Parceiro de Adoniran Barbosa e Paulo César Pinheiro, ele é referência do samba paulista.
SÃO PAULO, fevereiro de 2003
Se o campo estivesse ali, teria um rio correndo tranquilamente. Árvores, uma cerca ao longe. Mas ali não era sítio verde e sim uma vila na cidade. Vila Dionízia, zona norte de São Paulo, onde casas cor de tijolo e cimento tomaram conta de todos os morros e o verde virou gente. No meio de todo aquele campo submerso, em uma casa grande com varanda ampla, bichos e um estúdio, foi onde entrevistamos as Irmãs Galvão. Hoje em dia, As Galvão.
De papo em papo, Marilene e Mary foram se mostrando tão artistas quanto vivas, tão bem resolvidas quanto afinadas, tão alegres quanto irmãs. Uma completa a Dafne Sampaio/Gafieiras frase da outra e a outra tira sarro da uma. Algum trauma por perder a infância e a juventude no mundo artístico? A mídia não dá valor à música caipira? Nada disso, tanto o trauma quanto a mídia foram inventados de pouco tempo para cá. Talvez um tenha inventado a outra, ou vice-versa. O certo é que o Chico Mineiro continua morrendo em muitos lugares e As Galvão seguem cantando as tristezas e alegrias dos grandes campos brasileiros. É neste mundão grande sem porteiras que sua música sobrevive.
Mas o tempo vai comendo os minutos, depois as horas, junto com o café, a água e o suco. O dia acaba. Histórias de rádio, campo, circo, fãs enciumados, cidade, sucessos no exterior, os avós de Sandy e muitas outras prosas. A noite começa natural como elas, que fazem uma música onde o violão e a sanfona podem ser a ingenuidade e a esperteza dos interiores do Brasil, mas ninguém pode dizer quem é o quê.
Chalana vai, catira vem e a entrevista acabou, mas não a conversa. Descemos as escadas e passamos por prêmios e fotografias. E então o convite: vamos até ali comer um churrasquinho de gato e tomar uma cerveja? Impossível recusar, mas a cerveja ia ter que ficar para próxima. Alguns de nós, os mais valentes, tinham compromisso futebolístico e, afinal de contas, é sempre com a marvada pinga que nóis se atrapaia. E foi ali no fim da Rua Fernando Pessoa, nublada pela fumaça que saía do churrasquinho de esquina, que nos despedimos de Mary e Marilene. Os que foram jogar tomaram uma sova. Os que não foram sentiram. Mas todos foram dormir nesta noite lembrando de uma conversa cheia de carinhos e risadas. E o sono foi bom.
por DAFNE SAMPAIO
01. “É preciso morrer pra vender discos no Brasil!“
02. “Iríamos ao Rio tentar um contato com Francisco Alves“
03. “Todo mundo tinha o pé na bosta, mas ninguém queria ser caipira“
05. “Participamos de um festival da Rádio Record“
06. “Vamos ao supermercado sentir a audiência do programa?“
07. “Só a mídia não viu Tião Carreiro & Pardinho“
08. “A Jovem Guarda acabou com tudo? Nada! O público fiel continuou“
09. “Viemos de SP pra gravar e vocês não vão nos gravar?“
10. “Participamos de um único filme. Chamava-se A vaca foi pro brejo“
11. “Vamos casar, mas você não canta mais“
12. “Fomos alertadas para não irmos à festa de premiação do Grammy“
13. “Fomos revelação do 4º Centenário de São Paulo“
14. “Um dos nossos sonhos é gravar com a Rita Lee“
15. “Fizemos um disco com músicas do Baden, Raul, Cartola e Chico“
16. “Em 1954, um astrólogo disse que faríamos sucesso na 3ª idade“
17. “Um fã pagou R$ 400,00 por um LP nosso“
18. “O Zeca Pagodinho é uma das coisas mais honestas“
19. “O Daniel e o Chitãozinho & Xororó têm uma postura fantástica“
20. “A música caipira ainda canta o homem do campo“
21. “Vamos mudar o rumo dessa prosa?“
22. “Pelo amor de Deus, parem de se beliscar e cantem sério!“
23. “Vocês vão ver duas velhinhas assanhadas“
24. “O Geraldo Meirelles foi um pioneiro da TV brasileira“
Ricardo Tacioli | Quando o disco Nóis e a viola foi gravado?
Mary | Esse disco foi lançado no fim de 2002. Agora estamos preparando um novo repertório, se bem que já temos umas 8 músicas gravadas. Quando a gente faz um disco, aproveita e grava mais músicas do que entram.
E vocês já estão fazendo o show desse disco?
Mary — A gente começa a fazê-lo agora.
Tacioli — Mesmo com um disco engatando no outro?
Mary — É sempre assim. Caipira não pára nunca. Todo mundo acha que a nova música sertaneja abafou o caipira.
Marilene — Quem quer café?
Mary — Abafou nada. O público de música raiz é sempre o mesmo. Está sempre presente. Nunca atrapalhou nada. Agora, dizer que o pessoal de música raiz não está na mídia… Nunca estivemos. Nunca! Vocês já ouviram falar em Tião Carreiro & Pardinho fazendo programa na Globo? Nunca fizeram.
Max Eluard — E os programas que existem, ou existiram, eram sempre muito segmentados, como o Viola Minha Viola, o do Rolando Boldrin…
Mary — É, o do Boldrin, o Som Brasil. Eles também foram acabando. Só o Viola Minha Viola permanece.
Max Eluard — Você estava falando que a música sertaneja tem um público cativo.
Mary — Tem.
Max Eluard — Mas esse público está se renovando?
Mary — Está. Pra nós, esse boom da música sertaneja, da moderna música sertaneja, foi ótimo. Primeiro, porque abriu portas. A música sertaneja era tida assim… carac… carica… [engasga]
Marilene — Caracterizou?
João Paulo Pereira — Caricatural?
Mary — Obrigada. [risos] A música sertaneja sempre foi uma gozação na música brasileira. Então, não havia abertura. O que nós tínhamos pra trabalhar? Circo. Quando a televisão chegou, os circos acabaram. Aí ficamos restritos as feiras e festas de aniversário de cidades, e a algumas casas que ainda mantêm shows de música sertaneja. Mas, de repente, o jovem, o universitário, quis saber a origem da música sertaneja. Então, foi preciso haver toda essa revolução. Acham que é revolução, mas essa semana mesmo estava ouvindo um disco nosso gravado há 40 anos. Pensei, “Olha que gozado! Eles acham que estão fazendo coisa nova! Música romântica!” Cascatinha & Inhana já faziam, nós fazíamos. Mas não havia abertura na mídia, nas televisões. Nas rádios só havia os horários das 6 da manhã ou depois das 10 da noite. Então, essa nova música abriu tudo isso, promoveu uma grande abertura.
Max Eluard — E como vocês são referências para esses novos sertanejos, acaba surgindo trabalho para vocês.
Mary — Com certeza, somos referência.
Tacioli — Mas por onde, por quais meios esse público jovem descobriu a origem da música sertaneja?
Bara — Curiosidade, mesmo.
Mary — É, curiosidade em saber a origem de tudo isso. De repente, está ouvindo essas músicas de agora e o avô dele fala: “Eu ouvia Cascatinha & Inhana, as Irmãs Galvão, o Tonico & Tinoco”. E o que o jovem canta no fim de uma festa? “Cabocla Tereza”, “Moreninha linda”…
Marilene — “Menino da porteira”.
Mary — Pode prestar atenção. Na festa pode estar rolando pagode, rock, mas no fim da festa quem se junta canta-se música de raiz. Então eles tiveram curiosidade em saber de onde vinha isso. E quando eles procuraram, depararam com quem? Nós, Zico & Zeca, Liu & Léo, Pedro Bento & Zé da Estrada.
Marilene — Zilo & Zalo. [n.e. Dupla formada pelos irmãos Aníbal e Belizário Pereira de Souza, de Santa Cruz do Rio Pardo]
Tacioli — Então o momento não é tão ruim assim para música sertaneja e caipira?
Mary — Não, não.
Tacioli — Há uma contraposição entre essa ascensão dos novos sertanejos com o pessoal da velha guarda, apesar do Chitãozinho & Xororó já estarem há 30 anos. E você está falando justamente o contrário, de que o surgimento deles não teria enterrado ou afastado o pessoal de música de raiz.
Mary — É, abriu portas, com certeza. Deu mais chances… [dirige-se ao fotógrafo] Quer que a gente se junte mais?
Dafne Sampaio — Mais um pouquinho, sim.
Mary — Abriu portas. A música sertaneja não morreu, tanto que continuamos fazendo shows. O Pedro Bento & Zé da Estrada também… o Tião Carreiro! O maior vendedor de discos, até mesmo depois de morto… Se bem que no Brasil precisa morrer pra vender discos. [risos] Pra nós, continuou a mesma coisa. A música sertaneja nunca teve mesmo um boom na mídia… Na nossa época não existia nem a palavra mídia. Foi inventada há pouco tempo. Aliás, precisa saber quem foi que inventou essa história da mídia. [risos] Quem fazia sucesso fazia porque era bom mesmo. Era o povo que elegia. A gravadora não fazia sucesso de ninguém. Tanto que, pra gravar, precisava cantar a música no rádio durante um ano, e essa música era escolhida por cartas… [toca um celular] É o seu, Bara!
Daniel Almeida — É a mídia! [risos]
Mary — É a mídia. Nós agora estamos sendo solicitadas pra cantar em faculdades, porque estão fazendo um trabalho sobre nós. Em São José do Rio Preto… Juntaram três faculdades… Já fizeram um trabalho maravilhoso sobre o Vieira & Vierinha [n.e. Dupla de catireiros de Itajobi, SP, formada por Rubens e Rubião Vieira], que é uma dupla mais raiz ainda… E agora nós é que vamos fazer shows lá, para três faculdades. Então, a curiosidade dos jovens está descobrindo as jovens senhoras. [risos]
Max Eluard — Quando vocês começaram, como as músicas eram aprendidas?
Marilene — Aprendíamos em casa mesmo, porque com 5, 7 anos, não se tinha outra escola.
Mary — Havia vitrola de corda, 78 rotações e o pai e a mãe cantavam…
Max Eluard — Vocês tinham rádio em casa?
Marilene — Tínhamos. Papai era ouvinte de rádio, era bem informado, principalmente das coisas do Rio de Janeiro. O que mais se ouvia era a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Então, começamos a cantar ouvindo as coisas lá de fora. Morávamos numa cidade muito pequena. Papai e mamãe cantavam, não eram profissionais, mas cantavam. Papai era alfaiate e mamãe trabalhava com ele. Tudo acontecia ali. No fim da tarde, os músicos da cidade, que eram uma meia dúzia somente, iam para a nossa casa. Então, encerrava-se aquela tarde cantando e ficávamos ali ouvindo, naturalmente.
Mary — Era época do rádio, não havia televisão. Então o povo gostava, amava fazer serestas, cantar de porta em porta, de janela em janela. O cachorro corria atrás, mas havia sempre aquele cafezinho. E nós, pequenininhas, acompanhávamos.
Tacioli — E o que se cantava?
Marilene — Não era música sertaneja.
Mary — Ouvíamos muito os seresteiros. Francisco Alves, Orlando Silva, Silvio Caldas, Emilinha Borba.
Marilene — Que eram os grandes nomes da época, né?
Mary — A primeira vez que cantamos em rádio… O sucesso da época era um tango argentino…
Marilene — E nós cantamos o tango argentino. Não sabíamos nem o que estávamos falando. [risos]
Mary — Ela tinha 5 anos.
Marilene — O pai falava, “É isso!”, e a gente falava, né? [risos]
Mary — E eu tinha 7.
Tacioli — Qual era o tango?
Mary — Quer ver? [cantam] “La ultima noche que pasé contigo / Quisiera olvidarla pero no he podido / La ultima noche que pasé contigo / Hoy quiero olvidarla por mi bien” [risos] [n.e. “La ultima noche”, bolero composto pelo cubano Bobby Collazo e lançado, com muito sucesso, em 1946, por Pedro Vargas] Dá pra imaginar duas menininhas cantando “La ultima noche que pasé contigo”? [risos] É ridículo.
Marilene — Era a cabeça do pai, né?
Mary — Mas era o sucesso da época, então tínhamos que cantar. E é uma música belíssima, um tango belíssimo.
Almeida — Mas seus pais devem ter enfrentado barreiras para investir em vocês?
Mary e Marilene — Muitas.
Mary — A primeira grande barreira que papai enfrentou foi a família. A gente tem conhecimento de uma carta escrita por uma irmã do nosso pai, quando soube que ele nos levaria para São Paulo pra tentar a vida profissional. “Onde se viu fazer isso com duas crianças! Levando pra vida!” Isso não era certo, levar pra vida! Podíamos nos transformar em prostitutas. Era isso o que ela queria dizer.
João Paulo — Era muito comum essa associação entre os artistas e “a vida”.
Marilene — Ah, sim.
Mary — Qualquer artista, teatro, música, circo, qualquer coisa. Falou artista era mulher da vida.
Tacioli — O que o levou a acreditar tanto na carreira artística de vocês?
Marilene — Confiança.
Mary — A gente já devia cantar bonitinho. [risos] Quem ouvia a gente… Eu me lembro de nós, pequenas, cantando… Eu olhava e havia gente chorando. Que esquisito! Outro arrepiava. Então, as pessoas que ouviam as menininhas cantando, falavam, “Ah, Seu Galvão, precisa levá-las pra São Paulo”… Não, Rio de Janeiro na época. Tanto que papai planejou vir primeiro para São Paulo porque tínhamos parentes, e daqui iríamos para o Rio tentar um contato com Francisco Alves. Ele estava com um sucesso na época com crianças cantando, né? “Criança feliz” [n.e. Também conhecida como “Canção da criança”, composição de René Bittencourt e Francisco Alves]. E o papai, na cabecinha dele, achava que…
Max Eluard — Ele fez a associação, né?
Mary — … Se nos levasse até o Francisco Alves, tudo se resolveria.
Max Eluard — As portas se abririam.
Mary — Chegamos no Rio em julho de 52. Em agosto ele faleceu. Mas o papai não perdeu a esperança, não. Quando viemos do interior, como tinha certeza de que ia ficar em São Paulo, passou pra se despedir dos parentes. Assim, passamos pela Rádio Difusora de Assis, onde já havíamos cantado dois, três anos antes. Lá estava Miguel Leuzzi, dono da Rede Piratininga de Rádio. Naquela de se despedir, chamaram-nos pra fazer um especial de meia hora e ele nos ouviu. “Ah, quem é?” “As Irmãs Galvão, que estão indo pra São Paulo”. Aí ele fez uma carta de apresentação pra Rádio Piratininga de São Paulo. Nós viemos assim, já com uma carta de apresentação do chefão.
Max Eluard — Vocês falaram que não começaram cantando sertanejo, mas como a música sertaneja entrou na vida de vocês?
Marilene — Já foi aqui em São Paulo.
Mary — Não, não.
Marilene — Quero dizer, o papai ouvia…
Mary — Tinha seresta, mas já existia Raul Torres & Florêncio [n.e. Dupla formada em meados dos anos 40 por Raul Montes Torres e João Batista Filho. Entre os sucessos destaca-se “Moda da mula preta”], que tinham programa em São Paulo. Todo o interior ouvia! Já havia Tonico & Tinoco [n.e. Uma das mais importantes duplas da música caipira, formada pelos irmãos João e José Perez, atuou dos anos 1940 aos 1990]. A música sertaneja cresceu muito nessa época, porque mesmo no interior não se escutava música sertaneja. Eles tinham aquela coisa, ninguém queria ser caipira. Todo mundo tinha o pé na bosta [risos], mas ninguém queria ser caipira.
Almeida — E quem percebeu isso? Vocês notaram que poderia haver público ou foi uma coisa pessoal?
Marilene — Acho que foi o papai mesmo.
Almeida — Ele que percebeu que ali havia um nicho…
Mary — Foi ele quem percebeu, porque a música, a seresta, era solo, e a sertaneja era em dupla. Se bem que comecei cantando sozinha.
Marilene — Fui eu que atrapalhei a carreira dela. [risos]
Mary — Ainda bem que ela reconhece.
Marilene — A pochete dela sou eu… Pra não dizer mala. [risos]
Mary — Comecei sozinha cantando essas músicas de sucesso da época. Foi quando começamos a ouvir música sertaneja. Eu estava ensaiando a música que cantaria no domingo seguinte e ela entrou cantando em dueto. Não foi uma coisa assim, “Vamos fazer uma dupla?”. Foi espontâneo. Aí o pai chorou, a mãe chorou…
Almeida — Você lembra por que você entrou?
Mary — De xereta! [risos]
Marilene — Por que entrei? Acho que, sei lá, uma intuição mesmo, coisa de criança. Estávamos lavando louça, né, que a mãe falou…
Mary — É, sabe aquela coisa assim…
Marilene — … As duas brincando, sei lá.
Tacioli — Vocês estavam em casa!
Marilene — Em casa, e o papai na alfaiataria. Aí eles ouviram. Papai até estranhou, “Seria a Mary sozinha?” Foi aí que sentiram que estava nascendo uma dupla.
Tacioli — Mas o pai de vocês tinha essa ambição artística?
Marilene — Tinha. A família do papai toda era de teatro.
Mary — As irmãs… Teatro amador, né? Todos eles tinham uma veia artística muito forte.
Tacioli — Mas ele alguma vez tentou carreira no rádio ou no teatro?
Mary — Não.
Marilene — Teatro do interior. No fim, ninguém saiu de lá mesmo.
Mary — E ele, naturalmente, vindo de uma coisa artística de família, viu a chance. Nem perguntou se queríamos. [risos]
Tacioli — E você se lembra de qual era a música que você estava ensaiando?
Mary — Era essa, “La ultima noche”. Foi o tango. Aí, naquele domingo em que deveria cantar sozinha, já fui em dupla. Cantamos essa música no rádio…
Marilene — Havia outra… [cantarola] “Quando estou nos braços teus”…
Mary — Ah, “La vien em rose”!
Marilene — Mas em português, né?
Mary — O pai era… [as duas cantam] “Quando estou nos braços teus / Então aos olhos meus / A vida é cor-de-rosa / Tua voz a murmurar me leva a palmilhar / A estrada luminosa”… E a mamãe nos pôs em vestidos cor-de-rosa. [risos]
Marilene — Legal.
Mary — É, “La vie em rose”. Nós já éramos metidas naquela época. [risos]
Tacioli — E de quando é a gravação mais antiga de vocês?
Mary — De 1954, em um disco de 78 rotações. Viemos para São Paulo em 1952, ficamos cantando um ano na Rádio Piratininga, depois fomos pra Rádio…
Marilene — Sabe quem apresentava na Rádio Piratininga? O Salomão Esper, que faz o jornal da Rádio Bandeirantes hoje em dia. Ele era quem apresentava o programa, o primeiro que fizemos em São Paulo.
Mary — Aí passamos pra Rádio Nacional, no programa que fazia a ronda dos bairros. Já imaginou a glória? Nós cantando com aquelas estrelas do Rio de Janeiro… Cauby Peixoto…
Max Eluard — Quantos anos vocês tinham?
Mary — Eu tinha 12, e ela tinha 10.
Mary — Aí, nós chegamos. Foi aquela coisa, sabe? Aqueles que a gente ouvia no rádio, lá no interior, que achava que nem existia! Não havia televisão, cinema, não tinha nada. Olha, que atraso! [ri] Mas que coisa boa, era lindo! Aí, de repente, a gente se vê cantando com o Cauby Peixoto, Emilinha Borba [n.e. Cantora carioca nascida em 1923 e uma das rainhas do rádio nos anos 1950]… Brigamos tanto por causa da Emilinha. Eu era a Emilinha e ela, a Marlene. [risos] [n.e. Rixa criada na década de 1950 pelos fãs das duas cantoras por conta da disputa do trono de Rainha do Rádio] Quem mais? A Dalva de Oliveira, o Trio de Ouro [n.e. Grupo formado por Herivelto Martins, Raul Sampaio e Lourdinha Bittencourt, estes dois últimos substitutos de Francisco Sena e Dalva de Oliveira]. Nossa! A gente está lembrando umas coisas que vocês nunca ouviram falar…
Todos — Já sim.
Marilene — Eles são informados.
Mary — Foi maravilhoso. Cada um que chegava a gente ficava assim [boca aberta]… Havia a Adelaide Chiozzo e a Eliana que também faziam cinema. Eram as únicas coisas que a gente conhecia, por causa do cinema.
Max Eluard — Em algum momento vocês tiveram medo de se deslumbrar demais com aquele mundo todo?
Marilene — Não.
Mary — Não.
Max Eluard — Era o pai de vocês que ajudava nisso?
Marilene — Sim, sempre.
Mary — Olha, sempre fomos tão ingênuas! Nunca tivemos essa coisa de querer fazer sucesso. Nós viemos e cantamos. Acho que até hoje. [ri] Nós nos preocupamos em cantar, fazer um show legal, com roupas legais. Uma apresentação bonita. Nunca nos preocupamos com o sucesso. O que é o sucesso?
Tacioli — O pai de vocês é uma referência muito importante. E a mãe? Como foi? Teve algum momento em que ela brecou?
Mary — Não. Aliás, a mãe foi uma coisa assim tão maravilhosa.
Marilene — É ainda hoje.
Mary — No momento que estávamos aqui, em 52, não foi fácil. Não foi porque trouxemos aquelas cartas que as portas se abriram. Primeira barreira: éramos crianças. Segunda barreira: mulheres. Então, o papai teve que batalhar e não tinha tempo pra trabalhar como alfaiate. Tinha que cuidar de nós e nos levar para as apresentações, fazer testes, gravação. Batalhou muito. E houve um instante em que ele pensou em desistir. A família passando por grande dificuldade e ele chegou e falou: “Arruma as malas que nós estamos voltando!”
Almeida — Quando foi isso?
Mary — Foi em 52.
Almeida — Ah, logo que chegaram.
Mary — Foi um ano de luta, de batalha, mas ele precisava que a gente ganhasse alguma coisa e estava muito difícil. Entrava um cachêzinho ou outro quando a gente cantava em circo, mas a família… Éramos cinco irmãos, todos pequenos, e a mãe foi aquela guerreira. “De jeito nenhum”. Procurou um amigo de infância que era deputado em São Paulo. Aí conseguiu uma carta de apresentação pra que ele arrumasse um emprego. Então, se nós ficamos, devemos a ela.
Tacioli — Quem era esse deputado?
Mary — Cunha Bueno, o velho Cunha Bueno. [n.e. Antonio Sylvio Cunha Bueno]
Marilene — É de Palmital, família de lá.
João Paulo — Ele é parente da irmã da minha avó.
Marilene — Ah, é? Ele é nascido lá em Palmital.
Mary — Ele foi colega de escola do meu pai. Quando a gente morava em Palmital, Assis, ele sempre passava pra cumprimentar o papai. E em São Paulo, a mãe falava pra gente ir lá visitá-lo. Aquela dificuldade…
Marilene — E nos aniversários do Cunha Filho, íamos muito na casa deles.
Mary — Era um tempo de macarrão com sardinha, porque não tinha outra coisa. [risos] Às vezes, não tinha óleo, pimenta, e lá vinha o macarrão com sardinha. [risos] Mas foi o macarrão com sardinha que segurou a gente.
Max Eluard — E a escola? Como é que ficou com tudo isso?
Mary — Quando nós viemos eu já tinha tirado o diploma de grupo escolar, com 10 anos…
João Paulo — Até a 4ª série, né?
Mary — É. Aí a Marilene estava na 2ª série.
Marilene — Terminei aqui em São Paulo. E não fizemos mais nada.
Mary — Mais nada. Fizemos somente o grupo escolar, até a 4ª série.
Almeida — Vocês nunca sentiram falta dessa vida que uma criança de 10 anos tem?
Marilene — Eu não sei. Não deu tempo pra pensar porque a gente trabalhava muito. Fazíamos muitos shows na época… Quando as coisas começaram a melhorar passamos a trabalhar bastante. Então, não tivemos tempo de pensar.
Mary — Tínhamos que fazer shows, porque a família já dependia de nós. Começamos a ter projeção aqui em São Paulo. O papai descobriu esse filão de fazer shows em circos. Então, trabalhávamos quase que a semana toda. A nossa vida foi assim. A gente não tinha muito tempo pra pensar. E outra coisa, não existia nessa época o trauma. [risos] Não existia mesmo!
Almeida — Isso é recente! [risos] É coisa de agora.
Dafne — Veio junto com a mídia! [risos]
Mary — Estresse? Imagina! Você tá falando de escola e como é que a gente fazia. Lembro de quando íamos fazer circo, pegávamos bonde… O último bonde era o da meia-noite, e chegávamos em casa à 1 hora da manhã, 1 e meia… Quando dava 7 e meia da manhã, essa aqui entrava na escola. Então, tínhamos que acordar cedo… E não me lembro de ouvir, “Ah, estou estressada hoje”. Não, não tinha.
Almeida — Perguntei porque vocês estavam indo ao circo pra trabalhar e não pra ver os palhaços.
Marilene — É.
Mary — Na nossa adolescência, por exemplo… Íamos aos bailes pra cantar e ficávamos lá no fundo, só olhando. A gente gostaria de estar lá, mas já éramos artistas.
Tacioli — Mas vocês sentem falta dessa infância que foi atropelada pela carreira?
Marilene — Olha, se nós paramos pra pensar, pra falar disso, foi por muito pouco tempo. Então, em alguns lugares que fomos marcaram mais do que uma amizade, um namorinho. Mas de parar pra pensar: “Poxa, perdemos nossa juventude”. Não paramos pra falar. Só falamos de carreira. Não sei, acho que não sentimos muita falta, né, Mary? Ou sentimos?
Mary — Ou sentimos, mas não tivemos tempo, a gente trabalhava muito.
Max Eluard — A carreira compensava.
Mary — Também.
Marilene — E outra coisa, nós tínhamos a família junto. Foi uma luta incrível e, pra nossa cabeça, era uma compensação para os sacrifícios que eles passaram por nossa causa. A emoção da família, aquela mesa. Temos uma música que fala disso, do Carlos Cola. Chama-se “A mesa”… [as duas cantam] “A mesa enorme / As crianças em volta / Meu pai, minha mãe, minha vó, meus irmãos”.
Mary — Poxa, quando ele mostrou essa música a gente chorou.
Marilene — É, pra gravar isso foi difícil, a gente começava a cantar e chorava, não conseguia terminar. Era exatamente o que vivíamos em casa, aquela mesa imensa. Quando acabava a refeição, o papai ficava fazendo mágicas. Então, a gente lembra disso com saudade. A cabeceira da mesa era dele e a falta que faz é incrível. Vinte e tantos anos que ele faleceu e até hoje, quando nos reunimos, a gente sente falta da presença dele. Então, fomos mais família do que qualquer outra coisa. Nós vivemos a nossa família, nosso irmãos.
Mary — Não tínhamos essa preocupação de bailinhos, essas coisas… Se bem que essa daqui! [risos]
Marilene — O que é que eu fiz? [risos] Eu não sei.
Mary — Os bailinhos de garagem, cê gostava, né?
Marilene — Ah, mas tinha essas coisas… Quando não tinha apresentação, aquela coisa de 14, 15 anos, alguém chamava para um bailinho… Mas não era nada demais.
“Só a mídia não viu Tião Carreiro & Pardinho!”
Max Eluard — E que outras coisas vocês gostam de fazer além de cantar?
Marilene — Fora cantar? Cantar. [ri]
Mary — É engraçado. Quando vamos a uma festa, as pessoas nos pedem o quê? Pra cantar. Se vai para um lugar tem que estar disposta a cantar, porque se não estiver bem, é melhor nem ir. Então a gente se fala antes pra saber quem está no pique e tal. Aí vai até um desabafo… A família não nos vê como pessoas normais. Se tem uma festa… “Olha, mas traz a sanfona e o violão”. [risos] Nunca falam, “Vai ter uma festa, mas fiquem tranqüilas, não precisam cantar, não”. Então, não tem jeito, a nossa vida sempre foi em torno de música, em torno da carreira. Aí casamos, ficamos grávidas juntas. O filho dela tem 22 dias de diferença da minha.
Tacioli — Rolou uma combinação?
Marilene — Foi surpresa mesmo. [risos]
Mary — Nós continuamos cantando. Essa aqui levava o filho enroladinho num cobertor e deixava no carro. De vez em quando, a gente ia lá, dava uma olhadinha. Procuramos diminuir o número de apresentações na época para que eles crescessem, mas assim que criaram asas, ói nós na estrada outra vez. [risos] E o engraçado de tudo é que nada disso foi planejado. Nada. Nossa vida na infância, nossa juventude, o casar, o ter filhos, dar um tempinho para que eles crescessem um pouco. Ficamos afastadas por uns 6 anos, mais ou menos, cantando um pouco em televisão, mas sem gravar…
Tacioli — Quando foi isso?
Mary — Nossos filhos nasceram em 1968. Durante seis anos procuramos não fazer muita coisa. O engraçado é que o nosso fã, o fã de música sertaneja, não sentiu essa nossa ausência. Os nossos discos continuaram tocando, algumas notícias… Somente depois de seis anos, quando perceberam que a gente não ia mais em televisão também, é que começaram a cobrar… e cobrar das próprias produções dos programas. Foi assim que voltamos.
Marilene — Participamos de um festival na época.
Mary — Era um festival da Rádio Record…
Marilene — Arizona.
Mary — Não, Arizona, não. Arizona era outro. Era o Festival de Música Sertaneja da Rádio Record, da Linha Sertaneja Classe A. O Arizona era um festival que rodava o interior patrocinado por uma marca de cigarros. Nós fazíamos o encerramento do festival. Quando voltamos, depois desse tempo dos filhos, fomos fazer um programa de TV na Record e o José Fortuna e o Carlos César tinham uma música… Gente, é uma das coisas mais lindas já feitas em música sertaneja. Chama-se “Riozinho”. Eles descrevem um fio d’água, o caminho daquele rio que alimenta os animais, as borboletas, a saudade que vai naquele rio… É lindo, maravilhoso. Aí eles nos mostraram. Nunca havíamos participado de festival nenhum e tínhamos um pouco de medo, sabe? Que essas coisas, a gente sabe que…
Tacioli — Vocês acompanharam os festivais da época?
Mary — Da Record. E ficamos com um pouquinho de medo, mas quando ouvimos a música, ai… Essa não é música pra ganhar o primeiro lugar, mas é uma música pra ficar. Nós entramos, demos o melhor e ela pegou o primeiro lugar.
Marilene — Foi lindo.
Tacioli — Em que ano que foi?
Marilene — 79.
Mary — Aí não paramos mais…
Tacioli — Como era a música?
Mary e Marilene — [cantam] “Meu rio pequeno / Braço líquido dos campos / Rodeado de barrancos / Corroído pelos anos / Vai arrastando folhas mortas de saudade / Pôr-do-sol de muitas tardes / Ilusões e desenganos”
Mary — Gente, é uma coisa, é comprida…
Marilene — É linda.
Mary — Nunca conseguimos decorar essa letra inteira. [risos]
Marilene — Dá uns cinco minutos no disco.
Mary — Quase 7!
João Paulo — É grande mesmo.
Mary — Nunca mais cantamos essa música, mas é uma obra-prima. Ganhou o primeiro lugar, né?
Almeida — Vocês se sentiam estrelas antes do casamento? Havia assédio? Tudo bem, a TV estava muito no começo, outra dimensão perto de hoje em dia, mas vocês chegaram a sentir isso?
Mary — Não. Nossa vida sempre foi normal. [risos] É, mesmo porque essa história de assédio é de um tempo pra cá. O público mudou, esse público jovem mudou. Ele é mais afoito, mais atrevido. Na nossa época, não, porque o público via o artista mais distante. Não sabemos explicar…
Max Eluard — Um ídolo mesmo.
Mary — Eles tinham o artista… Não havia essa “passação” de mão, não! [risos] Essas coisas…
Marilene — Que pena! Perdemos esse tempo. [risos]
Mary — Um dia nós reclamamos. A gente ouve, “Ah, passaram a mão na minha bunda”, mas na nossa ninguém passou! [risos] Sabe aquelas coisas?
Tacioli — Mas existia essa relação de ídolo com algum artista de música sertaneja?
Mary — Tinha. Cascatinha & Inhana.
Marilene — Tonico & Tinoco.
Tacioli — Causavam alvoroço?
Marilene — Eles eram homens bonitos, né?
Mary — Mas era aquela coisa. Elas sabiam que os artistas iam chegar na cidade. Então, ficavam mais ou menos perto do hotel. Ficavam as famílias, vinham o casal e os filhos, e esperavam a oportunidade. Lembro da gente chegando. Dava pra saber se havia um pessoal esperando a gente, mas ele se mantinha longe. Então esperava a gente guardar as malas… Daqui a pouco as pessoas vinham conversar com o porteiro do hotel pra saber… E sempre conversávamos, sempre fizemos assim. Nunca deixamos o fã naquela posição de “depois a gente vê”.
Marilene — Absolutamente.
Mary — Nós sempre tivemos o maior respeito. Até hoje. Nós adoramos ir ao supermercado. [risos] Um dia depois que fizemos o programa do Jô Soares, liguei pra ela, “Vem pra cá! Nós vamos ao supermercado”. [risos] É uma graça, uma delícia, principalmente aquelas senhorinhas que abraçam e geralmente tiram meu pescoço do lugar. [risos] Às vezes, apertam tanto… Aí vem, abraçam, é uma delícia. O programa da Inezita Barroso então… Ela vem pra cá, “Vamos no supermercado? Vamos sentir a audiência do programa?” [risos] É assim, e toda a nossa vida foi assim. Os jovens que se aproximavam de nós tinham sempre um pai muito bravo por perto. Tivemos sempre muito cuidado, muito respeito por nós mesmas. Nunca fomos meninas assim… foguetas. Essa época de ficar é de hoje.
Tacioli — É novo.
Almeida — É da época da mídia. [risos]
Mary — Tem a mesma idade da mídia.
João Paulo — É filha da mídia.
Mary — É, mas se a gente nascesse agora… [risos]
Tacioli — Mas vocês, como nós, assistiram ao surgimento desses novos artistas jovens da música sertaneja, como Sandy & Junior. Vocês chegaram a se ver nesses artistas mirins?
Mary — Existe muita identidade, principalmente em Sandy & Junior. Nós fomos amigas dos avós deles, o Zé do Rancho e a Mariazinha. Gente, eles eram artistas que vocês não fazem idéia. Quando eles entravam no palco… Quando fazíamos shows juntos, a gente pedia pra nos botar primeiro. [risos] Sabe aquela coisa de… Porque a Mariazinha era de arrasar. Arrasar mesmo!
Marilene — Tudo o que a Sandy faz agora é o que a avó fazia.
Mary — E era tão bonita quanto a Sandy. Então, quando vimos Sandy & Junior… Eu até hoje choro, né? Nós acompanhamos toda essa trajetória, dos avós, dos pais e agora dos filhos.
Marilene — Mas você sabe que nós, na idade em que estão a Sandy e o Junior, talvez nós não… É aquela coisa de não ter tempo pra pensar, mesmo porque na nossa época não existia a mídia [risos] e tudo o que fizemos foi com muito sacrifício. Então não existia…
Mary — … esse assédio do fãs.
Almeida — E nem essa estrutura que eles possuem?
Max — A malícia do negócio…
Mary — Não, não existia. Era natural, quase que um amador. Só era profissional porque já se fazia show, ganhava dinheiro e gravava discos. Mas ninguém tinha… Você imagina um Cascatinha & Inhana atravessar o Brasil e pouca gente saber a história deles! Tião Carreiro & Pardinho? Eles eram mitos e são endeusados até hoje. Eles foram uma grande escola, até no modo de colocar o chapéu. Só a mídia não viu isso.
Tacioli — E muita coisa se perde nisso?
Mary — Muita.
Tacioli — Vocês falaram das Irmãs Castro. Elas foram uma referência pra vocês?
Marilene — Foram, foram uma referência.
Mary — É, e as pessoas não sabem.
Marilene — Mas hoje a gente vai em show no interior e encontra com duplas que se formaram por nossa causa, usando o mesmo estilo de roupas. Fomos fazer show na cidade delas (das Irmãs Castro) e a mãe desenhou a roupa de acordo…
Almeida — Inspirada nas estrelas que estavam ali, né?
Marilene — Também, a gente não tinha nem bunda nem peito pra mostrar…
Mary — Ah, tinha! [risos] Ah, não, agora você vai me desculpar! [risos]
Marilene — Tinha, mas é que o pai não deixava. [risos]
Mary — Não dizem que toda bela tem um pai que é uma fera. [ri] Nós tivemos.
Marilene — Então a gente só cantava. Roupinhas… tudo certinho. Então, há duplas que se espelham no que fizemos… Tem dupla jovem aí que faz o que nós fazíamos. Até hoje, a nossa roupa é sempre muito discreta, né? Mesmo também porque hoje nós não vamos mostrar nada! [risos]
Mary — Agora não tem mais nada pra mostrar! [risos]
Tacioli — Quais são duplas que se inspiraram em vocês?
Marilene — Hoje tem Lady & Laura que cantam…
Mary — … bem sertanejo, né?
Marilene — As demais já usam mais, sem querer citar nomes aqui, viu? Mas é mais…
Mary — E sem criticar também porque a época é outra.
Marilene — É, a época é outra.
Mary — As duplas femininas se vestem de acordo com o tempo.
Almeida — Mas hoje em dia o Seu Galvão ia deixar vocês ficarem, sei lá, de bustiê ou com roupas decotadas?
Mary — Não, mas agora não é o Seu Galvão, é o marido! [risos] Mas acho que mesmo pela nossa formação não nos sentiríamos à vontade.
Max — Quando estourou o rock’n’roll e o iê-iê-iê vocês eram novas, adolescentes. Vocês se interessaram por esses gêneros?
Mary — Olha, não é porque nós somos da música sertaneja que a gente não acompanhou. Nós sempre ouvimos tudo. Elis Regina foi nosso ídolo, mas na época da Jovem Guarda só não ficamos gritando “Lindo!” porque já éramos artistas. Mas que dava vontade, dava. Roberto Carlos, Erasmo Carlos… Era uma festa pra nós. Então, acompanhamos tudo isso. Mas o legal é que mesmo nessa época de rock forte… A Jovem Guarda acabou com tudo? Acabou com nada! O público fiel continuou, nós nunca paramos…
Max — Mas vocês chegaram a cantar músicas da Jovem Guarda?
Mary — Cantamos.
Marilene — No show a gente cantava.
Mary — No show fazíamos um desafio entre a viola e o iê-iê-iê.
Almeida — Como era?
Mary — No desafio, ela (Marilene) defendia a viola e eu era a bonitinha, cabelinho compridinho, olho azul, que defendia o iê-iê-iê. Não lembramos mais dos versos, mas aí botávamos a platéia, metade pra lá, metade pra cá. A gente usava essas coisas pra trazer os jovens para o nosso espetáculo.
Almeida — Vocês sempre tiveram domínio de como iria ser o show? Ou isso ficava nas mãos do produtor?
Mary — Nós sempre tivemos, sempre cuidamos. Mas de uns 20, 22 anos pra cá, o Mário (Campanha) entrou na nossa vida. Aí o Mário virou nosso orientador, nosso guru…
Marilene — Nosso marido. [risos]
Mary — E eu tenho que escutar isso! [risos]
Marilene — Mas na hora de dormir é somente com ela. [risos]
Mary — Ainda bem! [risos]
Marilene — Na hora de dormir somente, porque quando acordado, está comigo! [risos]
Bara — Ah, essa besteira é nova. [risos]
Tacioli — Mas qual era o papel do pai de vocês? Ele participava da escolha do repertório?
Mary — Participava. Quando pequenas, ele trazia as músicas e a gente saía cantando.
Marilene — E a cada disco que saía a gente tinha que cantar a música que estava sendo executada com o trabalho.
Mary — Mas tudo era feito de comum acordo. Pra gravar…
Marilene — Nós sempre decidimos assim: temos um repertório pronto para o show, mas se chega lá e a primeira música não tem a reação que esperávamos, nós mudamos. Hoje, por exemplo, o Mário faz isso. Porque o nosso show é assim, bem pra cima. O público participa. Se, de repente, uma música não dá aquela reação, a gente muda a ordem.
Mary — E pra gravar, os compositores chegavam e a gente ouvia. Papai ficava sempre por trás, balançado a cabeça. Aí parava pra analisar e ver qual música a gente se sentia melhor. Paramos de cantar “La ultima noche”. [risos]
Tacioli — Qual foi a primeira música sertaneja que vocês gravaram?
Mary — Foi “Carinha de anjo”, uma música que achamos no interior de Minas Gerais.
Almeida — Como era?
Mary e Marilene — [cantam] “Carinha de anjo / Boquinha de rosa / Caipira formosa / Flor do meu país / Me dá teu beijinho / Me dá teu carinho / Não sai desse ninho / Me faça feliz”.
Mary — Bem do interior de Minas mesmo!
Tacioli — Quem eram os compositores?
Mary — Fábio Meribe e Castol Ianuzi.
Marilene — Eles eram de São Sebastião do Paraíso.
Mary — Do outro lado tinha uma versão que o Palmeira — o Diogo Muleiro — nos trouxe. Ele nos ouviu na Rádio Bandeirantes, onde fazíamos um programa, ao vivo, às 6h da manhã.
Tacioli — Que lembrança vocês têm dessa primeira gravação?
Mary — Tínhamos que ir ao Rio de Janeiro. Ai, que lindo ir para o Rio de Janeiro! Fomos lá gravar no estúdio da RCA Victor, porque o disco era da RCA… Até foi engraçado porque eles aproveitavam pra gravar uns 3 ou 4 artistas. Os homens gravaram primeiro. Palmeira & Biá, depois Nenete & Dorinho… Teve o Biguá declamando e nós ali, sentadas, o dia inteiro, esperando! Eles terminaram e o produtor, “Bom pessoal, vamos embora que acabou!”… E nós ali, não reclamamos de nada. Aí o técnico falou: “Tudo bem. Posso fechar tudo?” E essa daqui falou “Ah, dá licença, né? Nós viemos de São Paulo pra gravar e vocês não vão gravar a gente?” [risos] Aí, pra alcançarmos o microfone, tiveram que pegar uma caixa lá em um depósito, porque o microfone não chegava na nossa altura. Foi muito legal.
Marilene — E era feito com os músicos. Direto. Ensaiava-se ali na hora…
Mary — Não existia pro-tools. [risos]
Tacioli — E gravaram uma vez só?
Mary — Uma vez só.
Marilene — Não se podia errar, né?
Mary — Não podia errar. Os músicos ali, e a gente chegava e cantava. Cantamos bonitinho e saímos toda felizes para o Pão de Açúcar, pra festejar… Foi muito legal. Gravava-se dois discos por ano, então a cada seis meses íamos ao Rio. Ficou moleza pra nós. A gente já chegava com as músicas todas ensaiadas e era só chegar e gravar. Ficava uns dias no Rio. Não ia à praia porque o pai não deixava botar maiô! [risos]
Tacioli — Que história curiosa vocês têm dessa época em que vieram para São Paulo e começaram a fazer shows com os artistas de rádio?
Mary — Tem uma coisa que a gente lembra com saudade. Eliana e Adelaide Chiozzo eram nossos ídolos no cinema, né? E elas cantavam em dupla, cantavam “Beijinho doce” e outras músicas sertanejas. Pra nós era o supra-sumo do sucesso. E nós estávamos na época fazendo o Ronda dos Bairros na Rádio Nacional. E elas chegaram e viram a gente ali, pequenininhas, bonitinhas. Eu toco sanfona desde pequena e a Adelaide Chiozzo toca acordeão. Mas elas ficaram tão apaixonadas por nós… Ficamos assim, sabe aquela emoção, de ver, de repente, saindo da tela seu ídolo e te abraçar, quase pegando no colo… Foi uma das coisas que… [fala emocionada]
Almeida — Vocês nunca receberam convite pra fazer cinema?
Mary — Recebemos, sim. [risos]
Almeida — Segura que essa é boa. [risos] Senti que essa é boa.
Mary — Tivemos. [ri]
Marilene — Participamos de um filme. [ri]
Mary — E a vaca foi pro brejo. [risos] [n.e. Longa-metragem dirigido por José Adalto Cardoso e lançado em 1981]
Marilene — É o nome do filme! [risos]
Mary — É o nome do filme.
Dafne — Como e quando foi isso?
Mary — O nome do artista era…
Marilene — … Polêncio.
Mary — Ele fazia a linha do Mazzaropi. Aí ele fez o filme… Cascatinha & Inhana também cantaram no filme, e nós fomos lá…
Almeida — Mas conta como é que começou.
Dafne — Quando foi?
Mary — Foi na época do festival que ganhamos na Rádio Record. Esse Polêncio era assistente do Zé Bettio. Não me lembro bem se o Mazzaropi já tinha falecido, mas esse Polêncio fazia show em circo, mas bem naquele jeito do Mazzaropi. Então ele arrumou uma verba, um patrocínio, e resolveu fazer um filme. O nome do filme, E a vaca foi pro brejo. Era uma história lá do interior… Francamente não me lembro da história. Aí levamos a família toda pra ver nossa estréia no cinema. A estréia foi no Cine Olido, lá na Av. São João… Ah, banda na porta do cinema, telefona pra um, telefona pra outro, levamos a família inteira para a estréia do filme. Você nos viu? [risos]
Marilene — [risos] Não.
Mary — Quando eu me emocionei, que entrou aqui na tela, já tinha saído. Nós viemos assim cantando uma música… Era bonita, não lembro o nome, só sei que era um toada… Tinha uma história triste, um carro de boi e nós sentadas assim, atrás, no carro de boi, arrastando o pé e cantando a música, aquela música triste… Só que entrou aqui na tela [aponta para o que seria o lado esquerdo da tela], saiu o boi lá e nós fomos junto [risos]… E a vaca foi pro brejo… [risos] Essa foi nossa experiência no cinema. [ri]
Tacioli — Foi a única experiência?
Mary — Única e última.
Max Eluard — Quem escolhia o repertório nessa época em que vocês gravaram os primeiros 78 rotações?
Mary — O povo.
Max Eluard — Como assim?
Mary — A gente cantava um ano no rádio pra sentir, por meio das cartas, as mais pedidas. Aí levava pro Diogo Muleiro. Ele ia lá em casa, a gente separava as cartas… “Essa aqui é ‘Carinha de anjo’, essa aqui é tal, tal, tal…” Então, era de acordo com as cartas…
Max Eluard — Sempre era esse critério?
Mary — Sempre. E para todos os artistas da época.
João Paulo — O rádio era sempre ao vivo, né?
Marilene — Era.
Mary — Sempre ao vivo.
Tacioli — E o que representava o disco pro artista nessa época? Que retorno dava?
Mary — Era muito bom porque no interior tocava e era lotação certa no circo. Era sinônimo de bilheteria. Então, quando o disco fazia sucesso, era bem executado, o povo ia no circo.
Tacioli — Existia essa coisa de 20, 50 mil cópias, Disco de Ouro?
Mary — Não, não. E a gente não sabia bem como funcionava. A gente cantava porque cantava…
Marilene — Mas teve vendagens… Por exemplo, o Cascatinha & Inhana com “Índia”…
Mary — Mas aí já é LP.
Marilene — É? Já?
Max Eluard — Nessa época em que vocês cantavam em circos não dava pra viver o dia-a-dia do circo. Vocês iam lá e cantavam, né? Mas como era pra vocês cantar lá? Porque toda criança tem uma fascinação muito grande pelo circo.
Marilene — Histórias mil. [ri]
João Paulo — Opa!
Max Eluard — Gosto dessa risada. [risos]
Marilene — Havia um circo que era de um alemão chamado Garrido. Quando a gente chegava no circo, a mulher dele — uma alemã grandona, que usava umas saias longas — falava, “Vou fazer almoço pra vocês!”… Aí matava um frango. Conforme ela ia matar o frango, o bicho batia as asas na saia dela e fazia um som assim “Pló, pló, pló, pló”, aquele barulho na saia. A gente achava gozado, olhava uma pra outra. Éramos meninas, né? “Vou fazer almoço”… Olha lá, o pló, pló, pló, já vai matar o frango outra vez… e o nome do cara era Garrido. Então, houve uma comemoração… “As Irmãs Galvão estão aqui e, de frente para o povo, vão cantar o Hino Nacional”… E nós duas ali e o prefeito, vice-prefeito, delegado, todo mundo no palco… Quando começou o Hino Nacional e chegou naquela parte “do que a terra mais garrida”, ela [e aponta para Mary] chegou pra mim e disse “pló, pló, pló”. [risos] Gente…
Mary — E sem contar as coisas assim… Tínhamos muita amizade com o pessoal do circo. Fomos comadres várias vezes… Outros investiram querendo casar… [ri]
Max Eluard — Vocês nunca tiveram vontade de ir embora com o circo?
Mary — Não, porque a gente cantava toda semana e a nossa vida foi em circo. Mesmo que a gente não morasse ficava quinta, sexta, sábado e domingo. Então, tínhamos essa convivência com o circo e nunca tivemos essa vontade de ir embora, não.
Almeida — Vocês nunca tiveram uma fase rebelde?
Mary — Trauma? [risos] Inventaram essa palavra junto com a mídia. [risos] Talvez o nosso tempo de rebelde foi quando casamos… Talvez tenha sido isso, porque a família lutou muito para que a gente não casasse…
João Paulo — Pra não casar?
Mary — É, porque toda dupla feminina quando começa a pegar uma ascensão vem um par de botas e desmancha a dupla. Isso acontece. Basta ver quantas duplas femininas existem… e na história toda. Existiram pouquíssimas duplas. E não precisa nem fazer sucesso. É bonitinha? Já vem um lá… “Vamos casar, mas você não canta mais”… O medo grande da família era esse, que a gente se casasse e tivesse esse problema. Mas não combinamos nada, mas ficamos firmes… Se viesse um “Você não vai cantar mais!”, já mandava logo “Olha, acho bom você ficar quieto porque assim não vai dar certo!” [risos]
Tacioli — Mas existiu então essa pressão?
Mary — É, sempre tem. Mas somos muito danadas e acabávamos colocando a criançada junto… “Vamos cantar com a mamãe!”… e o marido quando resolveu pressionar, demos um jeito…
Marilene — Aí, graças a Deus, morreu, né? [risos]
Mary — Aí eu casei com o Mário Campanha. Quando ele apareceu na nossa vida era 1981, estávamos fazendo um trabalho que parecia ser o último.
Mary — “O calor dos teus abraços” nos projetou nacionalmente. Fizemos muitos shows de norte a nordeste, né? E nos deu Disco de Ouro e várias coisas. Com músicas desse disco e mais outras fizemos uma coletânea. Fizeram muito sucesso em Portugal. Hoje a gente tem notícia, através da Internet, que nossas músicas são bem executadas em uma parte dos EUA, Portugal…
João Paulo — E no Japão?
Marilene — No Japão…
João Paulo — Vi dados que diziam que o Japão é o maior exportador de música brasileira.
Mary — É, inclusive, esse documentário sobre música sertaneja passou no Japão, e nós aparecíamos no filme. Dizem que fomos aplaudidas. Isso tudo. E agora também, quando fomos indicadas ao Grammy — o Gilberto Gil foi quem ganhou na categoria –, nós não estávamos, mas quem estava disse que, na hora em que nos apresentaram no telão, fomos muito aplaudidas.
Max Eluard — Por que não foram?
Mary — [silêncio] Por que não fomos?… Porque fomos alertadas.
Marilene — É…
Mary — Estávamos com tudo pronto, passagem pronta, mala pronta, tudo pronto. E encontramos um grande amigo que disse, “Eu não iria”.
Marilene — Ele já tinha estado lá, né?
Mary — Ele já havia estado lá (na premiação do Grammy) no ano passado e disse que era uma coisa muito triste para o artista brasileiro, que eles não tomam conhecimento… [toca o telefone] [Para a Bara] É o telefone lá embaixo, por favor, deve ser o Mário (Campanha). [Retomando] Então, fomos alertadas…
Max Eluard — … De que não seriam bem-tratadas?
Mary — … De que não seríamos bem-tratadas. E nós estamos tão acostumadas a ser mimadas. Tínhamos acabado de receber o Prêmio Caras, no Rio de Janeiro. Então, tínhamos a nossa volta Gilberto Gil, Milton Nascimento, todos nos paparicando. Sabe aquela coisa linda? Quando a gente chega num ambiente desses, você não acredita que o Milton Nascimento possa ser fã da gente. Aí, chega e, “Pô, eu gosto de vocês!” Gilberto Gil, cada vez que nos encontra é aquela festa. A gente tinha sido paparicada por todos globais naquela festa e “Quer saber de uma coisa? Para chegar lá e ser mais uma na festa?” Mais uma não, nem isso.
Marilene — Eu liguei pra o Castanha e o Cajú e falei, “Castanha, a informação que nós temos é essa”. “Ah, mas vale a pena ir, pelo prazer. A gravadora…”
Mary — Trama.
Marilene — Isso, Trama, né? “Eles estão nos mandando pra lá, vocês também deveriam ir”. Falei, “Não. Nós já ficamos meio desanimadas. Pelas informações, quem chega lá é apenas mais um”. Depois nós estivemos com eles no Rio e eles falaram que a melhor coisa que a gente fizemos foi não ter ido.
Tacioli — Que importância havia nesse prêmio pra vocês? O que representa?
Mary — Todo prêmio é importante, né? É o reconhecimento do trabalho.
Marilene — E ser indicada entre os cinco melhores.
Mary — Na categoria… então, para todo artista… por menor… Qualquer prêmio é prêmio. Não tem prêmio menor. A gente não pode dizer que um é menor. Tanto é que temos todos expostos. A gente gosta de expor…
Tacioli — É uma coisa paradoxal. Há essa importância do prêmio, mas as pessoas não as conhecem. Não é estranho isso?
Mary — É muito estranho e a gente ia se sentir muito frustrada se fosse e… Não estamos mais na idade disso, não. Estamos na idade de ser paparicadas. [risos]
Max Eluard — Pra vocês, qual foi o prêmio mais importante?
Marilene — Todos. Quando você descerem (para o interior da casa), dêem uma olhada na quantidade que tem ali, fora outro tanto que está em casa.
Almeida — Nós vimos.
Max Eluard — Mas qual teve um significado especial?
Mary — Semana passada fomos convidadas para uma conferência na Maçonaria. Nós íamos lá para assistir a uma palestra — não tem nada a ver, né? Mas enfim… Insistiram tanto que nós fomos. Chegando lá, fomos agraciadas por uma medalha pelo tanto que nós já fizemos pela música brasileira, pela música sertaneja. Então, esse foi o penúltimo prêmio que nós recebemos.
Max Eluard — Foi uma surpresa?
Marilene e Mary — Foi surpresa.
Mary — E dentro da Maçonaria! Uma coisa restrita somente a homens, que são reconhecidos lá dentro e, de repente, estávamos lá, recebendo uma medalha de reconhecimento pelo nosso trabalho.
Marilene — A revista Verdade, né?
Mary — Revista Verdade. Vamos receber um outro prêmio aqui, correspondente ao Dia das Mulheres, pelo Rotary Club, pelas mulheres que fizeram filantropia. Dizem assim, “Olha, será que vocês gostariam de…”. “Nossa, nós adoramos prêmios!” [risos]
Marilene — Houve um que nos emocionou bastante. Foram dois dias de festa. A cidade em que a gente começou a cantar — Paraguaçu Paulista — nos deu o título de Cidadãs de Paraguaçu…
Almeida — Isso foi quando?
Marilene — Foi dia…
Mary — Foi em março do ano passado? Junho, julho…
Marilene — Foi uma festa maravilhosa! Foram dois dias de festa, sabe? Foi lindo. Trouxeram pessoas que fizeram parte de nossa infância.
Mary — Foram buscar nossos vizinhos, foram buscar as pessoas que conviveram conosco na infância. Pessoas que falavam pro papai, “Olha, precisa levar essas meninas para o rádio!” E, de repente, a gente viu todo mundo lá… Sentíamos, assim, as melhores. Estavam todo velhos…
Marilene — E agora vamos receber (o prêmio) lá de Assis, né?
Mary — A gente vai receber o título de cidadãs também em Assis.
Max Eluard — Vocês nunca mudaram de São Paulo depois que vieram pra cá?
Mary — Não, nunca mais mudamos.
Max Eluard — Vocês gostam daqui?
Marilene — Gostamos.
Mary — Gostamos… Gostamos muito! E tem mais uma coisa, quando viemos para cá, em 1952, em 54 era o 4º Centenário de São Paulo e nós recebemos o título de Revelação do 4º Centenário! [risos] Foi lindo! Se procurar a história da inauguração do Parque do Ibirapuera, está lá o nominho das Irmãs Galvão também. Revelação do 4º Centenário! [risos]
Tacioli — Falando dos anos 50, vocês citaram o Francisco Alves, para quem o pai de vocês gostaria de apresentar. Que lembrança que vocês têm do impacto da morte dele?
Mary — Foi muito triste…
Tacioli — Vocês cantavam músicas dele?
Mary — Cantávamos músicas de Francisco Alves e estávamos ensaiando um repertório lindo pra mostrar pra ele, com umas toadas — porque ele cantava toadas sertanejas, né? Estávamos montando o repertório e, de repente, vem essa notícia. Tenho certeza que o papai desanimou muito naquele dia.
Tacioli — Teve alguma imagem que marcou esse fato? Eu não tenho idéia, mas a relação com os ídolos era muito diferente nessa época…
Marilene — Nós choramos bastante, né, Mary?
Mary — Foi…
Marilene — Porque era aquele sonho que deixou de se realizar, né? E o papai, Nossa Senhora, chorou muito. Ele ficou esperando pra nos levar até lá, pra estar com ele… Foi exatamente no ano em que ele gravou aquela música que cantávamos.
Tacioli — Que música?
Marilene e Mary — “Criança feliz”. [n.e. Também conhecida como “Canção da criança”, composição de René Bittencourt e Francisco Alves]
Almeida — Vocês têm projetos para o futuro, antigos ou recentes, mas que vocês ainda não realizaram?
Mary — Temos.
Almeida — Quais?
Mary — [silêncio seguido de risos] Vamos cantar fora do Brasil. Já que temos nossa presença em Portugal, Canadá, Estados Unidos — em alguns Estados. Nós temos um irmão que mora em Orlando e ele disse que está ficando famoso quando descobrem que é nosso irmão. Então, para esse ano, vamos para fora do Brasil.
Tacioli — Pela primeira vez?
Mary — Pela primeira vez. Já fomos para o Paraguai comprar umas muambas. [risos]
Marilene — Prenderam as muambas. [risos]
Max Eluard — Pegaram todas muambas?
Marilene — A primeira vez, ficamos assim: “Yes!!”. Compramos umas coisas, quando a polícia chegou lá, prendeu tudo! [gargalhadas] Ai, que ódio, não?
Mary — Nós não fizemos nada de errado. Fomos cantar em Dourados, no Mato Grosso…
Bara — Em Pedro Juan Cavallero [n.e. Cidade paraguaia que faz fronteira com a cidade brasileira de Ponta Porã, Mato Grosso]
Mary — Isso, em Pedro Juan Cavallero. Aí, olha as muambeiras…
Marilene — Videocassete, perfumes. [risos]
Mary — Um monte de coisas! Nós fomos tão tontas que compramos aquelas malas manjadas… [risos]
Max Eluard — Aquelas que têm escritas do lado de fora: muamba.
Mary — É, muamba! Chegando na Polícia Federal, abriram lá e hummm… Ainda trouxemos um perfuminhos! [risos] Aqueles perfuminhos que duas horas depois já não sabia mais o que era. Era melhor tomar banho.
Tacioli — Qual o público de vocês lá fora? Quem ouve as Irmãs Galvão no exterior?
Mary — O jovem.
Tacioli — É o público latino?
Bara — Latino.
Mary — É, latino.
Tacioli — Mas existe um trabalho de divulgação voltado para esse público?
Mary — Não, não.
Max — É espontâneo?
Mary — É espontâneo, mesmo. Não tem divulgação, nem trabalho de gravadora. Os emails que a gente recebe… O que deu de chamadas internacionais depois de nossa apresentação no programa do Jô Soares!
Almeida — Os portugueses assistem muito ao programa dele.
Mary — De Portugal recebemos muitos. Porque, depois de nossas apresentações — não somente no Jô, mas no Jô mais porque ele tem o lado humorístico, né, e atualmente nós não somos nem feias, nem bonitas, somos gozadas! [risos] E a gente tira proveito dessa situação. Com o Jô Soares foi muito engraçado porque, de início, ele chegou e anunciou as Irmãs Galvão. E aí, “Você é a Mary e quem é a Marilene?” Aí a Marilene, “Dá licença, né? Acho que sou eu”. Aí ele perguntou, “Você são casadas?” Aí ela: “Não, somos irmãs”. [risos]
Max Eluard — No fim vocês cantaram “Beijinho Doce”, que virou um rock ’n’ roll, né?
Mary — Isso.
Max Eluard — Foi muito bom!
Mary — Foi engraçado porque a gente estava passando som e passa, passa, passa, aquele negócio, “Toca o acordeom. Toca isso. Toca aquilo”. Aí, a gente já tava meio cansadinha de passar som, quando o Mário Campanha falou, “Vamos lá, pessoal” e a gente começou [imitando riffs de guitarra] “Que beijinho doceee…” e virou um rock. E lá na hora, a produção achou fantástico, “Vocês têm que fazer assim”. E a gente, “Não, não”, não queríamos deturpar a coisa. Eles insistiram e nós fizemos. Ficou legalzinho…
Max Eluard — Mas vocês ficaram com medo de deturpar a música, de descaracterizá-la?
Mary — Ficamos.
Tacioli — Teve alguma resposta negativa?
Marilene e Mary — Não…
Bara — Pelo contrário.
Mary — Foi uma preocupação nossa mesmo. Aliás, teve um que sugeriu que a gente gravasse alguma coisa nesse sentido. E se você perguntar, um dos nossos sonhos, e que ainda vamos realizar, é gravar com Rita Lee.
Max — Que ótimo!
João Paulo — Ela é bárbara.
Mary — Por duas vezes, nós estivemos bem próximas de fazer isso, mas aí, por uma circunstância ela viajou…
Max Eluard — Mas era pra se fazer um rock ou uma música sertaneja? Ou pra misturar tudo?
Mary — Por que não misturar, né? Fazer alguma coisa nesse sentido.
Tacioli — A idéia era pra fazer um disco ou uma música?
Mary — Ainda não sabemos…
Tacioli — Vocês têm contato com ela?
Mary — Não.
Tacioli — Nunca conversaram pessoalmente?
Marilene — Nunca.
Almeida — Ela não sabe dessa ideia?
Marilene e Mary — Não sabe.
Marilene — Surpresa! [risos]
Mary — Boneca, nos aguarde que estamos chegando aí! Nosso grande ídolo foi Elis Regina e em uma de suas entrevistas ela cita a gente como grandes intérpretes no Brasil. A gente guarda isso com carinho.
Almeida — Você nunca se conheceram?
Mary — Não.
Almeida — Nem em shows ou programas de TV?
Mary — Não. Não perdemos quase nenhum show dela aqui em São Paulo. Mas tínhamos uma informação errada sobre o gênio da Elis, então ficávamos com muito medo de nos aproximar e de não ser bem recebidas. Aquela história… Nós queremos ser paparicadas. Nos arrependemos muito de não ter tido contato com ela. Seria uma coisa muito boa.
Tacioli — Vocês estavam falando de “Beijinho doce” virar um rock’n’roll e do medo de sua repercussão. Houve algum momento na carreira que vocês sentiram alguma pressão, uma coisa negativa, por terem adaptado uma música ao outro estilo?
Mary — Não.
Tacioli — Das pessoas falarem, “Olha, vocês estão fugindo do estilo de vocês!”
Mary — É engraçado.
Marilene — Depois que soubemos. Fizemos um disco somente com músicas da MPB e teve uma do Baden Powell… Nós gravamos…
Mary — “Apelo”. [n.e. Parceria de Baden Powell e Vinicius de Moraes]
Marilene — E fizemos…
Mary — Mas isso foi por questão de…
Bara — Falta de autorização.
Mary — É, foi problema da gravadora. Não foi porque ele não gostou, muito pelo contrário, ele comentou que a gente gravava muito bem. Esse disco nos deu o prêmio Sharp [n.e. Lembranças, Warner, 1992]. Gravamos somente clássicos da MPB.
Bara — Inclusive Raul Seixas (“Tente outra vez”).
Mary — Inclusive Raul Seixas! Gravamos Chico Buarque (“Terezinha”), Baden Powell, Vinicius de Moraes…
Marilene — Cartola (“As rosas não falam”).
Mary — Fizemos porque cantávamos também MPB quando criança [n.e. No disco ainda estão presentes composições de Maysa, Lupicinio Rodrigues, Adelino Moreira, Dolores Duran e a dupla João Bosco e Aldir Blanc, entre outros].
Almeida — E o público cativo estranhou?
Mary — Não chegou a estranhar porque foi uma coisa lamentável na nossa vida de disco. A gravadora fez o disco, não lançou, não colocou em catálogo.
Bara — Fizeram somente 500 cópias!
Mary — O que a Marilene queria contar é que na época não houve autorização do Baden Powell, mas não nada contra nós.
Max Eluard — Contra a gravadora.
Mary — É, aí, por causa disso a gravadora engavetou o disco. Esse disco está indo para Portugal agora.
Marilene — E foi com a música dele que ganhamos o Prêmio Sharp.
Almeida — Que contradição!
Marilene — E entre os jurados estavam a Wanderléa, o Gilberto Gil, o Caetano Veloso, uns maestros do Rio de Janeiro…
Mary — Todo mundo elogiando o disco.
Almeida — E ninguém ouviu!
Tacioli — É um disco quase inédito.
Marilene — É.
Almeida — Mas agora vocês fizeram outra tiragem?|
Mary — Vamos fazer. Porque agora, através da Bara, que além de nosso anjo da guarda é nosso guarda-costas…
Marilene — É quem briga, né?
Mary — Ela fez o levantamento de todas as nossas coisas… Descobriu que não teve contrato, que não foi lançado. Então, a master é nossa. “Dá aqui! Quer brigar? A gente briga. Mas a master é delas”.
Bara — Se eu peço pra elas abrirem a boca, o disco é delas. Se eles falam que o disco é deles precisam ter o contrato.
Max Eluard — Exatamente.
Bara — Eu provo que o disco é delas, olha a voz, mas vocês não podem provar que a master é de vocês. Cadê o contrato?
Max Eluard — Acabou a discussão.
Tacioli — Da discografia de vocês, há muita coisa em catálogo?
Mary — Tem muita coisa fora de catálogo, m as ainda tem algo à venda. Se bem que mulher no Brasil… É muito difícil, né?
Tacioli — Acho que foi a Inezita Barroso que falou que mulher artista no Brasil só é valorizada quando perde a cintura e envelhece.
Mary — É dela, com certeza. E tem razão.
Tacioli — Tem razão? Vocês sentiram isso no decorrer da carreira? Vocês tem uma reconhecimento maior agora de quando eram mais moças?
Mary — Com certeza, com certeza. E todas, todas, a não ser agora, com a Sandy & Junior, Wanessa Camargo… esse pessoal que está aí, né? Mas eu duvido de qualquer artista brasileira, a não ser Sandy & Junior, de 1 milhão de cópias de vendagem. Cantora, não acredito. Agora, esperamos muito nossa 3ª idade porque houve uma previsão em 1954… Estávamos na Rádio Bandeirantes e havia o Omar Cardoso, astrólogo, famoso na época. E o Omar era muito amigo nosso. Estávamos chegando na rádio, ele assim no corredor, e fomos chegando perto dele. Aí ele falou pra gente, “Olha, vocês têm uma coisa. Cantam muito bem, só que o canto de vocês não é para agora. E vocês somente vão atingir sucesso na 3ª idade”. Então, esperamos ficar velhas com ansiedade. [risos] Olha, nós ralamos, viu? [risos] Ralamos. Quando tinha bunda, não podia mostrar. Tinha perna, não podia mostrar. Cantava bem, mas…
João Paulo — Somente na 3ª idade.
Mary — Somente na 3ª idade. Olha que lindas estamos agora! Mas vamos entrar agora numa recauchutagem. Aguardem! [risos]
Tacioli — Mas vocês sentem falta de reconhecimento?
Mary — Ah, todo mundo sente, né?
Bara — Reconhecimento existe. Não existe uma notoriedade, mas reconhecimento existe. Sei porque estou sempre nas televisões e rádios. Reconhecimento existe.
Mary — É.
João Paulo — E é algo mais verdadeiro que a notoriedade.
Max Eluard — A notoriedade pode ser fabricada, o reconhecimento, não.
Marilene — Permanecer 56 anos dentro de uma carreira e fazendo o que nós fazemos… Continuamos sendo requisitadas para grandes encontros, grandes festas… Eu acho que isso é… Não podemos nos queixar de nada. Somente agradecer. É bastante tempo, né?
Mary — Numa roda de pessoas conhecidas nossas estava o Faustão [n.e. O apresentador Fausto Silva, da TV Globo]. A gente estava conversando sobre os artistas, os que estão na mídia. Falavam de um, falavam de outro. Aí o Faustão virou e falou, “Olha, gente, só que tem uma coisa. Todo esse povo que vocês estão citando, estão na mídia, fazendo sucesso, ganhando dinheiro, mas quero saber de vocês se existem duas duplas iguais a Tonico & Tinoco e As Irmãs Galvão com o prestígio que esse povo tem?” Não sei se a gente tem que ficar feliz com isso? A gente tem prestígio, mas eles ganharam dinheiro. [risos]
João Paulo — Prestígio não paga a conta, por um lado.
Max Eluard — Como diria o Adoniran Barbosa sobre troféus, “prefiro a minha parte em dinheiro!” [risos]
Mary — Mas valeu. Faríamos tudo da mesma forma, do mesmo jeito. Faríamos tudo de novo. Não podemos nos queixar.
Max Eluard — Em algum momento, vocês sentiram a música sertaneja como uma camisa-de-força? Vocês tiveram vontade de gravar outros estilos, fazer outro tipo de música?
Mary — Não. Nós gostamos muito da música sertaneja. Fazemos isso com muito amor.
Marilene — E mesmo quando quisemos fazer um trabalho diferente, fizemos. Gravamos boleros no tempo dos 78 rotações. Temos esse lado. E não é que ficamos em cima do muro, não. Nós vestimos a camisa do sertanejo porque gostamos desse trabalho. Quando pequenas gravamos com grandes orquestras.
Mary — Podemos nos dar a esse luxo de cantar. E o engraçado é que sempre nos aceitaram do jeito que somos. Nunca houve restrição.
Bara — Esse Lembranças é lindo!
Mary — É mesmo. E nos sentimos capazes de fazer qualquer tipo de música. Mas agora, talvez pela idade, as pessoas tem a gente como cidadãs do mundo. Então nos damos o direito de fazer as coisas como a gente gosta. E o público nos aceitando como nós somos.
Max Eluard — No site de vocês, na seção Discografia, há a relação dos discos, com número de série, data de gravação, essas coisas. Ter esse registro é uma preocupação de vocês?
Bara — É pra ser bem fiel, bem feito. Sou bem perfeccionista.
Max Eluard — Mas isso já vinha de vocês ou foi a Bara que trouxe?
Bara — Foi o Maikel.
Almeida — Um fã?
Mary — Um menino que ligou para nós de Santa Catarina. Tinha 16 anos. “Olha, sou fã das Irmãs Galvão”. “Ah, tá bom!” [risos] Como é que você gosta das Irmãs Galvão? “Ah, tenho tal disco, tal disco, tal disco, 78 rotações de vocês”. “Opa, peraí, temos que ver isso com mais carinho.” Esse rapaz se chama Maikel Monteiro. Começou a ligar mais vezes querendo saber como conseguiria outros discos. “Mas, menino, como é que você sabe disso?” “Ah, ouço vocês desde criança! Meu avô já gostava e eu adoro vocês. Então o que não tenho, procuro”. Ele mandou buscar um disco nosso em Belém e pagou R$ 400,00 no LP. Foi ele que fez o levantamento de toda nossa discografia, com números e datas, tudo. Ele sabe tudo a nosso respeito. Tem outros também, como o Aníbal, violeiro e veterinário. Gosta tanto da gente que passou a nos acompanhar em shows, está sempre perto. Ele canta também como João Pinheiro, da dupla Zé do Cedro & João Pinheiro. Tem a Carol, que é apaixonada por nós, sabe de tudo. Aliás, existe uma briga entre os três, uma ciumeira danada. [risos]
Max Eluard — Pra saber quem é mais fã!
Mary — Ontem, eu estava com o Maikel no telefone e tocou o outro. Era a Carol. “Oi, Carol, tô com o Maikel no telefone”… [faz uma voz seca] “Tá, ligo depois”. [risos] E é assim.
Bara — Não ouse entregar um disco para um e não para o outro.
Mary — Quando sai um disco nosso, qualquer coisa nossa que sai, tem que ter o cuidado de pegar os três e levar ao mesmo tempo no correio. Se não chegar… nossa, “Mas, olha, não temos nada com isso, olha aqui a data e a hora”.[risos] Eles ficam magoados.
Max Eluard — Hoje, o que vocês gostam na música brasileira, independentemente do gênero?
Mary — Adoro o Zeca Pagodinho. Adoro. Fico muito emocionada com ele. Onde sei que ele está dando entrevista, eu paro para assistir. Choro com as coisas dele. Acho o Zeca Pagodinho uma das coisas mais honestas feitas atualmente. Então, tem muita identidade, porque sempre fomos nós mesmas e o Zeca Pagodinho é ele mesmo. Na rua, na televisão, no show, ele é sempre o mesmo.
Tacioli — E você, Marilene?
Marilene — Gosto da turma lá do Norte. Caetano, gosto muito do Gilberto Gil, da Gal Costa…
Mary — A Bethânia. A Bethânia teve um gesto com a gente… Aquelas coisas que… Nós somos bobas, né? Nós fomos ao aniversário da Roberta Miranda e a Maria Bethânia estava lá. Ele soube que nós íamos e foi lá por nossa causa. E quando a gente chegou, fez um gesto de reverência para nós. Pela amor de Deus! Não faz isso. “Não, eu tenho que fazer”. Então, a gente vai nos shows dela e ela sempre trata a gente com muito carinho. Quem mais?
Marilene — Gostava muito do Tião Carreiro. [ri]
Mary — Sandy & Junior também me emociona muito. Um tanto por saber da história da família e acompanhar de perto.
Tacioli — E musicalmente a dupla lhe agrada?
Mary — Alguma coisa. Acho que ela está extrapolando um pouquinho, né?
Almeida — Em que sentido?
Mary — Na interpretação. Acho que ela está ficando muito americanizada. Ela não precisa disso porque é uma grande intérprete.
Tacioli — As cantoras de hoje buscam suas referências vocais lá fora?
Mary — Ah, sim. Muito. E é uma das coisas que nós, da velha guarda, lutamos muito para que não acontecesse, mas acho que a juventude foi buscar… Os calouros… Você ouve os calouros e… [faz uma cara de desaprovação]
Marilene — Fui assistir ao show da Sandy & Junior com a minha neta… Ela tinha cinco anos na época. Tinham reservado um camarote onde estaria a Mariazinha, que é avó da Sandy e do Junior… Sentamos juntas. Estávamos ali… A minha neta empolgada porque tínhamos passado primeiro no camarim para conversar com eles, tirar fotos. E ali no camarote percebi que a Maria estava emocionada e eu também comecei a chorar. Aí ela segurou muito forte na minha mão e falou assim, “O que você tá sentindo?” Falei, “Estou sentindo uma coisa muito boa, porque o que a sua neta está fazendo lá, nós fizemos na idade dela, estivemos juntas. Hoje você está vendo sua neta lá e eu estou trazendo a minha neta, que é fã da sua neta”. Olha, estou até arrepiada! Nos emocionamos muito com isso.
Mary — E é gostosinho que quando a gente chega no camarim, os dois sentam no chão e ficam olhando para nós. Ficam namorando nós duas e a gente namora eles também. O amor é recíproco.
Marilene — Nós vimos eles na barriga. Fomos ao casamento dos pais. Vimos a Mariazinha grávida, quer dizer, acompanhamos tudo isso.
Mary — Ê, véia!
Marilene — Sai fora, meu! [risos]
Mary — Benzadeus!
Tacioli — Falando um pouco deles… O que esse pessoal do sertanejo de agora — somente o Chitãozinho & Xororó — trouxe de bom musicalmente, além de terem aberto as portas?
Marilene — Você sabe que nós costumamos assistir a todos os shows que podemos ir. A Mary mais do que eu, porque ela vai com o Mário (Campanha), que é produtor da maioria dos discos desse pessoal. Então, acho que para nós é muito bom que estejamos junto com esse pessoal. Mesmo porque, além deles respeitarem o nosso trabalho, a gente também pode aprender com eles. A gente aprende com os jovens também. Alguma coisa diferente no palco. Até podemos criticar alguma coisa porque temos essa liberdade, mas acho que tem uma turma boa por aí, viu?
Dafne — O que você aprendem com eles? E o que criticam?
Marilene — E o que nós podemos passar, né? Acho que quando eles assistem aos nossos shows, eles vêem agradecer alguma coisa que aprenderam com a gente. E o que eles passam pra nós? É essa…
Mary — Alegria.
Marilene — Essa alegria do palco. Apesar que sempre fomos assim. A maneira de tratar o público.
Mary — Gosto muito da postura do Daniel.
Marilene — É, o Daniel é fora de série.
Mary — Tem uma postura fantástica. É a mesma linha do Zeca Pagodinho.
Marilene — Do Chitãozinho & Xororó.
Tacioli — Mas se fala muito que eles modernizaram a música sertaneja e que essa modernização veio a partir do country, do pop americano…
Marilene — As roupas, os instrumentos.
Tacioli — Isso é uma coisa que incomoda vocês?
Mary — Não. Eles estão na deles.
Tacioli — Isso é um debate sem fim, mas você acha que isso é bom para música sertaneja?
Mary — A gente pode colocar assim: música sertaneja é música sertaneja. Ela não muda nunca. Ela pode ter agora um tratamento de som, a interpretação… Apesar que muito pouca coisa mudou, pois quem cantava desse jeito continua cantando dessa forma. E nunca deixou de ser moderno, não deixou de ser atual. E além de ter aberto todas as portas para a música sertaneja, esse pessoal fez o brasileiro não ter mais vergonha de falar que gosta de música sertaneja, porque sempre gostou, mas tinha vergonha… E isso nós devemos a essa geração.
João Paulo — Mas esse processo abrangeu toda a música brasileira e não somente a sertaneja. O brasileiro tinha vergonha da música brasileira em geral.
Mary — Acredito que sim. Todos passaram a dar mais valor ao artista brasileiro. Mas a música sertaneja não pode ser comparada com o que está se fazendo agora, porque a música de raiz, nós, com viola e sanfona, fazemos um show… Eles já não fazem.
João Paulo — Precisam de alguns caminhões.
Mary — É um segmento totalmente à parte.
Max Eluard — É outra coisa. Não tem mesmo como comparar.
Mary — A música sertaneja tem um estilo, um modo de ser que não mudou.
Tacioli — Mesmo com esse êxodo rural todo? As cidades crescendo…
Mary — Mesmo com o êxodo rural. A gente tem sentido isso nas apresentações que fazemos para o público mais jovem. O pai trabalhou na roça, o avô trabalhou na roça… Ele vem para ouvir a moda de viola, quer a viola, emociona-se com isso. Fazemos shows com banda e com músicas que estamos tocando agora, mas quando chega aquela hora da moda de viola, é uma coisa de chorar.
Bara — É um momento mágico.
Mary — O Mário pega a viola e fazemos aqueles pagodes caipiras. Nossa! É uma coisa linda. Fizemos um show em São José do Rio Preto e, quando chegou essa hora, um que se emocionou lá no meio, gritou: “Gente, isso é para ouvir de joelhos”. [risos] E eles se ajoelharam! Tivemos que cantar olhando pro alto porque não ia dar para cantar até o final. É uma coisa linda.
Tacioli — Em que momento da carreira de vocês entrou a bateria, o contrabaixo e a guitarra?
Mary — Foi com o Mário Campanha.
Tacioli — E como era antes?
Mary — Mas aí ele entrou com instrumentos eletrônicos também, porque o Léo Canhoto & Robertinho já estavam fazendo isso, já estavam tocando com banda. Depois Milionário & José Rico também adotaram.
Marilene — E o Sérgio Reis com “Menino da porteira”.
Mary — É, ele também. Nós estamos sempre acompanhando, não ficamos para trás não. [risos]
Tacioli — Naquela época era limitante não estar com banda?
Marilene — Nós fazíamos os nossos shows no início somente com sanfona e violão, só nós duas.
Mary — Mas aí o público já… Nós sentimos que tínhamos que aderir a isso.
Almeida — Então, não partiu de uma necessidade de vocês?
Mary — Não.
Tacioli — Qual é o limite? Até onde vocês acompanham essas mudanças? Se essas duplas tivessem outros instrumentos, vocês também poderiam incorporar isso?
Mary — Se houver necessidade, nós fazemos.
Marilene — É.
Mary — Mas agora chegamos a um patamar em que não temos mais essa necessidade.
Tacioli — Existe uma célula que define o que é música sertaneja e o que não é?
Marilene — E o que é caipira? [ri]
Mary — A música caipira ainda canta o homem do campo. Fala muito da vida rural. O sentimento do homem do campo. E a música sertaneja ficou mais urbana, né?
Almeida — É ainda desse cara, mas dele chegando à cidade.
Mary — É, ele chegou aqui. Já recebeu um par de chifre, aí pegou uma viola…
Almeida — Dormiu num banco da praça. [risos]
Mary — É, foi dormir no banco da praça. E não vou dizer que o caipira não passa por isso, ele passa, mas ele tem uma outra forma de se expressar. Não é tão direto.
Tacioli — Existe, então, uma variedade temática maior na música caipira do que na sertaneja?
Mary — Tem, tem, muito mais.
Marilene — Nós recebemos, pra escolha do repertório desse nosso próximo trabalho, umas mil fitas. Mas recebemos uma meio estranha. Vinha escrito que ele gostaria de ouvir essa música de acordo… mandou a fita e a letra da música impressa e queria que cantássemos a música do jeito que tava escrita. Então, nós gravamos como ele fez. Ele é de Assis, mas não fala Assis, fala-se Axir. Então é assim, quer ver… [as duas cantam] “Fui passear no Axir / Foi no mês de abrir / Vi coisa bonita como eu nunca vir / Mocinha dengosa que nem colebrir / Descia pra baixo / Tornava a subir / Peguei na violinha / Ri qui tir tir tir” [risos]… “Conheço a moça / É a Bartolina / É a moça mais feia do Estado de Mina / Ela é arta / Ela é baixa / Ela é grossa / Ela é fina / Trouxe o nome de Bartolina / Não me faça soletrar / Barrabártêotorliglineaná / Conheço um moço / Ele é bonitinho / Ele é muito engraçadinho / Ele é arto e é bem fininho / O nome dele vou soletrar / Gêcêgosteitinarraganhemeceó / O nome dele é Gostinhó” [risos]. E gravamos assim. [risos]
Mary — O Mário pegou a viola e fez aquela viola bem repicadinha…
Marilene — Só a viola mesmo.
Mary — Bem caipira mesmo. Vai sair agora no próximo disco.
Marilene — Gravamos exatamente do jeito que ele quer, porque se gravássemos de outra forma… “Fui passear em Assis / Foi no mês de abril / Vi coisa bonita como eu nunca vi”… Que jeito? Não tem nem rima, né? [risos]
Mary — [canta] “Fui passear no Axir / Foi no mês de abrir / Vi coisa bonita como eu nunca vir / Mocinha dengosa que nem colebrir / Descia pra baixo / Tornava a subir / Peguei na violinha / Ri qui tir tir tir”… ele não sabia o que colocar depois da violinha e foi o ‘ri qui tir tir tir’ mesmo. [risos]
Max Eluard — Vocês se dão muito bem, né?
Marilene — Muito. Se eu fosse sapatão casava com ela! [risos]
Max Eluard — Seria incesto. [risos]
João Paulo — Duplo pecado.
Max Eluard — Mas houve algum momento em que uma se encheu da outra?
Marilene — Ah, não. Da minha parte, não. Teve da sua?
Max Eluard — Pode falar, Mary. [risos]
Marilene — Você ficou calada! [risos]
Almeida — Ela demorou para responder. [risos]
Marilene — É, ela ficou calada. [risos]
Tacioli — É a mais velha.
Marilene — Fale agora ou cale-se para sempre.
Almeida — Foi aquela entrada que você fez na pia. [risos]
Mary — Nunca perdoei. [risos]
Max Eluard — Mas houve algum desejo de seguir carreira-solo?
Mary — Não teve. É uma coisa muito engraçada. Ela mora em Santo Amaro e eu moro aqui. Zona Sul e Zona Norte. Então, pra ensaiar ela vem pra cá. Quando é dia de show, ela vem pra cá. Se tem divulgação pra fazer, em programa que é às 4 da manhã e outro às 2 da tarde, ela vem e dorme aqui. Aí, no dia em que ela vai embora, o Mário [Campanha] diz, “Nossa, mas já vai?” [risos] Então, temos uma sintonia muito grande.
Tacioli — Então, nunca houve o desejo de se gravar um disco individual?
Mary — Não. Com certeza, não.
Tacioli — Houve alguma proposta?
Mary — Também não. Se pensaram, desistiram, porque sabem que…
Max Eluard — O primeiro que vier com essa conversinha mole…
Mary — Vamos mudar o rumo dessa prosa? [risos] Agora, quando ela morrer… [risos]
Almeida — No show vocês fazem isso? Essas piadas que fazem uma com a outra?
Mary — Usamos. No nosso show não tem nada combinado, nada ensaiado. Tem umas 30 músicas ensaiadas que ficam lá com o maestro, mas nós nem vemos. [ri] Ele vai soprando pra gente, “Agora é tal coisa”. E assim vai. As coisas surgem no momento. Não tem como repetir em outro show. Não será mais a mesma situação.
Leia a crônica do radialista e jornalista santista Osvaldo Moles (1913-1967), considerado o sucessor do escritor Antonio Alcântara Machado e pai artístico de Adoniran Barbosa
Tacioli — Vocês tem disco ao vivo?
Mary — Não, mas vamos fazer. Do jeito que o show é.
Almeida — Desse jeito mesmo? Sem roteiro, com as piadas?
Mary — Do jeito que é.
Marilene — Fizemos uma vez, no SESC Pompéia, um show que foi produzido pelo Dr. Brás Bacarini. Ele é advogado e…
Mary — Folclorista, né?
Marilene — Aí ele disse que queria fazer um show com a gente.
Mary — Contar a história da música, a trajetória da música sertaneja até Milionário & José Rico, na época, né?
Marilene — Então havia algumas coisas que a gente tinha que decorar. Nossa, aqueles textos! E o Dr. Brás, “Não, mas vocês tem que decorar, é a história”. A gente sabe da história, mas ele queria que falasse ali as coisas. Nós combinamos, “Nada de falar. Vamos contar a história do nosso jeito”. Sabe quem estava assistindo? O Djavan. Depois ele apareceu nos camarins pra conversar. Mas o show agradou tanto que no meio o público ria demais… e às vezes não era para rir. [risos] O Dr. Brás ficava branco lá atrás. [risos]
Almeida — Essa parte é séria, gente! [risos]
Mary — Aí no meio eu falava pra ela, “Olha o texto!”. E o público ria.
Marilene — Mas foram três dias ótimos de público.
Almeida — E não foi gravado?
Marilene — Não. Judiação, né?
Mary — Houve um outro momento muito gozado por causa desse show. O Mário Campanha produz as nossas coisas e fez “O calor dos teus abraços”. A gente dançava. Fez “O menino canoeiro” e “O boi”… [cantarola] “Esse boi é meu, esse boi é meu”… que é um rock, um rockpira. A gente naquele embalo. Aí ele falou que no próximo disco a gente ia sair com uma guarânia bonita, sentimental, romântica mesmo… “Mas vocês me fazem o favor”… O Ratinho é quem gosta de levar a gente, porque quando a gente descobre uma câmera meio escondida, uma cutuca a outra, mostra uma coisa engraçada. Aí ele me viu beslicando a bunda dela [risos], nem me lembro mais porquê. Em outro programa, ele falou com um câmera pra prestar atenção. E deu certo. Belisquei outra vez. Aí, o Mario chegou para nós e disse, “Vou fazer uma música pra vocês, mas é séria. Cês, pelo amor de Deus, parem de beslicar uma a outra e cantem sério. Porque vocês vão cantar um amor sofrido. [risos] Então, por favor, interpretem”. Pra gravar foi maravilhoso, uma interpretação. Mas chegou o dia de lançar a música. Ele ficou bem na frente, só olhando. Na introdução ela já começou querer fazer alguma coisa, mas eu cortava, “Olha o produtor!” No meio da música, a gente já estava alegrinha e esquecemos dele. O produtor que se foda! [risos] E não tem jeito, nosso show é assim. Não tem nada programado, tudo acontece na hora. A gente usa muito o público e ele se identifica muito com a gente. É assim que a gente faz.
Tacioli — Vocês tem uma relação forte com o campo? Nascendo em Ourinhos, Palmital…
Mary — Nascemos na cidade, fomos criadas na cidade.
Tacioli — E que relação existe a partir da música sertaneja…
Mary — A gente convive muito com o pessoal do interior, de roça, fazendas…
Tacioli — E isso ainda se mantém?
Mary — Muito. Muito. A gente usa nosso tempo livre pra procurar mato, pé no chão, pegar bicho de pé. [ri]
Max Eluard — Pra depois ficar coçando? É uma beleza. [risos]
Marilene — Ai que gostoso! Já pegou?
Max Eluard — Ô!
Marilene — E você?
Almeida — Já peguei também. E tirei também. Tem que furar fundo.
Marilene — O dedão coçando e aí passa no lençol. [risos] Que delícia. E você, já pegou?
Dafne — Já.
Marilene — Foi naquela fazenda em Palmital?
Dafne — Não, não foi em Palmital.
Mary — Acho que todo mundo aqui tem um pé na bosta. [risos]
Dafne — Ou já enfiou.
Mary — Mas é muito gostoso. Levar os filhos.
Max Eluard — Vocês têm um sitiozinho, um lugar em que sempre vão?
Marilene — Não. Temos casa na praia, mas no interior, não.
João Paulo — Em que praia?
Marilene — Mongaguá.
Tacioli — Ele nasceu lá.
Max Eluard — Morei uns 7 anos lá. Nasci em São Paulo, mas minha infância foi lá.
Marilene — Eu gosto de lá.
Mary — Eu não. Não tenho casa na praia…
Tacioli — Mas você não gosta de lá?
Mary — Eu não comprei sabe porquê? A minha irmã tem.
João Paulo — É muito melhor.
Mary — Ela paga o imposto. [risos] Ela que paga a faxineira, água, luz, telefone…
Max Eluard — Vai lá e usa, né?
Mary — É, você não me convida sempre?
Marilene — Claro.
Max Eluard — Mas vai começar a pensar melhor. [risos]
Marilene — É, você me alertou. [ri]
Mary — Eu teria mais uma chácara. Esse ano, se Deus quiser…
Tacioli — Acho que é isso.
Max Eluard — Tem alguma coisa que a gente não falou e que você gostariam de ter falado?
Mary — Meninos, vocês escrafuncharam tudo! [risos] Jesus! Isso aqui é uma entrevista ou um…
Almeida — Interrogatório?
Mary — Mas foi muito legal, muito gostoso. Nós somos assim. Quando fizermos show em São Paulo faço questão que vocês assistam. Vocês vão ver duas velhinhas assanhadas. [risos]
Max Eluard — Vocês já desfilaram em Carnaval?
Mary — Ah, já desfilamos pela Vai-Vai. Pensa que não? Adoro carnaval, adoro. Tanto fiz que um dia peguei o Thobias [da Vai-Vai] e disse que era um sonho da gente desfilar numa escola de samba, mas tinha que ser a Vai-Vai. “É pra já… Tal dia, tal hora no Sambódromo.” Gente, vocês nunca foram?
Todos — Não.
Mary — Dêem um jeito. É maravilhoso! Uma adrenalina.
Marilene — É completamente diferente de quando fazemos show.
Dafne — Vocês foram em carro ou no chão?
Marilene — Em carro. Nós, Os Demônios da Garoa, o João Paulo e Daniel, na época. Tinha quem mais? O Jair [Rodrigues]?
Mary — Não.
Bara — Ah, tem show no Carinhoso também.
Marilene — O que é o Carinhoso?
Mary — É uma casa de show aqui em São Paulo.
Dafne — Tem uma história de que o Luis Carlos Paraná foi dono desse lugar.
Max Eluard — É verdade.
Tacioli — Aliás, vocês freqüentaram o Jogral? [n.e. Famoso bar paulistano dos anos 60 e 70 criado pelo músico Luis Carlos Paraná, que teve como sócios figuras como Marcus Pereira, Paulo Vanzolini e Martinho da Vila]
Mary — Não, não freqüentamos, mas gravamos uma música do Luis Carlos Paraná a pedido de pessoas que freqüentavam o Jogral.
Max Eluard — Quem?
Mary — O Nerval Ferreira Braga, que era o Secretário de Segurança na época, o João Pacífico, o Saulo Ramos, que depois foi Ministro da Justiça… Eles que pediram pra gente gravar. Eram muito amigos e freqüentavam o Jogral. O Luis Carlos Paraná cantava “Se for pra medir saudade” [n.e. Lançada pelas Galvão no disco de mesmo nome, CBS, 1965].
João Paulo — Nossa.
Mary — Linda, né?
João Paulo — A que eu mais gosto dele é aquela… [cantarola] “Eu sei que ainda vou morrer de amor / Mas que ninguém venha chorar por mim”.
Mary — Sei, essa é linda também.
Tacioli — E do Adauto [Santos], o que você gravaram?
Mary — Do Adauto, gravamos agora o “Triste berrante” [n.e. Lançado no disco Nóis e a viola, Warner/Atração, 2001]. Houve uma época muito legal quando o Adauto veio para São Paulo com a dupla dele… Ele cantava na Rádio Bandeirantes, veio do Paraná. A gente teve uma convivência legal com ele.
Tacioli — E qual a importância do Geraldo Meirelles?
Mary — Ele foi o pioneiro da televisão brasileira a tocar música sertaneja. Nossa! Televisão nem pensar! A gente cantava quando era pequenininha porque era novidade, engraçadinho. Somente por isso. Mas não por causa da música sertaneja. Queriam até que nós cantássemos música popular. E o Geraldo Meirelles foi quem peitou. Fez o primeiro programa de música sertaneja na TV Cultura [n.e. O programa Canta viola]. Nós estávamos lá no primeiro, ajudando, ficamos na produção também e cada uma contribuía conforme seu potencial. Um ficava no camarim, outro ia ligar pro Cascatinha & Inhana… Todo mundo ajudou a fazer o primeiro programa e foi o Geraldo quem peitou. A partir daí surgiu o Viola minha viola, que nós também estávamos no primeiro programa. Nós somos arroz de festa. [risos]
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Faixa 01 – “Ilha do Mel” (Raul de Souza), por Raul de Souza
Faixa 02 – “Balada 45” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Arthur Verocai
Faixa 03 – “Sweet Lucy” (Raul de Souza), por Raul de Souza
Faixa 04 – “Balanço Zona Sul” (João Donato), por Raul de Souza e Robertinho Silva
Faixa 05 – “Rio Loco”
Faixa 06 – “Don’t ask my neighboors”
Faixa 07 – “Banana tree”
Faixa 08 – “Piano na Mangueira” (Tom Jobim), por Raul de Souza
Faixa 09 – “Bossa eterna”
Faixa 10 – “Lugar comum” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Robertinho Silva
Entrevista realizada na residência de Mary Galvão em fevereiro de 2003, em São Paulo/SP.
Entrevistadas: Mary Zuil Galvão (04/mai/1940, Ourinhos/SP) e Marilene Galvão (27/abr/1942, Palmital/SP – 24/ago/2022, São Paulo/SP)
Entrevistadores: Dafne Sampaio, Daniel Almeida, João Paulo Pereira, Max Eluard e Ricardo Tacioli
Produção: Max Eluard e Ricardo Tacioli
Fotos: Dafne Sampaio
Transcrição: Dafne Sampaio e Daniel Almeida
Edição de texto: Ricardo Tacioli
Texto de abertura: Dafne Sampaio
Agradecimentos: Bara
Portelense de coração, ela não se considera pesquisadora, mas uma catadora de sambas.
Somente nesses últimos dez anos que a carreira de Ignez Francisco tomou o espaço que merece.
Um dos principais produtores de música brasileira, ele é responsável pelo primeiro disco de Cartola, Adoniran Barbosa e Carlos Cachaça.
Seus primeiros passos foi como cantora da Vanguarda Paulista; depois seguiu para Tom Jobim, Clube da Esquina e Eduardo Gudin.