esteira do sucesso da obra, primeira produção cinematográfica brasileira de projeção mundial, que Volta Seca gravou o disco As cantigas de Lampião, em 1957, 28 anos depois de ter fugido de sua casa em Itabaiana.

* Publicado originalmente no livro ‘A música no Brasil que você toca‘, de Edson Natale.

EDSON NATALE. Gestor, produtor cultural, escritor e músico.

Para saber mais

Capa do livro 'A música no Brasil que você toca', de Edson Natale

A música no Brasil que você toca

Edson Natale reúne e alinhava histórias recolhidas durante suas viagens como gestor do Itaú Cultural seus mais de 20 anos. 

Editoras: zarpaZanza e Paraquedas
Ano: 2023
Formato: 160 pp., 14 cm x 21 cm
Preço médio: R$ 60,00

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