Em 1968, show na Sucata reúne amigos talentosos, fracassa em público e revela ironias volúveis do sucesso artístico.
Por BRENO MARTINS CAMPOS | 2003
Um de meus sonhos de infância foi ser baterista de banda de rock. De família protestante, nunca fui muito encorajado a satisfazer meu desejo. Talvez porque gostasse muito do Kiss e vivesse pintado à Peter Criss batendo em minhas latas no quintal de casa. O que deve assustar qualquer família. Religioso eu mesmo, comprometido com o desejo dos pais, procurei outros caminhos que me levassem ao conhecimento da música e, quem sabe, da arte de tocar bateria para usá-la na igreja.
Em Itapira, cidade do interior do estado de São Paulo, participei da fanfarra da escola, E. E. P. G. Dr. Júlio Mesquita (quantas vezes durante oito anos escrevi seu nome nos cabeçalhos das folhas de almaço das provas!), e depois da banda municipal. Os solfejos do método Bona me afastaram do estudo teórico da música.
Como boa casa onde moram crianças, na minha também havia uma flauta doce. Por conta própria aprendi a tocar as primeiras músicas, de acordo com aquelas indicações de quantos buraquinhos devem ser fechados para corresponder a tais e quais notas. Depois passei a ler partituras simples. Fui além: procurei um professor de flauta.
Quando me encontrei com João Torrecillas Filho (1907-1989), o professor, eu já “reinava” com a flauta, segundo ele. Foi aquela a primeira vez que ouvi o verbo reinar no sentido de brincar com um instrumento musical. Eu com pouco mais de 10 anos de idade e ele com pouco menos de 80. As surpresas estavam somente começando.
Alfaiate aposentado, músico por prazer, professor por paixão, o Seu João era figura popular na cidade. Assinava duas colunas no jornal Cidade de Itapira. Nas edições de domingo, era o João do Norte que escrevia; nas de quarta-feira, o João do Leste. Heterônimos de um homem que não tinha lugar, por ser de todos. Os textos eram crônicas nascidas de sua memória e paixão por Itapira, sua gente, seu passado.
Itapira sempre foi referência nacional por seus hospitais psiquiátricos e, mais recentemente, por sua indústria químico-farmacêutica. Para além de aspectos técnicos e científicos, a cidade é a terra de Hideraldo Luiz Bellini, o primeiro brasileiro a erguer a Copa do Mundo. Foi nela também que Menotti Del Picchia, um dos líderes da Semana de Arte Moderna de 1922, escreveu sua obra mais difundida, Juca Mulato, que dá nome a um parque romântico da cidade, onde fica a Casa Menotti Del Picchia.
BRENO MARTINS CAMPOS
Cientista social, professor da Puc/Campinas e estudioso da ciência da religão.
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