SÃO PAULO, 14 de maio de 2002
O morro não é alto e nem grande, mas é familiar, quente. Cravado no outro lado do Rio Pinheiros e vizinho ao câmpus da USP, zona oeste de São Paulo, o Morro do Querosene reúne movimentos variados em sua pequena extensão. Bem no centro do morro surge imponente a Igreja Racional, aquela que fez Tim Maia suingar como nunca nos LPs Racional (1975) e Racional Vol. 2 (1976), mas o grande referencial do local é a comunidade maranhense que organiza as festas de nascimento, dramas, aventuras e morte do boi. Foi em uma de suas ruas sinuosas que encontramos o gaúcho Luis Vagner.
O guitarreiro, autor de clássicos do samba-rock como “Segura a nêga”, estava no Macan Studios, propriedade de Márcia Casanova, cantora e sua atual companheira. Com dois andares, o pequeno prédio curiosamente consegue se fundir com a paisagem residencial do bairro, deixando Luis Vagner tranquilo com seus dreads de quase 25 anos e sua guitarra balançante. Assim o encontramos, sorridente e relaxado, em um dos estúdios de ensaio, onde jaziam pedestais vazios e uma bateria desmontada.
De conversa fácil e raciocínio aparentemente desconexo, Luis Vagner foi desfiando sua memória em gauchismos, golpes e giros no violão, Jovem Guarda, saudade, suingue, futebol (foi centroavante de time francês), análises pré-Copa do Mundo, o cosmos e um CD inédito de Zé Keti feito sob sua produção. O seu otimismo sem limites, fruto de ensinamentos budistas, só pareceu ter sido abalado pela morte, no final da década de 80, de um grande amigo, o cantor, percussionista e compositor paulistano Branca Di Neve.
A dor o fez sair do país e tentar a sorte na Europa, mas seu auto-exílio não durou muito. Sua “música planetária” é brasileira, familiar, quente, como nos versos de “Oi” (gravada por Branca Di Neve em Branca mete bronca! Vol. 2, 1989, seu segundo e último álbum): “Pra penetrar nos teus sonhos lindos / vou embelezar a minha voz / com chá e mel / coisas caseiras”. E é assim, entre o familiar e o cósmico, que o gaúcho guitarreiro segue evoluindo, perdido entre as coisas lindas.
por RICARDO TACIOLI
01. “Meu avô paquerou a velha lendo um jornal de cabeça para baixo“
02. “Com o Copacabana Serenaders conheci a Angela Maria, o Cauby e o Jamelão“
03. “Fiquei doidão com o Little Richard, o Chuck Berry e o Bill Halley“
04. “É importante o Sul reconhecer as tribos como a sua essência carnavalesca“
05. “Eu gostava muito de um grupo chamado Luizinho e seus Dinamites“
06. “O Bola Sete influenciou o Carlos Santana“
07. “O Franco agora é um boss, rei dos ditos KLB e Zezé Di Camargo & Luciano“
08. “O maestro Edmundo Peruzzi foi crucial em minha vida de arranjador“
09. “Fiz meu primeiro LP com o Ismael Corrêa, o lançador de João Gilberto“
10. “Os pais do samba-rock? Prefiro deixar para os bisavós“
11. “O presidente da RCA entrou e mudou tudo. Peguei o meu boné e fui embora“
12. “Eu queria ser Presidente da República!“
13. “Fui para a França com 50 dólares e 20 francos“
14. “Não sou um artista que conta com o apoio da gravadora“
15. “Um diretor-geral de nome francês falou “Esse não!“
16. “Em “Guitarreiro” eu roquei mais o samba“
17. “O Bob Marley falava em “roots rock reggae”. Eu falo em “samba-rock reggae”“
18. ““‘Não negai’ está errado!” Pois é, nóis fumo e não encontremo ninguém“
19. “Não podemos vivenciar uma cultura que não é a nossa“
20. “O iê-iê-iê brasileiro era diferente de qualquer outro rock“
21. “Com 42 anos, fui para a França e joguei em um time da 3ª Divisão“
22. “Gastamos 20 reais para fazer o LP do Zé Keti“
Luis Vagner [Enquanto acerta as cadeiras dos entrevistadores em uma das salas do estúdio] — Essas cadeiras estão muito loucas. [risos] — Isso é só para segurar as costas, né? Cuidado com essa daqui! Ela leva o nego para o mau caminho. E que site doido é esse, gurizada?
Daniel Almeida — Você não chegou a conhecê-lo, Luis?
Luis Vagner — Nada. Eu não conheci nada. Estava contando para o Ricardo, fui fazer um disco no Rio, voltei e não vi coisa nenhuma. Só ensaio e gravação. Fiquei por fora de tudo. Opa! [Flávio Monteiro acaba de chegar]
Flávio Monteiro — Oi, tchê!
Luis Vagner — Tudo bem?
Monteiro — Tudo bom?
Luis Vagner — Por favor.
Monteiro — Já estamos na ativa?
Ricardo Tacioli — Só estou calibrando o MD.
Monteiro — Já está valendo?
Luis Vagner — Os caras são violentos. Já está valendo? Êta!
Monteiro — Vai ser divertido.
[Luis Vagner mostra seu álbum de fotografias]
Tacioli — Você tem fotos dos Brasas?
Luis Vagner — Puta, não sei se tenho aqui.
Tacioli — Tudo bem. E com os Jetsons? [risos] Que é mais antigo ainda.
Luis Vagner — Tenho da orquestra do meu pai com a Angela Maria.
Dafne Sampaio — Copacabana Serenaders?
Luis Vagner — É! Aqui tem umas coisas. Deixem-me colocar os óculos. Fui correndo pegar o álbum hoje e me atrapalhei todo por causa de vocês. Sou atrapalhadinho por natureza. Tenho guitarra desde os 12 anos. Para se ter guitarra tinha que mandar fazê-la. Esse aí era o Bedeu. Grande compositor, locutor maravilhoso.
Sampaio — Você tem várias parcerias com ele, né?
Luis Vagner — Sim. Um grande amigo. Era dos “negão roqueiro”, manja como é que é, com 12 anos, lá no começo? Essa aqui é uma banda que eu tive. Eu, o Leno, o Raul Seixas, o Serginho, e esse aqui até agora não sei quem é. [risos] Tiramos fotografia, fizemos um show e nunca mais nos vimos. “Raul, porra, só na outra agora!” [risos] Meu estilo era esse daqui.
Monteiro — Quando você deixou os dreads?
Luis Vagner — Os dreads? Pela primeira vez em 76. Depois, 78.
Monteiro — E de 78 para cá?
Tacioli — Só cultivando?
Luis Vagner — Vinte e quatro para vinte e cinco anos. Agora parei aqui, né? Nessa reportagem, o Marcelo Fróes — phd em Beatles… Eu estava no dentista, abri um negócio e “Não é possível!”.
Monteiro — Vocês se juntaram para tocar Beatles?
Luis Vagner — Aqui era rock puro, um quinteto, duas guitarras, baixo e batera, essas coisas assim. Esse era o Raulzito. Um pouquinho depois desse encontro ele arrebentou com o “Ouro de tolo”. 1971, 72. E esse cara [n.e. Marcelo Fróes, pesquisador e produtor musical] fez uma reportagem em que cita o Raul e a influência dos Beatles, mas não me cita. Ah! Fiquei bravo. [risos] “Meu, tem uma falha no negócio! Sou da falange, mas sou da falange da negadinha. É, da negada, quando os Beatles influenciam o lado da black music brasileira, da música negra brasileira. Depois falei com ele. “Marcelo, tenho uma reportagem sua, não sei nem de que ano é.” Ele ria de montão. “Vagner, eu esqueci. Não liguei as coisas!”
Tacioli — Bom, acho que podemos deixar as imagens para depois.
Luis Vagner — Aqui com o Roberto Menescal. Peguei umas coisinhas. Não tem Os Brasas, mas estou aqui com o Franco, quando éramos dos Jetsons. O Franco vocês conhecem, né? É o pai do KLB, o empresário do Zezé Di Camargo & Luciano. Aqui era o nosso pacto de amizade quando menino.
Tacioli — Você ainda fala com ele?
Luis Vagner — Porra nenhuma! [risos] Estou aqui com Tom Gomes, a dupla de compositores, com 18 anos. Aqui, o compadre Branca Di Neve, o Marku Ribas, em 78. Aqui já era Os Garotos da Orgia, em Porto Alegre. Está aqui o Bedeu, eu, o Lelé — um compositor -, João Sete Cordas — famosíssimo lá. Muito som! Tinha uma influência do samba-rock nessa falange. Os Garotos da Orgia, imaginem! Aqui o meu avô, a minha avó e o meu pai. São fotografias dele. Ele era fotógrafo. Olhem a picada do negão! O negão era turista. O dia em que encontrou com ela, ele começou a aprender a ler. Paquerou a velha lendo um jornal de cabeça para baixo! [risos] A velha não agüentou. O jornal, na época, lá no sul, na fronteira, não tinha foto. O jornal de cabeça para baixo, e ainda fazia pose para ela. “Mas eu gostei dele! Fui lá e virei o jornal. Aqui é a letra ”A”.” E aqui é a minha mãe, só para vocês saberem, no dia em que eu a encontrei depois de 38 anos. Tinha perdido. Essas histórias, novela das oito. E aqui eu com as minhas filhas.
Tacioli — Você tem três filhas, Luis?
Luis Vagner — Tenho, tenho. Na verdade… [risos] São dois meninos e duas meninas, e uma que apareceu depois. Quase morri. Vocês imaginam o que aconteceu? “O quê?!”
Almeida — Mas muito tempo depois?
Luis Vagner — Quatorze anos.
Almeida — Poxa.
Luis Vagner — Aquela picada em que estou com o Raul é dessa época. Eu usava esse chapéu, esse casacão no Rio, em Porto Alegre, em qualquer lugar, tanto no frio, como no calor. [risos] Ô, Luiz! [Luiz Paulo Lima, assessor do Luis Vagner, chega e cumprimenta todos]
Tacioli — Ótimas fotos!
Luis Vagner — Legal, né?
Tacioli — Posso colocar o microfone na lapela?
Luiz Paulo Lima — Olhem a viagem. Tem um divulgador que foi no Jô Soares e vendeu o seguinte: “Fala para o Luis não comentar com ninguém que há 24 anos que ele não corta o cabelo.” E eu falei: “Caso você tenha esquecido, ele é compositor e cantor.” Uma curiosidade passou a ser o principal, e o principal passou a ser um detalhe. É uma inversão de valores! Você fica quebrando o pau o dia inteiro.
Luis Vagner — A vida inteira.
Monteiro — O Dafne tem uma definição boa para isso. “A perca de valor”!
Luis Vagner — É a perca, a perca, a perca! [risos]
Tacioli — Vamos começar?
Monteiro — Bom, vamos falar de música, do começo, da infância. Você falou que seu pai tinha banda. Quando você começou a se interessar por música?
Luis Vagner — Nasci na cidade de Bagé, fronteira com o Uruguai, e muito cedo, aos quatro anos, vi a separação dos meus pais. Papai foi viver em Santa Maria. Minto. Antes foi para Don Pedrito, e só depois, para Santa Maria. Aí cheguei em Santa Maria. Eu já gostava de ouvir música, mas não sabia nada ainda. Eu só me lembro vagamente de um grande tocador de bandoneon, um exilado político, que passou uma temporada com a gente em Bagé. Nunca vi olhos tão tristes de um homem, uma coisa melancólica. Aquele instrumento tinha um sentimento de aflição e, ao mesmo tempo, era espiritualmente evoluído, ou “evoluinte” — não sei se existe essa palavra. Desde muito cedo eu gostava de sentimentos que provocavam uns choques. Bom, logo que fui para Santa Maria, com seis, sete anos, papai começou a tocar em uma orquestra. Foi a primeira vez, então, que eu tive a oportunidade de ver música, de ver uma grande música, sabe? Metais, saxofones, clarinetes…
Giovani Cirino — Qual era a orquestra?
Luis Vagner — A Copacabana Serenaders. Eu me lembro de músicos como o Limão, baterista. Foi com ele que tomei, pela primeira vez, uma caninha com limão, de 7 para 8 anos. Foi ele quem me deu. Do lado da bateria tinha um copinho… Por que o apelido dele era Limão? [risos] Limão me aplicou e eu fiquei corajoso, queria tocar também. Depois que gravei o programa do Faro, Ensaio, eu tive notícias desses músicos que assistiram lá em Santa Maria, músicos como o Setembrino, que está na foto com papai, e alguns ainda daquela época. Eram saxofonistas, clarinetistas. Eu me lembro de Maria Bethânia no piano, tinha a família do Adão Pinheiro, o Paulo Pinheiro, pianistas que até hoje tocam pelo Brasil. Lembro-me do Pantera Trombone, Caçapa, músicos que eu cito o nome porque foram o meu primeiro contato profundo com a música, que era já o jazz, a música do Duke Ellington, do Benny Goodman, Art Shaw, Count Basie, da orquestra do Severino Araújo, com aqueles repertórios. E com 7, 8 anos, foi a primeira vez que entrei em um concurso de dança e ganhei. Rock and roll. Eu e meu irmão. [n.e. “Rock & Roll” no Clube União Familiar, em Santa Maria] E na sexta-feira, no SESC Pompéia, tive a honrada e orgulhosa presença do Jamelão, que já havia cantado nesse clube há muitos anos, um clube onde o Lupicínio Rodrigues começou sua carreira. Aí, através dessa orquestra e nesse clube, conheci a Angela Maria, o Cauby Peixoto, o Jamelão. Então, muito rapidamente eu comecei a viver uma cultura espiritual dentro daquele ambiente de músicos. E ali foi me despertando algo que eu nunca soube explicar, mas naquele momento parece que eu concebi a música minha. “Eu vim ao mundo para fazer isso que essa gente faz, do jeito que eles fazem, uma música fundamentada, que tem mil coisas, uma harmonia em que o respeito é importante”. Ali veio o meu despertar. Sempre vim da música. Foi o meu elo, o meu caminho. Tive também a oportunidade de ter um avô — Mário Lopes Brasil, seu criado — que era um negro de Rosário do Sul, muito forte e altruísta, um homem que se empenhou em fundar escola. Ele era fotógrafo, dançarino e declamador. Essa veia artística sempre existiu na minha família.
Almeida — A música não veio através do rádio, e sim da família.
Luis Vagner — Isso, ela veio de casa, com a oportunidade de ser educado, de ouvir esses grandes músicos. Ouvia Alberto Castilho, que eu não sabia se era o Don Antonio, se era um daqueles que estavam com o bandoneon lá em Bagé, aquelas coisas de fronteiras. Ouvia muito o canto Nat King Cole. Dos brasileiros, muito Jamelão, Dupla Ouro e Prata, Elza Soares e Miltinho.
Tacioli — Você ouvia muito rádio, Luis?
Luis Vagner — Rádio? Ouvia. Era assim: o avô, a avó, papai, a mana Cemiramar e eu. Já era independente, tinha o meu canto, o meu quarto, e eu roubava um radinho do pai quando ele não estava. Aí ficava procurando as rádios, freqüência modulada, não é isso? Rádio Nacional, Mayrink Veiga. Aqui de São Paulo pegava a Nove de Julho. E quando pintou o rock and roll com o Sergio Murilo [n.e. Cantor carioca, 1941–1992, intérprete de “Broto legal” e “Marcianita” e famoso por versões de rocks de Paul Anka e Neil Sedaka], Cely Campello [n.e. Cantora e representante dos primeiros momentos do rock and roll nacional. Nos anos 50 gravou “Estúpido cupido” e “Banho de lua”], Tony Campello [n.e. Cantor e produtor paulista nascido em 1936 e dono dos sucessos “Boogie do bebê” e “Pertinho do mar”] e Demétrius [n.e. Cantor e compositor, gravou “Ritmo da chuva”, versão de “Rhythm of the rain”, de John Gummoe, um de seus hits], que foi também o primeiro a gravar uma música minha. Era o meu ídolo. Mais tarde começou a pintar o Erasmo, o Roberto, a Wanderlea. Aí eu já tinha saído de Santa Maria e me mudado para Porto Alegre.
Sampaio — Então, na sua família, o que primeiro você ouviu foi jazz orquestral?
Luis Vagner — Sim. E chorinho, Pixinguinha.
Sampaio — E como foi a chegada do rock aos seus ouvidos?
Luis Vagner — O rock? O papai me levou para assistir a um filme, No Balanço das horas [n.e. Película que estreou no eixo Rio-São Paulo em janeiro de 57 e, em Porto Alegre, em fevereiro]. E eu voltei para casa e escrevi no violão — já havia ganho um violão — “Rei do rock and roll”, escrevi do meu jeito. Mas o meu rock and roll já era uma fusão de tudo aquilo… Uma harmonia blues, três acordes — eu já conseguia fazer esses três acordes. Então, eu cantava tudo que era música com aqueles três acordes. Passava o dia inteiro improvisando, sabe como é? [risos] Ah! Que maravilha! Daí eu vi Little Richard, Tina Turner, Chuck Berry, Bill Halley e seus Cometas, os Diamonds.
Almeida — Mas você já comprava discos, Luis?
Luis Vagner — Não, não. Eu tinha 8, 10 anos.
Tacioli — E como o seu pai, que tinha uma formação jazzística e de música instrumental, recebeu essa coisa do rock and roll? Teve alguma imagem ou alguma frase que marcou esse momento?
Luis Vagner — Não, foi o papai quem me levou ao cinema. “Tem uma onda no mundo agora, da juventude, eu quero que você veja qual é! Vamos para o cinema!” Daí já saí doidão de lá. [canta] “Lucille …” Fiquei doidão com o Little Richard, o Chuck Berry e o Bill Halley, solo de guitarra. [vocaliza o solo] Fiquei doidão! “Sou dessa tribo aí! Eu sou dessa tribo aí!” [risos]
Monteiro — Foi aí que você descobriu o que era a guitarra?
Luis Vagner — Foi, porque eu tocava violão. Eu ganhei um violão de um cara que faltou com o respeito com a minha avó no restaurante do vovô. O cara mexeu com a vó — não sei se tentou passar a mão nela — e vovô deu uns “facãozaços” nele. “Já que você deve, passa esse violão pra cá! E vai-te embora, saia daqui!”. Meu primeiro violãozinho! Foi assim. E me despertou muito cedo. Aí comecei a cantar, queria cruzar com os amigos que tivessem uma ligação com isso também, e era difícil ter um amigo com a mesma idéia. E eu, menino, jogava basquete e futebol nos clubes da cidade, que eram o Rio-Grandense e o Ideal. Um era o clube da cidade, e o outro era um de time amador. Eu jogava basquete no Atlético.
Sampaio — Você chegou em Porto Alegre com uns 12 anos, então?
Luis Vagner — Isso, com uns 12 anos.
Sampaio — Com a família toda?
Luis Vagner — Com a família toda. Papai foi transferido para lá em 61, 62.
Sampaio — Aí Porto Alegre, guitarra…
Luis Vagner — Porto Alegre, guitarra, Jetsons.
Tacioli — Como o grupo se formou?
Luis Vagner — Fui morar no Partenon, alto de um morro, muito bonito, Igreja de São Antônio, aquelas coisas. Porto Alegre já me envolvia. Eu só tinha passado por Porto Alegre uma vez, quando uma tia minha foi se casar e fui ser aio, aquele que leva aliança. E quando estive por lá nessa ocasião, o Carnaval estava perto e eu fiquei. E com 10 anos de idade, eu fugi de casa para assistir ao Carnaval. A raiz carnavalesca do Rio Grande do Sul são as tribos. Hoje, já não está assim, e sim aquela cópia descarada do Carnaval do Rio de Janeiro, de escola de samba. Nesse último Carnaval deu a maior confusão. Acho horrível para a formação da gurizada, para a cultura da terra, sabe? Fica meio sem alicerce, sem uma base cultural importante. E está acontecendo isso. É importante o Sul do Brasil reconhecer as tribos como a sua essência carnavalesca maior, da festa do povo.
Almeida — Luis, como era esse Carnaval?
Luis Vagner — Esse carnaval era muito bonito. As batidas, os sons dos negros daquela região são diferentes. O samba no sul é diferente. Ele é tocado a três, e não a dois. [sonoriza o compasso] Tudo quebrado.
Cirino — Seis por oito.
Luis Vagner — Tudo no seis por oito. Tudo pensado em três, sabe? Só que um toca em três, o outro em três e meio, três e um quarto. [sonoriza] É diferente. É lindo! E isso jamais vazou! Nesse disco Brasil afro-sulrealista eu tinha uma vontade infinda de realizar esse trabalho, como um débito de gratidão e um exemplo para a rapaziada prestar atenção mesmo na sua essência, ou seja, uma evolução interior honesta, de coisas vividas, sentidas, para que se tenha uma comunicação correta com o seu povo. Esse é o artista!
Monteiro — E a forma de tocar esse samba tem a ver com influência da região?
Luis Vagner — Sim, tem. Totalmente. Se você pegar a música regional, que faz a fusão mesmo no sul do Brasil, você tem uma influência cisplatina. Já corre isso. Porque esse lado da América do Sul é o elo: cisplatina, andina, tem essa ligação, e os negros dali desenvolveram um modo de tocar. Por exemplo: quando se toca um xote, um vanerão, uma rancheira no sul do Brasil, percebe-se que é muito parecido com a reggae music. Mistura que funde a milonga, os tipos de baixaria [sonoriza] [risos] E os “negão” tocando. Tem muito tambor, tem que fazer o “plim plim / plim plim pó”, aí tem essa característica. Quando o reggae pintou, parecia que eu já conhecia aquilo ali. É parecido! Não sei se é essa coisa da falange africana, com negros aqui e outros lá. Ninguém ficou sabendo de onde eram. Essa estrutura cultural do sul do Brasil nunca vazou dentro do próprio país. É a soma que precisa, da alegria, da safadeza. Existe também um lado mais tenso, dos negros que lutaram, que usaram lanças para se defenderem.
Luiz Paulo Lima — O povo de fronteira.
Luis Vagner — O povo de fronteira. Tem uma coisa da natureza… é muito importante. Sempre me preocupei com esse lado, porque eu vim para cá [São Paulo] muito cedo e eu não me encaixava em grupo nenhum. Eu não era baiano, não era nordestino, não era de um grupinho, mas eu tinha uma visão. E na minha terra não havia um grupinho que viesse para entrar nesse sistema, era uma outra visão. Então, às vezes, eu me sentia deslocado, mesmo ali na Jovem Guarda, no Tropicalismo, quando começou a ter uma separação, um tipo de separatismo, uma diferença de estrutura ou intelectual, ou cultural, ou espiritual, ou ainda de sabedoria humana, mesmo, porque vivíamos quase todos juntos, mas não dava, não se tinha diálogo, não se podia chegar, era diferente. Não estava preparado, era alienado. Havia mil choques. Eu enfrentei. Pelo menos enxerguei dessa maneira. Tudo o que aconteceu nessa música que hoje, para mim, é a música planetária brasileira, foi isso aí. Depois começou a evoluir…
Cirino — Você acha que parte dessa diferença era por causa de sua raiz musical?
Luis Vagner — Olha, não era só por isso. Fiz parte do primeiro movimento da Jovem Guarda. Era pureza, não havia um esclarecimento de atitude política. Não era essa a proposta, mas sim mais a musical. Quando pintaram grupos com outras mentes, era perfeito, era uma soma, ou seja, havia a possibilidade de um contato, e através desse contato, uma evolução. Esse era o ponto. Mas esse contato se dava com muito atrito, com a briga do iê-iê-iê com a bossa nova, o jazz. E ao mesmo tempo, era tudo uma bobagem, já que existia um conceito de alienação tanto do lado de cá, quanto do lado de lá, porque se fechava a possibilidade de união, de uma fusão. Isso me fez pensar muito sobre o significado de ser artista, ou músico, ou alguém que tem uma responsabilidade no momento em que passa a se dirigir às pessoas, à multidão. Tudo certo, porém o ponto mais importante é a possibilidade de evoluirmos como ser humano.
“Gastamos vinte reais para fazer o LP do Zé Keti!”
Monteiro — Vamos voltar aos Jetsons.
Luis Vagner — Tá.
Monteiro — Jetsons era o comecinho e puro rock and roll. Em que momento você percebeu que “Mas a minha música não é o que o Bill Halley faz. Ela é mais do que isso!”? Quando você acordou para isso?
Luis Vagner — Desde o começo. Sempre pensei nisso, porque quando peguei esse violão, eu já toquei um samba-rock, mesmo. Não foi a cópia do rock and roll, como você vê nos grupos. Cópia da idéia, cópia dos timbres, cópia de tudo, entendeu? Sempre procurei fazer uma música acoplando a informação planetária — que é necessária — com a minha naturalidade, a minha autenticidade como músico, como artista, a minha letra vivida. Foi daí, do meu próprio sentimento, que fui extraindo essas coisas que penso que sejam comuns a todos, ao mesmo tempo, em que posso oferecer uma visão dessas experiências.
Monteiro — Naquela época você já compunha?
Luis Vagner — Desde muito cedo que eu componho. Eu já compunha nos Jetsons, mas uma música instrumental.
Luiz Paulo Lima — Os The Jetsons.
Luis Vagner — Os The Jetsons! [risos] Os The Jetsons, esse é o detalhe! [risos] “Eu sou do Os The Jetsons!” [risos]
Almeida — E você tem registros sonoros dessa época?
Luis Vagner — Sonoro eu não tenho.
Tacioli — Você pode pegar o violão?
Luis Vagner — Posso. [toca uma seqüência de acordes] A primeira música que fiz para o violão foi assim. [toca] Aí fiquei fazendo assim. Acho que quando errei a mão, deu o efeito que eu queria. Não tinha aula, não tinha nada, era tudo no amor à… [toca] Tá vendo? [canta “Lucille”, sucesso de Little Richard] Não existia técnica alguma. E a letra em inglês é minha! [risos] [canta trecho de “Good Golly Miss Moly”, hit de Little Richard em 1957] Na época eu dizia [canta] “Um gole, Miss Moly”, do seu café, qualquer coisa, cara! Inglês, nada! Nessa época dos Jetsons, a gente já tocava umas músicas como “Blue star” e músicas instrumentais. Depois começamos a misturar coisas. Tocava… [toca] “La Violetera”. Não queria nem saber do que se tratava. Tudo instrumental, porque naquela época acho que não existia microfone de canto. Os Jetsons foram muito importante por isso, pelo lado das duas guitarras, do baixo e da batera, que começou a me dar uma visão diferente, ouvindo os Ventures, dos Shadows; no Brasil, Jet Blacks, The Jordans, Clevers, Incríveis. Existia um grupo de rock and roll do Rio de Janeiro que eu gostava muito chamado Luizinho e seus Dinamites, vocês conhecem? Luizinho e seus Dinamites! [canta] “Esse choque me queima / faça-me o favor de desligar”, “qué qué qué”, umas guitarras assim… [canta] “Quando a invernada de Olaria vier”. Eu gostava daquilo porque eles me falavam de coisas do Rio. “Pô, essa invernada de Olaria deve ser um negócio legal!”. Ia me despertando. Quando esses guris do Ultraje a Rigor fizeram [canta] “Vamos invadir a sua praia” eu gostei bastante. Gostei desse tipo de rebeldia e desse ímpeto bacana na atitude. “Vou invadir a sua praia”. E “Quando a invernada chegar”… Devia ser um arrastão da época. [risos]
Luiz Paulo Lima — Desculpem-me, mas tem um detalhe legal: você mandou fazer a primeira guitarra porque não havia para venda, né?
Luis Vagner — Não, não havia. A primeira guitarra que mandei fazer foi com o Adão, da Milsons. Isso já foi detalhado nos livros de lá. Demorei uns quatro meses para ter essa primeira guitarra. Ia todos os dias na loja, caminhava muito, umas duas horas. Ia lá, via o Adão fazer um traste e voltava. Todos os dias, durante uns quatro meses. Fiquei com essa loucura. A guitarra está na capa desse último disco, numa foto dentro. Ela tinha um sonzinho interessante, mas pesava tanto! E o aparelho da Milsons era assim: no baile, a gente o colocava ali, e conforme o volume ia aumentando, ele vinha pulando e ficava aqui. [risos] Era assim, cara! Jetsons. Isso era 62, 63, 64.
Tacioli — Que expectativas vocês tinham nessa época com a formação de uma banda? O que vocês esperavam que pudesse acontecer?
Luis Vagner — Na verdade, depois disso pintaram os Beatles e aí começamos a desenvolver o vocal. Gostei muito dos Beatles. Tive a oportunidade de aprender muito com eles, pela mente evolutiva deles como músicos, compositores — principalmente o Paul e o John. Uma evolução muito grande, de “She loves you”, “I wanna hold your hand”, até chegar em “Michelle”, Sgt. Peppers, Revolver. Fazíamos aqueles covers e aprendíamos, “Puxa, que interessante, o cara compõe assim, compõe assado!”. Beatles deram esse avanço ao mundo moderno. Foi quando eu escrevi o “Guitarreiro”, [recita] “Naquele tempo eu gostava dos Beatles, tinha os negos veio que eu gostava muito mais”, uma expressão de saudade, e de algo profundo que eles fizeram a gente entender. O que eu esperava era a oportunidade de vir tocar em São Paulo. Quando o Renato e seus Blue Caps foram para Porto Alegre — um conjunto de que eu gostava -, vi o Roberto Carlos. Aliás, com os Jetsons, toquei guitarra em pé, guitarra deitado, guitarra com ferrinho, guitarra sem ferrinho, de tudo quanto é jeito, porque o Roberto Carlos não chegava ao show, no ginásio do Corinthians [n.e. Ginásio Corinthians Atlético Clube], em Santa Maria. Depois, o Roberto chegou com um trio. Vi o trio tocar e falei “Vou para São Paulo! Ele é o Rei! Então, posso ir!”. [risos] É verdade, assim que eu senti naquele momento. “Rei Roberto!” Inclusive, até nesse dia, nós saímos juntos e sofremos um pequeno acidente numa Kombi. Isso lá por 62, 63, acho que até era 64, ele já estava no calhambeque. [n.e. Referência à música “Calhambeque”, sucesso de Roberto Carlos] Em 66, viemos para São Paulo. A vontade era vir para cá, galgar algum caminho e conhecer a turma. Tínhamos uma grande ilusão de ter uma condição de vida melhor. Mas nós, já como Os Brasas, tivemos muita boa sorte, quando chegamos. Em um mês fomos contratados pela Rede Excelsior, na época de televisão, para acompanhar os cantores. Enfim, ser um grupo de lá. O primeiro dia que a gente tocou foi em um show no Ginásio do Corinthians. Apresentamo-nos e fiquei muito feliz, porque o Gato — guitarrista do Jet Blacks, um ídolo meu — estava lá, como o Aladim, e todos os guitarristas. Aliás, todos os guitarristas eram meus ídolos, porque eu só sabia deles, já que aprendi sozinho ouvindo discos. Toquei uma música, “Blue dog”, dos Jet Blacks, e quando terminei, o Gato perguntou para mim qual a caixa de eco que eu usava. Eu não usava nenhuma! Vocês imaginem, quando eu tirava o som do disco, eu tirava o eco do disco também, tirava tudo! [risos] Desenvolvia uma outra técnica.
Cirino — Que nem ele mesmo tinha.
Luis Vagner — Não, não, “Que caixa de eco é essa em que tudo está com a repetição certinha?!” Não sabia nem o que era caixa de eco. “Caixa de eco?” [risos]
Monteiro — Luis, inegavelmente, os Beatles são os responsáveis por essa evolução na música pop, mas, por outro lado, a profissionalizou. E no começo da nossa conversa você disse que a busca dos Jetsons para se tirar músicas era muito intuitiva. Hoje, um menino não começa tirando um som intuitivamente, ele tem noção de onde quer chegar. Um músico atual já tem uma visão menos mágica da música, com raríssimas exceções. Enfim, você acha que essa profissionalização atrapalhou?
Luis Vagner — São duas coisas que eu enxergo. Eu acredito, em primeiro lugar, na evolução do artista como ser humano para se ter uma grande evolução interior, para que ele possa realmente chegar às pessoas e cumprir uma missão. Hoje em dia o papel do artista está muito em torno de vender discos, de ser sucesso, mas em outras épocas não era assim. Na realidade, isso é uma conseqüência desse business total que você está falando. Pela evolução dos tempos, é natural que as pessoas tenham a oportunidade de estudar e evoluir e tal. Mas, para mim, o ponto principal é o desenvolvimento de si perante isso. Porque você consegue aprender com muitos músicos o tempo inteiro, se você tem essa oportunidade de convívio e de troca de energia humana. Aí, para mim, é que está o grande barato. A síntese disso tudo está na relação. Por exemplo, tive como ídolo da guitarra brasileira o Mão de Vaca, conheci Nilton Baraldo, do Rio Grande do Sul, Olmir Stocker. Eu pegava um acorde, mas era muita técnica e eu não conseguia entender aquela coisa. Mas havia um chamado Bola Sete. Passei a vida inteira procurando as coisas do Bola Sete. Não consegui vê-lo nos lugares; vi pouco. Sabe com quem eu tive a oportunidade de ver o Bola Sete tocando? Foi com o Carlos Santana. Foi na aula do Carlos Santana. O Bola Sete foi um guitarrista que influenciou o Santana, um músico de tendências roqueiras, mas também com tendências rítmicas da falange de sua terra, México, Porto Rico. Enfim, ele foi influenciado porque sentiu o que era a magnitude e a autenticidade do Bola Sete como músico brasileiro. Ele teve que ir embora do Brasil, onde estava à margem, para se tornar um grande artista, um guitarrista mundialmente reconhecido. No discoSwingante eu presto uma homenagem a ele, particularmente na música “Saudade do Jackson do Pandeiro”. O Carlos Santana, que é um dos grandes heróis mundiais da guitarra, foi o único guitarrista que falou do Bola Sete. Sempre ouvimos falar dos mesmos: Hendrix, Eric Clapton, B. B. King. Mas um brasileiro como exemplo mundial? O primeiro foi o Bola Sete. Isso é muito bonito! Então, quando temos a oportunidade de nos embrenhar no porquê se faz música, onde se quer chegar, qual o seu interesse em tocar para as pessoas, em fazer com que elas sintam algo diferente no momento em que você toca, você faz um entrelaçamento humano, espiritual. Esse é o ponto um do artista para mim. O resto pode ser o que for, vender discos, não-sei-o-quê. Aí entra um processo que eu respeito, mas não entendo a música ou o trabalho de um artista por esse lado. O que me toca mesmo é algo mais profundo. É a oportunidade que eu tenho de cruzar com vocês, de dar um alô aos amigos, algo que possa ficar, que qualquer ser humano sinta que você deu o melhor de si para fortificar uma amizade, um convívio. Esse é o ponto. Certo? [silêncio]
Monteiro — Mas quando você chegou com os Brasas em São Paulo, você caiu no show business da época. E aí?
Luis Vagner — Foi uma beleza! [risos] Para você ter uma idéia, nós chegamos, fomos contratados e no primeiro dia tocamos uma música muito bonita. No domingo, o cara falou “Durante o comercial vocês fazem ”danran danran danran””. Daí eu fiz, “danran danran danran daann / pa ti bu du blá blu”. Era o comercial, tudo ao vivo. Não teve comercial! Nós tocamos cinco minutos sem parar! O diretor ficou bravo, todo mundo ficou nervoso, aquele inferno! “Ué, não entendemos direito a mensagem!” Logo depois que gravamos o disco, o cara falou “Tem que caitituar!” Fomos trabalhar o disco depois de um ano. A gente não sabia que havia um processo, que tinha que ir nas rádios. Não sabíamos mesmo! A gente era bastante fora. A primeira vez que nós fomos fazer oPrograma do Chacrinha, chegamos ao aeroporto às três horas da tarde, para estar lá às sete, oito da noite, e encontramos com a turma quando eles estavam voltando. Ficamos sentados no mesmo lugar. Colocamos os instrumentos e ficamos ali, até onze e meia da noite.
Almeida — Você não foram ao Programa?
Luis Vagner — Não, não fomos! [risos] Ficamos sentados ali. Ninguém veio falar com a gente e não fomos falar com ninguém também! [risos] Sei lá como é que é isso! Até entender… Éramos fora mesmo! O Franco agora é um boss, rei dos ditos KLB, Zezé Di Camargo & Luciano. Ele foi quem lançou toda essa rapaziada. Falando disso agora, lembrei-me que a primeira vez a gente nem sabia como é que se pegava um avião. E hoje o cara está com um avião particular. “Que bacana, hein! Progrediu! Já é piloto?” [risos] “Acho que agora vou para o programa. O meu amigo me leva!” [risos] Mas era mais ou menos assim, a gente não entendia. Tínhamos um empresário que deixava a gente em casa. Íamos para a televisão, tocávamos na rua Augusta. 1966. Era rock and roll a noite toda. Eu já compunha, fazia umas músicas diferentes, mas aquele era o som, o momento. O Jorge Ben ia para lá toda noite, o pessoal da Jovem Guarda ia nos ver.
Luiz Paulo Lima — Onde?
Luis Vagner — Boate Saloon, na rua Augusta. [canta e faz percussão no corpo do violão] “Desci a rua Augusta a 120 por hora.” Era twist, era uma onda, juventude era isso, era efervescente, tinha um lance lindo. E tinha uma pureza também.
Tacioli — Que músicas você destaca dessa época, Luis?
Luis Vagner — Eu cantava uma versão do Tom Gomes. Era um sucesso. [toca a abertura e canta] “Gata / Gatinha louca / Estou biruta / Gata”. Essa aí era uma. A gente fez sucesso com uma música [toca a introdução dedilhada]… Aí quem cantava era o Franco e o Anydes [canta com voz fina] “Ai que bom se eu tivesse / você juntinho a mim”. Cantava tudo com uma voz de grupo inglês, voz muito alta, e eu só fazia voz baixa, de negão, já era rouco. Estouramos com essa música. Ficamos em segundo lugar no Brasil inteiro, e a gente não sabia, não tinha noção, honestamente. Queríamos tocar. Morávamos em um apartamento na rua Aurora, com umas dezesseis mulheres por perto: mãe, tia, avó, amante. Não tinha importância, a gente queria ir para as bocas tocar com os músicos da época que se encontravam. Ligar a guitarra, tocar, viajar e aprender. Eu, por exemplo, nunca consegui cruzar com o Lulu Santos, com o Herbert Vianna, com esses. Nunca consegui chegar perto. Não sei qual é a ligação. Naquela época, com os guitarristas a gente conseguia. Hoje a gente não consegue, existe uma distância. É o sucesso, né? Faz sucesso, vive lá, não vai tocar na boquinha com o outro. Mas nos planetas os caras vão, a negadinha do sofrimento se encontra. Aí vai tocar com o The Waillers, com a banda do B. B. King quando ela abre para uma canja. Aí toca. Tá bom! Trocar, esse é o ponto! Digo porque vivi em uma época em que a gente cruzava com os músicos, um época em que todos se encontravam, “Vamos tocar aquela”, sabe? Hoje é difícil. A pessoa que evoluiu compreende que é fundamental o contato, a oportunidade de dialogar, de se relacionar e aprender com todo mundo, um com os outros, o tempo todo, né? Esse é o maior business que a gente pode levar da nossa passagem pela Terra, o resto é… não sei, fica aí.
Tacioli — Os Brasas foram até 69?
Luis Vagner — Isso. O produtor perdeu a música que a gente gravou, “A gata”. Estávamos fazendo um disco — já vínhamos com o samba-rock incluso, com umas músicas de característica tropical, 100% brasileiras, “Depois da chuva”, “No posto 4”, “A gata”, “Menina Carolina”. Gravamos umas duas ou três coisas de grupos italianos, porque gostávamos muito das melodias. E também de compositores brasileiros como “Mulher rendeira”.
Tacioli — Li no site Senhor F que a versão de vocês de “Mulher rendeira” era bem punk.
Luis Vagner — “Mulher rendeira” era uma loucura. Na época tinha umas coisas assim. Sabe, estive agora no Rio Grande do Sul e fui elogiado por um menino que produz uns grupos, “A gravação de vocês do ”Beija-me agora”…” “”Beija-me agora”?” [risos] “Tinha uma bateria…” Não sei o que ele disse. “É mesmo? Mas que beleza!” É uma coisa legal, mas a gente não tinha referência, não tinha como. Você cria as coisas porque você tem vontade de fazer e se expõe a tomar uma bomba atômica, uma pressão de ser chamado de qualquer coisa, de ridículo, por exemplo, mas você vê que no decorrer do tempo que você acreditou em algo que é a tua essência, que é honesto e sincero, independentemente do conceito que está sendo vivenciado no momento. Esses discos que fiz agora, fiz todos eles humanos, a bateria tocando, Luiz Américo, com participações especiais, Paulinho Cerqueira, Paulinho Calazans, Marcos Farias, Jorge Luiz Fox, com grandes músicos. Trouxe do sul Dê Santana, percussionista, Luiz Carlos de Paula; toquei com o pessoal do Funk Como Le Gusta.
Tacioli — Vocês também acompanharam o Ronnie Von em “Silvia, 20 horas, domingo”, não?
Luis Vagner — Isso. Uma composição minha e do Tom Gomes.
Tacioli — E como foi essa gravação? Como surgiu essa música?
Luis Vagner — Foi uma homenagem à Silvinha, esposa do Eduardo Araújo. O Tom trabalhou comigo na letra dessa música. Foi um momento legal, porque conseguimos gravar também com a Cely Campello [canta] “Lacinhos cor-de-rosa / Que você tem em sua cabeça / Se quiser me conquistar / Você cresça e apareça”. Eu chorava quando ouvia essa música. Gravamos com o Demétrius e Sérgio Reis, inclusive uma versão de “Here, there and anywhere”. A gente gravava com todo mundo da Odeon. E depois eu ia para o Rio de Janeiro e gravava com os músicos do Renato e seus Blue Caps, na CBS, com o pessoal dos Fevers, com o Marcelo Sussekind. Gravava com essa rapaziada. Tivemos um programa na televisão Tupi, do Rio de Janeiro, Os jovens maravilhosos e seus ritmos alucinantes, e a gente acompanhava todo mundo. Era uma outra natureza, enfim, a gente não se via somente só como um conjunto de frente, mas acompanhando as pessoas que cantavam. Havia isso na nossa época! Quando o maestro Edmundo Peruzzi apareceu — ele foi crucial para nos tornarmos um bom grupo de estúdio, para nos despertar para outros caminhos que tem o músico em seu desenvolvimento — fortificou muito a minha visão, a minha prática de arranjador de base — não de cordas — para os meus discos. Ele foi crucial em minha vida. O pessoal fala muito em Rogério Duprat, mas naquela época, outro grande maestro jovem que deu um grande apoio para toda uma geração de músicos de guitarras e metais se chamava Edmundo Peruzzi. Ele já fazia música negra na época: trompete forte, com metais rítmicos. Trabalhamos com Eduardo Araújo, com a Silvinha. Os Brasas também fizeram muito sucesso com o Deno & Dino. Chegamos a gravar com muitas pessoas, e trabalhamos com maestros como Cyro Pereira e Renato de Oliveira. E isto tudo veio através desse homem formidável que nos ajudou. Então, é esse o lado do convívio, do aprendizado que eu estava falando antes.
Almeida — Já foi oferecida a você uma chance para torná-lo um sucesso nacional? Luis
Vagner –Dentro desse meio?
Almeida — De alguém te bancar como bancaram outros, “Isso aqui vai ser sucesso”, sei lá, talvez mais recentemente.
Luis Vagner — Não, não! Eu não vivi isso, não! Jamais. Sempre foi com muito esforço, e a ajuda dos músicos, das pessoas. Meus trabalhos sempre foram assim.
Tacioli — E você lamenta esse tipo…
Luis Vagner — Não, absolutamente!
Tacioli — Não?
Luis Vagner — Quer queiram ou não queiram. [ri]
Tacioli — Você acha que essa sua filosofia artística nasceu por não ter tido uma oportunidade de se tornar, como o Daniel falou, um sucesso nacional? Se você estivesse lá em cima você teria essa mesma filosofia?
Luis Vagner — Eu penso que sim, pelo menos eu me preparo para que seja assim, entendeste? Eu tive oportunidade de conviver desde 1966 com os grandes ídolos. Depois, com aquele coisa do rock nos anos 80 — até eu vi o Herbert Vianna falar que foram eles que trouxeram o business para o mercado do rock. Enfim, é verdade, as coisas tomaram uma proporção grandiosa. Mas isso nunca me pegou forte porque, como eu já falei para vocês, acredito no ser humano. É importante a gente ter uma grande boa sorte para passar por essa aí, cumprir a missão, fazer com que sua música seja conhecida pelas pessoas, e ter consciência de que você não vai durar para sempre, mas que neste momento em que você está passando por aqui você seja valioso como artista. O meu ponto é o seguinte: estar preparado para chegar às pessoas, dizer o que eu desejo, com a profundidade com que desejo, fazendo uma música que toque e que os amigos gostem de tocar. Honestidade. Esse é o meu ponto maior! O resto… acho que é isso mesmo.
Tacioli — Por que Os Brasas acabaram?
Luis Vagner — Eram quatro cabeças, cada uma pensando de uma maneira. O Anyres Marcos Rodrigues, o Edson da Rosa, Franco Scornavacca e Luis Vagner Lopes, cada um tinha, realmente, uma coisa. Em 69, estávamos em um momento já meio difícil para a gente, não estávamos mais entendendo aquele primeiro sucesso. Queríamos transformar isso, então, as pessoas começaram a aparecer. E quando fizemos esse trabalho, com essas músicas que o produtor perdeu a fita, algo aconteceu. “Não vai dar mais para continuar!” O Franco seguiu carreira solo, o Edson e o Anyres se tornaram músicos de estúdio, e nós acabamos o grupo em 69. Depois fui para o Rio de Janeiro, onde comecei minha carreira de produtor de discos trabalhando para a Continental e a RCA Victor. Em 70 fiz meu primeiro disco-solo com o mesmo lançador do João Gilberto e do Trio Esperança, que se chamava Ismael Corrêa, um senhor de olhos azuis claros, meio parecidos com os olhos de papai. Ele via algo do João Gilberto em mim! “Ê, deve ser maluco!” [risos] “É diferente!” Ele falava isso. “É mesmo?!” Então, graças a ele tive a oportunidade de estar junto ao Dilermando Reis, ao Cyro Monteiro, uns “nego véio” mesmo, uma falange muito forte, mas com um conteúdo humano profundo e com uma visão artística marcante. Codó, Dilermando Reis, violões mais altos. Não dava nem para pegar o violão perto dos velhinhos. “Toca aí do seu jeito!” [sonoriza] Nheco, nheco, nheco, nheco. [risos] Ao mesmo tempo que eles tiravam algum melindre, algum problema que você tinha de inibição, muito rapidamente eles faziam você não pensar nas coisas. Eu me lembro desses homens assim.
Monteiro — Tentando fazer um exercício de futurologia, se esse disco que o produtor perdeu tivesse saído, esse não poderia ter sido o disco — você comentou que ele estava bem pensado — que iria levar a sua carreira para um outro lado?
Luis Vagner — Naquele momento a gente ia trazer uma fusão do samba-rock, e logo depois eu dei continuidade a essa linha de trabalho, que o Franco pegou como caminho, e que fez algum sucesso. Se tivéssemos dado um paulada com os Brasas, a gente… não sei o que aconteceria, mas eu penso que logo a gente diria “Vou ter que trilhar pra cá, você vai para lá”, porque tínhamos visões diferentes da vida. Era isso.
Monteiro — E o samba-rock, como é que se chegou a essa fusão?
Luis Vagner — Desde a primeira vez que eu toquei…
Monteiro — Quem é o pai da criança? [risos]
Luis Vagner — O pai da criança! Eu prefiro deixar para os avós! [risos] Bisavós. Entregar ao Jackson do Pandeiro, Bola Sete. A verdade é o seguinte: o samba-rock é um nome dado pelas pessoas da periferia de São Paulo, que vem da música “Samba-rock, meu irmão”, do Gordurinha, e que o Jackson do Pandeiro gravou. Essa é a real. Agora, o tipo de ritmo que pegou foram as batidas do Jorge Ben, do sambalanço, do Luis Vagner, do Rio Grande do Sul, que são batidas e sotaques diferentes. Eu tocava guitarra, o Jorge tocava mais violão, e esse trabalho da gente vem desde lá. Como começamos a fazer esse disco, o Tim Maia gravou [canta] “Gostava tanto de você”, que tem um balanço samba-rock, que é de um pianista gaúcho, o Cidinho, esse que eu mostrei para vocês, que toca nos Estados Unidos. Ele também tem essa expressão do samba fundido. Então, esses dois pontos foram muito bem assimilados pelo pessoal de São Paulo.
Luiz Paulo Lima — Que dançava.
Luis Vagner — O pessoal da dança, 70. Na seqüência já pintou o Bebeto, que depois estourou no Rio de Janeiro, Trio Mocotó. Antes tinha o Lafayatte fazendo uns balanços diferentes, havia um que fazia samba-jazz, o Meirelles, Copa 7. Também o Orlandivo, que fazia um outro tipo de trabalho. Era um Brasil pop, entendeu? Posso estar esquecendo de alguém… O Erasmo também trilhou muito por esse caminho. O Miguel de Deus. Também tinha um pessoal que misturava com a soul music. Já em 70 fui conviver com o Tim, Cassiano, Hyldon, com a rapaziada que fazia essa coisa à Motown americana, com influência dali.
Monteiro — Então, na época não existiu um movimento do samba-rock com músicas e lançamento de discos, uma coisa fundamentada?
Luis Vagner — Não era assim.
Sampaio — Depois é que se organizou.
Luis Vagner — É, não era bem assim. Era uma falange que fazia uma MPB de um outro jeito.
Luiz Paulo Lima — E não se conheciam.
Luis Vagner — A gente se conhecia pelo convívio. Eu já convivia com Jorge, que havia tocado comigo. Tanto é que depois ele fez a música “Luis Vagner Guitarreiro” em minha homenagem. Bebeto, Luis Carlos de Paula, Marquinho, Branca di Neve, Marku [Ribas], que eu conhecia desde 66 também. Então, são pessoas com as quais sempre convivi. Tínhamos uma afinidade, ou seja, o modo como absorvíamos a música internacional, planetária, mundial, e como expressávamos suas raízes dentro daquilo.
Luiz Paulo Lima — Em Porto Alegre se chamava suingue.
Luis Vagner — Aí é que está: no Rio de Janeiro chamava-se sambalanço. Em Porto Alegre, suingue. E samba-rock em São Paulo, porque veio do pessoal dos bailes. E agora é uma grande alegria você conceber esse momento novo daquilo que você viveu lá atrás. Fiz um disco. Eu ia fazer o quê? Rock and roll? Bom, rock and roll já está incluso em meus discos. Reggae music? A reggae music está inclusa em meus discos. Todos os meus discos tem essa coisa. Digo isso porque quando toquei com os Waillers, com o Aston Barrett, que eu considero um dos grandes pioneiros da estrutura bass line da reggae music — o Carlton já tinha falecido -, ele ouviu e disse que era um reggae brasileiro. “Esse é um reggae brasileiro. Não é um reggae cópia da Jamaica, de timbres, de pegada, não! Tem uma coisa da reggae music, mas é Brasil. A gente não sabe tocar isso aí desse jeito, mas a gente sabe que é reggae. Mas tem uma outra pegada.” Sempre trabalhei a influência dessa maneira. A influência filtrada e preestabelecida. Filtrar essas influências e passar com a gama de coisas que você traz como artista. Esse é ponto. Tive uma oportunidade de gravar — não vou citar nomes — “Tá demais, tá demais, mas tem que ser mais George Michael!”. Não deu certo! Para George Michael eu tenho alguma diferença![risos] Outra vez foi um outro grande produtor, jornalista famoso, livros, “Eu quero mais still!”. Na quarta vez que ele pediu “mais still”, eu guardei a minha guitarra e falei “Chama o still!”. Não dá para ser o still, dá para ser o que você realmente é. Para essas coisas que abrangem o mercado, o cara fala “Quero mais assim ou assado”. E você responde “Meu, não dá!”. É um princípio, e o princípio está errado, mas é isso que domina o mercado. Nos meus shows, felizmente, as pessoas vão para ouvir música, para dançar, para compreender o momento em que estão vivendo, sem essa violência. Esse momento está conduzindo para um lado em que as pessoas vão se maltratando, dando porrada umas nas outras, umas coisas que não fazem sentido para ser “humano”, né? Esse é um ponto pelo qual eu sempre luto, que a gente consiga transformar, e que existam artistas que tenham essa finalidade, de fazer música para todo mundo evoluir.
Almeida — Luis, dessa época em que você ficou esperando no aeroporto para agora, o que você viu acontecer no mercado fonográfico?
Luis Vagner — Olha, muitas coisas musicais bonitas…
Almeida — Mas como o mercado passou a interferir na produção…
Luis Vagner — O mercado está gastando muito. Hoje se gasta demais! [ri] Sabe o que eu quero dizer com isso? Hoje em dia inventam-se artistas. Algo que vai conduzir, cada vez mais, a uma liderança perdida de estrutura cultural, de uma formação de povo, porque aqueles que vem do povo, que são pessoas com trabalhos sinceros, têm uma dificuldade muito grande em realizar. A autenticidade não é respeitada. Não é respeitada uma série de coisas. Talento todo mundo tem, mas quando querem direcionar, como está acontecendo com o Brasil, “É isso” “É só isso”, “É aquilo”, “É só aquilo”, outras pessoas ficam à margem. E essa distância do povo é responsabilidade desse pessoal. Vejo em vocês, jovens jornalistas, um outro momento. Temos a possibilidade de conversar sobre coisas da experiência humana vivida por um artista, um artista que sempre caminhou nessa vontade de fazer com que se evolua em todos os sentidos. Fui produzir, dirigir discos dentro de gravadoras e não consegui passar mais de um ano e pouco. Produzi Rosinha de Valença, os Namorados do Caribe, os Diagonais, e para todo mundo eu sempre quis dar força. Quem entrasse no estúdio para gravar o que fosse, eu queria participar, dar a minha idéia, somar com outras pessoas. Depois ficou esse negócio de diretor, de produtor, e aí fica tudo em um grupinho aqui, um grupinho ali, um artista vai ter um investimento de tanto, o outro de tanto e o outro não vai ter nada. Automaticamente, aqueles que tem o poder ou que são amigos daquela turma vão por ali, o resto a gente não sabe. Isso me assombra, ao mesmo tempo em que você fala “Por favor, estou fora! Vou ligar minha guitarra na quebrada!” Esse é um ponto que para mim obstrui a oportunidade da nossa evolução. É só isso que eu posso dizer para vocês.
Monteiro — Durante sua carreira de produtor houve algum disco que você fez em que “Tenho que fazer isso porque aquele filho-da-mãe está me pedindo”? Ou os que você produziu conseguiram sair ilesos?
Luis Vagner — Ah, não, não… Teve um que fiz, da Orquestra Namorados do Caribe, de um maestro carioca, pai do Ivan Paulo, em que chegou um homem que era o presidente da RCA na época, entrou no estúdio e mudou tudo. Peguei o meu boné e fui embora. É um desrespeito total! Ele era presidente, mas quem estava produzindo era eu. Nesse momento, nesse disco, abandonei a carreira. Mas fiz discos que gostei de ter feito, como dos Diagonais, que era o grupo do Cassiano, que tinha saído; da Rosinha de Valença tocando com Wilson das Neves, com Luizão Maia, com o maestro Severino Araújo Filho, filho daquele que eu ouvia com oito anos. Então, tudo isso para mim era motivo de orgulho, motivo de evolução. Eu me sentia honrado de ser um menino e estar ali dirigindo, ou seja, contribuindo com os meus pensamentos mais úteis. Gostei de ter feito também a Rosemary com uma música do Taiguara. São pessoas que produzi. Nessa época, como compositor, comecei a estourar com Luiz Américo (“Camisa 10”), com Silvio Brito (“Espelho mágico), com a Cláudia, com a Eliana Pittman (“Vou pular neste carnaval”). Gravei também com Evinha, Golden Boys. Foi um momento em que eu tinha uma bagagem como compositor. Automaticamente, eu estava dentro do esquema, estava dentro da produção que começou a criar esse mistério, “Vamos fazer assim”, “Vamos fazer isso”, “Vamos fazer aquilo” e “Isso aqui eu não vou fazer! Vou sair daqui.” [ri] “Vou sair daqui porque já estou ficando assombrado antes do tempo!”
Sampaio — Você não parou de compor em nenhum desses momentos?
Luis Vagner — Jamais.
Sampaio — Mas as suas primeiras composições foram gravadas por outros?
Luis Vagner — Sempre fui gravado por outros, até agora. Componho muito, sempre compus os temas. De vez em quando faço as melodias, as letras, mas sempre compondo. Cheguei a gravar cem músicas na Jovem Guarda em parcerias com Tom Gomes, que era muito dinâmico, trabalhador. Eu era um pouco mais devagar.
Almeida — Gravar cem músicas em um ano dava grana, dava para comprar casa, esse tipo de coisa?
Luis Vagner — Não, não, não. Não dava para comprar casa, não! Mas conseguia segurar a família. É o que me salva até hoje.
Luiz Paulo Lima — Uma grande família!
Luis Vagner — Uma boa, uma grande família! Uns 12, 13, vamos lá. Mulheres, filhos. A música sempre me proporcionou viver dignamente, com um esforço que requer qualquer trabalhador.
Monteiro — Isso piorou ou melhorou nos últimos anos?
Luis Vagner — Eu penso que…
Monteiro — Essa coisa do direito.
Luis Vagner — Ah! Melhorou por um aspecto. O sistema que formata as coisas do direito possibilita a quem tem uma oportunidade de sucesso hoje ganhar mais dinheiro agora do que antes. Antigamente era mais igualitário. Agora não, é aquele que está tocando no momento. Coca-cola: neguinho abre, toma, bebe [assovia], e pede outra. “Agora, light!” “Agora, hard!” Mas vai tudo indo, cara! Então, ficou assim o direito, ficou esquisito. Fui me filiar na França para ver os meus direitos no exterior, algumas coisas minhas, entendeu? É um disparate, não tem como você conseguir compreender como funciona o direito no Brasil. É algo que o governo brasileiro tem que prestar atenção. Os Beatles simbolizaram quase 80% da renda do país deles. O cinema francês chegou a representar 40% numa época. Mas no Brasil é traço. Por favor, não combina com a razão. É preciso muito mais seriedade dos homens do governo e do não-governo, para que a gente possa ter um momento de reconhecer se tem capacidade de fazer com que uma classe que mexe com muito dinheiro tenha um respaldo mais digno. Tem uns compositores que você sabe que tem valor, que forneceram trabalho ao país e que não são tratados realmente com a dignidade necessária.
Cirino — Enquanto você falava eu estava me lembrando da relação do músico-compositor com a classe profissional. Como você vê a atuação do sindicato, da Ordem dos Músicos, do ECAD, que teoricamente estariam aí para fazer determinados serviços, mas não se sabe exatamente o que acontece?
Luis Vagner — Existe uma vontade de um esforço, mas fica só na vontade. O esforço é pequenino. Você vê coisas absurdas acontecerem, de dinheiro que fica preso, de dinheiro que não acha, sabe, parece aquele dinheiro da candidata à Presidente que ninguém sabia. “Não sei o que é isso! Um milhão? Caiu aqui?!” [risos] Tem umas coisas assim. É um absurdo, é algo que não combina com a razão. Se a gente conseguisse uma união maior… É triste você ver muitos compositores que são dignos de respeito em estado lamentável de vida. Respeito não existe!
Monteiro — Mas isso também acontece com o futebol. Você fala em união, mas 1% dos jogadores ganham muito dinheiro, o restante não ganha porra nenhuma e os antigos não são respeitados. Quem está nesse 1% não está preocupado.
Luis Vagner — Aí vem o lado do egoísmo humano, mesmo! É uma luta muito grande até conseguirmos um número de homens capazes, mas isso é possível, eu tenho certeza disso. Um, dois, três, dez, cem, mil. Estamos vendo em nosso país que existe dificuldade em tudo, a classe dos professores, enfim, em todas as classes. Há algo que precisa ser visto com maior profundidade. Os jovens são uma grande força para isso, mas jovens realmente ligados nessas coisas. Esses, sim, têm uma possibilidade de ajudar, de transformar essa realidade. Nós precisamos! Somos um país maravilhoso.
Luiz Paulo Lima — Vai se candidatar!
Luis Vagner — Aliás, eu queria ser Presidente da República! [risos] Vamos ver, cinco ponto quatro, se vacilar… [risos] Os caras vão dizer que eu sou um “-rista” desses aí, comunista, crentista, guitarrista [risos]. Sou guitarreiro, hein, rapaziada!
Tacioli — Apesar de tudo, você é um otimista.
Luis Vagner — Total, sou brasileiro. E além de tudo, sou budista. Sou um otimista porque acredito na gente. Eu me acho lutando com toda a força, entendeu? O meu tempo é agora! E tudo o que pensei lá trás continua do mesmo jeito. Vejo vocês, a união, os jovens, eu sinto isso assim! Não dá para se abalar por um processo negativo, não! A realidade é que temos que ter muita força para realizar o que tem que ser feito. E nós temos que fazer, de qualquer maneira. Essa união é difícil, porque uns já chegaram e não vão se incomodar com isso, mas estão errados. Tem que se chegar bem perto da rapaziada do sofrimento, com menos grana, e ensinar a possibilidade de evolução, porque é só assim que se aprende. Então, vai onde se tem que buscar o que falta, né, véio? Só assim. Acredito muito nisso. Por exemplo, vocês, jovens, fazendo uma entrevista comigo. Fico muito lisonjeado e orgulhoso, e ao mesmo tempo, digo “Vou dizer tudo o que eu posso do fundo do meu coração porque é isso o que realmente precisa”. Em todo esse tempo fui um cara muito feliz na minha caminhada, porque sempre saí tocando, sempre liguei a minha guitarra e toquei, tive público. E quando tinha pouco, eu tocava do mesmo jeito. E fazendo amigos, coletando coisas. Acredito que se eu puder vazar, uma revolução se dará. É isso que eu acredito, no meu país!
Tacioli — Luis, você vê a classe artística esvaziada politicamente? Pensando na musical, ela me parece tão fragmentada. Enquanto você vê alguns que estão vendendo aparecerem na TV contra a pirataria, outros que não estão na vez dessas mesmas gravadoras saúdam a pirataria como forma de não caírem no esquecimento. Você não acha que existe uma falta de consciência política da classe artística hoje em dia?
Luis Vagner — Sim. Porque aí vem o papo que eu vislumbro que é uma visão da ideologia, uma ideologia humana, uma coisa que faça com que as pessoas se unam, compreendam que exista uma mesmo lado, que os dois lados são o mesmo, tanto da vida, quanto da morte. Porque em vida você é isso, mas morto você poderá ser isso ou muito mais. Tem umas coisas assim na vida, né? Falo isso, logicamente pensando em Beethoven, Mozart, Lizt, de homens que deixaram grandes obras. De um Tom Jobim, Ary Barroso. Então, politicamente o pessoal deveria compreender que todos vivem, no caso do artista, da música. Todos. E que, se eles conseguirem elaborar uma estrutura forte entre si, isso será um dom, uma dádiva protegida. É assim que eu enxergo, entendeste? O que eu quero dizer com isso: se a gravadora não visse somente aquele negócio de vender um milhão e dar apenas oito por cento para o cantor… Os diretores de gravadoras são quem determina o sucesso e faze com que exista esse caminho. É algo que vai muito mais além. Quando cobram 30 paus, 25 paus, os piratas têm que existir; são pontos criados por eles mesmos. Politicamente, penso que se todos englobassem uma visão de respeito à música, profundamente, esses problemas não existiriam.
Almeida — Pelo menos poderia haver um poder de negociação bem maior.
Luis Vagner — Bem superior, em todos os aspectos, né? E em todas as outras coisas. É um grande problema desse sistema. A gente vive isso. Você pode ver, a maioria das gravadoras está toda perdida! Qual é o novo passo agora? Qual é a música que vem? É a sertaneja? É o samba-rock? É o axé? O cara que é o diretor desse tipo de companhia já está aqui, ó, porque se não apresentar o resultado logo, pim! É aí que pinta um Reginaldo Rossi, que é sucesso popular, do povão. Pinta um! Não é que pinta, vaza um! Tortamente, mas vaza!
Tacioli — Mas é engraçado que vários presidentes de gravadoras foram músicos e seus contemporâneos.
Luis Vagner — Sim! E com quem acho que trabalhei! [risos] É, mas cai ali. Cai bem ali! E vive em uma companhia. Depois ele cai daquela, vai para a outra, depois cai daquela, vai para outra, porque está dentro desse sistema. Mas existe uma hora em que eles têm que procurar alguns artistas que estão distantes porque os resultados não estão acontecendo. Então, é aí que vaza um. E aparece um, que vai lá e também fala tudo que tem direito. Uma Elis Regina, por exemplo. Um Tim Maia, bem gordão, negão, louco, maconheiro, o diabo a quatro, mas um artista, um cantor que o povo ama. E não só aquele momento, mas o tempo todo da vida. Ele é uma atitude real e se comporta, às vezes, sem o devido preparo, porque durante muito tempo foi barrado, pisoteado, torna-se alguém revoltado, confunde momentos, mas a essência do que eu quero dizer é isso. Às vezes vaza um. “Agora, o cara só pode ser bonitinho, dos olhinhos cor de …”, mas aí pinta um Tim Maia e vaza. É gordo, preto, feio, é outro lance, mas quando abre a boca, canta. Esse é o ponto. E os diretores de gravadoras… um desrespeito à pessoa, ao ser humano, às entidades que eles ocupam. E, às vezes, esse poder é efêmero, frágil, o cara consegue chegar nessa condição, mas se ele não consegue acertar, “Boa noite, amor!”. [Prende o nariz com a mão e diz] “Quanto vendeu fulano? Não vendeu? Never!” [risos] “Próximo! Mais um! Quem está entrando agora no mercado?” [risos] Mas, normalmente, a rapaziada tem ficado rica antes! [ri] Os caras trabalham, mas quando você fala de arte, aí é “barra na tijuca”. Barra na Tijuca, né! As gravadoras estão todas lá! [risos] Mas essa brincadeira não é uma brincadeira, é uma verdade, é um ponto muito interessante porque a gente que fica andando pra lá e pra cá, vê gente talentosa de tudo quanto é jeito, mas não há gravadora que absorva esse monte de artista. É difícil! Não sou um negociante, sempre fui um artista. Gostaria de estar dentro, mas gostaria de ver uma gravadora que realmente tivesse uma frente de músicos, talvez, malditos ou marginais, não sei que nome se dá a isso, que existe de montão, e de jovens, porque também existem jovem à margem de montão, né? E que fosse permitido a esse pessoal trabalhar. Aí, vem o sistema de rádio, que muita gente já sabe qual é. É marketing o nome dado. É grana. E isso é assustador.
Almeida — Pelo que você está falando, você sempre teve muito trânsito entre universos distintos de músicos, né?
Luis Vagner — Sim.
Almeida — Mas me parece que você nunca teve a sua turma.
Luis Vagner — Não.
Almeida — Você já pensou em ir embora do Brasil?
Luis Vagner — Quando o meu compadre Branca Di Neve faleceu em 89, fui embora. Fui para a França com 50 dólares e 20 francos.
Almeida — Para não voltar?
Luis Vagner — Foi. Peguei meu oratório, Gohonzon, porque sou um praticante budista há 14 anos, peguei minhas guitarras, meus cadernos de música e fui embora para a França. Em 45 dias consegui estrear no Festival de Jazz de Viena com sete músicos brasileiros, que eu levei daqui. No mesmo festival estavam B. B. King, Albert King, todos os kings da guitarra; e também Al Di Meola, Paco de Lucia, Herbie Hancock. E quando vejo na sexta-feira, “Luis Vagner e os Amigos Leais”. Era eu! “Ai, que bom!” [risos] Mas aqui eu me sentia bloqueado. Você quer gravar, mas o cara não quer gravar com você. “Mas não é possível!”, mas é possível, ele é o diretor.
Sampaio — A morte do Branca teve a ver?
Luis Vagner — Teve, teve. O Branca estava gravando uma música minha chamada “Oi”, e o Wando, uma chamada “Anjo”.
Almeida — Você não tocaria? Mas pode terminar de contar a história.
Luis Vagner — Deixe-me ver se consigo, ele gravou diferente. [toca a introdução] Nem afinei o violão para tocar para vocês. Isso é uma falta de respeito. [afina o violão, toca novamente a introdução e canta] “Vou vivendo essa beleza / De tocar o seu coração / Mesmo estranho e lindo o toque / Como varinha de condão / Eu sou feliz / tenho o seu amor / Sou feliz / tô em paz / vou musicando todos os momentos / e achando lindo / limpo / vou creditando em cada um seu amor à lira / e quem delira / delira / oi / oi, mano / oi / eu sinto forte a esperança / de acreditar no amor / alguns dizem que eu sou louco / mas eu sou seu cantor / e para penetrar em seus sonhos lindos / [cai o microfone da lapela] / pra penetrar nos teus sonhos lindos / vou embelezar a minha voz / com chá e mel / coisas caseiras / amado o céu / oi / oi / oi”.
Monteiro — Extremamente pop.
Sampaio — Lembrei agora da gravação do Branca.
Luis Vagner — Você lembrou da gravação do compadre? Então, ele gravou essa música e falou [imita a voz rouca do Branca] “Compadre, compadre, vai viajar? Compadre, compadre, vai embora?” Falo isso porque ele foi a minha casa ver o meu oratório, o saudou e faleceu naquele dia à noite. Para mim tem uma ligação totalmente profunda.
Monteiro — O que aconteceu exatamente com ele?
Luis Vagner — Deu um aneurisma. Ele estava gravando o disco em que saiu essa música. Morreu no dia 12 de maio de 89. Faz 13 anos. Meu querido amigo Nelson Fernandes Moraes, o Nelsinho. Aquilo me entristeceu. Ele era o símbolo do que eu estava falando para vocês, quando eu tinha 18 anos, meu amiguinho. O Jorge Ben e o Bebeto iam ali, o Branca Di Neve ia trabalhar comigo nos Brasas, carregar os instrumentos. Eu achava a voz dele bonita. “Você vai ser sucesso! Sua voz é linda! Você me lembra o Louis Armstrong! Eu boto fé no seu taco!” [imita novamente] “É mesmo, compadre?” Ele não tinha o dentinho. “É mesmo, compadre!”. Entendeu? Quando ele pá, faleceu, me deu um negócio, “Acho que vou ter que de dar um giro”, e sobre a música ele tinha dito, “Deixa comigo!”. Como Wando tinha gravado uma música minha chamada “Anjo”, peguei um dinheirinho, deixei tudo certinho com as comadres e me mandei. Eu queria gravar, mas não me deixavam. Como só tem três, quatro, oito ou dez diretores que mandam em tudo, vou ter dar um giro fora do Brasil para que eu consiga interpretar melhor a vida do meu país, para ver onde é que está o defeito, ou se está em mim mesmo. Mas se em 45 dias eu já estreei no meio desses caras todos, “Acho que não estou tão mal assim!” Aí fiz um disco lá, independente, Cilada, que falava da Amazônia. Gravei em um estúdio chamado John Lennon, em Aubervilliers, gostei, né, cara! “Eu, no estúdio John Lennon? Dá licença, né!” Aí foi maravilhoso, passei dois anos e meio, com uma vida digna, com banda, mas depois pinta aquela coisa, “Brasil, Brasil”. Também tive problema com editor. Consegui falar com o diretor-presidente da Pier Music, a maior editora mundial, em uma ilha. Peguei o cara! Estava eu e um amigo, o Maurinho. “Diz pra ele que estou na França e que as minhas obras pertencem à editora dele”. E o cara falou: “Peça para o editor do Brasil, Manuel Pinto, trazer o seu repertório para cá, pois haverá uma convenção mundial e aí a gente vê o que se pode fazer”. Corremos a falar com o Manuel Pinto. “Quem sabe vou ter um apoio de não-sei-quantos mil dólares”. E o Manuel Pinto levou o material para a Europa? Meu editor no Brasil, produtor, gente finíssima, mas profissionalmente, ele não teve responsabilidade nesse momento. O Luiz Paulo [Lima] está tendo a oportunidade de caminhar dentro da gravadora, e ele está vendo como é que é. Se a gente não realiza eu não sei como é que faz, a não ser que você seja daquela turminha, daqueles escolhidos para ser o artista cuidado. Essa é a verdade de um artista com carreira no Brasil.
Monteiro — O Moacyr Luz comentou que existem dois planos no mercado musical: um dos milhões de cópias e um outro, menor, mas que no Brasil não encontra estrutura para se abrigar. Você acha que o caminho não passa por aí, de existir uma estrutura menor para que esse povo possa sobreviver bem?
Luis Vagner — Mas é exatamente isso que a gente faz, agora mais do que nunca. É isso que faço para viver dignamente, para você trabalhar, ter a sua equipe, ter um grupo de músicos, que também tem suas famílias. Você tem que ter essa pequena base para conseguir fazer as coisas, para conseguir tocar para a sua gente. Vai vazando por outro lado.
Monteiro — Com uma estrutura que te ampare além da produção do disco.
Luis Vagner — É, parece-me que agora estão começando a rolar algumas coisas assim no Brasil, tem umas duas ou três firmas. Na verdade, fiz um disco para a gravadora Paradoxx, que queria uma coisa e eu fiz uma coisa e uma outra. Uma em função do samba-rock e outra do meu Brasil sulrealista. O disco do samba-rock aceitaram. Estou começando o trabalho, mas posso dizer que não sou um artista que conta com o apoio da gravadora ainda, entendeste? Tenho o apoio do meu amigo, Luiz Paulo Lima, que vem me ajudando, porque a própria gravadora não está em completa união em si. Eles mesmos vivem um problema. Vamos aguardar esse problema ser resolvido para ver o que se pode fazer por aí. Ou seja: a gente tem que cuidar da carreira, independentemente da gravadora, porque ela quer vender discos. Se a gravadora se interessar, a gente pode se tornar um vendedor de discos maior. E isso fará com que a nossa música possa ser ouvida por um número maior de pessoas. Eu acredito no trabalho, como sempre acreditei e sempre sobrevivi dele e por ele, ou seja, da música. Esse é o meu ponto, é a minha confiança, a minha convicção.
Monteiro — Se você prepara um disco e lança por uma major na ilusão de que vai ter um trabalho diferenciado, isso não vai acontecer. Ela vai trabalhar somente com três peixes grandes. Ela não vai cuidar do seu disco, mas sim do Zezé Di Camargo & Luciano.
Luis Vagner — É verdade, ou então em um daqueles que ela segura e banca, dos escolhidos.
Monteiro — Dos amigos do rei.
Luis Vagner — Exatamente. Existem esses. E esse lado aí é o que me faz pensar que para ser isso você tem que estar firme no poder. Todo artista quer fazer um trabalho que possa ser desenvolvido corretamente, mas isso é muito difícil de acontecer. Às vezes, um é escolhido e colocado. Mas aí você também vê muitos artistas aparecerem e sumirem rapidamente. Daí vem aquele lado que falei para vocês: o cara tem que estar preparado para certas coisas. Você vê muita gente subir, muita gente cair, muita gente subir, muita gente cair. E tem aqueles que são artistas mesmo, que o povo ama e cuida deles, estejam onde eles estiverem. É nesse tipo de artista que eu acredito, mesmo que não esteja naquela posição, mas ele terá o público que o quer, que o respeita, que sabe o que ele faz, reconhece, gosta, e que te proporciona uma oportunidade de trabalhar. Isso é maravilhoso. Penso que todo artista deve pensar assim.
Tacioli — Luis, você tem medo de que sua música seja esquecida?
Luis Vagner — Não!
Tacioli — Mas esse sentimento já te abateu em algum momento, talvez naquele em que você foi para a Europa?
Luis Vagner — Não, fui por não haver possibilidade de realizar os meus trabalhos. Daqui a pouquinho a pessoa pensa que você pode ser um revoltado, mas não é exatamente isso. É que são aqueles dez que dominam toda a estrutura no país, a discografia, o show. Essas dez pessoas dominam tudo. E daí você vai ver quem são essas pessoas, e na verdade, não são nada! Não passam daquilo ali, daquela função que eles estão exercendo naquele exato momento. Mas, ao mesmo tempo, eles estão tolhendo, estão fazendo causas ruins para a evolução das pessoas. Ou seja, são pessoas que, às vezes, causam um grande mal sem ter a consciência disso, porque estão pensando somente no lado de vender 100, 200 mil, um milhão de discos de fulano, e mais um milhão de beltrano. E nunca mais pára essa lista. São falhas graves. E fora aqueles que não tiveram oportunidade por isso ou por aquilo. E em minha própria carreira houve um momento em que um diretor-geral de uma gravadora falou “Esse não!”. “Bom, ótimo!”
Tacioli — Quem foi?
Luis Vagner — Olha, eu gostaria de não falar. Um grande, de uma major, nome internacional, francês. [risos] Chegou mais próximo.
Tacioli — É mesmo?
Luis Vagner — Eu só não vou dizer o nome dele. Não importa, mas fiquei pensando “Por quê?”, “O que será?”, “Será que eu falei alguma coisa?”. Então, você interpreta estranhamente. Sei lá, é um momento que você passa para aprender; venho vindo desde os 8 anos, quando papai e mamãe me possibilitaram a vida…
Tacioli — E, curiosamente, ele é tido como um dos principais responsáveis por diversos impulsos na produção música brasileira.
Luis Vagner — É, mas isso aconteceu.
Luiz Paulo Lima — Posso fazer uma pergunta? Tenho observado uma coisa interessante: você compõe pra cacete e até brinca ao dizer do hotel em que você mora, “Hotel Marechal Deodoro, cela 301”. Sei um pouco das histórias, mas boa parte de sua inspiração tem muito a ver com mulheres, né?
Luis Vagner — Muito com mulheres.
Luiz Paulo Lima — E tem histórias interessantes e engraçadas, como uma do Chacrinha. Fale um pouco dessas composições.
Luis Vagner — É, a “Índia Poti”, a Glória Maria Aguiar [n.e. Foi uma das chacretes do programa Buzina do Chacrinha], nos apaixonamos uma época no Rio de Janeiro, e eu escrevi uma música para ela chamada “Como?”. É uma música que vendeu quase 5 milhões de exemplares, a salvação da lavoura [risos]. Vocês conhecem? Gravada pelo Paulo Diniz [n.e. Homônimo, Odeon, 1974], pelo Netinho [n.e. Registrada em Nada vai nos separar, Polygram, 1995]. [toca e canta] “Como vou deixar você? / Se eu te amo / Sei que minha vida anda errada / Que eu já dei mil furos, mil mancadas / Talvez esteja andando em linhas tortas / Mas por enquanto eu vou te amando / E é o que me importa / Mas você também não é rota principal / E toda estrada tem final / Que eu quero saber é: / Como vou deixar você? / Se eu te amo”. Essa música vendeu muito, gravada também pelo Sócrates, Franco, Nila Branco, Norton Nascimento. [toca e canta] “Espelho meu / espelho meu / Diga se no mundo / Existe alguém mais louco do que eu / Espelho meu / espelho meu / Diga se no mundo / Existe alguém mais louco do que eu / Mas que culpa tenho eu de ser assim tão desligado / se os problemas do meu tempo me deixaram pirado / se eu ando distraído devo estar perdido / Dentro dos meus sonhos procurando paz / Cuidado rapaz! / Salvem os loucos / Salvem os loucos / Nova dimensão para quem viu razão para ser normal”. Essa foi gravada pelo Silvio Brito e composta com o Tom Gomes. E teve essa outra. [toca e canta um trecho de “Camisa 10”] “Desculpe, seu Zagallo…”
Luiz Paulo Lima — Fugiu do assunto! [risos]
Luis Vagner — É?! Estou cantando para vocês verem por onde as composições vão, né? Uma loucura! Vai para o esporte… Agora, sobre o relacionamento com a mulher é muito importante de se escrever. E cada um tem um jeito de pensar e escrever a respeito desse assunto. Sempre gostei de escrever o que vivi, com todos os lances que vivi, com todas as mulheres que foram maravilhosas para mim, que me deram vida, que me deram vidas, que me deram filhos. Sempre me apaixonei profundamente e sempre escrevi sobre isso. E em meus discos também está a busca do homem pelas suas raízes, em que o espiritual se faz necessário para que haja uma visão de evolução nas pessoas. Fugi do assunto? Voltei ao assunto? Como é que estou no assunto? [risos] Sobre o “Guitarreiro” [toca e canta] “Naquele tempo que eu gostava dos Beatles / e dos negos véio eu gostava muito mais / sempre que eu podia ir ao campinho jogar o meu futebolzinho / aquelas coisas de rapaz / agora a turma grita, pesquisa e o mundo está em crise / Olhe o Prêmio Nobel / Sou guitarreiro brasileiro”. E vou contando a história do “Guitarreiro”. [ri] Essa eu fiz no dia do meu aniversário, 1974. Estava em um dia solitário e daí entrei em uma viagem pelo tempo, “O que sou na realidade?”, falando da admiração que eu tinha por esses caras. Enfim, juntando essa coisa do internacional com o caseiro, que é a definição do Guitarreiro. Foi um disco muito interessante que eu fiz [n.e. Homônimo, Copacabana, 1976]. Tem uma ligação de guitarras, mas é um disco em que o samba-rock é tocado de uma maneira guitarreira, na trilha guitarreira. Podia ser um rock, surdo, mas “roquei” mais o samba, acho que é isso. [ri] “Sambaram mais o rock”, mas eu “roquei mais o samba”. Então, as batidas das guitarras são bastante pessoais. Esse disco é um marco, porque ilustra bem a história do samba-rock. Falo do bairro Partenon [n.e. “Lá no Partenon”]. Esse disco foi muito legal! O primeiro que fiz foi o Luis Vagner Lopes — Simples, em que gravei grandes amigos, como o Chiquinho de Moraes. Depois fiz esse com “Guitarreiro”, seguido do Fusão das raças, do Pelo amor do povo novo, Som da negadinha, e Conscientização. Na Europa gravei o Cilada, e quando voltei fiz o Vai dizer que não me viu… [risos]. E agora lancei o Brasil afro sulrealista.
Sampaio — Vai dizer que não me viu… é de 95?
Luis Vagner — 94.
Sampaio — E de 94 para esses seus últimos discos, você…
Luis Vagner — Nesse tempo todo eu fiz um show no sul, fui encontrar com um batera e com uma rapaziada de outra geração que gostava do meu trabalho, que tinha um convívio com o meu pensar graças aos discos anteriores. E quis fazer o Brasil afro sulrealista. Nesse grupo tem o Luiz Américo Rodrigues, baterista de Santana do Livramento, o Ricky Vieira de Carvalho, de Porto Alegre, o Marcelo Salgueiro, guitarrista. Esses dois primeiros que eu falei são uma dupla de baixo e batera. Aí participou o Marco Aurélio Dias Farias, um arranjador formidável, que trabalhou no Swingante como arranjador de metais. O De Santana, percussionista. Ainda trabalhou o Paulinho Calazans, grande músico, filho de Jundiaí. Amigos fortificando o trabalho da gente, desse Brasil afro-sulrealista.
Luiz Paulo Lima — Você alugou uma casa…
Luis Vagner — Aluguei uma casa em Atibaia e ficamos morando lá desde 94, 95. Fiz esse disco uma vez, mas não foi aceito. Fiz uma outra vez, e não foi aceito. Só na terceira vez a Paradoxx aceitou lançar o disco.
Monteiro — O que eles alegavam?
Tacioli — É, o que mudou da primeira para a terceira vez?
Luis Vagner — Só o tempo. [risos]
Tacioli — Só o tempo?
Luis Vagner — Só o tempo de espera! [risos] Você nunca sabe, mesmo. Daí pintou esse momento do samba-rock, e mesmo assim eu tinha a necessidade de lançar esse Brasil afro sulrealista, que é algo em que acredito, que é algo que em nossa cultura brasileira nunca foi exposto. Eu me senti na responsabilidade de assumir esse trabalho e de fazê-lo. Do sul do Brasil nunca verteu esse lado, do negro do Sul, como é o caso do Bedeu, do Caco Velho [n.e. Pseudônimo do cantor, compositor e instrumentista gaúcho Mateus Nunes, 1909–1971], que o pessoal não chegou a conhecer, porque morreu, foi embora muito cedo. Eu me preocupei em realizar esse trabalho, tinha essa necessidade, porque era um débito de gratidão. Mas a dificuldade existiu porque os caras achavam que a palavra “afro” chocava. Para mim, você nunca ter ouvido falar dos negros do Sul é um ponto falho na discografia, no mundo artístico brasileiro.
Tacioli — De negro do sul vem a imagem do Lupicínio.
Luis Vagner — E ficou por aí, né?
Sampaio — É, existe uma lacuna bem grande.
Luis Vagner — O Brasil tem que ligar que existem mensagens profundas sobre uma visão diferente, sobre um viver diferente, e que é muito importante para todo mundo.
Tacioli — Você havia falado do Carnaval do Sul, das tribos.
Luis Vagner — Isso, dos bororós, dos xavantes, de batidas completamente diferentes das de blocos. Em alguns momentos dos meus discos você consegue ouvir algumas coisas que têm esse tipo de pressão, que vem, mais ou menos, de uma chula, de um sambado diferente. Como tive a felicidade de conviver, de ser um desses, de ter recebido esse aprendizado, eu tinha uma vontade infinda de poder colocar esse trabalho no ar. E mostrar para a gurizada da minha terra, para as novas gerações, que existe essa força na nossa entidade humana que precisa ser bastante valorizada. E que não podemos ficar sendo dependentes de uma visão de mídia, de informações colocadas para dentro. Como é, “perda de valor”?
Sampaio — “Perca de valor”.
Luis Vagner — Somos tão envolvidos por essas coisas de fora que esquecemos de nossa essência. Sempre defendi esse ponto como algo que pode ser dialogado, debatido pela rapaziada. “Tenho que fazer, vou fazer. Tenho que fazer, vou fazer. Fui lá e mostrei”, “Não, não quero!”. “Não quer? Vou fazer! Não quer?”. Demorou para conseguir, mas consegui. Agora estamos fazendo esse trabalho, lutando e levando para as pessoas. Quanto mais pessoas puderem ouvir sobre isso, melhor. Se não vender um milhão!
Tacioli — Luis, como pintou o reggae em sua carreira?
Luis Vagner — O reggae surgiu quando eu era dos Brasas, dos Jetsons. Pintou na minha vida pela primeira vez quando ouvi “My boy lollipop”, em uma versão gravada no Brasil pela Wanderléa, vocês lembram? [n.e. Música de M. Levy e J. Roberts, gravada pela Ternurinha como “Meu bem lollipop” em Quero você, CBS, 1964] Foi a primeira vez que ouvi uma música do Caribe. Eu gostava muito das coisas que vinham daquele lado. Já curtia o Harry Belafonte, calipso [vocaliza] “ô, day-o, day-o”. Sempre gostei do canto gutural [canta novamente a famosa introdução de “The banana boat song”, sucesso de Belafonte no final dos anos 50], tipo aboio. E mesmo com os Beatles, com o-bla-dis, o-bla-das, que eram influências da Jamaica, da colônia. Quando vi o Marley, o Peter Tosh e toda aquela rapaziada senti que tinha uma ligação com que os “negos véio” faziam lá com aquilo, só que o reggae permitia falar mais sobre as coisas. Por exemplo, fazer um balanço Brasil-samba-rock. Mas aí o público começou a se distanciar, porque a capacidade das letras já não era forte, falar mais socialmente das coisas contundentes, de tudo o que se vive, com uma visão sua em relação à sua própria terra. Mesmo em meus discos de samba-rock havia músicas que falavam dessas coisas, sempre com letras sociais, como “Corcoveia” e “Fusão das raças”. Mas no samba-rock o pessoal não aceitava muito esse tipo de letra. Enfim, o reggae me proporcionou escrever mais coisas diferentes. Esse é um lado da filosofia da reggae music. A fusão do som roots, da raízes. O Bob Marley falava em “roots rock reggae”. Eu falo em “samba-rock reggae”. [ri] Faço essa ligação com as raízes da gente, e o samba está incluso. Então, o samba, o rock e o reggae são coisas que eu sempre fiz.
Tacioli — Você comentou que o público do samba-rock não digeria a temática social e que seu contato com o reggae foi na época dos Brasas, em meados dos 60. Você chegou a flertar com a música de protesto?
Luis Vagner — Gravei uma música chamada “Patrulhas”, com o Julinho Trindade. [toca a introdução] Deixe-me ver se eu lembro. [canta] “São essas patrulhas / Que fincam agulhas / Espalham medo / Que andam em bando e vivem matando / Sem nenhum segredo…”. Não vou lembrar dessa letra agora. Perdoem-me. “Sem tais inimigos que plantam semente de dor e maldade / Covardes sem luta / São filhos daquela maldita colméia / Que mata os homem, mas não as idéias”, ou alguma coisa assim. “Patrulhas” gravei no final dos anos 70. Não aconteceu nada. Fiz um programa de televisão da Lilian Gonçalves. Não sei como é que pude fazer. “Alô, minha amiga Lilian, você é demais, hein?!” [risos] E da gravadora, que era a RCA, nunca mais falei com ninguém. Foi um compacto que lancei.
Luiz Paulo Lima — A música é bem interessante.
Luis Vagner — A letra é minha e do Julinho Trindade, baterista.
Monteiro — Luis, a música que você tocou anteriormente tem um apelo atual e tem tudo a ver com uma banda que a Universal lançou despretensiosamente, a Planta & Raiz. O disco dela está vendendo muito, não sei se você já ouviu. E a música que você cantou é a cara deles. Viraria um hit, tranqüilamente. Quem é que faria essa ponte entre a sua obra e outros artistas? A editora?
Luis Vagner — Tenho muitas coisas. Vocês conhecem o disco O som da negadinha, que tem o “Homem rasta”, “Mamãe África”, “Calypso, colapso”, “Conscientização”? Tenho discos falando sobre a responsabilidade de se fazer uma música voltada para a evolução das pessoas e com umas palavras que tenham a profundidade de tocar, de calar, de falar do ser humano, mesmo aquelas que, às vezes, parecem um pouco pesadas. Vou dar um exemplo de uma música que fiz assim, chama-se “Conscientização” [toca a introdução]. É um reggae com tango. [toca e canta] “Conscientização / Não é brincadeira / Não foi e nunca será / Não é que eu não queira / Mas como explicar / Visão verdadeira / O novo alcançará / E a mentira fraternal / da igualdade social / Povo falso é povo mal / Criança é cultura da gente / Raiz, terra, planta e semente / Criança é cultura da gente / Raiz, terra, planta e semente” [tocando] Aí eu falo sobre raízes negreiras, nação brasileira [canta] “De sangue e raça e cor / Raízes negreiras / Zumbi é líder lutador / Da longa canseira / Mas brotará a flor / E a germinação terá energia para lutar / E a consciência há de ensinar / Criança é cultura da gente / Raiz, terra, planta e semente / Criança é cultura da gente / Raiz, terra, planta e semente” / (…) / Os índios guerreiros / Extermínio cultural / Vivência selvagem / Filosofia original / E a mentira fraternal / Da igualdade social / Um povo falso é um povo mal / Criança é cultura da gente / Raiz, terra, planta e semente / Criança é cultura da gente / Raiz, terra, planta e semente” [finaliza com um solo de “As rosas não falam”, de Cartola] [risos]
Tacioli — Luis, você vê alguma identidade entre o seu trabalho regueiro com o de bandas como Natiruts, Cidade Negra, o pessoal do Maranhão? Você consegue ver um ponto comum, uma linha?
Luis Vagner — Olha, vou falar com toda a sinceridade: nunca toquei com essa rapaziada, nunca os vi. Só estive mais próximo do Fauzi [Beydoun], da Tribo de Jah. Penso que o meu reggae é bem mais roots mesmo, bem vivenciado, com toda a falange que simboliza esse envolvimento com o crescimento das pessoas. Gostaria muito de poder tocar o mesmo lance com essa rapaziada, só pra ver se fecha a tampa de uma vez, numa boa, mas nunca tive oportunidade de convívio. Então, são movimentos que a gente vê que rola mas não há um elo de comprometimento. Muita coisa é mistificada como a maconha, a cannabis sativa, a transação do mundo reggae, o rastafarianismo, que é religioso. Busquei esse caminho e caminhei por ele, mas não encontrei as respostas aos meus porquês, e fiquei muito preocupado quando os profetas do trabalho iam falecendo de uma maneira violenta. Porém, eu gostava muito do princípio do rastafarianismo de “I and I”, do “Eu e Eu”, como o crescimento de uma visão religiosa. E a música que eles escolheram para falar sobre isso, sobre a proteção e tal, era legal, mas penso que tenham confundido o uso do fumo. Essas coisas são complicadas. Quando se fala religiosamente, a sensibilidade é sensibilidade, mas quando o externo faz um efeito em você é outra coisa. Então, houve muito essa confusão. E quem assimilou esse trabalho no Brasil, na maioria dos casos, parece que foi mais dessa forma. Gostavam do trabalho e começaram a fazer aquilo, mas não propriamente vivendo aquilo. Começaram a utilizar o ritmo, a usar aquele novo conhecimento em seus trabalhos, porém o envolvimento com a essência disso é que me preocupa. Tem que se ter uma ligação bem maior. Nesse ponto parece-me que a reggae music no Brasil ficou um pouco perdida, apesar do pessoal gostar. Para vocês terem uma idéia, eu mesmo fui para o Rio Grande do Sul fazer um show, e fiquei com medo. Quando fui passar o som à tarde, eu convidava as pessoas que cruzava na rua para ver o show. Eu não sabia. “Vá para o show! Vou tocar hoje aqui. Sou fulano!”. Uma coisa “meu jeito de vida”. Quando cheguei à noite tinham 5 mil pessoas. Tive que cantar esse repertório, “Mamãe África”, “Homem rasta”, e o público cantava todas. O som da negadinha é um disco meu de muito sucesso. Tem o “Não negai”, música que participei do Festival dos Festivais [n.e. Festival organizado pela TV Globo em 1985].
Luiz Paulo Lima — O hip hop é que usa hoje esse disco.
Luis Vagner — Isso. O Rappin Hood usou agora… Sampleia, né? A Ultramen. Participei do Festival dos Festivais, em que a Tetê Espíndola ganhou. Eu e o Martinho da Vila fomos desclassificados na semifinal, mas nem sei qual foi o motivo pelo qual fui desclassificado. Não foi por causa da música, foi uma outra coisa que aconteceu, uma confusão no ar. Quando fui cantar a música eu sabia que não estava mais. Daí cantei uns nove, dez, onze minutos [risos]. Fiquei cantando para a rapaziada. [canta] “Fé na nossa crença / O crime não compensa”. E o cara disse “Não negai não existe, está errado!”. “Pois é, nóis fumo e não encontremo ninguém!” [risos] Pelo menos isso eu queria dizer. Depois participei de um outro festival da Record, em que fui 3º colocado com uma música chamada “Oh, raios”. Foi legal! Terceiro colocado. Daí coloquei um tipo de dialeto [imita sotaque português] “Ói o que queu já sei do meu trabalho / Com homem de valor / Não importa que daqui não saio / Meu jardim tem muita flor / Ó flor / Hoje em dia o chefe de família / Está na vida marginal / Trabalhando feito burro para poder se sustentar / E assim vai ficando muito estranho / Como pegar gato para dar banho / Oh, raios” [risos] É uma letra assim. Foi bacana, foi um momento interessante, porque fui lá tocar. O que foi legal é que fui para esse festival com o meu filho, o Flecha do Arco-Íris, que nessa época já estava com 7, 8 anos. Ele simplesmente entrou no palco enquanto eu estava tocando, dançando pra caramba. Quebrou tudo. E o Solano Ribeiro, o produtor, falou “De quem é esse guri? Quero ele no show!”. Sabe aqueles papos? “É mesmo? Nem vi, eu estava tocando.” Olhei. Era o meu filho, o Flecha. “Como é que faz?” “Você quer contratá-lo? Fale com ele. Ele já está no palco.” À noite ele arrebentou. O Flecha agora mora e estuda em Buenos Aires, está com 17, 18 anos. “Vem cá, filho, qual é o seu negócio?” “Papai, sou MC”. [risos] “MC? É uma, né? Mestre de cerimônias? Tá bom!” É a natureza do cara é aquela ali, palco, mexe em tudo, fica amigo de todo mundo. A característica dele é essa. E vou aprender com o meu filho o que é isso, já que ele diz que é MC. E é mesmo.
Monteiro — Ele vai aproveitar todos os seus discos para samplear. [risos]
Luis Vagner — Ele fala que é MC e eu vou aprender o que é isso. Desde de pequeno ele tem isso aí. Tem todo tipo de artista aí, cara. Hoje em dia está tudo assim, tem uns negócios que você nem sabe mais o que é mais. Esses dias fiquei vendo uns artistas na televisão. “Vem cá, o que ele faz?” Eu não sabia o que ninguém fazia. Ninguém fazia. Não entendi aquilo. Um programa em que vi muita mulher bonita e todas eram artistas, mas eu não sabia o que elas faziam.
Tacioli — A Casa dos Artistas. [risos]
Luis Vagner — Mas não tem umas coisas assim acontecendo. “Tá difícil de segurar!” Só futrico, só futrico. Tá cheio desses programas. E os caras que falam no ponto, agora, não tem isso? Como é que chama isso? Telepronto?
Sampaio — Telepronter?
Luis Vagner — Não é isso, a onda? [faz voz pausada e grossa] “Ricardo está sentando no chão”. É um momento que eu nunca vi. E agora, o que vai acontecer? [altera a voz novamente] “Atenção, atenção! [pausa] Espera um pouquinho!” [risos] É o negócio do IBOPE. O sujeito está fazendo o programa e, de repente, fica com a cara meio feia. “Caiu no IBOPE!”. Esse aí caiu! [risos] Que barbaridade, tchê! São essas coisas que dão vontade de compor uma música falando sobre isso.
Tacioli — Então, quais são suas inspirações atuais?
Luis Vagner — Vou contar para vocês. Eu me apaixonei por uma mulher dona de um estúdio [risos], e ela por mim. Aí teve uma briga no meio do caminho, que não tinha nada a ver com isso, nem com aquilo, e eu fiquei falando sobre as armadilhas da nossa mente. “Se na nossa mente existem armadilhas para nós mesmos, o que dirá das pessoas sem amor”. Falando sobre esse tipo de tema. No Swingante tem uma música chamada “Esse papo é com você”, que é o consciente e o subconsciente. [ri] As idéias! [ri] Termino a música falando “Bah, baby, já falei demais!” [ri] Aquelas coisas. Em uma outra chamada “Pedra que não lasca”, uma composição minha com Cacau Guamb, escrevi “Quem recebe o dom de tocar na alma do povo / Sabe que o velho existe para ser a raiz do novo”, esse tipo de papo. Vou falando sobre o momento. Por exemplo, “Galera” tem uma outra conotação, do pessoal escravo. Nessa música falo sobre isso e sobre o remar, temos que remar mesmo! Não consigo falar “Aí galera!”, nunca consegui falar isso. Olhem o meu bloqueio! Falo “meus irmãos”, “meu querido”, mas não consigo falar “e aí, galera?”, sei lá, talvez por ser descendente, devo ter algum grilo. [ri] O que acham engraçado nos meus shows é que começo a improvisar no ato, não tem jeito. Conforme o envolvimento, vou longe improvisando.
Almeida — Na letra, também?
Luis Vagner — Na letra também. É algo que me seduz, excita, começo a falar sobre a pessoa, sempre com ritmos. Sempre fiz isso.
Monteiro — Você estava falando que o seu filho é MC e vemos em São Paulo um pessoal do rap que tudo o que eles cantam tem a ver com a realidade deles. Você acha que esse lance de se manifestar, focando o momento em que você está inserido, é mais uma necessidade ou mais uma responsabilidade do artista?
Luis Vagner — Se ele tem esse grau de efervescência, de energia consciente e evoluída, ele tem uma chance de fazer com que a comunicação nesse momento se torne superior. Isso faz com que se evolua de uma condição momentânea. Acho importante toda essa coisa que vem acontecendo com os meninos do rap. Só não gosto quando eles imitam até a cara dos americanos. Aí eu me grilo um pouco. Existe uma coisa da gente, do brasileiro, temos uma cara diferente, cá pra nós, dessas descendências.
Monteiro — Todos nós somos brasileiros.
Luis Vagner — Não é isso? De repente, tem um sorriso no meio. É impossível não ter. “Não tem porque…” Peraí, temos algo que é diferente de todos os povos, que é a alegria. Isso é da nossa composição. E isso a gente não pode perder. Sempre falo isso para os meninos. Tudo bem, sei que a gente vive um momento assim, mas somos umas pessoas que temos isso, e é fundamental que tenhamos cuidado para não ficar… Ou, então, quando começamos a falar do que os outros têm. É uma comissão de inveja que não é legal! “Por que o fulano tem aquilo”. Tem porque teve boa sorte, trabalhou, estudou, sei lá. A gente é que tem que estudar, trabalhar, evoluir e fazer as coisas certas. Precisamos ter a dignidade, a convicção de sermos fortes, precisos e corretos. Enfim, não podemos misturar a vivência e atitudes de outros e ficar vivenciando uma cultura que não é a nossa.
Daniel Almeida — Como é que você coTacioli — Luis, você fala muito em identidade brasileira, da música do Brasil, mas suas bases foram tanto o rock jovem-guardista como o reggae, estilos vindos de fora. Houve algum momento em sua carreira em que esse quadro foi estampado criticamente como uma possível incoerência?
Luis Vagner — Eu penso que não, pelo seguinte: a ligação que eu tenho com a reggae music é algo inerente à minha pessoa, e na região onde vivi, convivi, cresci, esse tipo de som existe, não é igual, mas tem essa falange. Não sei se esses negros que saíram da África e foram para lá [n.e. América Central] não foram alguns que aportaram aqui também. Existe essa identificação. É importante que se diga que o iê-iê-iê brasileiro, o rock brasileiro, era diferente de qualquer outro rock. Ele era tocado diferente. O suingue tocado pela rapaziada era diferente do gringo, não era aquela cópia do timbre, de tudo. É nesse ponto que eu pergunto: o que é o moderno? Para mim, moderno é o que é eterno, não consigo interpretar essa palavra a não ser com essa visão. Moderno é o eterno. É o que vem, fica e vai embora através dos tempos. Mesmo na Jovem Guarda, que foi um bom exemplo que você deu, ele era autêntico, existia um modo de tocar que em nenhum lugar do mundo havia. Depois é que veio aquela coisa de copiar, de você fazer igual, tirar o mesmo timbre de guitarra, o mesmo tipo de melodia. É um cover das coisas com letrinhas diferentes, entendeu? Gostei muito desse último dos Titãs. Como é? A última banda… O maior sucesso de música brasileira do rock estrangeiro?
Almeida — A melhor banda de todos os tempos da última semana.
Luis Vagner — Mas tem uma parte da letra que eles falam do “melhor conjunto brasileiro de música estrangeira”, de música americana. Achei muito bonito eles falarem isso ai. Bacana! Isso aí esclarece bastante o que estou tentando dizer.
Almeida — Sobre aquela pergunta que o Flávio fez, dos rappers como cronistas…
Luis Vagner — Do dia-a-dia?
Almeida — Filtrada pelo olhar de cada um, eles estão registrando a realidade em que vivem. Você reconhece isso? Você também tem essa preocupação de registrar o seu momento?
Luis Vagner — Ah, sim. Se você conhece o meu trabalho, você percebe que ele é isso o tempo inteiro. Só que com melodia, com harmonia, com frases que conotam line bass de linha brasileira, com todo um cuidado. Vem de Jackson do Pandeiro, Caco Velho, Gordurinha. Todo um cuidado de música, de elementos e sotaques brasileiros, de frases, de guitarras com batidas brasileiras, que vêm desde a Jovem Guarda. E um cuidado de revelar essa fotografia do momento, da passagem pela vida. Acho muito importante esse movimento — o rap — ter acontecido, mas tem os que retratam a realidade como se fosse um jornal, e tem aqueles que possuem essa visão e que vislumbram uma possibilidade de melhora. Isso aí é que eu acho importante no movimento. Tenho visto muito só falar, falar, falar, morreu fulano, o governo… Tudo bem, são declarações de um tempo, mas isso tem que ser filtrado de uma maneira. Tem muita bobagem, muito palavrão, muita agressão. Se não for cuidado, isso leva a uma condição de espírito muito baixa. O que não é bom para as gerações posteriores. É aí que eu dou um alô para a gurizada. Falo mesmo, porque essa responsabilidade a gente tem que ter. Agora, uma das coisas mais importantes do movimento foi abrir caminhos diferentes dos apresentados pela mídia. Eles vieram com outra coisa dentro do Brasil. Lá fora é money, business.
Tacioli — Tem algum nome do rap que você destacaria?
Luis Vagner — O Thaíde & DJ Hum, que tive o prazer de ter em meu disco; o pessoal dos Racionais MC”s pela rigorosidade, por um aspecto muito mais rítmico, brasileiro até. Gosto também do Gabriel, o Pensador, pela irreverência carioca, porque ele apresenta sua personalidade. E tem o MV Bill. No Sul tem o Da Guedes, que é muito bom. Lá no Sul tem o programa Hip Hop Sul, muito forte também. Lá foi que eu tive a oportunidade de fazer essa declaração, de dizer o que eu penso de todo o coração ao movimento que eles estão fazendo, e para eles terem cuidado, pois a música te dá e te cobra, porque para viver dela, tem que viver com ela e pra ela.
Tacioli — Luis, já estamos encerrando. Não sei se alguém tem mais alguma pergunta.
Luiz Paulo Lima — Eu tenho uma, é rapidinha. O Luis é fanático por futebol. E tem uma história do “Camisa 10” que é legal.
Luis Vagner — Sempre gostei de futebol e sempre joguei.
Tacioli — Em que posição?
Luis Vagner — Centroavante.
Tacioli — Centroavante?
Luis Vagner — A vida inteira, centroavante.
Tacioli — Goleador?
Luis Vagner — Goleador, goleador! Inteligente e bom finalizador.
Monteiro — Luis Vagner é nome de jogador.
Luis Vagner — Não é mesmo? Luis Vagner. Joguei no sul, no Riograndense, no Ideal, no infanto-juvenil do Grêmio. Depois vim para São Paulo onde tive a oportunidade de jogar nas quebradas. Joguei na Zona Leste, joguei em um time chamado Magnatas, na Raposo Tavares. Depois fui para a França e joguei, com 42 anos, em um time da 3ª Divisão do Campeonato Francês. Eu era o mais velho. Toninho Crespo, o guitarrista, também jogou nesse time. E o Evaldo Correia, batera, também. Éramos os brasileiros. Chegamos a participar da Copa da França também. Chegamos a jogar contra um time misto do Paris Saint-Germain. O futebol sempre foi algo muito importante em minha vida. Tive um tio, que era o goleador do XIV de Julho do Livramento, no Sul do Brasil. Ele para ter vindo ao Santos na época do Pelé. “Aí, seu Coutinho, seu Pagão, olha aí!” [ri] E jogo bola com os amigos que me ajudam, Romeu Cambalhota, Zé Carlos, o treinador. O Brasil já teve um time com uma ginga espetacular, com molejo, samba bom. Ninguém sambava duro que nem Michael Jackson. Era mais manha, sensual. Hoje os caras não estão conseguindo driblar nem a Bolívia, meu!
Luiz Paulo Lima — É que o futebol da Bolívia evoluiu! [risos]
Luis Vagner — É que a Bolívia também evoluiu! [ri] Acho que isso também é o samba bom. Precisa ter aquele suingue gostoso, é preciso que o sangue toque em todas as artérias, na alma da gente. Se não, não passa nem pela Bolívia, Equador, Uruguai. Dribla o cara e ele não sai da frente. Sou do tempo em que se driblava e se passava pelos caras. Futebol tem tudo isso.
Monteiro — Então foi fácil para você fazer a “Camisa 10”?
Luis Vagner — Fomos eu e o Helinho Matheus. Vimos o Brasil jogar e fizemos o samba. “Desculpe seu Zagallo”, mas o Zagalo agora é o Felipão! Felipão é rigoroso, gauchão, conterrâneo. Família Felipão! Tem uma gurizada espetacular, hein! Tem jogador bom. Se nego tiver com a cabeça boa para jogar bola… Nego tem feito muito contrato ultimamente. [risos] Futebol brasileiro é uma coisa linda, uma arte fantástica, faz parte da gente. Mas vamos jogar contra os franceses, por exemplo, que também evoluíram bastante! [risos] Meteram três na gente na última final. Mas se eles jogarem bola direitinho, chegaremos lá.
Tacioli — Eu estava assistindo ao seu Ensaio [n.e. Programa da TV Cultura dirigido por Fernando Faro], e ali percebi que você prima pela divisão rítmica. Jackson do Pandeiro e Jorge Veiga são exemplos de artistas com ótima divisão rítmica.
Luis Vagner — Jorge Veiga também. Jorge Veiga, olha aí! Alguém muito forte, Nossa Senhora!
Tacioli — De que forma essas pessoas estiveram presentes em sua vida? Você ouvia as músicas deles?
Luis Vagner — Muito, muito. Foi bom você falar nesse homem também. Nossa, Jorge Veiga! Agora você me fez viajar. Sempre gostei do Caco Velho; Germano Mathias é meu ídolo. Tive o prazer de tê-lo em uma gravação do Ensaio, que não foi ao ar. Vou falar com o Faro! [ri] Pô, o meu ídolo, por quê? [canta batucando no violão e depois palmeando] “Situação / O Escurinho … / o Zé Pretinho disse que quer saber / da mulher que ele carregou / meu Deus, que horror / e aquela baiana / e ele virou o tabuleiro dela / foi no cemitério acender uma vela / o escurinho não sabe o que ele arranjou / morou, morou / e aquele bamba / é que ele bateu no Morro do Macaco / esperar encontrar com ele vai ser um buraco / bamba espera chegar a sua vez / Lá no Morro do Pinto / a moçada faz samba o mês inteirinho / esperando neguinho Escurinho / ir lá novamente fazer o que fez / vejam vocês.” [e termina imitando um trombone] Esse é Germano Mathias, grande mestre! Tive o prazer de fazer show com ele.
Tacioli — E você já gravou com ele?
Luis Vagner — Nunca gravei. Eu gostaria tanto, tanto, tanto. Consegui gravar com o Zé Keti. Produzi um disco do Zé Keti, meus amigos! Coisa mais maluca que poderia acontecer em minha vida.
Tacioli — E como é que pintou essa oportunidade?
Luis Vagner — Quero dizer só o valor da produção para vocês prestarem bem a atenção sobre o que é música no Brasil. Gastamos vinte reais para fazer o LP do Zé Keti. Foi uma produção que eu me orgulho profundamente por ter feito. O disco está guardado com o filho dele, que eu gostaria de ter para eu poder mostrar. “Alô, filho do Zé Keti, ó, tá com você! Tem que estar com o filho mesmo, mas apareça e traga para a gente mostrar para o pessoal, levar para o ar!”.
Tacioli — Vinte reais?
Luis Vagner — Vinte reais, duas notinhas de dez. Foi o que se pagou pela… Nem me lembro se foi pela fita.
Tacioli — Que disco é esse?
Luis Vagner — É um disco que está com o filho dele.
Tacioli — Na gaveta?
Luis Vagner — Está na gaveta. É um disco em que toco com o Zé Keti. Ele cantando uma fusão de reggae music comigo, como ele queria. [tenta imitar o Zé Keti] “Vamos gravar. Eu quero que você fale assim: Amor / Sempre amor”. E eu falo assim “Love / Everyday / Love”, ele dá uma gargalhada e começa a cantar uma música sobre o Presidente da República e sua turma [ri], do Collor, PC [Farias]. Depois entra uma história de uma menina que ele se apaixonou, dá uma caminhada, vem uma saudade muito grande do Bob Marley, do Peter Tosh. Depois tem a música “Ponte de safena”, tem também aquele primeiro samba que ele escreveu [canta “Jaqueira da Portela”] “Quem é que não se lembra da jaqueira / Da jaqueira da Portela”. É um primor! É algo que todos tem que ter. Cheguei no estúdio e ele falou “Que bom que você veio me ajudar!”. Lá estava tocando uma vitrola, tinha um microfone. Nunca vi nada mais punk na minha vida! Ele falou para mim “Você veio me ajudar!”. Me deixou assim, deu uma sentadinha e tirou um cochilo. Ficou na minha mão. Aí, o que eu poderia fazer? “Alô, fulano? Alô, beltrano? Alô, sicrano?” Pessoas maravilhosas me ajudaram a fazer esse disco que está com o filho dele. É um primor!
Tacioli — Quem participou desse disco?
Luis Vagner — Luis Carlos de Paula (percussão), Perinho Santana (baixo), Rudy Germano (piano), participam Vange Milliet, Simone, pessoas que me ajudaram a fazer esse disco com ele. Não vou esquecer de ninguém aqui. E um menino que tocava com ele, o Luizinho. Quando cheguei no estúdio havia somente uma bateria e um violão.
Tacioli — Quando foi gravado?
Luis Vagner — Já faz alguns anos. Esse disco está pronto há uns 9, 10 anos. Zé Keti, como eu poderia me comportar de outra maneira, cara! O véio deu uma cochiladinha e passou a bola para mim. “Que orgulho, que prazer poder fazer alguma coisa junto com ele”. E aí trabalhamos e fizemos esse disco.
Leia a crônica do radialista e jornalista santista Osvaldo Moles (1913-1967), considerado o sucessor do escritor Antonio Alcântara Machado e pai artístico de Adoniran Barbosa
Tacioli — É isso. Mas antes eu gostaria que você explicasse em poucas palavras — já que você disse várias vezes — o que seria “Evolução do ser humano”. Só para a gente compreender esse conceito.
Luis Vagner — Esse conceito. [ri] Evolução do ser humano. Eu acredito que seja um momento em que possamos viver dignamente uns com os outros, sem a maldade, sem a hipocrisia, todo mundo consciente da passagem rápida pela vida, com uma visão de que existe a lei da causa e do efeito do que se faz na Terra, em todos os sentidos. Então, é nesse sentido, a evolução do ser humano num todo. Um fundamento assim, mais ou menos. A perca de valor. Gostei dessa. [ri]
Tacioli -Beleza.
Luis Vagner — Certo?
Tacioli — Alguma mais, moçada?
Monteiro — Não, mas ele ia encerrar com o “Camisa 10”.
Luis Vagner — “Camisa 10”, música de Luis Vagner e Hélio Mateus. [toca e canta] “Desculpe, seu Zagallo / Mexe nesse time que / está muito fraco / Levaram uma flecha / e esqueceram o arco / Botaram muito fogo e sopraram / o furacão, que não saiu do chão / Desculpe, seu Zagallo / Puseram uma palhinha / na sua fogueira / E se não fosse a força desse / tal Pereira / Comia um frango assado lá / na jaula do leão / Mas não tem nada, não / Cuidado, seu Zagallo / O Garoto do Parque está / muito nervoso / E esse meio-campo fica perigoso / Parece que desliza nesse vai não vai, quando não cai / Desculpe, seu Zagallo / A crítica que faço é pura brincadeira / Espírito de humor, torcida brasileira / A turma está sorrindo para não chorar, / tá devagar / É camisa 10 na Seleção! / É camisa 10 na Seleção! / 10 é a camisa dele / Quem é que vai no lugar dele?” [aplausos] Meus irmãos, muito obrigado! Obrigado!
Monteiro — Você já tocou a mesma música…
Luis Vagner — Do mesmo jeito? [risos] Mas hoje saiu uma versão samba-rock, hein? Foi a primeira vez que eu toquei assim. E falei pra caramba! Cuidem bem de mim! [risos]
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Faixa 01 – “Ilha do Mel” (Raul de Souza), por Raul de Souza
Faixa 02 – “Balada 45” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Arthur Verocai
Faixa 03 – “Sweet Lucy” (Raul de Souza), por Raul de Souza
Faixa 04 – “Balanço Zona Sul” (João Donato), por Raul de Souza e Robertinho Silva
Faixa 05 – “Rio Loco”
Faixa 06 – “Don’t ask my neighboors”
Faixa 07 – “Banana tree”
Faixa 08 – “Piano na Mangueira” (Tom Jobim), por Raul de Souza
Faixa 09 – “Bossa eterna”
Faixa 10 – “Lugar comum” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Robertinho Silva
Entrevista realizada em 14 de maio de 2002, na Macan Studios, São Paulo/SP.
Entrevistado: Luis Vagner Dutra Lopes (Luis Vagner) (20/abr/1948, Bagé/RS – 09/mai/2021, Itanhaém/SP)
Entrevistadores Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Flávio Monteiro, Giovanni Cirino e Ricardo Tacioli
Transcrição Ricardo Tacioli
Produção Flávio Monteiro e Ricardo Tacioli
Edição Ricardo Tacioli
Fotos e texto de apresentação Dafne Sampaio
Agradecimentos Eliane Verbena
Portelense de coração, ela não se considera pesquisadora, mas uma catadora de sambas.
Somente nesses últimos dez anos que a carreira de Ignez Francisco tomou o espaço que merece.
Um dos principais produtores de música brasileira, ele é responsável pelo primeiro disco de Cartola, Adoniran Barbosa e Carlos Cachaça.
Seus primeiros passos foi como cantora da Vanguarda Paulista; depois seguiu para Tom Jobim, Clube da Esquina e Eduardo Gudin.