André Abujamra

Um d’Os Mulheres Negras e criador do Karnak e de uma porção de trilhas sonoras, ele quer é destribificar. .
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SÃO PAULO, 20 de maio de 2003

Já se vão 14 meses desde que baixamos ali na Lapa, num casarão espaçoso, próximo ao trânsito maluco da Cerro Corá, mas com alma de morada do interior. Nesse breve período, três matrimônios gafieirenses foram pro brejo, a trilha de um filme que estava sendo fornida por nosso entrevistado já entrou e saiu de cartaz, conduzindo seqüências de A caminho das nuvens, de Vicente Amorim. Uma peça, na qual respondeu pela mesma posição de trilheiro, regida por seu pai, Antônio, está em cartaz nos palcos da FIESP há semanas. Um daqueles matrimônios sepultados volta a dar sinais de vida. Deu tempo, inclusive, de nosso entrevistado colocar na rua seu primeiro disco-solo, O infinito de pé, descoberto durante a entrevista com urgência de furo jornalístico…

Por outro lado, essa é a diferença de uma entrevista que não se atem somente aos fatos do dia, do momento, mas que faz da linha do tempo uma elástica tripa-de-mico.

E, acima de tudo, uma desculpa muito da sem-vergonha também…

Mas, como tinha conhecido o André nas filmagens do DVD ao vivo do Mauricio Pereira, no Itaú Cultural, fiquei incumbido de marcar a entrevista no bar que mais lhe agradasse. À noite, umas geladas pra soltar a língua, molhar a palavra, enfim, bem na proposta do site. Pura inocência. O cara tinha apenas uma manhã livre e foi essa mesma que aproveitamos. Às nove e meia estávamos pendurados em sua campainha. A conversa rolou em seu estúdio, nos fundos do comprido quintal.

Cadeiras da cozinha e da copa se enfiaram no cômodo juntas de cinco entrevistadores e de um feixe de perguntas tão magro quanto um buquê de R$ 5. Sorte nossa — e sua — que os assuntos pinçados com o ex-Mulheres Negras resvalaram no cinema e debandaram pro candomblé; começaram nas turnês gringas a bordo do Karnak e se ajustaram ao naufrágio da indústria fonográfica; fizeram cócegas na recém-arquitetada carreira-solo e pularam pra paixão pelo Corinthians. Tudo no mesmo espaço de tempo, tudo na mesma cabeça anarquista, “mas não porra-louca”. Ele também cunhou um novo verbo: destribificar. Seria a ação de olhar pro jardim do outro e ver o que tem de bonito e de feio ali. Verbo bom, esse. Melhor ainda quando se torna ação de fato. Se o André trouxesse um aviso de advertência, como os cigarros ou remédios, seria algo como: papear com este sujeito pode causar encorajamento e leveza pra se safar de desafios espinhentos de um modo geral.

por DAFNE SAMPAIO

André Abujamra. (Crédito: Dafne Sampaio/Gafieiras)
André Abujamra e Mauricio Pereira são Os Mulheres Negras. (Crédito: Gal Oppido/Divulgação)

André Abujamra — Legal, hein? Você está filmando em black and white?

Max Eluard — Eu ia passar agora para black and white.

Abujamra — Hã.

Max Eluard — Ela tira foto também.

Abujamra — Que legal! Muito legal.

Ricardo Tacioli — Tá rolando?

Daniel Almeida — Tire isso do chão.

Abujamra — Eu visitei o site. Eram vocês…

Max Eluard — … aquele pessoal?

Abujamra — É. Aquele desenhinho? [n.e. Com relação ao desenho que ilustrava a seção Quem Somos no site antigo]

Max Eluard — Era.

Flávio Rosselli — Foi ele quem fez.

Abujamra — Bem legal, meu. Cães de Aluguel parece. [risos] Não, é?

Almeida — Os caras com as mãos sujas de sangue…

Max Eluard — Todos de terno e gravata.

Almeida — Pessoas pacatas, mas a panca é de pessoas violentas.

Rosselli — Alguém trouxe um cartãozinho pra ele?

Almeida — Lógico.

Rosselli — O logotipo da gente é um cara rasgando um pandeiro no dente.

Abujamra — Eu conhecia você, não?

Max Eluard — Foi. Lá no Grazie a Dio.

Abujamra — Isso, lá no Graças a Deus.

Max Eluard — Foi muito bom aquele show. [n.e. Show do Mauricio Pereira e Turbilhão de Ritmos em homenagem a Adoniran Barbosa, realizado em novembro de 2002 no Grazie a Dio, Vila Madalena, em São Paulo, como parte do projeto Adoniran foi embora…, do Gafieiras]

Abujamra — Muito bom.

Almeida — André, como você foi parar nesse show? Lógico, o Mauricio deve ter te convidado.

Tacioli — Foi o Mauricio, não foi?

Abujamra — Do Adoniran? Foi o Mauricio quem me convidou. Mauricio Pereroca.

Max Eluard — O Mauricio se tornou um chapa da gente. Ele foi o segundo ou terceiro entrevistado da gente.

Abujamra — É, ele me falou. E o site está legal, tem bastante visitação?

Almeida — O nosso homem dos dados é o Tacioli.

Tacioli — Tem uma média de 100, 150 por dia, André.

Abujamra — Porra, é bastante pra caralho!

Max Eluard — A gente não tem divulgação alguma.

Abujamra — 100 por dia?

Tacioli — Mas já teve pico de 300.

Abujamra — Tesão, meu. Estou fazendo minha homepage também, do André Abujamra.com. Estou começando a fazer.

Almeida — Você mesmo é quem está fazendo?

Abujamra — Não, não, um amigo meu chamado Pablo Zurita, vocês conhecem?

Rosselli — Não.

Abujamra — Estou fazendo porque tenho umas 15 horas de música que não foram aceitas em teatro… E estou a fim de vender, meu, mas não sei como. Disponibilizar em MP3 e vender. “Você quer uma música-trilha? Pega aí e me dá uma graninha.” [risos] Agora, não sei como se faz isso, se dou uma senha pro cara baixar…

Rosselli — O cara somente vai comprar depois de ouvir.

Abujamra — Dar um pouquinho e depois… A gente tem que inventar um truque. Já começou, seus viados?! [risos]

Rosselli — Por que? Precisa se maquiar? [ri]

Abujamra — Maquiar, não? Não confio muito em jornalista, não. [risos]

Max Eluard — Não tem nenhum jornalista aqui.

Abujamra — Têm dois gravadores ali, uma câmera, eu falo merda pra caralho e depois sai. [risos] Comi a Luana Piovani. [risos]

Almeida — André, falando em sobra de música e que não foi aceita, como foi trabalhar com o Babenco? Não deve ter sido fácil, não.

Abujamra — Cara, não foi fácil trabalhar com ele porque tem gente que te faz trabalhar pelo sofrimento. Eu sofri muito para trabalhar com ele. A primeira trilha que eu mandei, ele olhou pra mim e falou “Essa trilha está uma merda!”. Bicho, eu tenho ego também, sou artista! Quem não é artista tem ego, quem é tem ainda mais. Eu fiquei puto, mas respirei fundo e falei “Vou até o fim. Carandiru [n.e. Filme do cineasta Hector Babenco lançado em 2003 e baseado no livro Estação Carandiru, de Dráuzio Varella] é um trabalho importante pra mim.” E no decorrer eu saquei que o negócio dele é te deixar lá nas trevas pra você criar melhor. É verdade, fiz um trabalho bonito. Não concordo muito, mas participei disso. Como artista, como ser humano, você tem que experimentar de tudo na vida. Eu experimentei em ir até o fundo do poço para criar. Pra mim, criar é uma brincadeira, é conversar com vocês aqui… É tudo na leveza. Com o Babenco foi no pesado. Não estou falando mal dele, estou falando que o processo de trabalho dele é um negócio mais duro. O cara mais velho, quase morreu, então é um negócio pesado, é um negócio difícil. O resultado ficou leve, mas o processo foi pesado.

Almeida — E isso foi longo?

Abujamra — Cinco meses, cara!

Almeida — E normalmente leva quanto tempo?

Abujamra — Eu fiz o filme do Vicente Amorim em 40 dias [n.e. Caminho das Nuvens, com Claudia Abreu e Wagner Moura]. Gravei orquestra, gravei todos os instrumentos, fiz tudo. Foi um vômito! Geralmente em um longa-metragem levo um mês e meio, dois, três meses até. É um trampo fazer longa-metragem, um puta trampo! Não são 30 segundos. São duas horas, meu!

Almeida — Perguntei isso porque ficou muito claro, principalmente depois da gravação do DVD do Mauricio Pereira em que a gente fez junto [n.e. Gravação no Itaú Cultural, realizada em junho de 2003 em São Paulo, do show “Canções que um dia você já assobiou — Volume 1”, baseado em disco homônimo de Mauricio Pereira], ops, que você dirigiu…

Abujamra — Que a gente fez junto…

Almeida — [ri] E me pareceu isso mesmo, já que você estava fazendo o show do Fat Marley na FNAC com o DVD do Mauricio, e tudo num astral…

Abujamra — Tá tudo bem, cara. A disciplina e o exercício, a disciplina e o esmero — trabalhar, estudar — são muito importantes. Apesar de ser jovem, estou na carreira desde que nasci. Eu posso me considerar uma puta velha, porque quando você já sabe o que quer, e já estudou e trabalhou muito, relaxa e deixa as coisas fluirem. Eu não te conhecia, não conhecia ninguém que estava filmando o DVD, e você, “Meu, o que eu faço?!” Olhei pra você e “Faça o que quiser”. Já olhei na sua cara, já sabia que com seis câmeras lá, mesmo que você fosse um bosta, 10 segundos da sua imagem eu iria pegar. Claro, tenho rabo com a vida, eu sabia que você não era um bosta, mas se eu chegasse pra você e falasse, “Não, eu quero que você…”. Você iria ficar tenso, eu iria ficar tenso, todo mundo iria ficar tenso, e a gente não iria conseguir fazer nada. Então, tem que relaxar, tem que deixar fluir. Quando é do metier da pessoa, não tem problema, cara. Não sei se vocês foram ver o show do Fat Marley… [n.e. Personagem criado por Abujamra que participou do filme Durval Discos e lançou o disco New old world/Future sun] O Fat Marley é um exercício de liberdade em que as pessoas ficam extremamente presas. Chegou o baterista, o baixista, o DJ, que é o Juliano. Tem sempre uma base pronta, mas na hora do show, os caras perguntam, “O que eu faço?” “O que você quiser! Como você quiser! E quando você quiser!” Se você dá essa liberdade para a pessoa, bicho, ela fica extremamente sem liberdade. [risos] Se você chegar para uma gostosa e ela falar assim, “Faz o que você quiser comigo!”, você não sabe nem por onde começar. Mas se ela falar, “Só pode beijar a minha boca!”, aí você vai na boca. Mas se tem a liberdade, ela é uma coisa muito… Não estou dizendo que eu sou contra a técnica, o estudo. Eu nunca disse isso. Sou um pentelho profissionalmente. Mas você tem que saber o movimento do mundo. Você tem que liberar a energia… As coisas se encaixam. Nada é tão importante assim. O DVD do Mauricio vai ficar muito bonito.

Max Eluard — Então, André, você começou muito cedo e muito novo nos Mulheres. Quantos anos você tinha?

Abujamra — Puta, nos Mulheres eu tinha 21, 22 anos, cara.

Rosselli — Alguém já assistiu aos Mulheres ao vivo? Eu ia sempre aos shows de vocês no Mambembe, no Paraíso.

Abujamra — Que legal. Naquele teatro, né?

Rosselli — Eu tinha uma amiga que era louca por você! Íamos sempre porque ela gostava de você.

Abujamra — Porra, ela era gostosa? [risos]

Rosselli — Gostosa, gostosa.

Abujamra — E eu me achava tão feio. Vejam como é a vida! Eu com o barrigão pra fora. [risos]

Rosselli — Ela tinha uma demo de vocês, uma fita.

Abujamra — Era pirata oficial.

Max Eluard — Eu tinha uma pirata também de um show de vocês na 89. [n.e. Rádio FM cuja sintonia é 89,1 e que se intitula a Rádio Rock]

Abujamra — Nossa, nesse show da 89 ligou um cara ao vivo e falou, “Porra, tira essa merda daí!”. [risos]

Almeida — Era o Max! [risos]

Rosselli — Foi ele!

Abujamra — Você tem essa fita?

Max Eluard — Cara, faz muito tempo que não a vejo, mas acho que eu ainda a tenho.

Abujamra — Putz! Que legal!

Max Eluard — Tem uma hora muito engraçada, quando o locutor falava com o Mauricio e vira pra você e “Então, viu o…”, e você, “Pô, o cara não sabe nem o meu nome!”. [risos]

Abujamra — Eu não lembro dessa história.

Max Eluard — Mas nessa época o Mulheres era muito intuitivo?

Abujamra — Olha, a intuição permeia minha vida, não somente com música, mas com tudo. As pessoas têm que usar a intuição para viver. Quando eu tinha 3 anos de idade entrei numa escola de música. Então, posso ser intuitivo com a arte. As pessoas que são somente intuitivas, quebram um pouco a perna. Existe a ciência. Eu odiava o Stravinski [n.e. Igor Stravinski, 1882–1971, compositor erudito russo autor de obras tão célebres quanto polêmicas em sua época, tais como “Pássaro de fogo” e “A sagração da primavera”], odiava. Aí, uma vez na faculdade tive que dissertar sobre a Sagração da Primavera, do Stravinski. Aí fiquei um ano inteiro estudando Stravinski. Quando acabou o ano, eu disse, “Esse cara é maravilhoso!”. Aí comecei a descobrir que a ciência e a técnica trazem também a beleza artística, trazem também a intuição. Sempre trabalhei com a intuição, mas também sempre estudei pra caralho. No começo da minha carreira, eu era um guitarrista que estudava 8 horas por dia. Hoje eu cago para a guitarra. Hoje eu cago para o estudo, mas eu já estudei muito. E acho que continuo estudando. Isso que estou fazendo da não-técnica é um estudo também. Eu falo pra caralho! Vocês me cortem…

Rosselli — Hoje em dia, é um ócio criativo?

Abujamra — Total. Eu preciso do nada. Eu preciso transar com a minha mulher na montanha. E quando volto da montanha, tenho 5 novas músicas na cabeça. Quando estou aqui, estou trampando.

Almeida — Mas, André, você não pára, como tem esse tempo pra meditar, refletir?

Abujamra — Eu paro, sim, eu paro. Eu consigo me dar essas coisas. Não é sempre, né? Mas de 15 em 15 dias, meu filho fica o fim de semana inteiro comigo. Eu raramente trabalho. Fico com ele. Cuido do Floquinho, que é o cachorro dele. As coisas não são assim… Eu não paro para quem é de fora, mas para quem é de dentro… Sou preguiçoso pra cacete! Nada como um DVD, uma pipoca e um — agora estou de regime [risos] — chocolate em volta da cama. E o nada! Eu preciso disso. Qualquer pessoa precisa disso.

“Eu queria ter feito a Éguinha Pocotó!

Almeida — Você é um cara que trabalha em muitas frentes. Em algum momento isso te angustiou?

Abujamra — No final dos Mulheres Negras, a gente teve uma crise… O Mauricio Pereira é Escorpião com Escorpião, e eu sou Touro com Gêmeos. Tenho o pé no chão com a cabeça na Lua. Sou bem louco mas tenho o pé no chão. E o Mauricio, não. O Mauricio é um cara predestinado. Então, o Mulheres Negras era a vida dele. Era a minha vida, mas eu queria fazer trilha de teatro, queria pintar um quadro, queria fazer tudo. Isso me angustiou bastante, mas me descobri com a minha religião. A minha religião é o candomblé. Eu sou do candomblé. E cada pessoa no candomblé é regido por um orixá. O meu orixá é o Obaluaiê, aquele cara que tem as palhas…

Almeida — Aquele que era leproso?

Abujamra — É. Essse aí. Aquele é o orixá que me guia, é o meu pai, vamos supor. O seu deve ser Oxossi, e assim por diante. Cada um tem um orixá. E no candomblé comecei a estudar sobre isso e vi que o orixá que me guia é o orixá da transformação. Todo filho de Obaluaiê não consegue fazer somente uma coisa. Todo mundo. Se um dia você conhecer alguém de Obaluaiê, vai ver que ela gosta de pintar, namorar — namorar todo mundo gosta -, fazer vídeo, DVD, fazer um filme. Estou escrevendo um longa! Quando descobri isso, passei a relaxar, porque até então eu ficava “Aí, eu estou usando minha energia pra…”, mas depois falei, “Não, minha vida é essa!”. Vou contar uma história muito legal pra vocês. Se pedirem para eu fazer um castelo, eu vou fazer. Vou ligar para os caras que sabem fazer castelo e vou construir. Sou assim. Se pedir para eu fazer um negócio e tiver uma graninha, eu faço. É a história do puddle. Quando fui fazer o clipe do Charlie Brown Jr. — os caras me chamaram porque eu havia feito os do Karnak… Eles falaram, “Você quer fazer um clipe?”, “Quero!”. Um negócio meio profissional, eu não tinha muito a manha. Aí vem a história do puddle, que é assim: um cara muito rico, muito rico, que viajava demais, chegou e falou pra sua mulher, “Vou viajar para o Rio de Janeiro. O que você quer?”. “Eu quero um puddle!”. Aí ele foi para o Rio, para uma reunião de negócios. “Olha, vou para a reunião e você vai comprar um puddle para a minha mulher. Às 17h a gente se encontra aqui no aeroporto e volta para São Paulo’” E às cinco horas todo mundo se encontrou. “Cadê o puddle?!” “Não achei o puddle, meu!” “Puta, minha mulher vai me matar! A gente tem que comprar um puddle!” Aí tinha um judeuzinho escutando. Ele olhou e falou, “Eu tenho a melhor puddle pra vender pro senhor!” “É, é!” “É, mas custa muito caro!” “Quanto custa?!” “Trinta mil reais!” “Porra, mas é caro pra…” “Mas é a melhor puddle!” Aí o cara, rico pra caralho, falou, “Então vá pegar esse puddle!” “Um minuto. Vou até o morro de Santa Teresa e já volto!” Pegou um táxi, foi até o morro, bateu na porta da casa do irmão e “Jacob, Jacob!” “Que foi, que foi, Isaac?!” “Fiz o melhor negócio de nossas vidas! Vendi uma puddle por 30 mil reais!” “Que marravilha!” “‘Só tem um problema!” “O quê?” “O que é uma puddle?!” [risos] Quero dizer, eu vivo um pouco assim. Vamos lá, eu não sei pintar um quadro, mas a capa do Fat Marley foi um quadro que eu pintei. Mas a resposta para a sua pergunta é: eu descobri que eu posso fazer tudo. No começo eu ficava meio angustiado porque pensava que não iria fazer nada direito. Inclusive, uma das crises que eu tive com o Mauricio Pereira foi essa, porque ele falava “Você não está 100%”, e eu estava. Só que eu tava do meu jeito e ele do jeito dele. Tanto é que quando a gente faz show dos Mulheres, a gente não se encontra, não ensaia, e o show é maravilhoso.

Rosselli — E como vocês utilizam a tecnologia hoje?

Abujamra — A gente usa tudo velho. Tudo velho! Claro que tem um momento em que eu pego o laptop e faço uns arranjos modernos, mas mais para o fim do show. Mas é aquele velho equipamento, o cenário é um montão de fio… A gente está como antigamente… chapéu furado.

Tacioli — Para os Mulheres, esse período de dez anos foi importante.

Abujamra — Ô, foi muito importante. Antigamente a gente tinha a coisa do sucesso, do pop, de fazer viagens, mas hoje eu tô cagando, CA-GAN-DO pra gravadora, eu tô cagando pra fazer ou não sucesso. Eu já fiz sucesso interior, cara! Para esse negócio de sucesso estou cagando mesmo. Três milhões e meio de pessoas escutaram a minha música no Carandiru. Então a minha música está lá, eu estou vivo, vocês estão aqui. Eu cago para esse papo de mídia, de gravadora… Estou cagando!

Dafne — Você não quer ser mais rico e xarope?

Abujamra — Bicho, eu já sou xarope! [risos] Eu sou rico do lado espiritual. A gente queria ser rico e xarope, mas a já éramos xaropes e não sabíamos. Eu tô cagando mesmo. Esse papo de leis, direito autoral… Você pode perguntar pra mim, mas a resposta é “eu tô cagando!”. Quer distribuir música? Distribuia. Quer gravar em gravadora grande? Grave. Não quer, não grave. Tem que fazer o que gosta. Você gosta de vender pipoca, meu? Vá vender pipoca. “Ah, não dá dinheiro!” Vá vender pipoca que é o que você gosta, cara! Eu sempre falo isso.

Tacioli — E você acha que o Mauricio tinha essa expectativa?

Abujamra — O Mauricio não liga pra isso também. Pra mim, para quanto mais gente eu passar a minha música, o meu amor, mais feliz vou ficar. O Mauricio também tem isso dentro dele. Ele é um pouco mais sério do que eu com essa coisa de gravadora. Ele é um guerrilheiro, né? Eu, não! Sou um anarquista. O Mauricio é um guerrilheiro ideológico. Eu, não, sou totalmente anarquista.

Max Eluard — Pra você, o que importa a música?

Abujamra — Eu respeito música porque respiro música. Eu, com três anos de idade, escutava uma sinfonia do Prokofiev [n.e. Sergey Prokofiev, 1891–1953, compositor erudito russo autor da ópera Guerra e paz e das trilhas sonoras de dois filmes do diretor Serguei Eisenstein, Alexandre Nevsky e Ivan, o Terrível] e já conhecia, sinceramente. Estudei na Faculdade de Música Erudita, e os caras lá são muito pentelhos. Eu não sabia escrever direito uma partitura e fiz uma música para quarteto de cordas. Aí o diretor da orquestra falou, “Está muito mal escrita!” “Eu não sei escrever, mas escute a música!” Aí a orquestra, bem ou mal, escutou e tocou, e a música era bonita. Então, eu tenho um pouco de rancor com música erudita e com todo músico que quer ser, quer estudar… Meu, tem que sair do coração! Pra mim música é como ler um livro e se emocionar, ou ver um filme e se emocionar. É isso pra mim! A minha anarquia não é porra-louca, não é um caos desorganizado. É uma anarquia pensada, sabe? Eu quero que as pessoas se emocionem… Quero transmitir amor, beleza… Estou cagando pra nego que diz que eu tenho que fazer isso ou aquilo… Tem que fazer o que quiser. Tem tanta gente diferente, meu! Eu odeio pimentão, mas de repente você gosta. Então, não quer dizer que pimentão é ruim, quer dizer apenas que eu não gosto. Eu tenho que tomar muito cuidado, tenho que lutar contra o preconceito. Sou muito mais arquiteto do que músico. Mas é muito perigoso eu falar desse meu anarquismo. É muito perigoso porque as pessoas acham que eu sou um porra-louca. Eu não sou um porra-louca. Sei muito bem onde estou pisando, sei muito bem o que eu faço da vida, eu sei pra quê eu faço música… O que importa é fazer a pessoa feliz…

Tacioli — Esse é o papel da música?

Abujamra — Da música, não! Da arte. Esse é o papel do ser humano. Pra mim, o papel do ser humano é tentar não ter preconceito, mas isso é impossível. Todo mundo tem preconceito… Preconceito de preto, de bicha, de gordo, de puta, de amarelo, de azul, de branco. Todo mundo tem preconceito. Isso é uma coisa contra a qual eu luto. Como é que eu luto na música? Meu, vou mostrar pra vocês aqui meus MP3. Vocês vão chapar, porque tem de tudo, música búlgara com country, com coisas como a “Éguinha Pocotó” [n.e. Funk carioca de muito sucesso lançado pela dupla MC Serginho e Lacraia]. Eu escuto de tudo mesmo! Não tenho preconceito. Escuto e misturo tudo! E não sou Frankstein!. Sou paulista e gosto! [risos] Gosto dessas coisas mesmo e gosto de misturar. E acho que o papel do ser humano é conviver com as pessoas. Eu inventei um verbo que eu tenho falado em tudo quanto é entrevista. É “destribificar”. O que quer dizer? Vocês sabem o que é isso? Por exemplo, você é punk, e o outro cara gosta de country. Esse daqui gosta somente de rock and roll. Então, a sua tribo é o rock, a dele é o punk e a do outro é o country. Destribificar é tirar um pouquinho a sua tribo e olhar para a do outro, e ver coisas que você gosta nessa tribo. O punk, de repente, tem um timbre que você pode utilizar… Isso é destribificar! Eu penso muito nisso e vendo esse texto.

Rosselli — Mas isso é uma tendência musical, né?

Abujamra — É, mas as pessoas não destribificam a cabeça. Tem que ir mais além. Por exemplo: eu adoro Sandy & Junior. Claro, não gosto muito da música que eles fazem, não gosto muito do jeito que eles são vendidos, não-sei-o-quê, mas a menina é afinada, tem uma cara bonita, é interessante, o menino toca… Então, você sempre tem que achar coisas bonitas em coisas feias, e achar coisas feias em coisas bonitas. Porque se você fosse simétrico, se seu lado direito fosse idêntico ao esquerdo, você seria feio pra caralho! A gente é bonito pela diferença. Esse lado aqui é diferente desse. Eu fui ver As horas [n.e. Filme dirigido por Stephen Daldry e lançado em 2002 com Nicole Kidman, Julianne Moore e Meryl Streep], com a Nicole Kidman… Alguém viu?

Almeida — Eu fui.

Abujamra — Eu odiei, odiei. Falei para minha mulher, “Eu não vou agüentar, preciso ver alguma coisa…”. E ali tinha uma direção de arte estupenda, maravilhosa. Aí comecei a ver o filme e a gostar dele pela direção de arte. Então, vi alguma coisa bonita naquele filme. Vou ver X-Men [n.e. Filme de Bryan Singer baseado em personagens de quadrinhos e lançado em 2000, com uma seqüência em 2003], vou ver filme francês de cinco horas, vou ver tudo. Sempre consigo ver coisas boas. E a gente tem que ver coisas boas em coisas ruins.

Tacioli — Mas quando você diz que gosta da Sandy & Junior, o que é gostar? É pegar o disco e curti-lo ou é simplesmente respeitá-lo?

Abujamra — Não, eu gosto. Mas o meu gostar como músico… se você fosse minha namorada, você iria me bater, porque quando a gente fosse ouvir uma música, eu escutaria cinco segundos dela apenas. Eu não consigo curtir… Nada! Eu não tenho som. Eu tenho aqui 500 milhões de MP3 e não tenho uma música inteira. Não escuto uma música do começo ao fim. Não vou jantar em restaurante que tenha música ambiente. A minha relação com música deve ser diferente da sua. Não posso transar ouvindo música. Música é uma coisa muito louca pra mim. É claro que existem casos e casos. Não vou pegar um disco da Sandy & Junior e escutar. Caras que eu amo, como o Zeca Pagodinho, não pego o disco deles para escutar.

Tacioli — E em shows, como é sua relação?

Abujamra — Eu fico assim, parado. Podem estar os Tribalistas, pode estar todo mundo pulando, mas eu fico assim, parado… “Legal o timbre da guitarra, o baixo…”. Sou um pentelho! Um dia a minha ex-mulher disse que eu estava surdo, que eu estava falando muito alto. “Vá fazer um teste de audiometria!” Aí, o resultado… Tenho ouvido de neném. [risos] Era perfeito! Então, eu treino muito o ouvido como um atleta treina correndo. Sou muito obsessivo — a palavra não é obsessivo… Se você fosse um pintor, você não veria um quadro somente, veria a tinta usada… Eu sou assim… Você não é fotógrafo? Você olha uma fotografia somente pela fotografia? Há filmes em que consigo… Daí eu amo e falo “Esse é o filme da minha vida!” Delicatessen [n.e. Filme de 1991 dirigido por Jean Pierre Jeunet e Marc Caro ], por exemplo. Nesse eu consegui entrar com tudo. Não fiquei “Ah! O figurino não-sei-o-quê, que coreografia mal feita…” Há coisas que eu lembro mesmo, aí é top de linha pra mim…

Rosselli — Cite mais um.

Abujamra — Era uma vez na América [n.e. Último filme de Sérgio Leone, com Robert de Niro encabeçando o elenco]. Tem quatro horas e você quer mais. Mas isso é raro pra mim. Apesar de ser um anarquista, eu me considero um pentelho com arte.

Tacioli — E nacional?

Abujamra — Nacional… Olha, todos os que faço eu não odeio. [risos] Porque você tem que entrar para poder fazer. Dos que eu fiz, o que eu mais gosto é o Ação entre amigos [n.e. Segundo longa do cineasta Beto Brant, lançado em 1998]. Tecnicamente é um filme muito legal. Do Glauber Rocha eu gosto de tudo. Gosto de tudo que incomoda no começo e depois fica lindo. Por exemplo, a primeira vez que eu coloquei para tocar o Õ blésq blom, disco dos Titãs, falei, “Que disco chato!”. Aí tive vontade de ouvir de novo. E hoje a coisa que eu mais gosto deles é o Õ blésq blom. É que nem sushi. Quem gosta de sushi? Você não gosta? Eu odiava também. Aí, um dia eu falei, “Vou experimentar de novo!”. “Nossa, é muito ruim, cara!” [risos] E hoje não consigo viver sem comer comida japonesa. Isso é legal, porque eu vou morrer e vou querer um sushi ou um sashimi. Eu entendo quando você fala da Sandy & Junior. Eu tento defendê-los ou algumas coisas que não são destribificadas. É claro que eu não pego um disco da Sandy & Junior e escuto. É claro. Mas eu acho que existem coisas legais neles… Eu acho o menino foda, ele está tocando agora com o Davi Moraes [n.e. Guitarrista, cantor e compositor, filho de Moraes Moreira e atual marido de Ivete Sangalo]. Ele é um menino legal. Eu os conheci. Eles não estão brincando, não estão mais… As pessoas me matam, mas vocês conhecem essa eguinha pocotó? Eu acho muito legal, cara, me desculpa.

Tacioli — O que é legal na “Eguinha”?

Abujamra — O ritmo, o som, o jeito, o timbre da voz do cara, a autenticidade da Lacraia… Eu gosto, desculpa, não me batam, mas eu gosto. É claro que eu acho o funk carioca uma merda porque incita o sexo, incita a violência. Eu não estou generalizando o funk, mas essa musiquinha do pocotó é o máximo. Eu queria ter feito isso aí! [risos] Mas eu entendi a sua pergunta… A minha resposta é: achar coisas belas em coisas feias.

Tacioli — Você não acha que essa visão da arte e do mundo que você tem pode esbaçar seu poder crítico, tanto para se criar, quanto para se colocar dentro de um meio?

Abujamra — Eu acho que tudo na vida tem um limite. Eu não vou pedir para o Chitãozinho & Xororó fazer o que eles quiserem, porque vai dar merda, pra eles mesmos. Pra mim você pode pedir, entendeu? Porque eu já nasci com essa coisa. Então, o que eu quero dizer é que não vai me atrapalhar porque eu já vivo assim. Mas há limites. É claro que você não vai pedir para uma pessoa como o Karajan [n.e.Herbert Von Karajan, 1908–1989, um dos maestros mais famosos da música clássica] fazer uma disco music. Ele não vai conseguir, porque não nasceu pra isso. Ele nasceu para outra coisa. É por isso que existe muito racismo, muito preconceito, porque existe muito o jeito que a pessoa nasceu pra ser. Você nasceu pra ser… O que você faz além do Gafieiras?

Tacioli — [silêncio] Boa pergunta. [risos]

Abujamra — Ué, você escreve, e isso é seu. A resposta da sua pergunta é: tudo tem um limite. Essa crítica que você falou vai existir na criação se isso ficar um bundalelê, porque mesmo o meu bundalelê não é um bundalelê, é um bundalelê descoberto. A minha não-ciência tem uma ciência animal por trás, tem escopo. Modéstia à parte, eu estudei muito. Não é gratuito. Acho que nada é gratuito, não pode ser, nada é por acaso. Tem que ter um limite, não é uma festa na floresta.

Tacioli — Existe muita coisa gratuita.

Abujamra — Existe, é claro que existe.

Tacioli — E você identifica isso?

Abujamra — Ô. Muito, muito. Uma vez eu fui a Nova York no Guggenheim, museu de arte moderna. Você já foram lá? E um dia antes eu fui ao Metropolitan, no Museu, que é maravilhoso. Eu chorava! Via Van Gogh e chorava! Você vê a tinta, a mão do cara está ali. Aí eu fui no Museu de Arte Moderno. Meu, achei tudo uma bosta, tudo uma merda! [risos] Sabe, uma laranja em cima de um tubo de ensaio vira uma obra de arte. Eu achei uma merda! E, de repente, vi um negócio estranhíssimo, que era um móbile muito estranho. “Nossa, que coisa bonita!”, e era tão estranho quanto as outras. E eu cheguei perto, olhei e… “Pablo Picasso”. Eu tinha achado bonito sem saber que era dele. Então, nada é gratuito. Você vê que atrás daquela coisa esquisita do Pablo — ele já tinha pintado coisas tão legais antes. No começo da carreira, ele pintava coisas realistas. E chegou uma hora em que falou “Pô, vou destruir tudo isso daqui!” E tem as “Cinco Meninas de Veneza”, vocês conhecem esse quadro? São cinco mulheres que ele começa a pintar de forma realista, mas quando chega no meio do quadro, começa a destorcê-las. É lindo aquilo! É seu momento de transição. Parece até que estou me gabando, mas não sou Pablo Picasso, não sou Prokof’ev, não sou nada, mas estudei bastante, nasci músico, escrevi muita partitura, estudei muita guitarra pra eu falar “Meu, não é a minha. A minha viagem é o Fat Marley. A minha viagem é o Karnak. É poesia.” Essa é a minha viagem.

Almeida — André…

Abujamra — Vocês querem água?

Almeida — Eu quero.

Abujamra — Vamos parar um pouquinho…

Tacioli — Sim, sim…

“Se o Tom Zé existe, quem não vai acreditar no ser humano?”

Rosselli — Tá gravando?

Tacioli — Tá, sim.

Max Eluard — André, é engraçado, estou achando um pouco difícil te entrevistar.

Abujamra — Por quê? [risos]

Max Eluard — Pelo sentimento de que é difícil fazer uma pergunta, sacumé?

Abujamra — Pode perguntar.

Max Eluard — Não, não… [risos] Sabe essa coisa de você olhar e já saber a resposta, sem precisar ouvi-la? É meio transparente, é muito claro o que você quer com a música, o que você quer com seu trabalho…

Abujamra — Basicamente, eu quero mostrar para as pessoas que não existe problema. O único problema é a morte, e que não é um problema pra mim.

Max Eluard — Aliás, é o que você falou no show de despedida do Karnak, “Não é o fim, é o começo…”

Abujamra — É a renovação. Mas é isso, eu tenho resposta, sim. É só perguntar que eu respondo.

Tacioli — Você tem medo de quê, André?

Abujamra — Do que eu tenho medo? Meu, antes do meu filho nascer, eu tinha medo do escuro. Agora eu não tenho mais. Cara, não é bem medo, mas sou um cara meio indignado… Eu tenho vários defeitos, e um deles é ser… por exemplo, vamos supor que eu sou um puta amigo dele, e você é amigo dele também mas deve uma grana pra ele. Aí você não paga. Ele fica puto com você e fala pra mim, “Eu tô puto com ele, caralho!”. Aí eu fico puto com você! Aí vocês ficam amigos de novo, e eu nunca mais vou falar com você. [risos] Eu tenho esse problema. Eu tenho um pouco de medo de ser assim. Sou uma pessoa rancorosa. Tenho medo das pessoas malvadas. Existe o malvado e o verdadeiro, né? Eu tenho medo dessas pessoas.

Tacioli — E esses medos te estimulam a criar?

Abujamra — As minhas composições falam das injustiças sociais. Componho muito com as coisas que eu sinto. Eu tenho essa coisa política. Sou uma pessoa política. Todo artista tem que ser político. Se você não é político, você aceita a política que fazem com você. Sou um pouco político. Eu faço minhas músicas em cima desses meus medos.

[ encabulada, Zequinha se aproxima ]

Zequinha — Quantos querem água? [risos]

Max Eluard — Todo mundo.

Zequinha — A água estava quente, mas eu pus um gelinho.

Abujamra — Ó, garota!

[distribui os copos com água]

Abujamra — Obrigado, Zequinha!

Zequinha — De nada.

Abujamra — A Dani saiu?

Zequinha — Não, taí.

Max Eluard — Sem ver a questão localizada e abrindo bastante o zoom, você vê um grande nome do mundo nessa questão política e social?

Abujamra — Sempre existiu. Há uma teoria que diz que os gays nunca foram nem mais, nem menos, a única coisa que muda é o marketing disso. Na Roma antiga havia gay pra caramba, e hoje falam que tem muito mais gay. Não, sempre foi a mesma quantidade. Violência? Sempre foi na mesma quantidade.

Rosselli — Só que ninguém via, né?

Abujamra — Por exemplo, hoje em dia, você nem vê muito o que acontece na guerra, mas você sabe que ela está lá, cai uma bombinha e você a vê explodindo… Sempre existiu isso. Sempre existiu o dominado e o dominador. Esse é um movimento peristáltico. Sabe movimento peristáltico? “Você consegue ver, não consegue ver, você consegue ver, não consegue ver…”. A luta da gente não é a de ser mais legal ou menos legal. A luta da gente é compreender o mundo num todo. Não vejo muita solução… Eu não levanto muito bandeiras. Com o Karnak no começo, eu falava,“Todos somos filhos de Deus, vamos nos unir…” Hoje eu falo, “A gente não vai se unir porra nenhuma, mas vamos tentar entender o outro”. Eu já mudei um pouco a cabeça. Acho que isso que é a vida.

Tacioli — Tolerância?

Abujamra — A gente tem que engolir… Mas quando eu era jovem, falava “Ah! Você é negro, você é azul, vocês se amem!” Se amem porra nenhuma! Ele não quer saber.

Max Eluard — Não precisam se amar.

Abujamra — Exatamente. Não precisam se amar. Basta o respeito. Não ache que ele é pior ou melhor que você. Fiz uma música nova para meu trabalho-solo, porque me incomoda muito essa coisa tanto do branco quanto do negro. Me incomoda muito o racismo da cor. Porque eu não sou branco, eu estou branco. Eu que acredito em várias encarnações, e vou ter outras, eu já fui branco, preto, alemão nazista, já fui o judeu que morreu… Esse papo é muito delicado pra você falar pra todo mundo… Pode colocar aí, mas eu acho que eu não sou branco, eu estou branco. E você está branco! Você está homem! Pode ser que você tenha sido uma puta na Rússia, meu! Eu luto muito por isso, mas é uma viagem tão metafísica que eu tenho que defender outra coisa também. Acho que a beleza é o que você não vê, não o que você vê. O que você vê, é bonito ou feio, mas a beleza verdadeira a gente não consegue ver. Não sei porque eu falei isso agora.

Almeida — Por causa de seu trabalho-solo…

Abujamra — Por causa da música… Eu tenho falado essas coisas, acho que tem a ver com os medos, sabe?

Rosselli — E como você tenta lidar com esses medos? Terapias?

Abujamra — No cadomblé, é lá. É uma religião. É a minha terapia…

Rosselli — Há um vínculo grande entre terapia e religião.

Abujamra — Tem, total.

Max Eluard — Mas você tem fé no ser humano? Você acha que a nossa civilização ainda vai dar certo?

Abujamra — Claro. Estou falando sério, eu acredito. Se vocês forem entrevistar meu pai, ele vai cagar em cima de vocês, vai falar que “Não, nada é possível!”. Sou um pessoa superotimista. Eu acredito no ser humano. Acredito muito no ser humano. Tem gente filha-da-puta, mas tem gente como o Gandhi, tem o Tom Zé. [risos] Se o Tom Zé existe, quem não vai acreditar no ser humano? [risos] Acredito, sim. E lá no budismo não tem muito esse papo de bem e mal, ou do feio e do bonito. O que é bonito pra você, poder ser feio pra ele, o que é legal pra você, pode ser horrível pra ele. Eu acredito sim, tenho muita esperança. Cara, o ser humano é maravilhoso. Por exemplo, quando fui para o Egito, vi que os caras têm todos os dentes podres, pretos, tudo fudido. Os caras não têm o que comer. Os caras são uns fudidos pra caralho. E aí você chega perto deles e eles te dão um sorriso [risos], não sabem falar inglês, mas te levam para as pirâmides, rindo, felizes… Eles não têm dinheiro, não têm o que comer, estão fudidos, mas felizes. Você quer aprender mais do que com um cara desse? Você vai para o Nordeste — eu adoro o Nordeste! -, e você vê um tiozinho velho sentadinho… Ele está vivendo, cara! É olhar pra ele e ele vai te passar uma porção de coisas… Imagina a vida desse cara, o que não está na cabeça de um sujeito, de um matuto como esse. É uma idéia velha achar que o mundo não vai dar certo. Os bostas que se fodam! Mas cedo ou mais tarde o Bush vai se fuder. Vai, não tem volta.

Tacioli — Você havia falado da música de seu trabalho-solo. Como ela é?

Abujamra — Ela fala assim, “Meu olho azul / É o negro diluído / Racismo é um rio poluído / Eu sou branco / Meu orixá me abençoou / Se me chamar de negro / Vou falar que também sou / Eu sou negro / O orixá me abençoou / Se me chamar de branco / Eu vou falar que também sou / Limpa o rio / Limpa o mar / E viva a diferença!”. É mais ou menos o que estou falando pra vocês.

Tacioli — Como se chama?

Abujamra — Não sei ainda… “Olho azul”, acabei de inventar. [risos]

Max Eluard — Como é a relação com seu pai, esse seu otimismo em contraposição com o pessimismo dele?

Abujamra — Nossa, eu tenho conflito desde que nasci. Pô, ser filho do Abujamra é foda, meu! É o peso da camisa. Ser filho dele não é fácil, não. Sabe aquela coisa do negro, de que para se dar bem na vida tem que dar mais bem na vida ainda pra poder ter um carro? Ele não tem que passar, tem que ser o primeiro. Eu tenho que ser o primeiro como artista, não tem jeito. Modéstia a parte, meu pai é um puta artista, um fodão. Então, eu tenho que ser mais fodão.

Rosselli — Mas você não vive na sombra dele…

Abujamra — Não vivi porque eu sou músico, porque se fosse ator… Até hoje, quando faço qualquer coisa, nego fala “Mas é filho do Abu, né?!”!”. Rola isso, é claro que rola.

Tacioli — E isso enche o saco?

Abujamra — É claro que enche, pra caralho. Mas eu consigo me dar bem com isso.

Tacioli — Qual é a resposta que você dá?

Abujamra — Não dou resposta nenhuma…

Tacioli — Mas já deu.

Abujamra — Ah, já dei, já dei. Mas a relação com o meu pai é muito bonita. Ele respira arte 100% da vida. Então, às vezes, quando ele está comigo, ele não consegue ser pai. Ele está me dirigindo. [risos] E falo, “Pai, dirija seu atorzinhos de merda! Eu, não, sou filho!” [risos]

Max Eluard — E como era essa relação quando você era moleque?

Abujamra — Era muito louco. Tem uma coisa muito linda que a minha família apresentou para mim e para meu irmão… Meu pai falou, “Você vai fazer terapia por excesso de amor, não por falta!” A relação com a minha família é marcada pelo excesso de amor. É aquela coisa que sufoca, é o amor sufocante, que também não é bom, mas é melhor que a falta. Tanto eu e meu irmão, quanto meu pai e minha mãe, se você cair agora e precisar ir para o Japão, nós o levaremos. A gente tem isso. Então, tem o lado maravilhoso, mas há o lado do conflito, também. Você não tem conflito com a sua família? Todo mundo. Ter conflito com o Abuzão é foda! [risos] Ele é o dono da verdade…

Almeida — Uma discussão com ele não deve ser fácil.

Rosselli — Posso puxar um assunto novo?

Abujamra — Claro. Os caras não sabem mais o que perguntar! [risos]

Rosselli — Como foi trabalhar com o Pato Fu e com o Charlie Brown Jr.?

Abujamra — Bom, com o Pato Fu eu fiz um disco. Foi assim: eu estava lançando o Karnak e a Fernandinha comprou o Karnak e falou “Esse cara tem que produzir a gente!”. Aí, eu produzi o Tom Zé e o Pato Fu simultaneamente. Tom Zé em São Paulo e Pato Fu em Minas Gerais.

Rosselli — Foi o boom deles, né?

Abujamra — Foi antes do boom. Com o Dudu Marote [n.e. Produtor musical que já trabalhou com Skank, Jota Quest, Pato Fu, Mauricio Manieri, Daniela Mercury e Adriana Calcanhotto. É dono do selo Muquifo Records, especializado em música eletrônica] eles venderam 300 milhões. Comigo, venderam um disco. [risos] O disco que produzi foi oTem mas acabou. Ninguém comprou. Cheguei para os meninos e falei “O que vocês querem?”. “Eu quero que você enlouqueça! Faça uma coisa muito louca!”. Eu fiz um disco muito louco. A gravadora nem olhou para o disco. A gravadora fez assim, ó… É um puta disco legal, bem louco. E eu descobri que o meu negócio não é produção. Prefiro fazer um clipe como o do Charlie Brown… [n.e. “Hoje eu acordei feliz”, que concorreu ao Video Music Brasil, da MTV, em 2002]

Rosselli — É um Clube da Luta [n.e. Terceiro longa do cineasta David Fincher, o mesmo de Seven] que você fez.

Almeida — Snatch! [n.e. Segundo longa do cineasta inglês Guy Ritchie]

Abujamra — Snatch com Clube da Luta. Eu adoro aquele cara, o marido da Madonna, o Guy Ritchie. Foi bem em cima daquilo que ele fez. É a história do puddle. Eu peguei, escrevi o roteiro, chamei os caras que eu gostava, terceirizei e fui embora.

“O ratinho da Folha é meu!”

Rosselli — Posso puxar um assunto novo?

Abujamra — Claro. Os caras não sabem mais o que perguntar! [risos]

Rosselli — Como foi trabalhar com o Pato Fu e com o Charlie Brown Jr.?

Abujamra — Bom, com o Pato Fu eu fiz um disco. Foi assim: eu estava lançando o Karnak e a Fernandinha comprou o Karnak e falou “Esse cara tem que produzir a gente!”. Aí, eu produzi o Tom Zé e o Pato Fu simultaneamente. Tom Zé em São Paulo e Pato Fu em Minas Gerais.

Rosselli — Foi o boom deles, né?

Abujamra — Foi antes do boom. Com o Dudu Marote [n.e. Produtor musical que já trabalhou com Skank, Jota Quest, Pato Fu, Mauricio Manieri, Daniela Mercury e Adriana Calcanhotto. É dono do selo Muquifo Records, especializado em música eletrônica] eles venderam 300 milhões. Comigo, venderam um disco. [risos] O disco que produzi foi oTem mas acabou. Ninguém comprou. Cheguei para os meninos e falei “O que vocês querem?”. “Eu quero que você enlouqueça! Faça uma coisa muito louca!”. Eu fiz um disco muito louco. A gravadora nem olhou para o disco. A gravadora fez assim, ó… É um puta disco legal, bem louco. E eu descobri que o meu negócio não é produção. Prefiro fazer um clipe como o do Charlie Brown… [n.e. “Hoje eu acordei feliz”, que concorreu ao Video Music Brasil, da MTV, em 2002]

Rosselli — É um Clube da Luta [n.e. Terceiro longa do cineasta David Fincher, o mesmo de Seven] que você fez.

Almeida — Snatch! [n.e. Segundo longa do cineasta inglês Guy Ritchie]

Abujamra — Snatch com Clube da Luta. Eu adoro aquele cara, o marido da Madonna, o Guy Ritchie. Foi bem em cima daquilo que ele fez. É a história do puddle. Eu peguei, escrevi o roteiro, chamei os caras que eu gostava, terceirizei e fui embora.

Max Eluard — O que te chama atenção na atual música brasileira?

Abujamra — Pô, eu tô meio… Antes de falar isso, vou falar o que está acontecendo… Como faço muito longa-metragem, muita trilha, estou mixando tudo em 5.1. Então, pra mim o estéreo está velho, estou cansado de escutar música estéreo. Não tenho ouvido muita música e nada tem me chamado atenção. Estou sendo jurado do Prêmio Visa — Compositores. Eu, Jane Duboc, Johnny Alf, Nelson Ayres e o [Celso] Viáfora. Meu, não consigo ver nada muito legal, não.

Rosselli — E ali é tudo macaco velho, não?

Abujamra — É.

Tacioli — Master.

Abujamra — É, master. Eu sou o pentelho da turma. Tudo o que eles acham maravilhoso, eu acho uma merda, o que eles acham uma merda, eu acho maravilhoso. [risos] Mas é legal isso, eles morrem de rir comigo. [toca o celular]

Alô?! Oi. Estou no meio de uma entrevista. Te ligo daqui a pouco. Como estão as histórias do José? Meu e-mail está quebrado. Obrigado.

Abujamra — Vamos lá. O que eu estava falando?

Tacioli — Do Prêmio Visa.

Abujamra — Do que tenho gostado… Meu melhor amigo de infância é o Moska, o Paulo Moska. E ele sempre dá uma mexida no trabalho. Gosto muito do trabalho dele. Estou numa puta crise artística depois que o Karnak acabou, porque tudo o que faço, parece Karnak. Aí o cara falou, “Por que você está mal? O Karnak era dedo seu também! Você acha que o João Gilberto vai mudar da água pro vinho? Não vai!” E o Paulinho Moska fica batalhando isso. Eu gosto muito dele. Acho o Mauricio Pereira um gênio. Se um dia ele entrar no estúdio e cantar 15 músicas dele somente ao microfone, e o Liminha colocar umas coisas, ele vai ficar o ator mais cool, mais famoso do mundo. Acho que ele nem saca o tamanho do talento que tem. Muito talentoso! Se você chegar pra ele agora e falar “Mauricio, faça uma letra de tatu e a cor azul”. Ele faz e vira uma obra-de-arte. E a gente se dá muito bem. Tivemos uma história muito bonita nos Mulheres Negras. Peço para vocês irem ver o show da gente agora. A essência que a gente tem é maravilhosa.

Dafne Sampaio caçando o ângulo perfeito para registrar André Abujamra no quintal de sua casa. (Crédito: Ricardo Tacioli/Gafieiras)

Dafne — Vi o show de despedida de vocês em Ribeirão Preto, no Teatro Municipal. Acho que vocês fizeram uma turnê de despedida pelo interior…

Abujamra — Fizemos.

Max Eluard — Com os Mulheres vocês acabaram sabendo que ia acabar.

Abujamra — Sabíamos que ia acabar. A gente somente não acabou antes porque estava com uma puta de uma dívida. Então, fizemos os shows para pagá-la. Eu sofri muito com o fim dos Mulheres.

Max Eluard — E com o Karnak, não?

Abujamra — Com o Karnak, não. Eu estava mais adulto, sabe?

Tacioli — Você já havia separado uma vez…

Abujamra — Várias vezes. Tenho três casamentos nas costas, né, mano. (…) Ô, dá uma balinha dessa pra mim! [risos]

Almeida — Só tenho essa. [risos]

Abujamra — Fica todo mundo comendo balinha na frente de gordo.

Rosselli — Eu tenho Halls.

Abujamra — Ô, descola aí. Todo mundo ficou triste, mas todo mundo sacou que estava na hora, também. Pô, o ciclo, dez anos, já havíamos feito muita turnê nos Estados Unidos, na Europa… A gente sacou que tava na hora. A gente tem saudade… O Hugo Japonês tem saudade, eu tenho… Somos muito amigos. Mas as coisas estão rolando. O Cabelinho… Vocês viram o trabalho do Cabelo?

Max Eluard — Não!

Abujamra — Ele tem negócio muito legal. Chama-se Sindicato do Groove.

Max Eluard — Ah! Sim.

Abujamra — É do Cabelo. Ele quem inventou isso aí. O Kuki [n.e. Kuki Stolarki, baterista, também toca no grupo Bojo] está com o Z4 que é uma banda de percussão de quem vou produzir o disco. O Hugo [Hori] toca no Funk Como Le Gusta. O [Marcos] Bowie está fazendo o trabalho-solo dele. Eu também estou fazendo. É legal!

Tacioli — Mas, artisticamente, o que sinalizou que estava na hora de terminar?

Abujamra — Hoje, quando eu falo que cago para a gravadora… Primeiro foi assim: a gente remou contra a maré durante 10 anos. Nunca tivemos apoio de gravadora. A gente sempre se bancou. Sempre ganhamos dinheiro. Eu gastei um apartamento.

Almeida — E como ganharam dinheiro se você gastou um apartamento?

Abujamra — Ô, meu nome é André e o seu é Daniel. Não apareceu um apartamento de um dia para o outro.

Almeida — Não, não.

Abujamra — No começo da carreira. [risos] Viagem para os Estados Unidos, com show aqui… Foi uma coisa… Não fique vermelho, Daniel! [risos] A gente ganhava com turnê… A gente ganhava dinheiro, só que era muito difícil. Era uma batalha diária. E aí comecei a ver que eu estava me repetindo, a coisa do russo. O público amava a gente, mas eu não estava fazendo mais nada de novo. A gente cansou mesmo, de batalhar, de lutar, muita gente junto… Então, o Karnak acabou na hora certa.

Max Eluard — Vi uns três, quatro shows do Karnak. Surpreendentes! A coisa cênica era muito forte. Era você quem pensava?

Abujamra — Eu pensava, mas no começo a gente tinha aula de mitologia grega [risos], a gente tinha ensaio de teatro. Depois de 10 anos, as coreografias saíam… Pô, eu nasci no teatro, nasci na coxia. Não concebo um espetáculo sem ter um… O guitarrista não está com um cigarrinho aqui fazendo solo. Ele está olhando para algum lugar, ele está pensando em alguma coisa.

Max Eluard — Isso para satisfazer um desejo seu ou para pensar no espectador, que se desloca de sua casa para um teatro para não ouvir um disco que já tem.

Abujamra — Exatamente. Artisticamente, eu tenho isso, por eu ser um sujeito de fazer muita coisa, pô! Quando vou fazer um espetáculo, ele tem que ter uma luz, um figurino… Pô, você não ficou com vergonha de mim pra perguntar, né? [dirigindo-se ao Daniel Almeida] [risos]

Almeida — Não, não, eu até vou falar um negócio…

Tacioli — Assisti o Karnak em Campinas, ali perto da Unicamp, numa casa chamada Rhodes, talvez.

Abujamra — Era você?

Tacioli — Havia somente o pessoal das Ciências Humanas, mais ninguém.

Abujamra — Não havia ninguém.

Tacioli –Umas cem, apenas.

Rosselli — Como é isso, depois de uma longa data fazer shows e não ter público? É brochante?

Abujamra — Porra! Teve um show em Taubaté que nós fizemos pra seis pessoas, cara!

Max Eluard — Havia mais gente no palco do que na platéia.

Rosselli — E como é isso um dia depois, ou logo à noite?

Abujamra — Na hora é uma merda! Depois, no fim do show, é maravilhoso, porque a gente toca pra caralho, velho!

Rosselli — Vira ensaio.

Abujamra — Tem uma história com os Mulheres Negras muito legal. Eu sou jovem mas tenho uma carreira. Fiz muita roubada com o Mauricio. A gente já fez show para uma pessoa, lá no Bexiga. O nome do cara era Vicente. Ele assistiu ao show inteiro. E depois dessa experiência tudo vale. Círculo Militar de Curitiba… Seis mil pessoas esperando o show. Replicantes, Ratos de Porão, Inocentes, Plebe Rude, Garotos Podres…

Almeida — E Os Mulheres Negras.

Abujamra — E Os Mulheres Negras. Seis mil pessoas. Nove horas era o show. Dez horas e nada. Começam a xingar a gente… Aí entramos no palco. Cara, eram seis mil pessoas assim “VAI EMBORA! VAI EMBORA!” [risos] Você já viu seis mil pessoas olhando pra você e falando “vai embora!”?

Almeida — Eu iria!

Abujamra — Meu, a gente não foi. Começamos a tocar e os caras atiravam de tudo, bolacha, fichinha telefônica (na época)… Ainda tenho umas marcas no corpo. [risos] Meu, porrada pra todo quanto era lado. Aí o Mauricio parou e falou “Vocês querem que a gente vá embora?” “QUEREMOS” “A gente não vai embora!” Aquele silêncio! “A gente vai tocar ‘Summertime’”. [risos] “VAI EMBORA! VAI EMBORA!” Aí tocamos e fomos embora. Depois dessa experiência, meu, tudo vale! Essa experiência foi maravilhosa.

Almeida — Mas vocês não sabiam que poderiam passar por isso vendo a programação?

Abujamra — Mas foi importante a gente passar por isso.

Almeida — Lógico, é uma história para contar.

Abujamra — Seis mil pessoas me odiando. Mas depois a gente fez muito sucesso em Curitiba. Foi um dos lugares onde a gente mais fez sucesso.

Almeida — Os Mulheres faziam sucesso fora das grandes cidades? Sei lá, em Ribeirão parecia que rolava…

Abujamra — A gente estava numa época legal. Os Mulheres Negras tocavam na rádio.

Rosselli — É que não tinha nada parecido com isso, né?

Abujamra — Na época, você não tinha que pagar 300 mil reais para tocar numa rádio. Não havia jabá desse jeito que há hoje.

Tacioli — Havia, mas não desse jeito.

Abujamra — Mas não desse jeito. Cara, pra você tocar em uma rádio hoje você precisa pagar 300, 500 paus. Vai tomar no cu! Eu não quero pagar! Tô afim de escrever uma carta para o Gil, sabia? Meu, alguma coisa está errada, não está certo.

Dafne — Mas está rolando uma lei…

Max Eluard — E é uma sacanagem com as pessoas ao privá-las de ouvirem…

Abujamra — Aí eles fazem aquela camisa “Contra CD pirata”… CD pirata o caralho! Você paga 28 reais em um CD?

Tacioli — André, em entrevistas anteriores, você falou da utopia do Karnak, que em 1995 havia uma utopia. Qual foi a utopia do Karnak e a dos Mulheres? E qual é a sua atualmente?

Abujamra — A utopia eu conquistei. É a utopia conquistada. A utopia era antes de fazer o Karnak. Quando fizemos Os Mulheres Negras, todo mundo tinha banda de cinco, seis e oito integrantes. E a gente tinha uma banda de dois. Quando fiz o Karnak, todo mundo tinha banda de dois, porque não dava dinheiro. Eu fiz uma de quinze. Então, é uma utopia você conseguir fazer. Eu consegui, dez anos, meu! Três discos, várias viagens… A utopia é antes da conquista. Utopia é uma coisa que você não vai conseguir. Eu diria que eu consegui várias utopias que pensei, porque sou chato, me atiro de cabeça, acredito em uma merda e vou até o fim. A minha utopia agora é fazer um disco novo — isso aí é primeira mão mesmo, se vocês quiserem escrever… Como vou fazer? Vou gravar meu disco com todos os músicos do mundo que eu conseguir. Do mundo mesmo! Vou mandar uma base lá pra Bélgica, mesmo para músicos que eu não conheço. E eles vão enviar pra mim e vou fazer um disco com 800 milhões de músicos. O show será eu e o laptop, somente. E todos vão aparecer em slides, vídeos… Essa é a minha utopia, que é uma puta utopia! Mas vou conquistá-la. Acho que não se deve chamar utopia. Utopia que você conquista deve ter um outro nome. É uma a-utopia. Acabei de inventar. A destribificação e a a-utopia, “a” é não, negação…

Rosselli — Você lida bem ou é uma coisa sacal essa coisa da Web?

Abujamra — Não vivo sem. Se tá piscando a porra da Internet ali, fico desesperado. Eu não vivo sem. Tenho um motoboy 512. [risos] Trabalho com publicidade para sobreviver. E no meu contrato está lá, que não preciso ir às reunião, faço tudo de casa. Os caras mandam um vídeo pra mim, faço a trilha e envio de volta… É uma coisa muito simples, muito fácil, muito gostosa.

Rosselli — E blogue, site…

Abujamra — Quero fazer meu site, mas para tentar ganhar um troco. Uso muito pra passar informação de trabalho. Fiz um trabalho muito legal no Rio de Janeiro, com o Vicente Amorim. É um filme lindo, cara. Ele fez um filme e eu não tinha tempo de ir para o Rio. Então, ele mandava uns filminhos. Eu fazia a trilha daqui e mandava em mpg4, com a trilha já. O cara ouvia e falava “Legal!”. Trabalhei um mês assim, com a Internet. Quando ele veio aqui, gravamos a orquestra…

Dafne — É o Caminho das Nuvens? [http://ocaminhodasnuvens.globo.com/]

Abujamra — É lindo esse filme.

Rosselli — O Igor, do Sepultura, falou que nos anos 80, pela falta de informação e pela dificuldade de se ter discos e VHS, havia muita pirataria oficial. “Cresci comprando coisa pirata!”, ele disse. “Então, não tenho como falar mal disso, seria falso!”. Como você vê a história da pirataria hoje em dia? Você já comentou um pouquinho que é um absurdo pagar 28 paus num CD…

Abujamra — É um absurdo! Esse papo da pirataria é ruim. Não compro CD pirata. Quando eu compro, que é raro, o que eu faço? Curto Ben Harper. Vou ao MP3 e procuro Ben Harper lá.

Rosselli — Não estou falando somente da pirataria de rua. Digo, Kazaa e todos esses softwares…

Abujamra — Sou totalmente afim, meu! Vou mostrar um exemplo prático pra vocês… Quando começou a rolar Napster, todo mundo baixou Madonna, né? Olha o que eu comecei a baixar… Escrevo qualquer coisa e mando baixar… Olhem o que vem… Olhem a riqueza. Em vez de baixar coisas que eu conheço, me comporto como se estivesse no Google com um gravadorzinho. Olha que merda é isso daqui… [sons de rock balada] Que língua é essa, cara? [sons de ficção científica] Que merda! [sons que lembram seriado de bang-bang italiano] Olha, parece comigo isso daqui! Isso é russo. Você tem que pegar esses MP3… Sabe o que eu baixei aqui? Aula de alemão. Estou estudando alemão de graça… Olhem que maluco! [“Prosseguindo com a série Aprenda alemão com a voz da Alemanha, apresentamos o curso Alemão, por que não?”] [risos] Se você gosta de uma música, você vai à uma loja e compra o CD original. Pau no cu! Que papo é esse? Esse papo aí é de neguinho que ganha milhões de dólares e está desesperado. Gravadora grande é tudo uma bosta, tudo uma bosta! [risos]

Tacioli — E como você vê os artistas que aparecem na TV fazendo campanha contra a pirataria?

Abujamra — Aparecem porque vivem dessa grana. Meu, é o seguinte… vamos supor que você é um rei, um rei medieval… Não havia gravadora nessa época, certo? Aí você chega pra mim e fala… “André, faça um sinfonia! Haverá um baile hoje à noite e quero que você escreva pra mim uma música.” Eu escrevia a música e te dava. Você pegava e me pagava por essa música. Aí, ela era sua. Que papo é esse de direito autoral? Cara que compõe, que cria, que faz, faz outra e ganha por outra. Esses caras que reclamam disso, esses Metallica, reclamam porque ganham milhões em cima disso. Vão deixar de ganhar? Tenho até um pouco de medo de falar porque é mexer em vespeiro… O próprio Gil, que é o nosso ministro, que eu o amo, vai ser uma coisa complicada, porque ele também vive de direitos autorais. Então, uma coisa é rádio, que a gente tem que fazer alguma coisa. Tomara que meu neto, ou meu bisneto, não passe por essa vergonha que a gente está passando… É uma puta vergonha a gente ter que pagar uma puta grana pra tocar na rádio, meu! Tá errado! Rádio é uma concessão! Então me dê… Dê uma rádio pro Paulinho da Viola, uma pro André Abujamra, outra pro Mauricio Pereira. Vou tocar o que eu quiser e não vou cobrar pra tocar. Vou pagar até pra tocar! E a coisa da pirataria é outra. Pirataria é uma coisa muito delicada. Sou contra a pirataria do CD mesmo, isso eu sou contra.

Rosselli — Existe a máfia…

Abujamra — Isso. Que são outros filhos-das-putas. Mas essa coisa de MP3 é maravilhoso.

Rosselli — Mas hoje também as gravadoras e distribuidoras começam a ficar em segundo plano, porque já se consegue gravar um disco em casa com um Macintosh ou PC, e depois vendê-lo.

Abujamra — O Maurcio Pereira faz isso. É guerrilha.

Rosselli — Há muita banda hoje em dia que é conhecida via web…

Abujamra — Uma coisa é distribuição, outra é a gravação. Lançar disco por uma gravadora é uma coisa que está ficando velha.

Rosselli — A distribuição é uma necessidade.

Abujamra — Sim. Mas hoje em São Paulo tem uma distribuidora, a Tratore, que é boa pra caralho. O Fat Marley é da Tratore. Tem Fat Marley pra caralho por aí. Onde você quiser tem pra comprar. Coisa que na Warner não rolava, na época do Mulheres. O Mulheres você não achava… e era da Warner. E era mais famoso que o Fat Marley. O Fat Marley é uma viagem, né?

Almeida — Entre todas essas atividades que você leva, eu queria saber se você também escreve? Mas não letras de música, mas curtas, filmes…

Abujamra — Tenho a maior vontade. Tô escrevendo um longa.

Almeida — Um longa?

Abujamra — É. Tô escrevendo. Vou captar, dirigir, editar… Fazer tudo! É sobre a mitologia dos orixás, só que feita hoje em dia.

Almeida — Mas é uma ficção?

Abujamra — Vai ser uma ficção, mas não vai ser nada africano ou brasileiro. Será um filme de ação tipo Snatch [n.e: Snatch — Porcos e Diamantes (2001), filme dirigido por Guy Ritchie com Brad Pitt e Benicio del Toro] [ri]… Eu gosto de filme de porrada! Sou menino, meu, gosto de filme de porrada! [risos] Gosto de filme ruim! X-Men 2,Matrix… Quero fazer um filme assim. Acho que falta filme assim no mercado brasileiro, mas porque é muito difícil fazer filme de ação.

Dafne — O Beto Brant faz bons filmes de ação.

Abujamra — É, é…

Dafne — Mas não são filmes de ação.

Abujamra — São psicológicos, rolam uns tirinhos… Eu quero tiro pra caralho no meu filme.

Dafne — John Woo e candomblé! [risos]

Abujamra — Exatamente, é isso aí.

Tacioli — André, seus trabalhos costumam ser bem aceitos pela crítica. Como é sua relação com ela? Há alguma expectativa?

Abujamra — Sou muito desorganizado com relação a isso. Se você perguntar pra mim se tenho algum material… Não tenho material nenhum e tenho um certo pé atrás, porque houve uma época em que o Karnak deu uma estouradinha meio pop. Foi com o segundo disco, Universo Umbigo. Fizemos mais shows, começamos aparecer mais na TV… Fomos fazer João Kleber!

Almeida — Aquilo foi bem bizarro.

Abujamra — Foi bem trash, foi bem trash. E naquela época a crítica começou a falar muito mal. Então…

Tacioli — Mas o que falavam?

Max Eluard — Vocês estavam fazendo qualquer coisa, vendendo a alma…

Abujamra — Falaram que o som era ruim, bem o contrário do que falavam. Crítica é uma merda! Quando você é cult, você é maravilhoso. Quando começa a ficar mais famoso, você é uma bosta. Então, eu tenho um problema com jornalismo. Até eu ia falar pra vocês…

Almeida — Não somos jornalistas…

Abujamra — Não fiquem com medo.

Almeida — Vê bem o que cê vai falar. [risos]

Abujamra — Vou falar. Acho que cheguei a comentar. O que acontece hoje em dia? Tem muita gente jovem escrevendo em jornal grande. Tem muita gente jovem escrevendo em home page fudida de grana. E essas pessoas trabalham com copy-paste, entendeu? Então isso é uma coisa que vou falar também nesse meu próximo trabalho…Copy-paste é o seguinte: eu já sou irmão do meu pai, o Mauricio Pereira é filho do Antônio Abujamra, que tocou no Karnak, o Mauricio Pereira toca no Karnak, o André Abujamra é irmão da Clarisse Abujamra… É tudo muito rápido e muito errado. A informação está muito errada. Ela é muita, mas é muito errada! O pessoal doGafieiras fez show com o Mauricio Pereira no SESC Itaquera [risos], o Mauricio Pereira é dono do Gafieiras… Meu, as coisas vão, e vão, e vão, e tão erradas… porque eu estou falando disso?

Tacioli — Por causa da crítica.

Abujamra — Então, as coisas estão muito novas. Elas estão muito rápidas, com muita informação e muita coisa errada. Então, bicho, não dá pra você confiar. Falta tempo. Falta estofo. A palavra é estofo. Neguinho com 19, 20 anos não tem o estofo da vida.

Dafne — Nem estofo de ouvinte.

Abujamra — É. Então ele pega, faz um copy-paste de uma crítica do Pedro Alexandre Sanches com outra do Marcelo Rubens Paiva, faz a coisa dele e manda. Aí o que acontece? Fica tudo errado. Sabe o que eu vou fazer no meu trabalho-solo? Vou fazer 80 releases diferentes. [risos] Falando sério! Vou mandar… Em um eu tô fazendo música punk, daí meu negócio é música clássica com instrumentos orientais, Vou… Porra, vão falar tudo errado mesmo! Sempre! Vou falar que sou pai do Antônio Abujamra, que sou mãe do Mauricio Pereira… Tudo porque as pessoas erram, meu! Talvez assim as pessoas não façam copy-paste. Em um release vai tá música punk e em outro música medieval. Tô fazendo punk medieval?

Tacioli — Você não leva a sério a crítica?

Abujamra — Não dá pra levar a sério crítica.

Tacioli — Mas você já levou?

Abujamra — Já. Quando falam mal de mim eu sofro muito. Até fiz uma música. Tem um cara, o Jotabê Medeiros, do Estadão… O cara não ouviu o disco e falou que minha banda era natimorta. Porra, quero que essa cara se foda! Artista que fala que não liga pra crítica tá mentindo. Eu ligo! Se chegam pra você e falam que o Gafieiras é uma bosta, você vai ficar feliz? Vai ficar puto, não vai? A gente fica puto.

Tacioli — Mas o que é crítica séria hoje em dia?

Abujamra — Tem um cara que eu gosto, o Carlos Calado. Ele é um cara que fala bem, fala mal, fala o que for, mas tem estofo. Você leu aquele livro do Mutantes que ele escreveu? O cara tem estofo. Se um cara assim fala mal de mim, eu vou ouvir e “Porra, ele tem razão, vou atrás!”. Crítica é isso, não é destruir alguém. É mostrar… “Karnak é legal pra caralho, mas está se repetindo”. É verdade, está se repetindo… Isso é uma crítica. Isso ajuda. Aquele cara, o Álvaro Pereira Junior, editor de…. fala coisas lá que ninguém nunca ouviu e destrói todo mundo…

Dafne — Brasileiro.

Abujamra — Destrói todos os brasileiros. Uma vez ele me destruiu. Fiquei até feliz… Falou mal do Universo Umbigo, mas não falou muito mal… Falou algo como “Esse cara pega vários músicos bons e fica misturando sons que nem o André Abujamra do Karnak!”. Porra, pega vários músicos bons e fica misturando sons? Tava falando mal do cara, mas acabou falando bem. [risos]. Eu acho esse cara meio daninho, sabe? Vende jornal, mas é meio daninho. Palavra boa, né? Daninho.

Tacioli — E sua relação com São Paulo?

Abujamra — Eu amo São Paulo, cara. Quando vou para o Rio de Janeiro a trabalho, não vejo a hora de voltar pra essa fumaça maravilhosa, esse caos. Eu amo São Paulo, sou apaixonado!

Almeida — Mas sua casa parece de cidade do interior.

Abujamra — Não é? E está do lado da Cerro Corá. Você dá dez passos e fica desesperado. Eu adoro!

Tacioli — Não te oprime?

Abujamra — Nem um pouco. Nova York, São Paulo, Tóquio, Cidade do México… Cê me atirou lá…

Rosselli — Você sobrevive.

Abujamra — … Tô em casa. Sou totalmente urbano, totalmente! E minha religião é da natureza, né? [ri]

Max Eluard — Mas, por outro lado, você precisa ir para a montanha…

Abujamra — Eu preciso ir pra relaxar, pra compor. Mas eu amo São Paulo. Vivi no centro da cidade, estudava na Praça da República — Caetano de Campos. Eu ia a pé de casa para o Caetano de Campos. Conheço… Rua Direita… Ia comprar mágica lá. Eu era mágico…

Almeida — Sou fascinado por mágica. Descobri uma loja na Rua Augusta que vende muitos truques.

Abujamra — Na Rua Augusta? Você tem que ir na 25 de Março, cara. Eu era mágico profissional.

Tacioli — Mas você tinha algum nome artístico?

Abujamra — Não. Eu era moleque. Fazia mágica pra minha mãe. Colocava pólvora quando ela chegava… Eu amo mágica, cara! O Roger, do Ultraje, é mágico. Cês conhecem o Zezinho Mutarelli?

Todos — Não.

Abujamra — Já ouviram falar? É um saxofonista, produtor musical. Ele é um puta mágico. Os caras ficam de queixo caído.

Tacioli — Você já utilizou a mágica em shows?

Abujamra — No Mulheres já. Inclusive quebrei a mão por causa disso.

Almeida — Fazendo mágica?

Abujamra — Andando de patins, cara!

Rosselli — E tocando guitarra?

Abujamra — Tocando guitarra. [risos] Tomei um cacete, quebrei a mão…

Rosselli — E aí?

Abujamra — E aí que isso fez adiar a turnê em um mês. O Mauricio brigou comigo… “Porra, gordo, cê entra de patins!”… [risos]

Max Eluard — Onde tem um banheiro?

Abujamra — Deixa eu te explicar. Sai aqui, primeira à direita, entra no quartinho. Daí outra à direita. Achou?

Tacioli — Mas qual era seu grande truque?

Abujamra — Era a da bola que flutuava.

Almeida — Ah, aquela bola que cê põe num fiozinho e ela flutua?

Abujamra — Ô cara, já falou o truque! [risos]

Dafne — Ele é daninho!

Abujamra — Não é um fiozinho, é a bola que flutua! Havia uma outra mágica que neguinho caía pra trás, que era um tubo de ferro em que você enfiava a mão, passava um copo com água e depois jogava a água dentro do tubo, e a água não caía. Aí você virava o tubo e a água caía de volta pro copo.

Daniel — Acho isso fantástico.

Tacioli — Mas falando de São Paulo… existe uma música paulistana? Dá pra falar nesses termos?

Abujamra — Cara, a gente tá fudido. O músico paulista é fudido, porque mistura muito. Então a gente não tem uma cara, e até se prejudica no Brasil por causa disso. A minha música mesmo, o Karnak, os Mulheres Negras, a gente mistura muito. E a mistura do paulista é muito louca, porque não mistura porque quer ser diferente, mistura porque ouve música caipira no radinho de pilha, música brega da empregada quando era pequeno, e Led Zeppellin que seu pai quando era hippie escutava. Então…

Rosselli — Mas será que de fora a moçada não consegue ver esse sotaque na música?

Abujamra — Não consegue, cara. As únicas bandas daqui que fizeram sucesso foram o Ultraje, os Titãs…

Dafne — O Ira!

Abujamra — O Ira! um pouquinho. E aqueles meninos que morreram que eu adorava, os Mamonas [Assassinas]… Pouca gente. Agora não sei se isso é ruim ou bom, mas é uma característica da música de São Paulo.

Tacioli — Desses artistas que são colocados como músicos de São Paulo quem você considera…

Abujamra — Mário Manga. Premê eu adorava. Quem mais? Fora os músicos instrumentais, né? O Pau Brasil, o Nelson Ayres com o Rodolfo Stroeter, o Paulo Belinatti… esses caras são mortais, bicho!

Rosselli — Quem você curtia na época dos Mulheres, nos anos 80? O Luni, o Fábrica [ Fagus], essas coisas…

Abujamra — Eu produzi, fui eu quem descobri o Fábrica, que hoje é o Caboclada, do Marcio Werneck. O que eu curtia nessa época, de brasileiro? O Luni, o Gueto…

Tacioli — O Mauricio [Pereira] falou na entrevista que ele concedeu pra gente de um show de vocês em que o palco…

Abujamra — … Que o teclado caía? Foi maravilhoso, sensacional! A gente ficava muito puto porque o pessoal ria da nossa cara e a gente fazia um trabalho instrumental sério pra caralho. Aí o teclado caía e o pessoal achava que era de propósito… O teclado saía tocando. Mas aí eu notei que a gente era engraçado mesmo, e quando notei isso, relaxei. O Mauricio, não! [risos] A gente tava no Off uma vez e eu mexia muito no pedal. Aí fui colocar a mão no pedal e, juro, uma mulher começou a rir. Ela riu disso, juro! Aí achei engraçado que ela achou engraçado e olhei pra ela sério. Aí quando o pessoal viu minha cara, todo mundo caiu numa puta risada. Eles não paravam de rir. Meu, eu não fiz nada e era engraçado. A gente era engraçado sem fazer nada. Aí relaxamos, quero dizer, eu. O Mauricio, nunca… Somente agora que ele relaxou. Fala tanta besteira nos shows que dá vontade de dar porrada! [risos]

Dafne — No show do Itaú [n.e. Apresentação em que Mauricio Pereira gravou o disco Canções que um dia você já assobiou — Vol. 1], ele tava soltinho, dançando, fazendo micagens [Abujamra cai na gargalhada]…

Tacioli — André, você fez com o Karnak vários shows no exterior… Rolou um certo sucesso externo…

Abujamra — Muito, muito.

Tacioli — Como esse sucesso se materializava?

Abujamra — Cara, era maravilhoso. A gente fazia shows em lugares grandes com som muito bom. Eu falava em russo do começo ao fim do show e todo mundo entendia, todo mundo cantava… A gente se sentia astros de Hollywood, os Rolling Stones… Hotel bom, comida boa, grana boa… Chegava em casa em São Paulo e ficava deprimidíssimo.

Dafne — No exterior onde?

Abujamra — Estados Unidos, cara!

Max Eluard — E o que você acha que pegava pra eles?

Tacioli — Era exótico?

Abujamra — Era super exótico, era world music, mas era pop… A molecadinha de universidade gosta de R.E.M., essas coisas, e o Karnak tem uma sonoridade pop, a gente toca bem, e é aquela língua que ninguém entende, né? Tem aquele gordão que morreu, o Nusrafat [n.e. Nusrat Fateh Ali Khan, cantor, eu não entendia nada do que ele falava, mas adorava… Acho que o que pegou foi essa sonoridade pop com world music, sabe? O que pegou foi isso.

Almeida — Era circuito universitário?

Abujamra — Era. Total. Tocava em rádio. Ficamos em primeiro lugar durante seis semanas numa rádio de lá. E lá é US$ 12.000 dólares o cachê do show. Então, pagávamos avião e tudo.

Max Eluard — Havia diferença do show que vocês faziam lá para aquele que vocês faziam aqui?

Abujamra — A única diferença é que tava um pouco atrasado. Então, quando aqui a gente estava no terceiro disco, lá a gente tocava o segundo e o primeiro.

Max Eluard — Mas era o mesmo show?

Abujamra — A gente misturava muito. Não era o mesmo show, não. Havia coisas antigas. Era legal porque teve uma época em que a gente ensaiava as músicas antigas pra tocar lá, e isso dava uma refrescada na cabeça.

Max Eluard — Mas as piadas eram as mesmas?

Abujamra — O meu inglês é terrível. Falo inglês, mas é meu inglês é macarrônico. Então…

Tacioli — O russo não é? [risos]

Abujamra — O russo, não. As pessoas cantavam, era maravilhoso. Tem coisas muito legais do Karnak lá. Tem uma história maravilhosa em Quebec [n.e. Cidade do Canadá onde a língua predominante é o francês], bicho. Acabou o show e chegou um cara búlgaro pra mim… “Meu, você fala russo?”. “Não, eu falo inventando”… “Meu, eu quase entendi o que você falou” [risos]… “Você quase entendeu?”… “É que eu falo russo, não entendi porra nenhuma, mas quase entendi”… Meu, achei tão legal isso. [ri]

Tacioli — E as críticas?

Abujamra — Meu, a gente é…

Almeida — Popstar?

Abujamra — Se você procurar sobre o Karnak na Internet, nessas universidades, vai ver que a gente fez umas… Tocamos em San Francisco num lugar que dá dois [Teatro] Municipal. Era gigantesco. E com tudo perfeito, equipe, som… Não tava caindo a ficha.

Tacioli — Tem muito material, então.

Abujamra  Muito.

Rosselli Em digital?

Abujamra  Tudo digital.

Tacioli — Mas esse sucesso lá não os estimulou a ficarem lá? Isso não chegou a passar pela cabeça?

Abujamra — Olha, a gente tinha uma turnê lá esse ano [n.e. 2003], mas foi cancelada porque acabou a banda. Os caras de lá ficaram maus. Havia cinco shows para 2004. Cancelados também. Fui macho pra caralho para acabar com o Karnak. Todo mundo foi bem…

Max Eluard — Mas a decisão foi sua, partiu de você?

Abujamra — Foi. Foi minha sim.

Tacioli — Como foi? Você chamou a turma numa sala…

Abujamra — Um dia eu acordei…

Max Eluard — … O sonho acabou.

Rosselli — Mas o que você chama de terminar a banda?

Abujamra — Você já foi casado?

Rosselli — Não, mas já tive um relacionamento longo.

Abujamra — Mas já morou junto?

Rosselli — Já, seis anos.

Abujamra — E como acabou?

Rosselli — Acabou amigo. Um certo dia não tinha mais a ver. Só que é o seguinte, há o tabu da fidelidade social, que é como se dissessem que eu poderia sair novamente com ela…

Abujamra — No Karnak o que acontecia é que durante o trabalho todo mundo já comia outras mulheres. [risos] E acabou porque a banda tinha muito a ver comigo e eu não me sentia a vontade de fazer um outro trabalho se o Karnak continuasse existindo. Eu precisei… Acho que é um ciclo, dez anos. A gente tava marcando o show de 10 anos. A gente vai fazer um show por ano, né? De aniversário. É que tava todo mundo chorando lá no show… Aí falei que iríamos fazer todo ano um showzinho de aniversário. Em dezembro. Mas sobre o que eu estava falando?

Rosselli — Sobre o término.

Abujamra — Acho importante saber acabar as coisas. Acho importante saber terminar. Terminar bem as coisas é muito importante. Com os Mulheres Negras também foi assim, tanto é que estamos aí tocando. A gente soube terminar.

Almeida — E o que você tá fazendo agora?

Abujamra — Eu tô fazendo a trilha do Cafundó [n.e. Filme de estréia do ator Paulo Betti na direção], tô fazendo publicidade pra caralho… [cantarola] “BCP, pode contar”, eu quem fiz… [cantarola] “Guaraná… Seja o que for, seja original, Guaraná Antartica”. Muita publicidade.

Rosselli — O texto é seu também?

Abujamra — Às vezes eu meto a mão. Quando vem meio estranho, meto a mão. O ratinho da Folha é meu… Eu meti um pouco a mão, fez um puta sucesso na época. Então, muita publicidade, Cafundó, tô preparando meu trabalho solo [n.e. O Infinito de Pé, lançado em julho de 2004]… Vou mostrar a trilha pra vocês.

Tacioli — Tem alguma previsão do solo?

Abujamra — Ano que vem, mas vou começar a tocar agora. Dia 21 de junho vai ter um show no Bixiga, lá no Villaggio. Será o primeiro do trabalho-solo.

Max Eluard — André, você já teve algum bode em fazer publicidade?

Abujamra — Já, já tive muito bode. Mas já passou. Tenho que sobreviver, né?

Max Eluard — Mas hoje você encontra prazer em publicidade?

Abujamra — Encontro, porque tô em casa. Ninguém me enche o saco! [Abujamra começa a mostrar no computador alguns trechos da trilha sonora do filme Caminho das nuvens (2004), de Vicente Amorim, com Cláudia Abreu e Wagner Moura].
Almeida — Você nunca pensou em apresentar isso ao vivo?

Abujamra — Já pensei. Com orquestra e tudo mais.

Dafne — Um show com as suas trilhas, como a do 

Abujamra — Você viram Carandiru?

Tacioli — Não.

Dafne — Eu vi numa exibição-teste no Itaú Cultural, ainda sem trilha sonora, e depois no cinema. Max Eluard — Você gostou, André?

Abujamra — Ah, eu sofri muito. O filme tem seus defeitos, mas…

Tacioli — O que você esperava?

Abujamra — Eu esperava que o filme fosse mais pesado. Achei muito delicado.

Tacioli — E de trilha sonora nacional, o que você acha bacana?

Abujamra — Gosto do Antônio Pinto [n.e. Autor das trilhas de Central do Brasil eCidade de Deus], meu amigo e tal. Olha o que eu achei na Internet. Africano… percussão. [Abujamra mostra no computador uma música de algum lugar da África feita somente com batidas de mão na água]

Tacioli — André, já estamos encerrando…

Abujamra — Ainda bem, né? Duas horas, porra! Vai tomar no cu! [risos]

Max Eluard — E nem pagou direito!

Abujamra — Nem pagou direito autoral, meu! [risos]

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Tacioli — O que você ainda não fez e tem vontade de fazer?

Abujamra — Dirigir um longa. Tenho um filho… Não plantei árvore, vou plantar… Acho que o livro, quando eu ficar mais velho, vou fazer também. Mas eu quero dirigir filmes… Meu negócio é cinema, viu? Já fiz 19 longas, trabalhei com muitos diretores diferentes e conheço o métier do cinema. Gosto de cinema. É uma arte que junta tudo… Artes plásticas, direção de ator, fotografia, música. É uma coisa que tem a ver eu chegar e fazer.

Tacioli — Mas é diferente do clipe?

Abujamra — Ah, diferente, o clipe é uma brincadeira, uma farra. Quando falo brincadeira… [dirigindo-se ao Tacioli]… Sei que você é o cara mais cáustico de todos aqui…

Tacioli — Não sou. [risos]

Abujamra — … Quando eu falo em brincadeira, sempre pense que tem um estofo por trás. A minha loucura tem fundamento, não é uma loucura adolescente. É loucura tresoitão, de tiozinho da Sukita, sabe? Tá [risos] Não sou anarquista porra-louca, sou anarquista porra-louca com estofo! [risos]

Max Eluard — E o Corinthians? Fica somente lá atrás?

Abujamra — Não, tá aqui dentro, ó! [bate a mão no peito]

Tacioli — Mas você vai ao estádio?

Abujamra — Ó, Coringão, meu! O único time pra quem todo mundo torce. A favor ou contra. Aposto que todo mundo aqui é palmeirense.

Max Eluard — Sou corintiano.

Tacioli e Almeida — Também.

Abujamra — Ah, bom… [dirigindo-se a Rosselli] E você?

Rosselli — São-paulino.

Abujamra — Só podia. Cara bonitinha assim, bem vestido, bem comido… [risos]

Rosselli — Esse baixinho é viado! [risos]

Abujamra — Viado, não! Mas é são-paulino, né? Come bonitinho, vai comer no Fasano… [dirigindo-se a Dafne] E você, palmeirense?

Dafne — Flamenguista.

Abujamra — Ah, um carioca.

Tacioli — Mas você sofre com futebol?

Abujamra — Opa, sofro. Sou corintiano desde que nasci. E lá em casa é assim: meu pai é são-paulino, meu irmão é corintiano, eu sou corintiano, e minha mãe é corintiana. Meu filho é são-paulino, o viado, por causa do meu pai e do outro avó dele. Sofro muito porque meu filho é são-paulino. Tá com 8 anos já, não dá mais.

Max Eluard — Já o levou a uma psicóloga?

Dafne — Tortura…

Abujamra — Não dá.

Tacioli — E assistir futebol com seu pai…

Abujamra — É legal. Meu pai jogou no juvenil do Internacional de Porto Alegre. Ele entende de futebol, mas quem me levava pro campo era o meu tio Michel, que já faleceu. Ele morava perto do Pacaembu e a gente ia ver qualquer jogo. Vou jogar de novo no Rock Gol [n.e. Programa da MTV em músicos jogam futebol] deste ano. Eu, o Supla, o Beto Lee, um grupo de rap…

Almeida — Sorte que tem o Supla [n.e. Um dos melhores jogadores de todas as edições do Rock Gol ] no seu time, hein?

Abujamra — Olha, vou dizer uma coisa e vocês vão rir da minha cara… Eu jogo bem bola! [risos] É que eu sou gordo, canso rápido, mas se der uma bola no meu pé [risos]… O que atrapalha é o meu tamanho. [risos]

Tacioli — Falando de futebol, você participou do Boleiros. [n.e. Filme de Ugo Giorgetti] Como foi?

Abujamra — Foi muito legal. É um filme bem paulista, né? Não foi bem recebido fora daqui. Adorei. Fiz um pai de santo e fiquei com dor-de-cabeça umas duas semanas por fumar charutos.

Tacioli — Você já pensou em fazer alguma coisa com futebol?

Abujamra — Não. Uma vez fui ao Maracanã com o meu pai. Brasil e Uruguai. O Brasil perdeu de 1 a 0. [ri] Eu tava feliz pra caramba, porque nunca havia ido ao Maracanã… Penso em fazer uma coisa com futebol, pegar uns microfones, um helicopterozinho — acho que é meio impossível — e coloca-lo bem no meio do estádio, em estéreo… A gente nunca vai conseguir gravar aquilo lá do jeito que a gente escuta no estádio… Aquilo lá é maravilhoso… [toca o telefone] “Oi, tô quase acabando… Isso… tá, um beijo.”

Rosselli — That’s all folks!

Tacioli — Acho que é isso.

Abujamra — Fui delicado agora, né? Vou expulsar eles e tô indo… Mas eu ia falar um negócio. Vou patentear um negócio que é uma câmera na bola de futebol [risos] Vocês acham impossível, né? Todo mundo acha impossível. Mas imagina só… a bola vai ter que ser transparente e terá um sistema de steadycam [n.e. Sistema hidráulico que prende uma câmera ao corpo do cinegrafista possibilitando movimentos rápidos sem que a imagem trema] dentro da bola… Ia ser maravilhoso… Imagina o cara chutando e a bola… A bola fica rolando e câmera lá dentro fixa… Imaginem as imagens…

Max Eluard — Dá pra fazer isso no computador.

Abujamra — Pode?

Max Eluard — Deve dar.

Abujamra — Sabe o que eu vi na Internet? Não tem aquelas fotos em que você vê 360 graus?

Almeida — Sim.

Abujamra — Então, vi isso com um filme! Os caras inventaram uma câmera de DV que filma 360 graus. Vai mexendo o mouse. Mando o link pra vocês. Tchau! [risos]

Dafne — Vamos tirar umas fotos agora, André?

Abujamra — Sério? Vou te dar umas fotos, posso?

Dafne — Claro.

Abujamra — Ah, não vou te dar, não! [risos] Como você quer? Pelado?

Dafne — Não, pode ser vestido mesmo. [risos]

[começa, do lado de fora da casa de André Abujamra, a sessão de fotos que encerra a entrevista]

Abujamra — Foi bom, né?

Todos — Ô!

Seleção musical | André Abujamra

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Faixa 01 “Ilha do Mel” (Raul de Souza), por Raul de Souza

Faixa 02 – “Balada 45” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Arthur Verocai

Faixa 03 – “Sweet Lucy” (Raul de Souza), por Raul de Souza

Faixa 04 – “Balanço Zona Sul” (João Donato), por Raul de Souza e Robertinho Silva

Faixa 05 – “Rio Loco”

Faixa 06 – “Don’t ask my neighboors”

Faixa 07 – “Banana tree”

Faixa 08 – “Piano na Mangueira” (Tom Jobim), por Raul de Souza

Faixa 09 – “Bossa eterna”

Faixa 10 – “Lugar comum” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Robertinho Silva

Expediente

Entrevista realizada na tarde de 20 de maio de 2003, uma terça-feira, na residência do artista, na Lapa, em São Paulo.

Entrevistadores: Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Flávio Rosselli, Max Eluard e Ricardo Tacioli
Fotos: Dafne Sampaio
Transcrição: Dafne Sampaio e Ricardo Tacioli
Edição de texto: Ricardo Tacioli
Texto de abertura: Dafne Sampaio

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