SÃO PAULO, 30 de agosto de 2005
Tem gente que imagina os dois sentados à sombra de uma jabuticabeira, em um quintal ensolarado, cheio de árvores frondosas e crianças por todos os lados a cantar, correr e brincar. Tem gente que imagina uma dupla de pop stars, sem tempo ou paciência para assédio, entrevistas ou fotos, protegidos em sua sede por um exército de seguranças e circuito interno de TV.
Mas não tem quintal, nem segurança, árvore também não tem. O verde se resume ao jardim suspenso na entrada do escritório, avencas, orquídeas e que tais de frente à janela que dá para um fosso. A segurança é garantida por um interfone.
A rua é daquelas onde não dá para jogar bola porque passa muito carro, e também não dá para brincar de pique. Rolimã ali nem pensar. E não dá para pular o muro da casa de ninguém. Som, só de buzinas e freadas. Nessa rua não tem turma.
Ou será que pode ter turma de dois?
Rua João Moura, bairro de Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo. Lá tem uma turma de dois, Sandra e Paulo. E aí chegou a outra turma, não pra desafiar, até porque seria covardia, sete contra dois. A turma do Gafieiras chegou pra ouvir as aventuras dessa dupla. Pra saber o que eles ouviam no rádio, o que eles vão ser quando crescer, saber dos mundos mágicos que eles visitaram e dos planos mirabolantes que andam tramando.
A conversa foi, como aquela folhinha, ligeiro barquinho no caudaloso rio de enxurrada que desce pelo meio-fio. Todo mundo tirou o sapato, passaporte pra sentar no tapete voador. Tinha até um gato de botas chamado Melodia e um cachorro que posa pra foto, chamado Pépi. E, de repente, a turma era uma só…
Mas toda turma tem seu dia de revés.
A bola de capotão que quica na ponta da lança do portão e solta aquele berro oco e agônico (“Plof!”), bem quando o jogo está empatado. Então… nossa frustração foi mais ou menos essa quando descobrimos que perdemos todas as fotos feitas durante a entrevista com Sandra Peres e Paulo Tatit. Se a gente pudesse, saía voando no sentido contrário à rotação da terra e, como o Super-Homem, fazia o tempo voltar e tirava as fotos de novo. Mas, dessa vez, em vez de usar aquela máquina fotográfica que espirra água, a gente estava usando uma de verdade…
As fotos que ilustram a entrevista foram tiradas despretensiosamente com uma câmera digital; as outras imagens são fotos de frames da captação em vídeo. Pedimos desculpas aos leitores pela falha. Mas, vai, quem nunca caiu de bunda no chão depois de a perna perfazer aquele arco perfeito no vazio, enquanto a bola passava manhosa por baixo do pé? E, ainda no chão, só se ouviam as gargalhadas…
por MAX ELUARD
01. “Eu e o Hélio fazíamos trilha de rádio-novela e de dança“
02. “Pô, poderíamos fazer um disco infantil!“
03. “Tem pouquíssimas canções de ninar no Brasil“
04. “Era muito comum dizer “isso é música de criança!”“
05. “A gente coloca no show algo que vai mobilizar as crianças“
06. “Pensam que a gente é casado e que não precisa de grana“
07. “Prefiro não cantar nos trabalhos publicitários“
08. “Queremos mostrar o que tem de lúdico e de riqueza no palco“
09. “O primeiro show era uma coisa bem mariquinha!“
10. “A gente tem essa preocupação com a impecabilidade“
11. “Afinal, o que é música legal pra criança?“
12. “Não agüento mais ouvir música folclórica!“
13. “Com o Canções do Brasil, a Palavra Cantada quase acabou“
14. “Tive o prazer de ver o Roberto cantando “A volta dos Vips”“
15. “Meu pai ouvia Carlos Gardel“
16. “Eu queria ter sido bailarina, não pianista“
17. “Eu ouvia Bee Gees, Queen e Supertramp. E Yes!“
18. “Rick Wakeman era a coisa mais sensacional!“
19. “Palavra Cantada era uma expressão usávamos no Rumo“
20. “Tenho vontade de fazer um disco meu“
21. “Faço dança clássica indiana há 13 anos“
22. “Seu pai namora a Vermelha?“
23. “Luis Pescetti é um cara sensacional!“
24. “Cara, hoje em dia os adultos poupam muito as crianças!“
25. “As crianças gostam de repetir as coisas do mundo delas“
26. “O melhor seria produzir um disco em Portugal“
27. “A música “Vovô”, do Paulo, fala de morte, né?“
_ Playlist
Gafieiras — Quando vocês realmente se conheceram? Vocês têm o registro da primeira vez que se viram?
Sandra Peres — A gente é sócio há 16 anos, mas fazíamos aula na escola do Ricardo Brein, no Espaço Musical. Eu morava muito longe, em Santo Amaro, e o Paulo morava aqui. Claro que ele chegava antes. Eu não conseguia. E sempre ao lado da cadeira dele havia uma vazia. Sempre ficava vazia.
Paulo Tatit — [cantando] “Sua cadeira está vazia”.
Sandra Peres — E aí, depois de um tempo, comecei a escrever no caderno dele. Havia um desenho… Eu escrevia: “Oi, sócio, tudo bem?” e botava um desenho. E deu no que deu, né? Como posso dizer?
Gafieiras — E qual foi a proposta da união? Quando vocês pensaram em sociedade, havia algum perfil de produção, de se atuar em alguma área específica, ou o que vier a gente traça?
Sandra Peres — Eu tinha 25 anos de idade.
Paulo Tatit — É, a Sandra tinha 25 anos, e eu já tinha experiência com o Grupo Rumo e estava trabalhando com o Hélio Ziskind em produções, as mais variadas possíveis — como trilha de rádio-novela e de dança. E o meu trabalho com o Hélio foi ficando muito pesado. Aí a gente começou a virar noite no estúdio e precisou de um outro estúdio pra fazer o trabalho… A Sandra tinha uns equipamentos parecidos com os que eu usava com o Hélio, que eram seqüenciadores, aparelhos MIDI e sintetizadores. Na época não havia computador; eram seqüenciadores. Vi que ela tinha isso e, como precisávamos terminar uns trabalhos, a gente começou a trabalhar junto. Então, foi um acúmulo de trabalho com o Hélio que me fez procurar um outro meio para fazer os trabalhos que tínhamos, entendeu?
Gafieiras — Com o Hélio não era sociedade, então. Era uma parceria?
Paulo Tatit — Era uma parceria. Não havia nada no papel. Com a Sandra também ficou sendo uma parceria e somente depois a gente fez sociedade.
Gafieiras — E houve uma mudança no foco de trabalho de vocês, ou melhor, do atendimento da demanda do mercado a realização de um trabalho pessoal?
Sandra Peres — A gente atendia o mercado.
Gafieiras — Essa transição foi tranquila?
Sandra Peres — A gente atendeu o mercado de 89 a 94 especificamente, fazendo trilhas e o que pedissem. Depois de 94 a gente teve a idéia de criar o Palavra Cantada, mas mesmo assim a gente continuou a fazer algumas trilhas, mas com o sucesso do Canções de Ninar, que foi nosso primeiro disco, a gente foi cada vez mais querendo somente isso de atividade.
Gafieiras — Mas houve algum evento que despertou isso em vocês?
Sandra Peres — Tiveram umas férias… Na época eu havia conhecido o meu ex-marido que morava em Nova York. Eu ia direto pra lá. Ele é brasileiro, mas eu ia muito, ficava lá com ele, com a família dele. E num fim de ano em que eu fiquei por lá, eu trouxe um disco de canções de ninar com as divas. Cheguei aqui das férias e falei: “Olha, eu vi isso aqui pra vender numa loja de crianças”. E aí o Paulo veio com uma outra história, né?
Paulo Tatit — É. Eu também havia saído de férias e encontrei com o meu amigo Pedro Mourão, com quem, no Rumo, havia produzido o disco infantil Quero passear. Praticamente eu e o Pedro levamos esse projeto pra frente. Tínhamos uma visão de música infantil, uma visão crítica sobre ela. O filho do Pedro estava escutando um disco enjoadíssimo de cantigas de roda brasileiras, mas enjoado, aquela criançada gritando com aquela programação de teclado e bateria de teclado. Sabe bateria de teclado? Aí você vê que o cara entrou no estúdio e chamou as crianças uma atrás das outras.
Sandra Peres — Detonou a música infantil.
Paulo Tatit — Detonou as músicas legais. E a gente comentava: “Que saco é isso, né?”, e as crianças gostando daquilo. Criança repete muito! Encheu! A gente lá, de férias, e aquele tipo de arranjo, aquele tipo de tratamento B pra música infantil… E daí, bom, acabaram as férias, e a gente se encontrou. Chamou muita a atenção esse lance que a Sandra trouxe, o negócio americano super bem-feito para criança, um disco super bem-produzido, aquele monte de gente trabalhando, um disco rico pra criança. E isso em contraste com aquela coisa que eu ouvi nas férias com o Pedro. “Pô, poderíamos fazer um disco infantil legal!” E Sandra falou: “Pô, então a gente podia fazer um disco com canções de ninar!”. Achei ótimo, porque no Brasil se conhece poucas canções de ninar.
Gafieiras — Você se lembra de algum trabalho brasileiro anterior a esse, mas similar a proposta de canções de ninar?
Paulo Tatit — De canções de ninar eu não me lembro. Eu me lembrava de coisas boas como Os saltimbancos.
Sandra Peres — Mas especificamente de canções de ninar, não.
Paulo Tatit — De ninar, não.
Sandra Peres — Até porque tem pouquíssimas as canções de ninar no Brasil, são pouquíssimas.
Paulo Tatit — Pouquíssimas e tudo de um Brasil agrário, com aqueles temas de mitologia rural: a Cuca, o boi, o tutu-marambá, o murucututu. Essas coisas que havia em canções de ninar. E para uma criança morando em Pinheiros, precisava de uma coisa que modernizasse isso, que falasse do hoje. Tanto que em Canções de ninar você tem músicas que falam do pai que está sozinho com a criança, que é um pai separado; nele você sente a mãe sozinha em conflito com a criança, que vai ter o nenê. No Canções de ninar você sente as pequenas angústias do homem moderno.
Gafieiras — Então havia essa preocupação de se atualizar o repertório.
Paulo Tatit — É, havia.
Sandra Peres — Ah, sim. As canções são inéditas.
“O pessoal do Rio perdeu a empolgação do Carnaval. E quando você perde a empolgação, você não faz nada.”
Gafieiras — Paulo, você falou que havia uma postura crítica em relação aos discos infantis daquela época, um olhar crítico ao que se produzia. Qual era essa postura crítica?
Paulo Tatit — Musicalmente, né, porque no Grupo Rumo a gente sempre elaborou muito os arranjos, sempre havia alguma idéia pra se dizer musicalmente. E para tudo o que era pasteurizado, não somente de música infantil, como da música em geral, tínhamos uma crítica. Música pop, música comercial, música que é feita pra vender rápido. Então era natural a gente fazer uma crítica. Como já tínhamos passado por essa experiência de música infantil, tínhamos visitado um pouco esse universo, né? Só que eu acho que com a Palavra Cantada a gente foi percebendo melhor uma coisa que pega mais a criança, na veia da criança, além do adulto, né?
Gafieiras — Mas, em que momento você começou a perceber isso?
Paulo Tatit — Acho que no Canções de brincar, porque o Canções de ninar, o primeiro, ainda havia um vínculo entre o adulto e a criança, é um disco em que um adulto sempre canta pra uma criança. Canções de brincar já é uma coisa que você já fala de criança pra criança. Ela pode colocar aquele disco e já aprender sozinha, usar aquela música… É mais lúdico! O Canções de ninar é mais poético. O Canções de brincar tem uma coisa lúdica com a melodia e com as palavras. Por exemplo: “Quem é esse menino? / Esse menino é o meu vizinho / Onde ele mora? / Ele mora naquela casa”. Essa brincadeira de seqüência, que também pega a criança. E alguma coisa de humor, como: “Hoje eu sinto que cresci bastante / Hoje eu sinto que sou grande / Sinto mesmo que sou um gigante do tamanho de um elefante”. Aí você também pega, né?
Gafieiras — Você acha que pega mais pela letra?
Sandra Peres /Paulo Tatit — Não, a melodia vem junto…
Sandra Peres — A melodia é mais difícil de você pegar. Na parte do “Aniversário” que eu cantei, a melodia é mais emotiva para o dia do aniversário, dia em que a criança está mais emotiva, né?
Gafieiras — Eu sinto isso até hoje.
Sandra Peres — Acho que o aniversário é uma data pra criança, o tema também é importante. Sobre o tema do aniversário você vai pensar somente pra fazer um CD pra criança, uma música infantil.
Gafieiras — E o tecladinho, a guitarrinha sintetizada, o que pega a criança que ela pede tanto para repetir a fita?
Sandra Peres — A criança não classifica, ela não tem esse poder de saber o que é legal e o que não é.
Gafieiras — A letra também tem essa…
Paulo Tatit — Não, a letra, sim. Foram até as mesmas músicas que gravamos depois no Cantigas de roda, como “A canoa virou”, “Sapo Jururu”, “Pombinha branca”, essas músicas folclóricas, ou melhor, que restaram do folclore. De tudo que existia, sei lá, existem somente músicas folclóricas das quais vinte são muito legais. O que bate dessas músicas é a melodia, o fio melódico.
Sandra Peres — E as brincadeiras.
Paulo Tatit — …E pros adultos é exatamente a interpretação e o arranjo daquilo lá, mas pra criança pega. “Pai Francisco entrou na roda? Comandando um batalhão…”
Gafieiras — Esse é o barato dele.
Paulo Tatit — Essas músicas já sofreram uma triagem que, independentemente do jeito que você cantar, elas vão pegar. O problema é o adulto, que tem um outro ouvido musical. Na época era muito comum esse negócio de “isso é música de criança!”. Aí entram toda a obra da Xuxa e da Angélica, que é composta de música de criança. O cara fecha a porta e deixa a criança no quarto, porque é ela quem gosta. Você não acompanha isso com a criança. E o que é legal no trabalho do Palavra Cantada desde o Canções de ninar é que a gente quer que o adulto curta aquilo junto com a criança, como um adulto que vai assistir ao filme do Pinóquio, como vai assistir à Era do gelo, vai assistir Schrek, entendeu? Algo que faça esse vínculo, que privilegie essa relação gostosa com a criança.
Sandra Peres — E o que faz isso, que detona isso, não é que a gente faz música pro adulto querer ouvir com a criança. A gente faz uma música que a gente gosta de ouvir e como a gente é adulto e fica envolvido, naturalmente os outros adultos vão gostar. Não há uma coisa que: “A gente vai fazer isso porque o adulto vai gostar”. É o que a gente vai gostar. Não temos uma coisa, por exemplo, de fazer uma música e mostrar para algumas crianças verem se a música está legal. Nunca fizemos isso, nunca!
Gafieiras — Mas como funciona em um show? Existe a expectativa de que uma música que é apresentada pela primeira vez ao público infantil não surta efeito?
Paulo Tatit — A gente somente coloca no show algo que a gente sabe que vai mobilizar as crianças.
Gafieiras — As músicas novas?
Sandra Peres — Sim, sim, músicas novas.
Gafieiras — Mas como vocês sabem que uma música nova vai funcionar?
Sandra Peres — Por causa da forma como está montado o roteiro do show, do ritmo que ele tem, em que lugar essa música entra, porque ela não fica isolada, e sim dentro de uma família. Aí: “Poxa, essa música não fica legal porque já tem duas lentas próximas”.
Paulo Tatit — A gente faz um repertório de show para teatro fechado e um outro para o ar livre. E também a gente muda um pouco o repertório dependendo da praça onde a gente está. Se a gente está em São Paulo, você arrisca fazer umas músicas lentas, se a gente vai pra Fortaleza, tira todas aquelas músicas e coloca as músicas mais antigas do repertório que a gente já não apresenta mais em São Paulo. Músicas como “Ciranda”, “Aniversário” e “Pomar”. Lá em Fortaleza, a gente ainda põe “Pomba”, “Aniversário”…
Sandra Peres — Porque eles não conhecem essas músicas.
Paulo Tatit — Para essas praças a gente já sabe a resposta, já sabe que funcionou anteriormente, à primeira vista.
Gafieiras — Vocês não têm um ouvinte ideal?
Paulo Tatit — Mais ou menos. O ouvinte ideal é de seis a dez anos de idade, menos que seis eu acho que não é o ideal, porque ele cansa. Em um show de 50 minutos ele cansa. A criança vai, vai, vai e, de repente, dorme.
Sandra Peres — Eu pensei que você tivesse perguntando do ouvinte ideal, segundo a classe social. Hoje, por causa da TV Cultura, a gente pode ir para qualquer lugar de São Paulo, como fomos em todos os lugares de São Paulo, como com os shows que a gente fez nos CEUs. As crianças cantaram as músicas, na Vila Curuçá, no CEU Veredas, no São Carlos, que é lá no extremo sul…
Gafieiras — Esse público já conhecia as músicas?
Paulo Tatit — Via TV Cultura e, às vezes, via Prefeitura, porque, no comecinho do governo da Marta, foram dados os CDs da gente para todas as escolas. Foram distribuídos em todas as escolas, creches e escolinhas de primeiro grau de São Paulo…
Gafieiras — Vocês sabem a quantidade de CDs distribuídos?
Paulo Tatit — Mais ou menos esse quarto. [n.e. O cômodo do escritório da Palavra Cantada em que a entrevista estava sendo realizada] Era um volume de CDs muito grande que ficou estocado aqui. Era uma coisa de 400 unidades de cada. Era bastante! Daí ficamos muito conhecidos.
Gafieiras — Há um mercado de música infantil consistente ou se depende muito de ações do poder público como essa da Prefeitura de São Paulo?
Paulo Tatit — Existe um mercado que se sustenta. Esse mercado existe, mas a gente precisa saber onde ele está e como explorar. A gente é tímido nisso.
Sandra Peres — Tímido e com pouco dinheiro.
Paulo Tatit — Digamos que se a gente arriscasse colocar um anúncio no rádio ou numa revista de grande circulação, gastaríamos 20 mil reais e recuperaríamos em um mês, mas a gente não tem bala. A gente age naquele limite do músico independente que é um pouco mais do que os outros músicos independentes por causa do nosso mercado que é maior. A gente não tem grandes vôos, porque falta um parceiro entre nós que não seja músico, e sim que seja da área comercial, que faça umas ações mais ousadas. “Vamos fazer essas ações aqui: vamos botar um anúncio na Rede Globo e para isso temos que ter não sei quantos CDs no estoque…”. E assim ter aquele retorno, mas não existe essa pessoa.
Sandra Peres — Agora tem uma coisa muito engraçada que a gente observa cada vez mais. Todo mundo acha que a gente tem tudo, acha que a gente tem grana. Agora nós estamos com cinco funcionários: a Teresa, a Mônica, a Bete, o Carlos e o Jorge. Desses, apenas dois são registrados, os outros recebem por contrato. Até esses dias a gente estava sendo chamado pra fazer algumas coisas para publicidade. Fazia tempo que não nos chamavam — como autores da Palavra Cantada. Isso já aconteceu em alguns momentos e esse mês calhou de ter duas convocações. E um dos primeiros que ligou, falou: “Olha, você desculpe se foi uma bobagem eu ter ligado”. Eu falei: “Bobagem é não ter serviço!”. Eu falei pra essa pessoa: “Você pode ligar pra qualquer artista que você está vendo aí, tirando aquele time A de música popular. Você pode ligar pra qualquer um que ele vai topar”. As pessoas acham que a gente tem tudo, acham que a gente trabalha num pátio que tem um monte de crianças brincando. Isso eu já ouvi muitas e muitas vezes.
Gafieiras — Eu não estava pensando no pátio, mas pensei numa casa, num sobrado.
Sandra Peres — É, uma casinha… Primeiro pensam que a gente é casado, que a gente tem um pátio e que não precisa de grana.
Gafieiras — Que vocês passam o dia inteiro tocando e as crianças correndo no quintal.
Sandra Peres — É, a cigarra e a formiga. O pessoal cantando, a gente fazendo sanduíches… [risos] É impressionante, mas as pessoas acham…
Gafieiras — Como você acha que essa imagem de vocês foi construída?
Sandra Peres — A partir do sucesso… Se você tem fama, você é bem-sucedido. Você de fato é bem-sucedido se você está na mídia, mas uma coisa não quer dizer a outra. Quantas pessoas que trabalham na Globo, atores aí, que eu sei que não ganham bem, que estão no começo da carreira, mas já são galãs… A gente tem um êxito artístico. Ainda hoje falei para a menina da agência… Fui lá e fiquei impressionada. Primeiro porque nunca vi um lugar tão absurdo, tão luxuoso, tão rico! Eu nunca havia visto um lugar assim, nem em produtoras que a gente conhece, de gente famosa. Era uma fábrica, um negócio absurdo, tudo de vidro. Você vai lá, Paulo, e você vai ver. Aí, entrei. E começou a descer um monte de gente que queria tirar foto e que pedia autógrafos para os filhos. E essa moça, que foi uma das que me ligou, falou: “Olha, desculpa eu ligar”. Falei? Imagina! Acho bom! ”. Então havia a coisa de eu estar lá, Palavra Cantada. Eles não têm noção. Ainda liguei e falei: “Já que o nosso êxito artístico é muito bom, mas a gente não tem aqui muita gente pra ajudar, será que você podia pedir pra alguém da sua fábrica buscar aqui um CD. Eu queria que o diretor de criação conhecesse. Estou curiosa pra pegar algumas músicas de referência pra esse trabalho”. Ela deu risada, e prontamente chegou alguém, muito rápido. O lugar é uma loucura! Há uma redoma, tem uma sala de vidro…
Paulo Tatit — Eu vejo assim o momento da Palavra Cantada… Pelo número de shows que se marca e desmarca… É muito gozado, a nossa agenda varia muito. Você tem uma excursão para fazer no Nordeste e, de repente, tudo aquilo se transforma num show só. Aí de repente pinta uma temporada em São Paulo, setembro, sábado e domingo, daí começa a fazer conta, e sai fora. Tá nesse ponto.
Sandra Peres — Está meio frustrante…
Paulo Tatit — A gente fez o show no DirecTV, em que eu mesmo fiquei com medo de fazer. Medo porque lá tem 1200 lugares. E a gente fez e demos um salto. No ano passado a gente fez um dia no DirecTV e nesse ano a gente fez dois dias. E lotamos e ainda temos um em dezembro, porque eles querem um repeteco. Já tínhamos um negócio legal de lotar os SESCs e, agora, lotamos uma casa de espetáculos (DirecTV) que quem lota é quem está na mídia, gente que tem uma gravadora por trás, que tem mais infraestrutura por trás. A gente não tem. Estamos lá feito músicos independentes.
Sandra Peres — Dependendo de tudo, como diz o Lenine.
Gafieiras — Músicos independentes dependentes.
Sandra Peres — Esse é o nosso momento. Não temos uma multinacional que banca a gente. A gente tem a gente mesmo. A gente não tem ainda alguém que nos empresarie, como também não tem patrocínio.
Gafieiras — Vocês têm essa busca?
Sandra Peres — Sim.
Paulo Tatit — Essa busca não é muito sistemática.
Sandra Peres — Esse ano, patrocinador?
Paulo Tatit — Não, patrocinadores. A gente fica fazendo projetos, mas algo como um empresário, como um vendedor de show é uma coisa difícil de aparecer. É o tipo da coisa que deviam oferecer. A gente fala com um, com outro, mas…
Sandra Peres — Essa moça da agência tinha um certo pudor.
Gafieiras — Como se fosse crime um artista ganhar dinheiro…
Sandra Peres — Não é nem isso. É como se eles tivessem que ter cautela pra pedir pra uma pessoa conhecida fazer propaganda.
Gafieiras — Vocês já tiveram momentos de crise, de dúvida com o envolvimento com o trabalho publicitário. Algo como se alguém chegasse e “Olha, vocês não querem fazer um jingle?”, e vocês “Não, agora a estamos com um trabalho e não queremos misturar”?
Sandra Peres — A única crise que a gente viveu com a publicidade foi quando uma empresa pediu pra gente fazer um tema de um personagem. E fomos aprovando em conjunto esse tema, que era de um personagem importante. Aí quando foi pra pessoa que aprovaria mesmo, a gente entendeu que ela assistiu o Faustão, no mau sentido…
Paulo Tatit — Não, ele assistiu a Xuxa mesmo.
Sandra Peres — Uma pessoa que não tinha discernimento… Então foi reprovado tudo o que a gente havia feito. Foi devolvido tudo, porque ela queria uma coisa mais alegrinha, né?
Paulo Tatit — Era pro Seninha. E o parâmetro só podia ser a Xuxa. Ela não foi namorada do Seninha? Só podia ser isso. A gente é quem viajou. Mas fomos contratados por pessoas que também estavam viajando, achando que iam poder…
Gafieiras — Mas como vocês filtram esse processo?
Sandra Peres — A gente já sabe, já percebe.
Paulo Tatit — A gente não tem tanta oferta. Não passamos por esse problema até hoje.
Sandra Peres — Até eu atendi esses dois que entraram esse mês. Sei lá quanto tempo que não aparecia uma oportunidade; uns dois, três anos. Fizemos um para o Ministério, com o ministro, um comercial de trabalho infantil. A primeira coisa que eu pergunto é se estão chamando a gente como autor. “Vocês querem a Palavra Cantada?” Porque se não é isso, você já filtra por aí. Porque se não é isso, você já sente que eles estão querendo um fornecedor. Aí vai ser um saco fazer. Mas se eles estão chamando a gente por causa da nossa visão, pelo que a gente criou na Palavra Cantada, aí sim.
Gafieiras — Vocês têm uma grande importância para os fãs. Para vincular o nome de vocês a um trabalho publicitário o filtro que avalia se vale ou não a pena tem que ser bem apurado, não?
Sandra Peres — Às vezes não aparece.
Paulo Tatit — Eu prefiro, por exemplo, não cantar. Como também prefiro que a Sandra não cante.
Sandra Peres — Mas nunca aconteceu também.
Paulo Tatit — Mas esse aí que a gente vai fazer, eu preferi não cantar, porque acho que a voz nos identifica muito.
Gafieiras — E de que forma a publicidade pré-Palavra Cantada ajudou a formatar a música de vocês?
Sandra Peres — A publicidade na Palavra Cantada, não.
Gafieiras — Não, o trabalho de vocês com a produção publicitária antes da Palavra.
Paulo Tatit — Esse trabalho de produção que a gente fazia antes da Palavra Cantada era mais instrumental. A gente fazia muita música instrumental.
Sandra Peres — Vídeo, programas.
Paulo Tatit — Fundo, aí com a canção, aí já entra uma outra coisa, já muda a linguagem, e você começa a pensar… O tipo de melodia é diferente, você já pensa em palavras sendo ditas naquela melodia. Pra mim é bem diferente. Eu já tinha toda uma vivência como o grupo Rumo, durante 10 anos fazia canção, mexia com isso. Para Sandra, que não tinha tanto essa vivência de compor uma melodia pensando em canção, sei lá, 50% do que ela desenvolvia cabia numa canção, e algumas coisas não se encaixavam muito bem no formato canção, como foi no começo com o Canções de ninar, com o Canções de brincar.
Gafieiras — E como foi isso?
Sandra Peres — Eu fui aprendendo…
Paulo Tatit — Como ela fazia muito, jogava-se 50% fora, e ainda sobrava bastante.
Sandra Peres — Fui aprendendo com o Paulo, fui aprendendo mesmo…
Paulo Tatit — Com a prática.
Sandra Peres — Aprendendo o que é uma canção, porque estudei música clássica. As minhas composições sempre foram assim, não grandiosamente falando, mas mais cinematográficas. Sempre tinha uma imagem, sempre gostei dessa coisa. Eu sempre faço pensando numa imagem, até num arranjo, até numa coisa para um show. Eu já penso assim: puxa, para essa música eu podia pensar em um arranjo a quatro mãos… Você lembra da professora, daquela coisa, ou pelo menos dos pais, essa coisa de tocar a dois num piano. Eu tenho muita vontade. Penso o tempo inteiro! O que eu faço é pela imagem.
Paulo Tatit — Quando é pra fazer show, penso um pouco na imagem que aquela música vai render. Por exemplo: um instrumento de percussão que venha pra frente, pra tocar um negócio mais perto das crianças, e elas olharem aquele instrumento que é diferente. Aliás, em shows dava pra fazer mais coisas, como um rodízio de gente caso não houvesse o problema de microfonação. Esse monte de fio tira o embalo. A gente procura, mas fica meio tímido e, de repente, vem alguém na frente, põe o microfone, mas não dá para, às vezes, o cara que está tocando vir andado. Você dependeria de ter todos os microfones sem fio, o que é difícil pelo custo.
Sandra Peres — Ou uma saída que a gente ainda não conseguiu seria ter vídeo-cenário, ter câmeras, pessoas que trabalham com câmeras…
Paulo Tatit — Para mostrar…
Sandra Peres — Pra mostrar na tela atrás, mas é uma coisa que a gente não conseguiu ainda. Conseguimos o primeiro patrocínio, da Petrobras, no décimo CD que a gente lançou agora, em abril. Não temos uma retaguarda pra bancar as nossas idéias.
Gafieiras — Vocês não acham que esse recurso seria um artifício?
Paulo Tatit — Não, porque esse recurso que a gente está falando é dar um close no que o músico está tocando, aumentar isso, mostrar o que está acontecendo no palco. Não gostaríamos de passar um clipe, de criar uma imagem, uma história, desenhos animados, teatrinho. Nada disso! Excluímos tudo isso! Ficamos somente com a música. A gente quer mostrar o que tem de lúdico, de riqueza no palco com as pessoas fazendo, cantando. Então, um close mostraria para a criança o cara tocando um reco-reco; ela ouviria o som daquilo. E é muito legal, porque a gente já tem mil respostas disso, de show, que é o encantamento que a criança tem por uma coisa que está de verdade acontecendo.
“O próprio nome, Palavra Cantada, era uma expressão que a gente usava no Rumo!”
Gafieiras — Mas esse processo amadureceu ao longo desses anos. Vocês se lembram como foi o primeiro show?
Paulo Tatit — O primeiro show foi do Canções de ninar.
Sandra Peres — O Paulo não quis fazer.
Paulo Tatit — Eu nem participava porque era uma coisa bem mariquinha! As criancinhas de pijama…
Sandra Peres — A gente tem a fita aí. Aliás, eu estava com vontade de mandar essa fita pra Mônica [n.e. Assessora de imprensa da Palavra Cantada ].
Paulo Tatit — A gente precisava passar pra DVD.
Sandra Peres — A gente tem um repertório imenso de coisas que eu queria passar, mesmo coisas pessoais, de estudo… Mas o primeiro show…
Paulo Tatit — Então, esse primeiro show foi muito engraçado. Foi no SESC Pompeia. E a coisa mais engraçada é que ficava um estacionamento de carrinhos-de-bebê na porta do teatro… Aquele monte de carrinho, uns quarenta… [risos]
Sandra Peres — E agora no DirecTV houve uma reclamação que era um absurdo aquele lugar não ter um lugar pra estacionar carrinho-de-bebê. A reclamação chegou por e-mail.
Paulo Tatit — É que os pais vão muito cedo com a criança para o teatro. Vão com crianças de colo.
Sandra Peres — E lá no DirecTV você não tem lugar pra se mexer. É mesa, cadeira… Eu já falei pro cara…
Paulo Tatit — E esse show do Canções de ninar havia um clone meu, que era o Bruno, que cantava. A Sandra participava, a Mônica Salmaso participava também, e as minhas sobrinhas e a minha filha, que eram pequenininhas, cantavam e faziam ceninhas. Era um chororô! O que tinha de mãe chorando.
Sandra Peres — Nossa, eu entrava uma hora de grávida, assim…
Paulo Tatit — E cantava “Será”, né?
Sandra Peres — [canta] ”Será que eu canto bem pra você? / O que será que tu ouves de mim? / Será que eu adormeço você ou será que és um sonho pra mim?” E aí pronto…
Paulo Tatit — Aí entravam as crianças de anjinho, não-sei-o-quê, com pijaminha… Aquelas figurinhas de pijaminha.
Gafieiras — E como foi o seu primeiro show, Paulo?
Paulo Tatit — Eu comecei a participar quando a gente começou a fazer show com as músicas do Canções curiosas.
Sandra Peres — Aí depois de um tempo a gente chamou o Gustavo Kurlat para nos dirigir. Isso já uns cinco anos.
Paulo Tatit — Ah, é. O primeiro que ele dirigiu foi o Canções do Brasil.
Sandra Peres — E realmente tudo mudou.
Gafieiras — O que mudou?
Sandra Peres — O Gustavo me ajuda a sentir melhor, porque o maior problema, acho que de qualquer artista, é que quando você está na frente de outras pessoas e cria artifícios pra mostrar os seus sentimentos e que não dizem respeito ao que você é. Então, você sempre externaliza uma coisa que não é você. E fica artificial, fica bobo. E ele criou uma consciência pra mim, que era eu fazer o que eu sou, ser o que eu sou, porque sendo o que eu sou, seria bom, seria legal. E a primeira coisa que a gente tende a fazer quando sobe no palco é inventar uma coisa pra ficar mais bonito.
Paulo Tatit — Sabe o que eu acho? Nesse mundo infantil de show é muito comum você cair numa bobice, sabe? Os palhacinhos berrando: “Criançada! Vamos fazer isso! Batam palma!”. Cria-se um mundo bobo, abobalhado, que a gente nunca fez e que nunca fez falta. Sempre tivemos a maior empatia com a platéia sem precisar gritar, sem precisar fazer micagens. A não ser quando você está se divertindo, quando você está fazendo uma coisa que de fato é engraçada pra todo mundo, e que pintou daquele jeito. Agora, você criar um personagenzinho abobalhado? Isso super comum nesse mundo infantil…
Sandra Peres — Só tem isso.
Paulo Tatit — E cai numa coisa boba. É legal você ter um diretor de fora para, inclusive, mostrar pra você como está sua cara. Não nesse sentido de mostrar uma coisa estereotipada, que a gente não faria isso, mas, às vezes, você está com a cara muito séria. Eu, por exemplo, tenho a mania de ficar ouvindo a banda. Às vezes fico com a cara de quem está ouvindo aquilo como se estivesse numa mixagem, prestando atenção. Eu tenho que ter esse treino de me ligar do que passando ali na hora, não ficar vendo. Uma coisa muito comum também é quando dá uma coisa errada no palco, uma coisinha errada, e o artista mostra que está errado para toda a platéia. “Mas, espera aí, eu preciso de mais retorno de voz senão não consigo fazer!” A Sandra adora fazer isso.
Sandra Peres — Explico porque vão gostar de mim “Poxa, se eu pedir isso, o público vai gostar menos de mim. Mas se eu explicar porque estou pedindo isso, a platéia vai continuar gostando de mim.” Sempre isso está por trás. É infernal.
Paulo Tatit — O diretor fala aquelas coisas óbvias: “Ninguém está vendo isso aí. Ninguém está ligando pra isso, ninguém está olhando pra isso. Somente você está preocupado com isso!” O cara fica o tempo todo observando isso e até mostrando momentos em que é legal a gente se relacionar, porque às vezes fica muito cada um na sua. E definimos alguns conteúdos que queríamos passar para a platéia e ver se aquilo está chegando mesmo a ela. Por exemplo, mostrar o conteúdo de tocar, que todo mundo está junto tocando e que aquilo é um prazer… Mostrar que tem uma relação minha com a Sandra, às vezes, está até na letra da música. Às vezes fala de você, e um joga a bola pro outro. Então cria-se uma movimentação no palco, quando que se entra, a ordem das músicas… Hoje em dia, quando a platéia vê um show da Palavra Cantada, sente um fluxo legal do show. Eu mesmo é difícil sentir um show. Só vejo esse fluxo a partir de um certo nível de artista de MPB, mas somente no pessoal mais top.
Sandra Peres — A gente tem essa preocupação do top mesmo, que é da impecabilidade. E se você está fazendo uma coisa pra criança, você tem que fazer o melhor possível. Agora, uma coisa que eu realmente não entendo, que vi agora em Passo Fundo e que tem a ver com o que o Paulo falou sobre animação, como uma criança, por causa da televisão, aprendeu que pra ela mostrar que está gostando tem que ter um estímulo muito forte. E eu fiquei impressionada, porque tinha lá em Passo Fundo não-sei-quantas, umas quatro mil crianças. Era uma coisa mega!
Paulo Tatit — Mais de duas mil.
Sandra Peres — Parece que ali cabia mais de seis mil pessoas, e devia ter mais de três mil crianças. Elas não conheciam as músicas… Quando eu falava “Ó, gente…” aí, elas podiam responder, porque eu estava perguntando, porque eu estava excitando de alguma maneira, mas não havia comunicação espontânea.
Paulo Tatit — Antes da gente se apresentou um cara que só ficava moldando e as crianças ficavam excitadas.
Sandra Peres — Eu comprovei isso numa outra ocasião quando assisti um show, e que não tem ali uma resposta, mas quando uma pessoa fala daquele jeito, ela acende aquela luz e as crianças respondem, porque elas conhecem aquele tipo de estímulo e sabem que devem responder daquele jeito. Vou dar um exemplo que elucida isso perfeitamente. Quando a gente começa o show, a gente faz a primeira música e fala “Boa tarde”. Ponto final. As outras pessoas, não. Digo, esses histéricos, mas não esses extrovertidos que o Paulo falava. Existe o histérico e o extrovertido!
Gafieiras — Qual o menos nocivo, o histérico ou o extrovertido?
Sandra Peres — O extrovertido, porque o histérico realmente não está sentindo o que está fazendo. Ele está precisando gerar uma coisa de fora pra dentro. O mais extrovertido talvez brinque um pouco demais, passe um pouco da medida, não sabe muito bem o que está fazendo, mas está tentando fazer ali o melhor. O histérico, não, só pega o negócio de imagem, que ele copia de algum lugar pra conquistar alguma coisa. Uma outra pessoa no nosso lugar não fala “Boa tarde”, fala “Boa Tardeee!”. É isso que as crianças querem ouvir. Porque isso é o sinal de comando, da forma como aprenderam a responder. Mas a gente fala “Boa tarde!”. Agora, se você fala desse jeito, como se fosse um sinal de comando, você tem a resposta imediata.
Gafieiras — Mas isso já vem, que eu me lembre, desde de sala de aula, do primário, quando a professora entra e todo mundo falar junto “Boa tardeee!”…
Sandra Peres — Mas agora você tem a coisa do show, da televisão, do videoclipe, das apresentadoras, da histeria. Na nossa época não havia isso.
Paulo Tatit — É o tom da coisa.
Sandra Peres — É como você começa… A gente prefere começar aqui, escolhendo que a primeira música seja “Pé com Pé”, aí vai começar aqui, ou, em alguns casos, começar com “Sopa”… E, eu, hoje em dia, faço muita confusão na minha cabeça, afinal o que é música legal pra criança? Porque a gente faz uma música que a gente considera legal, mas vejo coisas que são bem feitas, são bem intencionadas e as crianças não conseguem acompanhar, porque não conhecem muito bem aquela música, elas não estão envolvidas. Às vezes até o tema é um pouco prolixo, mas quando termina, é tanta coisa que tem ali, tantas fantasias, muita coisa até de bom gosto, que eu te juro, eu não sei mais o que é… e todo mundo fica contente, mas ninguém não cantou uma palavra junto com pessoa, e sim conversou pra cacete com a pessoa do lado.
Gafieiras — Bom, mas a música também a gente ouve conversando e gosta. E, às vezes, você ouve pra dentro de você, não?
Sandra Peres — Não, eu assisti recentemente um espetáculo que me fez perceber isso. Na primeira não havia isso. Na segunda, na quarta música não havia. Na sétima… Nenhuma música tinha. Não tinha isso que você está dizendo que, às vezes, a pessoa está ouvindo pra dentro dela. Oito músicas? Oito músicas você não ouve pra dentro de você. Você não conhece, mas você está encantado com aquela beleza.
Gafieiras — Mas vocês acompanham essa produção pra criança? De que forma?
Paulo Tatit — Alguma coisa, porque chegam muito CDs aqui. Eu tenho um panorama do que tem de música no Brasil, porque acabo ouvindo e a pessoa pede uma opinião. E você dá uma opinião e tal. Eu, particularmente, estou cheio de música folclórica, não agüento mais ouvir música folclórica! Todo mundo grava música folclórica! Estou achando cada vez mais chata.
Sandra Peres — Mas como as pessoas deixam as músicas acabam ficando muito chatas.
Gafieiras — Mas por essa necessidade de falar para as crianças da cidade de uma nova mitologia infantil…
Paulo Tatit — Eu acho. Descobriu-se agora que o Brasil é um tema a ser explorado, que a gente também descobriu isso em 1997 quando começamos começou a fazer o Canções do Brasil. E agora foi indo, foi indo, o Brasil passou a ser um tema e daí que a primeira coisa que a pessoa pensa pra trabalhar são as músicas folclóricas. Antigamente, a pessoa de musicalização também já tinha o modelo do mestre Kodaly, o modelo do Bartok, o modelo de quem teorizou sobre formação musical no Brasil, que aproveitava as coisas folclóricas do seu povo pra ensinar música. Pra mim são muitos CDs com esse mesmo tema, com essas mesmas músicas. Há 50 músicas, umas insuportáveis, outras assim… O que tem de tratados musicais que põem a música folclórica, eu não sei, acho que pra mim isso já encheu. A gente que fez o Canções do Brasil que não tem nada de folclórico; a gente fugiu disso. Canções do Brasil é um disco que vai atrás de uma música que mantém uma raiz do lugar, mas não é música folclórica, de preferência atualizada. Teve alguns lugares em que a gente não conseguiu e acabamos gravando uma coisa bem folclórica que foi em Piauí, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul e no Paraná. No sul é mais paradinho em matéria de cultura popular. No Nordeste a coisa é muito mais energética, os maracatus são novos, os bumbas-meu-boi são novos, os congos são novos, tem muito mais dinâmica, os arranjos vão mudando. A Bahia é uma puta loucura de mudança, de profusão. Então, a gente com o Canções do Brasil foi atrás de uma coisa de preferência não folclórica, que houvesse um vínculo com a raiz. Aí a gente sentiu, depois de feito o trabalho, que a gente mudou muito o nosso trabalho infantil, porque a gente vinha numa linha Canções de ninar,Canções de brincar, Canções curiosas, tem uma música lá que foge um pouco que é o “Fome come”, é como que fosse uma música do Pé com pé, porque é um negócio que abandona um pouco esse lirismo ligado à infância, à delicadeza, abandona um pouco essa idéia e parte para uma idéia de energia musical. Foi isso que ficou doCanções do Brasil. Vimos muita criança cantando com energia e tocando com energia. Então, quando a gente foi fazer o Pé com pé, a gente já havia tido esse contato com as crianças e já viu do que elas gostam, que é um negócio mais ligado a bater o tambor, a cantar pra fora… É uma coisa que anda sozinha, que anda fácil com as crianças. Se um cara resolve fazer um trabalho com crianças e começa nessa linha “energia de tocar tambor, percussão e cantar pra fora”, o trabalho vai embora, vai, vai e as crianças ficam com o repertório enorme. Mas o que a gente tem mais aqui no Sul e na classe média, na classe dominante, é uma coisa de tentar cantar bem dentro de um coral, dentro de uma coisa, um cantozinho lendo letra, umas músicas caretas, esses negócios do folclore, a coisa careta, parada no tempo. E o que a gente viu, não, o que a gente gravou foram crianças tocando completamente à vontade, dominando o instrumento. Tudo o que a gente gravou no Nordeste, Centro-Oeste, Rio de Janeiro, e aqui em São Paulo também, tudo era dominando, debulhando a linguagem. Moleque que canta rap aqui em São Paulo, fala de tudo, sabe de tudo do rap, sabe cantar, sabe o quê que é tudo, não tem a menor dificuldade com isso. São linguagens assimiladas, assim como o pessoal todo, né? Então, quando fizemos o Pé com pé estávamos mais sobre esse signo da energia infantil, como uma palavra nova.
Gafieiras — Fiquei curioso pra saber como vocês conduziram isso no estúdio de áudio.
Paulo Tatit — Não, não, foi tudo ao vivo.
Sandra Peres — O importante era não tirar a motivação da criança. Se você tira uma criança que sempre cantou no terreiro, onde quer que seja, com os amigos na rua, e coloca num no estúdio, pronto, acabou. Então a gente gravava sempre onde elas se reuniam. E a gente não tinha DAT, não tinha grana pra, embora faça não muito tempo. A gente não teve patrocínio pra fazer esse disco.
Gafieiras — Eu achei que vocês tinham.
Sandra Peres — Não. Tivemos somente passagens da Varig.
Gafieiras — Foi o mais caro?
Sandra Peres — O projeto custou 450 mil reais, que a gente terminou de pagar no ano passado. Descobrimos que a gente estava falindo durante o Canções do Brasil, que o dinheiro entrava e sumia, né? Que a gente usava, mas não tinha noção. Aí no final pagou tudo, mas a conta é essa, 450 mil reais, que se você me falasse hoje, eu diria “Imagina, não vou fazer esse projeto nunca!?”. Ainda bem que eu não sabia, né?
Paulo Tatit — Mas ao longo de quantos anos, 1998, 99, 2000. Três anos. Esse aqui é o equipamento que a gente usou… Um gravador cassete.
Sandra Peres — Com fita de ferro.
Paulo Tatit — Cassete.
Sandra Peres — O barato era usar a fita de ferro, porque o DAT…
Paulo Tatit — Não, mas a gente não tinha DAT.
Sandra Peres — Sim, eu acabei de explicar pra eles que a gente não tinha o DAT, a gente chegou a emprestar o DAT em alguns momentos.
Paulo Tatit — A gente alugou o DAT.
Sandra Peres — Mas a gente percebeu também que o DAT, quando você estoura, ele frita o estourado, frita a gravação, não tem tolerância. Ele bombardeia.
Paulo Tatit — A distorção dele é horrível. Aí pára tudo.
Sandra Peres — E esse não. Ele tem uma tolerância, ele segura, porque quando você grava um grupo na rua ou onde quer que seja, claro que vai ter um menininho que vai descer o braço lá numa determinada música.
Paulo Tatit — Então, a gente usou esse daqui que é um gravador muito bom, cassete.
Sandra Peres — Um puta gravador.
Paulo Tatit — E foi esse microfone aqui que a gente comprou especialmente para o projeto. É um microfone estéreo da Shure, muito bom também, com várias regulagens, de abertura de estéreo… E a gente fez tudo com isso. Às vezes a gente separava o grupo, uma percussão, aqui, digamos, a uns 4 metros, e os cantores a 1 metro. A gente fazia umas experiências antes… Então, ficávamos com dois canais…
Gafieiras — Ia tudo junto, como se captasse aqui? Não havia modo de como separar a voz?
Sandra Peres — Não.
Paulo Tatit — Não, mas tinha somente esses dois canais estéreos, vazando o som no outro, mas havia alguns ajustes que depois dava pra fazer, né? Tem gravações que foram mágicas… A gravação do Amazonas… Imagine uma música cantada por um menino, com uma vozinha super normal, com uma bateria de, pelo menos, 15 pessoas, uma bateria pesada de 15 pessoas batendo um boi-bumbá lá do Amazonas, de Parintins, e o menino cantando: “Vinte séculos / Há muito tempo atrás / nã, nã, nã”… Uma canção assim, e tudo “qué, tum, tum, tum”.
Sandra Peres — Ele ficou embaixo da mangueira.
Paulo Tatit — A bateria ficou a uns 20 metros da gente. Ele ficou embaixo duma mangueira, numa rua, aí ficou a Sandra no meio…
Sandra Peres — Ah, não, essa do meio é engraçada.
Gafieiras — O que você fazia no meio, Sandra?
Sandra Peres — Eu fazia mímica. [risos]
Paulo Tatit — Ela regia, a mímica do canto.
Sandra Peres — Eu fazia a mímica do que o cara estava cantando pra eles não saírem do beatporque eles não tinham como ouvir de lá.
Paulo Tatit — Os caras não tinham como ouvir o que o moleque estava cantando. [canta] “Vinte séculos/ Há muito tempo atrás.” E a gente fazendo várias tomadas. Uma em que eles ficavam virados, os dois violões e o menino virado pra banda; em outra eles viraram pra mim e a banda pra trás pra aparecer menos.
Sandra Peres — Isso tudo na frente de um posto da FUNAI.
Paulo Tatit — Aí você ouve a gravação e está super boa, super legal.
Gafieiras — E a equipe eram vocês dois?
Sandra Peres — A gente fazia tudo.
Paulo Tatit — Esse foi um outro problema da viagem. A gente ficou com tudo pra fazer. Tinha que entrar em contato, fazer a produção, pegar o nome…
Sandra Peres — Fazia o contrato e a produção, dirigia, tudo, tudo a gente fazia, tirava foto…
Paulo Tatit — Porque não tinha mais passagem.
Gafieiras — Foi um projeto de fé…
Paulo Tatit — Foi totalmente de acreditar. Se pensássemos duas vezes, não faríamos isso.
Sandra Peres — Todo artista faz isso.
Paulo Tatit — Depois disso a Palavra Cantada quase acabou. Ficamos com uma dívida imensa, emprestando dinheiro em banco. Aí veio gente aqui analisar o que tinha acontecido.
Sandra Peres — Onde era o ralo, e o ralo chamava-se Canções do Brasil. A gente levou uns dois anos pra se levantar.
Paulo Tatit — A gente ficou gastando dinheiro. Tudo que a gente tinha gastava, gastava.
Gafieiras — Vocês tinham, antecipadamente, um ponto pra terminar esse projeto?
Sandra Peres — Tínhamos que chegar no 26° estado.
Paulo Tatit — É, quando a gente teve as passagens…
Sandra Peres — Faltam 22! Faltam 13! [risos]
Gafieiras — E como era o universo sonoro da infância de vocês?
Paulo Tatit — Bem, na minha infância a gente tinha uma empregada doméstica que ouvia rádio o dia inteiro e cantava super bem. Acho que foi ela quem musicalizou eu e o meu irmão Luiz [n.e. Luiz Tatit, compositor e professor de Lingüística da USP], que é músico também. Uma pessoa dentro de sua casa cantando com prazer faz com que aquilo vá entrando, assim, né?
Gafieiras – O que ela cantava?
Paulo Tatit — Ela cantava umas coisas de Ângela Maria ou que tocasse no rádio. Daí a gente ouvia o rádio dela. Antigamente havia muita música italiana, música francesa. Meu pai no domingo ouvia música o dia inteiro. Me lembro de ouvir Luiz Gonzaga, mais tarde João Gilberto, Nat King Cole, que eu adorava. Agora, de música infantil me lembro de uma no parque, no jardim de infância, uma ou outra música assim, coisinha bem pouca mesmo. Lá em casa também rolava muita Inezita Barroso, que gostava muito também.
Gafieiras — O que seu pai fazia?
Paulo Tatit — Nessa época ele era advogado.
Gafieiras — Sua mãe?
Paulo Tatit — Minha mãe era dona-de-casa.
Gafieiras — Era você, o Luiz…
Paulo Tatit — Eu, o Luiz, o Zé e depois as meninas, a Ana e a Abigail. Somos em cinco. Mas o que aconteceu? Quando fiz 11 anos, saí do colégio. Havia um menino que tocava violão na rua. Aí eu quis um violão também. Pedi pro meu avô e ele me deu um violão. E, mais tarde, deu um violão para o Luiz. Aí havia essa coisa de tocar na rua. Alguns meninos iam tocando, tudo sem escola, né? Era época da Jovem Guarda. Os mais habilidosos começaram a tocar músicas da Jovem Guarda, que são músicas fáceis. Já havia passado a bossa nova. Pegamos mais a Jovem Guarda. Então, meu percurso foi Jovem Guarda, rock internacional, e a bossa nova chegou depois.
Gafieiras — Quem era a sua referência da Jovem Guarda?
Paulo Tatit — Roberto Carlos, Wanderléa e Erasmo Carlos.
Gafieiras — Não havia um segundo escalão pra você?
Paulo Tatit — Havia também os Vips, Renato e Seus Blue Caps. Havia o segundo escalão das bandas. Agora, eu tive o prazer enorme de ver o Roberto Carlos cantando “A volta dos Vips”. [canta] “Estou guardando o que há de bom em mim.” Fui acordado um dia desses com essa música. Achei maravilhosa a interpretação dele, não sei se é nova, de algum disco novo. Era um caminhão vendendo não-sei-o-que-lá, aliás, convidando todo mundo pra ir à igreja. Foi esses dias na Vila Madalena, a igreja da rua Girassol. Ia ter uma quermesse ou uma coisa assim.
Gafieiras — E como foi a sua infância, Sandra?
Sandra Peres — Eu tenho uma formação musical muito interessante, porque os meus pais não ouviam música, não compravam discos, não ouviam música em casa… E comecei a estudar música clássica com sete anos. Eu ouvia o que eu tocava.
Gafieiras — Mas foram eles quem te colocaram para aprender música?
Sandra Peres — Sim, porque eu queria aprender piano.
Gafieiras — Você quem pediu?
Sandra Peres — Eu não sei se foi, mas eu gostava de tocar piano, não sei até que ponto eu queria. Estudar música clássica pra uma criança é muito difícil. E na minha época então…
Gafieiras — Você nasceu em São Paulo?
Sandra Peres — Nasci. Mas não sei como é que fiz música, entendeu? Porque primeiro que eles exigem que você toque coisas muito difíceis. Muito nova você não tem maturidade pra tocar as coisas que eles pedem. Mas eu lembro que meu pai me ouvia quando eu já era mais moça. Não lembro de música na minha infância. A única que eu me lembro eram dos disquinhos coloridos, que tinha a música da Baratinha, do o Braguinha… Aquilo eu lembro com perfeição, a cor do disco, tudo. E depois lembro que, moça, moça, mais moça mesmo, assim com 16 anos, que meu pai ouvia Carlos Gardel. Lembro de uma música que ele gostava muito, acho que era do Vicente Celestino. O Vicente Celestino cantava em espanhol também?
Gafieiras — Havia o Carlos Galhardo que cantava em espanhol.
Sandra Peres — [canta] “Bonequita linda/ nãnañaña.”
Gafieiras — Não era Nat King Cole cantando em espanhol?
Sandra Peres — Pra mim era Vicente Celestino, porque ele falava muito.
Paulo Tatit — Não é Vicente Celestino.
Sandra Peres — Lembro dessa música. E lembro depois o meu pai ouvindo Sérgio Reis, “Menino da porteira”, que eu nunca gostei.
Paulo Tatit — Eu gostava.
Gafieiras — Você falou a respeito de começar o conservatório muito nova… O que você pensa desse roteiro do conservatório musical, de como começa a olhar a partitura…
Sandra Peres — Acho muito complicado. Eu, por sorte, fui nutrida pela música clássica. Sou muito feliz por ter sido nutrida por esse universo tão maravilhoso.
Gafieiras — Você teve bons mestres?
Sandra Peres — Todos clássicos. Eu tinha ouvido absoluto. Para a minha primeira professora, no meu terceiro, quarto ano de piano, eu pedia “Tia, toca pra mim a música…”. “Claro!”. Eu odiava ler partitura. Então, ela tocava e eu “tum!”, sabia o que era e sacava mais ou menos o que estava na partitura e tocava. Aí passou-se, sei lá, anos, quando ela descobriu que eu não lia, e sim que eu imitava o que ela tocava. Prontamente me disse: “Bom, você não sabe ler, então você vai voltar dois anos”. Esse foi o estímulo! Principalmente na minha época, os professores de música clássica eram um negócio horrível. Eu não sei como estudei música. Quero dizer, você tem tudo pra desistir.
Gafieiras — Traumatiza.
Sandra Peres — É, você fica traumatizado, mas eu gostava de tocar. Eu adorava tocar piano.
Gafieiras — Você tinha piano em casa?
Sandra Peres — Tinha um piano armário. Depois, quando me formei, ganhei esse piano do meu pai. [mostra o piano presente da sala onde a entrevista é realizada] Estudei, me formei em piano, que eram nove anos, depois mais dois anos de uma espécie de pós-graduação, que era pra você estudar para ser acompanhante de orquestra, que era o talvirtuose concertista. E depois fiz faculdade de Música nesse conservatório onde mesmo me desenvolvi. Mas acho música clássica um negócio muito complicado que, ao mesmo tempo em que tem que te dar uma bagagem absurda, tem que saber muito bem como se oferece para uma criança. Você pode ganhar um universo muito amplo, como também pode desistir de fazer música, porque as crianças muito novinhas não estão preparadas aprender essa notação, né? A notação musical. Isso é uma coisa que, em alguns casos, afasta as crianças, principalmente se ela tem uma pessoa, um orientador que não é gentil. Tem uma coisa que existe, por exemplo: outro dia eu estava pensando o que seria se hoje eu fosse dar aula de piano, como eu daria. A primeira coisa que eu faria seria desmontar o piano. Eu nunca ouvi falar de um professor que tenha mostrado como é um piano por dentro, tirar as madeiras do armário, tirar a parte de baixo, fazer a criança entrar ali, ver aquelas cordas. Nunca ninguém fez isso… Pegar o martelinho, ficar um tempão lá tirando um som de dentro do piano, seis meses curtindo o som, né? As pessoas não trabalham o instrumento, não trabalham o instrumento por dentro. Eles querem tirar o som por fora. Aí dei um pouco de aula de piano, dos 17 aos 19. Eu não gostava de dar aula. E aos 18 comecei a tocar pra balé, porque eu queria ter sido bailarina, não pianista.
Gafieiras — Tocava em balé, para os ensaios?
Sandra Peres — Eu tocava para as aulas de balé. Fiquei dos 18 até os 21 anos tocando pra balé. Ai com 20, pra 21, meu pai morreu subitamente de infarto. E as coisas mudaram. Fui pra França e fiquei quase um ano lá tentando me entender, entender a vida e estudando música também. Estudei um pouco de música contemporânea, mas desisti rápido… Fui pra lá para estudar análise de composição contemporânea. E vi que não era isso que eu queria…
Gafieiras — Mas o universo sonoro, aqueles outros sons que marcaram a infância de vocês, não música, vocês se lembram?
Paulo Tatit — Não, mas acho que nada se comparava a força da música. Eu me lembrei… Ela falou dos disquinhos do Braguinha com o Radamés, isso aí eu adorava também! Eu tinha esquecido. A história do Chapeuzinho Vermelho e a Baratinha… Só tínhamos esses dois discos, mas as músicas são demais. Até hoje você pode ouvir, como comprei esses dois discos que foram relançados. É muito legal, muito bem cantado, muito bem harmonizado, bem atual. Naquela época, anos 60, a gente tinha acabado de viver o negócio do Bando da Lua, sabe, que foi nos anos 50.
Sandra Peres — Eu não tinha nascido.
Paulo Tatit — Não, eu também! Aqueles grupos vocais…
Sandra Peres — Mentira, você tinha 10 anos.
Paulo Tatit — Ah, bom, na década de 60, sim. Você via aqueles Bando da Lua, havia muito conjunto vocal com percussão, e tem nessas historinhas esse tipo de coisa, música bem ágil. Aquilo é muito primoroso.
Sandra Peres — Eu acho que eu fui conhecer música popular depois dos 18 anos, senão mais… Quando comecei a escolher a minha música era a música americana.
Leia a crônica do radialista e jornalista santista Osvaldo Moles (1913-1967), considerado o sucessor do escritor Antonio Alcântara Machado e pai artístico de Adoniran Barbosa
Gafieiras — O que era?
Sandra Peres — Ah, eu tive uma prima que recentemente me dei conta de como ela me influenciou. Ela ouvia Beatles, e eu ouvia por causa dela. Nunca tive um disco dos Beatles. E George Harrison também. Lembro que ela gostava daquela música “Give me love”. [n.e. Composição do ex-beatle George Harrison] Lembro que ela gostava e eu gostava também porque ela era mais velha que eu… Depois fui fazendo as minhas escolhas bem massificadas. Bee Gees, Queen, Supertramp, que aliás a gente estava ouvindo agora como referência para um trabalho. Acho eles um absurdo! E Yes, né? Sempre na música americana, música de fora do país.
Paulo Tatit — Podia ser inglesa, mas era chamada de americana.
Gafieiras — Mas o engraçado é que esses conjuntos que você falou, esses específicos, têm uma ligação com essa música imagética que você gosta, produzem imagens… Supertramp, Yes…
Sandra Peres — É. Agora, por quem mais me apaixonei, de músico estrangeiro, que pra mim foi tudo na vida, foi o Rick Wakeman. [risos] Pra mim Rick Wakeman era a coisa mais sensacional, porque ele tinha o cabelo louro, comprido, uma roupa comprida, um monte de teclado em volta dele.
Gafieiras — Aquele disco do Rei Arthur…
Sandra Peres — Viagem ao centro da Terra. Aquilo era maravilhoso!
Paulo Tatit — Cinco esposas de Henrique VIII.
Sandra Peres — Sou capaz de falar, de cantar tudo… Eu lembro até hoje, tudo, como começa Viagem ao centro da Terra. Nossa! Eu tocava! Aí comecei a tocar em churrascaria, clube, não-sei-o-quê, mas isso 17, 18 anos.
Gafieiras — Aqui em São Paulo?
Sandra Peres — Bastante em Santos porque eu ia passar férias lá. Aí arrumava uns biquinhos pra fazer e tocava Supertramp. Os meus amigos dos bailinhos pediam pra tocar “Dreamer”.
Paulo Tatit — Supertramp é antes ou depois do Yes?
Sandra Peres — Supertramp é 72. The crime of the century é de 72.
Paulo Tatit — Ah, então é junto porque o Yes…
Sandra Peres — Fui conhecer The crime of the century em 72, quando eu tinha 9 anos. Nossa, até hoje eu ouço. Depois eu conheci James Taylor por causa de uma vizinha que ouvia muito. Comprei recentemente. É lindo o jeito dele cantar. E o primeiro músico brasileiro por quem eu me apaixonei foi o Egberto Gismonti. Não posso ouvi-lo que, até hoje, acende uma lâmpada na minha cabeça.
Gafieiras — Mas você tem algum sentimento, não sei se de culpa, de ter passado tanto tempo sem essa relação com música brasileira?
Sandra Peres — Não, nunca.
Gafieiras — Mas nem com o Chico e com o Caetano?
Sandra Peres — Os meus pais não ouviam, não sabiam quem eram eles. Fui conhecer com 17, 18 anos, quando comecei a viajar com a minha vizinha para Ubatuba. E aí eles ouviam Caetano e eu achava legal. E depois muito que eu conheço de música popular é por causa do Paulo, que foi quem me apresentou esse universo.
Paulo Tatit — O Rumo foi um grupo que começou em 74, e a gente começou ouvindo muitas músicas, além das músicas do Chico, do Caetano, do Gil e do Milton. E a gente começou a escutar muito os antigos, Noel Rosa, Lamartine, Sinhô, todos aqueles compositores. Aí deu pra fazer uma junção da coisa, desse histórico. Deu pra criar uma visão da música, sabe, você pega a raiz do Chico, por exemplo, e vê o Noel; você pega uma raiz do Gil, você vê o Luiz Gonzaga; do Caetano você, vê o Dorival Caymmi… O Noel Rosa era um cara mais ligado ao samba moderno; o Caymmi um cara mais ligado às coisas da natureza, com aquela sofisticação no violão, que não soa como uma chula baiana, soa como um Dorival Caymmi mesmo. Ele é um pilar, um cara que inventou aquele som de violão e voz, aquelas músicas. Mas é ligado à praia, à natureza e tal. O Noel Rosa, não, um negócio super urbano, de psicologia humana, né? E o Luiz Gonzaga, porra, baião, que é o sertão todo ali, porque aquilo lá, música modal, tem aquela coisa que serviu até hoje. É impressionante o que tem de músico instrumental que toca Luiz Gonzaga, que é o baião. O próprio Egberto Gismonti… Vejo como pilares, como mestres. O Tom Jobim, que é um cara que pegou muita coisa americana, mas misturou com o Dorival Caymmi… O Chico, o Caetano e o Gil já são de uma geração depois de Jobim, pós-bossa nova. Eles já tinham esse negócio da bossa nova, mas também Caymmi, Noel…
Gafieiras — Paulo, como você vê o trabalho do Rumo, que mexeu muito com a palavra, na Palavra Cantada? Você pega o “Quero passear” e ali está muito nítida a força que cada um poderia tomar na música para crianças — como você e o Hélio.
Paulo Tatit — Mas quando você pega uma música da Palavra Cantada como “Fome come”, que fizemos juntos, poderia ser uma música do Rumo. “Criança não trabalha”, que é uma melodia minha também, tem várias coisinhas que identifico como uma influência forte do trabalho anterior do Rumo, um tipo de melodia mais entoativa, que é a melodia da fala. O Rumo foi atrás, o Rumo estudava muito. Havia num livro do Augusto de Campos em que ele fala dessa expressão “palavra cantada”, referindo-se a uma coisa mágica que existe quando você associa uma palavra ao canto. Daí surge uma terceira coisa, ele fala, que dá todo o encantamento. Então, essa expressão, “palavra cantada”, que aprendi no Rumo, que eu roubei, foi é uma expressão do Augusto de Campos. Por outro lado já havia estudado Schöenberg, que tem uma teoria que diz que aquelas óperas que eles falavam eram também uma “palavra cantada”. O Schöenberg não tinha um tom na música dele. Era aquela coisa dodecafônica em que você não percebe a tonalidade. O canto sem a tonalidade ficava até próxima, de uma outra maneira, da fala.
Gafieiras — E você acha que a música do Rumo é pra criança também?
Paulo Tatit — Algumas músicas, sim, como o “Carnaval de Geraldo”. E o LP infantil todo, apesar de que há umas lá que não têm a ver.
Sandra Peres — Adorei o LP.
Paulo Tatit — Até aquela que a gente cantou, que peguei do Jair Amorin, um compositor brasileiro antigo, que fazia uma música brasileira meio abolerada que, junto com o Evaldo Gouveia, fez aquela que a gente interpretou de forma engraçada, aquela música em que ela pergunta: Será que eu sou feia? / Não é, não senhor./ Então eu sou linda? / Você é um amor. / A gente fez uma brincadeira com ela, mas uma brincadeira pra adulto, criança nem está ai. Então essa música do Rumo não acho que seja infantil.
Gafieiras — E o que mais tem de diferente da música infantil do Rumo para a da Palavra Cantada?
Paulo Tatit — Acho que a Palavra Cantada é mais lúdica mesmo, a parte musical é muito mais apropriada pra criança, porque o Rumo fazia esses arranjos de musica infantil com a coisa muito completa, entendeu. O arranjo muito completo, você não vê muito a transparência dos instrumentos. Com a Palavra Cantada ficou mais enxuto, não há tantos instrumentos. Aparecem mais as brincadeiras dos instrumentos. E o Rumo tem umas harmonias complicadas. A música “Monstro”, por exemplo, harmonicamente é meio complicada, apesar de ser uma música super lúdica. Até é um exemplo bom de uma música que eu poderia gravar na Palavra Cantada, mas tem uma coisa meio que, harmonicamente, é mais complicado.
Gafieiras — Vocês tinham essa consciência de que era um negócio complexo? “Não vamos facilitar pra quem for ouvir”.
Paulo Tatit — Pra criança você tem que ter uma idéia na música, uma idéia e que você a mostre bem. Lá no Rumo, se você faz um arranjo muito completo, sinto que afasta um pouco o entendimento daquela música. Você está cantando uma coisa, que tem um sentido e, aqui no violão, você está mostrando um monte de harmonia, ritmos complexos. Fica uma música mais complexa que você tem que ouvir com quem tem uma vivência musical. Quando você pega a criança, é legal ter uma boa idéia e ir naquela idéia. Não fica com outras intenções harmônicas, intenções típicas de músico, entendeu?
Gafieiras — Vocês disseram que fazem uma música que vocês gostam, independentemente de ser para adulto ou para criança. Existe uma vontade de trabalhar uma música exclusiva para adulto?
Paulo Tatit — Pra adulto? A gente tem músicas que saem com cara adulta, que a gente não consegue aproveitar…
Gafieiras — Mas há um trabalho voltado para pegar todas essas sobras?
Paulo Tatit — Eu, por enquanto, vou canalizando essas músicas para parceiros que façam letras adultas. Eu tenho algumas parcerias com o Arnaldo Antunes, tenho umas parcerias inéditas com o meu irmão Zé, com o Luiz também. E, às vezes, a gente mostra. Às vezes, alguém grava. Então, pra mim essa parte adulta tem uma vazão bem pequena, ora aqui, ora ali.
Gafieiras — Mas vai escoando.
Paulo Tatit — Vai escoando, tento escoar mas, às vezes, me dá vontade de formar uma outra banda e formar outro som.
Gafieiras — E você, Sandra, também tem vontade?
Sandra Peres — Eu tenho vontade, mas é gozado, não penso nesse escoamento. Tenho vontade de fazer um disco meu.
Gafieiras — E vocês imaginam o que seria esse trabalho?
Sandra Peres — Não, porque daí a gente caminha pra um lado individual.
Paulo Tatit — Pra mim tem que ficar burilando um pouco, procurando.
Sandra Peres — Hoje em dia eu não sei.
Gafieiras — O seu seria cantado, Sandra?
Sandra Peres — Sem dúvida, cantado. Às vezes penso que meu trabalho pode envolver imagem; às vezes, não tem nada, mas tem filme ou uma coisa de performance no meio que não precisa ser a minha, mas pode ser uma coisa eclética. Talvez eu me engane, talvez seja um show comum, mas acho que tem que ter um piano, acho que tem que ter quem eu sou. Já fiquei muito tempo sentada ao piano.
Gafieiras — Você já tem músicas pra isso?
Sandra Peres — Eu tenho poucas músicas, tenho feito mais músicas. Nesse ano fiz mais músicas, mas parei de fazer porque a gente acabou de gravar. Comecei a colecionar umas músicas adultas de novo, mas ainda estou muito… não sei muito bem a forma disso, porque vivo uma situação muito singular aqui na nossa dupla, que é a seguinte: não tenho uma história musical, eu não pertencia a nenhum grupo, fiz música clássica e depois comecei a compor aos 17… Mais tarde fiz a Palavra Cantada. Eu não toquei em banda. Toquei com o Walter Franco um pouquinho…
Paulo Tatit — Ahá! [risos]
Sandra Peres — Mas não tenho essa coisa de ter tocado com os amigos porque eu tocava pra fazer concerto no fim de semana. Era isso que eu fazia.
Gafieiras — O piano não é tão móvel assim.
Paulo Tatit — Mas aí podia usar o teclado.
Sandra Peres — Teclado eu fui ter com 22 anos. Enfim, eu não vivi essa coisa, essa boa promiscuidade musical que os músicos vivem. Eu saí da música clássica, fiz umas coisas e fui para a Palavra Cantada. Então é difícil porque já tenho a minha personalidade, a minha fase de vida intermediária de formação são 16 anos, e é meio dentro do Palavra Cantada, dentro dessa parceria… Mas estou cada vez mais curtindo e amadurecendo essa idéia.
Gafieiras — Não pode ser estranho o primeiro show-solo de vocês, em que, em vez de criança, tenha na platéia um monte de marmanjo?
Sandra Peres — Eu tenho certeza de uma coisa: se um dia eu fizer um show meu a primeira coisa que eu vou dizer é que eu não vou cantar a “Sopa”. [risos] Já vou entrar dizendo: “Gente, eu não vou cantar a ‘‘Sopa’”.
Paulo Tatit — Aí chega ao final do show: “Sopa, sopa!”. [risos]
Gafieiras — Mas, Sandra, que expectativa você tem, além da sua satisfação, ao apresentar esse trabalho-solo?
Sandra Peres — Eu vivo um grande dilema. Embora o Palavra Cantada tenha essas dificuldades todas, nunca fiz um show na minha vida inteira que não estivesse lotado. Eu não sei o que é isso. Não sei fazer um negócio que não tenha um monte de gente interessada. Mesmo quando eu fiz Walter Franco, uma época, um ano, mesmo quando era moça e fazia os concertos, era lotado, que era uma coisa da escola, então havia muita gente. Era um teatro imenso. Não tenho experiência de começar pequeno.
Paulo Tatit — Cantar para 40 pessoas.
Sandra Peres — Mas uma coisa eu tenho certeza: para eu me sentir bem, quando eu puder fazer esse trabalho, faria em lugares muito pequenos pra não perder esse referencial de que está lotado. [risos]
Gafieiras — Sandra, você acha que levaria essa postura — sempre desnuda, sem máscara, em que procura trabalhar a sua essência — para o trabalho adulto?
Sandra Peres — Sem dúvida, por que não? Quando você tem um compromisso… Os meus valores estão ligados à honestidade, à integridade. É como eu apoio a minha vida. E eu tenho umas idéias loucas: tenho vontade de dançar ao relento, sabe, tenho umas idéias. Essa semana falei: “Nossa, já pensou uma coisa com esqueleto, assim, que tenha uma luz?”, porque tudo o que penso é com imagem. Uma das coisas mais lindas que vi de imagem, vi num filminho da Bienal de Veneza há uns 2 anos, que foi daquele fotógrafo-cinegrafista, não lembro o sobrenome dele. Ele fez um filme inteiro com animais e humanos dentro de lugares, não sei se vocês viram isso, uma das coisas mais absurdas… Recentemente saiu uma matéria imensa na Veja. Fizeram um galpão de 4 mil metros num pier, em Nova York, fizeram um negócio enorme. E eles tinham uns filmes e tudo, com uma bailarina absurda, maravilhosa, dançando com uma baleia debaixo d’água, elefantes, uma mulher dançando com uma águia também. Um trabalho lindo! E nessa reportagem falava que, possivelmente, ele viria ao Brasil. Mas eu gosto dessa coisa da imagem. Sempre fiz fotografia. Sempre fui ligada a isso.
Gafieiras — Mas você já se expressou com imagem em algum trabalho profissional?
Sandra Peres — Não.
Paulo Tatit — A Sandra é a fotógrafa do Canções do Brasil.
Sandra Peres — Tem muita música que eu faço a partir de uma imagem. Já fiz muitas músicas assim.
Gafieiras — Mas não de produzir essa imagem, de criar essa imagem?
Sandra Peres — Não de produzir. Ela está aqui e eu vejo aquilo e imagino uma história de uma música pra aquilo. Isso acontece o tempo inteiro comigo. É como eu faço música. Mas sou muito apaixonada pela dança. Também tenho vontade de fazer alguma coisa pra dança, mas nunca recebi nenhum convite. Existe uma coisa que é um pouco contraditória na minha vida: eu trabalho na Palavra Cantada, já faço isso há muito tempo, todo mundo me conhece, gostam da minha performance, mas nunca tive nenhum convite “Você não quer cantar aqui, não-sei-o-quê?” E eu conheço bastante gente. A sensação que tenho é de que eu pertença, dentro da cabeça das pessoas, somente a um mundo. Até esses dias eu saí com a Alice [Ruiz] e cantávamos uma música que a gente gosta — eu, ela e a Alzira… Falando isso, como a gente fica refém…
Gafieiras — Como você gostaria de ser reconhecida?
Sandra Peres — [pausa e risos] Não sei.
Paulo Tatit — A pessoa que quer, tem que buscar e falar: “Nossa, a Sandra está dando um show com músicas de adulto”. Aí vai criando, vai…
Sandra Peres — Não gosto muito dessa coisa de título, porque acho que quando você espalha uma semente, a planta vai tomar a forma que for. Eu, por exemplo, faço dança clássica indiana há 13 anos, e é um negócio que é muito meu. Eu não me apresento. É uma coisa devocional, tem a ver com aquela boneca ali, que eu faço. E é com essa indumentária, inclusive. Eu falo que a música e o Odissi, que é o nome dessa modalidade artística, são minhas religiões, porque são as coisas que me fazem voltar pra casa. E isso é uma coisa que ninguém sabe, que eu estudo dança clássica indiana há muito tempo. Nesse show eu coloquei umas coisinhas, fazer uns pés no chão novo, que tem muito pé, muita percussão com os pés, com os guizos. Finalmente eu consegui pôr alguma coisinha. Mas eu não sei… [sobre o fato de como gostaria de ser reconhecida] Assim que eu souber, vocês serão os segundos a saberem. A primeira serei eu.
Gafieiras — Como é pra vocês ver aquele sujeito que começou a ouvir a Palavra Cantada há 9 anos, quando ele tinha 10 anos de idade, e hoje já é um barbudo…
Paulo Tatit — A gente está começando a encontrar um público assim.
Gafieiras — Mas um ex-público.
Paulo Tatit — É um ex-público, um jovem de 17 anos. Às vezes eu tenho encontrado, como amigos da minha filha, um pouco mais novos, que curtiam Palavra Cantada.
Sandra Peres — Os amigos dos filhos do meu namorado ouviam Palavra Cantada. Eles me chamam de Vermelha. “Seu pai namora a Vermelha?” [risos]
Gafieiras — De que forma o trabalho de vocês pode ter influenciado musicalmente esses jovens que ouviram a Palavra Cantada quando meninos?
Paulo Tatit — Olha, eu espero que o trabalho da gente crie um gosto musical…
Sandra Peres — É. Influência não dá pra saber…
Paulo Tatit — Eu acho que pode criar um gosto. Acho que essa experiência de você fruir uma coisa artística que tenha um requinte, que tenha uma proposta mais legal, pelo menos é o que a gente acredita, acho que pode criar um gosto. Penso também nisso, “Pra que serve isso?”. Tem uma coisa bonita que acontece no presente que é a relação do adulto com a criança, do pai com o filho, da mãe com o filho. Isso aí eu sei que ocorre porque, além de ver isso intuitivamente, a gente recebe depoimentos de milhares que escrevem para Palavra Cantada via site. Relatam pequenas experiências. “Pô, eu tava sentado com o meu filho, daí a gente começou a ouvir o Canções e ele falou isso…” Aí vem uma mulher, me pára no supermercado, e fala da experiência que ela teve com a neta por causa de uma música do Palavra Cantada. Experiências de vida… É uma coisa que liga o adulto à criança num mundo mais espiritualizado. Você vê a pessoa saindo do cotidiano prático, pragmático; comprou um bom disco para o filho e, de repente, brum! Caiu no mundo dela! Isso aí é super legal.
Sandra Peres — Isso acontece muito.
Paulo Tatit — Também há muitos depoimentos de pessoas bem simples que já vão direto na mosca, que têm uma experiência humana. A minha vida é feita dessas experiências. Minha vida é uma sucessão de emoções com música. Eu acho ótimo. Se elas estão sentindo isso, então é o que dá graça na minha vida.
Gafieiras — Eu trabalhei com professoras de creche e vocês eram o tempo todo citados como um instrumento dentro da sala-de-aula, mas exatamente como um instrumento que transcende…
Paulo Tatit — A coisa didática.
Gafieiras — Isso, a coisa didática. Você falava do ambiente de aprendizagem e assim, olhar o olhar criativo, o olhar investigativo das crianças, e elas citavam: “Ah, professora, que nem aquela música Oi, oi, oi / Olha aquela bola / A bola pula”. E aí todos cantavam em coro. Quero dizer, passou para um outro estado, uma outra maneira de olhar para a criança, que é transformador na educação.
Paulo Tatit — Eu também acho. Gosto disso também, de saber dessas histórias porque é um momento em que a vida fica mais gostosa. Música tem muito esse negócio de convidar ao ritual, como você está falando… Começa a cantar e o outro canta também… e se encontram e cantam. Fora isso, eu acho que forma um adulto com um pouco mais de gosto. Não acho que uma pessoa que vá escutar a Palavra Cantada na infância vá gostar de umas músicas bregas sem graça que tem por aí. Acho que não, não dá.
Sandra Peres — Alimentação sonora e alimentação física são a mesma coisa. Se você passa a vida comendo porcaria, você não vai desenvolver o gosto por uma comida mais elaborada. Pode ser uma abobrinha com manjericão que você vai achar aquilo um lixo. Somos feitos daquilo que nos nutre.
Gafieiras — E com relação à função da letra, a história do politicamente correto, de que forma ele transita por vocês? Existe essa preocupação “Opa, isso não é legal falar”?
Sandra Peres — Tem um pouco, mas a essência da construção já vem de uma base constituída como íntegra. É difícil, mas às vezes a gente troca uma coisa ou outra porque não ficou tão boa. Mas não é assim “Vamos falar assim, isso é desse jeito”.
Gafieiras — Vocês nunca ficaram numa situação de falar “Nossa, isso tá demais, mas falar desse jeito pode prejudicar”.
Sandra Peres — Não, não que eu me lembre.
Gafieiras — Ou duma situação em que vocês ficaram muito à vontade, vontade até demais, não somente em palavreado, mas em que houve algum tipo de exagero… Já houve isso?
Sandra Peres — Olha, exagero… Um disco e um show são concebidos a partir dos cortes de exagero. Você se pergunta quando há um exagero, “Por que estou fazendo isso? Que é isso? O que quero ter? O que eu quero passar?”. Você sempre vai e volta, vai e volta.
Gafieiras — Então o improviso é dosado também.
Sandra Peres — Quando você cria você está se revendo.
Paulo Tatit — Acho que nunca pintou essa situação de exagero. Eu não me lembro de nenhuma situação. Me lembro de uma música de antigamente, da boneca que fica triste, fica super na fossa e reclama que a menina não cuida mais dela, que está aqui esquecida e coberta pelo pó. É uma letra super forte. Daí uma amiga da gente ouviu a música e falou: “Isso não vai ficar assim, né? Vocês vão dar uma resposta! A música está ótima, mas precisa ter uma resposta”. Daí me veio essa coisa de dar uma resposta para a situação que foi muito bem colocada. “Está ótima, mas não pode ficar aí. Vocês têm que botar uma outra coisa no lugar”.
Gafieiras — O que eu falo de politicamente correto é com relação à temas delicados de se abordarem, como aquela música em que vocês falam da chegada do irmãozinho. [n.e. Referência à música “Irmãozinho”, presente no DVD Clipes da TV Cultura]
Sandra Peres — Isso aí é de um amigo…
Paulo Tatit — Isso a gente incorporou…
Sandra Peres — Nossa! Você estava falando e eu me lembrei do Luis Pescetti. Essa música é de um amigo que a gente tem. Ele é uma das poucas referências que temos na nossa vida musical.
Paulo Tatit — Não, musical infantil.
Sandra Peres — Sim, musical infantil. Eu acho que vocês deveriam conhecê-lo. Esse cara pra mim é um gênio. Ele é um humorista, mas é músico também. E foi quem fez o “Irmãozinho”, mas ele cantava [canta] “Vai nascer um hermanito / Que contento que estoy”.
Paulo Tatit — Ele é argentino.
Sandra Peres — E faz músicas que vocês não podem imaginar. Uns absurdos, as letras… É um negócio que, às vezes, coloco pra ouvir, pra ficar rindo, igual faz a criança. Agora, parei um pouco. Ele fez uma música que se chama “Bye, bye, Angelina”, que é de uma menina que está num barco com os amigos, cai na água, e começa a se afogar. Aí a música fala que eles não entendem porque ela acenava tanto os braços dentro da água. E o refrão diz assim: “Glu, glu, glu / bye, bye, bye / Angelina”. O cara é sensacional!
Gafieiras — E você acha que isso é possível no Brasil?
Paulo Tatit — É uma coisa muito brincalhona.
Gafieiras — Daria pra encaixar o “Bye, bye Angelina”?
Sandra Peres — Tem uma que ele fez que é de uma menina, como que é? Ele fala que a avó é halterofilista, que o avô jogava bocha, que o irmãozinho estudava esgrima e ele fala: “E você? “Ah, eu sou tanto apaixonado / Ai Lili / já sabes que soy loco por ti / pois quando te vejo… / pipi / Ai Lili”, que é a primeira paixão do menininho. Ele se mija quando vê a menininha. Ele faz somente absurdos.
Paulo Tatit — É. E é muito bom de platéia.
Sandra Peres — Esse cara é sensacional!
Paulo Tatit — O teatro cheio de molecada barulhenta e somente ele e o violão.
Sandra Peres — E ele está cantando, cantanda, e pára assim: “Pô, pode parar com isso!”. Ele grita com as crianças! Aí tem uma brincadeira que ele faz que é muito boa…
Paulo Tatit — Tem várias, né? Ele é um cara que prende a platéia. Ele vai contar uma piada e não conta até o fim, muda de assunto, aí começa uma outra piada, muda de assunto, vai numa música, não chega nunca, ele não conclui uma música, pára um pouquinho antes e começa a mudar de assunto.
Sandra Peres — “Agora vai cantar uma canción de terror”. E todo mundo “Ahh!” “Tá bom, não conto. [canta] Era una tortuguita que amava un arborito”. E aí cantava umas bobagens…
Paulo Tatit — … Umas musiquinhas de criança. E aí os moleques ficam putos.
Sandra Peres — E falava porque a tartaruga não encontrava com a arvorezinha, porque estava plantada.
Paulo Tatit — É, qualquer bobagem assim.
Sandra Peres — E depois ele volta pra canção de terror. Aí as crianças começam a gritar e aí ele volta: “Era una tortuguita”. Muito engraçado! Tem uma música, a primeira faixa do disco, que diz como ir a um concerto.
Paulo Tatit — Como que a platéia se comporta.
Sandra Peres — Então ensina a bater palma.
Gafieiras — Mas vocês acham que no Brasil daria pra ter um cara com esse desprendimento todo, esse non sense, esse tipo de humor?
Paulo Tatit — Dá, dá, sim. Ele mesmo poderia vir pra cá. Tem o problema do idioma, mas ele poderia vir pra cá.
Sandra Peres — Eu sou louca pra fazer uma coisa com o Pescetti aqui.
Paulo Tatit — Dá pra trazê-lo, ele está falando bem o português. Daqui a pouco ele pode vir.
Sandra Peres — Ele é sensacional!
Paulo Tatit — Porque é aquela coisa muito rápida de quem faz humor.
Sandra Peres — Piada.
Gafieiras — E temas importantes que se tem muito medo de falar…
Paulo Tatit — Essa música das taquaras [n.e. Também presente no álbum Pé com pé] é uma que a gente fez que deu medo. Inclusive recebemos e-mails e e-mails falando “Pô, meu filho está com medo! Ele nunca teve medo de nada e agora está com medo!”.
Sandra Peres — Agora ele está percebendo que a vida é a vida. Ele tem que ter medo.
Paulo Tatit — Teve um caso de uma pessoa que o filho realmente ficou com medo, que não pode escutar um acorde da música. Mas isso é tão relativo. Sabe aquela música do Soneca, do Canções de ninar, que fala [cantam] “Bamba, bamba, lauê”? Quando chegava nessa parte, a criança berrava, gritava. E não sei quem, a minha filha ou alguém, teve a oportunidade de ver in loco. A criança já estava sozinha no quarto pra dormir, começou cantar, cantar e quando chegou “Bamba, bamba”, a criança berrou. Uma criança de um ano e meio. Não gostava, pirava com alguma coisa dessa música que é uma musiquinha de ninar…
Sandra Peres — Mas o terror é você não ter um adulto pra te aconchegar em qualquer momento da sua vida, pra você fazer uma passagem. Isso é terror! Você ter saído de um acidente, de uma situação dramática, de uma discussão com alguém, ter brigado com o coleginha na escola, ter saído de um pesadelo, isso é um terror. É um terror os pais evitarem que a criança não se relacione com o medo do desconhecido. Então, eles vão criando mentiras.
Paulo Tatit — Cara, hoje em dia os adultos poupam muito as crianças.
Sandra Peres — Nossa, é impressionante!
Paulo Tatit — Outro dia a gente estava numa palestra e comentamos que “Ah! A gente mudou a música O rato. Agora fazemos somente com o cavaquinho e piano num teatrinho”. Aí a mãe, depois da palestra, veio falar: “Escuta, vocês mudaram o arranjo d’O Rato?”. “É, mudamos.” “Mas é que meu filho adora aquele arranjo. Será que vocês não podiam tocar aquele outro arranjo?” “Não, mudou o arranjo do rato.” ”Não, mas você não acha que não pode frustrar a criança?” “Pode.” Pô, que raiva meu, a mulher vir tomar satisfação porque o filhinho dela vai escutar um outro arranjo e vai se frustrar, sabe? Não é nem a música que ele mais gosta, mas o arranjo.
Sandra Peres — A gente vai fazer um CD em espanhol agora, né? O nosso próximo, aliás. A gente está indo pra Montevidéu gravar umas coisinhas. E eu estava na casa do Paulo e vi um caderno. E comecei a ler o recado da moça que trabalha na casa dele, que você [dirigindo-se ao Paulo] não tinha lido. Aí comecei a ler pra ele e falei: “Paulo, você já leu o que está escrito aqui?” “Não!” Ligou um cara e deixou um recado. Dizia para o Paulo e eu procurá-lo porque o filho dele fazia aniversário e a coisa mais importante da vida do filho dele era que fôssemos cantar em seu aniversário. Me deu vontade de escrever algo, mas não dessa forma “A melhor coisa que a gente pode fazer para o seu filho é ele viver a festinha de aniversário dele como é possível, porque a gente não pode ir. A gente não tem como dar conta disso. Essa ausência é um aprendizado também.”
Gafieiras — Agora, vocês entendem bastante deste mundo da criança. Isso é decorrência do trabalho ou vocês tentam aprender essa psicologia da criança de outras maneiras?
Paulo Tatit — Você diz de estudar, por exemplo?
Gafieiras — É, ou de outras fontes pra alimentar esse conhecimento. Ele é todo empírico?
Paulo Tatit — Pra mim é mais da experiência mesmo.
Sandra Peres — O trabalho de conhecimento de música pra criança vem da proximidade que eu tenho comigo. Quanto mais próxima de mim estou, mais perto das crianças estou. Não estou dizendo que sou uma pessoa pura, mas é essa presença… Se você está próximo de uma criança, você vai responder a ela com uma verdade, você vai ser honesta. O meu aprendizado é esse. O aprendizado é sempre voltar e voltar.
Gafieiras — E a criança quer saber do mundo adulto, quer saber o que acontece.
Paulo Tatit — Mas elas gostam de repetir as coisas do mundo delas. A criança tem muito esse negócio de ficar persistindo numa mesma coisa, de ouvir muitas vezes a mesma música, não querer saber de outra música, e somente daquela. Tem muito comportamento repetitivo de ações. Às vezes, não gosta que mude a rotina. Tem criança que odeia mudar a rotina. Eu não acho isso ruim. Às vezes, é importante você perseverar numa coisa… Você ficar escutando a mesma música todo dia, aquela música do “O rato”, do clipe da Cultura, tem alguma coisa se formando ali que precisa ser respeitada. E é própria do ser humano, de todas as culturas, essa repetição. Todos os rituais têm coisas muito repetitivas.
Gafieiras — Eu queria saber do disco em espanhol. O repertório é novo?
Paulo Tatit — Não, é uma coletânea.
Sandra Peres — São os the best.
Gafieiras — El mejor.
Sandra Peres — Uma amiga minha me ensinou que em Portugal eles falam: “E aí, já lançou a sua besta?” A besta é the best.
Gafieiras — E em Portugal, como está a Palavra Cantada?
Sandra Peres — Estamos cruzando o oceano de volta. Primeiro vieram as caravelas e agora nós estamos tentando…
Gafieiras — … Colocar uns barquinhos.
Sandra Peres — É, parece que há um porto de lá querendo receber a gente. Tem uma proposta inicial de a Palavra Cantada ser distribuída lá, mas ainda está em negociação.
Gafieiras — Vocês acham que o papel exercido pela TV Cultura no Brasil de formar de público — por meio da exibição de clipes da Palavra Cantada — poderia haver em Portugal?
Sandra Peres — Eu não sei. Ouço falar tantas coisas de Portugal. Eu já mesmo tentei ir lá vender, já fiz contatos e tudo. Ouço dizer que a música brasileira é super aceita. Ouço uma outra coisa… Estou reproduzindo, não sei se é verdade, mas ouço que as escolas portuguesas acham que o português do Brasil é uma língua menor… Para criança portuguesa não é recomendável ouvir o português do Brasil.
Paulo Tatit — Isso é bem plausível. Cantar para crianças de um outro povo é um negócio muito delicado.
Sandra Peres — Pelo menos em “Pindorama” eu imito português bem.
Paulo Tatit — “Pindorama” tem uma criança portuguesa cantando.
Sandra Peres — Aí eu posso cantar só o Vera Cruz lá e pronto.
Paulo Tatit — Mas é uma coisa bem delicada. Imagine isso pra um povo que já foi o império. Aí a colônia vem cantar para os filhinhos dele.
Gafieiras — Mas eles vêem novela.
Paulo Tatit — Mas são adultos.
Gafieiras — Nada, criancinhas também.
Paulo Tatit — Ah, sim, as crianças também vêem.
Gafieiras — Tem amigos nossos…
Sandra Peres — Mas você não está na escola, não está dando informação intelectual.
Paulo Tatit — Ele está vendo lá de bicão. Agora, você vai dar um material feito no Brasil pra sua criança ouvir, pra você formar a sua criança, acho difícil. Mas tem gente de lá querendo implantar, gente que talvez saiba o caminho, mas acho complicado. O que seria melhor, talvez, seria produzir um disco lá , com cantores portugueses adaptando.
Sandra Peres — Deus me livre! Já pensou?! [Canta com sotaque português] ”Rato, meu querido rato / Eu não sou assim de fino trato / Pra selar esse contrato.”
Paulo Tatit — Mas, tudo bem, acho que seria legal.
Sandra Peres — E tudo durinho. [Canta com sotaque português] “Laranja, laranjeira / Banana, bananeira / Goiaba, goiabeira.” Já pensou, tudo durinho?!
Gafieiras — A estrutura da música “O rato” é presente em tantas outras, como “A formiga e a neve”, da Coleção Disquinho.
Paulo Tatit — “A formiga e a neve”? A história do “O rato” vem de uma fábula que um chinês contou pra Edith, que é minha ex-mulher. O chinês era o mestre de Tai-Chi dela e foi quem contou. Aí ela fez a letra.
Sandra Peres — Ah, eu lembro da “A formiga e a neve”, que é uma que a formiga fica coberta de neve.
Gafieiras — E ela pedindo pra alguém ajudar, o homem, Deus, não-sei-o-quê. Mas aí ela chega — pelo que sugere — ao Paraíso, mas ela…
Paulo Tatit — … Morreu. Eu não sabia, não conheço essa história.
Sandra Peres — Eu lembro. Não tem uma coisa dela ser soterrada meio viva?
Paulo Tatit — Devia ter uma ilustração da figura, como aquele personagem da Era do Gelo, o esquilinho que fica lá anos. [risos]
Gafieiras — Essa história fala da morte. Quando perguntei sobre o “politicamente correto”, me referia também em como se abordar um tema…
Gafieiras — Espinhoso.
Sandra Peres — A música “Vovô”, do Paulo, é linda, e fala disso, né?
Paulo Tatit — Mas não fala de morte.
Sandra Peres — Mas fala o mesmo: ”Ele já se foi”.
Paulo Tatit e Sandra Peres — [cantam] “E amanhã talvez quem sabe / Eu serei outro avô / E o filho do meu filho / Será o que hoje eu sou”.
Sandra Peres — Mas fala: “Quando vejo meu avô / Que é pai do meu papai / Penso que um tempo atrás/ Ele era o que sou / Agora sou criança / E o vovô também já foi”.
Paulo Tatit — Já foi criança.
Sandra Peres — Eu sempre achei que ele tinha morrido! [risos] Grandes revelações! [risos]
Paulo Tatit — Não, podia ser, mas daí fala…
Sandra Peres — Nossa, o vovô também já foi. Para mim ele já tinha dado área, já tinha batido as botinhas.
Paulo Tatit — Não, pra mim dá mais a idéia do ciclo.
Sandra Peres — Eu sempre pensei no vovô que já morreu, olha! Tá vendo como foi legal a entrevista?! [risos]
Gafieiras — Sandra e Paulo, muito obrigado.
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Faixa 01 – “Ilha do Mel” (Raul de Souza), por Raul de Souza
Faixa 02 – “Balada 45” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Arthur Verocai
Faixa 03 – “Sweet Lucy” (Raul de Souza), por Raul de Souza
Faixa 04 – “Balanço Zona Sul” (João Donato), por Raul de Souza e Robertinho Silva
Faixa 05 – “Rio Loco”
Faixa 06 – “Don’t ask my neighboors”
Faixa 07 – “Banana tree”
Faixa 08 – “Piano na Mangueira” (Tom Jobim), por Raul de Souza
Faixa 09 – “Bossa eterna”
Faixa 10 – “Lugar comum” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Robertinho Silva
Entrevista realizada em fevereiro de 2000 no apartamento de Nelson Sargento, na Tijuca, Rio de Janeiro/RJ.
Entrevistado: Nelson Mattos (Nelson Sargento) (25/jul/1924, Rio de Janeiro/RJ – 27/mai/2021, Rio de Janeiro/RJ)
Produção, entrevista, transcrição, edição e texto de abertura: Ricardo Tacioli
Agradecimentos. Evonete Belizário Mattos (esposa de Nelson Sargento) e Ricardo Alexandre
Portelense de coração, ela não se considera pesquisadora, mas uma catadora de sambas.
Somente nesses últimos dez anos que a carreira de Ignez Francisco tomou o espaço que merece.
Um dos principais produtores de música brasileira, ele é responsável pelo primeiro disco de Cartola, Adoniran Barbosa e Carlos Cachaça.
Seus primeiros passos foi como cantora da Vanguarda Paulista; depois seguiu para Tom Jobim, Clube da Esquina e Eduardo Gudin.