SÃO PAULO, julho de 2002
Garoava naquela segunda-feira. Na sala estreita, poltronas, sofás, mesa de canto e um frigobar. Nas paredes, pôsteres de artistas de cem, duzentos e cinqüenta, quinhentos mil discos vendidos. Ali, na sede da gravadora Abril Music, com a equipe reduzida, o Gafieiras tentava superar a ausência do garçom, embaixador da informalidade.
A primeira pergunta demorou. A resposta, no entanto, ligeira e afinada, surpreendeu e fez a garoa parar. As paredes se distanciaram e o teto se abriu, educadamente, como se estivéssemos em um planetário. “Gosto muito de ver o céu de Ourinhos, que é a coisa mais linda!”, revelou Vânia Bastos.
Ressurgiram aplausos e vaias dos festivais de Cambará e Jacarezinho. Café da tarde, a mesma casa, os LPs do irmão mais velho e os passeios pelas montanhas de Minas Gerais. No rádio e na TV, o desfile de ídolos inquestionáveis. Rita Pavone. Wanderléa. Erasmo. Caetano. Gal.
Muitas tardes depois, a avenida Paulista e a USP, que apresentou Arrigo e seus experimentos sonoros. Na Vanguarda Paulistana, tornou-se profissional, mas solo, gravou Jobim, Milton e Gudin, seu marido. Os ídolos não eram mais heróis. Também era artista, cantora de voz macia, de repertório diverso, e ouvinte de rádio de boas melodias, como define.
A dialética de Vânia Bastos estava naquela sala. O CD Canta Clube da Esquina, na época, recém-lançado, era um detalhe, como aquelas paredes e seus quadros cheio de zeros. Ali, reviu Ternurinha e, livre das falsas amarras do bom gosto, aprovou a sugestão de gravar um disco com o repertório da intérprete de “Pare o casamento”. “Há um caminho aí!”, garantiu, fascinada.
O horário fechou nosso expediente e recompôs o teto da sala estreita. Com os equipamentos guardados em sacos plásticos, desviamo-nos da luz fria e branca e dos computadores que nos assistiam. Em pé, junto à porta principal, despedimo-nos de Vânia Bastos. Sob a garoa e o céu escuro, tomamos nosso rumo, cada um pro seu canto.
por RICARDO TACIOLI
01. “Converse com o meu assistente”
02. “Parei a Elis, o Bôscoli e o Menescal para me escutarem”
03. “Edu Lobo não junta 10 mil pessoas dançando”
04. “Um artista multimídia. Pô, que diabo que é isso?”
05. “O público jovem se conquista pela palma que bate”
06. “Começo a pensar na tal sinfonia que sempre quis fazer”
07. “Pode ser a última vez que me pinta uma orquestra”
08. “Realizo uma mistura entre o samba e a bossa nova”
09. “A capa pronta, e estava lá, Toquinho, mas sou eu quem toca”
10. “A música pop vai virando música brasileira”
11. “Curumim, você é um artista!”
12. “O Rio de Janeiro não reconhece o Adoniran como deveria”
Tacioli — Vamos lá?
Vânia — Hoje está quentinho. Será que eles ligaram o ar? [pausa] É www.gafieiras.com.br?
Tacioli — Isso.
Vânia — Gafieiras.
Tacioli — Seu nome é Anderson?
Anderson Bueno — Isso.
Tacioli — Vânia, este é o cartão do Gafieiras.
Vânia — Obrigada.
Almeida — Podemos começar, né?
Tacioli — Podemos.
Almeida — Vânia, você se considera mais paulistana hoje em dia, ou a herança que você trouxe de Ourinhos é muito evidente ainda?
Vânia — Acho que sou mais paulistana, mesmo. Quero dizer, são vinte e tantos anos aqui. Sou superpaulistana num certo sentido, mas as raízes a gente não esquece nunca, ainda mais que vivi em Ourinhos até os 17 anos. Então, as influências musicais, aquelas coisas do irmão que comprava discos, e tudo o que vivi de início, da paixão por música, aconteceu lá. Tenho muitos sonhos que se passam lá. Quase 100% dos ambientes são de Ourinhos, mas as pessoas são daqui. É muito engraçado.
Almeida — Ourinhos não é mais como você o tem em seus sonhos?
Vânia — Mudou um bom tanto, mas ainda tem muita coisa igual.
Tacioli — Você continua com familiares lá?
Vânia — Continuo. Vou para lá pelo menos duas vezes por ano. Vou daqui a pouco, porque tenho os filhotinhos e os avós são vivos. Temos que aproveitar as férias para dar uma passeada por lá. É muito bom.
Almeida — Há um lance de se recarregar ao voltar para as referências de sua infância, de sua juventude?
Vânia — Há. Gosto muito de lá. Gosto muito de ver o pôr-do-sol, ver o céu de Ourinhos, que é a coisa mais linda. Não tem nada de muito diferente, mas é lindo. [ri] E é assim, viver coisas dali, tomar um café da tarde com o pai e com a mãe naquela cozinha de casa. Aquelas coisas deliciosas e muito simples.
Tacioli — E a casa é a mesma?
Vânia — É a mesma casa em que nasci, em que me criei. Tudo está lá. E tudo é mais legal por causa disso, porque ficar mudando tira essas raízes.
Almeida — Vânia, você lembra do momento em que resolveu se afastar de Ourinhos e vir para São Paulo?
Vânia — Lembro. Eu queria muito estudar, entrar na USP. Tinha aquele sonho. Meu Deus, a USP era o paraíso na Terra, o lugar mais bacana, onde havia as pessoas mais legais e os melhores cursos. Havia essa vontade. E consegui. Vim fazer o cursinho no Equipe e entrei em Ciências Sociais na USP. Fiquei por lá. No fim, foram quatro anos fazendo a graduação meio assim, porque a música começou junto. Comecei a estudar na Escola Municipal de Música, teoria, flauta doce, canto, coral, essas coisas, e a faculdade eu ia levando. Quando faltava um ano para acabar o curso, começou a história do Arrigo, o Arrigo do Festival da TV Cultura [n.e. O compositor, cantor e instrumentista de Londrina, n. 1951, venceu o Festival Universitário da TV Cultura, em 1979, com a autoral “Diversões eletrônicas”, parceria com Regina Porto]. Isso já era em 79. Sabe quando aquele horizonte de profissionalização se faz presente? Aí, eu disse “Não vou mais terminar a faculdade”, porque sabia que não seria uma boa socióloga. Eu não ia servir para isso. Queria somente fazer o curso, porque eu achava bonito. E gostei muito de tê-lo feito, só que eu sabia que não iria seguir aquilo. A música sempre foi muito forte. Desde pequenininha eu sabia como é que eu poderia me garantir na vida. Era pela música. Eu sabia disso.
Almeida — Então, foi a USP que lhe trouxe pra cá, e não a música.
Vânia — A música, indiretamente. Sabe aquela coisa que se mistura, que você quer realizar um pouco do sonho de seus pais, que querem ver a filha estudada, formada? Mas é claro que, ali no fundinho, havia a música. “Vou para São Paulo, não sei o que vai dar!” Vim com uma turma que fazia música em Ourinhos. Todos vieram estudar em São Paulo. A gente já tinha aquela coisa, “Vamos para São Paulo estudar e ver no que vai dar!”.
Tacioli — Esse pessoal era um grupo?
Vânia — Era um grupo de música. O líder naquele tempo era o Hermelino Neder. Ele fez Música na USP, chegou a gravar um disco independente, fez músicas em parceria com o Arrigo, mas hoje em dia é professor de música, faz arranjos e tem teorias sobre coisas. Ele foi bem para esse ramo acadêmico. E o Gil Jardim, que é um grande maestro, trabalhou muito tempo com o Milton Nascimento, regendo orquestras. Trabalhou com a Jazz Sinfônica. Agora ele está na Orquestra da USP. Ele veio nessa mesma turma. E outros que estão por aí, fazendo outras coisas. Eu também, como o Gil, fui quem levou mais em frente essa coisa de se profissionalizar, de levar a carreira adiante — nesse sentido de profissão -, de arregaçar as mangas, de sofrer e de viver momentos felicíssimos. Essas coisas todas… [ri]
Dafne Sampaio — De onde vem a música em Ourinhos? Ou você sempre a teve em sua cabeça?
Vânia — Vinha lá de casa mesmo. O meu pai gostava muito de música e eu, de rádio desde pequenininha. Os meus pais são muito musicais. Gostavam de dançar; essa coisa de baile. Sempre foi muito presente na minha vida a alegria aliada à música. Só que nunca existiu um profissional na minha família. A minha avó, por parte de pai, cantava. Dizem que ela cantava lá em Januária, no norte de Minas Gerais, e o meu avô a viu cantando e tirou o chapéu pra ela. Assim eles começaram a namorar. [ri] Então, a história tem uma raiz boa de música. Acho que foi assim. E comecei a gostar de Rita Pavone. Eu tinha um amor imenso por ela. Depois, a Wanderléa. Mais tarde, a Elis Regina e a Gal Costa. E veio vindo, veio vindo. E, na minha pré-adolescência, o Euller, que é o único irmão que tenho, seis anos mais velho, era quem comprava discos. Ele era quem mandava nas coisas, e eu era meio cordeirinho, sabe? Eu ouvia o que ele comprava. Tinha bom gosto, ainda bem. [ri] Então, eu ia ouvindo aquele mundaréu de coisa boa. Tanto é que o Clube da Esquina eu conheci logo que saiu. E foi por meio dele. Eu amava tudo aquilo. E o Euller era o meu divulgador, porque eu era bem tímida, bem quietona. Ele era quem falava “Minha irmã canta!”. Eu jamais abriria minha boca para dizer que eu cantava. Ele era muito expansivo. Tanto é que, quando eu tinha 11, 12 anos, havia muito festival em Ourinhos e na região, Cambará, Jacarezinho. Calhou de ser bem naquela época dos festivais daqui de São Paulo… Aí eu ia cantar a música dos amigos, dos jovens compositores de Ourinhos. Ia lá e dava conta do recado, sem problema algum, sem timidez, vamos dizer assim. Aquela timidez que eu tinha para me divulgar, eu não tinha para cantar. Ainda bem, né? [ri]
Tacioli — Quem eram esses jovens compositores de Ourinhos?
Vânia — Bom, na verdade, nenhum seguiu a música profissionalmente. Acho que são compositores amadores até hoje. Um é o Déo, o Edelcio Vinha de Oliveira, que mora em Brasília e trabalha com um político, não sei direito quem. O Francisco, … Ah, sei lá, estão por aí, fazendo coisas. Mas tenho boas lembranças. Ganhei um prêmio de melhor intérprete do Festival de Cambará quando eu tinha 13 anos de idade. Eu me lembro que foi uma grande coisa, imagina, ter ganho aquele prêmio. E eles faziam umas músicas meio doidas, eu não entendia direito aquelas letras. Mas adorava. Ganhei “melhor intérprete”. [ri]
Dafne — Você lembra o que você cantou nesse festival?
Vânia — A música chamava-se “Dissonhante”.
Dafne — Dissonhante?
Vânia — [canta] “Fotografias coloridas mostram um mundo que é preto-e-branco / Imagens distorcidas / Procuram consertar a vida / Que o som dissonante / Tornou mais interessante”, e aí seguia. Um barato!
Tacioli — Não foi gravada?
Vânia — Não foi.
Tacioli — Você citou a Rita Pavone e a Wanderléa. Em sua casa, o que se ouvia? O que seus pais ouviam? Rádio?
Vânia — Ouviam. Mais ou menos, viu, não muito. Meu pai gostava muito de noticiário. Havia, todo domingo de manhã, na Rádio Bandeirantes, paradas de sucessos, coisas que estavam ali, “Biquíni de bolinha amarelinha”, Roberto Carlos. Eles tinham discos lá em casa, mas eles não eram muito de ouvir os grandes cantores, não. Ouviam o que passava no rádio, entendeu? Não havia aquela coisa de ouvir música clássica. Meu pai gostava, mas não comprava discos. Fui conviver com música erudita quando vim pra cá. Eu me lembro tão bem de ver, pela primeira vez, um coral ensaiando, aquele mundaréu de gente cantando, quatro vozes diferentes, aquela harmonia. Fiquei encantada! “O que é isso?!” Nunca havia escutado, imaginado um negócio daquele, maravilhoso e, de repente, eu estava no meio daquilo. Fui fazer o contralto, mas não sabia que tinha voz aguda. Fui cantar nos contraltos achando uma maravilha, aquelas mulheres cantando, aqueles agudos. E, depois, não muito tempo, descobri que eu podia fazer aquilo, com facilidade até. Mas eu não sabia. Foi uma coisa boa que o estudo de técnica vocal me proporcionou.
Almeida — Que corais eram esses?
Vânia — Das bienais de música que havia na USP. A primeira foi em 74. Então, vim de Ourinhos para fazer essa bienal e, logo depois, para fazer o cursinho.
Tacioli — Em 1975?
Vânia — Foi no meio de 74. A bienal foi no comecinho de 74. Estudar técnica foi bem legal no meu caso, porque eu achava que tinha uma voz pequenininha, e só. Foi bem bacana. E depois com o Arrigo, tive que me desenvolver muito mais. Eu tinha que pintar e bordar.
Almeida — Houve algum choque entre esses caras da vanguarda e você, que trazia essas referências de Ourinhos? Você chegou a pensar “O que eles estão fazendo? Que som é esse?”. Ou “Esses caras são da minha praia, e eu sou da praia deles”?
Vânia — Não, foi mais por aí. Você sabe por quê? Quando conheci o Arrigo, eu já tinha muita noção de música contemporânea, de música erudita. Já havia feito essas três bienais de música. Eu ia muito à ECA [n.e. Escola de Comunicação e Artes, da Universidade de São Paulo], porque na época eu namorava o Hermelino. Aqueles vários cursos da ECA. Então, eu tinha noção de tudo o que estava acontecendo no mundo contemporâneo, dodecafonismo. Eu conhecia bastante essa história. Quando veio o trabalho do Arrigo, foi um choque, mas um choque assim “Ah! Que legal! Oba!”, porque unia aquela coisa contemporânea, com elementos de música erudita, com um pouquinho de teatro, com histórias em quadrinhos e com humor. Não chegou a ser um susto. Foi uma alegria, um entusiasmo. “Há um caminho aqui a seguir”. Bem legal! [ri]
“O pessoal do Rio perdeu a empolgação do Carnaval. E quando você perde a empolgação, você não faz nada.”
Almeida — Vânia, você sempre adotou uma linha disciplinada com o canto e com a técnica, ou já teve uma postura mais porra-louca, de não cuidar da voz, de não querer estudar, de dizer “Isso aqui é dom, é intuição!”?
Vânia — Houve um tempo, depois que estudei bastante, com três professoras, em que vi que eu não queria ser uma cantora erudita. “Não, vou ser cantora popular!”. Aí, começou essa história do Arrigo. Chegou uma época em que me cansei de professor. Acho que o professor, se a gente não tomar cuidado, começa a ficar paternalista demais, começa achar que sabe tudo, e não é assim. Na hora do palco, quem tem que resolver o assunto é você mesma. Eu me lembro bem que, quando engravidei, quis parar. “Agora vou parar de estudar canto. Chega! Sou eu que vou resolver o assunto!”. Então, aproveitei para nunca mais ir para aula de canto. [ri] Por um lado, achei legal isso. Acho importante fazer técnica. Até hoje faço, mas faço comigo mesma. Sei como funciono. Tenho que dormir bem para a voz ficar legal. Não gosto de tomar coisa gelada. São poucas coisas, não gosto de complicar, não. De vez em quando, se estou meio resfriada e tenho que fazer show, mastigo um gengibrezinho. Mas quanto mais simples você for em relação à sua voz… Coisas básicas. O número um de tudo isso é o sono estar legal.
Fernando de Almeida — Boêmia não dá?
Vânia — É, esse negócio de falar muito e dormir pouco é ruim pra voz. Mas não chegou a ser uma porra-louquice, de falar “Agora não quero mais nada!”, não foi assim. Foi uma tomada de consciência. “Tudo bem, o que eu tinha que fazer em relação à técnica, eu já fiz”. Embora nunca vá dizer “não!”. Se eu precisar tomar umas aulas por algum motivo… Aula sempre é gostosa, desde que… Mas, professor de canto, se você não tomar cuidado, quer lhe botar numa redoma, para você fazer aquilo que eles querem. É uma gente maluca! Não vou dizer que é uma norma, mas é quase, ou, pelo menos, era.
Tacioli — E você nunca deu aula de canto?
Vânia — De canto? Eu não! [risos] Não sei dar aula de canto. Várias pessoas já me procuraram. Quem sabe algum dia eu vá dar aula de canto. Mas é o tipo da coisa que eu não sei. Gosto de falar para a pessoa, “Sei lá, descobre aí, se vira!” [ri]
Tacioli — Vânia, desde que você começou a cantar, como você vê a sua voz? Ela mudou?
Vânia — Ah! Mudou. Como eu falei, lá em Ourinhos eu sabia que tinha uma afinação legal, as pessoas comentavam, mas a minha voz era pequena. Com o estudo, descobri que ela poderia ser grandona se eu quisesse, que dava para usá-la de vários jeitos; descobri os agudos. E, depois, fui descobrindo um jeito para cantar determinada frase, que você pode cantar usando a voz de cabeça, ou a voz de peito, ou misturando as duas. Pode, se quiser, fazer mais gritado ou mais suave. Fui me desenvolvendo por aí. Hoje em dia, sei dosar legal. Brincar um pouco com a voz. É mais gostoso quando, de repente, você faz disso uma coisa seríssima e uma grande brincadeira, ao mesmo tempo. É o mais legal de tudo.
Almeida — Vânia, quando você está gravando um disco, você recorre a alguém para saber se sua voz ficou legal?
Vânia — Eu tenho, eu tenho, mas sou chata comigo mesma e acho que não preciso de mais ninguém. [ri]
Almeida — De mais ninguém para palpitar.
Vânia — Não! Às vezes, preciso de alguém somente para confirmar se algo está péssimo ou se não está, e a pessoa tem que dizer “Está!” ou “Não está!”. [ri] Às vezes, sinto que as pessoas vão ter uma certa condescendência comigo, que não vou ter. “Está bom?”, pergunto. “Ah! Está bom!”, mas sei que não está bom. Então, sou assim, tenho que fazer de novo porque sei que não está bom. O Gudin me ajudou muito, porque ele produziu acho que sete discos que fiz. E ele sabe bem disso, dessa minha chatice em relação à minha própria voz. Ele acha que sou até meio dura comigo mesma. Mas, sei lá… Achei gostoso esse último disco ser gravado em três dias, ao vivo no estúdio, junto com o piano. O que saiu, saiu. Foi o primeiro disco que fiz assim. Tem algumas coisas que ouço e falo “Nossa, se fosse para fazer daquele jeito, em que se pode ficar no estúdio muitas horas, dias, meses, eu ia querer consertar algumas coisas”. Mas sinto, ao mesmo tempo, que o disco tem uma emoção diferente, principalmente por não ter sido consertado. Ficou até mais legal do que aquela perfeição que não-sei-o-quê.
Almeida — E o que a fez optar por gravar ao vivo no estúdio?
Vânia — Foi tudo meio junto. Fomos para o Rio de Janeiro e o Mazzola sugeriu que fosse assim. “Vamos fazer esse disco de uma maneira rápida. Pode ficar interessante se fizermos tudo junto com o piano”. Então, ensaiamos em cinco dias e gravamos em três. Achei bem gostoso. E, várias vezes, o Mazzola disse pra mim “Isso está lindo!”, e eu voltei pra casa, desconfiada. Fui ouvir um mês depois, ainda desconfiada, e “Não é que está bonito, mesmo. Não é que está bom!”.
Tacioli — O calor de um disco produzido assim é diferente daquele todo cirúrgico, não?
Vânia — É gostoso. E a gente ouve tanta gravação que não está tão afinada, mas as pessoas não estão nem aí.
Tacioli — Mas, esse seu rigor presente na gravação de um disco, você o carrega aos discos que você já gravou, “Essa parte não está legal!”?
Vânia — Carrego. Mas não chego a sofrer muito, não, principalmente quando se passam muitos e muitos anos. Falo, “Isso aí até que ficou simpático!”. Mas, às vezes, meses ou um ano depois que um disco foi gravado, falo “Ah! Por que eu não fiz assim?!”
Fernando — Mas é assim, você sempre vai ver com outros olhos depois de feito.
Vânia — Exatamente. Já escutei isso de muita gente que escreve, que não se pode ler o que escreveu logo após sua publicação. Somente muitos e muitos anos depois é que falam “Não é que ficou legal o que fiz?!”. É normal.
Fernando — Mas você fala isso somente porque você mudou também.
Vânia — Pois é, mas tem umas que ouço e falo “Essa me deixou feliz, do começo ao fim!” “Se eu fosse fazer isso hoje, eu queria fazer igualzinho”.
Tacioli — Que músicas se enquadram nisso?
Vânia — A gravação de “Paulista” é uma, daquele disco branco. Acho que está perfeita. Uma que fiz no meu primeiro LP, que não saiu em CD, chamada “Neblina”. É bonita pra caramba, está linda aquela gravação. Eu a ouço em paz e contente. Há algumas outras que escuto e que me deixam feliz. Do disco Canta mais têm várias. Uma chamada “Senhoras do Amazonas” está bem bonita. E, mesmo desse último, agora, ouço e fico feliz. Não vou dizer com tudo, porque daí já é demais, mas com quase tudo. [ri] Eu estou em paz com quase tudo, mesmo porque usei a voz mais nos graves. É um disco, que se você vem ouvindo todos os outros, você vê que eu cantei com tons mais graves em quase todas as faixas. Foi gostoso fazer isso.
Tacioli — Você gravou o Canta Clube da Esquina com Luiz Avellar, mas você não o conhecia pessoalmente, né?
Vânia — Não. Conheci para fazer esse disco e foi um encontro bem interessante, porque parecia que já nos conhecíamos há mais tempo, musicalmente falando. Aquela coisa de respirar junto. Ele é um pianista que tem muito respeito por quem canta, e não é todo mundo que é assim, que entende o tempo do cantor, a respiração, o jeito de terminar uma frase. Foi bem legal!
Tacioli — Ele foi pianista do Milton.
Vânia — Foi durante alguns anos, do Djavan também, da Gal. Ele trabalhou com muita gente. Foi bem interessante trabalhar com ele, bem gostoso.
Tacioli — E como você define esse disco.
Vânia — Esse?
Tacioli — Isso. Como você apresentaria esse disco?
Vânia — Olha que pergunta interessante. [ri] Não sei, acho que é um disco… Eu me sinto privilegiada por ter feito esse disco 30 anos depois daquela minha paixão peloClube da Esquina 1. É um disco de uma intérprete madura. Não gosto de usar essa palavra madura, é meio estranho. De uma intérprete que já tem uns bons anos de cantoria, de janela, e que recebeu o convite com toda essa carga de responsabilidade e de paixão por um trabalho. Eu queria fazer isso. Não que eu tivesse tido essa idéia antes. Nunca passou pela minha cabeça gravar o Clube da Esquina, nem cantar aquelas músicas. Nada. De repente, isso veio e me deu uma alegria muito grande, porque é uma história verdadeira pra mim. Eu já tinha uma história com aquelas músicas, de viajar por Minas Gerais. A família do meu pai era de lá. Escutava a voz do Milton Nascimento no meio daquelas montanhas. Havia uma ligação emocional com esse som e, de repente, fui convidada para fazer essas mesmas músicas. É um disco que me traz muita emoção, muita alegria e muita novidade, também. Isso porque gravamos em três dias, tudo ao vivo [em estúdio], tudo junto com a parte instrumental. Foi o primeiro disco que gravei todinho no Rio de Janeiro. Um disco feito com um produtor diferente, o Mazolla, com quem eu tinha vontade de trabalhar. No meu disco anterior,Belas e feras, eu já o havia convidado pra produzir, mas ele não pôde, estava com a agenda lotada. Foi a primeira vez que trabalhei com ele. Essas novidades todas… O Milton [Nascimento] cantando junto foi o máximo [n.e. Na música “San Vicente”]. Jamais imaginei que um dia eu fosse cantar uma música do Milton, ainda mais com ele.
Fernando — E isso acabou fechando um conceito. Emocionalmente, você tem ligações com o repertório, ele foi gravado ao vivo, que registra muito melhor as emoções que você estava sentindo naquela hora e naquele lugar.
Vânia — Exatamente. Isso foi muito legal.
Fernando — Mas não foi intencional?
Vânia — Não, não, foi saindo. Por isso foi bem gostoso. E, no fim da gravação, quando fui agradecer ao Milton, ele falou assim, com aquele jeito dele, “Eu é que tenho que agradecer. Fico muito contente toda vez que alguém canta minhas músicas.” [ri] Esse é o Milton Nascimento.
Almeida — Você tem uma relação de ídolo com outros cantores ou músicos?
Vânia — Tenho, tenho. Sempre tive essa relação com o Caetano Veloso. Aquela coisa de juventude, Nossa Senhora. Tanto é que tive outro privilégio… Em 1992, quando fiz o Cantando Caetano, ele cantou comigo em uma faixa e tal. Foi o máximo! Tinha muita vontade de cantar aquelas músicas todas do Caetano. Mas eu também tinha essa relação com cantoras, como a Gal Costa. Nossa Senhora! Grande paixão! Elis também, mas a Gal, não sei, pelo seu timbre. Sempre tive uma paixão pelo timbre da Gal. E, pela Elis, tive todo o respeito do mundo, pela grande cantora que ela era. Mas com a Gal era essa coisa sonora, da voz da cantora. Sempre tive isso com ela. E tenho vários outros ídolos. Imagine se eu não tivesse ídolo? Que chatice! [risos]
Fernando — Mas quando se conhece um ídolo, não se perde a graça?
Vânia — Isso aí é perigoso! Com alguns ídolos meus, às vezes, fico assim. “Ah! Não quero nem conhecê-lo pessoalmente, porque vai que caia tudo aquilo. Que eu ache a pessoa antipática, metida.” Tenho pavor de ter esses sentimentos, de pegar a pessoa num dia perverso. [risos] Então, cai tudo por água abaixo.
Tacioli — E já caiu alguma vez?
Vânia — Um pouco. [risos] Um pouco. Aí fica aquele universo em desencanto, aquela coisa triste! [risos]
Tacioli — Mas com quem caiu, você não vai falar, né?
Vânia — Não posso! [risos]
Tacioli — Vânia, quando alguém do interior muda para São Paulo, traz um olhar caipira, que tanto pode se assustar como se encantar com a cidade. Apesar de se considerar paulistana, você ainda mantém esse olhar caipira em São Paulo?
Vânia — Acho que a gente nunca perde isso. Essa alma, essa convivência que você teve na infância e na adolescência, não tem jeito. Tenho muito esse olhar. Minha família é muito simples. Considero uma família sofisticada e simples, ao mesmo tempo. Uma coisa boa, de gente que não é daquela classe média boba, que quer ficar rica. Não! O meu pai sempre teve muito zelo pelo estudo. É um intelectual à maneira dele, mas é, entendeu? E eu sempre admirei muito isso nele, de observar as coisas simples da existência, e que são as mais sofisticadas, também. Aquela história… Então, essas coisas vão formando o seu caráter. Tenho e carrego isso comigo. Uma certa teimosia também que, às vezes, faz a gente bater a cabeça. “Posso seguir por ali, que é mais fácil, mas quero ir por aqui, mais difícil, mas é por aqui que eu vou!”. Agora, sempre vou ter esse olhar. Sou uma pessoa assim, na essência. E, em alguns aspectos, meio criança. Às vezes, até cultivo isso. Acho legal. E tem aquele olhar meio esperto de quem é do interior, meio gozador, não é? Os outros pensam que somos bobos, mas não somos. [ri]
Tacioli — Perguntei isso ao notar a forma como você cultiva seus ídolos. Esse olhar caipira passa por aí, também.
Vânia — Ah! Passa. Eu me lembro de uma sensação, que foi ao me ver, pela primeira vez, na avenida Paulista, aqui em São Paulo. Era um sábado à noite. Achei aquilo muito chique, “Nossa, que avenida chique!”.
Fernando — E eu aqui. [risos]
Vânia — E eu aqui. Estou estudando aqui. Que lindo! Hoje em dia, vou pra lá e não é bem a mesma coisa. [risos] Que pena! Mas esse olhar caipira é interessante.
Tacioli — Que imagens você tinha de São Paulo antes de vir pra cá?
Vânia — Talvez essa imagem que todo mundo tem, de que você vai desbravar um mundo novo, de que você vai conseguir coisas. Eu me lembro, quando entrei no cursinho e na própria USP, de ver aquelas pessoas meio sisudas, todo mundo assim. “Ai, meu Deus do céu! É isso que eu quero? É isso! Não tem nada a ver comigo, mas tem!” Sabe aquela coisa? O que você perguntou mesmo?
Tacioli — Que imagens você tinha da cidade antes de vir para São Paulo?
Vânia — Era meio isso, de que seria bom. E, hoje em dia, acho gostoso morar em São Paulo. Costumo dizer para as pessoas que São Paulo traz uma solidão gostosa. O interessante é que, às vezes, não temos mais essa solidão no interior, né? Essa coisa de você ficar sozinho, gostoso, que ninguém vai lhe perguntar se você está triste ou aborrecido. Não, você pode ficar sozinho. É gostosinho isso. Sem pai, sem mãe, sem irmãos, sem parentes, sem vizinhos. Sem aquela cobrança. Esse anonimato em paz é o melhor de tudo.
Almeida — Vânia, você poderia morar em uma cidadezinha próxima daqui — onde veria o céu como em Ourinhos — e ainda curtir São Paulo. Quais são as coisas que lhe prendem a São Paulo? O que há de bom aqui, fora o “anonimato gostosinho”? [risos]
Vânia — É uma porção de coisas. Sei lá, é a própria vida profissional e a própria vida normal. Você começa a criar laços; cria a sua família, cria a sua casa. Você começa a gostar daqui. É como um bairro. Eu não gostaria de mudar de bairro. Mudar de bairro em São Paulo é quase como mudar de cidade. E sou muito apegada às coisas. Para eu criar uma raiz é rapidinho. Então, já aprendi a gostar de São Paulo, a gostar do Itaim Bibi, onde moro. E a vida profissional… O empresário está aqui. As coisas acontecem em São Paulo. Às vezes, penso em morar no Rio por um tempo, mas aí já fico vendo toda a revolução que vai acontecer… “Não, vamos ficar por aqui mesmo!”. O público de São Paulo é superlegal comigo, o carinho que o paulistano tem pela carreira da Vânia… Sempre recebi coisas legais aqui. Não sei. São vários motivos. Os filhotinhos estão aqui.
Almeida — Vânia, levando em conta seu início de carreira com o Arrigo e seus discos mais recentes, você sente falta de experimentar mais?
Vânia — Peguei um outro caminho, mas acho que faço algumas coisas. Há uma vertente para a experimentação, mas há uma outra que é muito concreta, que é fazer discos. Aí, já entra um mundo comercial, em que você tem que se impor de alguma forma, criar vínculos dentro de alguma indústria, que espera coisas de você. E a gente nunca sabe, porque se faz uma coisa achando que pode resultar em algo, e não resulta. Quero dizer, é um mundo meio maluco esse artístico de hoje em dia. Se as pessoas não investirem em você, é muito mais difícil você ter um caminho legal. É uma luta constante, porque não há nenhuma cartilha, nada! Nada que lhe indique “Vá por aqui que está certo!”. Não há! Então, digo assim, “Tive a sorte de fazer os discos que eu quis até hoje!”. É claro que, se houver uma coisa meio doida para fazer, meio experimental, eu topo, é legal! Eu topo desde que isso tenha uma infra-estrutura para segurar essa coisa. Eu gosto! Costumo dizer o seguinte: crio raízes facilmente, mas topo fazer coisas em que confiar. Daí, vou em frente. Você quer mais doideira do que ser cantora neste Brasil? [ri] O primeiro passo já foi dado. Os outros vêm. Pior ainda foi no tempo do Arrigo, em que não havia nada, e ele me jogou no palco, “Vai, você vai fazer tudo!”, “Mas, Arrigo!”, “Não! Você é quem vai fazer tudo. Você é quem vai solar as músicas, você é quem vai fazer as personagens comigo!” Eu não tinha nenhum curso de teatro, nada assim. Foi na raça. E, de repente, eu me vi fazendo tudo aquilo e comecei a gostar da coisa. Eu me lembro do Acapulco drive, em que eu tinha que rodar a bolsinha e na primeira rodada, ele me falou: “Rodadinha decente!” [risos]
Anderson — Lembro quando a vi na TV Cultura, de cinta-liga, rodando bolsinha. Era uma ópera-rock — aquelas coisas malucas do Arrigo. Na época, falei, “Não é a Vânia!”. E agora, você de vestido longo. [risos]
Vânia — Eu fazia essa mulher da esquina que rodava a bolsa. Lembro-me até que a Patrícia, que fazia teatro — esqueci de seu sobrenome -, me disse: “Vânia, está legal, mas seja a fulana, mesmo! Você está no palco, ocupe o palco!.” Fui aprendendo as regras básicas na raça, fazendo, já com o Caetano na platéia. Nesse tempo, o Caetano ia assistir a esses shows do Arrigo todos os dias. Ele ia e levava uns vinte, uma procissão de Caetano Veloso. Esse início com o Arrigo foi assim. E considero um outro início quando fui fazer minha carreira-solo. Costumo dizer que tenho dois inícios de carreira: com o Arrigo e em 87, quando fiz meu primeiro disco, quando fui sentir na pele essa história de ser cantora, sozinha, sem ser da banda de alguém, com toda aquela infra que o Arrigo tinha (mídia impressa, público lotando tudo que era lugar no Brasil e fora do Brasil). Então, tive que reaprender como é que era pisar num palco sendo a Vânia, com o repertório dela, com a responsabilidade dela, tudo.
Dafne — Com o Arrigo, você era um instrumento.
Vânia — Eu era um instrumento…
Dafne — Solava também, mas o projeto era dele.
Vânia — Exatamente. O projeto era dele, os músicos eram dele. Eu estava ali… Era uma delícia, porque eu pegava somente o bem-bom da história. Altas viagens com público, sem aquela responsabilidade de produção, de ter que pensar… Eu pensava somente na hora H. Como era bom!
Dafne — Você já pensava em sua carreira-solo, em seu repertório, quando estava com o Arrigo? Ou isso surgiu depois?
Vânia — Não, sempre pensei nisso. Essa coisa nunca saiu da minha cabeça, porque eu tinha vontade de ser uma cantora brasileira, de gravar discos, de ter uma história. Eu tinha que fazer isso, porque se você fica eternamente da banda de alguém, há um lado seu que não se desenvolve. Você pode até se acomodar e falar “Acabou!”. É uma coisa… Tem que haver muita convicção para fazer isso e ficar em paz. A minha convicção era a de que eu tinha que ver como era esse outro caminho. Queria ser uma cantora brasileira, reconhecidamente brasileira, de uma forma ampla e simples, sem muita história. Mas até hoje as pessoas falam muito nessa coisa de cantora paulista, principalmente no Rio de Janeiro. É um estigma. Não é ruim, mas é uma coisa estranha. Não sei se sou tão paulista, com características paulistas. Não, cantora… Não sei, canto a música paulista, falo da avenida. Não sei se tenho características de cantora paulista. Para muitos lugares onde viajo, as pessoas nem sabem de onde sou. Perguntam-me: “Onde você mora? No Rio, São Paulo?” Não há nada que me refira a São Paulo. Somente o começo, pelo Arrigo. O Rio de Janeiro gosta muito de definir de onde você vem. Acho que, quando a Daniela Mercury vai lá, ela deve ser a cantora baiana, eternamente. Ivete Sangalo, vírgula, baiana. Eles têm um costume, assim como a Folha, que está dando a idade agora. [risos]
Almeida — Faz tempo!
Vânia — Pô, os caras precisam colocar a idade? Pra quê? [risos] O Gudin fala, “Eles tinham que botar a altura também!” [risos] Um metro e tanto. Põe tudo já!
Tacioli — O fato de ter participado da Vanguarda Paulistana se tornou uma camisa de força para você?
Vânia — Por um lado ajuda, é muito forte isso. Forte no bom sentido. E, por outro, é uma coisa que preciso desbravar para dizer “Tudo bem, foi aquilo, mas não parou naquilo, até porque aquilo não continuou! Foi uma coisa que aconteceu e cada um seguiu seu caminho!” Então, é assim, há um lado muito bom, e há um lado em que as pessoas têm que reaprender a ver a Vânia.
Tacioli — Vânia, você vê obstáculos para as cantoras contemporâneas de São Paulo romperem essas fronteiras estaduais e conquistarem reconhecimento nacional? Acontece a mesma coisa com a Ná Ozzetti, cantora de São Paulo.
Fernando — Que é diferente da Daniela Mercury, por exemplo.
Vânia — Sabe o que eu acho? Tudo isso foi um momento de se fazer música independente. Claro, trouxe conseqüências muito boas e outras… Por exemplo, não ficamos tocando em rádio pelo Brasil todo, nunca fomos de grandes gravadoras. Agora, estou na Abril. Já fui da Sony por um tempinho, fui da Velas, que não tinha esse poder de competição com todas as outras. Isso traz conseqüências, obviamente. Se você não está tocando nas rádios do Brasil todo, se você não está na televisão, na Rede Globo, nos principais programas de lá, fica mais difícil.
Tacioli — Constrói-se uma imagem fora do seu controle.
Vânia — Então, você fica com aquela imagem de cantora…
Fernando — Mais sofisticada.
Vânia — Mais sofisticada…
Fernando — Menos pop.
Vânia — Que nem todo mundo morre de conhecer, aquela coisa… E, a Daniela Mercury, baiana, logo no segundo disco foi para a Sony. Foi aquela explosão! A mesma coisa com a Marisa Monte. Foi aquela explosão! É de uma importância fundamental a gravadora em que você está e a forma como as pessoas vão lhe trabalhar. Mesmo.
Tacioli — Você poderia ter tido um caminho diferente, então?
Vânia — Estou completamente satisfeita com o caminho que fiz. Tinha que ser dessa forma mesmo. Claro que sei da importância de um investimento em cima de você, como artista. Cada vez mais, no mundo e no Brasil, se o artista não tiver um investimento em cima, é complicado, é mais complicado cada vez. Porque, antigamente, as coisas funcionavam de forma mais simples. Lançava-se um disco e, no dia seguinte, estava tocando nas rádios. Hoje em dia, não é assim. Tudo depende de esquema, esquema, esquema.
Fernando — Hoje, como há muito produto sendo lançado, seu produto tem que brilhar mais que os outros.
Vânia — E tem que haver muita propaganda. É impressionante.
Almeida — Tenho impressão que, os músicos que não entram na grande mídia, as pessoas que os ouvem em um show ou em um CD, acham aquela música difícil. Mas isso por não estar na TV.
Vânia — É, de repente, não é.
Fernando — Que não é tão popular.
Anderson — O que é popular? Tocar demais é popular?
Tacioli — Mas esse caminho lhe dá um público fiel.
Vânia — É um público fiel. Não tenho do que me queixar, mesmo, porque tenho um público grandão, esparramado por esse Brasil. Fiz questão — com o Franklin, que é o empresário que trabalha comigo — de desbravar lugares por aí, e as pessoas conhecem e vão. É um público grande, desde criancinha. Não tem aquele público de uma cara só. Gente que gosta de cantor. Não posso me queixar. Um público legal pelo Brasil afora. E muita gente fala pra mim: “Por que não te vejo mais na televisão? Por que você não toca mais no rádio?” Não sei, porque foi assim, sei lá… Cada um tem a sua história. A minha é essa. E eu estou feliz hoje em dia porque pude fazer esse disco pela MZA e que a Abril encampou. É legal você saber que seu disco está distribuído por aí, que não fica aquela coisa, “Procuro o seu disco e não acho!”. É triste a gente ouvir isso. Agora, não estou ouvindo isso. Ou, estou ouvindo menos? [risos] Não, não estou ouvindo. No máximo, as pessoas falam, “Fui procurar e já havia acabado!” Que é mais legal ainda. É muito boa essa história de estar distribuída. Você sente uma estrutura de uma gravadora… Estou dando essa entrevista para vocês graças a estrutura da Abril, assim como tenho milhões de outras entrevistas. Então, é legal… Acabei de vir de Porto Alegre. Você chega lá, tem uma pessoa da Abril te esperando no Aeroporto. E essa pessoa já distribuiu o seu disco por todas as rádios de Porto Alegre, marcou coisas. Você sabe que você está, com a sua verdade, num esquema legal. Isso é que é o mais bacana, mas nem sempre foi isso.
Anderson — Engraçado, viemos no carro conversando sobre o teatro não ter vendido nada de ingressos. Estávamos super preocupados. Mas, quando a cortina foi aberta, o teatro estava lotado. E sem tocar no rádio!
Vânia — Exatamente. É um caminho meio diferente, mesmo. Parece que é à margem, mas é uma margem que, ao mesmo tempo, fica sendo legal. Cria-se uma curiosidade em ver a cantora. Há um lado interessante: as pessoas vão ver até porque você não aparece muito em TV e porque você não toca muito no rádio. “É, eu quero ver. Então, eu vou.” Esse mundo é meio louco. Hoje em dia, tudo é meio louco. Eu acho, meio sem critério, não sei…
Fernando — Você falou em “dar certo”, “do projeto dar certo”. O que seria, hoje em dia, dar certo? Provavelmente, houve outros certos em momentos diferentes de sua vida, em que outras coisas seriam certas.
Vânia — Dar certo hoje é vender bastante disco, fazer a sua verdade, fazer muitos shows com muito público, ter horizontes para você se expandir, ter horizontes no exterior — que estou tendo também agora. Tenho alguns discos lançados no Japão, outros foram para a Europa também. E esse de agora tem várias companhias que estão querendo fazer co-produção com a Abril e com a MZA. Não somente comprar, importando-o, mas produzindo-o junto a esses países. Isso é dar certo. Você ter um bom empresário, trabalhando com você, com uma grande visão. Enfim, um bom empresário, uma boa gravadora, saúde pra enfrentar tudo isso, talento — que você vê que nem é o primeiro [risos]. Talento é um adendo. [ri]
Fernando — No final, o que você falou é pra ganhar grana, também.
Vânia — Tudo isso conflui…
Fernando — E quando você começou, na época do Arrigo, o que era “dar certo”?
Vânia — Dar certo era você fazer o que você tinha vontade, contestar todas as coisas que você via, com clareza, que estavam erradas, e ter um desdém daquilo imenso. Enfim, vislumbrar outros horizontes, carregar um monte de gente com você. Sei lá, uma coisa mais por aí.
Tacioli — Pra você, naquela época, isso era ser artista naquela?
Vânia — Claro que tendo talento e indo a fundo na música, mesmo. Ensaiávamos 10 horas por dia sem pensar em um tostão. Hoje faço isso também. Não pense que não, mas, claro, que já é de uma maneira diferente. Naquele tempo havia uma coisa muito mais solta. Éramos, também, mais adolescentes, mais jovens, não tínhamos tanta responsabilidade, tanta preocupação. Claro que você fica com mais vontade de ter uma coisa mais certa. Você fica com essa vontade mesmo e até trabalha para isso. Você quer se instalar de um jeito mais legal, não precisa contestar tanto assim, porque, de repente, essa coisa da contestação nem é mais o principal. A gente já sabe que está tudo uma maluquice. Temos mais consciência, embora pareça que não. E acho que a vida vai ensinando a gente que nada é muito certo, não. A gente pensa que é certo fazer assim e, daqui a pouco, você fala “Não era bem assim”, sei lá. E tentar se instalar de uma maneira condizente. Acho que a gente nunca pode esquecer a sua essência. Isso não dá para esquecer, nem jogar fora, nem deixar de lado, porque não te faz bem, e não te leva para lugar nenhum. Cada vez eu tenho mais consciência disso.
Tacioli — Mas, ao mesmo tempo, é muito difícil de manter essa essência no contexto atual de “dar certo”, não?
Vânia — Às vezes, penso que, quanto mais você fica em paz consigo mesmo, você se volta para o que você é, é ali que mora o segredo. Está com você e não onde você está procurando, achando que possa estar. Não sei, tenho achado cada vez mais isso. De repente, o mistério não é tão misterioso assim, está lá guardadinho com você. Sei lá… [ri]
Tacioli — Você diz em entrevistas que você é uma cantora que não tem preconceito.
Vânia — Eu falei isso?
Tacioli — Falou, mas havia um “se não”.
Vânia — Ah, tá, com a música sertaneja.
Tacioli — Isso. Eu gostaria de saber até onde vai seu preconceito? Qual é o limite? É a música sertaneja?
Vânia — É, ali não rola. Você quer saber se há alguma outra coisa que…
Tacioli — Quando uma pessoa fala que não tem preconceito com música, imagino que ela possa ouvir de tudo mesmo. Ouvir, simplesmente, não comprar. Você ouve outros estilos, fora aqueles que estão presentes em seus discos?
Vânia — Ah, eu ouço. Gosto muito de ouvir rádio. Fico variando bastante.
Anderson — Do sertanejo é desse metropolitano.
Vânia — De agora.
Anderson — Não é o sertanejo de raiz.
Vânia — Eu ouço. Claro que não gosto dessas músicas gospel, mas ouço diversos estilos de música. Tem muita coisa que eu gosto, até.
Almeida — Você ouve o que seus filhos ouvem?
Vânia — Eu ouço. Graças a Deus, a Rita adora o Djavan. [risos] Mas ouço quando ela me mostra algo diferente, até internacional. Aprendi a ouvir e a gostar daquele Red Hot Chilli Peppers. Adorei! Que bárbaro! Foi com ela. Tem um outro grupo belga, de umas moças que tocam violino, viola, violoncelo, não-sei-o-quê. Esqueci o nome agora, super legal. Foi ela quem me mostrou também. Que mais? Não sou destas que falam “Não gosto, não quero!”. Até no tempo em que ela estava ouvindo Spice Girls, há uns anos, eu gostava. Tem umas coisas bonitas ali. Gosto de coisas que tenham melodia. A Antena 1 toca tanta coisa bonita. Pode ser até meio xarope, meio melosa, mas eu gosto de vez em quando. E os brasileiros. Gosto de vozes em geral. Menos as vozes dos músicos sertanejos que tem esse vozeirão todo, são supercantores… Tenho quer dizer que são supercantores… Só que tem o fator gosto. Tem gente que adora aquilo. Eu acho horrível aquele vozeirão.
Tacioli — O pecado deles está aí, na forma de utilizar o vozeirão?
Vânia — Não sei. Acho que tem uma estética ali que é meio pavorosa. [risos] Pro meu gosto, entendeu?! Assim como eles podem não gostar do João Gilberto… O antagonismo é tanto que eles também não devem gostar e saber apreciar. Eu também não… Respeito e sei o valor que têm como cantores, porque são todos grandes cantores. Não tem ninguém ali cantando mal. Ainda mais porque não dá pra fazer aquelas vozes imensas… Só que tem uma coisa de estética que acho doloroso, horrível. E a classe média aprendeu a gostar disso de uma forma dolorosa, também.
Dafne — E o Fama, aquele programa da Globo. Já foram dois e, tanto os participantes do primeiro, quanto os do segundo, cantam muito parecidos, um pouco desse jeito…
Vânia — Um é cover do outro.
Dafne — É a “whitney-houstonização” da música brasileira. [risos]
Anderson — Ah, mas a Rita Lee falou isso num programa. Inventaram de colocar a Celine Dion como grande cantora e todo mundo decidiu cantar como a Celine Dion. Então, há aqueles tremidos nas vozes.
Dafne — Que é uma espécie de clichê do rhythm and blues norte-americano.
Vânia — Exatamente. Eu acho isso. Até vi pouco essa Fama. Um dia em que assisti, havia um cara no estúdio dirigindo um menino que estava gravando. E você via que o menino queria fazer umas frases assim, sem tanto trinado na voz, com a voz mais retinha. Ele queria fazer um fraseado de um jeito mais bacana, mais elegante, e o cara que estava dirigindo, dizia “Não, você tem que fazer assim, com mais ênfase!” Eu fiquei… Gente, imagine se o João Gilberto fosse participar de um Fama! [risos] Ele não entrava!
Dafne — Ou era o primeiro eliminado. [risos]
Vânia — Esses caras, por um lado, estão botando esses meninos na mídia, e tal, mas estão passando com o trator por cima da alma de cada um. Eles têm talento, cantam bem pra caramba, mas não têm que cantar daquele jeito. E outra: tem que se coreografar tudo? Tudo coreografado! Que pobreza!
Almeida — Eles interpretam a música. Os gestos…
Vânia — Tudo interpretado. Isso não é legal pra ninguém. Nem pra eles, que tão fazendo, nem pra quem está assistindo. Só aquilo, só aquilo… Tem muita coisa pro público ver.
Fernando — E acabam achando que isso é que é o padrão. Se não se canta com aquela voz, não é legal.
Vânia — São coisas do Brasil. Infelizmente. É claro que daí vai surgir uma coisa legal, também. De repente, os meninos vão pra frente… Mas não sei. Que tem isso, tem.
Almeida — Só para fechar. A Andréa Marquee, uma das eliminadas, tinha mais personalidade e parece que isso não coube ali, na “Academia”.
Vânia — É, não cabe mesmo.
Anderson — Mas houve um episódio em que uma menina — loirinha de cabelos cacheados — estava gritando, chorando, esperneando, e falava, “Pô, mas não posso fazer aquilo que quero?! Porque não posso cantar do jeito que quero?”. Achei isso interessante.
Vânia — Talvez isso seja até bom para escancarar o negócio, sabe? Escancara pra depois se encontrar um equilíbrio. Não é o professor de canto que põe a redoma, mas o professor de um monte de outras coisas. É o canto misturado a coreografia, com a maneira de… Quem que pode dizer pra você como pode interpretar tal coisa? A pessoa pode sugerir. De leve, ainda. Acho que, pra quem canta, é muito…
Almeida — Agressivo.
Vânia — Agressivo. Alguém chegar e dizer como você tem que fazer. Tem que haver suavidade. Até quem está produzindo o disco precisa ter esse cuidado. Tanto que tenho uma dificuldade com direção de show. [risos]
Anderson — A gente conversa muito sobre isso.
Vânia — Às vezes, que quero fazer no show aquilo que quero fazer, sabe? De repente, o diretor chega e fala “Não, aqui você não faz isso, não vira pra lá”. Como não? É meio perigoso. Claro que é meio bom também, alguém pra lhe dar umas dicas. O mundo vive de sugestões e dicas, e não de ordens. Aí, fica ruim.
Tacioli — Quem dirige o show Clube da Esquina?
Vânia — Ninguém. [risos]
Almeida — Não deixo! [risos]
Vânia — Eu não deixo! [risos]
Anderson — Muita gente dirige.
Vânia — Não, não, fui bolando tudo sozinho. Acho até uma coisa boa pra mim. Ir desbravando. Sempre tive muita gente me ajudando desde cedo. Era o irmão mais velho que me falava coisas. Sempre tive gente mais velha em torno de mim me dizendo coisas. E eu, como uma boa taurina, sempre fui muito obediente. Mas houve uma hora em que “Peraí, eu sei o que eu quero!”.
Anderson — Às vezes, a gente sugere e ela esquece de falar as coisas.
Vânia — Por exemplo.
Anderson — No Rio, eu disse, “Olha, diminui a quantidade de falas”. E ela não falou nada. [ri].
Vânia — É, mas foi uma distração. Aí, eu, com essa idade — que não vou dizer. Não precisa.
Almeida — A gente vai à Folha. [risos]
Vânia — Uma fonte! [risos] Essa foi boa. Acho que o gostoso é isso. Você vai descobrindo sempre. A gente é uma eterna criança que vai descobrindo coisas. Cada show é um novo show. Cada disco é um novo disco. Cada música é uma novidade. Isso é o gostoso da história de ser artista. Apesar de todos os abacaxis em volta, o mais gostoso é isso: cada disco novo é um passo no escuro. Você não sabe no que vai dar. Cada show é uma loucura, você quase morre… Mas, isso é viver. É isso aí.
Tacioli — E o que determina a época de se fazer um disco? Olhando sua discografia…
Vânia — De dois em dois anos, três em três.
Tacioli — É. O que determina isso? São as circunstâncias de estar em uma gravadora? É você quem determina?
Vânia — É tudo meio junto…
Dafne — Junto a essa pergunta. Você fez discos cantando Tom Jobim, Caetano Veloso, Clube da Esquina, e outros em que o repertório era diversificado. O que determina essa diferença entre um disco temático e outro com repertório variado?
Vânia — Olha, cada um tem uma historinha. O do Caetano foi uma sugestão do Gudin, porque ele via minha paixão por Caetano Veloso. O do Tom Jobim… Eu já cantava algumas coisas do Tom e ele teve a idéia de fazer as canções do Tom Jobim, porque sabia que combinava eu cantar com piano e orquestra. O convite para o do Clube da Esquina veio do Mazzola. E os outros foram assim… O Belas e Feras, tive a idéia de fazer um com as compositoras brasileiras. De repente, achei legal ter todas as contemporâneas no disco e essa coisa do tempo. Acho que, de tempo em tempo, você tem a necessidade de fazer uma coisa nova, sabe? Tudo isso vai calhando também com uma necessidade de se renovar no mercado e seguir em frente com sua carreira. E eu, como sou intérprete, penso tranqüilamente em projetos… Tal autor, tal autor. Pra mim isso não é problemático. Talvez se fosse compositora gostaria de gravar mais minhas músicas. Mas não tenho esse tipo de problema, não. Quando é uma sugestão legal, e eu a acho bacana… É claro que eu quero também fazer um disco com músicas novas, no próximo, músicas inéditas, misturando com regravações… Acho bom. Acho bom não ter preconceito com esse tipo de coisa de repertório. Sou intérprete, sou cantora, mas tem que ser condizente comigo.
Tacioli — Que desafios você encarou ao mergulhar na obra do Jobim? Que diferenças têm em cantar uma música do Jobim em um disco e em fechar um álbum somente com canções dele? Ou mesmo do Caetano? Há alguma particularidade? Que cuidado você toma ao fazer um disco de um autor?
Vânia — Sabe que eu nunca pensei muito sobre isso? Não sei se há dificuldade assim. Você tem que tomar cuidado, claro, porque… Por exemplo, gravar um disco de Jobim. Muitas cantoras já cantaram aquelas músicas. Mas não sei, talvez eu tenha até um sossego, uma calma dentro de mim porque sei que, quando vou cantar aquela música, ela vai sair com o meu jeito de pronunciar aquelas palavras, um jeito de cantar que vai ser peculiar [sic] à minha pessoa. Então, sei que não vai ter aquela coisa… “Ah, tá querendo imitar”. Não sinto e nem penso nisso. Fico tranqüila pra fazer um negócio desses. Porque, se pensar muito, não canta. Se eu fosse pensar bem, não cantaria o “Trem Azul” nesse disco agora. Imagina, a Elis Regina imortalizou a música. A Elizeth Cardoso, com milhões daquelas músicas do Tom. Silvinha Telles, e tudo o mais. Mas não penso assim, não. Acho que todas as músicas podem ter também a Vânia cantando e muitas outras cantoras. A música é mais importante. A beleza das músicas… Isso é o bom. Como cantar essas músicas do Clube da Esquina… O meu primeiro pensamento quando o Mazzola falou foi “Nossa, as músicas são lindas”. Quero dizer, pensei nisso, primeiro de tudo. Então, é gostoso para uma cantora ter músicas lindas pra cantar. É isso que é mais legal. O resto vem vindo depois. E não é assim coisa muito difícil. Mesmo pra escolher o repertório do Clube da Esquina. Teve gente que falou, “Nossa, deve ter sido difícil de escolher”. Não foi. Foi fácil porque gostava muito do Clube 1 e fui escolhendo a maior parte dali. Foi fácil escolher as que eu amava e que iam ficar bem com minha voz. Claro que, quando estou em casa, pensando nas músicas, fico cantando, vendo se está de acordo com a minha voz, se tá bom. Tem umas músicas que não dá. Você vê que tem umas músicas que são legais com tal cara em tal disco… Não vai ficar bom eu cantando isso. Claro que isso acontece também.
Tacioli — Houve isso agora, para o disco Clube da Esquina?
Vânia — Teve. Tem uma música que acho super bonita, que o Lô Borges canta. Linda! Mas ele cantando. Uma que fala dos ratos (cantarola)… “Na estrada”. Dos ratos, não sei o quê, das ruas. Bacana pra chuchu. Vi que não ia combinar… “Eu cantando essa música não vai ficar legal.” Mas isso tudo é coisa minha, né? O gosto é o que impera.
Tacioli [para o Almeida] — Fala.
Almeida — Não, eu ia mudar de assunto, mas posso fazer depois a pergunta. [ri]
Tacioli — Seguindo esse lance de fechar um álbum. Há alguma coisa que te faça…
Vânia — Pensar?
Tacioli — Por exemplo, “Vou cantar o Clube da Esquina. Essas músicas têm uma característica diferente e um público que é fã delas”. Você se coloca de uma outra forma para esse público que, não necessariamente é o seu?
Vânia — Mais ou menos. Isso não é muito definido a ponto de lhe dizer…
Anderson — Têm que haver uma harmonia com tudo…
Vânia — E eu não tenho receio. Poderia ter um pouco de receio de cantar músicas de Caetano Veloso e tal, ou do Tom Jobim. Isso nunca me passou isso pela cabeça, não?
Anderson — As músicas dos Beatles. [ri]
Vânia — Outro dia, fiz um show lá no SESI. O projeto era cantar músicas dos Beatles. Então, fui estudar quatro músicas do grupo. Cantando em inglês, músicas que nunca tinha cantado! Achei uma delícia. [ri] E piano e voz. Ficou bonito pra caramba. Deu até vontade de fazer mais.
Fernando — O que você cantou?
Vânia — Cantei “The fool on the hill”. Achei essa tão bonita! Uma fácil, “And I love her”. [cantarola] O que mais que cantei? “Hello, goodbye”. Adorei cantar “The fool on the hill”. [cantarola] Que letra linda! Linda demais. A outra, eu me lembro daqui a pouco. Enfim, tive de escolher quatro bem rápido para ensaiar… Piano e voz. Lembrei… “Something”. [cantarola] “Something in the way she moves”. Ficou super bonita em piano e voz. Ficou legal pra caramba!
Tacioli — Quem estava ao piano?
Vânia — O Tiago Costa. O Tiago toca na minha banda. Às vezes, a gente faz show com trio, mas sempre é ele ao piano. Até o Clube da Esquina ele já está tocando, também. O Luizinho (Luiz Carlos Avellar) fez no SESC Pompéia e lá no Rio, no Mistura Fina, mas nem sempre dá para ele ficar viajando com a gente. Assim, o Tiago já está de Clube da Esquina, também. [ri]
Almeida — Vânia, esse CD do Clube da Esquina saiu agora, está nas lojas. Você se preocupa em seus outros discos também estarem disponíveis?
Vânia — Eu me preocupo sim, mas não adianta nada.
Almeida — Você não tem controle?
Vânia — Sempre foi assim. Não tenho controle. É uma pena. Fico tão brava com isso. É chato, né?! São discos legais. Fica parecendo que é coisa antiga, não tem mais. E não é isso. É uma espécie de crueldade com o público. As gravadoras querem lucro imediato. Isso é uma chatice! A gente ainda tem que lidar com isso também, com o lucro imediato dos outros. Se ainda fosse com o seu, tava bom. [risos]
Tacioli — O primeiro não saiu em CD.
Vânia — O primeirinho de todos? Somente em LP. Os outros já saíram em CD. É uma pena, acho o primeiro tão bonito. Gosto daquele disco. Só tem em CD pirata.
Anderson — Autorizado.
Vânia — Nem é pirata aquilo, é mais ou menos pirata.
Anderson — Teve um amigo nosso, do fã clube, que fez algumas cópias para algumas pessoas. Então, a gente fala que é um pirata autorizado.
Almeida — Qual que é a sua relação com o fã clube?
Vânia — É boa. [risos]
Almeida — Mas é um contato próximo?
Vânia — É, eles mandam flores no Dia Internacional da Mulher. [risos gerais] O Domingos manda.
Anderson — É, eu sei, flores e um drops.
Vânia — É que ele sabe que gosto de Drops Kids Hortelã. [risos] O Domingos já fez muita coisa… Tem o Márcio também, que é outro tipo de fã clube. Eles escrevem coisas e se correspondem entre eles…
Dafne — Quando surgiu o fã clube? Como foi?
Vânia — Foi no tempo da “Paulista”. Naquele disco da “Paulista”, de 1990. Tanto que o nome do fã clube é Paulista.
Dafne — E como foi sua recepção ao saber que teria um fã clube?
Vânia — Achei uma delícia. Imagina? Eles apareciam nos shows com camisetas, tudo organizado, papel timbrado pra dizer as coisas. Eles têm até hoje isso. Funciona bem direitinho. É legal, é uma coisa boa. Tem gente que viaja pra outras cidades pra acompanhar os shows. É uma coisa bacana. E mais recentemente, há umas ramificações. Um fã clube é de um jeito, o outro é de outro. Gosto dessa coisa de conversar depois do show, de autografar disco, de escutar o que o pessoal tem pra dizer. Tem criança que vai ao fim do show pra cantar pra mim… [ri] “Olha, eu sei aquela sua música”. E se põe a cantar. [risos] Tenho a maior paciência. Eu gosto.
Tacioli — Tem alguma história louca de fã?
Vânia — Não sou muito boa pra lembrar.
Anderson — Teve aquele show no Nordeste em que um menininho de 8 anos começou a cantar “Canta mais”. Lembra disso? É uma música difícil.
Vânia — É, “Canta mais”. E tem aquela música do folclore armênio que eu cantava nos shows. E apareciam umas pessoas… “Eu sei aquela sua música do folclore da Armênia. Quer ver?” [risos] E cantava. Há tanta história, mas eu não lembro.
Tacioli — São fãs bem comportados.
Vânia — Ah, sim, não tem nenhum agressivo. São tietes. Tem gente que leva bicho de pelúcia, tem uns que gritam coisas na platéia.
Anderson — Vitaminada, absoluta! [risos]
Vânia — É tudo respeitoso. Mas tem uns que são mais empolgados.
Anderson — Nenhum debaixo da cama?
Vânia — Isso não. [ri] Tinha um menininho que estudava violino no interior do Estado de São Paulo. Tinha uns 8, 9 anos. Onde eu ia, isso há uns 2 ou 3 anos, ele fazia a mãe carregá-lo estrada afora. [ri] Show em Bauru, Araraquara, São Carlos, e lá estava ele.
Almeida — E era por vontade dele?
Vânia — Era! Ele falava assim, “Eu sei, eu tenho bom gosto!”. [risos] Aí, contei pro meu filhote. Ele ficou com ciúme do moleque. [ri] Foi a coisa mais engraçada. [ri]
Tacioli — Você tem quantos filhos, Vânia?
Vânia — Tenho dois. Uma de 16, a Rita, e um de 13, que é o Noel. E esse de 13 tinha, na época, também uns 8 ou 9, que nem o menino lá.
Almeida — Achou que ele ia roubar o lugar. [risos]
Vânia — Eu falava, “Noel, a sua mãe tem um fã da sua idade, você precisa ver que legal!” Aí, ele dizia assim, “Deve ser um gayzinho!” [risos gerais] Ele é de morte, mesmo.
Almeida — Algum dos dois têm queda pra música?
Vânia — A Rita tem. Ele já estudou piano e agora está estudando violão. Canta legal. Adora Marisa Monte. Você vê que ela tem influências no jeito de cantar. Ela gosta sim, adora música. Ele gosta também, mas gosta de fazer de conta que não gosta. Ele está estudando guitarra. E ele fica prestando atenção nos shows, se eu errei, se eu acertei. “Naquela estrofe ali, você mudou aquela palavra!” Ai, meu Deus do céu! Ele vai com a lupa. É um barato.
Tacioli — Vânia, você falou que tinha uma relação de ídolo com a Wanderléa. Você teve contato com ela?
Vânia — No Belas e feras gravei “Ternura”. Ela sabe que falo muito dela por aí. Ela sempre foi muito legal comigo. Até topou gravar um Videoshow na casa dela. A gente cantando “Ternura”, juntas, ali. E ela sempre me deu todo apoio. Quando tem show em São Paulo, e ela pode assistir, ela vai. Uma graça. Adoro a Wanderléa até hoje. Paro o que estiver fazendo quando ela passa na televisão. Gosto dela, acho que tem um lance ali. Não é tanto a voz, é outra coisa, é um total. Fui ver um show da Jovem Guarda… uns 4 ou 5 anos atrás, no Tom Brasil. Achei aquilo o máximo. Todo mundo lá. Eu amava a Jovem Guarda! O que eu vou fazer? O que eu vou fazer é demais! [risos] Sabe porque… Uma vez fui na Rádio Cultura dar uma entrevista pro Pica-pau [n.e. O radialista e produtor Walter Silva], esse que lançou o livro agora. Ele é meio rígido. Falei pra ele que amava a Jovem Guarda lá em Ourinhos. Ele falou, “Que mal gosto!” [ri] Ele falou isso no ar. [risos] “Que mal gosto, que coisa horrível, essa música brega. Era dessa música brega que você gostava?” Era dessa música também, mas comecei a gostar de outras músicas também. Fiquei emocionadíssima nesse show vendo a Wanderléa, a Martinha, o Leno & Lílian, Os Incríveis, tudo aquilo.
Tacioli — Você já pensou em gravar um álbum somente com músicas da Jovem Guarda?
Vânia — Não cheguei a tanto. [risos]
Almeida — Algum pudor?
Vânia — Não, tô brincando. De repente… Gente, tem canções bonitas pra caramba ali. Eram bregas, quero dizer, pra época… Numas, também. Eu não achava, eram bem populares, mas tinha aquela coisa da juventude também. Não era música brega! Mas é que não era aquela música mais estudada, não era aquilo.
Anderson — Seria a Sandy & Junior da época?
Vânia — Será? Mas sei que tem músicas com melodias ricas hoje em dia. Quero dizer, perto do que a gente têm ouvido, são melodias legais pra caramba e coisas bem feitas. Tem tantas músicas do Erasmo e do Roberto bonitas pra chuchu. Nossa senhora! Eu sou super fã do Erasmo Carlos, também. Adoro ouvir o Erasmo! Descobri que sou fã do Erasmo! [risos] Muito, muito. Ele é bacana pra chuchu. Eu tô soando antiga perto de vocês? [risos] É, acho que eu estou. Mas esse negócio da Jovem Guarda… De repente, é um lance, viu?
Tacioli — Seria como o disco do Baden Powell, de lembranças das músicas que ouvia quando era criança.
Vânia — Isso aí seria uma outra verdade muito grande… E pré-Clube da Esquina. Anterior. Nossa Senhora! E eu comecei a cantar em Ourinhos, na festinha 4º ano primário, imitando a Wanderléa. “Pare o Casamento!”, eu e as meninas do coro. A gente ensaiava na hora do recreio. Era bem assim.
Anderson — Você dublava ou cantava?
Vânia — Imagine se eu vou dublar! [risos] Questão de honra. Não. Hoje em dia dublo quando vou à televisão, mas aí dublo a mim mesma.
Tacioli — Mas do repertório da Wanderléa, você já cantou outras além de “Ternura” e “Pare o casamento”?
Vânia — Em show, de hoje em dia, da vida profissional, não. Na verdade, cantei somente “Ternura”.
Tacioli — Você acha que o seu público pode estranhar?
Vânia — Acho que pode estranhar um pouco.
Almeida — Mas você teria esse tipo de pudor?
Vânia — Teria que ser um show preparado pra isso. Aí, eu iria fazer com gosto mesmo. Coisas da Wanderléa e tudo. Nossa, tem tanta… Tem um caminho aí, né?
Anderson — Ela tem tanta coisa.
Tacioli — E ela tem uma trajetória que não ficou presa à Jovem Guarda?
Almeida — Não tem um disco dela…
Dafne — Do Gismonti.
Vânia — É, ela participou.
Dafne — Não, dela mesmo. Ele produziu, fez os arranjos. Havia algumas músicas dele também.
Vânia — Na época em que ela namorou com ele. Não conheço esse disco.
Dafne — Ouvi algumas faixas.
Vânia — É legal? Deve ser interessante.
Dafne — Ouvi na Internet. Não deu pra ouvir direito, mas me pareceu bacana.
Tacioli — E eu assisti ao Ensaio com ela e deu para perceber que tem muitas outras coisas. E como a caricatura da Jovem Guarda é pesada. Ia ser curioso ver você cantando essas músicas.
Almeida — Ia.
Tacioli — Beleza, Vânia. Obrigado pela entrevista.
Vânia — Imagina, obrigado vocês. Será que a gente falou coisa boa? Acho que um monte de coisa boa, né?
Almeida — Falamos. Muita.
Vânia — Achei legal porque conversamos sobre várias coisas que eu nunca havia falado em entrevista.
Ricardo Pieralini — Vamos começar de novo? [risos]
Leia a crônica do radialista e jornalista santista Osvaldo Moles (1913-1967), considerado o sucessor do escritor Antonio Alcântara Machado e pai artístico de Adoniran Barbosa
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Faixa 01 – “Ilha do Mel” (Raul de Souza), por Raul de Souza
Faixa 02 – “Balada 45” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Arthur Verocai
Faixa 03 – “Sweet Lucy” (Raul de Souza), por Raul de Souza
Faixa 04 – “Balanço Zona Sul” (João Donato), por Raul de Souza e Robertinho Silva
Faixa 05 – “Rio Loco”
Faixa 06 – “Don’t ask my neighboors”
Faixa 07 – “Banana tree”
Faixa 08 – “Piano na Mangueira” (Tom Jobim), por Raul de Souza
Faixa 09 – “Bossa eterna”
Faixa 10 – “Lugar comum” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Robertinho Silva
Entrevista realizada em julho de 2002, na sede da gravadora Abril Music, em São Paulo/SP.
Entrevistada: Vânia Bastos (13/mai/1956, Ourinhos/SP)
Entrevistadores: Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Fernando de Almeida e Ricardo Tacioli
Transcrição: Dafne Sampaio
Produção e edição: Ricardo Tacioli
Fotos: Dafne Sampaio
Agradecimentos: Anderson Bueno e Ricardo Pieralini
Portelense de coração, ela não se considera pesquisadora, mas uma catadora de sambas.
Somente nesses últimos dez anos que a carreira de Ignez Francisco tomou o espaço que merece.
Um dos principais produtores de música brasileira, ele é responsável pelo primeiro disco de Cartola, Adoniran Barbosa e Carlos Cachaça.
Seus primeiros passos foi como cantora da Vanguarda Paulista; depois seguiu para Tom Jobim, Clube da Esquina e Eduardo Gudin.