Por Dafne Sampaio
Publicado originalmente em 2003
Misto de Syd Barrett com Brian Wilson, Arnaldo Baptista sucumbiu ao colapso mental após misturar doses fortes de drogas pesadas com genialidade musical e instabilidade de comportamento. Nos Mutantes, havia trocado o humor pela técnica, a psicodelia juvenil pelo progressivo maduro, a criatividade pelo virtuosismo e Rita Lee pelo desempenho do grupo. Tirou Rita da banda e da vida que haviam construído juntos e tentou, em vão, tapar o buraco causado pela saída com chapados ensaios intermináveis na famosa chácara na serra da Cantareira que o grupo transformou em bunker no fim de 73.
Com a saída de Rita, Arnaldo transformou o grupo num poço de tensão e as brigas eram tão memoráveis quanto os ensaios, que se estendiam à medida que a loucura dos Mutantes aumentava. Nesse clima de stress sendo exorcizado através da música gravaram o incompreendido O A e o Z, que se tornaria o “disco perdido da vez” dos Mutantes, uma vez que a gravadora Phillips recusou lançá-lo. Era a deixa que Arnaldo precisava para sair e assim o fez.
Fora do grupo original, Arnaldo não era um personagem fácil de se comprar. O colapso mental acontecia de forma lenta e, ironicamente, progressiva, fazendo com que ele alternasse momentos de sanidade perfeita e pura loucura pelos próximos oito anos, culminando com a queda da janela do quarto de hospital, em 1982.
E isso se traduzia em sua música. Essa inconstância era a forma que o ex-Mutante encontrava para se expressar artisticamente de uma forma completa. Sem máscaras, Arnaldo se apresentava com uma beleza rude, um talento a ser lapidado, algo que deu certo a partir de um erro. Fora dos Mutantes, Arnaldo cantava o que vinha na cabeça do jeito que quisesse, sem medo que pudesse soar ridículo, infame ou nonsense.
Gravado praticamente ao vivo, Loki? (Phillips) foi uma espécie de terapia sonora que Arnaldo inventou para juntar os cacos de sua personalidade e tentar descobrir um rumo para sua vida. Gravado com quase todos os integrantes da mitologia de seu antigo grupo (Rita Lee, Liminha, Dinho e o produtor Rogério Duprat), o primeiro disco solo do compositor explicava, detalhadamente, como ele não era mais um mutante. As músicas mostravam lados diferentes de uma mesma pessoa, características que podiam ser confundidas com personalidades.
O disco começa com uma confissão, uma constatação e, de certa forma, uma desculpa. “Hoje eu percebi que venho me apegando às coisas materiais que me dão prazer”. E vira-se para o piano como se virasse para o lado da cama: “O que isso meu amor? Será que eu vou virar bolor?”. As perguntas não são feitas ao ouvinte genérico: o disco era endereçado a Rita Lee, que canta os backing vocals que ele imaginara nas faixas menos emotivas. O fim de seu relacionamento com ela desnorteara Arnaldo para o resto da vida, que consumia música e drogas como anestésicos para a dor que seu coração sentia.
Ao mesmo tempo, cuspia todas as imagens que apareciam na sua cabeça, todo excesso de informação que tentava ordenar na cabeça ao compor e tocar nos Mutantes. Em Loki?, ele retornava ao rock and roll primitivo, mas com uma cultura musical e lírica muito mais avançada que a que o gênero pede. Ele não está convidando o ouvinte para dançar, ele está falando sobre “Alice Cooper”, “o pessoa da Nasa”, “a minha velha motocicleta” e “disco voador”.
“Venho me apegando aos meus sonhos”, canta o compositor logo após transformar uma balada rock num boogie ao piano ao mesmo tempo que procurava seu rock and roll. Ele não finge mais, Arnaldo Baptista é Arnaldo Baptista, o artista por inteiro, todas as fantasias dos Mutantes não foram guardadas, foram queimadas e enterradas. Na capa do disco, posa de roqueiro sem camisa, vestido numa calça de couro e com uma arma na mão, sobre um fundo que inclui o espaço sideral e uma base composta dos próprios ombros de Arnaldo. Mas na contracapa, ele recorta o espaço que o roqueiro ocupa na mesma foto e posa sentado, despenteado, doido e próximo da morte, encostado numa estátua de um anjo com uma espada sobre sua cabeça, como se a imagem toda representasse que o roqueiro, o músico era apenas a armadura que seu cérebro, à beira do abismo, encontrava para sobreviver.
Ele pergunta-se o tempo todo sobre sua sanidade mental, como se fazer isso ajudasse sua recuperação. “Cê tá pensando que eu sou lóki, bicho?”, “Será que é difícil esquecer os males?”, “Será que eu vou morrer de dor?”. Do mesmo jeito, tenta resolver os problemas do mundo atual (“Não estou nem aí”) e futuro (“Navegar de novo”), pede desculpas mostrando seu amor a Rita Lee (“Desculpe, te amo podes crer”, “Uma pessoa só”, “É fácil”) e conversa sobre o que gosta de falar (“Vou me afundar na lingerie”, a bossa “Cê tá pensando que eu sou loki?”, “Honky Tonky”).
E viaja no piano. Tirando as declarações de culpa a Rita Lee, todas as músicas são explosões do pianista clássico que Arnaldo nunca fingiu não ser como gritos desesperados. Navegar de Novo, a instrumental “Honky Tonky”, “Uma pessoa só” e “Vou me afundar na lingerie” veem Arnaldo soltar os bichos através do instrumento, cantando e conduzindo os arranjos tudo de uma vez só, sem se preocupar com os possíveis erros dos outros instrumentistas. Procurava também o erro, a autenticidade do erro.
Quando o assunto não é piano, ele está em outros teclados, os sintetizadores, ou ao violão, como na irônica “É fácil”, em que, ao mesmo tempo que ensina o amor a Rita, mostra ao irmão, o guitarrista Sérgio Dias, no auge da briga que rachou a relação entre os dois, como tocar violão de 12 cordas “é fácil”.
No geral, o disco é verdadeiro e genuíno, um exercício de exorcismo do fantasma de sua banda anterior, como eram os primeiros discos de John Lennon (Plastic Ono Band) e de Paul McCartney (McCartney), após os Beatles. Como o disco de John, Loki? é um grito desesperado que libera todas as emoções que o autor sentia. Como o de Paul, é gravado instintivamente, sem pré ou pós-produção, o que desapontou Liminha e Dinho, que na época queriam regravar suas partes.
Mas Arnaldo sabia que não se devia regravar. Queria captar o momento, o instante, congelar o tempo dentro de um pedaço de vinil. E conseguiu. Com Loki?, ele mostra-se não apenas um dos artistas mais importantes e talentosos de sua geração, mas também um dos poucos artistas em que é possível acreditar.
Dafne Sampaio
Jornalista, fotógrafo, cientista social e um dos fundadores do Gafieiras