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De Zequinha de Abreu a Paco de Lucía: a trajetória internacional de “Tico-tico no fubá”.
O ator e diretor Anselmo Duarte em cena do filme Tico-tico no fubá, de 1952. (Crédito: Acervo Marcelo Bonavides)

Por Renato Cunha

O “clipe” de Paco de Lucía, na Televisión Española (TVE), em 1967, tocando “Tico-tico no fubá” inicia com um plongée que nega a gramática audiovisual. Enquanto a câmera sobe, Paco se agiganta, na verve de sua guitarra e do acompanhamento percussivo que aciganam a composição universal de Zequinha de Abreu.

O arranjo é único. O arranjo gitano para uma música que ganhou o mundo. De “Tico-tico” (1917) foram inúmeras as gravações. Entre as com tempero, há a de Charlie Parker, no elepê Charlie Parker plays south of the border (1951). Com brasilidade, não há dedos de nossas mãos que as contem, letradas ou não. A performance de Carmen Miranda no musical hollywoodiano Copacabana (1947) é referência, sob os aplausos de Groucho Marx. Ney Matogrosso em Batuque (2001) lhe deu roupagem refinada.

Nenhuma outra música de Zequinha — compositor de muitos compassos (valsas, tangos, maxixes, xotes, foxtrotres, marchas, sambas, choros) — alcançaria o sucesso que a do miúdo passarinho que se refestela no farelo de milho alcançou. “Tico-tico” foi — e ainda é — um fenômeno, como poucos. Consagrou-o, mas somente após sua morte, em 1935. Foi por essa música que sua vida, romantizada, foi parar no cinema, num filme da companhia Vera Cruz, intitulado obviamente Tico-tico no fubá (1952), com direção de Adolfo Celi e trilha musical de Radamés Gnattali.

Zequinha (Anselmo Duarte) é um modesto funcionário da prefeitura de Santa Rita do Passa Quatro, Minas Gerais, que vive desolado por não conseguir emplacar suas composições. A “virada” parece vir quando um circo chega à cidade, ou quando se apaixona à primeira vista por Branca (Tonia Carrero), a bela sobrinha amazona do dono do circo (Ziembinski). Mas entre Branca e Zequinha, ou melhor, entre Zequinha e o mundo, há Durvalina (Marisa Prado), uma moça a ele prometida desde a infância. Não há como partir, e deixá-la. O timbre da moralidade é mais grave. “Sua música é para o mundo, para um mundo que você não conhece”, quis encorajá-lo Branca, musa inspiradora de uma valsa homônima, que, na vida real, apesar do disse me disse, parece ter sido apenas a filha de um companheiro de serenatas, o chefe da estação ferroviária.

A história de Zequinha é singela, assim como seu nome, assim como um tico-tico no fubá. O filme não soube se valer disso, ultradramatizou o personagem, deturpou-o, talvez em busca de comoção, ficando longe de ser — como se pretendia dele fazer — um dos primores do período. E o mundo de Zequinha foi São Paulo. Em 1920, casado há duas décadas com Durvalina, e pai de numerosa prole, mudou-se para a capital paulista. À noite, tocava em bares, festas, cabarés. De dia, na Casa Beethoven, atraía ao piano fregueses para a compra de partituras.

Onze anos após o lançamento do filme, o guerrilheiro Glauber Rocha, em seu livro Revisão crítica do cinema brasileiro (1963), munido de certa razão, metralha Tico-tico, o coloca como exemplo da estética “formatada” que a Vera Cruz procurou introduzir no Brasil, na linha do conceito de indústria cinematográfica, tão bem representado na realidade hollywoodiana dos anos 1940 e 50. A propósito, note-se que Santa Rita do Passa Quatro foi totalmente reconstituída em estúdio.

Contudo, com todos os esbanjamentos e recursos melodramáticos vistos em Tico-tico, creio que atualmente devemos nos esforçar para assistir ao filme como se deve, com um olhar musical que dimensione a presença de Zequinha de Abreu na música brasileira, tendo firmado a era do choro no cenário popular, a qual não se findou e ainda hoje mostra a sua força.

RENATO CUNHA. Cineasta

 

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