Apaixonado pela cultura popular, cantor reflete sobre sua vida cheia de acasos felizes: dos grupos A Barca e Barbatuques à amizade com João Gilberto.
SÃO PAULO, 09 de julho de 2024
Marcelo Pretto é daqueles artistas que conseguem imprimir uma assinatura nas vibrações que são transmitidas pelo ar. Quando canta uma única nota, naquele grave inimaginável para gargantas comuns, a gente desvia o olhar para algum lugar e pensa: é o Marcelo. Se fosse “só isso” já era muito, mas o mistério sonoro se desdobra quando sacoleja a voz, toca o berimbau de boca, canta um acalanto ou murmura uma canção. Curioso e apaixonado pela música brasileira, faz parte do timaço de músicos que integram A Barca, grupo que viajou pelo Brasil todo de ônibus, uma espécie de Expresso Mário de Andrade, que resultou no projeto Turista Aprendiz e em uma maravilhosa quantidade de interações, experiências e pesquisas que fazem parte dos valiosos processos artísticos de todos os integrantes, especialmente de Marcelo. A essa experiência, realizada há mais de 20 anos, somaram-se outras, como integrante do Barbatuques, com a produção de seus próprios trabalhos, nas audições dos (muito) antigos discos de 78 rpm junto com a querida amiga e pesquisadora Biancamaria Binazzi, ou brilhando nos palcos da França, como convidado especial da cantora Camille.
Na noite desta entrevista, chovia bastante, a rua estava demasiadamente escura, algumas luzes apenas nas quadras distantes. Dentro da casa, já na cozinha, a conversa de mais de três horas aqueceu rapidamente, ainda antes de o café ficar pronto: bonito de ver como esse assunto — a música — fez seu grande e musical corpo se movimentar e iluminar. Histórias incríveis, como sua amizade improvável com João Gilberto, as interações com Meredith Monk, Vozes Búlgaras, as viagens e as descobertas pelas estradas que o levaram a Mali, Burkina Faso, Espanha e França, mas também — e sempre — para todo o Brasil.
Autodidata na música e nos desenhos que produz compulsivamente — muitos e muitos cadernos, cada qual mais belo do que o outro — e, quer saber?, novamente tem uma assinatura: no traço das mãos e no traço da voz. É das pessoas mais musicais que conheci na vida e, honrando a música — substância da qual parece ser feito — , essa conversa tem tudo o que a música do mundo tem: alegria, sonho, dor, tristeza, ritmo, singularidade, melodia e amor.
por EDSON NATALE
01. “Converse com o meu assistente”
02. “Parei a Elis, o Bôscoli e o Menescal para me escutarem”
03. “Edu Lobo não junta 10 mil pessoas dançando”
04. “Um artista multimídia. Pô, que diabo que é isso?”
05. “O público jovem se conquista pela palma que bate”
06. “Começo a pensar na tal sinfonia que sempre quis fazer”
07. “Pode ser a última vez que me pinta uma orquestra”
08. “Realizo uma mistura entre o samba e a bossa nova”
09. “A capa pronta, e estava lá, Toquinho, mas sou eu quem toca”
10. “A música pop vai virando música brasileira”
11. “Curumim, você é um artista!”
12. “O Rio de Janeiro não reconhece o Adoniran como deveria”
(enquanto equipe de ajeita junto à mesa da cozinha e Edson Natale passa o café)
Edson Natale — Pronto, café feito!
Marcelo Pretto — Bora tomar? As canecas estão todas aqui!
Natale — Onde?
Marcelo Pretto — Aqui!
Natale — Quem vai de café?
Marcelo Pretto — Caneca de tudo quanto é jeito. Eu gosto dessa russa.
Natale — Dessa daqui?
Marcelo Pretto — É!
Natale — O que é isso? Madeira?
Marcelo Pretto — É, comprei numa loja na Vila Madalena.
Natale — Renatão, café?
Renato Nascimento — Quero!
Marcelo Pretto — Você não vai tomar?
Natale — Não vou, mas vou deixar aqui porque [a caneca] é tão bonita que vou fingir que estou tomando.
Marcelo Pretto — Mas, rapaz, você não é normal! (…) Natale, mais duas coisinhas pra mim: na segunda gaveta tem uma colherinha e aí tem o adoçante.
Natale — Na segunda tem a colherinha, pronto, e o adoçante…
Marcelo Pretto — Pronto, tudo certo.
Natale — Agora vai!
Rodrigo Caçapa — Onde o Lincoln [Antônio] mora?
Marcelo Pretto — O Lincoln?
Natale — Ele mora perto de casa.
Marcelo Pretto — Vila Anglo.
Caçapa — Para deixar com ele o iPod. Ele vem pra cá toda semana, né?
Marcelo Pretto — Ele vem quinta-feira.
Caçapa — De repente, mando para a casa dele e ele traz pra você. É só você me dizer o que quer de música.
Marcelo Pretto — Tá legal!
Caçapa — Só não tem o fone, é somente o iPod mesmo, e tem um cabo USB para ligar o carregador.
Marcelo Pretto — Ah, tá.
Caçapa — Mas não tem o fone dele.
Marcelo Pretto — Fone a gente arruma.
Natale — Açúcar?
Caçapa — Tomo sem, obrigado.
Marcelo Pretto — Vocês não conhecem a casa dele? É uma delícia de casa.
Caçapa — Nunca fui lá.
Natale — Ele mora perto de casa e nunca fui.
Tacioli — Obrigado, Natale.
Marcelo Pretto — O Lincoln era pra estar aqui, né?
Natale — Era. Falei com ele, com a Juçara…
Marcelo Pretto — Nossa, acho que exagerei no adoçante!
Natale — Quer trocar, tem mais aqui!
Marcelo Pretto — Não, deixa assim.
Natale — Ou quer por mais para diluir o adoçante?
Marcelo Pretto — Talvez um pouquinho mais. Tá bom! (…) Entonces!
Natale — Bora nós!
(…)
Tacioli — A gente entrevistou o Mutinho.
Natale — Mutinho!
Tacioli — Conhece o Mutinho?
Marcelo Pretto — Não.
Natale — O baterista que fez a Casa de Brinquedos com o Toquinho.
Marcelo Pretto — Ah, o Mutinho, claro, claro! É um cara lendário.
Natale — É sobrinho do Lupicínio Rodrigues.
Marcelo Pretto — O quê?
Natale — (falando um pouco mais alto) O Mutinho é sobrinho do Lupicínio Rodrigues.
Marcelo Pretto — Ah, é sobrinho?
Natale — Então, vem a história do Lupicínio também. Foi sensacional!
Marcelo Pretto — Caralho! Eu sei que um dia, eu estava na casa de um amigo super apaixonado [por música] — mais para os lados do centro — e “Vamos ver o Mutinho?! Você precisa conhecer o Mutinho!”. A gente saiu andando pela cidade porque ele tocava ao vivo em algum lugar [dali]. Mas não conseguimos vê-lo. E quem mais?
Tacioli — E você é o terceiro agora dessa volta do Gafieiras com entrevistas novas. Cátia de França, Mutinho e você na sequência. Então, o papo passa pela vida e obra, mas sempre estimulando a reflexão sobre elas.
Marcelo Pretto — Parabéns! Você está lutando pela memória da música brasileira, que é tão preciosa. Sou suspeito para falar isso, mas é preciosa pra caralho. A música brasileira é o nosso tesouro, talvez o nosso tesouro maior. Maior não precisa ser, não é corrida, mas é subestimada… É um comentário meio bobo, mas, enfim, a gente não lembra direito das coisas… Agora está todo mundo ouvindo um tipo de som… “A gente tem que ouvir o funk, o sertanejo, tudo!” Acho que tudo vale, mas tem um cabedal, tem uma história que é interessante as pessoas [conhecerem], seja nas escolas ou de alguma maneira tentar — e não sei como — para não ficar um negócio chato: (emposta a voz) “Chico Buarque nasceu… Não! Mas de alguma maneira instigar esse legado, botar nas pessoas a vontade de escutar, porque é tudo tão [maravilhoso]… Não sei se é uma coisa de geração em falar “Pô, são coisas tão maravilhosas!”, porque é uma armadilha da idade. (alterando a voz) “Pô, nessa rua demoliram uma casa, que era tão linda, maravilhosa…”
Natale — A vida vai…
Marcelo Pretto — Vai comendo, né?
Tacioli — A gente entrevistou o Mutinho.
Natale — Mutinho!
Tacioli — Conhece o Mutinho?
Marcelo Pretto — Não.
Natale — O baterista que fez a Casa de Brinquedos com o Toquinho.
Marcelo Pretto — Ah, o Mutinho, claro, claro! É um cara lendário.
Natale — É sobrinho do
Lupicínio Rodrigues.
Marcelo Pretto — O quê?
Natale — (falando um pouco mais alto) O Mutinho é sobrinho do Lupicínio Rodrigues.
Marcelo Pretto — Ah, é sobrinho?
Natale — Então, vem a história do Lupicínio também. Foi sensacional!
Marcelo Pretto — Caralho! Eu sei que um dia, eu estava na casa de um amigo super apaixonado [por música] — mais para os lados do centro — e “Vamos ver o Mutinho?! Você precisa conhecer o Mutinho!”. A gente saiu andando pela cidade porque ele tocava ao vivo em algum lugar [dali]. Mas não conseguimos vê-lo. E quem mais?
Tacioli — E você é o terceiro agora dessa volta do Gafieiras com entrevistas novas. Cátia de França, Mutinho e você na sequência. Então, o papo passa pela vida e obra, mas sempre estimulando a reflexão sobre elas.
Marcelo Pretto — Parabéns! Você está lutando pela memória da música brasileira, que é tão preciosa. Sou suspeito para falar isso, mas é preciosa pra caralho. A música brasileira é o nosso tesouro, talvez o nosso tesouro maior. Maior não precisa ser, não é corrida, mas é subestimada… É um comentário meio bobo, mas, enfim, a gente não lembra direito das coisas… Agora está todo mundo ouvindo um tipo de som… “A gente tem que ouvir o funk, o sertanejo, tudo!” Acho que tudo vale, mas tem um cabedal, tem uma história que é interessante as pessoas [conhecerem], seja nas escolas ou de alguma maneira tentar — e não sei como — para não ficar um negócio chato: (emposta a voz) “Chico Buarque nasceu… Não! Mas de alguma maneira instigar esse legado, botar nas pessoas a vontade de escutar, porque é tudo tão [maravilhoso]… Não sei se é uma coisa de geração em falar “Pô, são coisas tão maravilhosas!”, porque é uma armadilha da idade. (alterando a voz) “Pô, nessa rua demoliram uma casa, que era tão linda, maravilhosa…”
Natale — A vida vai…
Marcelo Pretto — Vai comendo, né?
Natale — Seus pais foram seus primeiros incentivadores na arte?
Marcelo Pretto — É. Tive dois pais incríveis. (emociona-se) Outra coisa é que sou chorão pra caralho, gente. Então não liga, não. Me emociono facilmente. E agora sozinho tanto tempo, você fica pensando em tanta coisa. A falta da minha mãe — ela morreu em janeiro de 22 — ainda está doendo em mim, porque fico sozinho o tempo inteiro. Não gosto de ficar sozinho, ao mesmo tempo, em que gosto pra caralho, né? Quero dizer, sou solteiro, gosto da minha vida independente, então é contraditório mesmo. Mas aqui tinha a minha mãe, minha vidinha, fazia minhas coisas, ela fazia as coisas dela. Eu tinha uma presença extremamente forte, alguém que cuida de você, alguém que te ama do jeito que ninguém nunca amou e vai amar, né?
Natale — E ela sempre gostou de música.
Marcelo Pretto — (sobre a cafeteira) Aqui é só você apertar e deixar apertado. Não, não, pode servir assim. Só estou te contando…
Caçapa — Desculpa, não tinha entendido.
Marcelo Pretto — Então, diga.
Natale — Ela gostava de música? Ela te incentivou com discos? Como era essa parada?
Marcelo Pretto — Olha, nem muito, nem pouco. Meu pai e minha mãe tinham gosto musical, tinham discos, mas não um incentivo. Eles também ficavam vendo para onde que apontava, porque a minha infância inteira não apontou pra música. Acho que até os 15 anos eu não dava indicativo nenhum. Aí acabei pedindo um violão pro meu pai e ele me deu. Meu pai nunca teve problema com grana. A gente sempre foi classe média remediada. Então, foi tudo sempre tranquilo. Ao mesmo tempo, até os 10 anos, a gente tinha uma TV em preto e branco, bem pequenininha, que ele ganhou numa rifa. Lembro da felicidade que tive ao colocar um quimono, que era de algodãozinho, em cima da televisão e falar: “Tá colorida a imagem!”. Então, eu tinha umas histórias meio de pobre, mas era muito tranquila a vida. Meus pais sempre trabalharam. Minha mãe foi professora a vida inteira. Depois, um pouco mais tarde, ela parou de dar aula em faculdade e [passou a dar] atendimento psicológico em casa. E meu pai foi professor uma época e, mais tarde, trabalhou em empresa; ganhava um salário legal. Então, pra ele, um violão era tranquilo. Era um violão Di Giorgio. Lembro que veio um amigo em casa que conheci no [colégio] Galileu. Era o único negro do colégio, um cara super legal. Marcelo Trindade, meu xará. Depois ele virou físico de fractais mas, na época, era o típico músico: andava com aquelas touquinhas meio Gismonti, tocava violão e tinha bateria em casa. [No dia da] primeira aula no Galileu, a gente estava subindo a escada e o vi falando com um colega: “Pô, cara, você precisa ir lá em casa conhecer minha bateria!”. Olhei aquilo e fiquei tão fascinado: “Vou ser amigo desse cara. Quero ir na casa dele conhecer a bateria!”. Sempre tive muita relação com ritmo, o meu approach na música sempre foi pelo ritmo. Achei que facilmente seria um baterista, porque, uma vez aos 15 anos, fui numa festa, daquelas festas que você ia adolescente, você nem sabia de quem era, juntava todo mundo num carro e ia. Uma coisa meio deprê, na verdade, mas a gente foi parar num lugar em Itatiba. Aí tinha uma galera tocando, tinha um guitarrista muito bom e uma hora caiu na minha mão a bateria. Comecei a tocar aquele rock and roll podreira. Depois veio um cara brêaco: “Estamos precisando aqui na cidade de um batera do seu estilo — John Bonham”. (risos) Tinha um amigo do lado e falei: “Foi a primeira vez na vida que pego numa bateria, cara!”. Isso foi um negócio bonito, uma história legal, mas não era a bateria também. E o violão foi ficando sempre ali do lado, eu pegava um pouco e tocava. No fim, cheguei num lugarzinho com o violão, mas agora perdi, porque minhas mãos estão duras, não sei mais tocar, preciso reaprender.
Natale — Autodidata no violão?
Marcelo Pretto — Totalmente, mas tentei fazer as aulas com o cara aqui em casa, mas era tudo chato pra caralho e não fui pra frente. O cara mais legal com que tive aula foi o Ítalo Peron. Quem conhece o Ítalo?
Natale — Ítalo Peron, sim. (n.e. Violonista, produtor musical, arranjador e compositor, trabalhou com Paulo Vanzolini, Francis Hime, Carlinhos Vergueiro e Roberta Miranda)
Marcelo Pretto — Ítalo Peron, um grande músico, um cara muito legal, eu ia na casa dele. E além dele ter me ensinado umas músicas, ele tinha uns métodos interessantes. Então, pra improvisar, ele falava assim: “Faz um Lá com sétima. Agora faz um Sol. Fica nisso aí. Agora você faz esse mapa aqui no violão. E agora fica subindo e descendo nele, no braço — a princípio aleatoriamente — e, aos poucos procure um motivo melódico”.
Natale — Olha que legal.
Marcelo Pretto — “Tenta transpor!” É genial, porque ele não falou nada chato, ele somente deu o mapa do negócio e você tinha que ficar fazendo aquilo. Então, nesse momento, fui um pouco pra frente. Sabia tocar “Casinha na Marambaia” no violão. (n.e. Na verdade, “Só vendo que beleza (Marambaia)”, de Rubens Campos e Henricão) Cheguei a fazer show na Argentina tocando violão, mas não somente violão. Um show solo em que eu fazia à capela. Aí eu tinha violão, tinha o loop station e “vamos se virar nos trinta”, já que era um show solo. (n.e. Loop station é um aparellho eletrônico que grava e repete ‘loops’ de áudio em tempo real, criando camadas e texturas sonoras) E dava bom, era legal! Ao violão eu tocava “Apanhei um resfriado”, do repertório do Almirante, que é maravilhoso. É assim: (recita) “Pelo costume de beber gelado / Apanhei um resfriado que foi um horror”. Essa primeira frase vai contar a história da letra, uma coisa surreal, é literalmente essa frase: “Pelo costume de beber gelado, apanhei um resfriado que foi um horror”. E aí ele desenvolve a ideia até o final, um horror mesmo! Ele fala: “Porém com medo de fazer despesa / Isso é franqueza, não fui ao doutor para me curar / E tudo quanto foram me ensinando / Eu fui tomando e cada vez pior / Porém, quem quiser que siga o tratamento / Pois se não morrer da cura, ficará melhor”. Na segunda estrofe, ele já está mal: (canta) “No bangalô porém choveu a noite inteira / E eu debaixo da goteira, sem ninguém saber / A ventania arrancou o zinco do telhado / E eu fiquei todo molhado, quase para morrer”. Não sei se pulei alguma coisa. “Sá Guilhermina quis me dar um lenitivo / Então me fez um curativo e fiquei jururu / E foi chamado finalmente o sacerdote / Para encomendar um lote de dez palmos no Caju.” (risos) É maravilhosa essa música! E adoro samba-choro.
Natale — Como você chegou ao Almirante?
Marcelo Pretto — Foi o Ítalo Peron, ele foi quem me mostrou.
Natale — Quando você chegou ao Almirante, te despertou alguma coisa?
Marcelo Pretto — Tem várias coisas que me despertaram, porque não sei quando começou a história da música antiga e dos meus preferidos. Nunca gostei muito de voz tonitruante ou com muito vibrato. Às vezes, o vibrato mascara, né? Às vezes, tem gente que canta “Óóóóóóó” e fica um negócio um pouco…
Tacioli — Assombroso, do Gasparzinho.
Marcelo Pretto — É… (ri)
Tacioli — Dó de peito.
Marcelo Pretto — Não gosto do Vicente Celestino, mas respeito. Se você for pegar o Catulo da Paixão Cearense, ele é a cara do Vicente Celestino, né? (canta com voz empostada) “Se tu podes ver a imensidão do meu penar / Não-sei-o-quê da prismatização da luz solar / Rasga o coração”. Mas tem um cara que eu descobri, que foi o meu viés para entrar no Catulo, que se chama Paulo Tapajós. Esse é maravilhoso, porque ele canta suave, gostoso, tem um vibratinho, mas é maravilhoso o jeito como canta. Tem aquele sabor antigo, mas é outra história. Ele é o velha-guarda bossa nova, digamos assim. Tem um disco dele primoroso somente com Catulo, e fico viajando…. (n.e. Possivelmente o álbum ‘Luar do sertão — Paulo Tapajós com orquestra e coro interpretando Catullo da Paixão Cearense’, lançado pela Sinter em 1959)
Tacioli — Ele fazia as modinhas, não é?
Marcelo Pretto — Sim, as modinhas, e do próprio Catulo, mas ele canta outras coisas também. (n.e. Apaixonado por modinhas, o cantor, compositor e radialista Paulo Tapajós, 1913–1990, produziu o selo infantil Carroussel e emprestou sua voz para personagens da coleção Disquinho e para desenhos animados de Walt Disney)
Tacioli — O jeito do Paulo cantar te agradava?
Marcelo Pretto — Demais, demais, e me influenciou, me pegou muito. Eu queria ouvir mais coisas, tem outras modinhas. Tem uma gravadora importante chamada Fontana; muita coisa conheci por meio da Fontana, inclusive um disco que em um lado é o Paulo Tapajós cantando modinhas tradicionais, e aí tem o Manezinho Araújo, o Almirante. Essa coletânea é maravilhosa!
Caçapa — Ataulfo, né?
Marcelo Pretto — Ataulfo! E tem o disco de macumba, famoso, do João da Baiana. Uma vez vi num sebo um original desse Macumba. A capa é maravilhosa, mas era uma fortuna. (n.e. O álbum ‘Batuques e pontos de macumba’, de Sussú e João da Baiana, lançado em 1957 pela Odeon) Tive uma fase intensa de sebo, mas agora desencanei. Mas, enfim, para responder o que você falou, Natale, não lembro qual foi a fagulha inicial — precisaria fazer uma faxina mental para saber… (risos)
Natale — Uma regressão.
Marcelo Pretto — Mas tem uma coisa que eu lembro quando tive uma pequena epifania quando ouvi [um disco] na casa de um amigo — o Sergio Kafejian, um cara muito legal que foi muito meu amigo e agora é professor de música — fez uma formação em música eletroacústica e mora em Portugal. Ele é uma referência forte pra mim de amizade e de pensamento musical. A gente trocava muita ideia. E quando ouvi um disco perdido que ele tinha lá — nem sei se tinha capa — [eu disse] “Olha, curioso isso daqui!”. Comecei a ler uns nomes, Pixinguinha, não-sei-quem. Era o disco do Navio Uruguai.
Caçapa — Native brazilian music.
Marcelo Pretto — Native brazilian music. Essa parte que eu vou falar, o Caçapa não vai entender nada.
Caçapa — Deixe de besteira! (risos)
Marcelo Pretto — Qualquer coisa vocês traduzem para ele, tá?
Natale — Vou ajudá-lo.
Marcelo Pretto — Tem um tal de Jararaca & Ratinho, que ele nem sabe do que se trata.
Natale — Coitado! Ele é novo, vai aprendendo.
Marcelo Pretto — Depois ensino para ele umas coisinhas. (ri) Jararaca & Ratinho cantando “Sapo no saco”, juro, tive uma epifania! Foi um negócio assim: “Caralho, velho, que porra é essa?”. Era mais a mastigação e a granulação do som (canta rapidamente): “Era o sapo dentro do saco / E o saco com o sapo dentro (…)”. Em umas estrofes difíceis de entender, ele [Jararaca] começa a fazer — enquanto o Ratinho estava segurando — (canta rapidamente): “O cabra estava lá sentado com a poar / A caixa velha, a marra de mirigão, a marinha de um café do cômico, sentado com a poar.” Aí o Jararaca começava a fazer “Sapo, sapo, sapo, sapo, sapo” e dava a impressão de que eram dois sapinhos no brejo, e o outro estava pulando assim, sabe? Juro que pensei isso, cara, me veio a imagem e foi muito forte pra mim esse negócio. Muitas vezes, não entender é instigante.
Caçapa — Quantos anos você tinha?
Marcelo Pretto — Cara, adolescente, 16, por aí.
Caçapa — Não é muito comum alguém dessa idade ouvir o repertório Catulo, ouvir Jararaca & Ratinho.
Marcelo Pretto — Mas eu não era alguém que ouvia isso. Fui assaltado por isso, sabe? Fui criado na MPB. Sei que é uma sigla surrada, mas ela existiu, ela existe, e tenho um puta orgulho dela, porque hoje em dia parece “meio vergonha” falar você é da MPB, ficou uma coisa meio de mauricinho. Sei lá, posso estar respingando uma certa amargura, de (ser) coisa de geração… Tem um cara que o Kiko me sugeriu para ouvir. Aliás, o Kiko é outro cara que vocês têm que fazer entrevista com ele.
Natale — Dinucci?
Marcelo Pretto — Kiko Dinucci é o cara! Ele é fodido mesmo. Ele falou: “Tem um cara estudioso de música — Dogson, Robson, Hogson, um nome diferente — , com cavanhaque e um cabelo alto; uma caricatura — que é super partidário do funk. Ele é bem radical: ele começa a falar — com certo cuidado, mas fala — que MPB é coisa de mauricinho.” Eu fico assim: “Pô, não posso ter culpa de ouvir, de gostar daquilo que fui criado ouvindo, né?” Tenho um respeito avassalador — não é bem essa palavra — pela música brasileira, tenho um respeito muçulmano! Esses caras são os meus heróis, bicho! Sabe por quê? Você tem que agradecer a alguém cuja canção dessa pessoa remete a todas as partes da sua vida, te traz emoções, te traz imagens, te traz a lembrança de como a vida é maravilhosa e foi maravilhosa a minha história. E mesmo não sendo nada, minha vida é só um nada, mas ela é tão maravilhosa, ela foi tão maravilhosa. Nesse período em que eu tô parado aqui, começo a olhar pra trás e não consigo ver amargura, apesar de ter tido tanta amargura, tanta frustração, como todos nós, né? Todos nós! Dores, momentos difíceis, óbvio, todos temos. Mas, cara, que felicidade que é…
Natale — E essa felicidade é mais ou menos nessa adolescência, em que pintou o seu professor “físico” — o Ítalo Peron — e os seus professores “metafísicos”, como Jararaca & Ratinho, né?
Marcelo Pretto — Foi mais ou menos nessa época da vida, no miolo da adolescência. Sempre fui ligado à arte, nunca me liguei em outra coisa. Nunca tive dúvida na vida do que fazer… “Puta, fazer Administração, fazer Odontologia!” O Fábio Porchat tem um programa que eu gosto… Ele teve uma sacada de gênio, que foi [a seguinte]: todo mundo tem uma história. (n.e. ‘Que história é essa, Porchat?’, apresentado na GNT) E aí ele pega três famosos como chamariz, mas pega dois da plateia também, e, às vezes, as histórias da plateia são até mais legais [que a dos famosos]. Não tem hierarquia. E, no final, ele faz aquele bate-bola — às vezes tem umas perguntas meio bobas e outras [nem tanto]… Uma é assim: “Que trabalho você não faria?”. Eu não trabalharia com Odontologia. Fico pensando: “Meu Deus, ainda bem que tem gente com vocação pra isso!”.
Natale — Mas, na adolescência, você já sabia que você ia ser artista?
Marcelo Pretto — Eu não sabia nada… Sempre fui muito baldio, sempre fui assim “Vamos vivendo!”. Tinha uma certa época em que eu brincava que o meu epitáfio seria “Distraídos venceremos!”, que é o nome do livro do Paulo Leminski. Até a maneira como entrei n’A Barca, no Barbatuques — dois grupos em que fiquei muito, muito tempo, digamos que até hoje, meio roto, meio fodido, mas estou lá, teoricamente — , foi totalmente por acaso. E sempre fui um vagabundo, um cara que vagava por aí, não sabia direito [o que queria]. Não lidei bem com o final da adolescência e começo da vida adulta.
Natale — Você chegou a fazer faculdade?
Marcelo Pretto — Cheguei, cheguei. De um final de colegial no Colégio Equipe muito bagunceiro — tive a minha fase de turminha do mal —, terminei o colegial aos trancos e barrancos, fui parar na FUVEST e passei para a Filosofia, que era muito fácil de passar. E era uma coisa que, teoricamente: “Pô, Filosofia é da hora, mano, legal!”. Tô exagerando um pouco, mas era isso mesmo. Aí na primeira aula de Filosofia, falei: “Caralho, onde fui parar?!”. Era aula do Paulo Arantes. Quem conhece o Paulo Arantes sabe a pedrada que é. E qualquer um lá na USP é pedrada master, porque é muito foda, muito difícil, muito conteúdo, muito, muito, muito, muito de tudo. E o curso do cara era uma piada interna: “Dos pré-socráticos aos pós-modernos”. 1987. Basicamente, eram seminários dos alunos falando desses assuntos, só que todo mundo dava uma estudada e, na semana seguinte, um grupo apresentava. E eu lembro como, às vezes, as pessoas não sabiam o que estavam falando. Tinha uma que foi falar de Heidegger. “O Daisen…”, ela olhava pro professor e dizia “O ente na totalidade…”, mas ela não se convencia. Lembro da cara dela. E o Paulo Arantes só assim, ó, de cabeça baixa. Depois ouvi comentários de bastidores que ele dava risada o tempo inteiro. Era a diversão dele pegar um aluno de primeiro ano pra falar de assuntos tão [complexos]… Eram quatro horas de aula, era muito árido. Ele falava de professores históricos, como de um tal de Jean Maugüé, que era um francês amigo do Sartre, e ele estava ligado ao começo da USP no Brasil. Ele falava disso — e a voz dele era baixinha — e eu assim: “Nossa Senhora!”. Eu ficava desenhando no caderno. Foi bom porque desenhei bastante.
Natale — Mas você se formou?
Marcelo Pretto — Não, nada. Vaguei o primeiro ano, vagabundei no segundo. No terceiro eu não fiz nada. Aí fiz uma transferência interna para Letras, e fiquei um tempo lá. Era muito legal, muito bacana. Por exemplo: tinha o professor Paulo Pasta — maravilhoso, um dos mais legais de todos — , a Iná Camargo Costa, pessoas que gostei bastante de lá, mas também não era a minha. Então, também fiquei ali moscando um tempão, e fui saindo. E, lentamente, fui começando a pegar trampo com música: gravar uns jingles, umas coisas assim. Mas, nesse ínterim, aconteceu uma coisa muito importante: os festivais de Campos do Jordão, que foram determinantes pra mim. Foram em 94, 95 e 97, mas 97 já era outra história. Não me lembro de quem era o governo, mas o Benjamim Taubkin estava envolvido nisso.
Natale — Era a gestão do Ricardo Ohtake na Secretaria de Estado da Cultura.
Marcelo Pretto — Talvez.
Natale — Lembro porque eu estava lançando o primeiro Guia brasileiro de produção cultural e o Ricardo Ohtake era o secretário e os assistentes dele eram o Rodolfo Stroeter e o Benjamim Taubkin.
Marcelo Pretto — Isso! Sei porque o Rodolfo Stroeter foi fazer teste comigo lá. Em 94, 95, tinha muita grana investida da melhor forma possível. Veio um monte de atração e o popular estava inflado como nunca — para a minha sorte — , porque anos depois ele saiu e não tinha mais popular [no Festival], voltou a ser somente [de música] erudita, como era antes. Eu tive uma sorte de estar na hora certa, no lugar certo. Foi inacreditável! Inacreditável! Nesse meu vagabundear, trabalhei no Banco Safra por três anos (risos), e depois trabalhei no aeroporto de Congonhas por outros três anos.
Natale — Na VASP?
Marcelo Pretto — Na VASP fiquei amigo do João Gilberto. (risos)
Natale — Depois você tem que contar essa história.
Caçapa — Tem de fazer uma entrevista somente pra isso.
Marcelo Pretto — E do Hermeto Pascoal também. E foi bem aproveitada a minha estada.
Tacioli — Você trabalhou primeiro no banco e depois na VASP?
Marcelo Pretto — Não, primeiro foi a VASP e depois foi o banco. O banco era um trabalho chatérrimo, daqueles em que você fica numa baia: tem três tapumes, o computador e [você] recebendo [as pessoas]: “Seu saldo é uma bosta. Uma bosta!”. Fiquei três anos nessa merda! Gente, tem muitas histórias e elas vão se entranhando.
Caçapa — Vou entrar na música para a gente não perder o fio da meada. Vi hoje [o vídeo de uma] live com a Badi Assad que eu nunca tinha visto. E aí tem um momento em que ela pede para você dizer qual é a música que você vai cantar com ela. Em vez de você dizer “Pra onde vai valente?”, do Manezinho Araújo, você vai [para um lugar como se] estivesse filosofando, pensando sobre a música, sobre o que era a figura do Manezinho. E isso é uma coisa recorrente, já conversei muito contigo e sei que você gosta de ir longe, de pensar a música.
Marcelo Pretto — Ah, que legal!
Caçapa — Acho que algo dessa experiência da Filosofia ficou no seu jeito de lidar com a música. E outro é o teatro. No vídeo vi uma coisa que já tinha visto muitas vezes, principalmente quando você canta embolada, que é uma coisa mais frenética, e você dá um breque e olha para o lado. Você está atuando!
Marcelo Pretto — Que legal!
Caçapa — Me veio essa imagem: “Tem uma coisa teatral em Marcelo!”.
Marcelo Pretto — A observação é perfeita. É isso mesmo, cara! Você viu tudo aí. Lembro que tinha uma música d’A Barca, que depois a gente deixou de fazer porque virou politicamente incorreta, o que é uma pena porque eu fazia um personagem, que era o Manué. É um refrão de bumba-meu-boi Pai do Campo, que acho que é do Pará. (canta) “Ê, Manué, eu só vim fazer teu gosto / Ê, Manué, eu só vim fazer teu gosto / Sacrificando o meu coro / Correndo o suor do meu rosto.” E as estrofes eram do Chico Antônio. Então, foi uma junção muito feliz que o Lincoln [Antônio] e a Renata [Amaral] fizeram lá. (canta rapidamente) “A gente chega a ficar logo impressionado / Com o olhar enamorado das meninas do sertão / Muito cuidado por ali / Ninguém faz fita / Cada mocinha bonita. / Tem um tio que é valentão”. Essa ainda vai, mas tem umas que geram um certo machismo, fica uma coisa machista. Mas eu cantava com a Sandra [Ximenez] e com a Juçara [Marçal] e elas se divertiam, era uma coisa que dava certo. Depois elas saíram e entrou uma outra cantora que é super atenta a essas coisas. Um dia ela fez um comentário e fiquei tão triste… Falei: “Então desencana, não vou cantar mais essa música”. Mas era muito teatral: eu fazia o cabra safado, o cabra macho escroto e elas ficavam putas também, porque era um personagem bom também. E elas cantavam uma outra que a gente dizia que era a embolada delas, porque em todas as estrofes era uma contendo a outra, e cantando com essa atitude. E o refrão entrava: (canta) “Ê tum, ê tum, ê tum, ó mulher / Ê tum, ê tum, ê tum, ó mulher / ÉÊ tum, ê tum, ê tum, ó mulher / Ê tum, ê tum, ê tum, ó mulher / Ê tum, ê tum, ê tum, ó mulher / Já pra cozinha e faz café pra nós tomar”. Eu ainda tentava dar uma de (fala de forma ríspida) “Já pra cozinha e faz café pra nós tomar!”, mas logo era engolido [por elas]. Então, tem a teatralidade. Nunca encarei o meu repertório como trabalho, mas já tive que cantar “Evidências” uma vez, então, aí é trampo, né? Era uma coisa pra Brahma, sei-lá-o-quê, foi a Paula Mirhan que me chamou. Era um belo cachê: “Bom, vamos lá!”. Era o Lulu Santos: (canta) “Eu vejo a vida melhor no futuro”, é bonita essa música. (n.e. “Tempos modernos”) E tinha uma terceira, que era bem tranquila também, não lembro, e tinha “Evidências”, que é uma música que eu não pegaria, porque não é a minha. Depois vira uma unanimidade, “Essa música é muito boa, muito bem feita”. Tá bom, ela é mesmo, muito boa! Ela gruda, é um negócio eficiente. Dentro das músicas ditas sertanejas, essa é uma boa música.
Tacioli — Paulo Sérgio Valle, né?
Marcelo Pretto — A letra, né? Depois fiquei sabendo que o Paulo Sérgio Valle tá metido em cada letra, né? (risos) Tem várias com Herbert Vianna, tem várias com outras [pessoas]… Ele é muito bom. Gosto muito das coisas do Marcos Valle, sou muito fã. Voltando: as coisas [a música e o teatro] foram paralelas. Sempre tive uma ligação com a música pelo humor e pelo ritmo. São chaves pra mim.
Natale — Era uma sensação de brincar com a música?
Marcelo Pretto — De jogo, de brincar, exatamente.
Natale — Conversando com o Arismar, ele falou que um dia estava não-sei-onde e uma garota o viu tocar, e falou: “Como é que se improvisa?”. “Você não pode pensar que está fazendo música. Você tem que brincar com ela. Quando você brincar com a música, você vai aprender a improvisar!”. Achei isso lindo, uma figura maravilhosa, mas eu não consigo. Você vê o Arismar tocando, ele está brincando, né? E tenho essa sensação quando você canta. Não é um compromisso, você está lá, é um estar no seu ambiente, no seu ecossistema.
Marcelo Pretto — Vou pensar no que você falou. Como seria a questão do compromisso?
Natale — Falo dessa seriedade que oprime, que constrange, sabe? “Agora vou ter que acertar!”
Caçapa — Siba me falou uma coisa interessante: “É tão difícil ser músico no Brasil, que muitos músicos, no esforço de serem profissionais, de serem competentes, de entregarem o serviço correto e conseguirem continuar trabalhando, esquecem desse lado que você tem, do prazer, da alegria, da brincadeira”, né?
Marcelo Pretto — Acho que, muitas vezes, a insegurança dessas pessoas é a minha também. Uma vez, bem lá trás, numa época em que eu tocava violão e cantava, mas muito tímido, fui na casa do Chico César. Lembro que fiquei tocando e cantando uma música, um samba, tocando sambinha. Não deu nada. Ninguém se [animou]… E eu também estava apagado. Então, o que me ajudou um pouco a botar mais pilha [na música] foi o Festival de Campos [do Jordão], que eu ia começar a falar.
Natale — Você não acabou de contar.
Marcelo Pretto — Festival de Campos foi assim: trabalhei na VASP, daí saí de lá e entrei no Banco Safra. Eu tinha férias em julho e aí casou. Eu tinha ido ao festival de Londrina, de 92, mas era um festival bagunçado e eu também estava muito tímido. Não sei explicar o que aconteceu de 92 pra 94. Em 94, eu era outra pessoa. Em 92, fui lá, fiz umas coisas — podia escolher vários cursos: fiz bateria, voz erudita, porque só tinham essas opções. E o baterista era o Chuim…
Natale — Ah, lembro do Chuim. (n.e. O baterista, percussionista e professor Luiz Chuim de Siqueira)
Marcelo Pretto — Era um cara que os amigos meus não gostavam muito, porque era professor da Unicamp, então era desencanado de aula, tanto que nessas aulas no campus ele não ia, não era legal. E a de voz erudita também não era legal, porque não tinha nada a ver comigo, a professora também era mais ou menos. Ela falou: “Aqui nessa classe não tem nenhuma grande voz”. Eu fiquei assim: “Talvez eu não seja cantor mesmo!”. Mas tinham algumas pessoas nos corredores que eram legais, tinha aquele cara que foi da geração do Hossoi na Unicamp, tem um nome curto… Puta, é um cara muito legal. Ah, queria lembrar o nome dele, que pena.
Tacioli — Ele toca o quê?
Marcelo Pretto — Guitarra e violão. Magrinho… Pô, pena! Ele me ensinou a tocar “Luz”, do Djavan. (canta) “No burro a canga / Na menina a tanga / O verde do mar”. Ele escreveu a letra e comecei a aprender ali. E outras coisas legais que aconteceram nesse festival de Londrina, mas foi mais um passeio no mundo da música. Você fica inebriado quando passa pelos corredores e vê violino afinando, vê instrumento afinando. Isso me instiga pra caralho, me dá um negócio! Naqueles corredores tem refeitório, tem as torneiras, é uma coisa meio de colégio e, ao mesmo tempo, todo mundo é músico. Colégio dos sonhos, porque só tem música. E você andando com eflúvios da infância, da adolescência, do colégio. E aquilo me deu uma coisa boa. Mas, em 94, eu peguei as férias e uma amiga cantora — Cecília Arellano, que mora na Argentina — falou: “Olha, tem o Festival de Campos, assim, assado!”. E fui no último dia fazer o teste… Falei ao telefone com o tal do Sígrido.
Natale — Sígrido Levental!
Marcelo Pretto — Que parece que era uma pessoa muito legal, mas ele foi um pouco impaciente. Eu também estava meio impaciente. “Ah, então, vai lá, vem aí e tal.” E eu fui lá. Aí tinham dois caras: um deles era o Teco Galati, que era um regente de coral. O outro, eu não lembro. Aí o cara tirou uma partitura: “Você sabe que figura é essa?”. Eu chutei. “Isso é Si Mínima, sei-lá-o-quê. Não sei!” e olhei pra ele com uma cara “Será que é?”. Ele sentou ao piano e começou a tocar. “Qual música vai ser?” “Falsa baiana”. “E o tom?” “Lá Maior” — chutei, né, eu não sabia! (risos) Aí o cara começou a tocar “Falsa baiana”. “Agora, vou modular!” Eu modulava bem, porque ouvia bem. Ele falou: “Tá bom! A gente fala com você qualquer coisa”. Aí me ligaram. Era o Sígrido de novo, meio impaciente. “Você vai ter que voltar!” Eu falei: “Ah?! Tem que voltar, pô?!” E daí voltei e era somente o Rodolfo Stroeter. Levei meu violão e mandei “Linha de passe”, do João Bosco. “Tá dentro! Tá dentro do festival, só que não tem violão!” E ele falou uma coisa meio se desculpando, mas, na verdade, era um professor espanhol, o Antonio Placer, não sei se você chegou a conhecer essa figura. Ele é um cara alto pra caramba, galego, mora em Grenoble, na França, há muitos anos. E ele dá aula lá, é artista, faz muito show. É um cara eloquente, beirando o romântico, tem um cabelo meio assim. Tinha acabado de fazer um disco com o [Toninho] Ferragutti, somente voz e acordeom, e algumas faixas ao violão, que ele [tocava] também. Ele chegou e “Quem é esse cara?!”. As alunas eram: Consiglia Latorre, Silvia Handroo, pessoas que já eram da música, já tinham mestrado. Aí ele falou: “Vai rodando!”. Aí cada um canta um trecho de uma música. Cantei “Valsinha”. (canta) “Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar.” Acho que é uma música que mostra o timbre, mostra uma aveludado. Aí, no final, falei: “Eu sou o Marcelo e trabalho no banco!”. (risos) Não falei mais nada. Ele chegou, pôs a mão nas minhas costas e falou: “Quando falo do canto, é isso que eu tô falando, é o que eu quero falar. É não-sei-o-quê, não-sei-o-quê”. Ele falou um monte, fez um elogio e pegou no meu pé o curso todo — no bom sentido. E eu falando que não compunha e fiz uma mini música lá. “Porra, você não faz? Olha o que você fez aqui!” Foi incrível, foi um negócio muito forte pra mim, muito forte, porque desenterrou os negócios. Não que eu passei a compor, não componho ainda, mas saber que tem coisa ali, saber que compor não é uma coisa só mágica, é sentar e trabalhar também, se valer de inspirações para melodias, mas, depois, no fim, é pegar aquilo que você curtiu, sentar e trabalhar em cima. Foi isso até o final [do curso], [quando] fizemos uma pequena apresentação. E ele falou: “Quero que você volte o ano que vem!”, para mim e mais para três pessoas. “Quero compor pra você e quero que você componha pra mim.” Ele falou uma das coisas mais lindas que já ouvi na vida, ainda mais naquele momento em que eu era um nada… Eu era um cara que, naquela época, pegava um violão, cantava Gil, Jorge Ben, e segurava uma festa. Eu lembro de uma roda de gente descabelada dançando à minha volta — eu tocando violão. Sabia que eu tinha o cerne de uma coisa, sabia que tinha um negócio ali pela minha voz e pelo meu jeito rítmico de tocar o violão, porque minha mão esquerda sempre foi muito preguiçosa. Gil nem tanto, mas o Jorge Ben é tranquilo, com três acordes você se vira. Do Gil eu fazia o “Babá alapalá”, aquelas coisas que também são mais tranquilas. E fui me virando. Quando cheguei lá, ele falou assim: “Olha, quero que você faça tal coisa com duas condições”. E foram coisas carinhosas: “Que você emagreça!”, porque eu estava muito gordo naquela época, mas sempre fui muito gordo. Agora tô até um pouquinho menos. “Que você emagreça e faça aula com a Silvia.” Ele queria que eu tivesse os rudimentos, começasse a aprender música e, ao mesmo tempo, cuidasse do corpo. Uma coisa super justa, né? Não fiz nenhuma das duas coisas. Comecei a ter umas aulas com a Silvia, mas no fim virou bate-papo. A Silvia era muito bonita e eu ficava meio perturbado. E ficamos nesse papo e aí fui parando. No ano seguinte participei do outro festival que foi muito legal também, muito profundo e incrível. No primeiro ano, em 94, foi a Meredith Monk. Ela falou: “Só vou fazer show com uma condição: se eu puder dar minha oficina”. Melhor condição possível, né? E eu estava nessa oficina. Foi uma loucura, cara, porque tava todo mundo meio embriagado por estar no Festival. A gente se hospedava num hotel com aquelas camas-beliche, que era bem razoável pra idade da gente. Os refeitórios, nossa, eu comia pra caramba, comida boa. Então, acordava, tomava café, voltava e ia pra aula de manhã. Aí, voltava, almoçava e ia pra aula da tarde. Aí, era aquela bagunça, jantava, e ia ver o concerto principal no teatro Cláudio Santoro. E depois, a gente saía de lá, passava na cidade que tinha o final do Cine Carlton Arts e quem que fazia um sonzinho na saída do cinema era simplesmente o Proveta, Nenê e Mozart Terra. Esse era o trio! (ri) Então, a gente assistia a esses caras tocando na saída do cinema. Eu pirei no Proveta! “Quem é esse cara?” “É o Proveta, é o Proveta!” “Que Proveta? Que porra é essa!” Eu não conhecia quase nada.
Natale — E a oficina da Meredith Monk te pegou em que lugar?
Marcelo Pretto — Ela punha a gente para fazer algumas coisas clássicas de oficinas, por exemplo: em uma roda, cada um fazia uma assinatura musical. (emposta a voz) “Maaarcelo Prettooo!”, fazer algo nesse estilo. E isso fixava e você lembrava daquele fulano pelo gesto que fez. Funcionava. Ou dois grupos nas paredes, ou todo mundo de um lado, andando para o outro lado com alguma intenção, ou meio correndo, ou meio tentando… Propostas bem loucas, não sei explicar, não lembro direito também, mas foi muito bacana. Quando a gente foi ver o show dela, se eu não tivesse feito a oficina, ia ser muito mais árido para mim, porque ela fez o show sozinha. Fez até um pouco de berimbau de boca e fez umas peças solo, né? É uma coisa muito árida, mas eu já estava fascinado por ela, pela oficina. Adorei aquilo, achei muito louco. Achei uma música absolutamente louca, legal e nova para mim, um negócio que nunca tinha visto. Então, são essas informações que chegam e te chapam: “Meredith Monk, ó!”, sendo que você nunca tinha ouvido nada parecido na vida, mas você foi amaciado pela oficina e ela faz aquela arte dela e você entende. Tem uma pequena história bonitinha para contar. Nesse ano tinham as Vozes Búlgaras (n.e. Le Mystère des Voix Bulgares) e o Nusrat Fateh Ali Khan, que era do Paquistão. Mas, olha essa história, que coisa louca, gente! Parece que a vida é uma novela feita para você, às vezes, tem um pouco isso, né? Estava numa fase em que emagreci 30 quilos em três meses. Estava começando a ir de bicicleta para o aeroporto da minha casa, que é perto. Aí eu chegava no aeroporto, pendurava minha bicicleta e subia a escada para aquelas salas que ficam no fundo. Aí o chefe começou a implicar, que não pode, e eu o peitei. Em pouco tempo fui mandado embora [da VASP], mas eu estava feliz da vida, achando que estava seguindo o curso natural das coisas. E fui ver minha passagem. “Quero ir para a Índia!” Eu queria ir para a Índia fazer peregrinação ao Himalaia. Sei lá o que era isso, mas achei que era fantástico. Era jovem, tinha força física. “Vou fazer a peregrinação do Himalaia, vou me iluminar!” Eu estava com esses resquícios de pseudo-conhecimentos — o Nirvana, o Satori. Tinha lido o Hermann Hesse, o Sidarta, que é aquele negócio para inglês ver, porque não é um conhecimento profundo de cultura indiana, é um romance, muito legal por sinal, mas um romance que fala dessas coisas. Fala do Satori, do Nirvana, que é um estado de total ausência de desejos. Eu conversava com amigos, as pessoas tinham um vago fascínio por isso. “É, meu, mó da hora, mano? Pode crer! Muito louco esse lance do Nirvana, né, velho? Vamos fumar isso daqui e ver se chego no Nirvana.” E aí estava com isso na cabeça. “Quero ir para a Índia!” “Fala o código!” “Não sei o código!” “Fala um outro lugar!” Eu estava muito na pressa, correndo. “Portugal!” Pensei: “Vou para um país em que não tenho problema com a língua, trabalho lá”. Eu estava querendo trabalhar. Aí vou para a Índia, e volto para o Brasil feliz da vida. Não foi nada disso, acabei ficando um mês e meio na Europa com a grana da rescisão e voltei pro Brasil muito atrapalhado, muito, muito, muito. E muito comédia também, né? (ri) Saí do aeroporto de Portugal chegando no Novo Mundo — no Velho Mundo, na verdade, pra mim era novo… Cheguei e falei: “Por favor, onde é o Albergue da Juventude?”. Mostrei no (guia de viagens) Frommer’s que eu tinha levado. “Tens de pegar outro carro até o comboio… Cais do Sodré!” Eu não entendi nada, porque autocarro é ônibus, comboio é trem. Daí andei, andei, andei com a mochilona nas costas, violão e cheguei no lugar! (ri) (Isso é meio ridículo de contar, mas tudo bem.) Um prédio gigantesco cheio de bandeiras do mundo inteiro. Falei: “Aqui é o Albergue da Juventude?”. “Não, isso aqui é a NATO. Isso é a Nato!” “NATO? O que é NATO?” Era a sede da OTAN em Portugal. “Caralho, mano!”, fiquei com vergonha na hora! Aí cheguei na porra do Albergue da Juventude não sei como e foi o começo das minhas aventuras por lá. Lá eu não comia em restaurante. Pegava um saco de laranja que aqui ainda não existia; eles chamam de Bahia Importada. Já viu isso no supermercado?
Natale — Não!
Marcelo Pretto — Laranja Bahia Importada. É essa aí, ó, eu te apresento essa laranjona. (aponta para a fruta também conhecida como laranja de umbigo ou navel) Cara, é um nome desajeitado, justamente porque ela lembra um pouco a laranja Bahia. E é uma delícia essa laranja, olha a cor dela. E ela não é nem doce como a laranja lima, e nem azedinha como a pera. Ela é perfeita! Tinha de monte na Europa e não tinha aqui, ainda não estava muito globalizado, 1991. Fascinado por essas laranjas, eu pegava um saco de laranja e uns três chocolates Mars, que eu adorava, e era isso que eu comia o dia inteiro. E andava bastante. Estava bem magro nessa época.
Natale — E isso foi antes de Campo de Jordão?
Marcelo Pretto — Foi três anos antes. E olha que atrapalhada: levei meu violão e um monte de folha de papel para tirar as músicas. Eu estava começando, né? Levei fita para ouvir as músicas de bossa nova e sair tirando. Fui tocar em uma praça na Espanha. Aquele puta sol, aquela praça e ninguém ouve porra nenhuma. Não tinha ninguém na praça! E aí, mesmo assim, chegou um cara de longe com puta sorriso. Ele tinha uma moeda na mão. Falei: “Tomara que seja uma moeda boa!”. Estava duro na época. Era peseta, a moeda mais baixa de todas. Botou a moedinha lá. E nisso, eu andando desolado na praça, falei: “Puta, não vou fazer mais essa merda!”. Olhei um negro americano, velho, sorridente, tocando sax: “Bom, o cara foi inteligente, tocando sax você propaga o som. Violão, bossa nova, ninguém ouve.” (ri) Não tinha parado para pensar: eu tinha que ter pelo menos uma caixinha [de som] pequena. Foi uma viagem atabalhoada, mas foi muito legal. Fui em Portugal, Espanha e Itália. Cheio de aventuras. Essa viagem foi muito importante.
Natale — Você estava falando das Vozes Búlgaras.
Marcelo Pretto — Ah, é isso. Então, olha só. Eu estava em Barcelona andando, perdidão. Era verão, uma época boa lá, porque aquelas ramblas ficam cheias de gente, com muito músico de rua — que eu conhecia alguns. Eu estava procurando e vendo umas coisas que estavam vendendo. Era forte o cassete. Então perguntei para umas pessoas com uma banquinha meio pobrinha lá: “Tem música da Índia?”. “Tenho isso aqui!” Pensa: de um lado (da fita cassete era) o Nusrat Fateh Ali Khan e do outro lado, Vozes Búlgaras. Entenderam já a história? Eu, na época, nem ouvi tanto o Nusrat Fateh Ali Khan; mas pirei nas Vozes Búlgaras, mas de uma maneira que foi uma outra epifania que tive, porque eu estava na Europa, ouvindo aquela coisa oriental, áspera muitas vezes, e muito linda, porque elas desembocavam em acordes super dissonantes para um consonante. Tem muitas músicas folclóricas que vi da Bulgária que são duas vozes em intervalos de segunda, é bem rascante. E como esse grupo já era um grupo mais [conhecido], os compositores importantes faziam músicas para ele, já tinham outros sabores. E já ouvi esse primeiro volume, Le Mystere des Vox Bulgares (Mistério de Vozes Búlgaras), que era esse grupo.
Natale — E era esse grupo que estava em Campos?
Marcelo Pretto — É! E aí, cara, pirei demais com esse som, eu ouvia muito, muito, muito, só com o meu walkman, inseparável. O walkman foi um bichinho que eu aproveitei. Para aquela época era impressionantemente portátil, era muito moderno. E eu gostava da fita pela possibilidade de você gravar. Eu perdi essa coisa de gravar. A gente tinha também com o videocassete. E aí, dois anos depois, vou para o Festival de Campos, e quem está de atração? Os dois grupos! Isso foi incrível, foi incrível mesmo, foi impressionante! A Juçara [Marçal] falou recentemente que esteve na oficina das Vozes Búlgaras. Eu nem conhecia a Juçara ainda e a gente estava na mesma epifania, porque foi incrível, elas pareciam umas tias da gente, umas tias italianas que eu tinha, só que elas abriam a boca — aquela cara de tia fofa pra caramba — e, “Ahhhhhhhhh!”, aquele negócio que você fala “De onde vem essa voz, cara?!”.
Natale — Isso é possível, né?
Marcelo Pretto — Isso é possível e não combina muito com essa cara de tia italiana, porque ela está fazendo um bagulho que vem lá dos orientes, sei lá de que oriente, dos contos de fada, não sei de onde vem essa voz. Fiquei fascinado com a Bulgária: “Preciso ir para a Bulgária!”. Na Bulgária tem concursos regionais de voz. A voz lá é muito [valorizada]. E tem vozes de lugares diferentes, então tem sabores diferentes, jeitos de cantar diferentes. No final, a gente fez uma rodona em volta das cadeiras e dançamos uma ciranda. Pra mim foi um banho inigualável de música, isso em 94; e tinha grupos eruditos legais, tinha só o do bom e o do melhor. Em 95, pra você ter uma ideia, sabe quem foi supervisionar a big band? Simplesmente a senhora Carla Bley. Carla Bley e o marido dela, porra, baixista da pesada… Esqueci, cara! (n.e. Steve Swallow) E o Thomas foi junto também, né?
Rodrigo Caçapa — Você já conhecia o Thomas antes d’A Barca? (n.e. O rabequista e saxofonista suíço Thomas Rohrer)
Marcelo Pretto — Conheci o Thomas antes d’A Barca.
Rodrigo Caçapa — Em que circunstância, conta pra gente?
Marcelo Pretto — Em 95. Eu conheci o Thomas no curso do Ricardo Breim; ele mal falava português. Ricardo Breim juntou muita gente, é um cara importantíssimo em São Paulo.
Rodrigo Caçapa — Curso de quê?
Marcelo Pretto — Era de percepção, mas ele tem um jeito muito interessante, ele pega exemplos muito bons, tem um método interessante.
Natale — E o Steve Swallow?
Marcelo Pretto — Steve Swallow, porra, o grande e magnífico Steve Swallow! O Thomas falou que ele tocava com o árabe que toca ud, que é do jazz, o Rabih Abou-Khalil. E ele falou, ele conversou com o Steve e falou, “Ah, você toca? Nossa, é difícil realmente!” Havia Rabih Abou-Khalil, com uma música ultra complexa, cheia de compassos muito loucos. E o Thomas lá foi muito legal. Foi eu quem deu o toque pra ele ir pra Campos e a gente ficou muito amigo nessa época. Ele tinha um referencial fudido. O Thomas me ajudou muito porque trouxe um referencial muito diferente. Ele não sabia nada de música brasileira. Aos poucos, ele foi curtindo aquilo que ele era a fim, porque, de cara, fui apresentando Hermeto, Gismonti. Ele curtiu, mas não foi isso que o pegou. E logo ficou amigo do Zé Gomes. Fiz muitos passeios com o Fusquinha horrendo do Thomas. A gente ia pra Cantareira, para a casa do Zé Gomes. Parecia que a gente estava indo para a casa do Sábio da Montanha. O cara era um sábio incrível e gostava muito do Thomas, musicalmente também. E o Thomas, nessa época, era muito amigo do Célio Barros. Vocês conhecem o Célio Barros? (n.e. O astrólogo, produtor musical, técnico de som e músico carioca)
Natale — Sim.
Marcelo Pretto — O Célio Barros ganhou o primeiro Visa com o André Mehmari. Ele foi o azarão, porque não saía de casa. Ele toca baixo acústico como ninguém. Como ninguém! Ele come o baixo acústico. Em uma época da vida, ele até saiu do colégio, estudava baixo oito horas por dia. É um cara obstinado por música, mas ele é assim, tinha aquele gosto: ECM, umas paradas e som doido. E o Thomas também, né? O Thomas era doidão! Então, eles faziam muitos duos. E aquilo abriu a minha cabeça, porque a palavra improvisação até aquele momento era uma coisa meio chata do jazz, que é uma coisa que você vai, expõe o tema, vai subindo e descendo as escalas, volta pra exposição do tema e acaba a música. Faz uns licks (n.e. Frases melódicas improvisadas), uns riffs, umas paradas dessas. Com eles era assim, improvisação. Ele me dava os cassetes depois que gravava. Ouvi bastante coisa. Era do zero, podia acontecer qualquer coisa e, de fato, às vezes ia pra lugares incríveis. Tinha uma simbiose ali, não é simbiose a palavra, mas uma interação entre os dois muito incrível. E lembro que fui uma vez com o Célio e o Thomas na casa do Zé Gomes. E o Zé Gomes falando um monte do Thomas, e pro Célio ele deu umas certas broncas. E o Célio: “É verdade, você tem razão!”. E eu escandalizado, porque pra mim os dois eram gigantes. “Sério que ele falou isso do ritmo, de coisas assim?!”. E o Célio anuiu tranquilamente: “É verdade!”.
Natale — Marcelo, nessa época do Festival de Campos, você tinha quantos anos?
Marcelo Pretto — Deixa eu ver. Vinte e três? Vinte e sete, vinte e oito, por aí.
Tacioli — Marcelo, me parece que esse é o seu período de formação musical.
Marcelo Pretto — É, você vê como foi tarde, né?
Tacioli — Você já conseguia visualizar o que queria da música?
Marcelo Pretto — Não. Bom, eu sou músico, digamos assim, porque uma vez o Hermeto falou pra mim, ao vivo, na casa dele: “Tem muito músico por aí que não toca nada!”. Ele quis dizer: “Tem gente que não toca nada e é mais músico do que o músico, porque tem a música no coração, na alma, pensa em música o tempo inteiro!”. Aquela frase era pra mim, porque desde os 15 anos eu só penso em música. Só! Música é o que mais me ocupa.
Tacioli — Até hoje é o que mais te ocupa?
Marcelo Pretto — É! E agora eu tô lendo a biografia do Gil, que é muito legal, né? Gilberto de perto, uma coisa assim. (n.e. Trata-se de ‘Gilberto bem de perto’, de Gilberto Gil e Regina Zappa, editado pela Casa dos Livros, 2023) Bacana. Tô lendo outras coisas também. Então, eu vim de uma época em que eu falava: “Nossa, preciso tocar alguma coisa!”. Isso bem na adolescência: “Tocar é muito mais legal que cantar. Tocar você pode ir mais longe, né?” Era a minha visão da época. Aí depois você vai entendendo que o canto é praticamente o instrumento que traz o DNA da cultura. Quando você ouve um canto, você é capaz de dizer de que região cultural é, como é maravilhoso cantar. E o cantar pode tomar várias formas. Com o Thomas conheci aquele cara chamado Fil Milton, não sei se vocês conhecem esse cara. Nossa! Ele faz umas loucuras com a voz, já é um pós-tudo, mas foi muito interessante conhecê-lo. O Thomas me levou a conhecer outras coisas. Foi um cara muito importante na minha vida.
Rodrigo Caçapa — Nesse momento, tem o Mangue Beat em Recife, que tem muitos desdobramentos. Como isso bateu pra você? Você falou de Juçara e de Thomas, com quem você depois vai fazer A Barca, com o Lincoln e com o Renato. Parece que não tem nada a ver o movimento d’A Barca e a relação com o Mário de Andrade com o Mangue Beat, mas vejo uma certa convergência. O que veio pra você primeiro: Mário ou esse interesse pela cultura popular?
Marcelo Pretto — A história d’A Barca foi assim: eu estava em casa e aí me ligaram. Falaram assim: “Eu sou Renata, namorada do Lincoln. A gente viu você cantando numa festa, gostou demais, e a gente quer convidá-lo pra um projeto em torno do samba com a Nenê Cintra. Você conhece?” “Não!” “A gente queria que você cantasse uma música chamada…” Como era? “Pô, essa música eu adoro!”. Não lembro agora qual era. Aí a gente gravou. Não lembro se era “Batuque na cozinha”… Era uma demo com três músicas: uma minha — eu cantando toda ela — , outra a Nenê, e outra com a gente dividindo os vocais. Não vou lembrar. Onde a gente foi gravar? André Magalhães. Aí eu conheci o [estúdio] Zabumba, conheci o André, e foi um tronco de pessoas que se iniciou ali. Aí o negócio não foi pra frente, mas logo o Lincoln veio com uma ideia que tinha conversado com a Renata em torno do Mário de Andrade, da gente fazer um grupo sem nome ainda.
Caçapa — Isso foi em que ano?
Marcelo Pretto — Ele [Lincoln] falou do Mário como uma figura fundamental da cultura, porque ele já tinha esse fascínio pelas coisas que a gente não conhecia, que tinha esse manancial de coisa que, na verdade, está na base da própria MPB, que é aquilo que a gente chama erradamente de folclore, mas que é a cultura popular do povo mesmo. Mas eu não tinha essa ideia de cultura popular do povo, eu só tinha uma imensa curiosidade. Lembro que vi um programa de TV e tinha um cara chamado Vicente Barreto. Ele cantou (canta) “Pisei na taba da barca / Vi o arranco do vapor”. Era uma coisa assim. (n.e. Trecho da música “Tesouro de ouro”, do álbum ‘Vicente Barreto’, lançado pela Continental em 1981) Dava a impressão de que aquele refrão era uma delícia de cantar, era uma coisa que vinha de um outro lugar. É como se ele tivesse aproveitado aquilo do folclore e o resto era a estrofe que ele criou. Assim como o Tavinho Moura gosta de fazer isso. Quando ele fala: (canta) “Gente que vem de Lisboa / Gente que vem pelo mar / Laço de fita amarela na ponta da vela / No meio do mar”. Ela já vem mastigada, né? Ela já é uma coisa que vem do folclore, mas a música — que é a parte dele — é uma coisa meio… (canta) “Terra boa / Que maravilha você dar / Na terra avistar / Saltando do interno na vida”. (…) São aquelas construções loucas que Tavinho que eu adoro. Eu já reparava que muitas músicas da MPB chegavam num lugar de fluência que parecia mais ancestral, parecia que viemos de um outro lugar. É difícil explicar isso, nunca falei sobre isso, mas eu tinha uma curiosidade imensa sobre isso. E juntou todo esse povo. Aí ele chamou a Sandra [Ximenes], a Juçara [Marçal]. A gente foi juntando, conversando, tinha muita festinha na casa da Renata, a gente ia cantando. Eu já cantava alguma [coisa]… Renata Amaral, a grande, a gigantesca Renata Amaral! A Renata Amaral é uma figura impressionante! Ninguém adivinha a Renata Amaral, porque a Renata Amaral é quietinha. Ela tem aquele jeitinho dela, mas, velho, essa mulher é um vulcão, é um poço de sabedoria, de inteligência, de movimentação da cultura, de fazer coisas. Ela não para, cara, não para! E ela só faz coisa legal. O acervo do Maracá talvez seja o melhor acervo do Brasil atualmente, com coisas que ela foi gravando pela vida fora. E a Renata já conhecia os Guaranis, já ia para Boracés, já tinha uma relação pessoal com o Pajé. E com o Lincoln, eles já tinham ido ver o jongo em Tamandaré, lá em Guaratinguetá, já tinham tido algumas experiências. Eu ainda não. Eu já tinha um fascínio muito grande por isso. Então, foi sopa no mel, porque todo mundo se juntou ali e aí começou. A gente fazia assim: abria os livros de música do Mário — Música de feitiçaria do Brasil, Danças dramáticas, … — , e o Lincoln capitaneava, porque tinha o piano e a partitura, e ele lia com muita fluência. A gente ia vendo a letra e cantando. A gente lia trechos de outros livros dele [do Mário de Andrade]. Tem um texto de música em um livro chamado Namoros com a Medicina…, como é a história… Aí a gente procurou ler o Turista aprendiz e acabou pegando o nome A Barca [para o grupo] e Turista aprendiz para o primeiro disco, que era um pouco o que a gente era mesmo, um turista aprendiz.
Natale — Em 2001, né?
Marcelo Pretto — 2001.
Natale — Lembro que vocês foram selecionados na primeira edição do Rumos.
Marcelo Pretto — Acho que a gente começou mesmo em 2000. A Barca começou a se juntar em 1997. Em 1999, já tinha bastante coisa rolando; foi o ano da primeira viagem que a gente fez. Nossa, uma viagem fundamental na minha vida!
Natale — Aquela do ônibus?
Marcelo Pretto — Não, não! Foi antes, foi a que engendrou essa do ônibus. A gente foi por uma coisa chamada Comunidade Solidária, que era um projeto da Ruth Cardoso. E dentro desse projeto — que era um projeto mais educacional, iam pessoas voluntárias, jovens de universidades para algumas comunidades carentes para ficar lá um tempo com eles, dando dicas de saneamento básico, de tudo — e tinham grupos de teatro e de música que passavam por essas cidades, mais brevemente, uns dois dias, faziam lá a sua música e iam embora. Só que a gente começou a descobrir uma dinâmica legal: chegar na cidade, conversar com o agitador cultural da cidade e falar “O que vocês têm aqui de música tradicional?”. “Ah, tem esse grupo aqui, esse grupo aqui.” A gente queria conversar com esses caras. Armaram tipo uma entrevista e foi dando certo. O primeiro lugar que a gente chegou foi Terra Alta e depois foi Maracanã. Maracanã foi incrível! Um encontro com o grupo de carimbó que foi pela vida fora. A Renata ficou em contato e ajudou a fazer o disco deles.
Natale — E Maracanã em que cidade exatamente?
Marcelo Pretto — Na cidade de Maracanã, no Pará. Primeiro foi Terra Alta, depois Maracanã, depois eu não lembro. Quando a gente foi fazer o show em Maracanã, a gente subiu num praticável de madeira bem grande, olhando o rio. Lembro que olhei pro lado e, eu e a Sandra, sei lá, a gente estava fascinado, porque parecia que a gente estava entrando dentro desse Brasil profundo do Mário, e esse negócio foi bem isso mesmo. Foi cena de filme, um negócio assim: “Porra, olha onde a gente tá, cara!”. Um lugar que tinha um cheiro de Brasil profundo. E a gente combinou com os caras que a gente tocava o (nosso) show e a última música a gente fazia junto, que era o “Ê tum”. Eles fizeram um carimbó em cima desse coco, deu certinho! E daí seguiram com o show deles. Quando eles começaram a fazer o “Ê tum”, a gente se olhou e falou “Puta merda, que maravilha!”. Nessa época do grupo estava o maluco do Ligeirinho, um cara sui generis pra caralho, um cara bem figura. Ele era um incrível ritmista de samba, mas a gente o pegou como percussionista. Então ,ele fazia as vezes de percussionista, mas no fundo ele era [um ritmista de samba]. Teve uma cena do Ligeirinho: a gente [estava] num boteco e os caras tocando, tirando um som. Aí o Ligeirinho — embriago — pegou um repinique e começou a tocar pra caralho junto com os caras. “Meu Deus do céu!” Aí também rolou outro lance incrível: a música se encontrando, uma música com a outra, dando tudo certo, como o Brasil também tem dessas coisas. O samba é um ritmo impressionante, é meio mágico, porque parece que ele casa com tudo, assim como o coco e a embolada também têm um pouco essa onda, mas o samba é uma coisa muito intercambiável. Não é à toa que o samba é tão diverso. Ele é uma música universal e diversa. O samba um negócio muito louco!
Tacioli — Marcelo, cantar na beira do rio ou vendo o grupo de carimbó mesclando com vocês foi te dando mais certeza do caminho a seguir?
Marcelo Pretto — Não, eu já estava há alguns anos no caminho. Não tinha volta, não tinha dúvida! Tem uma hora na história que vai entrar esse cara aqui (aponta para Natale), como sendo uma coisa extremamente importante. Pulando um pouco algumas coisas: em 2007, eu ia no Itaú — e o Natale, maluco, gostava de mim — , e a gente conversava. Ele — curador genial — , falou: “Ainda vou fazer um show com você. O seu show vai ser aqui no Itaú Cultural!”. Uma das coisas que mais lamento é você não estar mais capitaneando aquele navio maravilhoso que era o [Auditório] Ibirapuera, porque, meu Deus, o navio como Ibirapuera com esse timoneiro… A gente foi feliz! Foi feliz mesmo, mesmo, mesmo! Não estou exagerando por estar na sua presença, é real! Eu falava isso sem show, sem nada. E um dia, ele falou: “Escreve aqui num papelzinho: eu vou fazer seu show”. Aí escrevi num papelzinho. Maluco, né? Um dia, estava eu conversando com o Chico César — a gente nunca foi muito íntimo, de vez em quando encontrava e trocava uma ideia, mas eu super tímido — e chegou o Natale: “Você está de prova, hein? Olha aqui o papelzinho!” Eu fiquei tão envergonhado, porque o Chico também ficou meio assim, né…? O Natale é esse maluco maravilhoso. E um dia ele me chamou para comer um sanduíche…
Natale — No Burdog?
Marcelo Pretto — No Burdog! (n.e. Hamburgueria tradicional da zona oeste paulistana) Estava lá comendo no Burdog, tranquilamente, entretido no meu hambúrguer, quando esse cara começa a falar da programação do Itaú. “No Itaú, no dia tal vai ser tal show; e em tal dia vai ser a gravação do seu DVD!” Para ficar mais emblemático, só faltou aquela cena de filme em que eu cuspo [o lanche]. Mas posso começar a mentir: o Natale fica quieto e não fala nada. Não, porque foi absurdo, foi desse naipe! Eu falei: “O quê?!”. Eu não tinha show, cara! Eu não tinha um show próprio, só fazia A Barca e os Barbatuques. Não fazia mais nada! Quer dizer, eventualmente eu fazia um trio com o Gabriel. Bom, a Natale me jogou essa batata quente na mão que, obviamente, eu não tinha como falar não, né? “Não, definitivamente não! Não quero! E me respeite!” (risos) Aí foi passando… Era pouco tempo, uns três meses, se não me engano. “Bom, tenho duas opções.” É claro que eu não tinha duas opções, tinha uma só. Ou eu faço um apanhado das coisas que venho fazendo, ou faço um show totalmente novo. Eu não tinha nenhum tipo de traquejo com criação, com fazer nada e aí ia fazer um show totalmente novo? Era uma coisa que eu sempre quis fazer, mas nunca fiz. Aí fiz esse tal apanhado. Nunca ensaiei o show inteiro! Por exemplo: tinha uma música que eu fazia com o Chico. Aí, eu, o Chico e o Ari ensaiamos.
Tacioli — Chico Saraiva?
Marcelo Pretto — Isso, Chico Saraiva.
Rodrigo Caçapa — E Ari Colares.
Marcelo Pretto — E Ari Colares, é isso mesmo. Vou falar os nomes inteiros. Aí ensaiei isso e outra parte. Tinha uma parte que eu deixei o Thomas e o Zé Gomes tocando sozinho. Falei: “Isso me representa!”. Eles tocaram. No final da improvisação, comecei a cantar um pouco e fui interagindo com os dois. Mas, fiz um roteiro mental, né? Começo sozinho. Aí entra um. Depois entra mais um. O primeiro que entrava era o Chico. A gente fazia um negócio só eu e ele. Entrava o Ari Colares, a gente fazia os três. Depois entrava o Gabriel Levy, E gente fazia os quatro. Eu já havia tido duas experiências bem importantes que eu pulei… Agora tô naquela dúvida se volto pra aquele negócio ou não. Deixa eu terminar aqui.
Tacioli — Não se preocupe, porque [a entrevista] não é linear.
Marcelo Pretto — Bom, então vou fazer um pulo no tempo, vai. Em 2006, eu fui pra França. Eu estava fazendo com o Teté, o Ricardo Teté, agora editor da Companhia das Letras, mas ele é músico também, cantor. (n.e. O músico, antropólogo e editor Ricardo Teperman)
Natale — Tinha um duo com o Danilo (Moraes), do Wandi (Doratiotto).
Marcelo Pretto — E os dois ganharam na Cultura.
Tacioli — Com “Contabilidade”.
Marcelo Pretto — Exatamente! O Teté era muito meu amigo; eu o conheci nessa época. Primeiro teve uma viagem pra África que eu fiz com o Sotigui Kouyaté, que é um dos caras mais ilustres que conheci na vida. Ele era ator do grupo do Peter Brook. Um cara altão, magrão, um cara impressionante. Ele era um griô de uma família super tradicional de griôs da África. Então fui com essa minha amiga e com outras pessoas pro Mali e pra Burkina Faso. Foi uma viagem louquíssima, cara! Fiquei um mês na África e uns cinco, sete dias em Paris. E nessa época eu conheci melhor o Teté, que eu conhecia de vista. Ele morava lá e a gente ficou bem amigo nessa época, porque ele me recebeu. A primeira vez que ele me viu, ele levou um susto, porque não me conhecia direito. Eu ia ficar na casa dele. Cheguei todo esbaforido: “Tetééé!”. Feliz de ter conseguido chegar na casa dele são e salvo. Ele ficou meio assim, mas, no fim, a gente teve uma convivência incrível. A gente armou um show com os caras muito bons: Natalino Neto, Ricardo Herz, Fernando Del Papa — era o Fernando do Cavaco na época, mandava um super cavaquinho. Fizemos um show nós todos na volta da África. Foi um negócio incrível!
Natale — Foi quando você conheceu a Camille, a cantora francesa, não?
Marcelo Pretto — Não, ainda não. Aí depois voltei pro Brasil e o Teté me convidou pra fazer o Ano do Brasil na França, porque conheci a produtora dele, que estava no show, e eles adoraram. Aquele negócio de músico: “Você é gênio, você é gênio!” E a Soline [Garry] falou para o Teté: “Vamos fazer alguma coisa com ele no Ano do Brasil?”, que era no ano seguinte. Aí, de fato, eu fui. Fizemos umas oficinas e umas coisas. Não foi nem nessa viagem, mas foi numa outra, porque a gente começou a viajar bastante para a França. O Barbatuques foi numa viagem dessas — eu ainda tinha aquela entrada no meio do show fazendo uma bagunça, cantava a embolada “Para onde vai valente?” e outras coisas, bem teatral — e, no fim do show chega uma loirinha com uma amiga. “Oi, tudo bom? Você podia me dar seu contato? Você dá oficinas, né?” “Sou Camille! Sou cantora e essa aqui é minha amiga”. E eu, “Ah, tá, legal!”. E a Soline tinha aprontado para mim uma coisa de’u conhecer músicos, né? Conheci um africano que tocava cora muito bem, botava uns pedais; um americano com maior cara de galã que tocou com Deus e o mundo, o currículo dele era imenso. Esqueci o nome dele. E outras pessoas que foram se juntando. Uma japonesa maluca… Umas pessoas assim que fui conhecendo. Essas histórias são muito loucas: essa Camille chegou e falou “Peguei o contato” e eu “Então, tá, tchau! Obrigado!”, e foi embora. E aí acontecem coisas que mudam a sua vida. Pensei o seguinte: “Estou achando que essa menina é uma cantora que eu ouvi na casa da Mariana Aydar, num outro bairro aqui em Paris”.
Lembro que ouvi, era um popão, mas era uma coisa diferente, tinha alguma coisa que me atraiu. Aí olhei a foto da capa — isso ajudou, porque se uma capa surrealista, eu não ia (gravar): era a cara dela com um fio passando. Talvez seja o disco dela mais importante, que é uma letra, um fio. O disco começava assim: (sonoriza) “hãmnnnn…”. E todas as músicas iam em cima dessa nota. Acabava uma música, continuava essa nota, que era o fio. E começava outra música, que era bem diferente da outra. Ela conseguia fazer com que não ficasse tudo naquela nota. Não era tudo naquele tom. Ela conseguiu fazer de um jeito que ficou magnífico. Esse disco dela é magnífico, magnífico! É disco de gente gênio mesmo. Ela é genial, genial! Aí perguntei para um camarada: “Vem cá, essa aí é a Camille, a Camille famosa, aquela…?” Ele falou: “É!”. Aí fui atrás dela, toquei em seu ombro e falei: “Você é a Camille do disco?”. Daí ela falou: (em francês) “Peut-être!” (“Talvez!”). E comecei a falar e descasquei, porque — assim como conheci o João Gilberto — se você nessa hora não tem uma presença…”Você é maravilhosa, você é meu Deus, é incrível! Puxa, queria tanto trocar ideia com você! Estou aqui na Europa, conhecendo músicos, querendo fazer meu som.” Agora, o bacana foi que ela me viu participando do Barbatuques e veio falar comigo, né? Isso é incrível! Isso demonstra uma coisa legal: ela viu um brilho ali, viu uma coisa diferente, porque essa minha participação era especial mesmo, né? E ela foi falar comigo e eu fui falar com ela. Ela ficou super feliz, ficou surpresa! Ela não podia dar na telha também. “Ah, obrigado!” Ela já era de uma estatura gigantesca para poder ter essa reação. Daí ela pegou a agenda, pacientemente, e ficou olhando. E a Soline falou: “Mano, gruda nisso! É isso aqui que você tem!”. Porque tudo aquilo eram músicos de world music que ela estava apresentando, mas a Camille, não, era diferente, era o primeiro time da França. E ela falou: “Olha, esse dia vou estar em Lille!” — que é longe pra caralho. “Você pode pegar um trem, a gente passa tarde junto conversando e depois você vê meu show.” Aí falei isso pra Soline, [que disse]: “Cara, esse dia você tem uma oficina!”. “Puta, mas a gente tem que aproveitar!” “Então, a gente faz assim: termina a oficina, peço um carro emprestado pra minha amiga, a gente vai e vê pelo menos o show!” Daí fomos. Foi uma atrapalhação total: demorou pra chegar na cidade. Ela virava pra trás [no carro] e falava: “A gente não vai chegar a tempo!”. A gente chegou e saiu correndo. Estava tudo meio apagado, porque o show já estava terminando. “Onde é o palco?!” Os caras da bilheteria meio dormindo: “É ali, é ali, pode entrar! Aí a gente entrou. Eu estava atrás de 1600 pessoas assistindo ao show; era a última música. Ela ia começar o bis. Ela falou: “Marcelo est là? Marcelo!”. (Marcelo está?) Aí — eu e a Soline — fomos correndo e descemos: “Onde é o camarim?” “É ali!” — os caras de saco cheio. Desci e falaram: “Vem, vem, vem!”, e, de repente, quando vi, estava no palco com ela sem saber o que fazer. Mas as músicas dela, como eram um pop, era muito tranquilo de fazer. Aí mandei uns baixos-vocal e umas firulhinhas. Ela já estava no terceiro bis. Fiz esse bis com ela e saí do palco. Ela falou: “Não, fica, tem mais um bis!”. Foram seis bis.
Natale — Caramba!
Marcelo Pretto — Fiz três bis com eles! Aí saímos do palco e foi uma puta festa. No fim, ela falou: “Não vou dormir aqui no hotel. Quero dormir na minha casa. Vocês me dão uma carona?”. “Damos!” Fomos apertado no carro, a menina dirigia meio mal e eu com medo. Chegou numa certa esquina, ela falou: “Moro ali, pode me deixar aqui!”. (No caminho) fui ensinando os sons pra ela. Um que ela adorou (sibila com os lábios): “Bruuuummmm”. Ela pirou, ficou tentando fazer, porque estava nessa fase, de pegar esses sons. Tanto é que no disco seguinte dela que eu gravei, eu fiz isso. (n.e. O álbum ‘Music hole’, lançado em 2008, contou com participações de Marcelo Pretto e de Fernando Barba, do Barbatuques) Três dias depois, a produção dela liga para a Soline: “A gente quer o Marcelo abrindo a turnê inteira dela pela França, em 2006”.
Natale — Caralho, velho!
Marcelo Pretto — Foi um pré-Natale! (risos)
Natale — Ah, então dessa turnê foi que pintou o convite do DVD.
Marcelo Pretto — Isso foi o germe pra minha parte solo do DVD. Olha que legal! E olha que loucura… [Depois do convite] falei: “Bom, fodeu, né?”. Eu estava completamente perdido, muito mais do que no DVD, porque era eu cru, sem nada, sem ideia do que fazer, zero, zero, zero! Já com as experiências de cantar boi n’A Barca, já cantava o “Pra onde vai valente” desde moleque — sempre gostei dessa música… E, na verdade, tinha um sebo no centro cujo envelope dos discos tinha a letra inteira de “Pra onde vai valente”, cara! Aquilo me ajudou, porque essas emboladas são difíceis de entender. E lá tinha tudo. Então eu peguei [o envelope do disco] com a letra e saí cantando. Foi um facilitador pra mim. Na adolescência eu ia muito em sebo. Aí aprendi [a embolada], não teve jeito. E eu gosto de uma versão do Manezinho. (n.e. O músico, jornalista e pintor pernambucano Manezinho Araújo, 1910–1993) Tem que ser aquela que ele gravou no disco que tem um “terra seca” na capa e na a [versão] original. Essa é a versão definitiva pra mim, em que ele faz as brincadeiras. (canta) “Tinha uma macaca que tava comendo o milho.” Ele faz umas coisas assim que, na original, não faz. Ele está mais solto. Aí foi chegando próximo [ao show], eu conversando com um amigo e com outro, e um falou: “Vai ensaiando. Quando estiver pronto, você me chama pra eu ver como é que está o show, aí dou uns pitacos”. Um outro falou: “Vou pesquisar para eu pagar essa viagem e ir com você”. O fato é que foi passando o tempo e eu não resolvi nada. E o que acontece? Foi chegando perto [do show]… “Eu vou levar o loop, aquelas ideias que eu já tinha na época e faço uma coisinha lá.” Ela falou: “O que eu espero de você é você sem usar nada”. Falei, “Caralho!”. E comecei a ficar em dúvida. Eu falava com a Soline, que era a ponte. Um dia, a Camille falou [para a Soline]: “Avisa o Marcelo que eu vou ligar para ele. Combina o dia e a hora; eu vou ligar!”. De fato, ela ligou em casa. A Camille com uma voz assim, super, “Não, pois é e tal. Puxa, eu entendo, eu entendo!”. Ela havia falado para a Soline: “Eu entendo ele de se sentir o oprimido”. Daí ela ligou e falei: “Olha, tenho 10 minutos e você vai me ajudar. Essa é a condição!”. “Claro, eu te ajudo.” “Então, tá, eu aceito!” Bom, aí pula para o avião. Eu no avião indo para a França e pensando: “Sou completamente louco, eu não sei o que vou fazer! Não faço a menor ideia! O que vou fazer no palco?”. Eu não sabia, estava completamente vazio e ansioso, tenso, tudo, né? Aí a Soline descolou um cara que eu conheci em outra viagem, super gente boa. Ela falou: “Ele vai te ajudar! Vai todo dia no colégio tal, vocês vão ter — sei lá — quatro encontros. E vocês vão pensando junto”. E ele, por incrível que pareça, foi importante, porque cheguei em quatro músicas: um boi a capela, quando descobri — até por ter o recitativo, que é uma música lenta — , que entra a galera e, ao mesmo tempo, essa voz forte que sempre gostei de fazer. Nunca cantei bossa nova, nunca cantei romântico, balada, nunca tive essa onda, mas eu queria uma coisa mais lenta também. (canta) “Cheguei com o meu batalhão de ouro / Vim trazer prazer de São João”, dá pra metalizar um pouco, que sempre gostei. “Vim trazer prazer de São João. Eu ainda estou firme, meu povo faz tremer o chão / Com pandeiro, matraca, maracá de prata na mão / De cima do morro de areia, eu avistei no meio do mar.” Eu ia por aí, juntei esses dois bois. (n.e. “Maracá de prata” foi gravado no álbum ‘Trilha’, do grupo A Barca. A última frase, “de cima do morro de areia” é do boi “Banzeiro grande”) Agora, imagine eu, primeiro show na França, duas mil pessoas assistindo, sozinho, rompendo uma barreira, cantando “Cheguei com o meu batalhão de ouro”. Batalhão espiritual, né? Cheguei com o meu batalhão de ouro, rompendo aquela película ali. Ninguém nos bastidores sabia quem eu era, ninguém, somente a Soline, que estava assim “Ê, vamos lá!”. E mais ninguém. Aí fiz o boi. A segunda que fiz foi assim — estou com as mãos ruins, não vou saber fazer mais. (sonoriza) “Tacutacuta, tacutacuta, tacutacuta, tacutacuta, tacutacuta, tacutacuta, tacutacuta”, que é uma macumba. (aumentando a velocidade) “Tacutacuta, tacutacuta, tacutacuta, tacutacuta!” Fiz essa macumba gostosa, que tem esse ritmo que conduz. Aí passei para o samba. (canta) “Que memo é seu, é esse mengang, é da mochimba, dum, da meu catendo e oxe, mengang. Camuchim, meu anga, eu amei, oya dum dum.” Fiz isso e depoiss umas brincadeiras de Barbatuques, uns estalhos, umas coisas. Essa era a segunda música. A terceira música foi uma coisa mais viagem, que era improviso de voz, graves e berimbau de boca do Vietnã, que é um berimbau de boca retinho, com um “som eletrônico”. Aí eu pegava o tom do berimbau e começava a fazer voz. Fui por essas ondas e a galera delirando, porque é um negócio que soa rave, né? E a quarta música era a embolada. Em vez de cantar “Pra onde vai valente”, pedi pra eles cantarem “Vou pra linha de frente”. É complicado para francês responder. Eu mudei para aquele refrão da dona Selma do Coco: “Lá no mar tem areia / Areia / Areia no mar / Areia / Que areia boa / Areia / Para a gente peneirar / Areia”. Aí ficou fácil, porque eu faço a primeira “Lá no mar tem areia / Areia / Areia no mar”, e o pessoal entendeu que ia modular “Areia / Que areia boa / Areia”. Aí eu ia para esse troço “Estava na venda com a pistola”, fiz uma junção louca, e quando eu ia de novo “Lá no mar tem areia”, eles [respondiam]. E aí, para a despedida, não lembro da música, mas…
Tacioli — O jogo já estava ganho, né?
Marcelo Pretto — Já estava ganho, já estava ganho. Isso foi bola no gol total. Para o último [número], falei para um amigo lá: “Cara, eu queria fazer uma coisa de saída, uma senha, uma coisa que fosse uma música francesa ultra conhecida, meio jovem, que desse uma coisa…”. No Brasil não sei qual seria, algo como “Um tapinha não dói”, uma coisa que é mais uma piscada de olho mesmo. Aí era uma coisa assim: “Chuu, Andy, de Maui”, todo mundo… “Andy!” A música era assim mesmo e entrava um baixo, um teclado. Aí comecei a fazer “Chuuu!”, todo mundo emendou e eu saindo do palco cantando.
Natale — Que legal!
Marcelo Pretto — Cara, tô contando as coisas com minúcias porque pra mim isso foi a construção de uma personagem, a construção de um artista a fórceps por uma grande artista do mundo: “Eu quero você abrindo a turnê!”.
“O grande lance da música brasileira é a presença negra!”
Natale — E vocês se falam ainda hoje? Você e Camille se correspondem?
Marcelo Pretto — Olha, aconteceu uma coisa louca no começo do ano: um cara fantástico do México, Juan Pablo Vila, veio aqui no Mercado Cultural. Fez um show solo de voz com um cara fazendo desenho com retroprojetor, fazia com areia. Era incrível! O som não era nada virtuoso, eram umas ideias e o cara fazia os desenhos, mas foi uma viagem tão incrível. Ele tinha uma cara de pau tão maravilhosa de fazer os cantos. Sério, acho que isso é um grande lance do artista, você saber o que você quer. Aí você vai e faz, né? E ele fez aquilo e eu fiquei fascinado por ele. Aí quando fui conhecer as meninas do Mamassônica, uma delas era amiga do Juan Pablo, então a gente voltou meio que se reconhecer. Um dia, ele ligou na minha casa e falou: “A gente quer você pra um trampo num filme, fazer uns negócios…”. “Tá bom!” Aí ele falou: “Quem está organizando essa parada é a Camille, foi ela que lembrou de você”. E ela falou, “Pô, eu queria voltar a fazer alguma coisa com o Marcelo. Será que ele tá aí?”. Aí fiz esse trampo pensando “Cara, o mundo é pequeno e grande”, como diria Gilberto Gil. Que loucura, nunca mais falei com ela e, de repente, ela lembrou de mim pra fazer um trampo em que ganhei bem. Foi maravilhoso! Foi no começo do ano. Incrível, né? Eu e Juan Pablo Vila ficamos conversando: “A gente vai ter que fazer alguma coisa juntos!”. Gosto muito dele. Uma sensação de que eu não tô… (emociona-se) Eu não tô morto, né, cara?! Desculpa, desculpa, mas esta fase está muito dura pra mim. E, às vezes, você fala: “Já era!”. Tô ruim da mão e vou encarquilhando um pouco. Sinto que eu tenho tanta coisa pra fazer.
Natale — As coisas e o mundo estão aí, né?
Marcelo Pretto — Tem gente que lembra de você, de que você deixou alguma marca no mundo, ainda que pequena, mas tudo bem. Se eu morrer hoje, que vida incompleta, não fiz as coisas… a minha obra… Agora tô lendo a obra e avida do Gil. Puta que pariu, vai se fuder, né? Tem uma história do Gil que ele ficou completamente desesperado pra cantar o “Domingo no parque”. Ele teve um febrão de 42 graus ou pelo menos achou que estivesse.
Natale — Antes do festival?
Marcelo Pretto — Não, antes de cantar na eliminatória. Ele não ia, ele estava desacordado. O Paulinho Machado de Carvalho, que era o dono da Record, foi lá, tirou o cara da cama e o botou no chuveiro. E até hoje ele fala: “Cara, eu era um fantasma!”. Quando eu vejo a imagem dele fazendo aquilo, eu não me reconheço. Aquilo ali era um fantasma e ele foi com todo vigor. “Domingo no Parque” pra mim é um dos maiores acontecimentos. Essa é a verdadeira música, esse é o verdadeiro cerne do tropicalismo, o cerne de um monte de coisa, porque é uma música fuderosa. Ele conseguiu juntar Mutantes; ele queria o Quarteto Novo com Mutantes. Os caras do Quarteto Novo arredaram, acho que o Airton [Moreira] principalmente. Então fez com os Mutantes; foi o Rogério Duprat que sugeriu. “Tem uma garotada aí que é da pesada, os caras sabem música!” Foram os Mutantes, o Rogério Duprat e uma orquestra maravilhosa, e o cara fazendo essa música que junta uma história do povo — porque na época ele ainda estava imbuído desse negócio de fazer uma coisa ligada ao povo — , então ele fez uma coisa assim e ainda meio cinematográfica. “Olha a faca / Sorvete de morango é vermelho”. A música do Caetano, “Alegria, alegria” também é uma puta música, mas essa aí, cara!
Natale — E uma coisa vai impulsionando a outra na vida do artista, né? O DVD que você gravou, ele também te abriu um campo… A Camille foi o principal vetor para você descobrir mais um potencial seu. Para o DVD, você talvez tenha trazido essa força para o Brasil. E não sei quanto tempo depois foi o seu disco com o Swami.
Marcelo Pretto — Pô, vamos falar do Gil! Brincadeira! (risos) A loucura nunca é só isso, né? A loucura é que no meio desse mês de turnê ia ter o lançamento da caixa d’A Barca no Sesc Pompeia, com uma semana de atividades: ia ter grupo de tudo quanto é jeito, cara! Ia ter o boi, o reizado, o redandá e não-sei-mais-o-quê. Quatro grupos, quatro shows, era uma loucura! Então, voltei [para o Brasil] uma semana pra fazer tudo isso aí e, ainda voltei [para a França], eles toparam fazer isso. A minha produção minha ia pagar a passagem. E aí fui. Então, fiz a turnê um pouco, fui pr’A Barca no Sesc Pompeia, voltei pra França, e continuei com os últimos shows [da Camille] Enquanto estava aqui, ela [a Camille] chamou uma super sapateadora francesa. Então, ela fazia a entrada. Aí, quando voltei, fizemos nós dois a entrada; tinha uma música que a gente fazia junto: ela abria uma esteirinha de madeira e sapateava em cima o “Pra onde vai, valente”. Era bem legal! O último show foi no Cirque D’Hiver, um lugar incrível! É em formato de circo, mas é um teatro enorme, redondo. Sabe quem estava na plateia? Salif Keïta! Salif Keïta tava na plateia; ele saiu rápido, mas fiquei sabendo que ele gostou. Quando ele veio para o Brasil, fui falar com ele no Sesc Choperia, né? Ah, tirei uma foto com ele, mas ele tem um jeito meio assim… “Você lembra de mim?” “Eu lembro, lembro!” Não sabia direito se ele lembrava ou não, mas era o Salif Keïta e foda-se. Tirei uma foto com ele e tô feliz da vida. Ele estava lá no show! Aí, quando voltei para o Brasil, me chamaram de novo meses depois pra fazer um show no circuito de world music. Aí, sim, poderia levar o loop e o violão. Foi o que fiz: um minishow de 30, 40 minutos. Achei o público muito pior, porque era aquele público (falando francês) ‘Hé, je connais déjà, ouais, la musique du monde brésilienne, j’en connais déjà un peu!”. (“Ué, já conheço, é world music do Brasil. Já conheço um pouco!) O pessoal é meio blasé, sendo que o pessoal da Camille era molecada, os caras não conheciam, não tinham referência, então, era mais interessante. A reação desse público mais cru era mais verdadeiro. Mas fiz o circuito, que ajudou um pouco a sentar esse solo já com outras coisas. Quando chegou o DVD, pensei: “Bom, vou mesclar a parte solo com convidados. E esses convidados vão ser representativos de histórias”. Eu já tinha participado do Prêmio da Nova Música do Brasil, tinha ganhado o prêmio de melhor intérprete com essa música dificílima do Chico Saraiva, “Startrek de tacape”.
Caçapa — Foi essa música que você faz no DVD?
Marcelo Pretto — Fizemos eu, o Ari (Collares) e o Chico (Saraiva). Aí a próxima música fiz em quatro, com esses dois mais o Gabriel; foi a música com que me destaquei no Visa, “Derrubando violões”. Foi uma bela sacada minha, porque peguei um samba-choro do repertório da Ademilde Fonseca. (canta) “Antigamente o choro era fácil / Era primeiro, era segundo tom de dó maior / Mas o choro foi ganhando harmonização e hoje em dia não tem dó do pobre violão / Reparem só, nessa passagem para mi maior / Agora vai para ré maior, modulando e crescendo / Você vai se perdendo, mas a segunda parte é muito pior / Eu começo em si, si menor, vou para sol / E agora meu amigo, oxalá / Me possa acompanhar, sem os seus bordões e as suas primas rebentados os violões / Sempre fui fã, não devem se zangar / Porque agora para maior eu vou passar / E modulando, modulando sem parar / Para que você observe como é / Pensar como quiser / Acabo terminando o choro em ré”. Fiz até o final! (começa a cantar mais rápido) “Antigamente o choro era fácil, era primeiro, era segundo”, e a galera aplaudindo em cena aberta, porque as cinco primeiras notas do “Derrubando…” são iguais do “Chorinho para ele”. (canta) “Antigamente o choro”… Ela fala que no começo é tudo simples e depois fica complicado até arrebentar as primas. E o Hermeto faz isso, é assim que ele faz no piano, nota por nota. E fui fazer um truque: “Gabriel, você sabe tocar melodia? Você toca atrás a melodia certa e eu faço esse… que vira uma piada mas, ao mesmo tempo, tem a ver com o contexto, porque fica uma coisa de que o cara está ficando maluco, está arrebentando as primas e os bordões. Aí fiz um compasso de silêncio e voltei meio cansado. Aí eu voltei. (canta) “Antigamente, realmente, o samba, o choro era fácil, era primeiro, era segundo.” Foi bem bacana. Quando eu vi, o Wisnik foi me elogiar. “Caramba, eu não sabia que ora era uma, que ora outra música. Foi incrível isso!” E lá cheguei na final por causa dessa eliminatória, acho que fui bem escolhido. Aí, na final, outras histórias. Então, eu falei: “Bom, vou fazer essa também!”. São coleção de histórias que eu já tinha, um colar de coisas que eu já vinha fazendo. Quer dizer, eu não tinha um show meu, mas eu já tinha uma estrada, né? Já tinha vitórias, tinha coisas. Primeira vez que bolei uma (apresentação) foi no Visa e tive que chamar uma banda. Foi assim: “Você passou, cara!” Eu falei, “Nossa!” Me deu uma mistura de alegria e de medo. Fui dormir naquela noite: “Caralho, e agora fudeu, né? Vou ter que fazer meu Gil, só que em escala pequenininha, porque não só de artista, mas de medo, né?”. Porque o do Gil parece que foi um pavor total.
Tacioli — Posso aproveitar essa deixa, Marcelo? Duas coisas: a gente tem 50 minutos [de gravação] e a outra é, me parece, pelo que você está contando, e pelo que eu li também, internamente tem uma briga sua com a confiança, com o brilho que você tem, que outros veem em você, e você tem essa timidez ou esse lugar de “Puxa, será?”. Isso se mantém ainda? Depois do DVD, seu primeiro disco vem em 2014, e essa possibilidade de carreira.
Marcelo Pretto — Você viu eu chorando agora?
Tacioli — Sim, mas…
Marcelo Pretto — Isso é indicativo dessa história, mas para te responder, sim, sou eternamente desconfiado de mim mesmo.
Tacioli — Até hoje, com tudo que você fez?
Marcelo Pretto — Do meu talento, do meu…? É, acho que eu tenho um talento, vamos chegar nesse ponto: eu sou um cantor. “Ah, um grande cantor?” Não, eu me arrisco a dizer “Eu sou um cantor”. Dizer “Sou um cantor” já é uma tarefa dura para mim, porque demorei muito para poder falar isso. Um pouco parecido com o que você falou, que talvez eu não seja sisudo, mas me falte uma certa gravidade. Uma certa gravidade que alguns cantores têm, porque têm noção da seriedade daquilo que estão fazendo. Acho que fui adquirindo um pouco isso com esse disco com o Swami. Eu estava em uma fase bem ruim em 2014: tinha separado de uma menina, foi uma relação muito curta, mas muito machucante, me pegou em um lugar muito estranho, porque era uma menina muito bonita, ao mesmo tempo em que ela era toda cheia dos recursos. Duas semanas depois, ela já saiu fora, “O problema é meu, não é você”. E aí já fiquei assim, fui atrás dela, reconquistei. Deu uns dois meses de relação, muito pouco, ela falava: “Ai, porque eu te amo, que não-sei-o-quê”. E eu ficava assim, com um lado meu falando que era muita areia para o meu caminhão, e do outro lado, “Não, eu sei o meu mundo interno, eu mereço uma coisa extremamente incrível também”. Só não bate o físico com o interno, ou seja, existe um ranking do hype em termos físicos. Você é gato, você trafega em uma certa zona da gatice, né? As meninas bonitas olham para você, se mostram interessadas na sua cantada. Se você é um cara que já é mais assim, por exemplo, quando chego em uma festa, ninguém olha para mim. Eu olho para as pessoas e ninguém olha para mim, de paquera… Aí, por acaso, rola um violão e eu canto, daqui a pouco, “Ah, legal”. Aí já vem mais assim, né? E eu já morrendo de raiva, né? “Também agora não quero!” Era muito orgulhoso, sempre fui. Esse é um nó muito grande que eu tenho na minha vida, que é o nó da, digamos, sexualidade, de resolver as minhas coisas, de ter relação. Mas acabei que desenvolvi um gosto por ficar sozinho também. Eu acho que relação é complicada, relação é um negócio assim, ou vocês são dois tarados um pelo outro — é assim que tem que ser para durar um certo tempo, um tempo de beleza, de validade mesmo, que seja lindo, que seja maravilhoso — ou então tem pessoas que já têm mais uma propensão. Eu não tenho essa propensão.
Natale — Você tem noção que você é uma referência para muita gente, artisticamente falando?
Marcelo Pretto — Não! Não tenho essa referência, não, porque o meu mundo é dentro com meus amigos, com a música. Eu não sei até onde alcança isso. Eu acho que não alcança nada… Nada é exagero. Entre tudo e o nada tem uma miríade de gente ali. Mas assim, vou dar um exemplo meio bobo. O meu disco com o Swami não vendeu, porque eu e o Swami somos músicos. A gente tem um perfil mais músico. Dentro da música, as pessoas me conhecem, mas fora da música não conhecem. A Barca e o Barbatuques, a duras penas, conseguiu um espaço. O Barbatuques agora é mundial, né? E as pessoas falam: “O gordinho do Barbatuques que toca berimbau de boca”. Então, fazendo esse personagem dentro do Barbatuques as pessoas me conhecem. N’A Barca, menos, mas também tem um público. Agora eu, como Marcelo Pretto, fui fazer um show no Ó do Borogodó. Eles abriram uma segunda-feira — fora do padrão deles — para fazer o Cedo e Sentado. E aí fui fazer e não foi ninguém, cara! Foram duas, três pessoas. As duas ou três pessoas gostaram, mas não foi ninguém. Então, meu nome é completamente apático na praça. Dentro da música a gente vai conhecendo gente, vai fazendo shows por aí. As pessoas vão ver. Então, acho que tem realmente uma estrada e um ou outro fala com você alguma vez. “Oh, gosto do seu trabalho!” Então, aí tudo bem, mas não desse jeito que você falou. Eu não tenho noção nenhuma!
Natale — Para nós você é!
Caçapa — Para mim você é um dos melhores do Brasil, inclusive pela sua trajetória, por esse caminho que você fez. Vi você se deslumbrar com o Jararaca. Para mim, ele estava no show da Camille, estava lá o Jararaca.
Marcelo Pretto — Acho que tem um brilho na minha história, de coisas que foram acontecendo. Esse “Distraídos venceremos!” que foi acontecendo. Estava distraído e o Camille me chamou. Estava distraído e veio A Barca. Estava distraído e veio o Barbatuques. Não é exatamente distraído, mas um pouco é também, porque não planejei. Nada que eu fiz na vida foi assim [planejado], que fui atrás.
Caçapa — Saindo um pouco do tom da entrevista e falando de amigo para amigo: acho que quem lhe vê cantando, percebe uma relação com a música muito visceral, muito forte, muito brilho, muito potência. E isso você não precisa fazer esforço, é do seu jeito.
Marcelo Pretto — É do meu jeito.
Caçapa — É que para você chegar nesse outro lugar que você está falando aí, do reconhecimento, do sucesso, exige uma outra coisa, um outro esforço.
Marcelo Pretto — Que eu nem estou atrás disso também.
Caçapa — Exatamente.
Marcelo Pretto — Não é uma coisa que não funciona. Quer dizer, é claro que eu gostaria de mais divulgação, que pintasse mais um dinheirinho para mim, porque acho que eu não ganho nada. Por exemplo, falando dos meus desenhos: o André Magalhães outro dia veio e os elogiou para caramba. Ele falou assim: “Meu, você pode ganhar dinheiro com isso! Se um cara da arte vem e olha isso aí, um cara esperto mesmo, um mecenas, sei lá, alguém da arte, isso pode ganhar outro patamar.” E eu sempre surpreso com essas coisas. Acho que tenho alguma coisa mesmo na vida: quando fui para a África, senti uma coisa, um ventinho rolando, que é uma coisa da transcendência, alguma coisa assim. Alguns lugares eu [senti] isso. Eu tive um momento com o Barbatuques quando a gente estava em roda. Numa montanha imensa em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, eu também fui assim. Quando alguém te joga no ar e você fica no cume do voo, você cai. Tem momentos assim na vida. Então, isso também tenho uma gratidão profunda, espiritual. Se tem uma espiritualidade na vida, ela nasce desses momentos e vem aquela pergunta de merda: “Pra onde a gente vai, caralho? Que porra vai acontecer com a gente? Isso tudo vai pro lixo?”. Eu lembro de’u me despedindo dessa moça aí, ela já estava no carro, eu meio acocorei, entre aspas, me ajoelhei aos pés dela, e falei: “O que eu faço com tudo isso?”. Ela nem olhou na minha cara e falou: “Guarda pra você!”. Porque fica um mundo mental em relação àquela pessoa, né? Eu costumo dizer que a relação de paixão é um prédio que começa pela decoração, e depois chega nas fundações. A fundação do prédio de uma relação amorosa se dá quando ela já tem um certo tempo. Aí você pode olhar pra trás e dizer que tem uma fundação, né? Um casamento longevo, por exemplo. Um casamento de verdade não uma fundação do Sérgio Naya, que cai o prédio inteiro.
Natale — Essa sua metáfora do prédio, da fundação, é muito interessante, porque só tem esse jeito da construção não se afundar e, no fundo, você está tateando, né?
Marcelo Pretto — A gente começa com esses arabescos, essas firulinhas. “Ai, como ela é linda, maravilhosa, uma princesa!” Você está idealizando a pessoa. E, na verdade, é muito interessante essa fase, a dança da paquera, porque você está tentando se fazer o melhor possível e ela também. Você bota aquela brilhantina no cabelo, afasta a cadeira pra ela se sentar, “Você quer uma bebida, eu vou lá pegar”. Depois você fica aquele puta macho tóxico: “Vá pegar uma cerveja pra mim!”, tô caricaturando, mas é assim. (risos) Dá o que pensar.
Tacioli — Marcelo, essas questões de relacionamento, as questões pessoais mais íntimas, como que elas impactam na sua criação artística?
Marcelo Pretto — Não sei, não vejo intersecção aí. Pode ser que tenha muita, mas eu não sei. Pra mim são coisas paralelas mesmo, porque, por exemplo, eu me sinto muito pouco à vontade com alguém. Sempre falo que aquelas músicas do Chico Buarque, “seus seios ainda estão nas minhas mãos”, dá vontade de fazer assim [de apalpá-los] no meio da música, né? Eu teria um aproach muito mais humorístico, porque não levo a sério o negócio. “Seus seios ainda estão nas minhas mãos!” É uma coisa assim, como um exemplo qualquer, né? (canta) “O amor que eu tenho tanto pra te oferecer”. Não sei, umas coisas que eu não me enxergo muito nisso, sabe? Talvez um não romantismo, alguma coisa assim, mas nisso você vai descobrindo, às vezes pela tristeza, às vezes por uma nostalgia, uma melancolia. Algum de vocês conhece um cara chamado Carlos Vilhalba?
Natale — Sim, Carlos Vilhalba, de Buenos Aires.
Marcelo Pretto — Ele tem uma música que eu acho tão maravilhosa, que eu cantei. Ele me convidou pra um show no Ibirapuera. (canta) Essa é só a cereja do bolo, a voz é tão tranquila. Eu falei: “Eu posso cantar essa!” Se tem uma coisa que necessita muita… agora essa era tão assim que eu falei “Essa eu posso cantar. E eu quero cantá-la porque me leva pra um lugar de nostalgia, de tristeza, felicidade triste, tristeza amena, de coisa assim, linda, linda”. Eu também não gosto de tristeza muito chorosa, mas essa é uma tristeza como quem já se conformou com aquilo e ainda tem umas boas lembranças e tal. Acontece que o arranjo de piano é do Diego Esquice, que é um gênio, considerado o novo Piazzolla, um cara fudido, e o que é mais legal dessa música é o piano. O piano é completamente romântico, ele te leva pra um lugar de transporte de alma, de coração. Essa é uma música que encontrei.
Natale — E você conheceu o Vilhalba como?
Marcelo Pretto — Ele foi fazer um show desses misturados com brasileiros e me deu o disco dele. Quando vi o disco, falei: “Caralho, que foda esse disco, principalmente por essa música.” Eram duas versões: uma meio Beatles e a outra somente com o piano do Diego Esquício e ele cantando.
Natale — Ele é muito amigo do Arthur de Faria.
Marcelo Pretto — Sim, tinha o Arthur também no show.
Natale — Marcelo, onde fica o banheiro?
Marcelo Pretto — Aqui.
Tacioli — Vamos ver quanto tempo temos aqui, Marcelo. Trinta e cinco minutos. Tudo bem mais 35?
Marcelo Pretto — Oi?
Tacioli — Tudo bem mais 35 minutos?
Marcelo Pretto — Acabar agora?
Tacioli — Não, daqui 35 minutos.
Marcelo Pretto — Ah, não, tudo bem. Eu queria fazer um apanhado, uma coisa generalista, mas é difícil. Acho que eu tive um percurso muito baldio, muito errático na vida e acabei chegando em um lugar interessante. É o máximo que eu posso dizer. Tenho muita cobrança católica: “Eu tinha que ter trabalhado muito mais”…
Tacioli— Essa é a sua formação?
Marcelo Pretto — Tive. Meu pai foi padre.
Tacioli — Seu pai foi padre?
Marcelo Pretto — Foi padre.
Tacioli — Eu não sabia.
Marcelo Pretto — Foi a melhor coisa que ele foi na vida (risos), porque era um padre progressista. Ele era um cara que tinha ideias de esquerda. Ele foi perseguido em 64. Ele tem umas fotos muito bonitas, vestido de centurião, porque ele fazia peças, fazia teatro. Ele quis tocar instrumento, não deixaram. Ele fazia ao violão — com a mão dura dele — uma peça, um negócio desse (sonoriza) “Tum tum tum / Tum tche tche / Tum tum tum”. Ele tinha essa vertente… É, você pode imaginar o que é a igreja, é uma merda, né? Uma merda! Olha, eu tive um pai católico, só que um pai que nunca [me doutrinou]… Ele me ensinou Pai Nosso e Ave Maria quando eu tinha uns 10, 12 anos, e fui eu que pedi para ele me ensinar. Ele me ensinou meio assim. Mas quando ele vai falar da vida dele, ele tem um jeito meio antigão de falar. “Se eu tivesse que fazer tudo de novo, eu faria tudo igual!” Essas coisas, essas manias… Nossa, é uma frase que para mim não faz o menor sentido. Se eu pudesse fazer de novo, seria a oportunidade de eu fazer tudo diferente. Ou tudo não, mas pelo menos aquele lugar ali, eu faria diferente, porque eu daria um lugar bem melhor. Sabe aquele seu amigo de moleque que você poderia ter dado um safanão e feito um bem para você? Depois não, adulto, safanão já não dá. Mas, assim, de moleque, não. Fui amigo de uns caras que eu vou te falar, viu. Eu tinha esse lugar de gordinho, né? Gordinho acaba ficando ou saco de pancada ou, se você é inteligente, você acaba ficando engraçadinho. Eu era um engraçadinho, nunca fui saco de pancada. Mas você acaba levando umas bordoadas da vida. Você fala “Porra, que bosta de lugar que eu estou!”, porque eu dentro de mim era um gato, era o protagonista de filme Butch Cassidy and the Sundance Kid, mas por fora não era, as pessoas não me enxergavam assim. Eu ficava puto! “Que merda! Eu não sou um ogro, eu não sou um…!”. Uma vez, numa dessas viagens do Barbatuques, uma menina me chamou de Shrek. Fiquei ofendido pra caralho, fiquei muito ofendido. Falei, “Nossa, mano, eu não sou, não quero esse lugar, esse lugar de Costinha!”. Sabe o Costinha? (emulando a voz) “Eu com essa cara você queria que eu fosse o quê?” — quando falavam que ele era humorista. Ele já banguela. “Com essa cara, meu filho, você queria que eu fosse o quê?!” Eu não quero esse lugar, da auto-chacota.
Natale — Como foi sua entrada no Barbatuques?
Marcelo Pretto — Nossa, essa foi a mais surreal. Primeiro conheci o Barba numa festa em Campinas. Eu estava querendo conhecer o Castora. O Castora que era o cara mais vistoso, porque ele fazia umas ondas muito incríveis com a boca, com o assovio, com a mão. Ele pegava uma caixinha de fósforo e fazia uma onda meio louca. Ele assoviava com os dois lados. Ele fazia assim com a língua. Tinha duas vozes de assovio. Ele tocava aqui esse som. Ele fazia o “Louro”, do Gismonti, aqui. Ele era um cara incrível! E do lado dele estava o Barba. Eu nem me toquei quem era o Barba, porque o Barba era um cara que sempre foi low profile.
Natale — O Barba ainda estudava na Unicamp?
Marcelo Pretto — Talvez, não sei, eu só conheci o Barba nessa festa. “Ah, tem o Barba. Você conhece o Barba?” “Não!” Ele lembra de mim tocando “Baba Alapalá” e ele sempre foi louco pelo Gil. O grande artista da vida do Barba foi o Gil. Então, eu conheci essas pessoas lá. Aí, depois o Barba, que já me conhecia, foi na casa da Renata, a gente conversou, ele me chamou pra tocar no forró, porque rolou uma história louca do Leandro Bonfim, que era da turma do forró, mas aí o vocalista do Jambêndola resolveu sair e chamaram o Leandro. Ele foi. E o forró, o Boi de Lata, estava começando numa fase de fazer disco, pegar o repertório do Lelê — estava começando a ficar em cima do repertório dele. E, de repente, ele sai, todo mundo ficou super puto. “Vamos pelo menos tentar salvar o trampo no Remelexo!” Então me chamaram pra fazer somente esses forrós, não queriam mais fazer essa onda de virar grupo da cena. Então, fui e fiz um ensaio só. E os caras: “Você gosta de música pop?”. Foi engraçado que um dos caras da banda falou: “Você gosta de música?” “Não muito!” Primeiro ele quis me aliciar pra fazer além do forró. “Gosto de forró mesmo!” A gente fez um ensaio e já estava pronto. Aí fui fazer a sexta-feira do Boi de Lata, que foi uma maravilha, porque era uma grana boa, lotava e eu só fazia essas coisas que eu gosto: Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, “Debaixo do barro do chão” é um forró maravilhoso. (n.e. Referência a “De onde vem o baião”, de Gilberto Gil) Só coisas finas, só coisa legal. E os caras eram muito bons, essa música “Debaixo do barro do chão” desembocava num tema do Pat Metheny. O Barba tocando, o Mosca na bateria. Era também uns caras fodas: o Du Moreira no baixo, o Márcio Forte na percussão e o Barba na guitarra, que era um senhor guitarrista, né? Era só cara foda! Esses caras todos ficaram: o Mosca tá no Pau Brasil, o Márcio Forte tocou muito com esse pessoal da Trama, depois perdi um pouco a pista deles, Du Moreira é um grande baixista, e por aí vai. Eu lembro de “Feira de Mangaio”, eu que eu fazia uma onda assim (canta) e, quando eu vi, na terceira vez que eu estava fazendo, o Du Moreira estava fazendo junto comigo, eu falei: “Caaaralho!”. Assim, espontâneo, tocando pra caralho. E a gente foi nessa brincadeira que durou um ano e pouco e daí o Lelê quis voltar. Os caras me deram um pé na bunda. (risos) Sacanagem, né? Sacanagem da maior.
Natale — Nem tinha o Barbatuques, era o Barba tocando guitarra [no Boi de Lata]?
Marcelo Pretto — Não, já tinha, estava começando, mas eu estava interessado. Já tinha o grupinho dele que começou com ele dando oficinas na Auê, que era o colégio dele, do Hosoi e do Buja. Não lembro qual era o nome do Buja (n.e. Marcos Azambuja), mas eu já conhecia o Barba. Eu já ia muito pra Auê também. O Hosoi quis tentar uma banda comigo, ele na guitarra, mas foi meio desajeitado, acabou não dando certo. Aí foi ficando essa amizade. E eu sempre vendo o Barbatuques e participando das improvisões.
Natale — Aí foi incorporando naturalmente.
Marcelo Pretto — Só que começou num show na Casa; lembra da Casa?
Natale — Sim, do Benja, ali perto do Shopping Eldorado? (n.e. O pianista, compositor, produtor e articulador Benjamim Taubkin)
Marcelo Pretto — Exatamente, exatamente, do Benja. Aí o show que ia ter lá do Barbatuques e a gente meio pré-combinou. O Barba falou: “Tenho um arranjo de expressão corporal pra ‘Ema’ (n.e. O canto da Ema). Vamos ver se encaixa no “Pra onde vai valente”. Ele adorava eu cantando isso. (canta) Deu certinho o arranjo. Então, acabei fazendo “Pra onde vai valente”, ele fez uma adaptação. “Oh, deu certo!” Aí fui participar desse show lá [na Casa do Núcleo]. Foi muito engraçado. Antes de ir pra Casa, eu tinha feito um trabalho de Natal no Banco de Boston, quando era ali na Paulista, e hoje é o McDonald’s. E aí eu fui de fraque e cartola fazer esse trampo. Aí corri de fraque e cartola fazer esse show na Casa: (canta) “Para onde vai, valente?!”. Foi tão legal, foi a minha estreia no Barbatuques.
Tacioli — Com estilo!
Marcelo Pretto — O estilo não faltou, né? E aí aos poucos eu fui incorporando umas duas, três, quatro músicas ao longo do tempo. Então foi ficando essa participação especial fixa. Até eu me incorporar no show, demorou.
Natale — E o Stênio Mendes, você teve relação com ele?
Marcelo Pretto — Não, quem tinha a relação mais forte com ele era o Barba. O Barba disse que se inspirou no Stênio para muitos exercícios que ele propunha para a gente de improviso. Ele pegou das oficinas que fazia com o Stênio na época junto com a Badi. Ele conheceu nessa época, fazer a Dorô, o Stênio. Ficaram muito amigos. O Stênio sempre teve esse approach com coisas de percussão corporal, com sucata, com várias coisas assim. E ele fazia sempre aquele som. O Stênio faz muito bem o harmônico, então sempre tinha uma relação muito forte, meio de mestre, de discípulo. Eu fiz várias visitas com o Barba lá para o Stênio. Eu gosto muito do Stênio, ele é um cara inteligentíssimo, fala coisas muito importantes.
Caçapa — Marcelo, você é um cara que tem muita facilidade para perceber as sutilezas de um cantor, de um arranjo. E eu queria que você não levasse muito a sério essa provocação que eu vou fazer. A gente sabe que o Caetano fala da “linha evolutiva da MPB”, que começa com Mário Reis, Orlando Silva, passa por João Gilberto, Tropicália. Se você tivesse que dizer pra gente o que é o cânone pelo menos dos cantores e cantoras do Brasil que pra você, quem você gostaria de citar?
Marcelo Pretto — Eu quase te interrompi pra dizer que eu não acredito nisso que o Caetano fala.
Caçapa — Não, não…
Marcelo Pretto — Não, eu sei, vou chegar lá.
Caçapa — É uma provocação.
Marcelo Pretto — Eu vou chegar lá. O Caetano tem o jeito dele pensar e é uma coerência absurda, um cara ultra-coerente, ultra-inteligente, respeito muito ele, mas acabou ficando numa prisão essa onda dele da “linha evolutiva da música brasileira”, porque eles põem a Tropicália, falam de Minas também, mas acho que Minas talvez seja mais globalizante que a própria Tropicália, musicalmente falando. O Gil fala no livro dele: “Os caras foram quietinhos, mas quem segurou a barra fomos nós, que ficamos falando, levantando bandeira!” O Clube da Esquina é uma revolução que não há nem palavras para falar, muito além das palavras. O Milton Nascimento é um dos caras mais misteriosos que tem, porque ele é quieto. (imitando o jeito do Milton falar, com breques) “Eu estava lá / Com o Fernando Brant / Aí eu fui para Três Pontas / Foi uma machadada em mim / Aí eu falei: ‘Cê tá louco?! Eu nunca fiz tal coisa. Eu nunca toquei baixo'” — Ele tinha que tocar baixo num trio no bar Berimbau com Wagner Tiso. “‘Você tem que tocar baixo!’ Cê tá louco, eu nunca peguei num baixo.” Ele fala meio assim, mas é um cara que, além das palavras, talvez seja o maior artista brasileiro, a voz dele é um milagre. Não adianta falar que ele canta bem, ele não canta bem, ele é um milagre. E a música dele também. E quando falam “É rock!”. Rock? Eu começo a reparar que as coisas do Lô puxam mais para o rock mesmo, mas eu não sinto isso, sinto que ele é profudamente brasileiro. Olha eu falando de outros artistas… Mas vamos voltar… Essa sua pergunta é muito difícil, porque demandaria uma pesquisa interna. Então, as coisas que me vêm à cabeça são coisas que estão mais óbvias. Por exemplo, olho para você e penso na embolada. Penso na embolada como uma vertente. Não sei se é muito isso que você perguntou, na verdade.
Pergunta — É, quais são as figuras referenciais? Quando o Caetano está falando aquilo é para ele, não é para todo mundo…
Marcelo Pretto — Não, ele fala para todo mundo, obviamente.
Caçapa — Sim, mas é como ele enxerga. Eu acho que faz sentido para ele, mas ele fala no sentido mais totalizante.
Marcelo Pretto — Eu também acho isso.
Caçapa — Como você vê a história da música brasileira e o que é que te pede? Quem são esses artistas?
Marcelo Pretto — O grande lance do Brasil é a presença negra. A cultura afro-brasileira é quase tudo. Por quê? Porque a cultura indígena, que também permeou a cultura brasileira, ela não se fez tão exuberante quanto a cultura negra, salvo engano, tá? A cultura negra — até pela tragédia da escravidão, um monte de gente junto, de etnias diferentes, não sei o que bateu. Por exemplo, eles organizaram uma religião diferente, que é o candomblé, que vem de lugares diferentes, vem de fala, que é o xangô, vem de não-sei-onde, lá são… Oió, né? Xangô vem de Oió. E Ifá é outra coisa, é outra vertente. E Nanã, que veio de outra coisa, é uma entidade mesmo, agora Xangô parece que foi uma pessoa que viveu. E daí eles organizaram um panteão de coisas. Agora, os indígenas, não, você vai em tal etnia, tem uma certa religiosidade que está se perdendo, é uma tragédia muito maior, talvez, no sentido de dizimação mesmo. Os indígenas estão sendo apagados, até porque está sendo apagado junto o habitat deles, a Amazônia. Agora, para mim, o que me pega é a trajetória dos negros no Brasil. Então tem tudo: os lundus antigamente que vazaram para Portugal, tinham as modinhas, que são mais portuguesas, mas Portugal também teve influência negra, Domingos Caldas Barbosa. Depois começou uma história mais brasileira, aí vem o choro. Não saberia fazer um tronco, sou muito influenciado pelas sudestinidades e pelas nordestinidades, que é o samba nas suas diversas formas. Sou fascinado pelo samba da Tia Ciata, como sou — principalmente agora que estou vendo isso com o Lincoln — pelo Estácio, e tudo que vem depois: bossa nova, João Gilberto, e todos os sambas que vieram depois também. Tem um samba que é muito simbólico para mim que se chama “Cobrinha”, é um exemplo de um samba nordestino, um samba que não é carioca. Quando você escuta “Cobrinha”, você fala “É um samba!”, mas você não acha quase nada ali de samba mesmo, você acha uma levada.
Natale — “Cobrinha” é um autor?
Caçapa — É uma música do Tiné.
Natale — Ah, entendi.
Marcelo Pretto — Ele fez todo o arranjo. O Chico Saraiva foi o primeiro que me fez atentar. “Olha, essa não é uma música daquela vertente dos acordes, bossa nova, ela é feita por melodias. Ela é costurada por melodias.” E essa foi a minha música preferida do disco por muito tempo. Era um samba, um tipo de samba. Então o samba, seja com “Cobrinha”, seja no samba carioca, seja no samba mundial.
Tacioli — Samba de breque você gosta?
Marcelo Pretto — Gosto. Não é minha especialidade; gosto mais do samba-choro. Samba-choro eu acho muito legal. Sou capaz de lembrar alguns, se eu fizer algum esforço. Já lembrei do “Apanhei um resfriado”, mas tem vários outros. Gosto muito de samba-choro, mas é diferente do samba com letra… Não gosto muito daquele. (canta) “Para começar, o futebol, pois é, com muita garra e emoção / São 11 de lá, 11 de cá /O bate-bola do meu coração / É a bola, é a bola, é a bola e o gol / Numa jogada emocionante, o nosso time venceu por 1 a 0 e a torcida vibrou.” Achei meio forçado, porque essa é uma música instrumental do Pixinguinha, que ela traz uma ginga de futebol.
Natale — Tem o sotaque também, né?
Marcelo Pretto — É, agora o Nelson Angelo, que é do Clube da Esquina, fez uma letra que fala: “Vai começar o futebol / Pois é”. Pois é? Por que está este “pois é”. “/Com muita garra e emoção, são 11 de lá, 11 de cá. O bate-bola do meu coração. É a bola, é a bola e o gol”. O que ele põe nesse (reproduz o fraseado instrumental)? “É a bola, é a bola e o gol.” Não sei, com todo o respeito que eu tenho ao Nelson Ângelo, que é um grande artista, e aí as coisas que o Hermínio Bello pôs também. Minha crítica vai um pouco mais longe, mas é melhor eu ficar quieto. (risos)
Pergunta — Mas por falar em crítica, você desenha, tem o lance da música, você lê muito. Você escreve?
Marcelo Pretto — Não, cara. Sempre tive uma relação de travamento com escrever. Aquela caixa d’A Barca, que são três discos e um puta de um encarte, todos d’A Barca escreveram, menos eu.
Tacioli — Mas por quê, Marcelo? Qual é a trava?
Marcelo Pretto — Por acaso!
Tacioli — Você verbaliza muito bem o que você pensa.
Marcelo Pretto — Acho que eu verbalizo mal pra caralho, mas como sou um cara que teve uma boa educação, como sou um cara que, bem ou mal, li — se vocês vissem o tamanho da minha biblioteca, era muito, muito, muito maior do que o que eu já li. E também ler um livro, você começa a descobrir que ler um livro não é ler um livro. Você começa a ler um livro quando você está relendo o livro, porque ler é uma passada de olhos, você tenta captar o que você consegue e o que você não consegue, ficou, né? Então, na verdade, passei por vários livros ali, mas a biblioteca é muito maior do que isso. Eu fico sempre naquele débito. Então, eu leio muito pouco. Minha mãe e meu irmão leem mais, eles têm mais uma coisa das letrinhas correndo do que pra mim, que é mais trabalhoso. Mas, enfim, como tenho essa coisa, eu falo bem, falo articulando as palavras, procuro falar com certa correção no plural, a não ser quando estou falando mais solto mesmo, uma linguagem mais corrente. Mas sou muito confuso, vou pra um assunto, daí começo a falar do Gilberto Gil e de sei-lá-de-quem. Não tenho uma organização e acho que as minhas histórias, com algumas exceções, são pouco interessantes. A Juçara, quando veio aqui da última vez, falou: “Por que você não escreve?”. Contei essa história do Vozes Búlgaras. Eu falei “Não! Não tenho nada pra falar”.
Pergunta — De um jeito ou de outro, você contar essas histórias é muito legal. De alguma maneira, as pessoas ouvirem você contar essas histórias, seja gravado…
Marcelo Pretto — Por exemplo, agora estou muito satisfeito porque vocês vão transcrever [a entrevista].
Natale — É uma trajetória importante pra quem tá começando como músico. Você conseguiu encontrar um lugar e um caminho que é só seu. Não vejo um paralelo com ninguém. Isso é importante até como libertação pra alguém que tem 18, 19 anos que, na verdade, quase que perde essa possibilidade, acha que isso não existe. Fora o seu trabalho musical, a história em si, o pensamento, como você formula as questões, como você se coloca pra duvidar da música — “Não, mas não era isso, era aquilo!” — , acho de uma importância pra quem tá começando a vislumbrar uma carreira de música, sabe?
Marcelo Pretto — Acho curioso você falar, porque acho que é uma visão generosa, mas eu aceito também. Mas, ao mesmo tempo, sempre me achei uma pessoa de uma vida desinteressante. Uma coisa que falei antes é que a minha vida foi muito boa, mas vida boa não significa vida interessante, pelo contrário, tem aquela coisa de desgraça dá algum livro, né? (risos) Se eu falasse assim, “Porra, aí quando eu almoçava, aí eu voltava pra casa, ficava de boa, via TV, depois eu pensava numa coisa assim, outra, e falava, ah, ‘porra, que merda, o que vai acontecer nessa merda aí?’ Você fica só assim.” Minha vida foi de boa, mas não posso dar uma de Mano Brown, não posso falar, “Porra, velho, sofri pra caralho, sou da favela, eu sei o quanto eu sofri, minha família…”. Feliz ou infelizmente, eu não tenho essa história. Essa história é boa de contar e de você olhar firme e falar “É foda, velho, foda!”, porque é foda pra caralho mesmo, sou um cara que fico siderado quando vejo essas pessoas e o sofrimento que existe no mundo! A gente não faz ideia como é a vida na República Democrática do Congo, que é um dos lugares mais insanos que tem pra viver. Criança na mina de cobalto, mina de sei-lá-o-quê, que é o negócio mais tóxico do mundo, fica o dia inteiro trabalhando e não tem vida!
Natale — Você passou pelo Congo?
Marcelo Pretto — Não, não, vi num vídeo bobo desses qualquer; fui somente para o Mali, Burkina e, numa outra viagem, para o Senegal.
Caçapa — Pra mim, Marcelo, a sua trajetória demonstra um compromisso muito sério com a busca — nessa coisa de distraído e de brincar. Na verdade, você gosta tanto da música, que ela é parte de você, que é o seu norte.
Marcelo Pretto — Sinto que tenho um compromisso com a arte desde o começo da vida e são sempre esses três vetores, ainda que a música não tivesse aparecido no começo. Mas, criança, lembro que eu cantava o Saltimbancos, do Chico Buarque, era um cara que’u respeitava. (canta) “Au, au, au, hi-hó, hi-hó / Miau, miau, miau, cocorocó” E o pessoal cantava, mas não respeitava as pausas. Eu ficava meio puto. Lembro que eu já tinha uma musicalidade, mas a música veio com força total depois. Mas com a arte sempre, porque desenho de alguma maneira, sempre tenho um amor por aquilo. Acho que eu tenho um lance, dou match com o meu desenho e o desenho dá comigo. Mas o desenho é totalmente mais absurdo ainda, que é mais distraído ainda. Começo a fazer um negócio no sonho e, muitas vezes, saem algumas situações que alguém vai olhar e vai falar “Esse cara tá puto com esse porque tá devendo uma grana!”. Acho maravilhoso, porque [estive] longe de ter pensado isso. Começa não muito bem, mas vai melhorando. (mostrando os cadernos de desenhos) Se quiser trazer a cadeira pra cá, pode trazer. Esse é legal que parece que ele tá fazendo aquela dancinha.
Natale — Esses são recentes ou não?
Marcelo Pretto — Não, não, são 2010. Esse era o caderno que achei que tinha perdido. Esse eu gosto.
Natale — Olha que doideira.
Marcelo Pretto — É bem sambista, né? Tem uma musicalidade aqui.
Pergunta — Exatamente, exatamente.
Marcelo Pretto — É isso que eu gosto nele. Tem um suingue, vejo o samba aí, ele batucando o samba na mão. Tenho vários de rosto. Queria ainda fazer uma exposição que pegasse o mostruário de tipos de rostos diferentes que eu faço, porque é uma miríade. Cada desenho que eu faço é um rosto diferente, sabe?
Tacioli — A capa do disco Boi é sua, Marcelo?
Marcelo Pretto — É! Nem achei que ficou tão boa aquela capa. Gosto desse aqui debaixo… Essa coisa de abstração eu não consigo. Esse aqui, por exemplo, ficou todo torto, né? Já não gosto tanto. Esse de baixo ficou mais simétrico. Gosto mais desse. Mas é uma viagem que eu fiz muito pouco. É muita maconha esse desenho, nem que eu não tivesse fumado… Aí começam umas coisas de rosto, sai um rosto qualquer.
Tacioli — O desenho te traduz aí, Marcelo?
Marcelo Pretto — Como assim?
Tacioli — O que você desenha de algum jeito é algo que está dentro de você?
Marcelo Pretto — Não, não consigo conceber. Essa cara aqui eu nunca vi antes. Não sei quem é. Ele sai na caneta mesmo, sabe? Não sei se eu tinha respondido legal, mas é um sentimento que quando você desenha é um sentimento que está dentro de você. Acho que essas coisas às vezes vazam, mas não de um jeito programático. Olha que legal. É muito, né? Então, vou passar um pouco mais. Você vê que são rostos… Você vê que é um traço que vai, né? Às vezes eu fiz isso aqui — o nariz — , e a boca já sai. Esse é legal. Muito preciso. Esse é meio Caçapa. (risos) O olho dele está aqui no fundo.
Caçapa — Já vi esse desenho.
Marcelo Pretto — Hã?
Caçapa — Já vi esse desenho.
Marcelo Pretto — Não!
Caçapa — Já! Você me mostrou. Esse é o meio palhação.
Marcelo Pretto — É, ele é um palhaço.
Natale — O seu primeiro caderno você tem?
Marcelo Pretto — Não sei, cara. Não sei, não sei. Mas é bem antigo isso e não tinha nada a ver com isso aqui. Eram desenhos mais iniciantes mesmo. Olha que bom. Esse até pelo formato do caderno acabou virando um mostruário de rosto, né?
Caçapa — Você falou que quando era menino a sua referência era desenho animado. E agora?
Marcelo Pretto — Agora, depois de tanta coisa rodada, de tanta gente que você vê, simplesmente sai. Você vê, tem muita referência. Picasso foi muito importante. E… Escher foi importante. Mas não tem nada a ver com Escher isso aqui, mas são artistas que te iluminam, te deixam traços assim, não sei explicar. Está muito diluído. Eu seria capaz de fazer um esforço e lembrar de alguns que sejam mais… Aqui temos as legais também. Esse, tadinho, está preso.
Natale — Olha, colorido.
Marcelo Pretto — É. É porque é paciente para colorir. Esse é legal porque tem os reflexos aqui no meio do rosto dele. Aqui está de costas. Aqui o reflexo também.
Tacioli — Marcelo, o desenho profissionalmente nunca foi uma opção para você?
Marcelo Pretto — Nunca, cara. Porque na verdade o cara falava: “Eu quero esse figura aqui, só que sorrindo!”. Eu não consigo. Não consigo! Só sai essa figura aqui, desse jeito. Nunca mais vou fazer essa figura igual. Então é difícil trabalhar assim, né? Esse cara existe. Em algum lugar ele existe.
Natale — Esse é o país do Macalé.
Marcelo Pretto — O Jards?
Natale — É!
Marcelo Pretto — Caralho. E aqui é a família unida. A felicidade…
Natale — O único ser autônomo é o cachorro, né?
Marcelo Pretto — Mas ele está triste. É o sonho da família. American Dream. Todos bem felizes. Nossa. Está chorando para Deus. Seus três unidos. Três pessoas em um rosto só.
Tacioli— E Marcelo, só um desenho colorido dos dois cadernos aí. Por que a preferência?
Marcelo Pretto — Porque enquanto eu estou colorindo eu faço outro desenho. Então, em vez de ficar colorindo, faço outro desenho. Gosto da linha, gosto do preto no branco. Tentei fazer com outras cores, mas não fica legal. Gosto desse contraste do preto no branco. Um bracinho meio comprido, triarticulado. Tem um aqui legal.
Tacioli — Você já expôs, Marcelo?
Marcelo Pretto — Nunca. Nunca expus. O pessoal fala, “Pô, faz uma exposição!”. Realmente. Essa é a gatinha curtindo um som. Homem-planta. Homem-folha. Mulher-folha. Casal descolado. Casal meio… E esses seguem a moda, né? (…) Estava olhando umas pastas antigas que achava que tinham sido roubadas e fiquei vendo muitos desenhos e são muitos motivos, muitos que se repetem, como esse da família feliz: ele está pensando num carango, ele está pensando em uma amante, ela está pensando no cara da revista, o cachorro sempre pensando em osso e aqui é…
Tacioli e Caçapa — É um celular.
Marcelo Pretto — É, está todo mundo meio desconectado, mas as mãozinhas estão juntas, a promessa de eterno amor. Esse daqui está no campo, mas a cidade está dentro dele.
Natale — Não saiu da neurose.
Marcelo Pretto — É, não saiu da neurose. Aqui o cara teve uma ereção de nariz (risos), pensando na sua mulher desejada. Esse é músico, esse é sério, esse cara existe, tem uma cara invocada. Esse é o monogâmico e o bígamo. Esse de muitos olhos na cabeça tem vários. Esses aqui são mais atuais, gosto desses mais expressivos. Tem um que gosto bastante, mas para falar onde está… Ele está num armário de madeira, ao lado da porta, se você abrir, você vai encontrar um caderno bem parecido com esse. Esses [desenhos] não tenho tanto apreço como tenho por aqueles cadernos… Sempre um sorriso meio torto…
Caçapa — O jeito de improvisar cantando tem a ver com o improvisar desenhando?
Marcelo Pretto — Tem a ver, tem a ver com o improviso do desenho, que é sempre improviso.
Tacioli — Não achei, não, Marcelo, mas nem vou arriscar a mexer lá [no armário].
Marcelo Pretto — Não achou?! Eu pego depois. Aqui acabou. São os desenhos que eu tenho feito ultimamente.
Natale — E os cadernos cada um de um jeito…
Marcelo Pretto — Esse daqui eu comprei na China.
Natale — Você foi com quem para a China?
Marcelo Pretto — Com o Barbatuques. Foi a viagem mais louca da minha vida, porque dois dias na China.
Natale — Somente dois dias na China?!
Marcelo Pretto — Foi próximo de Xangai, a gente foi fazer um show de bate-e-volta e o Barba falou “Se vocês não quiserem, não precisam ir, é muita loucura!”. Eu falei (com voz grossa): “Não, eu quero!”. Brancaleone, né?! Quando eu voltei, estava estragado. Nunca mais, nunca mais!
Natale — Dois dias para ir, dois dias lá e dois dias para voltar.
Marcelo Pretto — É, a ida e a volta deu mais tempo que a própria viagem.
Tacioli — Marcelo, o Renato vai montar um mini-estúdio para tirar uns retratos.
Marcelo Pretto — Tá bom. Eu queria tirar uma foto com vocês também. Ali na minha cama tem o celular.
Caçapa — Vou pegar.
Marcelo Pretto — Vocês ficam aqui à minha volta.
Renato Nascimento — Vou fazer essa foto já.
Natale — Achou?
Renato Nascimento — Também vou precisar mexer nesse mesa.
Tacioli — E você se junta também.
Marcelo Pretto — Assim fica tudo muito pequeno.
Renato Nascimento — Melhor na horizontal.
Marcelo Pretto — Assim está melhor. Está todo mundo? Maravilha! (risos)
Tacioli — Precisa de ajuda, Renato?
Renato Nascimento — Não!
Marcelo Pretto — Vocês vão embora e vou ficar sozinho de novo e assim vai. Essa balada mexe pra caralho com a gente, é uma certa terapia.
Natale — É uma conversa longa.
Marcelo Pretto — É! Como diz o João Gilberto, é uma egotrip.
Tacioli — E você não contou a história do João Gilberto e da VASP! Está gravando no celular como backup.
Marcelo Pretto — Vocês querem que eu conte?
Tacioli — Eu quero.
Marcelo Pretto — Então, vou contar. Eu trabalhava na VASP e, dois anos antes, eu não sabia quem era o João Gilberto direito, só de ouvir falar, era o cara que cantava baixinho. Lembro quando era criança, eu estava na perua do Tio Ferruccio, que era um italianão bigodudo e eu estava sentado na frente e estava tocando (canta com voz sussurada e baixa) “Eu vim da Bahia / Eu vim da Bahia”. Ele repete muito essa música, umas 12 vezes. Essa música está no disco que é o que eu mais gosto dele, que é o disco branco e quem já ouviu sabe que ele repete especialmente bastante. E o Tio Ferruccio (imitando um sotaque italiano): “Tá bom, já sei que você foi para a Bahia! Que saco!”.
Natale — Tio Ferruccio!
Marcelo Pretto — João Gilberto era esse que o Tio Ferruccio falou. (risos) Aí eu comecei a pegar o violão, o songbook do Chediak e um amigo da minha mãe trazia uns xérox de algumas músicas. E eu ia pegando, porque o Chediak era bem mastigado mesmo, você olhava o jeito de fazer acorde e não precisa entender porra nenhuma de harmonia, era só pegar e copiar. Estava eu tocando algumas músicas, “Brigas nunca mais”, tocava de um jeito gostoso, e outras. E aí teve o famoso livro Chega de saudade, do Ruy Castro, que eu li. Eu tinha isso na cabeça quando estava no aeroporto de Congonhas, era agente de tráfego. Então eu saia da salinha, ia até a pista, pegava os cartões de embarque do voo — porque era um pool de empresas, era Varig, VASP, Transbrasil, e a TAM estava mal começando. Eu ia lá, o pessoal chegava, me dava o cartão. E com esses cartões, eu ia para uma salinha, trocava os cartões por passagens e levava as passagens para uma sala da VASP e a gente contabilizava e arquivava. Eu fazia essas coisas e atendia ao voo, conferia bagagens: “Bagagem está O.K.! Papa-Tango não-sei-o-quê!”. Papa-Tango é para avião menor, Papa-Papa é para avião maior, Boeing, essas coisas. Eu sabia o alfabeto inteiro, “Alfa, Bravo, Charlie…”. Eu estava numa dessas em Congonhas, que era bem menor. Você abria um portãozão assim e saia a galera andando para o avião. Eu estava lá e passei, olhei para o lado e falei “Nossa, acho que é o João Gilberto!”. Uma cara branca, meio massilenta, bichinho de goiaba que fica dentro de casa o tempo inteiro. E do lado dele uma morena linda que, mais recentemente, acho que era a moçambicana com quem ele se relacionou. Ela era muito bonita, mas estava com uma cara meio perdidinha. Eu fui até o avião, pela cor do cartão de embarque imaginei que fosse aquele voo que ele ia pegar, “Bom, é o que me resta a fazer”, voltei para o portão e falei: “João, sua aeronave está liberada. O senhor quer me acompanhar?!”. Daí ele falou: “Obrigado!”. Ele foi simpático, falou obrigado. E nesse momento eu falei, “Porra, o cara é simpático, ele me deu uma abertura, ele poderia ser um entojo, poderia nem olhar na minha cara! Agora, se eu não falar alguma coisa, nunca mais!”. Eu sabia que ele era recluso e tudo mais. (dirigindo-se ao João Gilberto) “Obrigado eu! Eu que agradeço por tudo o que você fez pela música brasileira, por tudo!” O cara ficou desacorçoado. “Poxa, poxa, qual é o seu nome?!” “Marcelo!” “Puxa, Marcelo, me faça um favor, me faça um favor: ligue para o Quico!” (n.e. Refere-se à Krikor Tcherkesian) “Faço o favor, levo a bagagem, levo você nas costas… Que Quico?!” “O Quico da Ducall!” — aquela loja meio decadente do centro. “Ligue para o Quico, da Ducall!” Ele queria que esse Quico me desse um convite para eu assistir o show que ele iria fazer, que era um show importante, porque era o primeiro no Brasil em muitos anos, porque ele estava morando nos Estados Unidos. Ele ia fazer um show por causa do jingle da Brahma. (canta em voz baixa) “Pediu cerveja / Pediu / Brahma Chope / Brahma Chope!”.
Natale — Foi no Municipal?
Marcelo Pretto — Não, não, foi no antigo Palace, porque era um show-privet. Liguei para o Quico e “Sei, sei, tá, ele já me pediu!”, meio como quem diz “Mais um bicão, mas como eu já conheço a peça, ele me ligou…”, foi meio nesse tom. Bom, fui lá, peguei os convites com esse cara. Aí chamei um amigo para ir comigo, ele foi. Na saída estava aquela fila pro camarim, fila de importantes, “Não vou entrar nessa fila nem a pau”. Daí eu saí. Um ou dois dias depois, eu estava lá em Congonhas, aquele telex, “Marcelo está aí?”. “Tá!” “João Gilberto quer falar com você!” (risos) Daí eu saí correndo, estabanado, ele já estava subindo a escada lá na pista e eu correndo, “João, João!”. Ele subiu, sentou. Ah! Nesse primeiro disco, eu o acompanhei até a aeronave, “Marcelo, como é o nome do seu pai, como é o nome da sua mãe. Onde você mora? Me dá o seu telefone!”. E eu peguei o dele e pensando “Isso é sonho? Me belisque! O que está acontecendo, que loucura é essa?!” E o cara extremamente simpático, mas ele era maluco, depois você vai vendo, mas um maluco muito especial, muito sui-generis, não era um maluco que fala “Na-ta-le” e não fala nunca mais. Ele sabe quem é você, mas não é por isso que ele vai ligar para a sua casa e dizer “Como está a sua mãe, Siloé, né? Como está o seu pai, José?!” Não, ele esquece de você, até você ligar. “Ô, Marcelo!” Fui no show e quando ele subiu no avião, ele quis me dar o disco, o LP, e eu “Não, não, eu já tenho, eu comprei na saída do show!”. Eu deveria ter pego e ter pedido um autógrafo. “Essa é a minha filha, essa é a minha sobrinha!”, ele apresentando a família e os caras querendo dormir. Ele falou que cantou “Saudosa maloca”: “Eu queria que todo mundo cantasse junto!” e eu pensando “Mas esse não era o cara que não gostava que ninguém cantasse com ele?!”, mas agora era diferente, ele já estava querendo que as pessoas cantassem. Ele nunca gravou o “Saudosa maloca”, mas tem umas gravações piratas ao vivo, ele fez em vários shows. Depois de um tempão consegui ligar para o flat dele e a gente saiu conversando qualquer nota, qualquer coisa, e foi uma conversa longa. E no meio: “Preciso lhe falar, preciso lhe falar: você conhece, já ouviu falar em Yogananda?!”. Dei uma de João Gilberto: “Poxa, João, você não vai acreditar, ele está aqui na minha frente!”. Eu estava no quarto da minha mãe que era totalmente fã do Yogananda e tinha um quadro com o Yogananda na minha frente. Ela tinha lido a biografia do Yogue, que é um livro super clássico para quem gosta desses assuntos, como eu que sempre gostei da Índia, mas nem sequer li esse livro. Eu li o Sidarta. “Ô, Marcelo, puxa vida!” Eram conversas cheio de reticências. Eu evitava entrar em assuntos. Não sei se foi na primeira ou na segunda, ele falou: “Você gostou disco?!” “Eu gostei, mas prefiro o disco branco!” (risos) Puta de um cururu, né, vai falar com o João Gilberto num raro momento e o cara, um moleque que não sabe das coisas, “Gosto mais do disco branco!”. O cara acabou de lançar um disco e, de alguma maneira, ele achou interessante. “É, puxa, é mesmo?!” Acho que ninguém nunca falou assim com ele. “Não, João, tudo o que você faz é maravilhoso!” “Não, eu gosto do disco branco, porque é só você ali”, ele e aquele baterista quase inexistente, o Sonny Carr. E as conversas iam por aí. Tinham umas ligações às oito da noite: “João, estou atrapalhando?!”. “Estou vendo o Jornal Nacional. Ligue depois.” O bom para ligar era três da manhã, aí ele estava tinindo. Um dia, com um amigo meu, que era próximo na época — era madrugada, havíamos chegado de algum lugar, estávamos numa conversa ferrada — , falei: “Vou fazer uma coisa. Você será a minha única testemunha. Vou ligar, você pega a extensão mas, pelo amor de Deus, silêncio total!”. Eu estava arriscado a perder o João. Ele ficou na extensão, liguei e conversei com o João, desliguei e o cara: “Vocês são loucos! Vocês começaram a conversa do meio e não tinha fim!”. Ele falou: “Uma hora quase rachei o bico…!”. “Pelo amor de Deus, você ia estragar tudo. O João falaria ‘Seu traidor!'”. Outra coisa importante: em 1991, não, pouco depois, a gente estava conversando mais frequentemente, e ele falou (ri): “Você conhece algum advogado aí em São Paulo?”. “Por que?” Eu não conhecia, claro. Ele estava com o Otávio 3º, que era o fiel escudeiro dele. “Eu posso alegar que ele estava com um anão.” Porque ele estava em uma foto, meio sombreada, e uma criança, “Vou inventar que era um anão!”, um negócio assim, tão escabroso que não perguntei detalhes e, talvez, ele não me desse. Uma [outra história] foi quando meio que a gente rompeu. A gente estava conversando bastante e eu falei: “Olha, vou ter um feriado — o único feriado que tinha no segundo semestre, e eu no banco — e pensei em ir aí”. Era um sábado, domingo, segunda e terça, qualquer coisa assim. “Não, sim, venha!” E foi conversando de outros assuntos, como sempre. Vou chegando perto [da data] e eu: “João, como fica? Eu preciso saber detalhes, como faz…”. Uma hora ele ficou bravo porque eu insisti — “Vai ser amanhã, preciso saber!”. “Você não sabe o que estou perdendo de falar com você!” “Tá bom, João, depois a gente fala!” Aí passou sábado, domingo, eu tentando falar e não conseguindo, aí domingo à noite ele atendeu: “Tá em São Paulo ou está no Rio?” “Estou em São Paulo, né?” “Ah, puxa, é que você é uma pessoa sensível! Pode me ligar. Nessa madrugada eu não posso falar, mas me ligue [em outra], mas pode ligar a cobrar!”. Era a primeira vez que ele falava isso. Esperei, liguei às três da manhã, tocou a musiquinha do “a cobrar” e ele desligou, ô filha da puta! (risos) Ele não deveria nem se lembrar o tanto que era viajandão. Eu, orgulhoso, “me recuso!”. Enquanto a amizade estava fácil, eu pensava: “João Gilberto, todo mundo sempre mistificando o cara e eu peguei tão fácil…”. Li um livro maravilhoso de um maluco de um alemão que tentou falar e, puta tempo depois, virou um filme. (n.e. Marc Fisher é o autor do livro ‘Ho-ba-la-lá — À procura de João Gilberto’, lançado em 2011. Sete anos depois, o diretor Georges Gachot lança o documentário ‘Onde está você, João Gilberto?”, baseado na saga e obra de Fisher) O nome do livro é Ho-ba-la-lá. O cara teve uma epifania quando ouviu “Ho-ba-la-lá” na Alemanha: “Eu vou para o Brasil e vou conhecer o João Gilberto!” Só que ele pegou a pessoa errada, porque é impossível de conhecer o João Gilberto. Tanto é que o livro termina, ele já cansado, exaurido, sem dinheiro… Tem um dia em que ele foi se hospedar no Copacabana Palace, somente porque ele tinha chance de encontrar com [o João] lá. Imagina a grana que ele pagou. Aí, ele, cansado, recebeu uma ligação e, quando foi atender, era alguém colocando o disco para tocar “Ho-ba-la-lá”, tocou até o final e, quando terminou, desligou. Ele não sabe até hoje — na verdade, ele já morreu — , mas podia ser o João, isso é bem coisa de João, esses mistérios. (n.e. Marc Fischer morreu aos 40 anos de idade, em 2011, pouco antes de seu livro ser lançado)
Tacioli — Muito bom, Marcelo!
Marcelo Pretto — Ainda tem o fecho, hein! É o seguinte: aí a gente rompeu. Em 2008 — ano do último show que ele fez na vida — , uma amiga falou: “Olha, o seu nome está na Folha de S. Paulo!”. Tinha na Mônica Bergamo: “João procura seus amigos perdidos: fulano, sicrano, sicrano e fulano, e o Marcelo, da Varig, me daria muito alegria se fosse me ver no show”. Pra mim ele dedicou uma frase. Eu sabia que era eu, não podia ser outro. “Mas era Varig!”, mas era muito difícil que fosse outro. Aí fui e desisti, era muito concorrido, tinha cambista cobrando mais de mil reais… Aí tentei ligar, não consegui, e me ligou uma mulher, que era da Mônica Bergamo, “Sou amiga do Flávio”, não entendi a referência e fui falando, achei que era uma boa samaritana querendo me ajudar, “Pois é, o João é louco!”, mas comentei como se eu comentasse com vocês, com intimidade, e ela “Ah, tal, tal, tal”. Ela pôs no jornal no dia seguinte: “O Marcelo da Varig é, na verdade, o Marcelo d’A Barca e do Barbatuques. ‘O João é louco!'”. Fiquei puto pra caralho e nisso fiquei tentando encontrar o telefone do cara. Aí liguei para o Peninha Schmidt e falei que estava no auge da putice. Ele falou: “Mano, o jornal foi feito para embrulhar o peixe do dia seguinte. Esquece essa porra aí!”. Deu uma consolada. Disseram que ele não vai para o camarim, não, vai direto para o Maksoud Plaza. Aí segui a risca, esperei o tempo do show, tinha um outro show depois, liguei para o Maksoud Plaza mais à noite e falei: “Tudo bem, eu queria falar com o João Gilberto”. “Só um momento!”, ela fez um tempo-padrão e voltou: “Ele está dormindo. Ligue amanhã”. “Sabe o que que é? É o Marcelo da Varig quem quer falar com ele.” “Ah, só um momento.” Ela deve ter ido ao restaurante ou alguma coisa assim. Daqui a pouco escuto: “Alô, Mar-ce-lo! Nunca esqueci a sua alma!” Foi uma das coisas mais lindas que [ouvi]. E aí fui conversando e ele “Vou deixar um convite com o Otávio”. Não falou se era um ou dois, não sabia com quem deixar. Aí eu cheguei na hora do show, tenso pra caramba e os convites iam chegar bem em cima. Chegaram e eram dois convites. “Não vai dar tempo de chamar o Caçapa — que eu nem conhecia na época — , de sair da casa dele e ter o risco de atrasar. Não vou esperar a pessoa chegar. Tem de ser alguém daqui.” Aí encontrei o Tomati, que estava no Jô Soares, me cumprimentou — eu o conhecia de vista: “Nem fudendo que vou dar o convite para o Tomati!” (risos) “O cara tem o melhor trampo, trabalha todo dia no Jô Soares e ainda vai ganhar um convite de graça!” Aí encontrei uma mulher meio assim, “Olá, tudo bom?!”, meio hippie, eu conhecia de vista também…
Caçapa — Maria Bethânia? (risos)
Marcelo Pretto — Não, eu reconheceria! Mas eu a conhecia de alguma festa. Era, simplesmente, a [Carolina] Whitaker, a mãe da cantora [Céu], mas na época eu nem sabia o nome dela e falei “Oi, tudo bom? Você está aqui para ver o show?”. “É, estou aqui”, com um sorriso meio assim, vago. “Você não tem ingresso?” “Não!” “Seus problemas acabaram: toma aqui!” Ela foi entrando comigo e eu “Sou privilegiado: João Gilberto já cantou no meu aniversário, cantou ‘Parabéns pra você’ ao violão e fazendo segunda voz. Eu tive a honra de cantar com ele ‘Brigas nunca mais’, ele ao violão. (começa a cantar) ‘Chegou / Sorriu; e ele fazendo a ‘Lá lá lá’ (fazendo a segunda voz)”. Mano, essa vou levar pro além. E ela: “Sei como é”. E ela quieta durante o show inteiro. Ela tinha cara de ex-gata, uma mulher bonita, mas mais velha. Eu perguntei: “Você namorou o João?!”, porque eu sabia que o João era mulherengo. (com voz baixa) “Namorei!” “E como você o conheceu?” “Sabe o que que é? Eu namorava o Tim Maia!” (risos) “Não! Você namorou os caras mais loucos do mundo!” E disse que uma vez o Tim Maia ficou com ciúme e ligou para o João, e o João desligou com medo. Imagine o Tim Maia ligar puto pra sua casa! Sai de perto porque o cara é barra-pesada. Pra terminar a história, eu dei o ingresso para a pessoa certa e quando falei com o João no hotel, ele falou: “Você foi no show? Gostou?”. “Não, João, estou tentando falar com você!” “Não, deixo o convite!” Fiquei um tempão sem falar com ele e, anos depois — em 2008 foi o último show dele, mas ainda viveu alguns anos — , eu liguei pra ele, ele atendeu, mas a conversa foi um pouco mais fria. Dois dias depois, me liga uma mulher, que era uma mistura de uma mulher mais simples, mas com um certo vocabulário, era uma pessoa que já tinha trabalhado anos com o João Gilberto, que sabia de todos os horários dele. Ela estava vindo para São Paulo, e ele: “Um cara que eu confio é o Marcelo. Ligue pra ele!”. (ri) Louco, né? Aí ligou, eu não sabia o que fazer, conversamos bastante, mas eu não tinha ideia como poderia ajudá-la. E ficou por isso mesmo. Daí acabou a história com o João Gilberto, mas é uma história bem doida. E são coisas feitas de acasos…
Leia a crônica do radialista e jornalista santista Osvaldo Moles (1913-1967), considerado o sucessor do escritor Antonio Alcântara Machado e pai artístico de Adoniran Barbosa
Caçapa — Daria um papo somente disso.
Tacioli — “Distraídos venceremos!”
Marcelo Pretto — E você vai descobrindo as coisas dos discos, a genialidade… Por exemplo, se você pegar “Falsa baiana”, ele faz assim: (canta) “Baiana é aquela / Que entra no samba de qualquer maneira / Que mexe, remexe / Dá nó nas cadeiras / E deixa a moçaaaaaaaada”, ele pula de oitava, em vez de falar “E deixa a moçada com água na boca”. Ele faz “E deixa a moçaaaaaadaa”, e você pensa que o cara não alcança, mas porque ele não pegou outro tom? Ele muda de tom, mas somente uma hora, ele fala “Mas a gente gosta / Quando uma baiana / Quebra direitinho / De cima e embaixo”. Quando ele fala a palavra “baixo”, ele vai lá embaixo, isso é muito louco.
Caçapa — Ele valoriza.
Marcelo Pretto — É muito incrível. É “percebeu, percebeu… O Caetano tem umas coisas dessas… Quando ele canta no disco Cinema transcendental, não fala nunca em cinema transcendental e, se não me engano, não tem nem música com esse nome. (canta) “Cinema transcendental / Trilhos urbanos”, é “Trilhos Urbanos”, em cinema transcendental ele toca um gonguinho, um gonguinho bem baixinho. Só tem nessa hora, nunca mais aparece. Isso é uma coisa joão-gilbertiana. A música “Isaura”, que ele — espertamente — pegou a segunda voz que ele criou — ele fez pra ele — , então botou a Miúcha, que era a mulher dele, para cantar: (canta) “Ai, ai, ai, Isaura / Hoje eu não posso ficar / Se eu cair nos seus braços / Não há despertador / Que me faça acordar / Eu vou trabalhar”. Aí ele fez: (canta emulando a voz do João Gilberto e com uma nova divisão das frases) “Ai, ai, ai, Isauuuura / Ô ô ô / Eu não posso ficar / Se eu cair nos seus braços / Não há despertador / Que me faça acordar”. É uma segunda voz muito legal e especial. (…) A gente percebe que, na verdade, é um samba-mantra, porque tem um outro samba que ele faz nesse disco, ele toca as cordas mais soltas, é um dos recursos que ele tem (canta) “Aaaaaaaaa madrugada / Já rompeuuuuu / Você vai me abandonaaaarrr / Eu sinto…”. Ele vai até o fim das frases, segurando a voz e o violão, então você fica inebriado e, ao mesmo tempo, é um mantra também, parece uma escola de samba do pensamento, porque escola de samba é aquela zoada que fica, é uma piração minha. Comecei a viajar muito no João, comecei a ver o gênio que ele é, porque ele é gênio mesmo, você começa a falar no João, você não para mais.
Tacioli — Ótimas histórias, Marcelo!
Marcelo Pretto — Tem muita história, tem história com Hermeto também.
Tacioli — O Renato já montou o estúdio.
Marcelo Pretto — Onde eu fico?
Renato Nascimento — Você fica aqui.
(Começa a sessão fotográfica)
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Faixa 01 – “Ilha do Mel” (Raul de Souza), por Raul de Souza
Faixa 02 – “Balada 45” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Arthur Verocai
Faixa 03 – “Sweet Lucy” (Raul de Souza), por Raul de Souza
Faixa 04 – “Balanço Zona Sul” (João Donato), por Raul de Souza e Robertinho Silva
Faixa 05 – “Rio Loco”
Faixa 06 – “Don’t ask my neighboors”
Faixa 07 – “Banana tree”
Faixa 08 – “Piano na Mangueira” (Tom Jobim), por Raul de Souza
Faixa 09 – “Bossa eterna”
Faixa 10 – “Lugar comum” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Robertinho Silva
Entrevista realizada em 9 de julho de 2024 na residência do artista, na Vila Cordeiro, zona oeste paulistana.
Entrevistado: Marcelo Pretto (17/set/1967 – 08/mar/2026)
Entrevistadores. Edson Natale, Ricardo Tacioli e Rodrigo Caçapa
Produção: Edson Natale e Ricardo Tacioli
Fotos: Renato Nascimento (com apoio técnico de João Nascimento)
Captação sonora: Ricardo Tacioli
Edição de texto: Ricardo Tacioli
Texto de apresentação: Edson Natale
Portelense de coração, ela não se considera pesquisadora, mas uma catadora de sambas.
Somente nesses últimos dez anos que a carreira de Ignez Francisco tomou o espaço que merece.
Um dos principais produtores de música brasileira, ele é responsável pelo primeiro disco de Cartola, Adoniran Barbosa e Carlos Cachaça.
Seus primeiros passos foi como cantora da Vanguarda Paulista; depois seguiu para Tom Jobim, Clube da Esquina e Eduardo Gudin.