SÃO PAULO, 24 de abril de 2007
Estava combinado: rua Treze de Maio, às 20h. Era uma terça-feira. O Bexiga, bairro paulistano que nunca dorme, assistia ao encontro da equipe do Gafieiras. Um já estava lá, outro estacionava a viatura e os três demais desciam a rua que abriga cortiços, a Igreja Achiropita, bares, cantinas e fígados de todas as sortes. Foi no começo da via que homenageia a abolição da escravatura, pertinho da que saúda o santo casamenteiro, que a rapaziada tocou a campainha do escritório de um dos pioneiros do hip hop nacional.
Depois de vencer a escada estreita e sem fim, era hora de batizar os microfones, os pedestais e a mesa de som cheia de botões coloridos, luxo que o Gafieiras nunca contou. Cabo pra cá, fita pra lá, teste aqui, “alô, alô! eco, eco!”, ajuste ali, “alô, eco?”, e a mesa não responde. Na outra sala, Thaíde navegava pacientemente na internet.
O ponteirão do relógio já ultrapassava as 21 voltas quando, com frieza oriental, Daniel Almeida domou o áudio e permitiu que nosso entrevistado assumisse seu posto. Filho da Zona Sul de São Paulo, Altair Gonçalves, o Thaíde, cresceu nos anos 1970 ouvindo rádio. As crônicas típicas do AM — Zé Béttio, Barros de Alencar e Silvio Santos –, aliada à sua perseverança e à observação crítica da relação cidade/periferia, fizeram com que sua narrativa cotidiana apresentasse o ritmo e poesia ao Brasil do fim dos anos 1980. Claro, sempre ao lado do ex-parceiro e amigo DJ Hum, o responsável pelas picapes.
De sorriso difícil, mas bem-humorado, Thaíde não se esquivou de nenhuma pergunta. Espantou seus medos de garoto, relembrou suas piruetas quando era dançarino de break, cantou “Cabo Laurindo”, contou planos e arrependimentos, mencionou Deus e candomblé, e desnudou suas contradições. Aquela era uma terça-feira de 2007, ano em que lançou seu primeiro disco-solo, Thaíde apenas, o sucessor do longíquo Assim caminha a humanidade (Trama, 2000), último trabalho com DJ Hum.
E é como um mateiro que empunha há mais de 20 anos seu facão que Thaíde abre sua picada na indústria cultural, amplia sua grade curricular (palestrante, apresentador de TV e ator) e viaja pra cima e pra baixo. Mas apesar do hip hop ser sua casa e o rap o seu quintal, como disse na entrevista, ainda mantém o desejo de comprar sua choupana. Para envelhecer costurando versos e rimas, como sonhou em público.
por RICARDO TACIOLI
01. “Sou um nômade, estou sempre mudando de lugar”
02. “Dá pra sentir São Paulo em várias cidades do Brasil”
03. “A gente passava vagalume na roupa e brincava de alienígena”
04. “O dia inteiro, rádio na AM, entendeu?”
05. “A letra de “Ronda” é muito louca”
06. “Minha falha foi não ter colocado um “e” no rap brasileiro”
07. “O hip hop começou como consciência, mas também é negócio”
08. “Aqui um não gosta do outro e pronto”
09. “Muitos me vêem como… tem várias visões aí, bicho Toquinho, mas sou eu quem toca”
10. “Livro bom é aquele que mostra alguma coisa”
11. “Quer sossego? Vai para casa, tranca tudo e fica de boa”
12. “Não sabia que ia chegar aos 40”
13. “Tinha que escrever em cima de uma música gringa”
14. “E o que a gente fazia? Apertava o botão e entrava na via certa”
15. “Escrevo melhor com raiva que triste”
16. “Tenho certeza que iria ficar só naquele disco”
17. “Sempre respeitei outros músicos porque gosto da música”
18. “Porque o rap é a maneira como se declama a poesia, né?”
19. “A gente ouve rap de madrugada, com raiva, sono, fome, sede…”
20. ““Então toma”, escrevi com uma fúria tremenda”
21. “Se não fosse uma pessoa conhecida já tinha feito muita merda”
22. “Você não quer fazer o teste? Vamos fazer o teste!”
23. “Nem passa pela minha cabeça dizer que sou ator”
24. “O rap mesmo não tem espaço na MTV”
26. “A situação atual é assim… é a imagem”
27. “O hip hop é minha casa e o rap é meu quintal”
28. “A nossa moeda é o real, entendeu? No pé da letra mesmo”
29. “Quem não acredita em Deus, não acredita em si próprio”
30. “Vou falar rapidinho que estou numa entrevista aqui, beleza?”
31. “Um orixá não vem se os atabaques não forem bem tocados”
32. “Você compra uma pizza e vem o bagulho embaixo”
_ Playlist
Ricardo Tacioli — Você está aqui, nesse escritório, há quanto tempo?
Thaíde — Faz bastante tempo, viu? Uns cinco, seis anos.
Tacioli — E qual sua relação com o Bixiga?
Thaíde — Passei a conhecer o Bixiga por causa da [Escola de Samba] Vai-Vai, do Sambarilove e daquelas histórias do Adoniran [Barbosa]. Essas coisas, entendeu? Ah, tem a rapaziada do Região Abissal que era quase todo mundo daqui. Na verdade, bicho, quando a gente começa a falar de um assunto vai lembrando de outros. O primeiro clube de rap era aqui na Brigadeiro [ n.e.: Av. Brigadeiro Luis Antônio ], numa esquina ali, não vou me lembrar o nome da esquina, da rua. Mas o primeiro clube de rap foi ali e depois veio esse lance do Região Abissal, depois o lance do Hip Hop Cultura de rua[ n.e. Título da primeira coletânea de rap no Brasil, lançada em 1988 pela gravadora Eldorado e que teve as participações de Thaíde & DJ Hum, Código 13, etc. ]. Aí teve essas paradinhas toda do Adoniran e tal, e o lance do Sambarilove, que era um baile da Chic Show, acho que é até hoje.
Tacioli — O Sambarilove é aqui na [Rua] Rui Barbosa?
Thaíde — É, isso mesmo. Então conheço um pouquinho do Bixiga, mas não sou o cara que pode te explicar o que é o Bixiga.
Max Eluard — Mas você é de São Paulo, não é?
Thaíde — São Paulo, Zona Sul de São Paulo. Cidade Ademar.
Max — Você mudou de lá faz quanto tempo?
Thaíde — Sou da Zona Sul ainda, só não estou mais na Cidade Ademar. Estou ali em Heliópolis, região do Ipiranga.
Dafne Sampaio — Você mudou quantas vezes de…
Thaíde — Sou um nômade, estou sempre mudando de lugar…
Daniel Almeida — Em São Paulo?
Thaíde — Sempre em São Paulo. Sou meio bairrista também. Acho que não conseguiria viver em outra cidade, não por falta de respeito a outras cidades, mas acho que já me acostumei a toda poluição que existe em São Paulo, essa poluição sonora. Se vou para um lugar muito sossegado é por três dias no máximo, para recompor. Depois começo a sentir de novo a necessidade do caos. Não consigo.
Dafne — E sempre pela Zona Sul?
Thaíde — Sempre. Cidade Ademar, Santo Amaro, Embu Guaçu, esses lugares assim, mas sempre Zona Sul de São Paulo.
Max — Tem uma coisa que o Vanzolini fala de São Paulo…
Thaíde — Quem?
Max — O Paulo Vanzolini. Ele fala que as pessoas dizem que São Paulo é uma cidade fria, uma cidade violenta e tal, mas que nunca encontrou um povo tão acolhedor como o daqui. Que quando te chama de irmão, te coloca dentro de casa e é de verdade. Faz até uma brincadeira: “eu lá vou pra uma cidade ficar olhando morro? Quero cidade para me relacionar com gente, não com morro”. Quero saber se você sente isso de São Paulo? Existe essa coisa da cidade ser tão desumana que aproxima as pessoas?
Thaíde — É, acho que tem muita gente que fala da frieza de São Paulo porque conheceu pessoas frias e isso é natural. Agora, posso te dizer que as pessoas de São Paulo, e acho que em todas as grandes metrópoles, têm esse equilíbrio de quente e frio. E tem gente que dá o azar de conhecer só a parte fria da cidade. Talvez a parte quente, infelizmente, não é a mais desejável, nem a parte mais acolhedora…
Max — Nem a mais fácil de encontrar.
Thaíde — Exatamente. Não é aquilo que é vendido, que é apresentado no cartão-postal. Então, acredito que esse calor todo vem de pessoas e se fosse ficção seriam as pessoas do subsolo, entendeu? Do esgoto. São essas pessoas que trazem o verdadeiro calor da cidade.
Tacioli — Tem alguma cidade que se assemelha a São Paulo?
Thaíde — Ah, têm várias! Tem um monte de São Paulo. Acredito que o centro de Porto Alegre é muito parecido com alguns pontos de São Paulo, sabe? Tem vários lugares, você pode viajar e ver. Se você vai para Curitiba, algumas avenidas lembram um pouco São Paulo, só que ali é uma cidade um pouco mais avançada, aquela coisa toda. Acho que dá pra sentir São Paulo em várias cidades do Brasil. Sem dúvida.
Dafne — Inclusive de gente?
Thaíde — Inclusive de gente. É que não sei porque São Paulo desagrada muita gente. Às vezes acho que até dormindo ela consegue desagradar. E olha que ela não dorme, né? [risos] Tem gente que não gosta mesmo, não gosta. Mas se a gente para e pensa, entende. Porque muitas vezes quem mora em São Paulo — esse lugar onde tem riquezas que todos falam, todo mundo quer vir para cá, aquela parada toda -, muita gente daqui acha que qualquer outra cidade é interior e acaba desrespeitando as pessoas. Isso é que faz com que a cidade seja mal vista por algumas pessoas de outros Estados e tal. Mas essas pessoas precisam vir até a São Paulo para conhecer e saber que a cidade não é assim também, a cidade é muito legal. Tem os mesmos problemas que têm em qualquer outra cidade, qualquer outra cidade grande. Tem corrupção, violência, tem tudo que tem em outra cidade, então quer dizer…
Max — É um lugar que junta muita gente, né?
Thaíde — É, não tem jeito, todo mundo veio pra cá e aí fica difícil, realmente. Mas vai continuar vindo e não tem como fugir a isso.
Max — E como foi sua infância nesta cidade, Thaíde?
Thaíde — Na infância… vivia na periferia mesmo. Não tinha esse negócio de vir para o Centro. Só vinha para o Centro com a minha mãe na época de Natal. Gostava de vir no Natal porque é uma época em que criança vê tudo maior. Para criança tudo é maravilhoso. Então, os brinquedos pequenos eram todos enormes, os Papais Noéis que os caras colocavam nas vitrines eram todos enormes também. Lembro que as pessoas vendiam muita coisa na rua, até mais que hoje, e coisas legais; tinha os ioiôs que acendiam. Lembro que tinha um cara que vendia um ioiô enorme, deste tamanho [ri], e o cara fazia assim, sabe? Umas bexigas muito loucas. Então tem muita coisa dessa época, mas ficava mais na perifa mesmo. Vivia ali na Cidade Eleonor, na Vila Santa Catarina, e a gente ficava no pião, no balão do fim de ano… Fim de ano não, meio de ano. Lembro que a gente saia na rua à noite para pegar vagalume. A gente saia igual doido para pegar vagalume, até hoje não sei pra que a gente (saia)…
Dafne — E o que vocês faziam depois?
Thaíde — Passava na roupa.
Dafne — Passava na roupa?
Daniel — E usavam chapéu de palha?
Thaíde — Não, não usava chapéu de palha.
Daniel — Meu avô ensinou a pegar com chapéu de palha.
Thaíde — Não, não, não. A gente ia na mão mesmo, entendeu? Colocava tudo dentro de um saquinho ou de um potinho e depois esfregava na roupa. [risos] Entendeu? Esfregava na roupa, brincava de alienígena, aquela parada toda, porque ficava brilhando. Mas, só a gente sabia… Hoje sei a judiação que era fazer isso com o bichinho. Amarrava linha em…
Daniel — Cigarra?
Thaíde — Não, em borboleta. Deixava ela ir e puxava. [risos] Uma maldade, mano! Era maldade.
Max — Criança é foda.
Thaíde — É. Mas o tempo vai passando e a gente vai ficando mais velho, vai aprendendo. Pegava pomba, sabe como é? Fazia armadilha no quintal, ela vinha e pá! Aprontei bastante. Amarrava um, como é que fala? Meia, numa linha preta, e deixava do outro lado da rua. Minha rua era escura, de terra. E quando vinham as pessoas, a gente começava a puxar a linha e era aquela susto… [ Chega um camarada do Thaíde na sala ] E aí, Mandinha, firmeza?
Mandinha — Posso?
Todos — Pode!
Thaíde — Demorô. Esse é o Mandinha. Se não fosse, eu não falava. Disse que vai ser rapper, vai ser MC também, não é não? Isso mesmo!
Tacioli — Quem é o garoto?
Thaíde — É o filho do zelador. O cara que manda. O nome do zelador, inclusive, é Manda.
Dafne — Manga?
Thaíde — Manda mesmo, ele que manda no pedaço.
“Minha falha foi não ter colocado um “e” no rap brasileiro”
Tacioli — Thaíde, você falou da infância… muita brincadeira de rua…
Thaíde — Muita brincadeira de rua. Coisa que não se vê mais hoje. Uma época que também não tinha quase nada, né cara? Não tinha internet, não tinha videogame, não tinha nada. Tinha TV e rádio.
Tacioli — Isso é começo dos anos 1970?
Thaíde — Isso mesmo. Nasci em 1967. Tinha três anos em 1970, certo? Então você pode imaginar, ainda não sabia de nada. Quando foi chegando 1976, 1978 é que comecei a me ligar mais nas coisas e tal. Comecei ir para baile em 1978.
Tacioli — Com 10, 11 anos, isso?
Thaíde — Para baile mesmo nessa idade. Agora, tinham as festas de família quando morava no Buraco do Sapo, que era em 1977, por aí. Ia nas festinhas de família quando foi lançado o samba soul da Lady Zu, aquela parada toda. Era muito legal.
Tacioli — E os seus pais ouviam em casa? Como era?
Thaíde — Numa boa. Todo mundo.
Tacioli — Qual era o som da casa?
Thaíde — O dia inteiro, rádio na AM, entendeu? Ouvia “Américaaaa” e rolava algumas coisas. Tinha o Roberto Carlos, que dominava a rádio já nessa época, mas vinham aquelas musiquinhas, samba soul, black, essas coisas. E tinham as músicas de novela. Rolava umas coisas um pouco diferentes e tal.
Dafne — Mas rolava música black na AM?
Thaíde — Não, dificilmente. Rolava mais isso que estou te falando: Lady Zu, alguns forrós que a gente gostava de ouvir também, música brega, que na época não era brega, era música de sucesso. Fernando Mendes, Diana, esse povo todo. Até Genival Lacerda era um cara que a gente gostava muito.
Tacioli — E o Zé Béttio…
Thaíde — Zé Béttio, grande Zé Béttio. O Zé Béttio era AM, era ele que fazia a gente cair da cama. Ficava “Mãenhê, mãenhê” [ n.e. Essa era uma das tantas e curiosas vinhetas do programa do radialista, compositor e sanfoneiro paulista ] e dava raiva, dava raiva, raiva; ele enchia o saco! [risos] Mas era legal, hoje tenho saudade disso. Até comprei o disco do Silvinho por causa do programa do Zé Béttio… [canta] “Quem é que não sofre”, né? Tinha essa musiquinha. Aprendi a gostar dela e hoje viajo no arranjo porque é uma música muito bonita. No mesmo disco tem — inclusive vocês precisam fazer um lance com o Silvinho [ n.e.: Nascido em 1931 em Petrópolis/RJ, Silvio Lima foi integrante de conjuntos vocais, como Trio Quintandinha, e no início da década de 1960 foi um dos maiores vendedores de discos do Brasil; é autor de canções como “Quem é?” e “Marcha da coroa” ] -, neste disco tem… [canta] “Esta noite eu queria que o mundo acabasse”. Muito bom, muito bom! Eu tô ligado! [risos]
Tacioli — E essas paisagens sonoras, Thaíde, de que forma participaram da sua construção de rapper?
Thaíde — Então, tento buscar a mesma importância que tinha pra mim na época. Tento dar a mesma importância para essas coisas hoje, mesmo que elas já não sejam mais como antes. Mesmo que não tenha mais o programa do Zé Béttio, eu tento dar a mesma importância. Porque dessa forma você até consegue achar uma coisa interessante para usar, para poder relembrar, para fazer aquilo voltar de novo à tona.
Tacioli — Você se policia? Fala assim “Puxa, não é uma coisa tão bacana pra falar mesmo que emocionalmente tenha a ver com a minha história…”?
Thaíde — Isso mesmo. Tem coisas que nem falo porque talvez aquilo vá saciar apenas a minha vontade. E nem sempre é bom você saciar apenas sua vontade. E bom passar um pouco de vontade e saciar a dos outros. Acho que isso é equilíbrio, entendeu? Já deixei de falar muitas coisas que seriam legais pra mim, pra falar o que seria legal pra mundo, e vice-versa. Isso depende muito da maneira como você se relaciona com o seu trabalho. Eu, por exemplo, primeiro ouço a base e espero que ela passe pra mim, de alguma forma, qual o tipo de tema que poderia desenvolver nela. Eu não pego simplesmente a base e jogo lá e pronto, acabou. Desde criança tenho esse lance de música, gosto muito de musica e já na época prestava atenção nas letras. Lembro que uma vez um tio comprou o disco da Maysa, no qual ela canta “Ronda”, que na minha opinião é a melhor versão até agora dessa música. [ n.e. Não identificamos uma gravação de “Ronda” por Maysa ] Até já tinha ouvido, mas nunca tinha prestado atenção, era criança. Fiquei o dia inteiro ouvindo a mesma música, o dia inteiro, encheu o saco, sabe o que é encher o saco, cara? Meu tio teve que pegar o disco e guardar, ou ia ficar a noite inteira ouvindo também. Então sempre teve esse negócio de me chamar atenção, principalmente as letras das músicas.
Dafne — E com “Ronda” era a letra também?
Thaíde — A letra. A letra de “Ronda” é muito louca. Porque falava da Avenida São João e eu já havia passado pela São João com tio, tia, mãe, vó, e eles falavam “aqui é Avenida São João”, mas eu não sabia de música. Aí ouvi a Maysa falando da avenida e na hora veio a noite, os carros, os ônibus, aquele monte de luzes e tal. Música é um bagulho muito louco mesmo.
Tacioli — E qual era a relação que você fazia, morando na Zona Sul, do centro de São Paulo? Qual era a imagem que você tinha quando moleque?
Thaíde — Então, sabe o que era engraçado, eu tinha medo de túnel. Então quando passava em túnel eu me agarrava à minha mãe. Se tivesse sentado em um banco diferente, corria para o colo dela. Então, algumas vezes, não prestava atenção em distância, nem no que via no caminho, entendeu? Só ficava pensando assim… muito prédio, entendeu? As ruas pequenas. Ainda tinha a marca do bonde e ficava pensando ali, “Puxa vida, que bagulho doido”. Sabia que onde morava não era o Centro da cidade. E na época a gente não falava Centro da cidade, a gente falava Cidade: “Vamos lá na Cidade”. Só isso. E eu já sabia que ali não era o lugar onde morava. Ali era a Cidade e eu morava perto… quero dizer, perto relativamente, né? Mas ia mais para ver as coisas. Não pra ficar, sabe? Só queria ver, entendeu? Naquela época tinha um lance que eles colocavam no Centro que era um ônibus lacrado, e você subia e tinha um balcão no meio do ônibus… ou no canto? Não lembro como era, acho que no meio mesmo, e você fazia a volta nele assim, tinha uns bichos dentro, acho que com uma água, ou formol, sei lá o que era, não lembro, mas tinha umas aranhas enormes, cobras, escorpiões. Como se fosse um bagulho que você pagava um dinheirinho pra ver os bichos e eu ficava louco quando… [interrompe] E aí, Manda? Esse é o Manda que manda. Certo ou errado? Daquele jeito. [risos] A jogada era essa daí.
Dafne — Thaíde, mudando um pouco de assunto, você acha que o rap somente poderia ter nascido em São Paulo?
Thaíde — Não. Mas graças a Deus que nasceu, né? [risos] Acho que poderia ter nascido em qualquer lugar, sem dúvida nenhuma, desde que as pessoas o fizessem direito, com seriedade, com respeito. Mas poderia ter nascido na Bahia, no Rio de Janeiro, poderia ter nascido em São Luís do Maranhão, Porto Alegre, mas não nasceu. Graças a Deus aconteceu aqui em São Paulo. Evito dizer “nasceu em São Paulo” porque muita gente briga dizendo que na mesma época tinha hip hop em outros lugares do Brasil. Então, prefiro dizer que ele aconteceu aqui em São Paulo, entendeu? Porque também eu não fazia parte da história deles lá para saber. Então, não posso duvidar. Mas aqui foi que aconteceu; aqui nós temos a São Bento, Nelson Triunfo, Nino Brown, a Back Spin [ n.e.Triunfo é educador social, um dos mais célebres dançarinos de break do Brasil e, pioneiro, fundou o Grupo Funk & Cia. em 1977; King Nino Brown é DJ, dançarino e presidente da organização Zulu Nation no Brasil; Back Spin Crew, grupo de dançarinos de break, os b-boys, criado em 1985 na Estação São Bento do Metrô e ainda em atividade ], nós temos tudo aqui. Aqui a gente tem Thaíde, Racionais, graças a Deus, os grandes nomes estão aqui em São Paulo.
Dafne — Se o rap acontecesse com mais força no Rio ou em Salvador, ou em Porto Alegre, provavelmente a história seria um pouco diferente…
Thaíde — Com certeza.
Dafne — O que tem de específico na contribuição de São Paulo para o rap?
Thaíde — Acho que São Paulo conseguiu retratar a angústia e a ambição de todo o Brasil, de uma forma ou de outra. Porque por mais que o Rio de Janeiro tenha aquele lance da farra, da festa, do carnaval, a Bahia também e vários outros lugares, São Paulo também tem. Mas as letras do rap de São Paulo são muito cruas, muito duras, apontando os problemas que a gente tem e, às vezes, nem percebe e cutuca todo mundo na ferida, direto. Talvez seja isso que fez o rap de São Paulo ser tão respeitado no Brasil inteiro. E você pode notar que o Rio desenvolveu o funk, né? O pessoal de Recife tem o rap deles com embolada, com essas coisas todas. O pessoal de Porto Alegre tá começando a misturar o rap com a música local. Enquanto aqui em São Paulo a gente faz uma mistura que, metaforicamente falando de Brasil, é universal. A gente faz mistura de rap com samba que o país inteiro tem, entendeu? E acho que dessa forma foi mais fácil para as pessoas se identificarem com o rap daqui; acho que não seria a mesma coisa se a gente fizesse uma mistura com guarânia ou com qualquer outro ritmo.
Dafne — No começo assim…
Thaíde — É, no começo. A única coisa que lamento e sempre vou me lamentar é de não ter colocado um “e” no rap brasileiro. Porque somente isso falta para o rap ser totalmente brasileiro.
Dafne — É ritmo e poesia, né?
Thaíde — Ritmo e poesia. É a única coisa que realmente lamento não ter feito. Penso nisso todo dia.
Max — E você acha que isso seria possível na época?
Thaíde — Com certeza! Sem dúvida nenhuma! Sem dúvida! Era o começo de tudo.
Daniel — Se tivesse começado com “e”…
Thaíde — A coisa seria muito mais fácil hoje, teria muito mais apoio e respeito. Porque tem muita gente que se agarra nesse lance que rap é coisa americana porque é r.a.p. [rhythm and poetry]. E a gente tem o repente e me faltou na época esse tipo de sensibilidade. E a gente teria hoje o nosso rap com “e” e seria, sem dúvida nenhuma, muito melhor.
Tacioli — Não dá para fazer um recall? [risos]
Thaíde — Putz, cara! Ia fazer esse meu disco [ n.e. Thaíde apenas, de 2007, o primeiro feito após o término da parceria com DJ Hum ] todo falando em r.e.p., mas no final um monte de gente falou que agora não adiantava mais, e eu também acho que não. Já faz vinte anos.
Dafne — Mas, peraí, alguém escreveu uma música chamada “rap”, com “e”… [n.e. “Rep”, de Gilberto Gil, gravada pelo próprio no disco O sol de Oslo, de 1998; a dupla Caju & Castanha gravou em 2005 a música “No rep ou no repente” , de Djalma Gomes e Castanha, no CD e DVD Ao vivo no Centro de Tradições Nordestinas ].
Thaíde — Não sei. O Gilberto Gil foi quem fez um comentário desse naipe, que o rap brasileiro deveria ser com “e” e tal. Concordo com ele. Olha só, de tudo que fiz… pode falar o que quiser das coisas que fiz e que deixei de fazer, mas acho que a minha grande falha foi não ter colocado um “e” no rap brasileiro.
Tacioli — Como essa idéia dialoga com os outros rappers? Eles também concordam?
Thaíde — Não, porque também não fico fazendo esse comentário com eles porque muitos aceitam o rap do jeito que ele é. Então, para eles do jeito que é está bem. Mas eu penso muito nisso, acho que se o rap brasileiro fosse com “e” teria mais espaço. Tenho certeza absoluta disso.
Dafne — Quando você acha que o rap brasileiro começou a ter uma cara própria?
Thaíde — Olha só, na década de 1990 acho que ele começou a se firmar mais. Porque daí começaram as misturas com música popular brasileira, aí as coisas começaram a ficar melhor. Mas assim, na época a gente já fazia coisas com a música brasileira. Usamos sampler de berimbau e vozes de artistas brasileiros. Então, de uma maneira ou de outra, a gente já começou a se preocupar que a nossa musica ficasse mais do nosso jeito. Mas depois começaram a misturar samba com repente, essas coisas todas, e aí o rap começou a ficar mais brasileiro do que nunca e isso para mim é ótimo.
Daniel — Teve algum momento de ruptura? Um disco, algum show…
Thaíde — Acho que sim, tiveram vários. Por exemplo, teve uma época que alguns rappers não respeitavam alguns b-boys, alguns b-boys não respeitavam alguns rappers, os grafiteiros estavam meio distantes de tudo aquilo que estava acontecendo, porque estavam vendo o lado deles. Foi uma época que cada um estava vivendo a sua maneira e cada um por si, esquecendo o lance do hip hop com os quatro elementos e tudo mais, entendeu? Mas hoje a gente está bem melhor, tem sites, revistas, campeonatos e tudo mais.
Max — Em que estagio você acha que está o rap no Brasil hoje, Thaíde?
Thaíde — Engatinhando ainda. Sem dúvida, engatinhando… [interrompe] ah, não acredito! Nivaldo? Esse é o grande Nivaldo, diretor, produtor e idealizador do videoclipe da música “Pra cima”. E aí? Não vai voltar mais mesmo?
Nivaldo — Estou desde as seis trabalhando.
Thaíde — É mesmo? Mas tá a pampa lá?
Nivaldo — Programa ao vivo…
Thaíde — É mesmo? legal, hein? Quando vou lá?
Nivaldo — Vamos marcar.
Thaíde — Ah! Só quero ver.
Dafne — O que você tinha perguntado, Max?
Max — Se está engatinhando, o que você acha? O rap…
Thaíde — Ah sim! Porque a gente tem que aprender muita coisa. Tem que aprender a se comportar como artista e impor isso. Não tem que ter vergonha de se colocar como artista. E o artista faz o seu trabalho de várias maneiras e a gente tem a idéia de fazer o trabalho da mesma maneira, sempre! A gente não pensa como entretenimento e a gente tem que pensar como entretenimento.
Max — Você acha que os rappers brasileiros têm um pouco de pudor de se considerar como artista, se ver como artista?
Dafne — Ou acha que artista é um negocio, enfim, sei lá, burguês?
Thaíde — Acho que é mais isso do que isso. Porque, muitos não querem dizer que são artistas, mas fazem arte, isso que não consigo entender. E aí fico pensando: será que eles querem fazer musica só para os amigos? Será que acham errado alguém obter sucesso através do seu trabalho? Prefiro saber que o hip hop começou como consciência, continua consciência, mas também é negocio. Hoje ele é negocio, entendeu? E a gente tem que ter lucro com esse negócio, sem dúvida nenhuma.
Tacioli — Você sempre pensou assim?
Thaíde — Comecei de um tempo pra cá, de uns dez anos para cá, mais ou menos. Porque a gente começa a conhecer pessoas diferentes. A gente começa a conhecer pessoas que vão nos mostrando outros caminhos, entendeu? E muita gente disse e me mostrou que o que fazia era um negócio que rende muito no mundo inteiro e que eu estava fazendo só para mim, os meus vizinhos, meus amigos e não estava tendo lucro nenhum. E é verdade.
Tacioli — Quem são essas pessoas? Pode…
Thaíde — Muitas pessoas. B-boys, alguns DJs, alguns donos de casa noturna, pessoas que de uma maneira ou outra já tinham uma visão diferenciada da maioria e que viam aquilo como negócio. Por exemplo, tem grafiteiros hoje que trabalham profissionalmente com seu grafite e fazem painéis e tudo mais. Tem b-boys que rodam o Brasil inteiro fazendo shows e assim vai. Alguns MCs fazem trilha, trabalham em estúdio. DJs são grandes produtores. A partir de um certo momento a gente começou a ver que aquilo realmente dava lucro e alguns começaram ver isso como entretenimento e negócio. Hoje tem muito mais do que na época, pensando desta forma, mas não tem organização.
Tacioli — Nos dez primeiros anos, quando você…
Thaíde — De 1988 para cá…
Tacioli — É. Que você via de uma forma diferente, não deste jeito. Assim, como é que você via na verdade, você falava “eles se venderam”? Era esse tipo de leitura que você tinha?
Thaíde — Como posso te dizer… não era um negocio de “se venderam”, mas tinha aquele lance. Pensava assim… “puxa, mano, não posso ir na televisão e fazer o negócio do jeito que eles querem, do jeito deles. Tenho que fazer do meu jeito. E se não for para fazer do meu jeito não faço e quem vai lá é faz é porque está se vendendo”. Entendeu? E hoje penso totalmente diferente disso. Acho que a pessoa tem que fazer aquilo que acha que tem capacidade pra fazer. E naquela época não pensava desse jeito. Eu era muito radical naquela época, muito. E hoje sei muito bem que se alguém tiver um produto interessante para apresentar na TV ele vai buscar a maneira mais adequada para apresentar esse produto e a música é a mesma coisa. Só que naquela época não tinha que ir na TV. Eu não gostava de ir em baile por exemplo. Não gostava de dançar em baile quando eu dançava break, eu queria dançar só na rua, aquele papo todo. O tempo vai passando você vai aprendendo que não é bem assim.
“Se não fosse uma pessoa conhecida já tinha feito muita merda”
Dafne — Estava pensando algumas coisas do rap brasileiro comparando com o rap americano, que já é um puta poder, sei lá, há um dez anos, é um puta poder econômico…
Thaíde — Há mais tempo. Hoje domina totalmente o mercado. Mas há mais tempo é um poder.
Dafne — Ele se transformou num grande poder e isso acabou se voltando contra sua própria vitalidade, né? Começou todo o clichê de mansões, piscinas cheias de mulheres, carrões… claro que isso dentro do rap mais comercial, mainstrean. Não sei em quanto tempo o rap poderia virar uma força econômica aqui no Brasil, mas esse risco existe, de se perder?
Thaíde — Claro que sim. Tanto existe que na época já falava que um dia o hip hop já não estaria do mesmo jeito, já não seria a mesma coisa e a se a gente quisesse continuar de pé a teríamos que acompanhar essa evolução. Boa sorte aí, hein? [despede-se de Nivaldo] Já naquela época falava isso. Não é impossível de acontecer aqui no Brasil e espero que isso aconteça, sem dúvida nenhuma. Se isso acontece no Brasil fico imaginando quantas empresas vão surgir. Quantos selos, rádios, distribuidoras… quantos artistas, sabe como é? Quantas academias, estúdios… muita coisa ia acontecer. Porque aí muita gente vai dar valor, vai ver o dinheiro aparecer e querer participar. Se a gente souber conduzir isso, aí sim a gente vai poder colocar as cartas na mesa. Por enquanto não tem como, não tem jeito. Agora, a gente tem que se preparar muito para quando, e se isso, acontecer outras pessoas não tomem conta da situação. Aí sim a gente vai fazer o papel da marionete, fazendo o que não quer.
Dafne — Para chegar o rap precisa mudar ou o mercado fonográfico, a sociedade civil , o catso que seja, precisa mudar.
Thaíde — O mercado fonográfico já mudou. Já não é mais o mesmo e nem vai voltar a ser.
Max — E só vai mudar daqui pra frente.
Thaíde — Alguma coisa já mudou e vai continuar mudando. Acredito que a música do hip hop é uma das que mais vai se beneficiar dessa mudança toda, porque está em constante evolução. É camaleônica e toda hora está de um jeito e tudo mais se misturando com as outras musicas. E antes, se você não tivesse uma gravadora, o seu trabalho não acontecia. Hoje não. Hoje muita coisa não acontece se tiver uma gravadora envolvida. Mudou tudo. Hoje a gente tem a tecnologia a nosso favor. Agora, acredito que existe uma evolução necessária e mesmo que você não queira, uma hora ou outra você muda a sua roupa, sua opinião, o que você está bebendo, comendo, muda o jeito de falar. Você muda mesmo sem perceber. E o hip hop vem acompanhando essa evolução da humanidade, gradativamente, lado a lado.
Dafne — Mas no Brasil, o que precisaria acontecer?
Thaíde — Acho que aqui precisa ter mais união, mais respeito. Não tem que um querer ser mais que o outro, ganhar mais que o outro. E é isso acontece há muito tempo e é por isso que a gente não sai do lugar. Acho que a gente tem tudo que os norte-americanos têm. Quer dizer, quase tudo, né? [risos] Tem mulher bonita, low rider, b-boy, b-girl, grafiteiros, DJs, ótimas casas noturnas, quer dizer, tem muita coisa. Mas onde você vê essas coisas? Só em casa noturna. A gente não tem um ponto de encontro pra se reunir, debater, divulgar o trabalho. A gente não tem, por exemplo, grandes festivais do hip hop brasileiro. Registrado mesmo, grande festival anual onde a gente possa demonstrar nosso trabalho, trazer outras pessoas de outros países. A gente não tem isso. Então a coisa está engatinhando; não adianta pensar que estamos na crista da onda, porque não estamos. A gente tem que saber administrar o nosso negocio e encarar isso como entretenimento. Não esquecer a seriedade que o hip hop prega já há muito tempo, mas saber também que hoje vivemos na era do entretenimento. Vejo muita gente que, por exemplo, paga não sei quantos mil dólares para o gringo vir para fazer três, quatro músicas, enquanto a gente pega um cachê que a acha ideal pelo nosso talento, pela nossa capacidade, e eles se negam a pagar. Então até quando isso vai acontecer? Até quando não tivermos controle do nosso negocio, do nosso próprio negocio.
Max — Thaíde, você pensa em fazer alguma coisa em nome da coletividade para tentar formar essa rede aí de rappers, ou não é uma coisa que você…
Thaíde — Sempre faço, na verdade, mas dificilmente dá certo, infelizmente. Sempre chamo pessoas para participar dos meus discos, dos meus trabalhos, está entendendo? Sempre estou citando um, citando outro e, infelizmente, não é o mesmo que acontece. É uma panelinha aqui, outra panelinha ali, sabe? Aí vem uma turma que quer ser melhor que a outra turma quando tudo poderia ser apenas marketing, entendeu? Apenas marketing tipo: “Vamos discutir ali para alguém ver amanhã e depois a gente faz um show juntos e fica tudo bem”. Mas não é assim que acontece. Aqui a briga é de verdade.
Max — Aqui falta essa malicia, né?
Thaíde — Aqui um não gosta do outro e pronto. E não precisava ser assim. O Brasil é enorme, cara! Olha só, eles falam tanto, levantam tanto o nariz, e a gente não consegue vender nem para dez por cento da população brasileira.
Max — Muito pouco, né?
Thaíde — Somos mais de cem milhões de habitantes, e um cara vende cem mil cópias e fica contente da vida. Queria ficar mais contente vendendo quinhentas mil, um milhão, dois milhões de cópias. A gente tem mais de cem milhões de habitantes no Brasil, bicho! O cara vende cem mil e já acha que é o cara, entendeu? Ele não tem noção do que é um número de vendagem, não tem noção.
Dafne — Sua carreira já passou por muitas coisas, teve muitas mudanças e agora você está numa carreira solo. Como você acha que é visto pelos rappers de hoje?
Thaíde — Muitos me vêem como… tem várias visões aí, bicho. Muitos me vêem como um cara que se vendeu para mídia, outros me vêem como um cara que conquistou aquilo que desejou desde o inicio, outros me vêem como alguém que perdeu as raízes, outros me vêem como inspiração para que outros possam conseguir o pouco que consegui e assim vai. Não tem uma definição ainda. Uma coisa é legal! Eles não negam o respeito que tem por mim. Isso é ótimo! Acho que a melhor coisa que poderia acontecer para um artista é ele ser unanimidade em termo de respeito. Podem reclamar, podem dizer que fiz alguma coisa errada ou que não estão gostando da minha atuação agora, que fiz isso ou aquilo. Mas o respeito é unânime e isso é ótimo.
Daniel — Você tem o hábito de guardar os registros da sua história, de foto, panfleto…
Max — Filipeta de show…
Daniel — Primeira rima que você fez, filipeta de show…
Thaíde — Guardo algumas coisas, mas não sou aquele do “vou guardar”. Tenho algumas coisas, algumas letras muito antigas, algumas bases que não usei, fotos, algumas coisas de show também. Tem algumas coisas guardadas, mas não sou um cara aficcionado em guardar minhas coisas. E porque é o seguinte, não sou um cara que fica pensando “eu sou o Thaíde”, entendeu? Sou um cara que faz um trabalho que todo mundo gosta e sou reconhecido em vários lugares. Tento não viajar nessa pegada da minha história.
Daniel — Mas você não percebe que isso tem um valor econômico até? Não só um valor pessoal, histórico e tal, mas tem um…
Thaíde — Vou falar para você… a minha preocupação maior é continuar fazendo um bom trabalho e desse trabalho conquistar algumas coisas. Por exemplo, ainda não comprei uma casa, ainda vivo de aluguel e quero comprar essa casa. Então, tenho que fazer esse trabalho como se fosse um trabalho mesmo, e não simplesmente um trabalho artístico. Falar “eu sou o artista Thaíde e você tem que me respeitar por isso”. Tento buscar o respeito pela minha personalidade mesmo, independente de qualquer outra coisa. Então, muitas coisas que para as pessoas são importantes, para mim passam batido. Fico mais preocupado em fazer uma boa apresentação pra poder voltar naquela casa [noturna], tratar as pessoas bem, dar atenção para todo mundo e tal. Não fico me preocupando com esses bagulho. Pode até ser errado da minha parte, mas não me preocupo muito. Tento levar uma vida normal porque se pensar muito nisso… é meio complicado mesmo, é meio complicado. Vejo muita gente que é traída pela vaidade, é ruim.
Daniel — Mas não é para se gabar de nada. Era só por…
Thaíde — Eu sei, mas não… guardo algumas coisas, mas não fico…
Daniel — Tem alguma coisa que tenha um valor mais especial entre dessas relíquias pessoais?
Thaíde — Tenho um boné, um boné de madeira que ganhei de uma pessoa que era da… era da… um ex-presidiário da Casa de Detenção. E quando ele saiu, na época trabalhava com um outro agente chamado Alíbio, ele fez algumas coisas com a gente. É um bagulho que tenho guardado e que gosto bastante. Tenho… tinha, infelizmente quebrou, uma cena de um show meu que o carinha fez numa cartolina. O legal é que ele fez na hora que estava assistindo o show e fez as cenas e tal. Coloquei num quadro e acabou quebrando. Então, tem coisas que quero ter e não tenho mais, e aí já era, entendeu? Agora panfleto, principalmente foto que gosto bastante, eu guardo. Essas coisinhas guardo sim, da hora.
Tacioli — O livro foi uma primeira experiência de organizar essa tua memória, não?
Thaíde — É. O livro [ n.e. Pergunte a quem conhece: Thaíde, 2004 ], na minha opinião pessoal, um livro bom é aquele que mostra alguma coisa, fotos, gravuras, essa parada toda. Não tenho paciência de ler um livro que só tenha letras, por exemplo. Então, falei para os caras: “vamos fazer esse lance aí com texto, mas vamos colocar fotos também para matar a curiosidade do povo e reunir coisas legais que só ficaram na máquina mesmo”. E deu tudo certo. Mas tem mais fotos que quero fazer, colocar pro pessoal ver. Estou pensando em fazer um álbum de fotografias com as coisas que tenho e publicar.
Daniel — É isso… ter a sua história…
Thaíde — Tem várias pessoas com fotos minhas, entendeu? Espalhadas por aí. Estou pensando em fazer um catado dessas coisas e fazer um álbum de fotografias, colocar data e tal. Mas algumas vão sem data, com certeza, porque a gente não lembra mais.
Tacioli — O processo do livro demorou muito tempo? Como foi?
Thaíde — Demorou um pouquinho porque o César, que escreveu, tinha que ir a alguns lugares comigo, acompanhando, e a gente ia conversando e tal. Por exemplo, quando o Eduardo falou do livro, não achei legal [ n.e. João Eduardo Oliveira, da Labortexto Editorial ]. Falei, “Mas sobre o quê?”. E ele, “Sobre você”. Aí eu disse, “Mano, fazer um livro falando de mim? Prefiro fazer musica então, para as pessoas saberem um pouco de mim, da minha história”. Mas ele me convenceu, também lembrei de alguns livros que li, e aí fizemos o livro. Porque, por mim não faria o livro não. O que é errado, porque depois morre e não fez livro e aí como vai contar a história. Mas gostei da experiência. A gente vai fazer mais um. [risos] Já estamos armando.
Tacioli — Thaíde, no começo da entrevista você dizia que esse caos de São Paulo te alimenta e você precisa dele. Quando você precisa de silêncio, para onde você vai? Onde você busca esse silêncio?
Thaíde — Na minha casa. Tranco tudo, fico com a minha filha e se ela não está, fico sozinho. Rola um som, assisto desenho, jogo videogame, leio gibi, fico na varanda, medito um pouquinho, ouço Bob Marley [risos] e fico na minha, sossegado na moral. Não tem esse negócio. Por exemplo, não viajo pra tirar férias, não viajo para descansar. Até precisei de um tempo pra viajar, ficar de boa, mas apareceu um trabalho…
Tacioli — Você precisou por que? A máquina estava castigada?
Thaíde — Estava, estava ruim. Passei por um momento difícil, mas graças a Deus já passou. Já era. Mas de repente apareceu um trabalho em Floripa, entendeu? E fui, fiquei lá três dias e, pronto, está bom; pra mim já está ótimo. Não tem esse negocio de um mês de férias. Não tem como, cara. Não sou a pessoa mais trabalhadora do mundo, mas também não sou a mais preguiçosa. Se ficar num lugar sem fazer nada vou procurar coisas para fazer. Então fico por aqui mesmo. Quer sossego? Vai para casa, tranca tudo e fica de boa.
Tacioli — Você gosta de praia?
Thaíde — Gosto.
Tacioli — Se tivesse praia aqui em São Paulo aconteceria o rap?
Thaíde — Tem praia em São Paulo, só que é longe. [risos]
Max — Você estava falando da sua filhinha, quantos anos ela tem?
Thaíde — Quatro anos, a Maya. E tem uma outra de doze.
Max — De doze, já?
Thaíde — A Tamires.
Max — Pois é, elas estão crescendo em uma cidade onde não têm espaço para curtir a rua, curtir o que você pode curtir. Como você vê isso?
Thaíde — Faço questão de fazer com que minhas filhas se adaptem a essa nova Era, esse novo tempo.
Daniel — Você não fica protegendo elas?
Thaíde — A proteção é natural, mas não fico com aquele negócio de não pega aquilo ali, não vai ali…
Daniel — Não pega ônibus…
Thaíde — Olha só, minha primeira filha vive com a mãe dela, com o padrasto e vive numa boa, são meus vizinhos e a gente se dá muito bem. Ela é uma menina esperta, inteligente, vai aos bailinhos da escola, aquela parada toda. A minha filha menor, como ela tem quatro aninhos ou ela fica comigo ou com a minha irmã, como ela está agora, e às vezes ela fica com a mãe dela. E ela gosta de fazer amizade, conversa muito, gosta de ir no parquinho, no shopping… porque agora a diversão mudou, na nossa época era rua, agora é shopping, se não é shopping é videogame dentro de casa. Sabe como é, desenho, Cartoon Network. Eles são privilegiados de alguma forma e também não. Porque na nossa época não tinha nada disso, mas a gente ia para rua, jogava pião, bolinha, não é verdade? Brincava de esconde-esconde, pega-pega, policia e ladrão, aquela parada toda. E hoje não tem mais disso não. Tem brincadeiras que eles nem conhecem, infelizmente, e só vão conhecer por histórias. É um privilegio nosso. Por sua vez, eles são privilegiados porque tem videogame, shopping, internet, tem um monte de bagulho. Tem canal só para eles. A gente não, nosso canal naquela época, obrigatoriamente, ou seja, perigosamente, era o quê? Sala Especial! [risos] [ n.e.Sessão de cinema da TV Record, em São Paulo, no qual eram exibidas pornochanchadas brasileiras, sempre de madrugada ] Esse era o nosso programa, entendeu?
Tacioli — Cynira Arruda [ n.e. A jornalista e fotógrafa, que já foi integrante por anos do corpo de jurados do Troféu Imprensa, também atuou em dois filmes, Janaína — A virgem proibida (1972) e Efigênia dá tudo o que tem (1975) ]
Thaíde — Putz! Cynira Arruda… agora você matou a pau! Cara, até a Wilza Carla fez Sala Especial [ n.e. Ela atuou em filmes como Ainda agarro esta vizinha (1974) e As massagistas profissionais (1976) ].
Dafne — Matilde Mastrangi.
Thaíde — Matilde Mastrangi é a mulher do…
Dafne — Magrini, Oscar Magrini.
Tacioli — Você lembra de algum episódio marcante da Sala Especial?
Thaíde — Vários. Marcantes mesmo! [risos] O lençol que o diga! [risos] Ficou marcado para sempre, quer dizer, por alguns dias, né? E hoje vejo essas atrizes, estão todas velhas, de mais idade e lembro que na época… Você vê como o tempo é implacável, mano. Ele não perdoa mesmo.
“O hip hop é minha casa e o rap é meu quintal”
Max — E como você sente o tempo? Como você se vê envelhecendo?
Thaíde — Olha, mano, tem uma coisa que não sei se vou conseguir… mas me vejo fazendo rap, entendeu? Fazendo tudo que gosto de fazer. Quero voltar a dançar break, quero treinar aqui no Garrido [ n.e.: também conhecido como Projeto Viver, na Bela Vista ] e continuar fazendo rap. Quero envelhecer só por fora, na pele. Quero continuar fazendo rap, só isso e mais nada. Quero continuar fazendo a mesma coisa que faço agora.
Max — Sempre procurando novidade.
Thaíde — Sempre procurando novidade, cara.
Tacioli — Você se imaginava, quando mais novo, aos 40 anos?
Thaíde — Não. Lembro que em 1990, em 80 e… vige, não vou me lembrar a data certinha. Na década de 1980. É só fazer as contas. Na rádio rolava assim, “no ano dois mil”, e eu pensava assim, “no ano 2000, com quantos anos vou estar?”. Não me lembro se com 32, 33, uma coisa assim. Não sabia que ia chegar aos 40, porque a estatística era muito mais complicada que hoje. A gente acreditava menos que podia passar dos 30. Hoje não, a gente quer passar dos 60. Isso é maravilhoso.
Daniel — Você lembra qual foi a primeira letra que você escreveu?
Thaíde — A primeira letra que escrevi é uma música que diz assim… é “Minha mina” que escrevi ouvindo “My Adidas” do Run-DMC [ n.e. Primeiro single de Raising Hell(1986), terceiro disco do grupo novaiorquino ]. Foi isso mesmo? Foi. Foi sim, porque depois fiz várias outras, “Consciência”, “(Cláudio) Eu tive um sonho”…
Daniel — Você lembra dessa primeira? Da primeira que você escreveu…
Thaíde — Qual? “Minha mina”? Lembro, lembro sim. Tivemos um problema com essa música na época porque lançamos no disco Pergunte a quem conhece [ n.e. De 1989, lançado pela gravadora Eldorado ] e o Tim Maia não liberou o trecho de “Você”, e a gente teve que se desfazer de algumas peças. Foi aquela edição na gilete e pronto, a música ficou do jeito que está gravada hoje. Mas, na verdade, não lembro qual escrevi primeiro, se foi “Consciência”, “(Cláudio) Eu tive um sonho” ou “Minha mina”. Mas uma dos três foi com certeza. E tinha que escrever em cima de uma música gringa porque não sabia fazer minha própria melodia. Dividir os compassos, entendeu? Hoje sei, graças a Deus.
Daniel — Que equipamentos você dispunha nessa época?
Thaíde — Para escrever ou para fazer show?
Daniel — Para fazer som, as bases, qual que era o equipamento que você tinha?
Thaíde — Olha só. Lembro que na época morava na Vila Missionária e a gente tinha um rádio de pilha, pequeno, preto, daquele tipo que você puxa a antena enorme. Era um rádio deste tamanhinho com uma antena enorme. E a gente colocava na cozinha, em cima da mesa, uma mesa azul que ficava no canto da cozinha, e aumentava o volume para todo mundo poder ouvir.
Tacioli — A gente quem?
Thaíde — Nossa família. E a gente ouvia aquele radinho, pá. E tinha a televisão que a gente assistia direto e os gravadores normais, aqueles pretos quadrados, sabem qual que é?
Tacioli — De mesa?
Thaíde — É. Que abria aqui, assim, e quando apertava era o maior escândalo. Praaaa! [risos] Era uma violência. A gente fala de violência hoje?! [risos] Mas o gravador daquela época, rapaz, era violento. Você apertava e ele praaa! Tinha uns microfoninhos pra ficar cantando e aquela parada toda. E meu tio gravava no 3 em 1, com PSS, que não existe mais.
Daniel — Que é?
Thaíde — A PSS era um sistema do tape deck que você apertava o número e o aparelho ia buscar a música correspondente aquele número. Você apertava o número 5 e ele ia direto. Foi uma revolução quando veio a PSS. Porque a gente tinha que, por exemplo, fazer baile, né? Era fitinha. Era sempre assim, baile no fundo da minha casa era com o 3 em 1, certo? AM e FM, toca discos e o tape deck. E o que a gente fazia? Apertava o botão e já entrava na via certa. No bom sentido, é claro! [risos] O que acontecia? Estava rolando o disco e quando estava perto do final ia lá com o fone de ouvido, ouvia qual era a música da fitinha, dava um pause, quando acabava essa música simplesmente apertava o botãozinho e já soltava o tape deck. Era um bagulho incrível!
Dafne — Mixando.
Thaíde — É, mixando. Era tape e disco e já era, não tinha mais nada. E a gente gravava as músicas do FM, porque, na década de 1980 rolava muita coisa boa na Bandeirantes FM como os programas de equipe de som da Chic Show. Então a gente gravava muita coisa e era novidade na época, né? O Grandmaster Flash lançou… puxa não vou lembrar o nome da música. Só sei que não era “The message” [ n.e. Sucesso de Grandmaster Flash & The Furious Five, lançado em 1982 ]. “The message” é ótima, mas depois ele lançou outra e a gente gravava sempre do rádio e rolava no baile. E ninguém reclamava, inclusive era uma festa muito louca, a gente pegava umas luzinhas assim, lâmpadas pequenas, colocava por dentro do pano da caixa acústica, ligava no falante e ela ficava pum pum pum, aquilo era incrível! Imagina no fundo de um barraco, numa favela, acontecendo uma festa dessa com luz na caixa acústica, luzinha em cima e tudo mais. Meu tio, Zé Carlos, que fazia esses bailinhos e eu junto, lado a lado.
Tacioli — E a vizinhança?
Thaíde — Adorava!
Daniel — Mas seu tio já era DJ?
Thaíde — Não era DJ, mas gostava de música. Quer dizer, gosta. Então ele gravava as fitas, comprava os discos, pegava emprestado, essa parada toda. Mas o que a gente tinha na época de tecnologia era isso. Nem comparação… nem sonhava que poderia ter tudo que tem hoje aqui de tecnologia, por exemplo. A gente usava em show nessa época, quando começou a fazer show, um tape de rolo. Acho que era Akai, grande assim… e o tape tinha um defeito, não sei o que acontecia que ele precisava de uma outra peça que não tinha. Então, o DJ Hum pegava um grampo de cabelo, abria e colocava entre o cabeçote e uma outra peça, e o rolo falava. Pra fazer o rolo parar de falar era só tirar o grampo.
Daniel — Grampo falante.
Thaíde — Pum! Já era.
Daniel — E o que era top que vocês ouviam falar de equipamento na época?
Tacioli — Ah, tá! Pensei que era 3 em 1. [risos]
Daniel — Não, não. O top dos caras que já faziam show, já faziam baile e tal.
Thaíde — Então, tinha o Garrard que era um toca disco muito bom, só que era muito simples e que a gente chamava de Madeirinha porque a base dela era de madeira. Tinha correia, mas também um esquema de retorno muito bom. Não tinha aquele negócio de puxar o prato e ele morrer pra voltar na velocidade. Era instantâneo. Sem dúvida, Garrard foi uma das primeiras salvações dos DJs de periferia. Os caras tocavam nela. Agora o primeiro Technics que vi na minha vida, por incrível que pareça, não foi com o cara de hip hop. Foi com um cara que gosta de hip hop, mas faz rock. Foi na casa no Nasi [ n.e. Do Ira! ]. Estava na casa dele quando vi aquele toca disco, com aquela torre, aquele monte de bagulho com luzinha do lado, apertava e parava um bagulho, fiquei doido. Falei, “mano, o que é isso aqui?”, e ele explicou, “é um toca disco”. Ai que fui me ligar que nos filmes já rolava esse tipo de equipamento e pensei em como nós éramos atrasados. Hoje não, graças a Deus muita coisa que é lançada no mundo é lançada aqui também. Muita coisa, mas não todas as coisas. Quando a gente ia imaginar um disquinho pequininho assim a laser? Quando comprei meu primeiro aparelho de CD, meu amigo… Ave Maria, pelo amor de Deus! E era 4 em 1 ainda, era CD, tape deck, AM, FM e toca disco. Fiquei doido, espalhei pra todo mundo que tinha comprado. Todo mundo ia lá em casa pra ver o aparelho. Hoje, o iPod tem duas mil e oitocentas músicas e cabe mais, e ainda tem foto, filme, videoclipe, um monte de coisa. E ando com ele no bolso que até esqueço. Naquela época, amigo, era complicado. Não tinha nem videocassete pra gente, por exemplo. Não tinha aquele lance de se reunir para assistir um filme no final de semana. Era sempre alguém que tinha e a gente ia pra casa daquele alguém pra usufruir coletivamente. Era difícil.
Max — Teve algum momento, nessas dificuldades todas, que você pensou em desistir? Que baixou a…
Thaíde — Pensei sim.
Daniel — Arrumar um trampo, pagar as contas…
Thaíde — Pensei sim, pensei. DJ Hum também pensou. E foi daí que surgiu “Corpo fechado”. A gente pensou que nada ia acontecer, tava no ônibus indo para casa dele lá em Guarulhos, e aí surgiu a idéia de fazer um disco pela Eldorado, a idéia de escrever “Corpo fechado” e tudo aconteceu. Pensei mesmo, “mano, não tá dando em nada, preciso trabalhar, correr atrás, realmente está embaçado mesmo”.
Dafne — E depois? Depois que negocio engrenou, sempre tem os altos e baixos, o disco não rola…
Thaíde — Existem alguns momentos que você pensa que está perdido e nada vai acontecer. E você realmente pensa em fazer besteira, entendeu? Acredito que alguma coisa não me deixou desistir. Mas existiram vários momentos e não foi só nesse tempo aí. No ano passado [2006], queria desistir de muita coisa mesmo. Porque minha vida pessoal não estava boa, não estava legal, e pra mim uma coisa afeta a outra. Quero estar bem em todas as coisas, profissionalmente e pessoalmente também. Para que uma coisa possa alimentar a outra.
Dafne — E estar afetado pessoalmente impacta no teu trabalho assim?
Thaíde — Afeta. Por exemplo, se estou muito triste, com muitos problemas, não consigo escrever uma boa letra. Tem gente que precisa estar triste. O Lino Krizz [ n.e. Cantor e compositor, integrou o grupo Os Metralhas e fundou, ao lado do DJ Hum, o grupo Motirô] diz isso, que tem que estar triste para escrever uma boa letra. Eu não. Escrevo melhor com raiva que triste. E ultimamente, bicho, estou ficando mais triste do que com raiva. Queria ficar mais com raiva do que triste. É mais fácil.
Max — O que está te deixando triste?
Thaíde — Ah, muita coisa! Coisas pessoais, mas uma hora isso… já está passando. Vamos dizer que agora só falta tirar os pontos. [risos]
Daniel — Como é que foi que começou sua amizade com o DJ Hum?
Thaíde — Não gostava de dançar em baile, como falei pra vocês, gostava mais de dançar na rua.
Daniel — Que época que foi isso?
Thaíde — 1984, 1985, por aí. Os caras da Back Spin Crew falaram, “olha, tem uma casa da hora lá em Moema, chama Archote e lá toca break”. Falei, “toca break mesmo?”, e eles, “toca new wave, essas paradas”. Falei, “então, mas também toca break?”. [risos] E aí fui nesse dia e falaram, “tem um cara, um DJ chamado Humberto, que toca umas porradas”, e me apresentaram o Humberto. Pensei, quero ver se esse cara toca uns bagulhos da hora mesmo. Era uma casinha pequena, mas era legal, tinha uma pista colorida com luzes por baixo assim, muito legal. Aí, rapaz, de repente ele foi ao banheiro e fui também. Aí cheguei lá, olhei pro pé dele, ele tava com um tênis da hora, e falei, “muito louco esse tênis aí!”. [risos] “Cuidado”, falei pra ele. Ele falou, “Quê? Vai querer me roubar, bicho?”. Aí fiquei olhando, ele ficou olhando também, e deixei para lá. Conto isso no livro também. Aí a gente subiu pra lanchonete e trocamos uma idéia da hora. Comecei a colar todo domingo na Archote, fizemos uma amizade legal. Aí teve o lance da morte do Cláudio, fiz a letra e ele pegou uma base do DJ Jazzy Jeff & The Fresh Prince, que hoje é conhecido como Will Smith [ n.e. DJ Jazzy Jeff & The Fresh Prince era uma dupla formada por Jeff Townes e Will Smith ], e fiz o som em cima da “Jeannie”. Não sei se vocês se lembram. Não é “Jeannie”, a gente chamava assim pois o cara usou a melodia… mas não vou lembrar… acho que o nome da música é “Trouble”, uma coisa assim [ n.e. O nome da música é “Girls ain”t nothing but trouble” e sua base foi sampleada do tema do seriado Jeannie é um Gênio ]. Fiz a parada e de lá para cá começamos a conversar sobre música. Dois anos depois fechou a Archote, e um tempo depois rolou a festa My Baby no espaço Mambembe, que era ali no Paraíso e que, infelizmente, não existe mais. Quem organizou a festa foi o Nasi, o André [ n.e. André Jung, baterista do Ira! ] e o Escova. Eles me convidaram pra fazer o som e lá fui eu fazer. Nessa época tinha um parceiro, era o Anderson, que dividia as rimas comigo e pá. A gente foi fazer o som, o pessoal gostou, e fomos no estúdio do Nasi e do André, fizemos um som da hora, pá. Também com o pessoal do Fábrica Fagus [ n.e: Grupo liderado por Márcio Werneck que lançou apenas um disco, E o circo pega fogo, produzido por André Abujamra em 1992 ], que era uma banda muito legal que a gente conheceu na época. Fizemos um som, era “Consciência” , que saiu no meu primeiro disco e teve participação do Nasi. O pessoal gostou. Só que nesse dia o Nasi não participou, quem tava era o Anderson, e a galera gostou, pediu bis e aquela parada toda. Aí pensei, “pô o bagulho é louco mesmo, dá para fazer um bagulho da hora”. Nesse dia estava o Pena…
Tacioli — O Pena Schmidt? [ n.e. Multihomem da cena musical paulistana; já foi técnico de som, coordenador de palco, produtor das gravadoras WEA/Warner, Sony, Som Livre, Continental e Velas; na década de 1990 criou o selo Tinitus; nos últimos anos, fora sua própria produtora, trabalha como diretor artístico do Auditório Ibirapuera ]
Thaíde — É, ele perguntou para mim se não queria fazer a música virar uma bolacha… aí é que falo pra você, mano, porque tem coisas que a gente faz sem pensar, mas que acaba fazendo certo. Respondi não na época. E nem sabia, por exemplo, o peso da resposta que estava dando pra um cara representante de uma gravadora que na época era a maior do país. Eu estava dizendo não, tá ligado? Por isso digo que minha pretensão não era ganhar dinheiro com o hip hop na época, era aprender a desenvolver o hip hop. Aí sim, fazer uma coisa legal. Essa era a minha intenção e falei pra ele assim, “prefiro não fazer porque não quero fazer um disco só, quero vários, e tenho que aprender algumas coisas”. Cheguei no camarim, meu amigo, falei isso pr”os caras… uns me jogaram pra cima, outros me jogaram pra baixo, mas sabia que inha feito a coisa certa. Tenho certeza que iria ficar só naquele disco, tenho certeza absoluta! Seria uma rima mal feita, uma base mal produzida, uma letra mal desenvolvida e uma história mal contada. A melhor coisa foi esperar o tempo certo chegar. Aquele lance de não ver o hip hop como negócio valeu muito, valeu muito mesmo. E aí, o DJ Hum estava lá sentado… não sei se vocês conheceram o Mambembe, era legal, as arquibancadas eram como escadas, era um teatro legal, e tinha a parte da frente do palco que parecia uma pista, um bagulho muito legal, foi uma festa muito louca, muito louca mesmo… e aí o DJ Hum, o DJ Humberto estava sentado lá e falei para ele, “aí, Humberto, estava a fim de fazer um trabalho mais profissional, até recebi um convite de uma gravadora para fazer um disco e recusei; o que você acha da gente fazer um disco pra colocar na rua, pá”. Ele falou, “legal, vai ver dá certo, mas não sei fazer scratches”. Falei, “legal, também não sei rimar direito, então a gente aprende e na hora certa faz”. Firmeza. E foi aí que surgiu a dupla Thaíde e DJ Humberto, porque DJ Hum surgiu depois da São Bento, foram vários debates até surgir o nome DJ Hum. Era DJ Livi? Como era? DJ Uma, DJ Beto, teve um monte de nome, um monte.
Tacioli — DJ Hum veio dele?
Thaíde — Acho que foi ele que falou… DJ Hum porque vem de Humberto. DJ Hum! Hum pode ser de número um. E ai surgiu a duplo Thaíde & DJ Hum. já existia antes, DJ Hum chegou depois pra fortalecer.
Tacioli — Como você lidava com outros gêneros, outros grupos? Sei lá com os punks de São Paulo, com os rockers…
Thaíde — Olha só como foi a situação. Alguns punks sempre respeitaram a gente, sempre. A gente teve envolvimento com alguns punks… o Crânio, por exemplo, que já faleceu, era respeitado e tal e colava com a gente direto. Tem até fotos dele com a gente na São Bento… nem sei onde foram parar essas fotos. Alguns carecas mais conscientes também respeitavam. A capa do nosso primeiro disco foi feita por um punk. Então, a gente tinha uma relação boa com essa rapaziada, nunca teve atrito não. Sempre respeitei outros músicos porque gosto da música em si. Sempre achei interessante a maneira de se fazer música, sabe? Cada um fazer. O embolador com o pandeiro, o rockeiro com a guitarra, sabe como é? Os caras do samba com os seus instrumentos. Sempre achei muito interessante. Nunca tive esse tipo de problema não.
Tacioli — Mas tinha algum espaço que vocês não transitavam em São Paulo?
Thaíde — Por incrível que pareça, cara, quem começou a abrir as portas pra gente se apresentar foi o circuito underground, não foi a periferia. Porque a periferia não entendia o que estava acontecendo, entendeu? E o underground tinha o circuito de shows, tinha o XPTO que usava muito o lance de elementos de teatro. Na verdade era um show teatral, então…
Daniel — XPTO, a companhia de teatro?
Thaíde — É, o XPTO. Sempre gostei muito do trabalho deles, uma coisa muito plástica mesmo, muito louca. E eles começaram a abrir espaço pra gente se apresentar, entendeu? Lembro que o Rose Bom Bom, que era aqui perto e não onde é hoje [na Vila Madalena], fez uma revista chamada Reflexo e tocamos no lançamento, então não tinha esse negócio. Teve lançamento do Região Abissal no Madame Satã. Então, nunca teve esse lance não.
Dafne — Você faria outro tipo, outro gênero de música que não rap? Você se imagina fazendo?
Thaíde — Faria desde que meu canto fosse rap. Porque o rap é a maneira como se declama a poesia, né? E não necessariamente o ritmo. Posso fazer rap com samba, forró, funk carioca, frevo… com qualquer ritmo posso fazer rap, é a maneira como vou falar.
Tacioli — Você menciona ali no livro o samba de breque. Seria um estilo que se não existisse o rap, você poderia…
Thaíde — Com certeza, porque acho que ele tem mais a ver com nosso estilo de música, até pelo tema que eles usam. A maneira de parar o som pra falar, pra concluir a história, é como se estivesse dando, realmente, importância pra quem está ouvindo. É pra realmente todo mundo entender direitinho. Inclusive acho que a idéia do samba de breque foi essa. Acho que o povo mais elitizado não entendia tanto o samba, que eles falaram assim, “peraí, vamos fazer esse povo entender”. Aí começaram a fazer essas pausas pro povo entender melhor. Tem aquela do Cabo Laurindo que falava assim… [canta] “quando o Cabo Laurindo apitar, o que será da minha sina, eu malandro alinhado, como posso fugir, Nossa Senhora, como tem tubarão!”. [risos] E assim ele explica o que vai acontecer [ n.e. Cabo Laurindo é um personagem que esteve presente em vários sambas da década de 1940 e 50; Wilson Batista, por exemplo, o colocou em “Lá vem Mangueira”, “Comício em Mangueira” e “Cabo Laurindo”, esta gravada originalmente por Jorge Veiga ]. Acho um bagulho bem louco. E o rap tem isso daí. Como o rap é falado as pessoas entendem melhor. As gírias. Lógico!
Tacioli — Mas você já pensou em gravar algum samba de breque ou chegou a gravar? Não sei.
Thaíde — Não. Acho que…
Tacioli — Você acha que é muita irreverência?
Thaíde — Acho que… como posso dizer? Acho que tem coisas que são, como diria o antigo ministro, “imexivéis”. [risos] Tem coisa que tem que ficar daquele jeito. Tem regravações, por exemplo, que a música original é melhor e vice-versa, sabe? Agora tem músicas que nem o cara fazendo… [pausa longa] de qualquer maneira não vai ficar boa. A original é mesmo melhor. Por exemplo, posso samplear uma frase de uma música conhecida pra compor a minha. Mas sempre tento fazer alguma coisa diferente. Por exemplo, participei do disco daquele carinha, daquele músico que a gente foi lá em Pinheiros, naquela casa lá, no Alto da Lapa?
Max — Edvaldo Santana.
Thaíde — Edvaldo Santana [ n.e.Thaíde participou da faixa “Chacina” (Edvaldo Santana e Arnaldo Antunes) no disco Reserva de alegria, em 2006 ]. Fiz um som com ele, fiz um som com o Chico César e o Nelson Triunfo [ n.e. Na faixa “Desafio no rap embolada” do disco Assim caminha a humanidade, que Thaíde & DJ Hum lançaram em 2000 pela Trama ], fiz um som com o Nasi. Com Jota Quest, forró, pagode. Sempre estou querendo fazer o meu rap em sons diferentes, acho que vale muito a pena.
Tacioli — Você não tem… qual é o limite?
Thaíde — O limite é fazer um rap mal feito. Acho que esse é o limite. Já fiz com axé, por exemplo.
Tacioli — Com quem?
Thaíde — Carla Cristina [ n.e. Thaíde participou de “Querendo paz”, a música que encerra o disco Coisas do axé — Ao vivo, lançado pela gravadora Atração em 2006 e o segundo solo da ex-vocalista das bandas As Meninas e Papa Léguas ].
Tacioli — As Meninas?!
Dafne — Grande Carla Cristina!
Thaíde — Grande mesmo! [risos]
Daniel — Porque você topou esse convite?
Thaíde — Porque acredito que a música, o rap, pode se encaixar em qualquer outro ritmo desde que você faça isso com respeito. Se alguém do carimbo, sabe? Pinduca, o Rei do Carimbó, me liga querendo fazer um som… eu vou, sem dúvida. Porque quero que meu estilo de música se popularize pra que um dia a gente possa ter um festival de música e o rap esteja incluído. Nem precisa ser o rap original do hip hop, pode ser um rap modificado, um rap mais moderno, um rap onde tenha mais uma cadência de samba com bossa nova, ou qualquer coisa parecida. Porque aí ele se torna mais popular e mostra que existem várias maneiras de fazer rap. E é isso que quero mesmo, não quero que o rap seja só tocado em festa de hip hop, tem que ser em qualquer festa, qualquer lugar. Acho que tem que ter vários estilos mesmos. Por exemplo, o Rappin Hood faz uma mistura com rap e samba muito bem feito, o Marcelo D2 também. Queria que o pessoal de Recife fizessem uma mistura do rap com repente, essa parada toda, e também fossem mais reconhecidos. E assim vai.
Dafne — Você falou agora que, no começo, o rap teve mais espaço no underground do que na periferia. Há um tempo, sei lá um mês atrás, estava conversando com um amigo e ele começou falando sobre Racionais, que era uma bosta, mas generalizava para o rap brasileiro de um modo geral. Falando que não era ouvido na periferia, que ouvia pagode, axé, mas não rap.
Thaíde — Acho que não existe lugar que ouve mais rap que a periferia. Agora, se ele tiver citando vendagem de disco, posso até concordar porque a maioria compra pirata, copia da internet, aquela parada toda. Mas acho que não existe lugar que ouve mais rap que a periferia, e de qualquer parte do país. A gente ouve rap de madrugada, com raiva, sono, fome, sede, quando está a pampa, quando está triste, quando está alegre, toda hora é hora de ouvir rap. E é sempre misturado com forró, pagode, entendeu? E tudo junto, não tem jeito.
Dafne — Pois então, acabei ficando irritado…
Thaíde — Não precisa. Não exagera. [risos]
Dafne — É que depois comprei o DVD dos Racionais [ n.e. 1000 trutas, 1000 tretas, Cosa Nostra, 2006 ], com um show lá no SESC Itaquera e tinha muita gente, todo mundo cantando todas as músicas. Letras gigantescas e todo mundo cantando.
Thaíde — Racionais. Porque os caras fazem música boa, com temas polêmicos, que incomodam as pessoas, e o público gosta disso. Eles tem seguidores no país inteiro e são muito respeitados. Agora, existe esse lance do comentário de pessoas que dizem que o rap não é isso, não é aquilo, mas respeito porque de uma forma ou outra elas se sentem atingidas por isso também, de alguma forma. Ou elas se sentem atingidas pelas letras, ou pela popularização do estilo musical, ou não queriam que o gênero fosse popular assim, mas é, e aí vem esse descontentamento.
Dafne — Uma negação.
Thaíde — É, e a gente vive num país que não pode viver no clichê de ser democrático, tem que ser democrático mesmo! Acho que ele está certo, se é essa a opinião que ele tem e acredita, acho que tem que defender até o final, porque sempre vou defender que ele tá errado e é ignorante em termos de música.
Max — Você tinha falado que a raiva te impulsiona a escrever… tem alguma coisa que está te subindo pela garganta, dando nó na garganta…
Thaíde — Com certeza. Se falar não tem graça, quando lançar a próxima música você vai se ligar . [risos]
Daniel — Então canta.
Thaíde — Vou escrever ainda. Mas você pode pegar, por exemplo, uma música… “Então toma”, escrevi com uma fúria tremenda. É a primeira música do disco Apenas, que começa com uma fúria tremenda. A raiva, ela faz isso mesmo.
Daniel — Você pode falar um trechinho?
Thaíde — Um trechinho? Vou cantar ela toda porque só tem uma parte.
Daniel — Então vai.
Thaíde — Pode espalhar a noticia, vai dizer que eu tô aqui. Não importa quem me ouve, o importante é me ouvir. Vou mandando meu recado pro playboy, pro favelado. Para todos que adiantam ou atrasam o nosso lado. Se perguntarem por mim, digam que eu estive aqui. Se acaso for um Steve [n.e. polícia ], digam que não estive aqui, ele não gosta de mim e nem eu dele também. Ele só quer me reprimir e me mandar para o além. Isso foi sempre assim, sempre destroem alguém. Final das contas vai prestar conta e vocês sabem com quem. Tem os problemas da rua, tem os problemas de casa, tem uma pá de tesoura que quer cortar minha asa, tem uma pá de alegria que quer me deixar triste. E o meu único crime é ter o nome Thaíde. Sei o que você pensa e o que você quer. Quer meu ódio, quer meu sangue, quer a minha mulher. Não acredita em azar? Então tenta a sorte, mané! Sou a paz, sou a guerra, qual das duas você quer. Sou herege, tem sempre um guia que me protege. Agradeço com respeito a graça que me concede. Meus inimigos enfraquecem, caem no chão. Quando me ouvem no rádio, me vem na televisão. Inventam motivos, só para reclamar. Mas todos queriam ou querem estar no meu lugar. E vão tentar de todas as maneiras, eu sei. Esfregar minha cara na lama, eu sei. Nenhum, nem dois, nem três, nem quatro, eu sei. Pode vir que estou no apetite também. Não faço rap só por fama e dinheiro. Talvez por isso seja assim tão verdadeiro. E se tenho noção dessa verdade, amizade, não sou treze nem vinte e seis. Venha com seu dinheiro. A metáfora que mando lhe cai bem, como enfrentar o poder se não tiver poder também. Muitos fazem rap só para impressionar, não incentiva esperança na molecada. Querem que eu seja mal, na verdade ruim. Sabem que eu sou começo e querem o meu fim. Querem que eu seja um homem fraco e sem lemas. Quando o que eu quero é ser Thaíde apenas. Pra falsidade e pra falta de respeito, entre o indicador e o anelar eu mostro o dedo. Pra aqueles que querem em me dar tiro no peito, entre o indicador e o anelar eu mostro o dedo. Se pensa que por ser pequeno eu tenho medo entre o indicador e o anelar eu mostro o dedo. Para quem me olha torto, vê direito entre o indicador e o anelar eu mostro o dedo. Aqui para você! Eu mostro o dedo! Essa é a música . [risos]
Max — Estava puto mesmo, cara! [risos]
Thaíde — Não foi nem um terço do que queria, mas foi . [risos]
Dafne — Tem alguma coisa que te incomoda no Brasil como está agora?
Thaíde — Sempre falo o seguinte… acho que a falta de respeito é a base de tudo que acontece de ruim no mundo inteiro. A gente vem sofrendo com falta de respeito há muito tempo. As pessoas tentam disfarçar com uma coisa ou outra, mas a falta de respeito está sempre levando a gente a fazer besteira, sabe? O político não respeito o cidadão, a polícia continua fazendo a mesma merda que sempre fez. Pela falta de respeito, por exemplo, eu poderia não estar aqui agora conversando com vocês. Pela falta de respeito, vocês poderiam distorcer tudo o que estou falando, entendeu? Então, acho que a falta de respeito é uma coisa que atrapalha muito. E é por isso que falo esse monte de coisas. Porque… podem dizer o que for… que é a miséria, a violência, a ignorância, podem dizer o que for, o que quiser, mas a base de tudo é a falta de respeito. Se tivesse um pouco de respeito as coisas seriam melhores, sem dúvida.
Tacioli — Mas você acha que o rap acontece mais em países com desigualdades sociais mais contundentes?
Thaíde — Com certeza. Tem muito mais verdade pra contar, tem muito mais sofrimento para dividir com as pessoas, entendeu? Então, quer dizer, não tem aquele negócio que a gente sempre fala que a melhor coisa quando você está chorando é ter um ombro amigo? Muitas vezes você vai buscar o ombro de milhares de pessoas no mundo inteiro através da sua música, é assim que acontece.
Tacioli — Se vivêssemos no paraíso o rap não existiria?
Thaíde — Aí ia falar de paraíso, de coisas ótimas. Mas iria chegar o momento que a gente ia ficar tão de saco cheio de coisas ótimas que a gente ia querer quebrar tudo para deixar o caos e ter uma coisa diferente pra falar. Mas, aí é que está o negocio, acredito que isso é equilíbrio mesmo. Acho que tudo isso de ruim que tem é para gente ver o quão bom a gente ainda é, que a gente ainda pode respeitar as pessoas, que coisas boas ainda podem acontecer se a gente quiser, entendeu? Porque se a gente fosse ruim mesmo, o mundo já tinha acabado. É que existem coisas e pessoas ruins, mas são as pessoas boas que fazem um país continuar, o mundo continuar. Por exemplo, isso que a gente está fazendo é muito bom! A gente está reunido, trocando idéia, gravando tudo, pá. Aí, daqui a pouco, todo mundo vai sair e continuar na mesma batalha. Mas amanhã, se tiver que se reunir, a gente se reúne de novo. Prefiro continuar assim, fazendo coisas boas e enfrentando as coisas más, do que fazer as coisas más e enfrentar as coisas boas.
Daniel — Você nunca ficou tentado a fazer coisas más?
Thaíde — Com certeza, várias vezes, hoje mesmo. O ser humano é assim.
Daniel — Não era contra a gente, não né?
Thaíde — Não vou responder não, cara. [risos] Claro que não! Mas são coisas do dia-a-dia mesmo que você fica pensando “poxa vida”. Oh! Uma coisa que penso toda hora, “Deus não dá asa a cobra, mas dá língua grande ao burro” [risos]; Às vezes fico pensando, se não fosse uma pessoa conhecida já tinha feito muita merda. É que graças a Deus sou uma pessoa pública, tenho filhas, entendeu? Isso me faz pensar muito. Graças a Deus.
Tacioli — Faz pensar? Assim na hora do… vem a imagem…
Thaíde — É, cara. Porque fico pensando assim, “vou aprontar uma agora que vai ser foda”. Mas aí, “vou jogar tudo que conquistei até agora pela janela? E as minhas filhas, como é que vai ser? E o orgulho que elas sentem de mim?” Aí deixo quieto. É até melhor e agradeço porque Deus me fez conseguir esse destaque todo.
Dafne — Como surgiu o primeiro convite pra você trabalhar como ator e como é que… porque assim o Majestade… Majestade não, porra…
Thaíde — Obrigado, obrigado. Não chega tanto. [risos]
Dafne — Diamante, é Diamante… é que na cabeça veio o Carandiru. [risos] O Diamante foi unanimidade nas críticas de Antônia, você estava muito natural… como é pra você essa experiência de atuar [ n.e. Thaíde interpretou o empresário Marcelo Diamante nas duas temporadas da minissérie e no longa-metragem Antônia, produzidos em 2006–07 pela O2 Filmes em parceria com a TV Globo; Majestade é o personagem do ator Ailton Graça no longa Carandiru ]?
Thaíde — Então, bicho, foi surpreendente mesmo. Porque participei de um curta chamado Luci Puma — A Gata da Pesada, lá na época da São Bento, onde atuei pessimamente. Aí teve um filme que o Netinho de Paula ia fazer, mas acabou não fazendo. Mas meus testes também foram péssimos.
Tacioli — Sobre o que era?
Thaíde — Era um filme falando sobre tretas , entendeu? Um carinha… aquela velha coisa né? Um carinha que é bandido, um outro que é mais a pampa e que tem o dinheiro e que namora com a mina que o bandido gosta. História inédita, história inédita. [risos]
Daniel — E quem era você?
Thaíde — Eu era violento.
Dafne — Violento?
Thaíde — Violento. Eu era um cara envolvido na parada, entendeu? Fiz uma cena, um teste que era com revolver, e tive que pegar um cara e encostar… era até o… qual era o nome dele? Robson Nascimento, é isso? Era um ator que até teve um problema sério de saúde…
Dafne — Norton Nascimento [ n.e. O ator paraense morreu em 21 de dezembro de 2007, aos 45 anos, devido a problemas cardíacos ].
Thaíde — Norton Nascimento, gente boa para caramba. Mas o filme não rolou. Quando veio esse convite do Antônia o bagulho foi assim… na época era casado com a Quelynah, que faz a Maya no filme, e fui levar nossa filha no ensaio dela… nossa filha se chama Maya, por isso que ela escolheu esse nome para a personagem, pra fazer uma homenagem, aquela parada toda. E o Pena, o preparador do elenco falou, “você não quer fazer o teste? Vamos fazer o teste!”, aí falei, “não sendo de DNA, vamos”. [risos] Fizemos o teste e ele gostou. Até então o cara ia se chamar Marcelo, ia ser o lance do empresário e tal, mas pensei, “Marcelo? Mas é um nome tão simples, né? Podia pensar em outra coisa. Essas pessoas querem brilhar, querem chegar e acontecer”. Aí joguei o sobrenome Diamante e deu muito certo. Inclusive, outro dia, uma menininha falou assim, “oh, mãe, olha o Diamante” e a mãe falou assim, “é aquele safado que queria enrolar as meninas”. [risos] Como se fosse realmente o cara. Cheguei lá em Heliopólis, fui descer do carro e uma cabeleireira falou assim, “não gostei do seu papel não, viu? Querendo enrolar as meninas”… falei, “calma gente, aquilo lá é ficção, é outra pegada”. [risos] Isso mostra que as pessoas realmente…
Max — Se envolvem, né?
Thaíde — É. Viram o Diamante, entendeu? Gostaram e não gostaram do que ele estava fazendo, e isso quer dizer que ele estava chamando atenção de todo mundo. Ganhei um prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival de Goiânia…
Daniel — Que legal.
Thaíde — Isso é ótimo. O troféu é muito bonito e o cinema onde rolou a parada, muito bonito também. E uma moedinha que é para ajudar. Mas, sinceramente, estou muito surpreso com o Marcelo Diamante, porque sempre falei que não sou um cara pra ser ator. Então, acho que o que fiz ali foi atuar pegando um pouco das minhas experiências com alguns agentes por aí, alguns picaretas e tal. E também colocando um pouco do que sou, desse meu raciocínio que tem sempre uma resposta pronta para tudo. E aprendi que, por mais que a situação esteja difícil, desistir é uma coisa que se pode até pensar, mas não exercer, entendeu? Então, são coisas que tentei colocar no personagem.
Daniel — E você chegou a improvisar? Ou o texto era…
Thaíde — Podia mudar o texto tipo, “isso aqui não fica legal” ou “ele não falaria assim”, então teve muita liberdade mesmo. O legal é que tinha sempre o Pena, ou a esposa dele, a Silvana, pra dizer, “olha, é uma cena tensa, você não pode rir como você tá rindo”. Foi sempre legal, muito legal.
Tacioli — Essa exposição no cinema e na TV trouxe alguma novidade pra você em comparação com a do trabalho musical?
Thaíde — Claro, com certeza. As pessoas me respeitam muito mais como artista, começa por aí. Já me respeitavam como músico, mas agora me respeitam como artista um pouco mais completo, aquela parada toda. Muitos me chamam de ator. Me apresentam “esse aqui é o músico, escritor”, porque tem o livro, “e ator”, e fico esperando só para ver o que vão mandar mais. Pode mandar mais.
Max — Só faltou apresentador de TV.
Thaíde — É. Já me mandaram essa mesmo, “ele é ator, produtor, escritor, musico”, sabe? E aí vai, fico na minha, quanto mais falar melhor. Também tem aquele lance que hoje sei que posso fazer mais um trabalho, posso me beneficiar disso também, que é justamente esse lance das artes cênicas. Mas não tenho, nem passa pela minha cabeça dizer que sou ator, que sou o ator Thaíde. Nada disso. Acho que sou uma pessoa que chegou e atuou bem no filme, tá entendendo? Porque ator mesmo é o Lima Duarte, é o irmãozinho lá que vez Madame Satã…
Daniel — Lázaro Ramos.
Thaíde — Lázaro Ramos. Esse cara hoje, na minha opinião, é um dos grandes da atualidade. Sou um grande fã do trabalho dele. Então para mim, ator é ele, é Lima Duarte, são pessoas que já estão aí e que chegaram dizendo, “sou ator e posso provar”. Eu não, sou um músico que se deu bem atuando no filme, entendeu? E que ganhou prêmio de melhor ator coadjuvante, é claro.
Tacioli — Já pintou outro convite?
Thaíde — O Bruno Barreto me convidou para o Caixa Dois, mas fiz só um “oi” ali com a Zezé Polessa. Foi uma cena rapidinha mesmo. Eu não vi ainda, acho que não ficou muito bom não. Estava nervoso, tenso.
Tacioli — E essa exposição que você teve na MTV, frente às câmeras, te ajudou?
Thaíde — Ajudou. Porque no estúdio era aquele lance de… é só você e a câmera, mas esquece que é a câmera e que a gente está aqui. Você vai estar falando para milhares de pessoas e tem que estar o mais a vontade possível e tal. Então, acho que isso daí ajudou bastante. Porque em algumas cenas que a gente tinha que refazer com o ator, quer dizer, fazer com o ator e depois, refazer com a câmera aí você tinha que lembrar da MTV mesmo, não tinha jeito.
Max — Como foi sua experiência na MTV? Como você vê a MTV?
Thaíde — É pra falar bem ou não? [risos] Gosto de muita gente na MTV…
Tacioli — Abre seu coração. [risos]
Thaíde — No bom sentido. [risos] Conheço e gosto de muita gente na MTV, sem dúvida nenhuma. A MTV me abriu as portas pra muita coisa. Até pra esse lance de atuar. Isso de ficar cinco anos em frente de uma câmera foi uma coisa que me ajudou bastante. Mas não posso dizer que a MTV tem um bom espaço ou dá um bom espaço para o hip hop. Não tem nem como dizer isso, estaria mentindo. Então, acho que o hip hop poderia andar um pouco mais rápido se a MTV desse um pouco mais de atenção e espaço. Talvez, por falta de credibilidade ou por não acreditar na qualidade do hip hop brasileiro, eles não abrem espaço. Pode ver que nos VMB da vida não tem um grande show de rap, um show bem produzido de rap, entendeu? E têm vários nomes aqui no Brasil que se você levar lá na MTV farão um ótimo trabalho. Tem o Pregador Luo [ n.e.Rapper gospel líder do grupo Apocalipse 16 e proprietário do selo 7 Taças ], que se for vai arrebentar a boca do balão, tem também o Z”África Brasil…
Max — E o mais engraçado, se é que você concorda Thaíde, é que se você vê o cara que ganhou lá o prêmio principal ele mete uma coisinha de rap na música dele…
Thaíde — É isso mesmo. Mas o rap mesmo não tem espaço na MTV, não tem jeito. E digo isso em qualquer lugar, sem problema nenhum, porque não tem mesmo, e não estou dizendo que nunca deram espaço, mas que o espaço é muito pequeno. Tiraram o meu programa, por exemplo. Que espaço tem agora? E poderia ter um programa de auditório de hip hop, acompanhar os artistas em estúdio gravando, uma turnê, um show ou qualquer coisa parecida. Ou montar um show ao ar livre, mas não tem nada disso não. Só aqueles ritmos que vocês veem…
Max — Os caras são uma TV comercial e estão ali para fazer grana, mas pensando assim está faltando uma visão mais ousada do empresário que comanda. Porque, a gente está falando que o rap é um mercado hoje gigantesco, em expansão…
Thaíde — O mercado do hip hop no Brasil ainda é muito complicado porque a gente tem várias coisas que atrapalham, não sei se pode dizer que atrapalhem, mas dificultam um pouco. Por exemplo, pego meu disco e levo pros DJs. Chego neles e falo, “essa musica é a de trabalho”, certo? O DJ vai tocar aquela música e tocar até furar o disco, enquanto pega um disco de um gringo, Ja Rule ou Snoop Dogg, e vai tocar todas as faixas do disco. Você ouve no mesmo baile cinco músicas do Snoop Dogg ou do 50 Cent, enquanto do meu disco vai tocar uma música, que foi aquela música que indiquei, ou seja, isso mostra que o DJ não teve a capacidade ou paciência de ouvir o meu disco e escolher mais uma música sem precisar perguntar para mim se pode. E claro que pode, ele vai divulgar meu trabalho, entendeu? Então tem muita coisa… fora isso, tem falta de espaço na televisão, falta de espaço no rádio e aí, voltamos a estaca zero, àquela falta de consciência de se dizer que somos artistas e fazemos parte desse mercado de entretenimento que é um mercado muito lucrativo. E todo mundo pode lucrar com isso, quem faz o trabalho, quem faz a música, rádio, televisão, revista, jornal casas noturnas, entendeu? Todo mundo pode lucrar, só que está difícil, mas não por muito tempo.
Tacioli — De que forma você lutava dentro da MTV por esses…
Thaíde — Apresentando projetos, né? Para modificar o programa. Não sei se vocês chegaram a assistir uma versão um pouco mais a vontade que era com artistas ao vivo. Então, aquela foi uma idéia minha. Minha idéia era fazer um ao vivo com telefone, tá entendendo? Pras pessoas ligarem pedindo videoclipe, para fazer perguntas para os artistas, uma platéia, sabe como é? Jogando brinde pra platéia “Quem qué isso?”, tipo Chacrinha, sabe? Um bagulho bem popular, muita gente ia querer ver o filho pode ter certeza, sabe? [risos] Mas não teve jeito, infelizmente não teve jeito.
Tacioli — Foi te cansando?
Thaíde — Foi cansando e chegou uma hora que a Globo vez essa proposta, ou lá ou aqui, aí falei, “vou fazer o seguinte, vou ficar na minha trabalhando com vocês e fica tudo certo”. Lá na MTV já estava naquele lance de vencer contrato, cinco anos que estava lá com o mesmo formato de programa. Então, de repente, há males que vem para o bem. Gostaria de ter continuado a apresentar o programa, mas um dia quero ter um onde possa apresentar legal mesmo, de qualidade, com o hip hop brasileiro.
Daniel — E no rádio, Thaíde?
Thaíde — Já fiz uns programas em rádios comunitárias, mas nunca em rádio grande. Mas é legal fazer rádio, é um bagulho louco.
Tacioli — Você acha que o pessoal do rap, tanto faz rádio ou TV, ele está antenado?
Thaíde — Está. Porque é o seguinte. Se é TV, o cara quer ver o que o outro vai fazer, quer ver a qualidade do programa, como é o formato e tal. No rádio é aquele lance do poder que ele tem e que nunca vai terminar, nunca vai acabar. Que é diferente do poder que a TV tem, porque a TV mostra, você está vendo como é. No rádio você imagina como está sendo. É um bagulho muito louco e muitas vezes a música é mais interessante de ouvir que ver. Por outro lado, já comprei disco porque vi o videoclipe da música. Então, são duas forças aí que tem que andar lado a lado e a gente tem que usar as duas. E isso não está sendo usado pelo hip hop brasileiro. Só de vez em quando a gente aparece em algum lugar.
Tacioli — Você acha que o clipe enfraquece o discurso do rap…
Thaíde — [interrompendo] Claro que não!
Tacioli — … Por mostrar as imagens ao em vez do cara só prestar a atenção na letra e criar sua própria imagem?
Thaíde — Não, não. Hoje a gente… acredito que a gente tem que saber como está a situação e a situação atual é assim… é a imagem. Então, tenho os videoclipes, os programas que divulgam os videoclipes, e isso ajuda as pessoas saberem quem nós somos. Às vezes, as pessoas ouvem a nossa voz e não sabem como a gente é. Tem gente aí no Brasil inteiro que não tem meu disco, e não viu a minha cara, mas já ouviu minha música e, de repente, o cara está na frente da televisão, vê minha cara, vê o videoclipe e diz, “o cara é bonito, vou comprar o disco”. [risos] Tudo isso, entendeu?
Tacioli — E o rap brasileiro, como é visto lá fora?
Thaíde — Ele não é visto, nem ouvido, né? Não, não. As pessoas, alguns brasileiros que vão pra lá levam discos porque gostam, comentam e tal. Aí se cria uma certa comunidade, vamos dizer assim, de pessoas que gostam do rap brasileiro. Se for pra lá fazer show vai ter público.
Tacioli — Mas não tem um mercado constituído?
Thaíde — Não tem mercado porque é dominado pelos norte-americanos, isso é nítido, e eles não vão deixar isso da noite pro dia. E não tenho a pretensão de conquistar o mundo com a minha música. Quero conquistar o meu país, porque nem o meu país eu ainda conquistei. Se vendesse pelo menos 500 mil cópias de todos os meus discos, ou no mínimo 100 mil, poderia planejar um esquema melhor… mas nem isso está acontecendo… aí fica difícil! A única coisa que posso fazer é continuar fazendo o meu trabalho e expandindo o campo. É complicado.
Tacioli — Como você faz? O disco hoje… sumindo né? O CD. Pensando na internet, mp3… como é que se sustenta o artista do rap?
Thaíde — Imagem. Show, videoclipes, entendeu? Roupas, bonequinhos do cara, camisa, pôster…
Tacioli — Isso pra quem já está num certo degrau. E pra quem está começando?
Thaíde — Vou falar uma coisa para você… não se vendem produtos de artistas brasileiros, ao menos que sejam conhecidos, porque não existem produtos. Tenho certeza absoluta. Se na Praça da Sé, ou qualquer lugar do Centro da cidade, tivessem posters, fotos dos Racionais, do Rappin Hood… camisetas, calendários, relógios, meu, um monte de coisa… tenho certeza que ia vender, mas não tem. Você pode ver. Vende Snoop Dogg, Dr. Dre, só os gringos, só os gringos. Mas não vende brasileiro, porque a gente não insiste nessa idéia.
Tacioli — Mas o artista, você Thaíde, você não pode? Porque você não articula isso?
Thaíde — Posso, desde que tenha mais tempo e condições de fazer isso. Porque tenho que criar uma filha que vive comigo, tenho que me sustentar, e o carro, dois cachorros, pagar aluguel, luz, telefone, tal e tal, entendeu? Então não posso simplesmente pegar 500 reais e falar, “isso aqui é pra fazer tal coisa”. Não posso fazer isso. E não vai ter ninguém que vai chegar para mim… olhaí uma dica. [risos] “Tenho dinheiro pra investir em você”. Não tem. Então fica complicado mesmo. É a vida como ela é, não tem jeito. Adoro ser quem sou e não posso de jeito nenhum achar que porque gosto muito de ser quem sou tenho que chegar nos lugares e falar, “ô meu, investe aí porque assim assado”. A verdade de cada um é cada um que sabe, então tento agir de acordo com a minha verdade, que é essa: sei fazer música, o rap é uma coisa que, graças a Deus, pra mim não tem segredo, e hip hop é uma coisa que me alimenta. Costumo dizer que o hip hop é minha casa e o rap é meu quintal. E é verdade, porque vivo de hip hop e brinco muito com o rap, tá entendendo? Agora, a vida é do jeito que é. Às vezes, a gente faz show já contando com aquela grana, sabendo que tem uma dívida pra pagar nessa semana. Aí chega lá, não dá público você não recebe a sua grana e volta pra casa com aquele desgosto. Mas, e aí? É mano! Você é desse jeito, sua vida é assim. Então, não adianta você pensar, “puxa vida, não tá dando certo, vou parar”. Agora não tem nem como parar, nem que quisesse, não tem como parar, entendeu? E no final das contas, quando tudo dá certo, vale a pena, viu? Porque… vou falar para você, mano… Viver, ser brasileiro já é complicado, mas viver de arte no Brasil é mais complicado ainda. Você depende daquilo. Às vezes um assalariado se dá muito melhor que eu. Porque, ele vai lá todo dia pro trampo e sabe que vai receber. Eu não, eu dependo de show e às vezes não tem show.
Tacioli — Funciona direito autoral para o rap?
Thaíde — Funciona. Por exemplo, recebo de coisas que tocam em rádio, de outro grupo, outro artista que tocou uma música minha em tal show, em tal lugar, recebo sim, mas é aquela merreca… a gente recebe em reais, né filho? A nossa moeda é o real, entendeu? No pé da letra mesmo. É real! [risos] Complicadíssimo. Mas quando você chega num lugar e vem uma pessoa com seu disco, uma pessoa pedindo autógrafo, querendo tirar uma foto, você fala assim, “bom, alguém gosta do trabalho que faço”, e isso é um bagulho que não tem preço mesmo. Você precisa pagar suas dívidas, comer, se vestir, mas aquela satisfação que você está tendo ali… não tem dinheiro no mundo que pague, e tem milionários, bilionários, que não tem isso, que gostariam de ser cumprimentados por alguém na rua e não são, entendeu? Só tem puxa saco, gente falsa, só pelo dinheiro que eles tem. Então, não posso reclamar não. Posso até chegar e bater a cabeça na parede, o caralho a quatro, mas dizer que a minha vida é péssima e que não queria ter a vida que tenho, meu Deus do céu! Até bato na mesa, pelo amor de Deus. Essa vida pra mim é maravilhosa, sou respeitado em todo lugar, tenho duas filhas lindas, sei fazer música, que é um presente que Deus deu pra humanidade. E estou vivendo minha vida.
Tacioli — Você deixa de ir a certos lugares por conta de ser uma figura popular?
Thaíde — Não, não deixo. Deixo de ir a certos lugares pra não me aborrecer. Como disse para vocês, tem coisa que só eu sei da minha vida particular e da minha vida profissional. Então, por exemplo, tem casas noturnas que não vou porque sei que vou me aborrecer com alguma coisa. Tem alguns lugares que não vou porque sei que não vou ter sossego. Se quiser, por exemplo, curtir uma festa numa boa, já não posso ir sozinho… não posso ir num lugar onde todo mundo me conhece, porque não vou curtir a festa, entendeu? Vou dar atenção às pessoas, tirar foto, vou dar autógrafo, vou conversar com um, conversar com outro. Então, aquele lance de curtição não tem. Então, quando quero curtir uma parada legal vou pra casa de alguns amigos e a gente se reúne, rola um som ou a gente vai numa casa onde não sou tão conhecido, aí consigo ficar numa boa. Mas geralmente estou num lugar e é aquele negócio sem sossego. E não culpo as pessoas por isso e nem sou chato com elas, porque são elas que me ajudaram a comprar esse tênis… apesar que esse aqui não porque esse eu ganhei. [risos] Comprar esse anel, vai! [risos] Pronto. Comprar os anéis, pagar as dívidas de casa, porque graças a Deus consigo hoje ter um apoio, que me veste e essa parada toda, isso daí tudo ajuda bastante.
Tacioli — E Deus, você acredita? Qual sua relação com a espiritualidade?
Thaíde — Cara, vou falar um lance pra você… quem não acredita em Deus, não acredita em si próprio. Essa é pura realidade. Você pode acreditar em tudo, pode acreditar no Buda, pode acreditar no candomblé como eu, em hare khrishna, você pode acreditar no que você quiser, você pode acreditar nessa flanela, colocar ela em cima da mesa e começar a rezar pra ela. Vou respeitar isso, mas não vou respeitar uma pessoa que diz não acreditar em Deus. Você está entendendo? Porque não existe isso. Ela está se enganando. Ela está se enganando, está enganando a si própria, porque é uma força que a gente não conhece, mas que existe. Ela não tem forma, é uma força, é energia. [é interrompido pelo nextel] Não tem como… vou ter que falar. [fala ao telefone] Estou num bate papo aqui interessantíssimo. [risos] Posso falar com vocês daqui há pouquinho? Tá bom! É uma entrevista… já, já está terminando, falou? Pronto. É aqueles assuntos. [risos] Então, a jogada é essa daí.
Tacioli — Mas você tem medo da morte?
Thaíde — Tinha muito medo da morte, mas acho que hoje tenho mais medo de como vai acontecer. Mas, muitas vezes cara, a morte é um alivio, muitas vezes é um alivio. Às vezes fico pensando assim, “quero ir quando já tiver feito o que tiver que fazer, aí vou descansar”. Tenho mais medo de como vai acontecer do que dela própria. Porque a vida não é brincadeira, bicho. Então hoje aceito mais a idéia que um dia isso realmente vai acontecer. Já vi muita coisa triste, muita coisa feliz também, alegre. Aí chega um momento que você diz, “isso vai acontecer e vou descansar”, tudo numa boa.
Daniel — Você vê a morte como um fim ou como uma continuidade?
Thaíde — Acredito o seguinte, cara, que tem gente que ainda vai voltar para cá várias vezes e tem gente que vai daqui e não volta mais.
Daniel — Por que não precisa?
Thaíde — Porque não precisa, porque já saiu daqui e se reciclou, já se lapidou, já conseguiu o aval do espírito de luz, já cumpriu a missão dele, já ajudou os outros a cumprirem suas missões. Acredito muito nisso. Aquele lance que o Tim Maia falou da imunidade racional [ n.e. Nos anos de 1975 e 76, Tim Maia esteve envolvido com a Cultura Racional e gravou os dois célebres volumes do Tim Maia Racional ], acredito muito nisso, embora ele tenha dito que foi o pior disco da carreira dele, acredito muito nisso. Deixa só ver uma coisa que estou preocupado. É porque minha filha está na casa da minha irmã e ela está me ligando. Só um pouquinho.
Tacioli — Mais uns dez minutos só aqui ainda.
Daniel — É só fechar.
Thaíde — É. Vou ter que ir em casa pra me trocar e ir pra balada. Vocês são fogo, hein? [risos] Caramba!
Daniel — Balada de trampo ou balada…
Thaíde — Vou lá pro Show Bar. Fica ali na [Rua] Cardeal Arco Verde, é da hora.
Dafne — Ah, sei!
Daniel — Em frente ao cemitério.
Thaíde — Já que estamos falando desse assunto, né? [risos] É porque… [o nextel toca novamente e Thaíde começa a falar no telefone] Pode falar, estou no meio de uma entrevista agora. Fala. Estou numa entrevista agora. Aqui no escritório. Fala pra ela chegar lá e falar com o Magu. Falou? Eu vou pra casa me trocar, depois vou pra lá. Vou chegar lá uma hora da manhã. Falou. É, aquele negócio que a gente tem que resolver de última hora. [outro telefone toca] Espere um pouquinho só, duas mensagens de texto. Aviso nextel, aviso nextel, pronto, já avisou. Vai se fuder. Agora aqui, um momentinho. [desliga os telefones] Algumas pessoas ficam pensando que sou pessimista, tá ligado? Quando falo sobre esse negócio de morte. E não é pessimismo não, cara, não é pessimismo não. Adoro viver, adoro minhas mulheres.
Daniel — O plural foi ótimo.
Thaíde — [o telefone toca novamente] E aí Magu, tudo sob controle? Vou falar rapidinho que estou numa entrevista aqui, beleza? Tudo bem, vou mais tarde. Mas é que tem um parceirinho meu chamado Belô e ele tá colando aí também. Ele vai te procurar e você dá uma assistência aí para ele, falou? Bom mano, mas hoje não vou beber nada porque estou caído. É mano, aquele dia foi foda, mas tudo bem também. Tá certo, tá bom, mais tarde tô chegando, lá pra uma hora da manhã, por aí. Estamos aí. [desliga o telefone]
Tacioli — Thaíde, só pra encerrar esse assunto etéreo… a espiritualidade se dá pra você de que forma? Tem uma religião…
Thaíde — Acredito e respeito muito o candomblé. Já tive como uma religião mesmo. Fui feito ogan, ogan de Ogum e Iemanjá. Fiquei alguns dias no… esqueci o nome do lugar agora, minha irmã sabe, acho que é roncô [ n.e. Quarto sagrado de iniciação ]. Sei algumas cantigas, sei tocar atabaque, respeito muito o candomblé. Mas hoje não tenho como uma religião. Porque pra ser religião… você tem que estar lá, naquele horário, naquela data, fazer suas rezas organizadamente, aquela parada toda e eu não faço isso, nem tenho tempo pra isso. Mas se ver, ouvir um atabaque tocar, com certeza vou tentar dar uma tocadinha também. Porque não é fácil você ficar ao lado de um atabaque com um ogan que realmente sabe usar aquele instrumento… eu me lembro que a gente fazia o seguinte… a gente tirava o couro dos atabaques, colocava na água para amolecer aquela coisa toda, aí depois colocava no sol pra secar, colocava no atabaque de novo, depois nivelava todas as porcas do atabaque, aquela parada toda. Algumas eram de estaca e aí colocava o couro de novo. Aí passava dendê, deixava ela ali, depois esticava, deixa, grave, médio e agudo e quando chegava de noite apavorava. E deixava a mão lotada de óleo de dendê.
Daniel — Pra tocar?
Thaíde — Pra tocar porque a mão inchava mesmo. Era a noite toda… [faz barulho de atabaque com a boca] tacutu, tacutu…
Max — Não sei se estou enganado, mas a sonoridade do candomblé nunca permeou sua música, né?
Thaíde — É verdade. Sempre falei de santo, dos orixás do candomblé, mas nunca usei um atabaque pra fazer meu som.
Max — Porque? Por ver como uma coisa sagrada?
Thaíde — Acho que mais por isso mesmo. Por exemplo, já toquei atabaque num som do Nasi, no final da música “Consciência” que tá no primeiro disco, mas não sou um cara que fica toda hora pegando atabaque… porque é um instrumento sagrado mesmo. Pra você ter idéia, um orixá não vem se os atabaques não estiverem bem tocados, se as cantigas não forem bem cantadas, se o ogan não for bom, ele não vem. Agora, se o ogan é bom, os atabaques estão sendo bem tocados, e as cantigas estão sendo tocadas do jeito que tem que ser, ele vem na hora mesmo.
Tacioli — Você acha que sua música não tem todos esses elementos?
Thaíde — Nem é isso. Acho que não tenho esse direito… mesmo que alguém me diga não quero ter esse direito de usar um atabaque para fazer a minha música. É muito respeito, muita responsabilidade você colocar um atabaque numa música. Uma hora ou outra… se tiver uma necessidade, vou usar. E já que vocês perguntaram, tem uma base feita pelo DJ Dri que está guardada… era pra ter usado nesse disco, ela é totalmente afro, totalmente candomblé, mas não era a hora certa. Acho que tudo tem a hora certa. Sou afobado pra muita coisa, sou curioso… se você disser assim, “deixa eu te falar uma coisa, ah, depois falo”. Não, não, quero saber na hora, sou muito curioso cara, muito curioso. Dizem que a curiosidade matou o gato… mas não vai matar esse aqui. [risos] Mas não sou afobado tipo, “Tem essa base aqui, quero usar agora”. Se tem alguma coisa que me chama atenção e que não quero me desfazer… sei que tenho que fazer depois. Por exemplo, a base de “Apresento meu amigo” ficou pronta noPreste atenção [ n.e. De 1996, Eldorado ], mas não era pra sair nesse disco. Acabou saindo no Assim caminha a humanidade [ n.e. De 2000, Trama ] e foi a música chave pra esse trabalho. Então, tudo tem seu tempo.
Leia a crônica do radialista e jornalista santista Osvaldo Moles (1913-1967), considerado o sucessor do escritor Antonio Alcântara Machado e pai artístico de Adoniran Barbosa
Daniel — Tem alguma coisa que está te deixando ansioso no momento? Alguma coisa que está pra acontecer, alguma coisa que você está agilizando?
Thaíde — Tem. Mas isso não posso falar [risos], mas tem. É um projeto que quero que dê muito certo, já está fazendo algum barulho e quero colocar isso em andamento pra que se torne um projeto de verdade, que não fique apenas em um disco ou uma festa. Quero que dure por muito tempo, e que possa lançar vários discos, vários artistas, várias festas e que inclui tudo isso que a gente falou hoje. Que inclui mulheres, carros, motos, velocidade, diversão, hip hop. Mas são coisas que precisam de um certo cuidado, porque não pode ser tão pesado ou leve demais, tem que ficar no peso adequado. E se chama… tchan! tchan! tchan! Na próxima edição… [risos]
Tacioli — Sou ansioso, Thaíde, não lido bem com isso. [risos]
Thaíde — Chama-se Os Donos da Cidade, ou DDC. Essa idéia surgiu porque… é o seguinte cara, eu e minha rapa, nós somos muito bem recebidos nos lugares, muitas vezes não pagamos estacionamento, temos crédito e a gente não precisa ter dor de cabeça, por exemplo, pra curtir uma balada… tem sempre mulheres bonitas nos rodeando, pessoas boas querendo colar com a gente… enfim, a gente tem passe livre para circular pela cidade. Não é querer ter a pretensão de ser o dono da cidade, mas é uma metáfora muito bem-vinda e tem a sigla DDC. E é um bagulho que quero lançar disco com uns sons diferentes, mais para diversão mesmo, entendeu? Por exemplo, no lançamento do videoclipe de “Pra cima” a gente colocou duas motos ligadas no palco… tem uma música chamada “Fumaça” e no lançamento a gente acelerou as motos ao vivo mesmo, ficou muito louco mesmo. E são coisas que quero colocar em prática de uma maneira mais eficiente. Porque o público mudou um pouco, aumentou, não é o mesmo de antigamente, e esse novo público está pedindo um pouco mais de diversão. Então isso é como se fosse uma isca, entendeu? Vem se divertir que é o que você quer e aí acaba ouvindo o que precisa. É sempre assim que funciona.
Tacioli — Esse público que quer diversão é tanto da periferia quanto da cidade?
Thaíde — Tanto da periferia quanto esse povo mais endinheirado aí. Porque é o seguinte, uma coisa que muita gente não sabe é que teve um período aí que uma rapaziada da perifa tava indo pra baile, mas não tava se comportando legal. Ficavam na frente tomando pinga e entravam muito louco, sem camisa, arrumando confusão, entendeu? Não estavam nem aí pra consciência, estudo, cultura ou qualquer coisa parecida. Dessa forma pensei, “como é que a gente pode chamar a atenção desse cara e de vários outros que vem com ele…”, porque não é só homem não, tem mulheres desse naipe também, “… e fazer com que eles pelo menos aprendam a se divertir melhor?”. Então vamos oferecer diversão pra eles. Porque até então, a gente ofereceu o quê? Consciência, certo? Aquele lance de estudar, respeitar, cultura, aquela parada toda. Essa coisa toda ainda continua, mas agora vamos levar eles pra se divertir e fazer com que se divirtam de uma maneira melhor. Porque diversão não é ficar na frente do baile sem camisa, tomando um litro de vinho e depois entrar pra acabar com o baile, tá entendendo? E ir onde tem mulher bonita, onde tem carro, moto, gente bem vestida, um monte de gente se divertindo, alguém tomando uma coisa, mas sabendo o limite da sua bebedeira. Porque é igual droga… é assim, todo mundo faz campanha contras drogas, é valido, mas ninguém faz uma campanha para dar apoio ou assistência àqueles que não conseguem se livrar das drogas. O cara que fica tremendo porque fica meia hora sem fumar um baseado, ou cheirar ou beber. E tem muita gente morrendo desse jeito e ninguém dá valor, ninguém tá nem aí. Acho que existe uma hipocrisia muito grande, a droga existe e ela nunca vai deixar de existir, a violência existe e nunca vai deixar de existir, então vamos tentar conviver melhor com esse tipo de coisa. E a situação agora é essa, cara. Droga é vendida nas escolas, na padaria da esquina, você compra uma pizza e vem o bagulho embaixo. Você vai ali e toma uma geral dos homens, os homens tomam seu bagulho, mas na verdade ele vai e fuma o bagulho todo. É a pura realidade. Então a gente tem que fazer com que nossos filhos saibam que isso existe e que nós não vamos ser, pelo menos estou falando por mim… não vou ser o pior inimigo da minha filha se amanhã ou depois ela se envolver com drogas. Quero ser o melhor amigo dela porque nessas horas que ela vai precisar de mim, entendeu? Se eu, simplesmente, fechar a porta e falar, “é drogada sem vergonha, é minha filha, mas não estou nem aí”, estarei fazendo o papel de carrasco. Farei aquilo que todo mundo que está lá em cima faz: pisar na cabeça de quem está embaixo. E não é isso que quero. Sou muito realista quanto a isso. Já tive muitos parentes e amigos que se perderam por causa de drogas e todo dizia que tal sujieot não prestava, aquilo, aquilo outro. Aí chegava o pai bêbado, batia na mãe, batia em todo mundo e ninguém falava nada. Agora, não é você ir lá, comprar maconha e falar, “filha já que você vai saber toma”, não é isso, não é nada disso, mas é você saber que o único amigo que sua filha, seu filho tem é você. E vai ser seu melhor amigo ainda se você prepará-lo para esse mundo e não ser o carrasco, porque ele vai ter medo de você, vai ficar com medo de contar as coisas, vai fugir e procurar o amigo mais próximo que vai ter um baseado pra relaxar.
Tacioli — Mas a relação que você teve em casa, quando você era pequeno… você tinha o amparo dos seus pais…
Thaíde — Não, não. Tive muitos parentes e amigos, vi muita droga dentro da minha casa, de várias maneiras, várias tretas, paradas parecidas. Mas a parada é que o apoio mesmo de dizer, “é assim que acontece”, não teve. Teve aquele lance de mãe, tia, tio te xingar achando que você usava droga. E na época que não usava droga, todo mundo falava que usava. A partir do momento que comecei usar, ninguém falou mais nada. É incrível isso, entendeu? Por isso que a gente tem que preparar os filhos com toda a cara e a coragem para eles saberem o que vão encarar por aí. Você já parou pra analisar a quantidade de adolescentes que estão bebendo e dirigindo ao mesmo tempo? Prefiro muito mais ter lá na TV, “se beber não dirija, se dirigir não beba”, que também é valido. Prefiro muito mais os pais falarem “você vai sair e vai beber que eu sei e é assim, assim assado”.
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Faixa 10 – “Lugar comum” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Robertinho Silva
Entrevista realizada na noite de terça-feira, 24 de abril de 2007, no escritório da Glauber Produções, na Bela Vista, em São Paulo.
Entrevistado: Thaíde (Altair Gonçalves) (05/nov/1967, São Paulo/SP)
Produção: Dafne Sampaio e Ricardo Tacioli
Entrevistadores: Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Max Eluard e Ricardo Tacioli
Fotos: Dafne Sampaio e Maurício Hirata
Registro audiovisual: Max Eluard
Registro sonoro: Daniel Almeida
Transcrição: Adriana Campos
Edição de texto: Dafne Sampaio
Texto de abertura: Ricardo Tacioli
Agradecimentos: Ivon (Glauber Produções)
Portelense de coração, ela não se considera pesquisadora, mas uma catadora de sambas.
Somente nesses últimos dez anos que a carreira de Ignez Francisco tomou o espaço que merece.
Um dos principais produtores de música brasileira, ele é responsável pelo primeiro disco de Cartola, Adoniran Barbosa e Carlos Cachaça.
Seus primeiros passos foi como cantora da Vanguarda Paulista; depois seguiu para Tom Jobim, Clube da Esquina e Eduardo Gudin.