Supercarioca

Banda carioca dos anos 1980, o Picassos Falsos uniu rock, samba e funk; culminou na obra-prima Supercarioca, retrato crítico e tropical do Rio.

Por ALEXANDRE MATIAS | 1994

Capa do disco inaugural da banda carioca Picassos Falsos. (Crédito: Reprodução)

Mesmo com uma curta existência, poucos grupos de rock nacional foram tão felizes quanto o Picassos Falsos. Enquanto grande parte da produção brasileira sempre limitou-se a copiar o que vinha de fora – às vezes do jeito mais tosco possível –, o quarteto carioca mostrava criatividade, inventividade e, principalmente, orgulho de ser brasileiro. Formado por Humberto Effe (vocais e letras), Luiz Gustavo (guitarra e violões), Zé Henrique (baixo, que seria substituído no segundo disco pelo Luiz Henrique Romanholli – é, o jornalista d’O Globo), e Abílio Azambuja (bateria e percussão), o conjunto pode ser colocado ao lado dos Mutantes, sem muita dificuldade, quando nos referimos a rock com cara de Brasil.

Formado em meados dos anos de 1980, o grupo pode ser definido como uma banda de rock afeita ao samba e funk (não confunda com o samba-rock, que é o caminho de volta). Gravaram seu primeiro disco (homônimo em 1987) pelo selo Plug, da gravadora BMG, que não era nada mais do que um grande pau-de-sebo para encontrar um artista que vendesse bem e apostar tudo nele. Ao lado do Picassos, estavam no Plug nomes como De Falla, Violeta de Outono, Nenhum de Nós, Hojerizah e TNT, mais dez outros grupos. O escolhido foi o trio gaúcho Engenheiros do Hawaii, que até hoje figura nas paradas de sucesso, para a infelicidade do bom gosto.

O Picassos até teve uma certa repercussão com seu primeiro disco, principalmente com as faixas “Carne e osso”, “Quadrinhos” e “Que horas são?”. A primeira, provavelmente a mais conhecida do grupo, ficou famosa por seu refrão hipnótico com referências sexistas (“O meu coração / Preso nestas celas / Abre as pernas / da tua paixão”) e citações de Ismael Silva (“Se você jurar”) e Tim Maia (“Cristina”). Essas duas citações, aliás, serviam de referencial para o som do grupo: velha guarda do samba carioca e soul/funk brasileiros.

Mas o primeiro disco ainda estava perdido entre a necessidade de se mostrar culto e a poesia pseudo-intelectual de Humberto Effe. Aliás, Picassos Falsos, o disco, vale mais pela parte sonora – conduzida pela grande guitarra de Luiz Gustavo – do que lírica. Mas uma faixa – a última do lado A, chamada “Últimos carnavais” – dava pistas de que a tendência era melhorar. O segundo e último álbum do grupo é uma obra-prima da música popular brasileira e ponto final. Supercarioca foi lançado em 1988 e retomava aquilo que o grupo prometia na faixa citada acima: samba e rock em todos os sentidos.

Supercarioca deixa claro, desde a capa, suas intenções. Uma tomada geral no bairro de Santa Tereza é tão sutil quanto esclarecedora, afinal o bairro é famoso por ser o único morro do Rio que não possui favela (pelo menos até quando esse texto foi escrito) e também por sua população de malucos. Um morro sem favela, habitado por doidos é o cenário perfeito para o casamento do rock com o samba, que apesar de diferentes são gêneros primos – o samba surgiu da tristeza dos escravos africanos por terem sido arrancados de sua terra natal, a mesma do blues, que surgiu da mesma forma e que é o pai do rock’n’roll.

Casamento do rock com o samba

O disco começa com “Retinas”, que abre com a percussão marcando ritmo de capoeira para a entrada de Humberto, que faz com que o ouvinte se sinta como um usuário indo comprar droga num lugar que não conhece, sentindo-se acuado. A entrada do baixo e da bateria dão aos poucos um ar de selva e o vocalista assume uma postura de chefe de quadrilha que ameaça o visitante com palavras, mas que ao mesmo tempo que ameaça, se faz parecer amigável: é a essência do malandro, a dicotomia bondade-maldade na mesma pessoa e ela está presente em todo o disco, de diversas formas. A guitarra de “Retinas” é microfonia gemida constante, forjando o caos da cidade moderna, bem distante da Lapa e da boemia dos anos 20. O malandro ainda é o mesmo, mas os tempos são outros.

“Bolero” continua cantando o amor e a cidade, contrastando os perigos de ambos, enquanto a música cavalga num baixo repetitivo e cita Jimi Hendrix (“3rd stone from the sun”). O disco continua com “Marlene”, um samba-balada com citações à Noel Rosa (“Último desejo”), e “Verões” continua falando em amor e cidade, desta vez do calor de ambos e como é amar num país tropical, numa cidade do terceiro mundo, que não terá chance de chegar ao primeiro. “Wolverine” fecha o lado A (o disco ainda não foi lançado em CD), um funk rock à Hendrix, guitarras cheias de wah-wah. Pela primeira vez no disco, o grupo cita a festa que é fundamental no desenrolar do conceito de Supercarioca: o carnaval, descrevendo com maestria a relação da festa com a pobreza – “A felicidade existe quando todo mundo pula assim”. A música começa com violões com cordas de aço tocados com força, outra característica do disco.

O lado B é mais conceitual que o A e “Sangue” retoma o carnaval (“Quando fevereiro chegar / Vamos pra rua dançar / É pouco tempo pra tanta ilusão”) e aproxima o samba do rock, compensando um com o outro (“Mas se meu samba morrer… / Yeah, yeah, yeah”). A frase do início do funk-samba (“Estarei presente no final dos dias / Cantando, quem sabe, novas melodias”) retoma o malandro do início que aos poucos se metamorfoseia no Supercarioca do título – um malandro perfeito, adequado aos novos tempos, sem medo de enfrentar o fim de tudo e que tem o rock como trilha sonora.

“O homem que não vendeu sua alma” sai um pouco do disco, levando um rhythm’n’blues sobre vida urbana e honestidade. O disco ganha mais suingue de “Fevereiro” em diante. Esta faixa profetiza que o fim do Rio de Janeiro acontecerá durante o carnaval (“Já que hoje o morro não desce mais / Desaba no meio da rua / Mostrando da maneira mais sutil / Quem faz o mais belo carnaval do planeta”). “Fevereiro 2” faz referências musicais à Bahia, ao Caribe, ao pagode e ao samba de breque, falando de violência e crime passional. “Rio de Janeiro” traz de volta o malandro, tratado como “herói”, “trapo humano”, “corpo estranho” e “deus” e com uma descrição tropicalista do Rio (“Ferragens e palmeiras”, “Avenida e lama”, “Monumentos fardados”, “Papagaios e burgueses”) e constatando o caos carioca, cidade que atinge “dias de paz só durante o temporal”. A faixa-título, um rock pesado, resume o disco e o Rio, e merece citação integral.

O Supercarioca chegou com seus emblemas culturais / Samba, praia, bola e tantas coisas mais / O Supercarioca chegou esquecendo a vida entre copos de cerveja / Quando se chutam latas sempre se faz mais que um gol / O Supercarioca chegou no alto da montanha, entre pulseiras de prata / Mostrando quem manda na grande cidade / O Supercarioca chegou / Era mais um corpo crivado de balas perto do Cristo Redentor / Entre fotos e manchetes de jornais cobertas de sangue / O Supercarioca chegou / O Supercarioca / Supercarioca

* O texto acima foi publicado originalmente na coluna Fundamental, no jornal universitário O Leopoldo, que circulou na UNICAMP entre 1993 e 1996. 

ALEXANDRE MATIAS

Jornalista, produtor musical e criador do site Trabalho Sujo

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