Dona Inah, por Jefferson Dias

Dona Inah

Somente nesses últimos dez anos que a carreira de Ignez Francisco tomou o espaço que merece.

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SÃO PAULO, 11 de agosto de 2007

Dona Inah sabe muito bem o que tem de fazer. Além da vida doméstica — adora costurar –, seu negócio é cantar. Sempre foi, desde a meninice em Araras, onde nasceu. Mas somente nesses últimos dez anos que a carreira de Ignez Francisco tomou o espaço que merece. Gravou seus dois primeiros discos, viajou pelo Brasil e Europa, e ainda conquistou um Prêmio Tim. Pouco? Não para essa mulher que completa 75 anos em maio e já passou por poucas e boas, sem nunca deixar de soltar a voz.

Em agosto de 2007, numa tarde de sábado no Bar do Cidão, em São Paulo, a equipe do Gafieiras conversou durante mais de três horas com a cantora. A pedido, remodelou a infância marcada pelo racismo e as lembranças que guardava de suas avós, fundamentais em sua formação. Revelou histórias da família musical descendente de escravizados e engavetadas pelo mesmo coração que confessou a difícil relação com os netos.

De gargalhada fácil e contagiante, Dona Inah contou que foi dama de honra do casamento de Inhana, sim, aquela que dividiu a vida e o palco com Cascatinha, disse que imitou Dalva de Oliveira e outros ídolos, e que esboçou uma carreira artística quando se mudou para São Paulo, em meados dos anos 1950. Foi na terra grande que encarou boates e dancings, que se encantou com as orquestras e que animou salões ao lado das mais diferentes combinações instrumentais. De dia, era babá, doméstica ou cozinheira. Anos depois, limparia banheiro público.

Com a presença de Marco Bailão, violonista e companheiro de Dona Inah, do Cidão e de sua esposa, Rose, o bate-papo não deixou de colocar à mesa assuntos espinhosos. Da vida noturna, além do repertório, Inah carregou o gosto pela bebida. “Eu bebia muito, tomava todas!” Depois de anos, largou o vício e foi cantar hinos evangélicos em penitenciárias. Afirmou sua fé na música e em Deus, com quem estabelece diálogo direto. “O que vale é a fé. Pode demorar dez anos, mais Ele vai te dar!” Entre os pedidos para o divino deve estar o de cantar novamente com uma grande orquestra. “É a melhor coisa do mundo! Vou fazer ainda, não sei quando, mas vou fazer.” Você duvida?

por RICARDO TACIOLI

Dona Inah e equipe do Gafieiras, por Jefferson Dias
Com o acompanhamento de Cidão (primeiro à esquerda) - que permitiu a entrevista em seu bar -, Gafieiras conversa a cantora Dona Inah. (Crédito: Jefferson Dias/Gafieiras)

Gafieiras — O especial infantil para adultos do Gafieiras desse ano (2007) fala sobre a casa da vó. Então, na entrevista de hoje, a gente vai falar tanto de sua história como artista, quanto de sua história de vida. Quais lembranças a senhora tem da casa da vó?

Dona Inah — Eu tenho tantas lembranças da casa da vó. As duas vós — da parte de minha mãe e de meu pai — foram mais que mães pra mim. Minha mãe trabalhava na roça. Quando não tinha férias da escola, eu ficava com minha avó, mãe de meu pai; quando tinha férias, ia pro sítio, casa dos meus avós maternos, e ficava lá alguns dias. Elas eram maravilhosas, pessoas muito boas; (tenho) muita lembrança boa. E muita lembrança porque eu apanhava muito da minha vó. Da minha mãe eu não apanhava, mas da minha vó eu apanhava. Todo dia, duas, três vezes por dia.

Gafieiras — Mas por que apanhava?

Dona Inah — Ah, porque eu era capetinha, né?

Gafieiras — Geralmente a vó somente afaga, né?

Dona Inah — Não, a minha vó batia. Hoje, eu dou graças a Deus por toda a chinelada que eu levei da minha vó. Ela era dessas negas véias, do tempo da escravidão…

Gafieiras — A vó materna?

Dona Inah — A vó paterna.

Gafieiras — Como ela se chamava?

Dona Inah — Joana. Eu a chamava de mãe Joana. Ela foi escrava. Eu conheci a mãe dela, que era minha bisavó, que morreu com bem mais de 100 anos, entendeu? Então, elas eram enérgicas. Enérgicas mesmo! A gente levava surra direto. E quando eu não queria apanhar, eu subia num pé de mangueira. Subia e ficava o dia inteiro trepada num pé de manga até meus tios virem da roça.

Gafieiras — Onde?

Dona Inah  É cidade de Araras, onde fui criada, onde eu nasci.

Gafieiras — Era na cidade mesmo?

Dona Inah — Era na cidade mesmo. Eles moravam na fazenda, mas depois foram pra cidade. Eu também nasci numa fazenda, mas que pertencia à cidade de Araras.

Gafieiras — E qual era a parte da casa da vó que você mais gostava?

Dona Inah  Ah, eu gostava do quintal, porque podia me esconder dela quando ia apanhar. Era um quintal enorme. Em qualquer buraquinho eu me enfiava. Mas a casa da minha avó era muito boa, muito gostosa. Todos os meus tios eram músicos e a gente se reunia lá, onde se fazia música.

Gafieiras — E a sua avó cantava também?

Dona Inah  Não, minha avó não cantava, não. Minha avó era mais parada por causa da época dela, mas gostava. Meus tios todos eram músicos; meu pai era músico. Da casa da minha avó eu me lembro de tudo, tudo.

Gafieiras — Descreve como era, Dona Inah.

Dona Inah  Descrever a casa da minha avó?

Gafieiras — É, somente pra entender a casa da avó da senhora, (a casa) da mãe Joana. Vocês não moravam na casa junto dela, né? Quero dizer, a casa de vocês era uma, e a casa dela era outra?

Dona Inah  Isso, era outra.

Gafieiras — Como era a casa?

Dona Inah — A casa dela ficava quase no centro da cidade. Era daqueles casarões antigos, velhos. Uma casa geminada. A (casa) do lado eles alugavam quando chegava circo na cidade. Então, o pessoal do circo ia lá. Do outro lado, era uma sala enorme. Dentro da sala tinha uma divisória que era um quarto. Havia um corredor, tinha um outro quartinho que era o da minha avó, das minhas tias. Um outro quartinho menor, era do meu tio que era casado. Era um corredorzão grande. A cozinha lá embaixo numa escadinha assim; havia um fogão de lenha…

Gafieiras — O que saía desse fogão de lenha?

Dona Inah  Ah, saía muita comida gostosa. Era comida de pobre, mas gostosa. Arroz e feijão, aquela sopa de minestrone que eles falavam “minestra”, arroz misturado com feijão, com tudo, um monte de coisa; era gostoso! E saindo pela porta da cozinha tinha um tanque, um banheiro — porque banheiro não ficava dentro de casa naquela época. Tinha um quintal grande, um pé de manga, que aquele não me sai da lembrança, não. Era o meu escape quando eu ia apanhar.

Gafieiras — E a senhora apanhava porque, o que a senhora fazia?

Dona Inah  Porque eu fazia coisa errada. Ela falava: “Não vai fazer isso!”, e aí é que eu ia fazer. Eu e o meu primo, já falecido faz muitos anos. Fomos criados juntos. Minha mãe ia pra roça e eu ficava na casa da minha avó. E ela batia, e batia pra valer, mas a gente nem ligava mais porque acostumou. Quando dava pra correr, a gente corria, quando num dava, a gente apanhava, fazer o quê?

Gafieiras — A senhora lembra de uma dessas aventuras que mereceram surra?

Dona Inah  Olha, tem várias. A gente era muita curiosa. Minha avó falava: “Não vai em tal lugar que…”. Bom, uma vez, na cidade, passava boiada que ia para o matador. Antigamente não tinha caminhão, nada disso. Então ela falava: “Não vai sair pra rua porque a boiada daqui a pouco vai passar e tem boi bravo…”. Nós ficávamos no meio da rua brincando, né? E eu ainda falei: “Vou desafiar pra ver se tem boi bravo mesmo”. E fiquei no meio da rua. Quando a boiada veio, eu corri tanto de boi, eu corri tanto… Virei numa esquina lá pra me salvar do boi… Quando a boiada passou, eu levei uma chinelada. Corri do boi, mas não pude correr da avó. Então, eu era assim quando tinha sete, oito anos. Mas eu adorava a minha avó.

O pianista Waldir Calmon. (Crédito: Coleção Almirante/Acervo MIS)
O pianista e compositor mineiro Waldir Calmon (1919-1982), dono da série fonográfica Feito para dançar e da boate Arpège, no Rio de Janeiro. (Crédito: Coleção Almirante/Acervo MIS)

Gafieiras — Ela contava histórias pra você, histórias do tempo da escravidão? Ou era somente uma figura rígida?

Dona Inah — Não, ela não era rígida, era uma pessoa enérgica, mas rígida, não! Ela tratava a gente muito bem. As histórias que ela contava eram do tempo dos patrões, das danças, dos encontros que tinham… Tanto que depois que terminou a escravidão, eles se encontravam numa área cedida pra eles na cidade mesmo. Eles iam pra lá toda semana. Não somente a minha avó, como a minha bisavó, como vários negros daquela época que haviam sido escravos. Era uma área atrás do campo da Associação Atlética Ararense. Havia uma chácara cedida para os negros fazerem a dança deles.

Gafieiras — Tinha nome esse lugar?

Dona Inah — Eu não me lembro. Era uma chácara… Eu era criança, então não me lembro. Eles se reuniam lá, faziam as fogueiras e lá dançavam tambor, cantavam, recordavam os tempos em que foram escravos… Tinha o Jeremias, o Ananias, a vó Maria, a vó Benvinda…. Todas aquelas pretas velhas que haviam sido libertadas depois que a escravidão acabou.

Gafieiras — A senhora chegou a frequentar (esses encontros)?

Dona Inah — Eu frequentava, ia com a minha vó, com as minhas tias; gostava. Tinha o “tambu”, muitos falam tambor, mas a dança mesmo é “tambu”. Porque o “tambu” era um instrumento como um pilão, sabe pilão de pisar arroz? Eles faziam aquele oco no pau, colocava um couro na frente, amarrava, e punham perto da fogueira. A fogueira esquentava aquele couro, que dava o som. E eles tocavam naquele couro; era um toque muito lindo. Hoje não consigo decifrar de onde vem; hoje talvez a cuíca imite o couro do “tambu”, aquele som chorado, sabe? Eles cantavam muitas músicas…

Gafieiras — A senhora lembra de algum canto?

Dona Inah — Eu lembro de algumas pessoas que cantavam lá. Por exemplo, tinha um senhor chamado Dito Alfredo: ele entrava na roda, que lá era tudo assim improvisado, sabe?! Lembro dele porque ele ia lá à minha casa, entrava na roda e falava assim: “Na mata da Fazenda Arara!”, e o pessoal respondia, “Onça briga com leão!”, porque tinha onça naquela época, na mata da fazenda arara, onça briga com leão, onça briga com leão, onça briga com leão, na mata da Fazenda Arara, “Onça briga com leão, ai eu eeeeee…”. Aí o tambu tocava e eles rodavam e davam umbigada nos que estavam na roda… Ele saia e entrava outra pessoa, e já fazia outros pontos, outras músicas, entendeu? Isso ia a noite toda e toda semana.

Gafieiras — E criança podia participar?

Dona Inah — Participava, era uma roda aberta. Mas tinha muita gente que ia lá pra beber, então cachaça rolava direto, virava a garrafa na boca e rolava… A criançada ficava perturbando, como eu ia lá perturbar também. Mas eram umas rodas gostosas.

Gafieiras — O que os velhos dançavam?

Dona Inah — Os velhos dançavam… Todo mundo dançava lá…

Gafieiras — Ia muita gente?

Dona Inah — Ia muita. Algumas pessoas pra assistir, mas a maior parte era de pretos velhos mesmo que havia sido escravos, de 70, 80 anos! Todos na roda dançando! Era uma recordação pra eles, né, dos tempos que moravam nas fazendas.

Gafieiras — E como a cidade via como esses encontros? Havia alguma impressão disso?

Dona Inah — Na cidade ninguém tinha nada contra. Acho que não havia nada pra ser contra, né? Não estava prejudicando ninguém, não estava atrapalhando ninguém… Naquela época, umas vezes, pouca coisa, não sei, como teve no Brasil, havia muito preconceito com o negro, mas isso depois foi acabando, mas havia esse negócio…

Gafieiras — Mas branco participava (desses encontros)?

Dona Inah — Tinha branco que participava; eles gostavam. Ninguém judiava ninguém, nem pisava em ninguém, enfim, (havia) uma separação assim, sem discussão nem nada, mas todo mundo se dava bem, era muito gostoso.

Gafieiras — Quando foi a última vez que a senhora viu a vó Joana?

Dona Inah — A vó Joana eu vi pela última vez… Eu vim pra São Paulo em 1954, ela faleceu em 1963. Eu estive lá quando ela faleceu, depois nunca mais. De 1954 à 1960 eu estive, eu vi. Em 1960 fui à casa dela passear, minha mãe era viva também. Fui lá visitá-la e logo depois ela faleceu. Mas ela faleceu bem velhinha, com 105, 106 anos.

Gafieiras — Então, a última vez que você a viu viva foi em 1960?

Dona Inah — E a minha bisavó também. Ela morreu em 1957 mais ou menos; eu estava com 15, 16 anos, e ela, pela conta que o pessoal dizia, tinha 120 e poucos anos. Ela era velhinha, velhinha, mas andava e falava mais do que a boca.

Gafieiras — Ela continuava autoritária ou ela tirava sarro?

Dona Inah — Continuava. Ela me chamava de neguinha, guampudinha e não-sei-o-quê, ela brigava comigo, mas eu não ligava. Depois de velha que eu vim saber o que é guampuda, que ela me chamava tanto.

Gafieiras — E o que é guampuda?

Dona Inah — Eu chorava! Aí a vó me chamou de um palavrão! Guampa é chifre, é chifruda. O pessoal falava: “As guampas do boi!”, mas o que é guampa? “Ah, guampa é o chifre…” A vó me chamava de chifruda desde pequena e depois de velha é que (vim a saber)…

Gafieiras — Nessa última vez que a senhora viu sua vó, em 1960, a senhora já estava cantando?

Dona Inah — Já, eu sempre cantei. Comecei a cantar com meu pai na minha cidade, lá em Araras. Eu comecei a cantar com oito anos de idade. Meus tios todos eram músicos, os irmãos do meu pai, todos os irmãos da minha mãe eram catireiros. Era música de viola e catira, e eu dançava catira. Eles cantavam catira e eu dançava no meio do pessoal. E por parte de pai todos eram músicos, sambas, aquele negócio, né… Havia conjuntos, e eu comecei a cantar com meu pai…

Gafieiras — Mas ia se apresentar ou cantava somente na roda?

Dona Inah — A primeira vez que eu cantei tinha sete anos. Havia um serviço de alto-falante na cidade e tinha um concurso de cantora. Eu cismei com meu pai que precisava cantar naquele programa. Fui cantar e ganhei. Ganhei e continuei cantando. Ganhei uma boneca grande de papelão, aqueles presentes, e continuei cantando naquele alto-falante. E com 13 anos comecei a cantar na orquestra da cidade, orquestra do Hugo Montanhore. Ele era o maestro da banda. Eu comecei a cantar com ele na cidade e fazia programa todo fim de semana na Rádio Ducaroda de Limeira e Rádio Clube de Rio Claro, meia hora de programa em cada lugar. E aí foi indo minha vida como cantora… Independentemente disso trabalhava na roça ainda pra ajudar meu pai, minha mãe.

Gafieiras — A senhora lembra qual foi a música com a qual a senhora ganhou esse primeiro concurso?

Dona Inah — [ canta ] “Eu sonhei que tu estavas tão linda / Numa festa de raro esplendor / Teu vestido de baile lembro ainda / Era branco, todo branco meu amor / A orquestra tocou a valsa dolente / Tomei teus braços / fomos dançando / Ambos selente / E os pares que rodeavam entre nós / Diziam coisas / Trocavam juras a meia voz / Violinos enchiam o ar de emoção / E de desejos uma centena de corações / Pra despertar teu ciúmes / Tentei flertar alguém / Mas tu não flertaste ninguém / Olhava só para mim / Vitória de amor / Cantei / Mas foi tudo um sonho / Acordei…” Essa foi a primeira música que cantei como cantora.

Gafieiras — Lembra de quem a senhora ouvia essa música?

Dona Inah — Meu pai cantava essa música. Eu desde criançola frequentava bailes com meu pai, já que ele tocava, né?! Então, aprendi muita música, muita coisa com ele. Estudei muita música com meu pai, estudei partitura de música, depois fui estudar bandolim com uma professora, mas não quis saber de tocar nada. Eu queria era cantar mesmo.

Gafieiras — O seu pai era músico?

Dona Inah — Meu pai tocava trompete.

Gafieiras — De profissão mesmo?

Dona Inah — Não tinha profissão naquela época, ele era operário de uma fábrica ali na cidade, uma fábrica de farinha de mandioca. Nas horas vagas tocava nas fazendas, fazia bailes, fazia festas. Ele juntava o pessoal e ia tocar.

Gafieiras — A senhora falou que os seus tios tocavam também. Quais eram os instrumentos?

Dona Inah — Trompete o meu pai, meu tio Lazinho cantava, o João era clarinete, meu tio Alfredo, pandeiro, meu tio Diolindo, violão , e meu tio Diolindo tocava trombone. Todos eles eram músicos. Meu tio Alfredo tocava pandeiro e bateria também. E tinha o irmão da Inhana que cantava bem. O Luís também era baterista.

Gafieiras — A Inhana?

Dona Inah — Do Cascatinha, que era prima do meu pai.

Gafieiras — Já estava no sangue.

Dona Inah — Ele tocava bateria, cantava bem. A Inês Patrocínio e a Marilia também, que era irmã dela, cantavam bem.

Gafieiras — Mas a música era vista como lazer?

Dona Inah — Era, porque a gente não tinha campo pra viver de música, principalmente no interior naquela época. (E pelo fato de sermos ex-escravos também…) Então, não havia campo pra isso. Depois é que foi apagando isso tudo. Hoje, não, hoje já é (diferente)… Mas teve uma época muito triste, não é só lá, não, vocês sabem disso.

Gafieiras — Mas mesmo tendo como parente a Inhana?

Dona Inah — Ah, naquela época ela não tinha nome, naquela época ela era uma menina.

Gafieiras — Nos anos 1950?

Dona Inah — É, nos anos 50… 1945, 46, ou menos até. Eu fui dama de honra da Inhana. Fui no casamento dela… E quem era Inhana? Inhana apareceu em 1957, mais ou menos. Depois que casou, ela foi embora com o circo. Quando voltou, já estava na Record. Aí ela começou a ser mais badalada na cidade. Ela foi a primeira cantora negra da cidade. A Inhana era uma pessoa maravilhosa, uma menina bacana.

“O público jovem se conquista pela palma que bate!”

Gafieiras — A senhora lembra quando ela começou a fazer sucesso?

Dona Inah — Quando ela foi embora com o circo e com o Cascatinha, ela ficou tempo sem cantar. Ela casou e foi embora com ele. Primeira música que ela gravou acho que foi “La Paloma”. [ canta ] “Quando amanhece o dia no meu sertão…”

Gafieiras — Aí tocou em rádio?

Dona Inah — Tocou muito, foi muito sucesso!

Gafieiras — E aí vocês já sentiram que dava para seguir uma carreira profissional?

Dona Inah — Quando ela gravou o primeiro disco, já estava aqui em São Paulo com o Cascatinha. Por orgulho, meu pai nunca chegou a pedir “Minha filha quer cantar aquele negócio!”. Ele nunca foi de pedir nada a ninguém, entendeu? E eu também fui na linha dele. Ela cantava, eu cantava… A gente nunca foi de falar “Eu quero que você me ajude! Quero que você faça…!”. Nunca teve essa liberdade…

Gafieiras — Mas não chegou a servir de incentivo?

Dona Inah — É, serviu, porque quando cheguei em São Paulo em 1954, fui pra um concurso de calouro. Inaugurei a Rádio Clube de Santo André, onde trabalhei. Fui a primeira cantora. De lá, fui pra Record. Eu fazia programa semanal na Record, uma vez por semana no programa só para mulheres com o Blota Jr. e Sonia Ribeiro. Lá eu encontrava muito com ela (Inhana), mas ela era casada, aquele negócio, tinha a vida dela. Eu nunca fui de pedir! “Vou vencer, mas vou vencer como eu quero!”. Acho que isso (o fato de não pedir favores) às vezes me prejudicou, mas acho que eu consegui!

Gafieiras — Como foi que a senhora começou a viver de música?

Dona Inah — De música, música mesmo, depois de 1972, 73, mais ou menos. Em 1972, eu estava vivendo de música. Depois fui trabalhar na prefeitura de São Caetano. Me arrumaram um serviço, sabe?!

Gafieiras — Como assim?

Dona Inah — Ah, me arrumaram um emprego, né?!

Gafieiras — Quem arrumou?

Dona Inah — Um senhor chegou pra mim e falou: “Você quer trabalhar?”. Aí eu falei: “Eu trabalho, eu canto!”. “O que você faz durante o dia?” “Nada!” “Eu faço limpeza em casa de família; eu cozinho, eu lavo, eu passo.” “Quer trabalhar na Prefeitura? Então, vá lá na segunda-feira e comece a trabalhar.” Aí eu fui.

Gafieiras — Como era o trabalho?

Dona Inah — Era limpar banheiro público. Mas eu fui e o pessoal me criticou muito, porque falei “Pra quê vou trabalhar? Sou registrada, vou trabalhar, vou ter… “. Fiquei dez anos lá e com 65 anos (de idade) eu me aposentei.

Gafieiras — Mas aí logo depois você passou pro escritório…

Dona Inah — Então, do banheiro eu comprei uma máquina de escrever e fui bater máquina em casa. Com o manual fui aprendendo e aí fui transferida para fazer cafezinho no escritório na sessão de Parques e Jardins. Lá eu ajudava a bater (datilografar) algum trabalho. Já tinha a função mais leve, né? Cantava também em outros lugares…

Gafieiras — A gente sempre faz um apanhado de informações do artista antes de entrevistá-lo. Aí tem a história de um disco que a senhora fez… Quando foi?

Dona Inah — Era um compacto. Foi (gravado) antes da Record pegar fogo.

Gafieiras — Foi em 78 rpm, Dona Inah?

Dona Inah — É, era lado A e lado B.

Gafieiras — Compacto já era 33 rpm…

Dona Inah — Nem lembro mais da música…

Gafieiras — Foi somente um (disco)?

Dona Inah — Só um.

Gafieiras — Eram duas ou quatro músicas?

Dona Inah — Duas músicas. Depois perdi, procurei… Já pesquisei.

Gafieiras — Mas como ele surgiu, Dona Inah?

Dona Inah — Como a gente trabalhava na Record, falaram: “Vamos gravar um disco?”. “Vamos!” Fomos ao estúdio e gravamos para depois fazer o lançamento por alguma gravadora… E esse disco foi perdido. Perdeu-se tudo… Aí procurei em vários lugares e o pessoal falou “Naquele incêndio que teve na Record foi embora muito arquivo, muita coisa!”. Então se perdeu tudo, né?

Gafieiras — Mas esse disco não chegou a ser comercializado?

Dona Inah — Não, não foi. Foi para a TV Record. A gente ia lançá-lo depois por uma gravadora, mas não foi possível.

Gafieiras — E a senhora não se lembra quais foram as músicas?

Dona Inah — Não lembro, francamente, não lembro. Tentei lembrar, mas não lembro. Eu era tão mocinha naquela época; não me lembro mais.

Gafieiras — E qual era o nome artístico da senhora?

Dona Inah — Naquela época era Ignez Francisco, que é meu nome. Mas depois começaram (a falar): “Ignez Francisco fica muito comprido, esquisito. Vamos inventar um nome pra você!”. E foi indo, foi indo… “Ana não dá porque tem a Inhana já!” Aí o pessoal falou “Vamos por Inah!”. Então, ficou Inah Silva, e eu falei “Tudo bem!”. E agora, depois de muitos anos, o Herminio Bello (de Carvalho) falou: “Nada de Inah Silva; (é) Dona Inah!”. Então, ficou Dona Inah.

Marco Bailão — Foi o Heron (Coelho) que veio com essa história…

Dona Inah — Foi o Heron juntamente com o Herminio…

Gafieiras — Então, o Dona Inah é bem recente.

Dona Inah — É, Dona Inah é recente, bem recente. E esse nome me deu muita alegria, muita coisa, mudou minha vida.

Gafieiras — Dona Inah, quem acompanhou a senhora nesse disco? A senhora lembra?

Dona Inah — Acho que foi o Reginaldo Carlinhos, que era da Record.

Gafieiras — A senhora lembra quem formava o grupo?

Dona Inah — Não, só lembro do Carlinhos que tocava o violão. Não me lembro mais. E olha que eu trabalhei com vários… Mesmo agora se você me perguntar o nome dos músicos com os quais trabalho… Às vezes esqueço até o nome dos músicos. O Marco dá risada. Ele chega e diz: “Inah, você conhece aquele cara?”. “Conheço!”

Marco Bailão — Chamou o Tiago de Douglas no meio do show.

Dona Inah — Eu mudo tudo… Eu só não esqueço música.

Gafieiras — Já é um grande feito.

Dona Inah — De vez em quando eu esqueço alguma letra, mudo a letra… No show passa tudo desapercebido.

Gafieiras — A senhora acha que esse primeiro disco foi uma coisa passageira ou que, naquele momento, poderia (mudar sua vida)?

Dona Inah — Eu acho que foi (uma coisa) passageira, porque na minha caminhada de música tinha tanta promessa, tanta coisa… “Você canta bem! Vou te ajudar, não-sei-o-quê”, e eu só esperando… De repente, “E o meu negócio?”. “Ah! Não deu pra fazer!” Então, eu estava tão cheia de promessa que não acreditava em ninguém mais. “Mas um dia vou chegar onde quero!” Sempre lutei pra chegar (onde estou) hoje, e isso demorou quase 50 anos.

Gafieiras — Hoje é o melhor momento da vida artística da senhora?

Dona Inah — Hoje é o melhor momento da minha vida artística, da minha vida toda! Hoje eu vivo! Depois de trabalhar em banheiro, trabalhar na roça, trabalhar de babá, de cozinheira, de lavadeira; de passar necessidades por aí com filhos… Hoje eu sou feliz! Hoje eu vivo!

Gafieiras — Hoje é o melhor momento da vida artística da senhora?

Dona Inah — Hoje é o melhor momento da minha vida artística, da minha vida toda! Hoje eu vivo! Depois de trabalhar em banheiro, trabalhar na roça, trabalhar de babá, de cozinheira, de lavadeira; de passar necessidades por aí com filhos… Hoje eu sou feliz! Hoje eu vivo!

Gafieiras — E quais foram os grandes momentos, de alegria e de vida?

Dona Inah — Marcou ter grandes amigos, de conhecer a Europa e trabalhar lá pra pessoas bacanas. Eu estive na França, na Espanha e no Marrocos. Trabalhar no Teatro Municipal, que é uma coisa que sempre desejei, me marcou muito, chorei muito naquele dia. Entrar no Le Maison de la Culture da França. Entrei no teatro e falei “Será que sou eu que estou aqui?”. Você chegar, olhar e ter 15 mil pessoas pra te ouvir.

Gafieiras — Isso foi lá?

Dona Inah — Em Marrocos. Na cidade de Rabat (capital). Então, tudo isso me marcou muito. Hoje eu sou vencedora!

Gafieiras — Como foi o momento dessa virada?

Dona Inah — Essa virada foi depois de muita luta, de muitos problemas, depois de conhecer vários amigos. Eu estava numa situação caótica, querendo parar de cantar, parar com tudo. Eu morava com os filhos, com os netos; queria parar com tudo! Foi quando conheci vários amigos.

Gafieiras — Quando foi isso, Dona Inah?

Dona Inah — Isso foi em 1996, 1997, mais ou menos. Conheci (essas pessoas) que me deram muita força. Então, trabalhamos juntos e foi indo… Aí cismei de ir para o asilo. “Vou embora pro asilo. Vou embora que eu tô cansada de tudo!” Comentei com o Cidão uma vez. “Cidão, tô tão cansada da vida… Não quero saber de nada mais.” Foi quando conheci pessoas que… Sabe quando você está se afogando e aparece alguém que te pega pelos fios de cabelo? Aconteceu comigo. São amigos, são pessoas que me deram credibilidade, que me ajudaram. E (foi) nessa época que conheci o Heron. O Heron estava fazendo o show-tributo à Clementina de Jesus. Ele falou que estava procurando uma cantora. Já tinha a Marilia Medalha, a Fabiana Cozza, e precisava de uma outra. Aí ele falou com uma amiga da gente, a Roberta (Valente). “Você conhece a Dona Inah? Você vai gostar dela!” Foi quando ele me conheceu na Rua do Choro, lá perto da (loja) Contemporânea. Ele me falou que iria fazer o show da Clementina comigo. Eu nem acreditei. “Olha, há 50 anos eu tenho uma promessa e nunca aconteceu nada, nem gravação, nem nada.” Dali a 15 dias ele me deu o roteiro. Nesse show eu conheci o Herminio Bello; estava pra gravar com o (bandolinista) Isaías de Almeida fazia tempo. Já tinha me apresentado pro Marcos Vinicius, mas alguma coisa havia dado errado. Era pra fazer um disco de choro. Então, o Herminio Bello falou: “Vai gravar!”, e foi quando eu gravei o meu primeiro disco. O Heron me ajudou muito; amigos me ajudaram. Isso me marcou muito, e até hoje. Dali um ano, um ano e pouco da gravação do disco, fui fazer esse show no (Teatro) Municipal, durante o encerramento do Ano da Cultura Mundial (do Fórum Mundial da Cultura). E lá teve vários representantes do exterior, da Europa. Foi quando o senhor Sherife falou: “Eu quero a Dona Inah na França no ano que vem, no ano do Brasil na França!”. Eu falei: “Não sei se vou, de repente, mais promessas… E como sempre vivi de promessas…”.

Gafieiras — A senhora nunca tinha viajado pra fora do Brasil?

Dona Inah — Foi a primeira vez. Antes, tinha promessas… Dali uns três meses, veio o Heron com os documentos: “Dona Inah, tire o passaporte porque a senhora viaja em março pra França”. Aí foi só alegria, né? Estive na França. Da França fui para a Espanha. Fiz três shows na Espanha, só voz e violão. Para a França levei vários músicos: Zé Barbeiro, Magno do Violão, Cássia Maria… E fizemos uns shows bonitos lá. Depois eles voltaram e nós (eu e o Marco) fomos pra Espanha passear. Fizemos três shows voz e violão em Zamora.

Gafieiras — Dona Inah, com tanto tempo trabalhando com música, como foi selecionar o repertório para seu primeiro CD?

Dona Inah — Tenho uma facilidade doida pra decorar música. Mas pra definir o repertório, poxa, tanto tempo de música, e gravar (somente) 12, 14 (músicas)… Agora também está sendo difícil: vou fazer um segundo CD, tá quase pronto o repertório, falta uma música ainda.

Gafieiras — Mas selecionar as músicas para o primeiro foi complicado?

Dona Inah — Foi e não foi, porque várias pessoas me ajudaram, né?! O Heron falou: “Eu monto pra você!”. E fez o roteiro todinho.

Marco Bailão — Ele foi fazendo com ela junto…

Dona Inah — E estou curtindo fazer esse (novo), porque eu tô escolhendo praticamente sozinha o repertório, entendeu? Então ouço a música e falo “Ah! Essa música eu quero gravar!”. Esse disco que vou fazer agora é um tributo ao Eduardo Gudin. Está praticamente pronto.

Gafieiras — A ideia (de gravar esse disco) foi da senhora?

Dona Inah — A ideia foi minha de gravar Eduardo Gudin, que é um grande amigo, companheiro, grande compositor. Daí me deu vontade de fazer… e tô fazendo. Talvez a semana que vem eu já entre em estúdio pra começar a gravar.

Gafieiras — E qual é a sua relação com o Gudin?

Dona Inah — É uma relação bacana… Ele não é de muita conversa, é verdade, mas se você deixar, ele vem falar com você. Antigamente eu falava: “O Gudin não conversa com ninguém!”. De repente, ele começou a ter aquela amizade com a gente. Ele chega, eu tô cantando, ele vai lá, pega um tamborim pra tocar… Ele é um cara calado, mas é inteligente, é um cara muito culto, um cara muito gente. Eu gosto dele!

Gafieiras — Dona Inah, pintou mais trabalho depois de gravar um disco? Que portas o disco abriu para a senhora?

Dona Inah — Ah, o disco, se é bem trabalhado, abre muitas portas pra gente, sabe? O meu disco vendeu bem, tá vendendo ainda. E abriu várias portas, vários shows, né? Não sei, poderia ter aberto muito mais; não foi aquele negócio muito grande, mais deu pra gente…

Gafieiras — A senhora não ganhou um prêmio por conta desse disco?

Dona Inah — É, eu ganhei o prêmio TIM, mas trabalho mesmo não apareceu muito. Mas ganhei o Prêmio TIM (na categoria) Revelação do Ano 2005. Foi uma coisa que eu não esperava.

Gafieiras — Como foi essa história?

Dona Inah — Acho que foi a (gravadora) UMES que mandou o disco pra esse Prêmio TIM; eu nem sabia, né! Aí um belo dia o Heron falou pra mim: “Dona Inah, seu disco foi indicado para o Prêmio!”. Aí falei: “Que legal, né?! Indicar é uma coisa. Posso indicar todo mundo. Aí, logo depois da indicação publicada, veio o convite pra participar da entrega dos prêmios. “Ah, mas eu não ganhei nada. É como se fosse o Oscar: você vai lá, participa, e é na hora que você vai saber. “Tá bom! Então vamos!”

Gafieiras — Em quantas categorias a senhora foi indicada?

Dona Inah — Em duas: melhor sambista e revelação. Fui indicada, mas não sabia se ia ganhar alguma coisa.

Gafieiras — E (a premiação) foi no Teatro Municipal do Rio?

Dona Inah — Foi lá no Rio.

Gafieiras — Quem concorreu com a senhora de melhor sambista?

Dona Inah — Fabiana Cozza e Alcione. Revelação foi Fabiana Cozza e um cantor que não lembro o nome dele, um violonista.

Gafieiras — Como foi a cerimônia?

Dona Inah — Ah, foi ótima. Eu me embonequei toda, estava lá, e todo mundo no teatro sabia que ia ganhar e eu falava “Tenho certeza que não vou ganhar”. Ainda comentei com o Marco: “Tô aqui porque…”. Aí começou a chamar os indicados, os ganhadores. Aí chama a melhor sambista: Alcione! Já dancei! Peguei a máquina e falei pro Marco: “Qualquer coisa aí você tira a foto, né?!” Dali a pouco a revelação do ano: “Nossa candidata para revelação: Dona Inah!” Aí o Marco chegou e falou: “Inah, tão chamando você!”. “Mas chamando onde?” “Lá em cima! Vá lá que você ganhou”. Levantei e falei: “Tira foto!”. E fui receber o prêmio… Depois, quando voltei, falei: “Você tirou a foto?”. “Que foto?” Ele ficou olhando e não tirou uma foto. Depois eu recebi o DVD em casa. Mas a gente ficou tão assim, tenso… Peguei aquele troféu que eu não sabia se eu ria, se eu chorava, ou se eu o jogava fora. “O que eu vou fazer com isso aqui?” Mas foi muito bom, muito gostoso. E agora ganhei o prêmio paulista.

Gafieiras — Qual, o APCA?

Marco Bailão — Não, ela ganhou o prêmio de melhor intérprete no Festival de Samba Paulista.

Dona Inah — Eu ganhei como melhor intérprete do samba paulista e o samba que eu defendi foi o vencedor também. O samba é de um compositor de Araraquara; ele mandou e eu fui defender (no festival). O samba ganhou e eu saí como “melhor intérprete” e com um troféu.

Gafieiras — Quem é o sambista de Araraquara?

Dona Inah — O Teroca.

Gafieiras — A senhora recebe muita música pra gravar?

Dona Inah — Olha, eu tenho muita música em casa…

Gafieiras — Mas de compositor que a senhora não conheça?

Dona Inah — De compositor que eu não conheço. Música inédita e muita música.

Marco Bailão — De amigos e do pessoal que toca?

Dona Inah — Eu tenho que ficar ouvindo. Às vezes não dá nem pra ouvir. Tem músicas de compositores também do Rio. Compositores famosos também. Fazer seleção é dureza, às vezes, a gente não quer desagradar um, mas é muita coisa.

Marco Bailão — Tem um projeto de um outro disco que ela está fazendo: são músicas de vários sambistas, como as inéditas do Décio Carvalho, do Candeia, do Monarco, e de compositores daqui também.

Dona Inah — Eu vou fazer, praticamente no começo desse ano, até o ano que vem, dois discos.

Gafieiras — Um deles sai esse ano ainda?

Marco Bailão — Se tudo correr bem, até o fim do ano deve estar aí.

Gafieiras — Como é o dia a dia da senhora?

Dona Inah — Meu dia-a-dia? Eu trabalho o dia inteiro em casa, onde dificilmente escuto música.

Gafieiras — Quando a senhora escuta música, Dona Inah?

Dona Inah — Às vezes, quando vou ensaiar, quando tenho que aprender uma música, fico escutando duas, três, quatro, cinco vezes… Não preciso ouvir mais porque eu já sei. Aí vou aprender só a letra. Em casa dificilmente eu ligo o rádio.

Gafieiras — Quando liga, ouve o quê?

Dona Inah — Quando eu ligo, eu ouço… Gosto daquele canal de samba de raiz pela televisão, pela net, pela Sky, que eu tinha também, então, fico ouvindo música samba de raiz. Músicas boas! Gosto de todo tipo de música, latina, tudo.

Marco Bailão — Uma vez o Heron me disse que você gostava de bolero e de vários gêneros, mas por uma questão estratégica, você escolhia o samba para não perder o foco. É isso mesmo?

Dona Inah — Com certeza, porque a maior escola de música que eu tive foi a noite. Na noite eu comecei a trabalhar com grandes orquestras; antigamente tinha orquestra, 15, 20, 30 orquestras na cidade e eram todas orquestras que faziam o baile aos domingos. Era tudo pra dançar! Eu era cantora, crooner de orquestra. Então, foi a maior escola, coisa que pouca gente hoje consegue ter, porque aprende alguma coisa em casa e tudo bem. Na noite você aprendia tudo.

Marco Bailão — Como é era aquela música do Canhotinho?

Dona Inah — Você aprendia o samba, bolero, rumba, mambo, folk, todo estilo de música você era obrigado a cantar para o povo dançar. Não ia cantar só samba pra eles dançarem… Então, aprendi a cantar qualquer tipo de música, em qualquer ritmo.

Gafieiras — Mas a senhora estava contando do seu dia-a-dia, Dona Inah. O que a senhora faz em casa?

Dona Inah — Bom, agora, como eu mudei, estou desmanchando caixote pra guardar as coisas… Mas em casa, eu trabalho, eu lavo, passo, cozinho, faço meu serviço todo. Gosto de fazer isso.

Gafieiras — A senhora tem netos?

Dona Inah — Tenho neto e tenho bisneto.

Gafieiras — E como a senhora é como avó?

Dona Inah — Eu sei lá…

Gafieiras — Os netos chamam de Inah?

Dona Inah — Não, meus netos me chamam de vó.

Marco Bailão — Mas tem umas netas que nem ligam, são casadas e não estão nem aí…

Gafieiras — Mas tem algum neto que canta?

Dona Inah — Não, nenhum deles. Agora, tenho dois netos que são maravilhosos, são pequenos. Não sei quando crescer (como ficarão), porque os outros não estão nem aí! Nunca foram me ouvir cantar.

Gafieiras — Nenhum deles?

Dona Inah — Não, nenhum deles.

Gafieiras — Por que a senhora acha que (eles não foram ouvi-la ainda)? A senhora os convida?

Dona Inah — Eu convido, morei na casa deles muito tempo. Ficava lá junto com eles, mas “Ah! Vó, não vou com você não!”…

Gafieiras — Isso te entristece?

Dona Inah — Não! Por que triste? Cada um faz o que gosta.

Gafieiras — Mas será que eles não gostam de samba?

Dona Inah — Talvez não gostem, porque nesse ponto eu sou muito enérgica com eles. Eu não gosto de coisas erradas. Não sei se eu ia chamar a atenção deles em algum lugar e eles iam achar ruim, entendeu? Mas acho que eles não gostavam quando eu pegava no pé deles pelo que eles faziam. Então, deixei pra lá, que cada um faz o que quer, como deve, aonde a cabeça vai. Mas tem uma coisa: não quero que venha chorar depois no meu ombro. O que a gente pode fazer é aconselhar, é falar.

Gafieiras — Mas nem o CD eles ouvem?

Dona Inah — Ouvem porque eu dei pra eles o CD, né?!

LP Eduardo Gudin, de 1973. (Crédito: Reprodução)
Capa do primeiro LP de Eduardo Gudin, de 1973, fotografado no Bar do Alemão, em São Paulo. (Crédito: Reprodução)

Gafieiras — Dona Inah, a senhora contou um pouco do passado de sua família e falou da escravidão, do sofrimento. Esse passado sofrido influenciou de alguma maneira sua trajetória de vida?

Dona Inah — Sempre marca as pessoas…

Gafieiras — Muito?

Dona Inah — Marca, sim, viu, filha, porque a gente passa às vezes por coisa que, sabe como é que é? Existe ainda, existe…

Gafieiras — A senhora está falando de racismo?

Dona Inah — Existe ainda, não muito, mais existe.

Marco Bailão — Ela morou numa cidade que tinha muito esse foco de racismo. Ela tem muito isso, não gosta de falar, mas tem muita história dessa época de infância.

Dona Inah — Na escola, na hora do recreio e na saída, os negros eram separados dos brancos. No recreio, às vezes, um chamava o outro de neguinho e, na saída, um ia para um lado, o outro para o outro, esperava na praça e quebrava o pau, né! Aí a gente brigava.

Gafieiras — A senhora também brigava?

Dona Inah — Ah! Brigava! Era pedrada, era paulada, era reguada, era tudo! “Vou mostrar pra você quem é negrinha!” e quebrava o pau.

Gafieiras — Isso lá em Araras?

Marco Bailão — Não podia cantar no canto orfeônico porque era negra.

Dona Inah — É, não podia cantar no canto orfeônico da escola porque eu era filha de negros. Não podia entrar no clube da cidade porque eu era negra. Tanto que a primeira cantora (negra) que entrou no clube fui eu. Eu fui por intermédio da família Zurita, que inclusive uma hoje é presidente da Nestlé. O Inácio Zurita Junior foi quem me pôs no clube para cantar. Eu não entrava no clube. De jeito nenhum! Daí, fui a primeira cantora negra que cantou no clube da cidade. E tudo isso marca (a gente), mas hoje em dia já nem ligo pra muita coisa não, viu. Mas (ainda) existe (racismo).

Gafieiras — Hoje ainda tem?

Dona Inah — Hoje tem, mas é mais disfarçado. Antigamente era ali mesmo: o pessoal ia na praça passear, branco tinha que entrar aqui, preto tinha que passar por lá. Não se misturava, entendeu? Hoje, não, hoje é tudo mais aberto.

Gafieiras — O canto orfeônico era aquele do Villa-Lobos, né?

Dona Inah — Na escola tinha aula de música, e havia uma matéria chamada canto orfeônico. A gente participava.

Gafieiras — Como eram essas aulas?

Dona Inah — A gente tinha que aprender a cantar vozes, e toda festa — como o Sete de Setembro — os alunos participavam, mas eu nunca participei. Todo mundo sabia que eu cantava e que eu gostava de cantar. A minha professora chorava porque não podia me por lá no meio. Era a professora de quarto ano, Odete Ferreira Rangel, não sei se está viva ainda, mas ela tentava me por (no meio do coral), mas as famílias dos alunos não admitiam. Eu não podia cantar na escola, não podia cantar em festinha.

Gafieiras — Tinham muitos negros na escola, Dona Inah?

Dona Inah — Não tinha muito. Era por isso mesmo que a gente brigava, os poucos que tinham… Havia umas sete, oito salas de aula, então se tivesse 15, 20 negros era muito. No recreio cada um ficava na sua rodinha. Dali a pouco chegava um branquinho e gritava “Ô negrada!”. A gente dava um jeitinho. “Vamos sair pela porta errada hoje!”, “Ah! Professora, vou ficar pra escrever a lição de casa que não deu pra escrever!” Então, a gente saía depois: a escola saía pra cá e nós por lá. Aí, chegava na praça e quebrava o pau. Brigava, brigava, brigava!

Marco Bailão — O professor de música também não queria dar aula.

Dona Inah — O Sr. Jacoli era o único professor de música da cidade. Meu pai foi falar com ele uma vez para me dar aula de música. Ele disse que não podia dar (aula pra mim), porque perderia alunos. Isso ele falou na minha cara! Chorei muito naquele dia. Eu tinha oito, nove anos.

Gafieiras — E o seu pai dizia o que pra senhora?

Dona Inah — Meu pai falava “Que nada, filha! Você vai aprender ainda! Papai vai te ensinar!”. Aí apareceu um português que tocava bandolim, o Totó, e falou: “Dou aula pra sua filha. Ensino bandolim pra ela!”. E ele ensinou bandolim. Até de graça ele me ensinou. Mas os professores da cidade não queriam dar aula porque eu era filha e neta de negro. Minha mãe era branca, mas meu pai era negro, era neto de africano com francês. E a mãe do meu pai era mulatona assim, quase negra, e meu avô era bem africano mesmo. E por parte de mãe, minha vó era índia e meu avô alemão. Era uma mistura doida.

Gafieiras — E essa vó índia?

Gafieiras — É eu ia falar isso… A senhora só falou da vó Joana e não da outra vó.

Dona Inah — Eu passava só minhas férias de escola com minha vó materna.

Gafieiras — Ela morava onde?

Dona Inah — Em uma fazenda.

Gafieiras — Em Araras também?

Dona Inah — Em Araras… Era uma fazenda que chamava “Cinco casas”. Tinha a fazenda “Matão” e a fazenda “Cinco casas”, que era pertinho assim. E as minhas férias eu passava lá. Eu tinha um tio da mesma idade. Nós íamos passear lá naqueles cafezais. Meu avô criava cabras que davam leite gostoso. De manhã, meu tio falava: “Inês, vamos levantar! Vamos tomar leite!”. A cabra estava tão acostumada com a gente que ela corria e ficava sempre na mesma pedra. A gente mamava todo o leite da cabra.

Gafieiras — Mas direto da teta?

Dona Inah — Quando meu avô ia tirar leite da cabra, cadê o leite? “Eu quero saber quem veio tirar o leite da minha cabra! Acabou o leite!”. Aí eu falava: “Ah! Mas tem outra lá!” “Mas o leite de lá não é bom!”

Gafieiras — Então, que a cabra ficava na posição?

Dona Inah — Ela gostava. Esse meu tio vive em Araras ainda. Nós éramos da mesma idade. Chegava lá e “Inês, vamos tomar leite!” Aí nós íamos pegar melancia no meio da roça. Pegava a melancia e se estivesse madura, a gente comia, se estivesse meio verde, a gente enterrava no meio da terra e deixava. Por isso que a gente apanhava, não tinha jeito! Aí, quando meu avô ia cortar melancia, estava cortada no meio, podre já. Mas era uma vida gostosa! Minha infância foi muito gostosa. Minha mãe trabalhava e meu irmão tomava conta (de mim). Eu tinha 12 anos. Eu queria brincar, mas meus irmãos me enchiam o saco e não me deixavam brincar.

Gafieiras — A senhora tinha muitos irmãos?

Dona Inah — Tinha cinco irmãos nessa época. Aí, quando chegamos (em Araras) não tinha calçamento, era só areia na cidade; nada era asfaltado. Então, o que eu fazia: pegava meu irmão e o levava pra brincar. Fazia um buraco e punha meu irmão de pé. Colocava areia até aqui. E ele brincava ali na areia. Um dia contei pra minha mãe: ela foi lá e viu. Levei uma surra tão grande.

Gafieiras — Dona Inah, mas a sua vó materna não tinha essa coisa de bater?

Dona Inah — Não! A mãe da minha mãe já era mais calma. Mas a mãe do meu pai era fogo.

Gafieiras — Mas ela era mais carinhosa?

Dona Inah — Ela era, embora a gente a via muito menos porque ela morava longe do sítio. Da cidade dava umas quatro horas de carroça. Então, era muito longe a fazenda onde ela morava. Eu ia lá somente nas férias de escola. Eu conheci mesmo minha vó e meu avô quando tinha sete anos. O meu avô não queria me ver, não queria ver minha mãe, não queria ver ninguém. (Isso tudo) porque minha mãe fugiu pra casar.

Gafieiras — Sua mãe era branca?

Dona Inah — Minha mãe era branca.

Gafieiras — E foi por isso?

Dona Inah — Foi. Minha mãe sempre contava que ela fugiu pra casar e, quando ela tava no meio do cafezal, meu avô tava no trilho com a espingarda pra matar os dois. E ficaram de mal muito tempo. Depois que nasci que meu avô fez as pazes com minha mãe e com meu pai.

Gafieiras — E o seu pai se dava bem com os sogros?

Dona Inah — Se dava. Depois meu avô ficou doente e meu pai deu muito apoio a ele. Então, ficaram amigos, mas demorou um pouco, mais de sete anos. Aí, toda época de férias de escola eu estava na casa do meu avô. Ele ia me buscar na minha cidade pra me levar pra lá.

Gafieiras — Dona Inah, quando a senhora conheceu o Marco?

Dona Inah — O Marco eu conheci faz cinco, seis anos. Foi em 1997.

Gafieiras — Foi na época do disco?

Dona Inah — Foi bem antes. Nós fazíamos muito trabalho juntos. Trabalhava com um grupo de choro. Foi uma pessoa muito importante na minha vida.

Gafieiras — A senhora estava solteira?

Dona Inah — Tava solteira. Uma pessoa importante na minha vida. Uma pessoa que o tempo em que eu viver não posso esquecer nunca.

Gafieiras — A senhora é mãe de quantos filhos?

Dona Inah — Eu tive sete filhos: três morreram pequenos e uma morreu moça, em 1988. Morreu com 19 anos.

Gafieiras — Do mesmo marido?

Dona Inah — Isso, do mesmo marido. Essa morreu com 19 anos. Era a minha caçula e eu fiquei com três filhos vivos, dois homens e uma mulher.

Gafieiras — E todos moram aqui em São Paulo?

Dona Inah — Um mora em Ribeirão Pires, depois de Santo André. Um está morando no Rio. E uma está morando aqui em Santo Amaro. É difícil a gente se cruzar, porque o que mora no Rio não é sempre que vem na minha casa. O que mora em Ribeirão Pires é um que gosta de uma canjebrina, sabe? E ele sabe que eu não gosto. Então, nem vem em casa. Ele liga quase todo dia. “Mãe, tá tudo bem? Tá tudo bem. Então, tá bom! Tchau!” A minha filha também tem a vida dela, tem os filhos dela. Mas eu gosto de todos eles. Embora tenha alguns desacertos, não tenho mágoa de ninguém. A gente tem que ter amor em tudo na vida.

Gafieiras — Esses desacertos que sempre acontecem em família, de um jeito ou de outro, vão se acertar em algum momento?

Dona Inah — Depende. Eu acho que depende muito das pessoas. Tem acerto que não tem acerto, é um desacerto mesmo. Não tem jeito, não tem volta. Pra alguns tem, né, mas pra muitos não tem volta, não. Às vezes, quanto mais você tenta voltar, mais desacerta.

Gafieiras — De que forma esses desacertos influenciaram a sua vida artística, a sua forma de cantar, o repertório?

Dona Inah — Não influencia, não, viu! Eu tenho muita tristeza quando vejo um amigo em dificuldade, coisa que acontece com pessoa querida, então, a gente fica meio abalada, mas não faz diferença esse negócio… Tudo é relativo à vida da gente, então, pra mim, não traz desconforto, não. Quando começo a cantar, não penso em nada. Penso em mim e no público.

Gafieiras — São coisas separadas, Dona Inah?

Dona Inah — Eu acho que sim, porque o público que vai ver um cantor não quer saber se ele tem ou não problema.

Gafieiras — Mas, e dentro da senhora?

Dona Inah — Dentro às vezes machuca, mas você tem que dar risadas pro público, sorrir, agradá-lo porque ele não tem culpa dos meus problemas. Se vocês vão ver um show meu, e eu tô com um problema sério, com dor, vocês tem culpa? Vocês vão lá, vocês pagaram, vocês querem um show. Não querem ouvir um show de lágrimas. Querem ouvir um show. Um show bom. Depois que termina o show a gente vai lá no camarim, chora, se descabela, mas na hora do show o público manda na gente.

Gafieiras — Dona Inah, a senhora tinha algum ídolo em que tentou se espelhar?

Dona Inah — Quando comecei a cantar trabalhei com vários artistas. Artistas que foram na cidade pra se apresentar no clube de lá. Então, uma vez foi Orlando Silva. O Luiz Gonzaga que quis me trazer pra São Paulo, mas meu pai não deixou porque eu era menor de idade.

Gafieiras — Mas qual era a promessa? Era pro rádio?

Dona Inah — Era pro rádio. Era Luiz Gonzaga, Zequinha e Catamilu — acordeom, zabumba e triângulo -, esse era o trio dele. Meu pai disse: “De jeito nenhum!”. Depois o Orlando Silva foi fazer um show na cidade…

Gafieiras — A senhora lembra quando?

Dona Inah — Na época em que comecei a cantar, (quando tinha) 13, 14 anos; estava com orquestra ainda.

Gafieiras — Nos anos 50?

Dona Inah — É, nos anos 50 eu já estava aqui. Aí, ele me viu cantar e falou: “ Filha, não imita ninguém! Você gosta muito de imitar! Seja você! Cante você porque você sabe cantar!”.

Gafieiras — Quem que a senhora imitava?

Dona Inah — Eu imitava Dalva de Oliveira, imitava Ademilde Fonseca, imitava Aracy de Almeida, imitava Linda Batista, imitava tudo quanto era cantora que que eu ouvia cantar. Eu queria cantar igual a elas e conseguia.

Gafieiras — Oque elas tinham em comum?

Dona Inah — Cada uma cantava diferente, mas eu queria cantar igual elas.

Gafieiras — Mas quando ele falou isso, a senhora travou?

Dona Inah — Ele falou: “Quem quer ouvir Dalva de Oliveira, vai ouvir Dalva de Oliveira, e não você!”.

Gafieiras — E dentro da sua cabeça, como ficou isso?

Dona Inah — Aí eu encuquei. Ele falou “Você sabe cantar! Canta você! Vai no seu estilo sem ouvir ninguém”. Então, comecei a mudar, mudar, mudar, e hoje não imito ninguém mais. Não consigo imitar nem que eu queira.

Gafieiras — Dona Inah, nesses últimos dez anos, a senhora trilhou que gostaria de fazer, queria atingir algum objetivo ou foi vivendo conforme as coisas foram acontecendo?

Dona Inah — O objetivo da minha vida toda era gravar um disco e conhecer o mundo. Eu sempre pedi a Deus isso. E aconteceu. Esse era o meu objetivo. Eu demorei 50 anos para gravar um disco e aconteceu agora. Conheci uma parte da Europa e eu quero conhecer o resto ainda. É, com 70 anos ganhar o (prêmio na categoria) Revelação é triste. A Ana Maria Braga falou: “Muitas meninas ganham o que Dona Inah ganhou com 70 anos”.

Gafieiras — E quais são os planos para o futuro? Depois desses dois discos, o que vem mais? A senhora tem algum projeto, algum disco que sonha em fazer?

Dona Inah — Ah, eu vou fazer esses dois discos agora que são coisas que quero fazer e eu quero trabalhar. Ah! Tá muito fraco o negócio, mas eu não quero saber, quero trabalhar, quero mostrar o que eu sei fazer. Dinheiro ajuda muito, mas não traz muita felicidade pra ninguém! Não, quero trabalhar!

Gafieiras — Quem viveu com pouco sabe qual é o valor, não precisa de muito.

Dona Inah — E eu falo sempre, trabalhei muito, cantei muito pra hospitais, asilos, e acho que é muito importante a gente fazer isso também. Isso eu faço e não quero ganhar nada porque é muito importante.

Gafieiras — Dona Inah, a senhora sempre teve uma fé na música, né?

Dona Inah — Eu sempre tive.

Gafieiras — De onde a senhora acha que veio isso?

Dona Inah — Não sei, acho que é a minha fé em Deus. Meu Deus é muito grande, meu, não, nosso. É só a gente saber pedir, confiar nele, que ele dá tudo pra gente.

Gafieiras — Essa fé se manifesta por meio de alguma religião?

Dona Inah — Eu fui evangélica um tempo, mas não é por isso, não. Hoje eu não freqüento igreja, porque eu acho que meu Deus tá aqui. A partir do momento que quero uma coisa, eu peço direto a ele, não vou pedir ao soldado, não vou pedir ao juiz. Se eu vou a um fórum, quero falar com o juiz. “Ah, mas o policial tá aqui!” “Mas eu quero falar com o dono da boiada! Não quero falar com os bois, né? Vou dar um jeito nem que eu passe por debaixo da porta!”

Gafieiras — Mas como era a religião na casa da senhora?

Dona Inah — Meu pai virou evangélico, depois a família toda, e eu cantei muito em igreja evangélica, mas eu sei lá, eu achei que não devia sair da minha espiritualidade. Eu saí da igreja, parei de freqüentar, porque quando eu quero uma coisa, eu sempre peço a Deus na minha casa, não importa o lugar que estiver para conseguir as coisas. O que vale é a fé. Pode demorar dez anos, mais Ele vai te dar.

Gafieiras — O que a senhora cantava na igreja?

Dona Inah — Cantava hinos evangélicos.

Gafieiras — A senhora lembra de algum?

Dona Inah — Eu lembro.

Marco Bailão — Ela compôs hino evangélico.

Gafieiras — Como era?

Dona Inah — Deixa eu ver se lembro de um agora. [ canta ] “Há homens que buscam glória / Das glórias que acabam-se aqui / Há outros que buscam fama / Mas nunca se sentem feliz / Eu canto e dou glória a Deus / Sou feliz no caminho em que estou / Eu vou seguindo meu bom Jesus Cristo / Que é meu mestre / Meu bom salvador.” Eu sonhava com hino, acordava a noite e escrevia.

Gafieiras — E com o samba, a senhora sonha?

Dona Inah — Com samba é mais difícil, mas com hinos eu sonhava à noite.

Gafieiras — Continua sonhando com hino, não?

Dona Inah — Não, agora não mais, mas eu me lembro de muitos hinos que eu escrevi.

Gafieiras — E havia algum crivo, os pastores falavam “Isso aqui a senhora não pode, isso não ficou bom”?

Dona Inah — Não! Mas sabe por que eu saí da igreja? Eu era de uma igreja. Minha família toda e eu fazíamos parte de uma legião de pastores que visitava a detenção, cadeias e eu ia também, colocava o violão debaixo do braço e ia cantar hino lá na penitenciária, em lugares assim, pra molecada que estava na detenção, no tempo em que a detenção era na Tiradentes. Eu ia sempre todo domingo cantar na penitenciária. Conclusão: as meninas que cantavam na igreja que eu pertencia não gostavam. Mas por quê? Eu achava que não estava fazendo nada de errado. Não quero que ninguém seja crente, mas pelo menos vou lá e canto pra eles. Aí, quando foi um belo dia, ele me chamou — eu fazia programa na rádio evangélica América — e falou “Se você continuar a cantar com outros pastores por aí, a gente vai ter que mandar você embora da igreja!”.

Gafieiras — Eram pastores de outras igrejas?

Dona Inah — Eram, porque eu pertencia à Assembléia de Deus e esses pastores com os quais eu saía eram missionários, não eram pastores de outras igrejas. Todos eram missionários evangélicos. Era uma seita pra divulgar a Bíblia; não era como o que tem hoje, (de uma igreja só). Nós íamos independentemente de qualquer dinheiro, de qualquer tudo. E quando chegou um belo dia, ele falou que se eu continuasse a fazer programas de rádio de outras igrejas, ele ia me mandar embora. Eu falei “Então pode me mandar agora que não venho mais. Vou pertencer à minha igreja, aquela que eu quero, aquele que eu tenho vontade.

Gafieiras — Mas nessa época a senhora cantava na noite também?

Dona Inah — Não, parei por uns tempos.

Gafieiras — Mas por causa da igreja?

Dona Inah — Isso.

Gafieiras — Dona Inah, como a senhora vê a fama?

Dona Inah — Ah, a fama tá na cabeça da gente, né?! Eu morei seis anos em um prédio. “A senhora enganou a gente! Mora aqui há tanto tempo e não falou que era cantora!” “Ah! Porque vou falar pra vocês que sou cantora? Vou escrever uma placa e (colocar) na minha cabeça: sou artista, sou cantora? Pra quê? Eu quero ser o que sou. Eu quero que as pessoas me vejam em cima de um palco como gente, como pessoa comum. Eu não sou ninguém!” Estou conversando com vocês agora. À noite, venho aqui no Cidão, eu abraço, eu beijo todo mundo, eu converso. Pra que vou empinar o nariz? Pra quê? Não adianta, não resolve nada, a gente tem que ser o que a gente é. Eu sou o que eu sou.

Gafieiras — Mas o que melhorou ou piorou na sua vida depois que (a fama chegou)?

Dona Inah — Melhorou porque tem um pouquinho mais de trabalho. Fiquei mais conhecida, mas isso de ser conhecida não vai mudar minha vida. Eu conheci você aqui, mas se eu for ali fora e alguém me falar “Dona Inah, eu conheci a senhora, tudo bem?”, eu vou cumprimentar, vou falar, vou fazer a mesma coisa. Eu não sou melhor que ninguém. Se eu ganhei, se eu subi, se fui reconhecida, foi por méritos meus. Agora, não posso me levantar como muitos levantam a cabeça e não olham pra baixo.

Gafieiras — A sua vida não mudou?

Dona Inah — Não, eu sou a mesma. Eu levanto de manhã, vou ao mercado, ponho o chinelo meio rasgadinho no pé e vou ao mercado… E não tô nem aí com o que os outros dizem, sabe? Importa o que eu sou aqui dentro.

Gafieiras — A senhora falou que cantar com as orquestras foi uma grande escola. A senhora se imaginaria hoje cantando numa orquestra?

Dona Inah — Eu tenho vontade, nem que for uma única vez, de cantar numa grande orquestra. A melhor coisa do mundo é cantar com orquestra. Muito gostoso! Eu vou fazer ainda, não sei quando, mas vou fazer.

Gafieiras — Quando foi a última vez?

Dona Inah — Foi lá atrás. Porque antigamente não tinha conjuntinho, eram somente grandes orquestras. Antigamente a orquestra tinha 28, 30 músicos. Aqui em São Paulo eu trabalhei no Som de Cristal, trabalhava-se em duas orquestras por noite. Trabalhei no Avenida Dancing, no Chuá Danças. Era maravilhoso, duas orquestras! Saia de uma orquestra, entrava em outra, e todos ganhavam. Não ganhava couvert, ganhava a noite.

Gafieiras — Eram dancings?

Dona Inah — Eram dancings. O Som de Cristal foi a gafieira número um de São Paulo.

Gafieiras — Onde ficava?

Dona Inah — Na Rego Freitas.

Marco Baião — Som de Cristal era da década de 1970, 80…

Dona Inah — Os maiores bailarinos do samba eram Som de Cristal.

Gafieiras — A senhora já tinha visto o Cidão dançando lá?

Dona Inah — Eu nem sei…

Cidão — De 1969 até 80 eu apresentei o Som de Cristal. Nessa época tinha Garitão, Som de Cristal e o Tangará. O Tangará ficava onde está o Olimpo, na Rua Clelia.

Dona Inah — Eu fazia Som de Cristal e fazia Tangará. Eu vinha de bonde até aqui perto da igreja, é voltava de bonde de madrugada.

Cidão — Ali eu não frequentava…

Dona Inah — O Avenida Dancing era um táxi dancing.

Gafieiras — O que é táxi dancing?

Dona Inah — Era uma casa que ficava no bar Paladium, que existe até hoje, quase ao lado do Cine Rio Branco. Táxi dancing era uma casa que o pessoal ia lá pra dançar somente. Então, havia as bailarinas que ficavam na casa, que ganhavam a noite pra dançar.

Gafieiras — A Elizeth Cardoso foi uma…

Dona Inah — Os rapazes ganhavam um cartão que apresentavam quando iam dançar. As meninas que trabalhavam lá ganhavam pra dançar com os fregueses.

Gafieiras — Não havia dançarino? Era somente mulher?

Dona Inah — Era só mulher. Lá iam casais numa boa, mas as bailarinas ganhavam pra dançar com os fregueses.

Gafieiras — E havia paquera ou era somente dança, Cidão?

Cidão — Às vezes até pintava…

Marco Bailão — Lá dentro era isso.

Dona Inah — Mas o objetivo não era paquerar, era dançar.

Cidão — Naquele tempo a gente ia pra dançar, esquecer as tristezas.

Dona Inah — Lá dentro era festa. Hoje em dia o pessoal fala de boate como lugar de vagabundo, mas não era lugar de vagabundo. As meninas ganhavam a noite pra ficar lá dentro. Elas chegavam às 22 horas e tinha show de striptease, tinha show de música, tinha tudo ali. As meninas ganhavam a noite e a comissão sobre bebidas que faziam os caras gastarem. Então, se o uísque custava cinco reais, eles pagavam uma porcentagem desse valor pra elas. Elas ganhavam a noite e a comissão da bebida. Chegavam às 22 horas, assinavam o ponto e saíam às quatro horas, assinando o ponto. Agora, da porta pra fora, (cada uma) fazia o que queria. Mas lá dentro, não.

Gafieiras — O que era diferente da noite daquela época para a de hoje?

Dona Inah — Naquele tempo tinha muito trabalho.

Marco Bailão — Não tinha a violência que tem hoje.

Dona Inah — Eu fazia duas, três casas por noite. Não ganhava couvert (artístico): ficava lá 45 minutos, depois 45 lá (em outra casa) e ganhava a noite. Hoje em dia, em 45 minutos você não ganha nada.

Gafieiras — Esse tempo em que a senhora cantava em boate era com orquestra ou com conjuntos?

Dona Inah — Em boate geralmente era com conjuntos, mas dois conjuntos. Entrava uma, saía o outro. Não parava a música nos dancings e nos salões. Havia a matinê dançante nos clubes. Todo sábado tinha baile. O fim de semana todo o pessoal tinha onde dançar, onde passear, porque havia música toda semana.

Gafieiras — Nessa época havia grupos que eram importantes para o artista cantar, como a orquestra do Severino Araújo [ n.e. 1917 | Clarinetista e compositor pernambucano, é líder da célebre Orquestra Tabajara ]…

Dona Inah — Todas as orquestras eram boas. Severino Araújo foi destaque; tinha o Silvio Mazzuca [n.e. 1919–2003 | Pianista e maestro paulistano, dono de uma generosa carreira discográfica construída principalmente nos anos 1950 ], tinha o Clóvis Eli, tinha o Tobias Troisi [ n.e. Violinista que primava por tangos e boleros ], tinha o Simonetti [n.e. 1924–1978 | Enrico Simonetti, instrumentista e maestro italiano, um dos diretores e fundadores da gravadora RGE. Permanceu no Brasil entre 1949 e 1963 ], com quem eu trabalhei, havia muitas orquestras que trabalhavam a semana toda. Tinha lugar pra trabalhar; hoje já não tem mais. Muitos músicos bons estão passando necessidade… Na década de 70 (tinha muito) piano bar. No Bar Brahma eu trabalhei com um pianista. Trabalhei no Fasano.

Gafieiras — Quem era o pianista do Fasano?

Dona Inah — No Fasano tinha orquestra…

Gafieiras — O Fasano que era o da…

Dona Inah — O da Paulista. No Brahma era piano bar na época da Nora Ney, daquelas músicas de dor de corno, como diziam. A gente tomava umas e outras e depois chorava. Eu já tomei muito, hoje, não, mas eu tomava.

Gafieiras — Por que a senhora parou de beber, Dona Inah?

Marco Bailão — Essa história é interessante.

Dona Inah — Eu bebia muito, tomava todas. Eu ia pras boates e tinha que arrumar dinheiro pra levar pra casa. E, como cantora, ganhava mais do que aquelas mulheres que eram dançarinas na época. Eu ganhava a comissão por bebida e eu era meio sacana. Os rapazes vinham e falavam: “Deixa eu beber com você, cantora!”. Aí eu pedia uísque. Vinha mais refrigerante que uísqeu. Depois eu comecei a beber uísque puro. Aí, tinha noite que eu bebia mais de 15 doses de uísque por noite. Comecei a ficar meio tereré, né! E me viciei na bebida.

Gafieiras — A senhora era casada nessa época?

Dona Inah — Eu era casada. Depois me separei, mas eu era viciada em bebida. Gente do céu, eu bebia demais!

Gafieiras — Mas era somente à noite?

Dona Inah — Comecei a beber de dia e de noite. Já dormia com a garrafa de pinga do lado da cama, acordava de noite, virava a garrafa… E um belo dia, quando eu morava em Taboão da Serra e trabalhava no quilômetro 28 da Anchieta, peguei um ônibus e desci na Brigadeiro. Peguei um outro pra chegar aqui em Pinheiros. Quando o ônibus fez aquela voltinha da Henrique Schaumman ali, e endireitou, fui parar embaixo do motorista. O motorista parou o ônibus e eu só olhando pra cara dele, bêbada, que não sei me fingir de sã. O ônibus parou e ele me ajudou a levantar. “A senhora tá bem?” “Não, tô bem!” Aí levantou um cara no fundo e falou “Essa vagabunda não tem nada! Tá cheia de cachaça! Vem atrapalhar a gente! Eu tô perdendo hora de serviço por causa dessa vagabunda!” E falou, falou, falou… Eu abaixei a cabeça, desci do ônibus e sentei num banco da Henrique Schaumman que tem até hoje. Sentei e chorei muito. “A minha hoje é ser chamada de vagabunda perto do público!” Cheguei em casa e falei pra minha filha: “Não me faça mais caipirinha de manhã que eu não vou beber mais!”.

Gafieiras — Quando foi isso?

Dona Inah — Foi em 1973, 74, mais ou menos.

Gafieiras — A senhora trabalhava somente cantando nessa época?

Dona Inah — Só cantando.

Gafieiras — E a Prefeitura?

Dona Inah — Na Prefeitura comecei atrabalhar em 1980. Fiquei dez anos lá. E eu bebia todas nessa época. Aí me levaram na Associação dos Alcoólatras Anônimos, no Caxingui, onde me perguntavam: “A senhora tá doente. Quer falar alguma coisa?”. Eu falava que não estava doente nada, que não queria me tratar, que não tinha nada. E quando chegou um dia, falei: “Quero ir lá sozinha hoje!”. Cheguei lá e falei “Quero me tratar! Eu preciso me tratar!”.

Gafieiras — Essa época de beber todas durou quanto tempo?

Dona Inah — Ah, durou muitos anos, durou muito.

Gafieiras — Mas a senhora fazia besteira?

Dona Inah — Não, besteira eu não fazia. Só ficava bêbada.

Gafieiras — Isso atrapalhou sua carreira de alguma forma?

Dona Inah — Eu sei lá se ajudou ou se atrapalhou… Acho que prejudicou um pouco, não sei, mas tudo tem a hora certa pra acontecer na vida da gente.

Gafieiras — E agora a senhora não bebe mais?

Dona Inah — Ah, tomo um copo de cerveja de vez em quando. A gente vai numa festa, tomo uma caipirinha, mas tomo uma só! Na segunda já fico meio tereré, então paro.

Gafieiras — A senhora tem algum cuidado com a voz?

Dona Inah — Não só tomo gelado.

Gafieiras — Nunca teve cuidado, Dona Inah?

Dona Inah — Muito pouco.

Gafieiras — Mas a voz nunca deixou a senhora na mão?

Dona Inah — Deixar na mão mesmo, não.

Gafieiras — Em que ano a senhora chegou em São Paulo?

Dona Inah — Em 54.

Gafieiras — Como foi a primeira impressão de São Paulo? Foi a primeira vez que a senhora veio pra ficar?

Dona Inah — Ah! Foi tudo! Meu pai quis vir porque achou que eu ia ser uma cantora um dia, né!

Gafieiras — Nessa época ele já acreditava? Ele não havia deixado a senhora vir (para São Paulo) quando o Luiz Gonzaga a convidou, né?!

Dona Inah — Mas depois ele ficou desempregado e tinha arrumado emprego aqui em São Paulo, entendeu? Ele vendeu uma casa que tinha lá (em Araras), viemos pra cá e minha irmã ficou doente. A doença dela acabou com o dinheiro todo da casa. Foi quando eu ganhei o concurso! Ganhei cem cruzeiros de prêmio. E uma outra firma me deu mais cem cruzeiros de prêmio e uma (câmera) Kodak, da Foto Léo. Então, ganhei duzentos cruzeiros de prêmio. Era um dinheiro bom na época. Meu pai deu como entrada num terreno onde construiu a casa dele.

Gafieiras — Onde vocês foram morar?

Dona Inah — Em Camilópolis, em Santo André.

Gafieiras — E foi tranquilo, Dona Inah? Ou a senhora se assustou de vir para uma cidade grande?

Dona Inah — Não, não, eu não assustei, não, porque vim pra cá pra vencer, mas não pensei que fosse pra passar tantos anos assim. Mas passou e pra mim parece que foi ontem.

Gafieiras — A senhora tinha uns 16 anos?

Dona Inah — Dezoito anos.

Gafieiras — E a senhora se lembra quando a Carmem Miranda morreu [ n.e. 1909–1955]?

Dona Inah — Eu lembro, eu era mocinha ainda. Ela morreu em 52, 53, né?

Gafieiras — Era uma das cantoras que a senhora imitava?

Dona Inah — Era. Eu imitava a Ademilde Fonseca, cantava chorinho como ela, numa boa. Hoje não canto mais, mas eu gostava de imitar cantoras.

Gafieiras — Hoje em dia, que cantores e cantoras a senhora admira?

Dona Inah — Cantoras…? Como sambista tenho uma grande admiração pela Beth, pela Fabiana Cozza! Fabiana é uma grande sambista! Tem várias sambistas, mas tem sambistas e sambistas, né? Pra gente cantar samba tem que sentir aqui, não é só cantar música de dor-de-cotovelo. Se não sentir aqui, não canta samba também, não. Tem que soltar pra fora e por no coração.

Gafieiras — E se o cara for um guapo, ele pode cantar outro tipo de samba? O que diferencia um sambista do outro sambista?

Dona Inah — Você tem o sambista que canta artificialmente, que abre a boca pra cantar, que quer o dinheiro. E tem sambista que canta mesmo o samba, o sambão, ele sente aquilo que está cantando. Vem de dentro pra fora! Até pra cantar samba tem que sentir. Tem que sentir amor, senão o samba fica vazio.

Gafieiras — Tem alguém do samba, na sua relação como fã, que te decepcionou? Sabe aquele ídolo que caminhava pra cá, foi pra lá, e a senhora falou “Não gosto mais desse tipo de música ou desse artista”?

Dona Inah — Não, eu acho que isso nunca aconteceu comigo.

Gafieiras — Como era a relação da senhora, principalmente quando era menina, com o disco? A senhora comprava disco? Tinha oportunidade de comprar disco?

Dona Inah — Ah, não tinha. A gente era tão pobre que não comprava disco. Só ouvia na casa dos outros. Não ouvia nem rádio, só ouvia na casa da vizinha. Nem rádio em casa tinha. Primeiro rádio que nós tivemos em casa eu já estava com 20 anos. Num tinha rádio, ouvia no vizinho.

Gafieiras — E qual era o espaço que rádio ocupava na casa?

Dona Inah — Ah, eu gostava de ouvir música, né?! Meu pai gostava de ouvir futebol. Pegava muito o programa de calouro Aí vem o pato, do Ary Barroso, aqueles negocio lá. Mas rádio tive na minha casa muito adulta, não dava pra comprar.

Gafieiras — E o rádio ficava na sala?

Dona Inah — Primeiro rádio que meu pai comprou era um radinho bonitinho. Aí, então, o rádio deu um problema. A casa em que eu morava não tinha forro, era aberta em cima, sabe essas casas que não tem forro? Foi a primeira casa que meu pai fez. Então, o rádio deu problema, meu pai ficou nervoso, não podia ouvir o programa evangélico dele e aí eu levantei e falei: “Pai, a gente vai dar um jeito. Amanhã a gente leva para alguém arrumar”. Eu e meu irmão abrimos o rádio e consertamos. Puxamos um fio pra lá, outro pra cá, demos um jeito. “Pai, o rádio tá funcionando!” Na terceira vez que o rádio quebrou, nós fomos arrumar. Consertamos e o colocamos em cima do armário da cozinha. Do outro lado, no outro quarto, também não tinha forro. Aí falei: “Pai, pode ouvir o seu programa amanhã de manhã que o rádio tá ótimo, tá funcionando!”. Ele ligou o rádio às cinco e meia da manhã [ risos ], tocou dois minutos e deu um estouro! [ risos ] A tampa do rádio voou em cima de nós lá no quarto! [ risos ] Acabou com o rádio. Meu pai ficou tão nervoso… [ risos ] Não sei o que fizemos, algum fio errado, que explodiu! [ risos ] Aí, depois de todos uns tempos, dei um rádio pra ele e ficou muito contente. Mas são coisas pequenas…

Gafieiras — A senhora participou de muitos programas de calouros?

Dona Inah — Não, só na Rádio Cultura.

Gafieiras — Só na Rádio Cultura? Por quê?

Dona Inah — Porque eu nunca participei na minha cidade quando era criança, e quando vim pra São Paulo, o único programa de calouros que participei foi o da Rádio Cultura. Chamava-se Pereira Rondini. Fiz inscrição em Santo André para participar do concurso. Participei e ganhei o concurso. Depois, então, abriu as portas para a inauguração da Rádio Globo e fiz o show em Santo André. Nunca participei mais de (programa) de calouros. Foi o primeiro e o último.

Gafieiras — Dona Inah, a senhora é muito amiga do Eduardo Gudin, e ele também foi parceiro do Adoniran Barbosa. A senhora conheceu o Adoniran?

Dona Inah — Adoniran conheci na Record; ele estava sempre lá. Na noite, ele ficava numa casa na Consolação que nem existe mais — hoje é um barraco, um galpão velho, uma casa de bico. Então, eu saía do Som de Cristal e ia pra lá. Ele ficava sentado tomando umas biritas. A gente conversava muito, mas não tinha aquela liberdade. Estava sempre bêbado também, né?! [ risos ]

Gafieiras — Quem, ele ou a senhora?

Dona Inah — Ele.

Gafieiras — Ou ambos?

Dona Inah — Bom, eu também estava um pouquinho. [ risos ] Boa pergunta, não sei.

Marco Bailão — “Não me lembro!”

Dona Inah — Não me lembro! [ risos ] Mas ele era uma pessoa bacana, uma pessoa delicada.

Gafieiras — A senhora falou da Consolação, e ali também teve o Jogral, na Maceió.

Dona Inah — Jogral… Eu trabalhei no Jogral.
Gafieiras — A senhora trabalhou em qual Jogral, porque ele teve três sedes: na Avanhandava, na Galeria Metrópole e na Maceió…

Dona Inah — Não, não, eu trabalhei na Maceió mesmo.

Gafieiras — Na Maceió mesmo? Então, a senhora não conheceu o (Luiz Carlos) Paraná.

Dona Inah — Luiz Carlos Paraná… Eu o conheci.

Gafieiras — Conheceu?

Dona Inah — Conheci.

Gafieiras — Como era?

Dona Inah — Ele era bacana, era produtor de música também. Ele trabalhava na Sinclair, parece.

Gafieiras — E do Jogral, o que a senhora lembra?

Dona Inah — Eu fazia muita folga nessas casas. Uma cantora faltava e eu ia lá… Jogral, Dakar… Qual outra? Eu trabalhei em várias casas que nem lembro o nome. Muitos cantores… Tnha a boate Asteca, no Largo do Arouche, uma casa de samba muito boa.

Gafieiras — No Jogral a senhora se lembra se cruzou com alguém conhecido, alguém que a senhora admirava?

Dona Inah — Não, no Jogral, não! Quem gostava de lá era a Aracy (de Almeida). Ela ia lá passear.

Gafieiras — E a Aracy, Dona Inah?

Dona Inah — Com ela não tinha muito papo, não. Ela era bocuda, era mal-criada, mas ela tratava a gente bem…

Gafieiras — Ela morou uns tempos em São Paulo, né?

Dona Inah — Morou uns tempos aqui, mas ela num era de muito papo, não, mas era bacana, uma pessoa que não ofendia ninguém. Eu gostava… Também, sempre tive amizade com todo o mundo. Quando eu via que não dava, já saía de lá pra não ser ofendida, porque se me ofendessem, naquela época em que eu bebia, já rodava a baiana… [ risos ]. Então, eu evitava de rodar a baiana.

Gafieiras — A senhora é uma pessoa de personalidade forte.

Dona Inah — Não, eu sou muito calma, tenho uma calma muito grande.

Gafieiras — Mas a senhora tem opinião?

Dona Inah — Tenho. Eu tenho opinião.

Gafieiras — A senhora se considera muito emotiva?

Dona Inah — Eu sou muito emotiva. Qualquer coisa me magoa, me machuca. Sou chorona.

Gafieiras — Mas qualquer coisa deixa feliz também?

Dona Inah — Qualquer coisa me deixa feliz. Se você chegar pra mim e me der uma agulha, “Oh, esse aqui é seu presente!”, vou pegar e guardar. Eu tenho coisas guardadas em casa que nem sei quem foi que me deu. Mas está guardado dentro de uma caixinha.

Gafieiras — A senhora tem saudade, Dona Inah?

Dona Inah — Saudade eu tenho de alguma coisa, mas algumas prefiro esquecer.

Gafieiras — Então, das coisas boas…

Dona Inah — As coisas boas da minha família, da minha avó…

Gafieiras — De sua família em Araras?

Dona Inah — Em Araras, meus tios, que me queriam muito bem, os amigos que eu tive em Santo André, tive, não, tenho ainda. Amigos bacanas… Agora a família dá muita dor de cabeça pra mim, sabe? Difícil! Netos, principalmente… Tenho lembranças, mas não são aquelas ótimas, entende? Mas eu respeito muito, acho que devo respeitar pra ser respeitada.

Gafieiras — Dona Inah, a senhora fala muito “no meu tempo é que era bom”. Qual é o tempo da senhora?

Dona Inah — Tempos de criança. Você não pensava em nada, só pensava em trabalhar e curtir, ter um pai, ter uma mãe, entendeu? Eram tempos bons.

Gafieiras — E a senhora tem alguma mágoa de alguém que fez muito mal?

Dona Inah — Não. A única mágoa que eu tenho até hoje é de uma amiga. Ela jogou uma barata dentro da minha roupa! A casa em que eu morava era dessas casas enormes, tinha aquelas janelas enormes, aqueles casarões antigos. Eu sentada pro lado de dentro da minha casa, e aí ela chega uma barata desse tamanho e joga. Até hoje eu não falo com ela! [ risos ] Fui fazer um show na minha cidade e, quando ganhei um prêmio, ela estava no teatro. Ela me cumprimentou, eu a cumprimentei, tudo numa boa, mas sabe quando você não sente vontade de conversar com a pessoa? Quando eu a vi, parece que eu vi a barata dentro de mim.

Gafieiras — Mas isso não foi molecagem?

Dona Inah — Molecagem, mas não se faz. E se eu tivesse problema do coração? Eu tinha morrido.

Gafieiras — Mas a senhora era criança quando que ela jogou a barata?

Dona Inah — Eu era uma criança, tinha 9, 10 anos. Até hoje não falo com ela.

Gafieiras — Mas ela sabe que é por causa da barata?

Dona Inah — Ela sabe que é por causa da barata.

Gafieiras — Quem mandou fazer essa pergunta foi o Cidão.

Dona Inah — Ah, o Cidão? Eu tive raiva um tempão do Cidão.

Gafieiras — Tem bronca do Cidão? Então, fala logo que a gente já resolve isso. [ risos ]

Dona Inah — Não… Eu não tenho bronca e mágoa de ninguém. Não guardo rancor.

Cidão — Nesse pouquinho de tempo que eu tô aqui, vejo muita coisa que as pessoas não merecem, sabe? O que eu sofro vocês nem imaginam. Sou muito sentimental com as pessoas, então, gosto muito de todo mundo. Quando eu vejo alguém que empurra alguém pro canto e depois pelas costas fica falando, fico muito sentido. Por isso a turma me chama de grosso, disso e daquilo, porque o que tenho que falar falo na cara da pessoa. Sou caipira, na verdade, não tenho estudo. Detesto ver gente falando da pessoa…

Dona Inah — (…) Que na frente fala uma coisa e por trás fala outra…

Cidão — É. Então eu brigo aqui principalmente com os músicos… É muito difícil lidar com os músicos, sabe? Chega o cara e beijinho daqui, beijinho dali, aí a pessoa vira as costas e… Do jeito que fui criado, acho que isso não é digno, sabe? Como uma vez: é amigo, mas por causa de namorada, daqui a pouco nego tá metendo a mão na cara do outro. Isso me machuca muito. Por isso que mandei fazer essa pergunta, porque tem muito a ver…

Dona Inah — Não, eu não tenho mágoa de ninguém, mas tenho pena de muita gente. As pessoas têm a mente tão pequena que dá pena. Não dá pra ter raiva… Você não sabe se pode tropeçar amanhã, cair e se machucar. Então, a gente tem que ser o que a gente é. Sou uma pessoa que, quando passo nervoso, falo “Deixa pra lá, um dia vai cair aqui!”.

Gafieiras — Dona Inah, o próximo disco é de samba também?

Dona Inah — É de samba.

Gafieiras — Já tem um terceiro? Também de samba?

Dona Inah — Também é de samba. O terceiro vai ser de sambas inéditos, de compositores do Rio e de São Paulo.

Gafieiras — Mas, por algum momento, passa pela cabeça ter um outro disco com repertório que vai além do samba?

Dona Inah — É, tem sempre uma ou duas músicas que não são samba, sambão assim. Eu gosto do samba de raiz. Na noite eu canto tudo… Faço todo o mundo chorar quando tô cantando. É gostoso fazer as pessoas chorar!

Cidão — Tem umas músicas que, sinceramente, chorar eu não choro, mas que me arrepia todo…

Gafieiras — Cidão, qual música que a Dona Inah canta que dá arrepio?

Cidão — Ah, tem várias, não é somente uma, não. É que não conheço nome de música.

Marco Bailão — Tem até música internacional que ele sempre pede pra cantar.

Gafieiras — Qual é Cidão, que música é essa?

Dona Inah — [ canta “Los hermanos”, de Atahualpa Yupanqui ] “Yo tengo tantos hermanos / Que no los puedo contar / Em el valle en la montaña / Em la pampa y en el mar / Cada cual con sus trabajos / Con sus sueños cada cual / Con la esperanza delante / Con los recuerdos detrás / Yo tengo tantos hermanos / Que no los puedo contar / Gente de mano caliente / Por eso de la amistad / Con um lloro para llorarlo / Con un rezo para rezar / Con un horizonte abierto / Que siempre esta más allá / Y esa fuerza pa buscarlo / Con tezón y voluntad / Cuando parece más cerca / Es cuando se aleja más / Yo tengo tantos hermanos / Que no los puedo contar / Y asi seguimos andando / Curtidos de soledad / Nos perdemos por el mundo / Nos volvemos a encontrar / Y asi nos reconocemos / Por el lejano mirar / Por las coplas que mordemos / Semillas de imensidad / Y así seguimos andando / Curtidos de soledad / Y en nosotros nuestros muertos / Pa que nadie quede atrás / Yo tengo tantos hermanos / Que no los puedo contar / Y una hermana muy hermosa / Que se llama libertad.”

Gafieiras — É, você tem razão, Cidão. Dona Inah, qual é o barato de cantar na noite e cantar no palco?

Dona Inah — Na noite você está acostumada a conviver com os amigos, por exemplo: aqui no Cidão eu tenho muitos amigos. Agora, no palco, cada show é um show diferente. Às vezes, o pessoal fala: “Não vamos ensaiar pra ir ao palco, porque esse show já está ensaiado!”. Mas cada show é um público diferente. Pode vir 40 pessoas que já viu o show, mas vem 20 pessoas novas e eles querem ver coisa boa. Então, o público do palco merece muito mais o nosso respeito. O público do bar, como é o do Cidão, ou o do Ó do Borogodó, está acostumado com a gente. Você canta, você brinca, às vezes você erra… Mas o público (de um show) de palco está concentrado em você, que tem que fazer bonito pra transmitir coisas boas.

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Gafieiras – Dona Inah, e a voz da senhora, como é que a senhora analisa esse tempo todo de cantora, hoje é o melhor momento, como é que ela é?

Dona Inah – Ah, a minha voz acho que é a mesma. Deve ter mudado um pouco né, porque a gente ta velha hoje né? Velha, meio transviada assim né? (risos). Mas muda, a voz das pessoas mudam. Mas não me prejudicou em nada não. Pelo contrario.

Gafieiras – A senhora não acha que teve nenhum ponto que a voz estava ideal?

Dona Inah – Não. Eu canto normalmente. Hoje a minha voz é um pouco mais rouca, eu acho né, não sei. Eu tenho gravações em casa quando eu era mais mocinha. Mas não mudou muito não.

Gafieiras – A senhora tem essas gravações?

Dona Inah – Eu tenho uma fita de 1970 mais ou menos.

Gafieiras – Qual que foi essa gravação?

Dona Inah – Foi um show que eu fiz um trabalho que eu fiz, com conjuntos, a gente gravava com fita.

Gafieiras – E não dá pra avançar nada nesse material?

Dona Inah – Acho que não.

Gafieiras – Ta em fita cassete?

Dona Inah – É. Tem bastante… shows que eu fiz no Sesc de São José dos Campos. Fiz com outros conjuntos, então tem muito em casa.

Gafieiras – A senhora tem costume de ouvir essas fitas?

Dona Inah – As vezes eu pego alguma lá e escuto. Não dá tempo às vezes, é tanta coisa agora que não dá tempo. Falei: Tu tem que pegar elas todas, passar de uma fita pra outra os melhores, e vê se faz um Cd pra guardar, porque assim fica guardado.

Gafieiras – Não tem perigo de estragar.

Dona Inah – É.

Marco Bailão – Você perguntou esse negocio de disco de samba, eu acharia legal um dia, não existe nenhum projeto ainda, mas ainda gravar um outro gênero, ela conhece muitas músicas… ela canta bem, e coisas diferentes que eu nunca vi ninguém cantar, versões de folks americano, acho que era a coisa que ela cantava com orquestra. Então de repente você estava escutando alguma música instrumental, aí sei lá, um summer time da vida, ela saia cantando uma letra. Pô, de onde surgiu isso? Mó barato.

Dona Inah – Summer time, eu fui ver o filme. Então depois do filme eu comecei a pensar, puxa, que música bonita, o que quer dizer summer time? Tempo quente né, e aquele negocio, aí eu cheguei em casa e escrevi: amanhã, o sol já vai raiar, vem amor a sorrir e a cantar. Ta no ar o amor que não tem fim, nós dois, só nós dois, o luar e o mar, só nós dois enfim, o sol virá depois iluminar nós dois só nós dois e mais ninguém, é verão e o sol já vai raiar (risos). Então ficou essa letra. Depois que eu fiz eu falei gozado, eu vou cantar isso aí. E tinha um japonês que freqüentava a noite e ele falava: canta summer time pra mim, mas a versão brasileira, nem sabe até hoje que fui eu que fiz essa letra (risos).

Gafieiras – É seu isso aí? E a senhora compôs outras coisas?

Dona Inah – Não, pouca coisa.

Marco Bailão – Compôs sim.

Dona Inah – Pára de me dedar Marcos (risos)

Gafieiras – Mas a senhora não regravou nada que a senhora fez?

Dona Inah – Não. Eu quero ver se eu gravo ainda. Só música minha, eu quero fazer um disco só meu.

Gafieiras – Então mais uma. Uma da senhora.

Dona Inah – Quando eu morrer não quero choradeira, quero que cantem meu samba a noite inteira. Quando eu morrer não quero choradeira, quero que cantem meu samba a noite inteira. Quero um velório de sambista, fazendo prece pra esta artista. Não quero velas e nem coroas e nem tampouco que digam criatura boa, quero entrar no céu como turista e receber o diploma de Noel com sambista.

Marco Bailão – Ela também canta choro, tem um monte de choro que ela canta.

Gafieiras – Dona Inah, nós estamos encerrando, já abusamos muito da sua boa vontade, mas assim, eu vejo pelos poucos lugares que eu tenho ido, que tem uma geração de meninos que estão cantando samba e choro na noite, meninos muito bons… e se a senhora pudesse dar um conselho pra eles, um conselho de vó, da Vó Inah, que a senhora falaria pra eles?

Dona Inah – Olha, eu sempre falo pra eles, em toda entrevista que me perguntam isso, eu adoro esses jovens que estão vindo agora, eu trabalho com vários jovens de 19 à 24 anos. A única coisa que eu peço a eles é que não se envolvam com coisas erradas. Bebida faz mal, droga, eu acho que isso estraga as pessoas. Gosta de ser músico, então vamos ser músicos, mas não vamos misturar drogas com música, porque atrapalha a vida dele, atrapalha a vida dos outros, atrapalha a vida da família. Músico depois que ele cai, não levanta mais. Dificilmente levanta, eu tenho várias experiências com amigos da gente que caiu uma vez e não levantou mais então eu acho que é muito triste isso. Vê essa molecada que gosta da música, que gosta da noite, que toca muito, de repente se vê jogado por aí. Eu acho que tem que pensar muito nas amizades, nas drogas, no álcool, porque o álcool também é uma coisa muito triste. Cigarro faz mal só pra gente, mas álcool e drogas fazem mal pra ele e pra toda a família. Então, não se envolvam com isso porque é muito triste. E eu como uma mulher que já sou vivida, e trabalho com muitos garotos, já pensou amanhã ou depois eu ver eles jogados por aí? Eu vou me sentir um trapo porque não merecem fazer isso. Então, tem que pensar muito antes de fazer as coisas erradas.

Gafieiras – Um conselho profissional a senhora dá ou não, só pra vida mesmo?

Dona Inah – Profissional sim. Se gosta da música vá em frente, mas eu acho que todos os jovens que gostam de música, eu sempre digo, tem que ter uma profissão paralela. Porque se só tocar música, de repente acontece alguma coisa e vai viver do que? Não tem nada, porque musico não paga nada, musico não tem aposentadoria, não tem nada. Então esses jovens que estão começando, tem que ter qualquer coisa paralela à música. Gosta da música? Gosta. Mas vai por aqui também. Pelo menos se amanhã fracassar a música, tem uma salvação. A não ser que eles sejam bem sucedidos na vida, mas se for pessoas humildes, têm que ter alguma coisa.

Marco Bailão – A não ser que seja assim um Caio Mesquita né Inah?

Dona Inah – É. Tem que ter outra profissão. Eu digo por mim, porque eu nunca tive profissão, eu sempre trabalhei como doméstica com tudo eu trabalhei. Só que com 55 anos me arrumaram um emprego na prefeitura. E se eu não tivesse esse emprego, como é que eu ia viver hoje? Então eu trabalho tudo bem, eu ganho na música hoje, graças a deus to ganhando, mas eu tenho uma aposentadoria, não é muito, mas eu vivo dessa aposentadoria. Não dá pra viver horrores, mas se eu precisar, se eu tiver alguma necessidade, pouco ou muito eu tenho, e se eu não tivesse? Eu trabalhei em banheiro… e eu dou graças a deus por isso, porque pouco ou muito eu tenho.

Gafieiras – E hoje o que é legal na cidade de São Paulo? O que a senhora gosta de fazer em São Paulo, que lugares gosta de passear?

Dona Inah – São Paulo tem tanta coisa que dá até vergonha de falar… Agente conhece tanta coisa lá fora e não conhece o nosso Brasil… não é só eu não. É todo o mundo, todo brasileiro, todo paulista, conhece lá fora, conhece museu, mas aqui dentro não conhece nada. E tem muita coisa boa aqui em São Paulo. Catedral, museus, enfim… Você conhece tanta coisa lá fora e aqui não conhece nada. Então a gente tem que dar valor ao que tem. Apesar de que eu também não conheço, conheço pouca coisa aqui em São Paulo. Tem tanto lugar bonito pra se conhecer em São Paulo, no Brasil também. Só quer conhecer lá fora, tem que conhecer o Brasil.

Eduardo Gudin, por Jefferson Dias
Eduardo Gudin em seu escritório em 2011. (Crédito: Jefferson Dias/Gafieiras)

Seleção musical | Dona Inah

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Faixa 01 “Ilha do Mel” (Raul de Souza), por Raul de Souza

Faixa 02 – “Balada 45” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Arthur Verocai

Faixa 03 – “Sweet Lucy” (Raul de Souza), por Raul de Souza

Faixa 04 – “Balanço Zona Sul” (João Donato), por Raul de Souza e Robertinho Silva

Faixa 05 – “Rio Loco”

Faixa 06 – “Don’t ask my neighboors”

Faixa 07 – “Banana tree”

Faixa 08 – “Piano na Mangueira” (Tom Jobim), por Raul de Souza

Faixa 09 – “Bossa eterna”

Faixa 10 – “Lugar comum” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Robertinho Silva

Expediente

Entrevista realizada em 11 de agosto de 2007 no Bar do Cidão, em Pinheiros, São Paulo/SP.

Entrevistada: Ignez Francisco da Silva (Dona Inah) (17/mai/1935, Araras/SP – 08/ago/2022, São Paulo/SP)
Equipe entrevistadora:
Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Manoela Ziggiatti, Max Eluard e Ricardo Tacioli
Produção, transcrição e edição de texto: Ricardo Tacioli
Texto de abertura: Ricardo Tacioli
Fotos: Jefferson Dias
Registro sonoro: Daniel Almeida
Registro audiovisual: Max Eluard
Agradecimentos: Cidão e Marco Bailão

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