Da zona sul paulistana e autor do rap “Us mano, as minas”, ele ganhou projeção nacional após participar de um reality-show.
SÃO PAULO, 07 de fevereiro de 2003
Choveu em nosso piquenique.
Xis escolheu o Parque do Ibirapuera para a entrevista. Típico cenário paulistano, aonde o Marcelo gosta de levar o moleque e a mina para passearem. Mas era verão e a chuva veio como costuma vir nos fins de tarde dos dias quentes da cidade. Nos agrupamos na marquise, ali achamos um restaurante aberto. O dia já virara noite e um mais cético disse, “Se fosse eu, com essa chuva, nunca que viria”.
“Mas, não é que ele vem?!”, disse o mesmo cético quando a notícia confirmando sua vinda, com um atraso, chegou pelo telefone. E atrasou pouco pra muita água.
Codorna só não acompanhou o chegado por um acaso, mas o Marcelo veio junto.
Xis gosta de falar, mas acho que o Marcelo é mais tímido. O Xis tem aquelas tatuagens, sobe no palco, manda recado, faz política (sem o menor sentido pejorativo). O Marcelo também é guerrilheiro, posse e mente, Geledés, sempre em busca da consciência negra. Mas o Xis tem que falar, “Foda-se!”. O Marcelo pode deitar no sofá e dormir com o moleque no colo e acordar com uma nova base na cabeça, uma letra, uma rima. Acho o Marcelo mais livre, ele goza da liberdade que o Xis quer ter, mas tem que aguentar muita aporrinhação. É, o Xis tem que dar muita explicação. O Marcelo só quer fazer o som dele, o resto tá no sangue, não precisa explicação, não precisa repetir discurso.
Durante a entrevista um olhava pro outro. Claro, Xis e Marcelo concordam em quase tudo, inclusive ambos são corintianos terroristas. Um empurra o outro em direção ao um, que volta a empurrar o outro, que chega mais perto do um. Eles estão cara a cara, acho que vão fazer um som…
por MAX ELUARD
01. “Já pensou em estudar Jacinto Silva?”
02. “São Paulo assusta a toda hora”
03. “O Xis é um personagem que criei”
04. “Tenho escutado música eletrônica pra caralho!”
05. “A Warner queria uma ‘Us mano e as mina'”
06. “‘Xis, que cabelo é esse?”, falou o Silvio Santos”
07. “Sempre reclamei que tinha que ter preto na televisão”
08. “Quero mostrar outras culturas para meus filhos”
09. “Admiro Cuba pelo Che e Fidel terem tomado aquela porra!”
10. “Chego no Rio e vou ao pagode da Tia Doca”
11. “Eu vendia cerveja durante o Carnaval no Corinthians”
12. “Quem está dando a entrevista é o Xis?!”
13. “O rap no Brasil está buscando uma identidade própria”
14. “Nunca fui escolhido como o Charlie Brown foi”
15. “Tive proposta para fazer um MTV Acústico”
16. “Não consegui tocar no Millenium Rap”
17. “Fiz meu primeiro disco com 5 mil reais”
18. “Todo rapper brasileiro sempre quis ser um rapper americano”
19. “Temos o direito de não fazer mais música”
20. “A minha cultura musical é sampler”
21. “Temos o direito de não fazer mais música”
22. “Um dos meus projetos é um tributo ao Pepeu”
23. “Acharia da hora trabalhar com trilha de cinema”
24. “Se eu não estivesse com o rap, não estaria mais vivo”
25. “A gente assiste a Globo por vício”
26. “Leio Fernando Pessoa, Ferreira Gullar, Cecília Meirelles”
27. “A última vez que trombei com o Sabota foi na 4P”
28. “A Cássia chamava meu pai de Xizão”
_ Playlist
Ricardo Tacioli — Quando você marcou a entrevista no Ibirapuera, falamos “do caralho!”.
Max Eluard — Entrevista ao ar livre.
Xis — Pensei a mesma coisa, sentar em algum lugar por aí, mas com a chuva…
Max Eluard — Foi o que o Serjão falou, “Marcar alguma coisa ao ar livre às seis da tarde, no verão… Só a gente!”. É chuva!
Xis — É foda, e em São Paulo ainda…
Tacioli — Pois é, trouxemos até um tapete para forrar a grama. [risos]
Max Eluard — A cesta de piquenique. [risos]
Xis — Eu ia trazer as formigas. [risos] Uma vez fiz piquenique aqui com a minha mulher. Ela trouxe uma pá de coisas. “Pô, cê não trouxe nada?” “Ah, umas formigas!” [risos]
Max Eluard — Xis, você gosta de São Paulo?
Xis — Pô, véio, eu gosto de São Paulo, mas pra mim é foda. Nasci em São Paulo. Meu pai é paulista, minha mãe é mineira de Uberlândia. Eu até puxo pra caralho os “porrrrta”. Meu avô era baiano. Eu adoraria ter nascido lá. Mas sou diferente dos moleques da minha área porque conheci o país inteiro, tá ligado, véio? Eu adoro São Paulo, assim, entendeu, mas, pô, tem uns lugares no Rio que eu gosto pra caralho, tem lugares em Salvador que eu gosto pra caralho. Tem lugares em Porto Alegre que eu vou e me sinto bem pra caralho. Na verdade, em São Paulo tem uns picos como o Ibirapuera. “Pô, onde vamos fazer a entrevista?” Eu falei, “Caralho, em que lugar eu gostaria de fazer?” É foda ir pra minha casa e sentar ali embaixo. “Pô, quero ir ao Ibirapuera. Vamos marcar no Ibirapuera, tá ligado? Porra, será que eu consigo chegar? Será que não vou atrasar?” Gosto de São Paulo, mas São Paulo é muito grande. Conheci São Paulo bem pra caralho, principalmente depois de 1997, quando fiz shows com o Dentinho. Saí do DMN em 97 e a gente gravou “De esquina”. Ela estourou na 105 [n.e. Referência à Rádio 105 FM], mais pro público do rap. Rodei São Paulo inteirinha, desde cidades do interior — Jundiaí, ali pro meio, Itupeva –, até o fundão da zona sul, da zona leste, Ermelino, Itaquera, Taboão, Parque Pinheiros. Fomos fazer shows pequenos em tudo que é lugar. Porra, gosto de São Paulo pra caralho, mas não sei se vou querer morar aqui daqui a dez anos, tá ligado?
Max Eluard — Criar os filhos…
Xis — Tenho dois filhos, mano. Tenho um molequinho que tem 50 dias e uma menina no sul, em Tubarão, que tem um ano e cinco meses, tá ligado? Porra, tenho meus 30 anos agora e, quem sabe, daqui a uns oito anos eu consiga um lugar calmo para estar com os dois moleques, tá ligado?
Tacioli — E que lugar você imagina?
Xis — Ah, tem vários, viu, véio? O interior de São Paulo, até Cuba, sabe assim? Deixar o moleque crescer e estudar lá. Não sei, do interior de São Paulo para o Nordeste, tá ligado? Sinto falta pra caralho de terra. São Paulo é muito urbano.
Daniel Almeida — Mas isso é uma referência sua por ter tido contato com a terra na infância?
Xis — Não, é um lance de sentir falta, mesmo, tá ligado? De querer andar de chinelo.
Almeida — Botar o pé na terra, mesmo?
Xis — É, de ter um lugar pra andar de chinelo, nem tanto praia, de barro, mesmo… Sou um cara que sempre viveu dentro de apartamento. Isso é foda, viver dentro de apartamento, viver dentro de escritório!
Max Eluard — É engraçada essa necessidade da terra, que parece não combinar com o rap, que é um troço tão urbano, tão marcado pela urbanidade.
Xis — Porra, o rap no Brasil veio muito com aquela parada de americano, que é a parada urbana, tá ligado? Mas já aconteceu muita coisa bacana, que não foi urbana.
Fernando de Almeida — É, do repente.
Xis — É, também. Jacinto Silva, tá ligado? Já pensou em estudar Jacinto Silva [n.e. Pioneiro compositor alagoano radicado em Caruaru, PE, morto em fevereiro de 2001], estudar os baratos do repente, mesmo? Isso seria do caralho, principalmente pra gente, acho que teria mais a ver, tá ligado? Mas teve muita coisa assim, parada de rap americano pra rap no Brasil, umas coisas bacanas que aconteceram. Arrested Development, algumas bandas que não fizeram sucesso e que eu não vou lembrar o nome, mas que eram do interior de lá, do Texas, do caralho a quatro, que faziam um barato que era mais rural assim, tá ligado? Eu não sei se aqui dá pra fazer isso e também não é a minha idéia.
Tacioli — São Paulo te assusta, Xis?
Xis — São Paulo assusta a toda hora, né? Porra, toda hora!
Tacioli — O que te assusta aqui?
Xis — Quando você está no trânsito, assusta quando você vai a um show e tem gente pra caralho, assusta quando você está no estádio… Quarta-feira fui assistir ao jogo do Corinthians…
Max Eluard — Trinta paus o ingresso.
Xis — Porra… Trinta paus o ingresso, véio?! Porra, vou abrir isso… não é em off, não, vou abrir em entrevista mesmo… Pode colocar… Fiquei na Tribuna do Pacaembu, na quarta, porque jogo do Corinthians na Libertadores eu não perco… E aí tenho um amigo que trabalha na Coordenadoria de São Paulo, que faz vários trabalhos bacanas na Prefeitura. E eu liguei pra ele e falei: ”Pô, tô a fim de ver esse jogo, vamos aí?”. “Vamos, vamos lá que eu vou colocar você na Tribuna”. [risos] Aí fiquei na Tribunazinha ali do lado. Depois fui para outro pico mais alto, onde a Marta [n.e. Marta Suplicy, prefeita de São Paulo], quando quer assistir a um jogo, fica.
Max Eluard — Ali junto às cabines, né?
Xis — Lá em cima. É, o Galvão [n.e. Galvão Bueno, locutor da TV Globo] fica do outro lado. Pô, São Paulo assusta por isso aí, saída de estádio é muito confusa. Eu estava com um amigo de Angola, que está procurando lugar pra estudar. O pai dele o mandou para cá e ele está na Cohab e não sabe se estuda aqui ou no Canadá. Como eu não estava pagando e o dinheiro estava curto, falei “Tô com dinheiro aqui. Vocês vão na torcida dos caras, pra pagar ingresso mais barato”. E eles foram lá na torcida do México, do Cruz Azul. Eu ficava do celular pra eles: “Mano, eu tô vendo vocês!”. E eles do outro lado. E aí, pô, o moleque ‘tava de brinco… Como a gente anda, né? Mais hip-hop. Um molequinho, preto, assim, black, falou “E aí, do rap, tem um dinheiro aí?” Olhei pra ele e falei, “Mano, não tenho dinheiro. Tenho dinheiro, não, mano”. São Paulo assusta por causa disso, você não sabe quando vai sair confusão, em que momento vai sair uma festa, em que momento pode ficar tranqüilo.
Max Eluard — Mas que joguinho, hein, Xis?
Xis — Chato pra caralho, véio. E outra, porra, a trinta contos o ingresso. Comentei com o Alexandre, “Porra, velho, assisti esse jogo de futebol em todos os lugares.” Depois que subimos pra Tribuna, um cara do Anhembi falou: “Ô, Xis, chega aí!”. Era onde ficava o Citadini, os caras todos. O Wladimir [n.e. Wladimir Rodrigues dos Santos foi lateral-esquerdo do Corinthians durante aos anos 70 e 80] estava lá. Fiquei assistindo o jogo do lado do Wladimir.
Max Eluard — Que honra!
Xis — Caralho, mano, fiquei pensando no meu pai. Meu pai adorava o Wladimir, o Zé Maria, aqueles caras todos.
Max Eluard — Mas a Fiel deu um show, né?
Xis — É… Ficou cantando uma música novinha que eu não curti muito, não.
Max Eluard — Mas não pararam de cantar.
Xis — É, mas ficaram cantando uma música meio à Boca Juniors, tá ligado? É uma outra coisa, eu acho meio estranho. A torcida do Corinthians tem uns coros mais populares, mais gritos de guerra, mais ligadas com o samba, até.
Max Eluard — E ficou mais monocórdico.
Xis — [imitando o coro da Fiel] “Oô /Oô / Oô / Oô / Oô / Oô / Timão / Oô / Oô”. E fica assim. Falei, “Caralho, que porra é essa?” [risos]
Max Eluard — Tô na Bombonera?
Dafne Sampaio — Fica parecendo futebol europeu, né?
Xis — É, meio italiano. É viagem dos caras, véio.
Tacioli — Você falou do Wladimir. Você acompanhou a geração do Corinthians do início dos 80?
Xis — Véio, se teve uma coisa que eu fiz na minha vida foi assistir jogo do Corinthians. Viajei. Fui pra Novo Horizonte, pra Minas. Vou pro Rio, mesmo, vou sozinho, véio. Pego minha mulher e vou. Final do Mundo, contra o Vasco, eu estava lá [n.e. Referência ao1º Campeonato Mundial de Clubes da FIFA, realizado no Brasil em janeiro de 2000, e vencido, nos pênaltis, pelo Corinthians]. Meu pai me leva pro estádio desde 79.
Tacioli — Você sonhava ser jogador de futebol?
Xis — Fiz peneira e o caralho, véio. Fiz peneira no Juventus e no Corinthians. Eu não era ruim, não. Na escola, joguei duas copas da Taça Jovem Pan. Fui titular na escola lá de Itaquera em que eu estudava.
Max Eluard — Jogava o quê, Xis?
Xis — Salão. Eu queria sempre estar perto do gol pra poder marcar, né, mano? [risos] Queria marcar gol. Ficava ali de meia-direita, mas acho que não era muito a minha, não. O barato sempre foi mais música mesmo, tá ligado? Eu trabalhava de securitário no Real, com 17, 18 anos de idade, mas era apaixonado por música. Era apaixonado por rap, por baile, tudo. Pedi a conta e fui trabalhar na Galeria do Rock, mas na do rap, em uma loja de CD, porque eu queria ter CD, véio. Queria escutar as músicas, queria estar no meio, não dava só pra ir pra São Bento e ficar vendo os caras dançarem, tá ligado? Eu trabalhava no Real, passava lá, às vezes, no final de semana, e quando tinha dinheiro ia comprar disco. Comprava (discos) do Public Enemy, N.W.A., do Boogie Down Productions, essas porras. Falei, “Ó mãe, vou sair, vou trabalhar na Galeria”. Fui trabalhar na Galeria, depois trabalhei numa ONG, o Geledés.
Max Eluard — Mas você trabalhava no Geledés?
Xis — Trabalhei. Tenho a carteira Geledés. Agente cultural. Foi um momento importante pra caralho na minha vida. Isso foi em 92, acho.
Max Eluard — Eles já estavam trabalhando nessa época.
Xis — Isso aí, 92. Foi bacana, teve uns barato meio louco, de juntar todo mundo. Fizemos uma revista (Pode crer) em que o Brown foi capa, o Thaíde e DJ Hum foram capa de outra, e nós mesmos fazíamos os textos. Saia confusão pra caralho porque todo mundo queria ser artista. Fizemos um show no Anhangabaú que foi do caralho, um momento bacana! Deu uma estressada um certo tempo porque o Geledés era uma entidade negra e todas as entidades negras sempre tiveram uma deficiência muito grande em chegar na periferia. Pô, a maioria dos negros está na periferia, mas todas as reuniões da comunidade negra eram na USP, na Faculdade São Francisco. Pô, participei de várias, né, mano! Eu era do DMN, que era um grupo político pra caralho, que tratava da questão de preto e branco, tudo… E quando o rap chegou, a gente falava a linguagem que a molecada entendia. As entidades negras faziam os eventos relacionados com rap com a gente, e ia aquele povo, aquele público que eles precisavam. Eles passavam muita coisa pra gente, e tivemos acesso a livro, a muita informação que foi bacana. Mas chegou uma hora em que eles estavam querendo determinar as coisas que tínhamos que falar… Porra, muita gente — do DownNegro, do MNU, do Geledés — teve uma importância muito grande ali, em 78, 79, década de 80, daquelas paradas todas, mais black, mais politizados aqui do Brasil. Estávamos 10, 15, 20 anos depois, com uma outra história, véio. Não dava pra ficar repetindo aquela coisa. Eles não iam conseguir conquistar o sonho ali com a gente… Aí acabei dando uma distanciada… Mas trombei com o pessoal do Geledés na semana passada. O Danny Glover [n.e. Veterano ator norte-americano e militante pelos direitos humanos] estava aí. Fui lá ver o Danny Glover, Máquina mortífera, né, mano?
Almeida — O ator, porra?!
Xis — É, o ator. Veio para o Fórum [n.e. 3º Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre, RS, em janeiro de 2003]. Estava o Netinho e a Sueli na mesa com ele. O fato engraçado foi a hora em que o Pitta entrou. [risos] Ele chegou atrasado — mancada do Pitta -, mas aí a mulher anunciou, na primeira brecha que deu, “O ex-prefeito, bananã-bananã… Pitta”. Aí, de sessenta pessoas, seis bateram palmas sem animação e o resto fez assim “ó”, mas sabe assim (imita os trejeitos dos outros convidados, desconfortáveis com a presença do ex-prefeito). O cara olhou, olhou de novo e saiu, foi embora… [risos] Foda, bom pra caralho, bom pra caralho.
Monteiro — Você falou que queria ter CDs e citou Boogie Down Productions mas, musicalmente, há coisas de antes disso. O que o garotinho Xis ouvia?
Xis — Nasci na Vila Formosa em 72 e, em 80, morando de aluguel, fomos para a Cohab 2. E na Cohab eu queria um som, véio. Queria um rádio. Isso foi em 82, eu tinha 10 anos. E quando eu tinha uns 15 anos, meu pai falou, “Se você passar de ano, eu te dou um barato aí. O que cê quer?”. Eu falei, “Quero um som, mano. Quero aparelho de som!”. “Então, a gente vai comprar um”. Mas falei, “Eu sei qual eu quero”. E havia um maluco lá do meu prédio, no primeiro andar, que tinha um 3 em 1, véio, que era da hora pra você fazer scratch, tá ligado? Meu pai tem até hoje esse 3 em 1 guardado na garagem. Meu pai é louco, véio, não joga os baratos fora, sério. Aí meu pai me deu esse som, mano. O que eu escutava? New wave pra caralho, porque era época do New wave, da Blitz, do Kid Abelha, da Gang 90. Escutei rap pela primeira vez no programa do Arthur Veríssimo, da Trip, mas ainda era na 97. Foi quando o cara tocou o Public Enemy. E aí depois, engraçado, o primeiro lugar que escutei pessoal do rap trocar idéia foi na 89 [n.e. Rádio 89 FM]. Se não me engano, era um outro programa que existia, não sei se era o programa de alguém, que levou o Nasi, o DJ Hum, o Código, pra mostrar o disco, trocar idéia. Isso era em 86, 87. Então, eu escutava FM, e ficava virando ali. Havia umas coisas que me interessavam mais. Eu escutava Garotos Podres, via os caras andando de skate, ouvia Grinders, Replicantes, porque não havia muito rap, tá ligado? Como é que eu tinha acesso ao rap? Meus primos iam aos bailes em fim de semana. Guilherme Jorge, Neon Clube e, basicamente, Chic Show, Palmeiras. Então, fim de semana, eu com 14,15 anos e meus primos, né, mano, mais espertões, catando as mulheres. Quando eles me levavam era aquela boiada, “Vamos levar o Marcelo”, senão, era o esquema deles, pra fumar o baseado deles, pra tirar a onda, e não dava pra ir. Quando eu ia, ia aos bailes black. Então, música black eu consumia nos bailes. Em casa eu ficava fuçando e vendo. A Bandeirantes e a Pool foram rádios que tocavam black e eu me identificava mais. Ficava assim, ficava sintonizando. Agora a parada de consumir, eu consumia FM, véio. Mas eu não me conformava muito com o que a FM tocava, não. Escutava o que a FM tocava, mas fuçava outras coisas também, tá ligado?
Tacioli — Mas você já tinha idéia de ser artista?
Xis — Não, não. Nunca pensei em ser artista. Até hoje eu ainda não me considero artista. O Xis é foda… O Xis é um personagem que criei, véio. Aliás, criei vários. O Xis, o Preto-Bomba. Porra, eu tô trampando. É um sonho meu lançar uma HQ do Preto Bomba. Acho que estou conseguindo isso aí, tenho trabalhado direto com mais alguns amigos. Talvez, em um ou dois anos, a gente consiga lançar alguma coisa bacana.
Almeida — Mas você quer escrever o roteiro ou desenhar?
Xis — Não sei se eu tenho condição [de escrever o roteiro]. Desenhar, não! Tem um cara que está desenhando. Tenho participado, com várias idéias, de reuniões para o roteiro. Algumas letras que escrevi e que são, de certa forma, roteiros, dentro daquilo que a gente está querendo fazer.
Max Eluard — Mas você está falando que não se considera artista. Qual é a sua concepção de artista? Ou isso é uma mentira?
Xis — Porra, véio, em 2003, vocês fazem arte, fazendo o site, que é uma referência pra quem gosta de site, entendeu, mano? Pô, um site que é branco, que é bonito. Pô! Tem o texto ali, tem uma estética bacana. Pra mim é arte. Pra mim, hoje todo mundo acaba sendo meio artista. Porra, em 2003 é foda definir o que é arte, quem é artista e quem não é, isso é bom, isso é ruim, tá ligado?
Max Eluard — As facilidades técnicas tornaram o “ser artista” muito fácil, né?
Xis — Falar pra vocês que sou músico? Em “Us mano e as mina” eu toquei, até consigo achar as notas. Toquei no estúdio. “Pan, paaan, pan, paaan, pan”. Mas falar que sou músico? Não dá pra falar isso. O Xis é um argumento, um motivo pra eu fazer uma pá de coisas, coisas que eu gosto, tá ligado? É lógico que não dá pra fazer tudo. A vida vai passando, você vai tendo filho, tem mulher, pai, irmão. Uma pá de gente que você quer ajudar. E você tem que ganhar dinheiro, você tem que trabalhar. E você tenta, é lógico, trabalhar com aquilo que você gosta.
“O pessoal do Rio perdeu a empolgação do Carnaval. E quando você perde a empolgação, você não faz nada.”
Monteiro — Essa garotada — mais do rap — que está começando, não se sente muito à vontade com a denominação “artista”. Uns até dizem, “Artista, não, cara. Sou terrorista, guerrilheiro!”, ou qualquer coisa parecida. Mas, numa definição aurelística, é exatamente isso que você está falando, é um cara que vive de arte.
Xis — Se eu queria ser artista? Queria ser, sim, véio, gostaria ter um puta show, tá ligado? Com luz, morô, mano? Com alguém fazendo a direção de arte, com um som bom. Queria, de repente, fazer teatro, cinema, estudar mais. Pô… queria! Quando falo que não sou artista, ou, que não me considero, é porque as coisas que fiz, fiz com muita intuição. Eu era do DMN que, porra, começou em 89 lá em Itaquera. Eu e mais uns amigos participamos de uma fase na cultura hip hop que era dos discos independentes, feitos por gravadoras que promoviam bailes como o Chic Show, Zimbabwe e Black Magic. Tenho o maior orgulho de ter participado do Consciência black vol. 2, um disco feito pela Zimbabwe [n.e. O D.M.N. integrou a coletânea, lançada em 1992, com “Mova-se”]. No vol. 1 [n.e. Lançada em 1988] saíram os Racionais (“Pânico na zona sul”), Sharon Line (“Nossos dias”). Participamos do segundo. Depois de quatro, cinco anos, conseguimios lançar um disco, o Cada vez mais preto, que acho que é um dos discos mais políticos da história da cultura hip hop. Fizemos com dinheiro próprio. Quatro anos depois consegui ter uma música numa coletânea do DJ Hum. Estar no estúdio com o DJ Hum já era o máximo, mano. “De esquina” estourou. Abri um selo logo depois com um amigo e, com quatro mil reais, a gente fez o Seja como for, mano, que vendeu mais de 50 mil cópias. Eu prensei 48 mil cópias, fora as bicas que eu tomei, tá ligado? Com os piratas, acho que deve ter chegado nas 100 mil, falando isso humildemente… Agora, porra, vamos falar de arte? Talvez daqui a alguns anos, daqui a muitos anos, quando essa porra sumir e o cara for estudar e ver como a coisa toda foi feita — os equipamentos e a grana que a gente tinha (6 mil reais) -, vá falar, “Puta, fizeram aquilo com esse dinheiro?. Daí talvez seja considerado arte, mas hoje… Esse barato de artista é meio complicado, mas olha, eu queria ser artista, sim, mano. Eu gostaria de ler a crítica e falar, “Porra, do caralho!”. Mas estou num outro momento que é, porra, vou fazer um disco agora. Gosto e tenho escutado música eletrônica pra caralho. Quando falo música eletrônica quero dizerdrum’n’bass e um pouco de nu jazz, tá ligado?.
Tacioli — O que você está ouvindo?
Xis — Ah, esse tal de Jazzanova, um povo daquele selo Compost. Sou péssimo pra decorar nomes. É da Europa, faz uns jazz, até algumas coisas com alguns brasileiros que tão perdidos por lá, eles acabam gravando. E gravando em português, uns negócio mais tranqüilão, mas acho que não é a minha praia, mas é o que eu tenho escutado, entendeu? E agora estou fazendo um outro disco… Tenho escrito algumas coisas, mas eu não sei o que é ainda… Mas não é nada, vamos dizer assim, artístico, tá ligado? Não é nada que eu vá fazer pra depois ir à televisão, ou fazer isso e um videoclipe, não! O Fortificando, o último que fiz, fiz sozinho. Fui pra Cuba sozinho, gravei sozinho, passei seis meses indo pra rodoviária do Rio cheio da grana, porque eu tava vendendo pra caralho o Seja como for. Tinha conseguido juntar uma grana. Escolhi e paguei os produtores. Ligava pro KL Jay e falava, “Mano, vem pro Rio”. Ele ia de avião e eu de ônibus. Eu não estava pensando, “Ah, sou artista, vou fazer tal coisa…”.
Seabra — Mas você estava curtindo fazer aquele trabalho.
Xis — Estava.
Monteiro — Mas essa coisa meio intuitiva é comum na música, né? Quando a gente olhar pra trás, vamos falar, “Porra, isso era legal, era arte!” Com o punk foi assim.
Max Eluard — Foi execrado.
Monteiro — Hoje o punk é arte, tá na história da música.
Xis — Mas aí virou um mercado, né? Falo assim porque eu não entrei pro mercado, tá ligado? É difícil você entrar no mercado, né? As bandas de punk hoje… Não sei muito da história do Nirvana, mas umas bandas que fazem punk-rock que as gravadoras trampam, chegam vendendo uma parada, entendeu? O que o Xis, às vezes, chega vendendo, chega falando, são coisas naturais, assim… O Poder para o povo pretoquando tatuei, não foi para os outros moleques tatuarem também. Maior viagem. É claro, tive a idéia, depois todo mundo tatuou um monte de coisa. Hoje você vê uma pá de cara com os braços tatuados também, tá ligado? Não faço isso pra ser multiplicado. É claro que existe um mercado, um mercado de música. É claro que existe um mercado de hip hop no mundo inteiro.
Tacioli — Mas você acaba sendo uma referência. Você tem essa noção?
Xis — Eu tenho conciência disso. Aí é foda porque você pode trabalhar isso de várias maneiras, para o bem e para o mal, né?
Tacioli — Por mais intuitivo que seja, você tem que zelar isso.
Xis — Eu fiz o meu disco sozinho e depois acabei negociando-o com a Warner, tá ligado? E oito meses depois fui pedir pra sair da Warner. Não sei como isso vai ser pensado daqui algum tempo, como é que as pessoas vão analisar isso.
Max Eluard — Mas por que você pediu para sair da Warner?
Xis — Pedi pra sair da Warner porque não rolou flow, porque a gente não estava conseguindo falar a mesma língua.
Max Eluard — Você tinha uma idéia de como trabalhar o disco e eles tinham outra?
Xis — Não.
Fernando de Almeida — Ou eles não trabalharam o disco?
Xis — Não, eles trabalharam o disco, sim. De certa forma, até fui eu que trabalhei o disco, também. Montei uma equipe pra trabalhar o disco. Cheguei e falei, “Eu quero trampar, eu sei como funciona. Vende-se nesse lugar. A gente tem que fazer isso, tem que haver essa e essa ação”, entendeu?
Max Eluard — Tem que trabalhar na escala. Os caras de grandes gravadoras não têm noção dessas coisas, né?
Xis — Não. Quando falo que saí da Warner, não é que briguei com a gravadora ou que a Warner brigou comigo. O disco vendeu mais de 15 mil cópias. O disco está vendendo. O disco vendeu muito mais do que o de vários artistas que são bancados.
Seabra — Mas vendeu menos do que o primeiro.
Xis — É, vendeu bem menos do que o outro, mas é uma outra história. Eu não fiz nenhuma “Us mano e as mina”, tá ligado? Se eu quisesse fazer… E aí que é foda, porque os caras da Warner queriam uma “Us mano e as mina”. Fiz uma, “Chapa o coco”, que achava que estava na medida certa, tá ligado? Mas se eu quiser, faço um disco só de “Us mano e as mina”. Quando fiz o disco e achava que poderia ser vendido por uma grande gravadora, comecei a tirar tudo quanto era música. E eu gosto de música romântica! Tem muitas mulheres que gostam de música romântica. E eu tirei todas as músicas…
Max Eluard — Pra não ficar estigmatizado?
Xis — É, porque aí pode virar uma coisa que foge do meu controle. Imagine se lanço um disco pela Warner, faço uma música romântica e uma porra dessas vai parar numa novela? Não consigo mais voltar. É foda…
Almeida — Mas você lida bem em abrir mão de uma coisa que é sua — afinal, você também é romântico — para impedir esse tipo de processo, essa perda de controle sobre a sua imagem?
Xis — Lido porque não vou deixar de fazer a música. Eu fiz a música, ela existe, é minha, canto em casa, tenho gravado, alguns amigos meus a têm, envio por e-mail. A música já existe, tá ligado? O foda é como ela vai ser utilizada. É com isso que eu fico mais fodido, entendeu? Não é porque fiz uma música e milhões de pessoas vão ter que engoli-la, tá ligado?
Seabra — Você tem uma relação bem consciente com a mídia como um todo, não?
Xis — Eu consigo me entender, mas quando eu entrar no Gafieiras e ver o que foi escrito, vou falar, “Porra, ou entenderam o que eu falei ou não!”. Talvez eu leia e pense, “Porra, é isso mesmo, os caras entenderam”. Já vi muita merda ser escrita sobre o Xis. Não fico vendo coisa que eu faço. Tenho umas 40 fitas da Casa dos Artistasem casa que o meu pai gravou e até hoje não assisti nada.
Fernando — Você havia citado a Casa e eu quase deixei escapar a piada. Você falou que “Não sei se sou artista”, e eu pensei, “Porra, mas e a Casa dos Artistas?”. [risos]
Xis — Não eram artistas, né?
Fernando — A piada foi justamente essa, do ”artista” ter virado o que virou, né?
Xis — É, tá entendendo? Eu não fico assistindo muito as coisas que eu faço. Por gostar mais de Internet, eu ainda dou uma fuçada nas entrevistas…
Seabra — O curioso é que, quando você foi pra Casa, o pessoal bateu, “Pô, o cara está se vendendo”, mas você tem um discurso bastante consciente sobre a mídia e consegue dialogar com ela.
Xis — As pessoas que eu admiro — Malcom X, Spike Lee, figuras da cultura negra — sempre dialogaram muito com a mídia, véio.
Fernando — Usaram a mídia a favor deles.
Xis — É lógico. Porque é a única maneira de você passar a informação pra muita gente, entendeu, véio? O site de vocês, agora, está sendo acessado. O meu (site) está sendo acessado. É uma maneira de comunicação. A gente, no rap, sempre reclamou disso, da falta de espaço na TV, da falta de espaço em jornal, nas fotografias… Nem tem como eu ficar brigando com isso e quando alguém me chamar eu não vou? Cê é louco, mano? Eu não sou louco, mano! Sabe o que é isso, do Silvio Santos ligar pra sua casa e falar assim, “Ô, cola aí!” Nunca, véio! A qualquer hora, se o Silvio Santos me ligar, “Chega aí!” Eu, “Vâmo aí! Qual é o esquema?”. [risos] Eu vou.
Tacioli — Mas é nessa discussão que você faz questão de se preservar, né?
Xis — Aí, é lógico, que acaba tendo umas coisas. O Silvio Santos me chamou? “Xis, vamos pra Casa dos Artistas?”
Almeida — Mas foi ele mesmo que ligou?
Xis — Não, ele é o dono, não foi ele que me ligou, mas mandou o…
Almeida — Não, mas eu tenho a impressão que ele trata a empresa como se fosse uma padaria, o dono sempre ali. É ele quem vai tratar com o fornecedor e com o cliente, sabe?
Xis — Ó véio [risos], é quase.
Seabra — Eu ouvi várias histórias desse tipo…
Xis — Com ele a gente fez duas reuniões que foram do caralho, tá ligado? Ó, faz de conta que ele é o Silvio Santos. Sentaram seis aqui e seis ali. A gente pá, fazendo o que quer, ali, esperando pra entrar na Casa no domingo. Imagina, o Brasil inteiro assistindo àquela porra e eu… [risos] [faz que está nervoso] Eu entrei no barato, assim… e porra, falei, “Nossa, agora…” Sabe quando você vê que vai pegar a sua vida e fazer assim? [faz como se estivesse girando um volante] Tá ligado? Aí eu tô ali, né, mano, será que essa porra vai rolar mesmo? Aí eu tô ali sentado, seis aí e seis ali, e me entra o Silvio Santos. Ele entrou. “E aí, tudo bom? Tudo bom?”… “Ô Xis, que cabelo é esse?” [risos] Mas nessa aí você vê que ele viu uma foto sua, que sabia seu nome, mas não sabia mais nada.
Monteiro — Com quinze camadas de pancake no rosto, ele já tava pronto pra entrar no palco? [risos]
Xis — É, acho que devia estar bem maquiado, tá ligado? [risos] Não fiquei prestando muita atenção nisso daí, não! Eu tento, com esses caras, não ficar olhando muito, não. Tento direcionar minha cabeça pra outro lugar. Mas aí chegou, trocou uma idéia, “Ó gente, vai ser fácil pra caramba, é isso, isso e isso. Vou chamar vocês, vou trocar idéia. Terão outros artistas que eu vou querer fazer um clima e que não vão entrar. Então, vai ter o Lafond [n.e. Ator carioca que protagonizou o personagem Vera Verão, Jorge Lafond morreu no dia 11 de janeiro de 2003, aos 50 anos de idade], vai ter um que vocês conhecem e outro que vocês vão conhecer. Vou chamar vocês e aí vou fazer uma brincadeira. Somente depois é que vocês vão pra casa. Boa sorte! Qualquer problema a gente está à disposição.” No Show do milhão ele chegou ali na hora, “Gente, tô louco pra ir embora! [risos] Vamos tentar matar esse negócio aí rapidinho que eu quero ir pra casa fazer tal e tal coisa”. E falou isso, ali no Show do milhão, véio! [gargalhadas gafieirísticas] Entendeu? E aí qual que é a minha relação? É foda porque o Silvio Santos nunca ia imaginar que um moleque iria dispensar 80, 100 mil, ou até a vontade de ganhar aqueles 500 ali. Acho que ele nem deu aqueles 500 ali, viu? Acho que o Silvio Santos não ia dar quinhentos mil pra ninguém, viu, véio? Deve ter dado uns duzentos. Cem pro Rafael, cem pra Vanusa. A porta está aberta e fica na boa. Porra… [gargalhadas do Gafieiras; Xis permanece sério]
Monteiro — Caso contrário, não apareça mais na minha televisão!
Xis — Porra, imaginem a Vanuza com cem… O Rafael… Quando é que o Rafael vai ganhar cem com qualquer coisa? Não vai ganhar mais cem, nunca, mano! Desculpa, artisticamente acho que não. Acho difícil, hein? [gargalhadas] E no Show do milhão eu estava me divertindo pra caralho. Aquilo é trash pra caralho. Adoro o Show do milhão. Adoro essas coisas trash. E aquilo é trash pra caralho, véio! E eu fui zoando. Poderia ganhar o maior dinheiro ali. E ele sacou, o Silvio Santos ganhou a minha, “Esse moleque não tá ligando muito pra esses baratos”. Porra, eu sei fazer conta. Oitenta mil é um carro, véio! A gente vai sair daqui e vai ter vários carros de oitenta mil, mano!
Tacioli — É um belo carro.
Xis — É um belo carro, mas é um carro. É só um carro, véio! Eu comprei um apartamento de sessenta mil e estou feliz da vida. Eu adoro! Cada vez que eu entro no apartamento, ponho um quadrozinho, ponho um adesivo.
Tacioli — Na hora dessa reunião, você sentiu algum tipo de medo, ou chegou a pensar ”Minha vida vai mudar”?
Max Eluard — E eu queria complementar. E, nessa hora, o que te fez intimamente decidir?
Xis — Parada de mídia, mano. Fui escolhido pra ir pra Casa dos Artistas, mano! Desculpa, eu fui escolhido pra… não sei dizer… Ah, foi Deus, foi o Silvio Santos, foi Beltrano? Não sei. Fui escolhido e sou um dos caras mais conhecidos do país, entendeu, véio? Sou conhecido até fora do país por causa dessa porra. É difícil você chegar a 80 milhões de pessoas. É difícil você falar pra 80 milhões de pessoas, “Eu sou o Fulano”. Você não ter que se apresentar… Desculpa, eu não sei o nome de ninguém aqui. A gente vai ter que se encontrar mais umas vezes pra eu me lembrar, mas sou conhecido hoje na porra do país inteiro. Mas eu já era conhecido, hoje sou mais. Fui escolhido pra essa porra, véio. É, eu tinha que pensar, “Eu vou ou não vou?” Eu parei e pensei, “Porra, canto rap, sempre reclamei que tinha que ter preto na televisão, sempre reclamei disso e daquilo, entendeu?” Eu acho que ir fazer um trampo desse… Ah, agora vamos discutir aqui o que é um reality show? O que se ganha e o que se perde com isso, qual é a temática do programa, é um programa do caralho ou não? É outra conversa, entendeu? Existem vários programas humorísticos que são da hora ou não, existem vários sites de entrevista que são da hora ou não. Aí é outra questão.
Seabra — Você tem essa liberdade pra lidar com a mídia, fazer esse diálogo, mas tem também a consciência de fazer a autocrítica. E qual seria o problema, então, de ter uma música sua tocando na novela? Aí já é outra coisa?
Xis — Pra mim é, porque os caras vão ganhar dinheiro com a minha música e a gravadora não está nem aí pra mim. Eles querem a minha música somente pra ganhar dinheiro.
Fernando de Almeida — O medo é de se queimar, então.
Xis — Não. Vamos falar de Warner? Porra, entrei na Warner com o Rodox, com a Kelly Key, e com o Anjinho. Então, porra, ia falar para o presidente, “Pô, e aí? Vamos a uma danceteria? Vamos ver o show do De Conceito? Quer ver um show de rap nervoso, foda, bom pra caralho? Vamos ali em tal lugar?” O cara não tava com tempo porque ele é um executivo e tem que pensar em números. E aí ele estava preocupado com o Anjinho, entendeu, mano?
Max Eluard — Anjinho é o Robinson? [n.e. O cantor Robinson Monteiro, revelado no programa Raul Gil]
Xis — Anjinho é o Robson. Então, foi foda, fiquei nove meses indo à gravadora. Indo não, que eu não sou de fazer média. Isso até acabou fazendo falta, mas não sou de ficar fazendo média, puxando saco de ninguém. Às vezes em que fui, era Anjinho e Kelly Key, entendeu, véio? Nada contra o trampo deles, mas os caras não tinham tempo pra mim. E qualquer coisa que eles fizessem comigo ia ser pensando em dinheiro, ia ser de qualquer jeito, não ia ser um negócio em que eles iam estar realmente a fim de fazer. Então, falei, “Pô, a gente não tá numa vibe. Infelizmente eu colei aqui numa hora ruim”. E sem contar assim, o Xis tem 200 contos pra ser trampado e o Rodox tem 500. O “Chapa o coco” foi um clipe que fiz com uns amigos e, porra, foram três mil reais. Ganhamos o VMB. Os caras gastam 30 mil reais num clipe da Kelly Key, mano. Aí, eu queria ser artista, tá entendendo?
Fernando de Almeida — Imagine o que você não faria com trinta paus…
Xis — Tá entendendo? Porra… A promoção que eu queria fazer com a MTV e, que eu enchi o saco, era doar livros, Fortificando a desobediência, “Vamos doar 100 livros”. O cara vai mandar a carta e concorrer a livro. Não rolou. Os caras não estão a fim. Pô, eu gostaria muito de ser contratado da Sony, ser contratado da Warner, pegar umas festas com a Madonna, entrar assim, tá ligado? De Armani, e a Madonna ali, pagar de superstar, tipo o Bono, saca a viagem? [risos] Mas não rolou… É difícil, a gente está em outro país, são outras histórias, é outro momento e não rolou. Aí eu não vou dar música pros caras fazerem isso. E outra, é uma coisa que eu gosto e eu acho que tem que ter um certo trabalho. Você fazer uma música do Paulinho da Viola, do Elton Medeiros… Eles têm um monte de música romântica, que é bonita, mas tem um certo conceito, tem um certo trabalho. E, aí, pô, pelo Xis ser uma personalidade, os caras querem usar de qualquer maneira, entendeu? Não sei… não vejo problema nenhum no Maurício Manieri, na Kelly Key, no Latino, mas, sei lá…
Tacioli — Houve algum momento em que você sentiu que a coisa saiu do controle? “Agora está fodendo…”?
Xis — Na época em que saí da Casa foi foda, porque era muita gente escrevendo e você não tem condições de conversar com todas, ou explicar pra todas o que está acontecendo… O negócio da Casa foi um absurdo. Absurdo mesmo! Tipo do telefone tocar dezoito horas por dia, direto, tá ligado?
“(Hoje o Carnaval) tem muito visual e pouco samba!”
Max Eluard — E valeu a pena ter ido à Casa dos Artistas?
Xis — Eu não avalio assim, “Ah, valeu a pena?”, porque pra mim não acabou ainda. Talvez a gente esteja conversando hoje aqui por causa dos baratos da Casa, de certa forma, ou por causa da 4P, ou por causa do disco, ou ainda por causa do programa que tenho na Jovem Pan. É muita coisa acontecendo, tá ligado? A gente vai saber se valeu a pena daqui a alguns anos. A gente saberia se os caras fizessem outra Casa e tivesse um Sabota [n.e. O rapper Sabotage, nome artístico de Mauro Mateus dos Santos, assassinado no dia 24 de janeiro de 2003], por exemplo. Um cara que, com certeza, iria e iria arregaçar, entendeu? A Casa pra mim foi da hora, mas foi ruim porque passei antes por um momento muito difícil. Já que a gente está falando disso… Eu estava no trânsito, saindo do estúdio e faleceu um amigo meu. A gente em três carros, saindo do estúdio… Havíamos parado no Sujinho, batido um rango, todo mundo trocando idéia na mesa. Saímos de lá e uma lotação pegou no meio do carro e o arregaçou no meio. Fiquei dois dias sem dormir porque outros dois amigos estavam em coma. Um perdeu uma vista e o outro está se recuperando agora. Caras sem a menor estrutura. A gente não tem estrutura, pô! Plano de saúde, pá! O Silvio Santos liberou o médico dele! Eu não ia entrar no barato. Falei, “Mano, não tô com cabeça pra entrar nesse barato.” A gente havia acabado de tocar no Rec Beat, em Recife. Voltamos tirando onda, botando banca, trocando idéia e abri pros caras, “Mano, vou participar desse barato aqui, é isso mesmo, tá ligado?”. E o recado dos caras era, “Puta, mano, a Tiazinha, truta! [risos] Se você comer a Tiazinha, mano… Tiazinha, truta. Missão, missão Tiazinha.” “Firmeza!”, mas pensando em outras coisas, tá ligado? Porra, é isso, é isso, cuidado com isso, com aquilo. É o momento pra falar disso, pra não falar daquilo, sabe assim? Juntei todas as merdas que eu já tinha falado, juntei as coisas boas, as coisas positivas, mas entrei a-ba-la-do no negócio. Eu não podia participar de uma gincana, porque ia ser uma festa e, pô, um amigo tinha acabado de ser enterrado, não havia sido realizada nem a missa de sétimo dia. A Cohab inteira chateada por causa disso. Porra, ali no bairro sou conhecido. A Cohab é como se fosse um bairro, uma cidade do interior. Quer dar uma olhada na matéria? Pegue sábado agora, se fizer sol, e vá um de vocês lá pra Cohab. Pare no posto. Você vai ver a sorveteria, o pessoal andando de moto, todo mundo chamando um pelo nome. Então, abalou pra caralho, e eu não queria ficar fazendo festa na televisão. Só que é foda, eu estava num conflito entre o meu bairro e o resto do Brasil, entendeu? Então, o Xis só dorme? Dorme o caralho, a maioria das vezes ali eu estava acordado, véio! Só que eu ficava na cama, não estava com espírito pra dialogar com ninguém. Capaz de eu xingar, fazer uma merda, qualquer coisa do tipo. E aí eu ia me foder. Ia me foder porque seria detonado, tá ligado? Ou não. Foi quando pintou a Carola, né, véio? “Pô, Carola vai ser foda!” Falei, “Vou sair dessa porra!” Aí fugiu do controle. Nessa época eu me senti meio que… Eu acessava a Internet e via as coisas, “Puta, não é isso…”. Eu ligava o rádio e escutava alguém falando. Abria o jornal e era outra pessoa falando outra coisa. Telefone tocava com gente que eu não conhecia, ou com gente que eu conhecia… E coisas absurdas, desde político importante a modelo, desde gente de televisão e de rádio a banda de rock e de samba. Essa época foi foda! Mas fora isso aí… Eu não sei, quando é que a gente tem controle das coisas na vida? É que nem a história dos filhos, de estudar… Porra, quero, quando meus filhos tiverem uns cinco, seis anos, pegá-los para mostrar outros lugares, outras culturas, porque eles já são brasileiros, tá ligado? Eu queria. Ah, Cuba! Ah, Nova York! Ah, França! Ah, Porto Alegre! Ah, Rio de Janeiro! Sabe assim?
Seabra — Cuba lhe impressionou bastante.
Xis — Sempre gostei de Cuba, véio. Meus sonhos de viagem eram, pela ordem, Cuba e Estados Unidos. Cuba pela história, que eu não manjo muito, mas que admiro, do Che e do Fidel tomarem aquela porra e por eles, os cubanos, negros, por brigarem com os Estados Unidos. Sabe assim, Davi e Golias? E mandar tomar no cu mesmo! Sempre admirei porque são rebeldes pra caralho e eu adoro os mais rebeldes. Os Estados Unidos pela cultura hip hop, pelo que os pretos conseguiram lá, pelo modo como se deu a relação racial, tudo muito mais escancarado. Não é como o Brasil, onde todo mundo é gente boa…
Max Eluard — É tudo gente boa, mas não case com a minha filha!
Xis — Tá entendendo? Ou na hora em que a minha irmã for procurar um trampo e ela não vai conseguir… Porra, véio, uma série de situações. E o Egito, porque piro com aquelas pirâmides, naqueles barato de lá! Mas tô abrindo mão do Egito… Guerra, o caralho, tô fora!
Tacioli — Mas você já foi ao Egito?
Xis — Não. Mas a África é um lugar que, se Deus permitisse, eu iria para lavar a alma, tá ligado?
Tacioli — Mas pra passear ou pra ficar um tempo?
Xis — Ah, véio, vou ser bem sincero com você, nos últimos dois, três anos não consegui ficar quatro meses em um mesmo lugar. Havia juntado uma grana e consegui comprar o meu apartamento um pouco antes da Casa. Aí fui morar com a mina que namoro faz a maior cara. Mas consegui ficar três meses nesse apartamento, que está completando agora.
Max Eluard — E já está coçando?
Tacioli — Já está querendo vender o apartamento? [risos]
Xis — Não, não! Posso vender o apartamento, não! [risos] Cê é louco, mano?
Tacioli — Não, vendê-lo para ir para outro lugar.
Xis — Não, não, não posso vender nada, véio! Esse negócio aí é mó difícil de comprar, tem que ficar pro meu filho. Tenho que comprar mais um agora pra minha filha.
Monteiro — Você estava falando, “A Casa passou…” mas é aquele ditado, “Tudo que não nos mata, nos deixa mais fortes.”
Xis — A parada da Casa foi importante, e continua a ser importante porque foi uma das maiores audiências do país. A Casa é importante pra um, é importante pra outro, mas é um negócio muito forte, mano, todo mundo assistiu aquela porra. Ou o seu filho assistiu, ou sua mulher, ou sua sogra. Você teve que fazer um comentário com alguém referente aquilo, mano.
Tacioli — Mas você ainda tem paciência de falar sobre a Casa?
Xis — Vou na boa. Converso em qualquer lugar. Sei que vou ter que conversar sobre isso. Quando falo assim que estou virando pra cá…
Fernando de Almeida — Você virou, né?
Xis — Quando virei o negócio pra cá, sei que isso faz parte da minha vida. Eu vim com o taxista agora. Já peguei três vezes esse taxista. Eu estava falando no radinho, falando com o pessoal do escritório, e ele falou, “Pô, mas quando você fala ‘Xis’, eu lembro do maluco lá da Casa dos Artistas.” “Sou eu!” Ele olha assim, fica olhando pro cabelo, pros óculos. Tenho minhas táticas, né, mano? [risos] Eu troco de óculos, troco o cabelo. As pessoas que olham mais rápido, não prestam a atenção, não me reconhecem. Mas sei que pro resto da vida vou ter que falar sobre isso. Mano, imagina 50 milhões de pessoas que te conhecem. São 50 milhões de oportunidades, véio. Eu estava no Rio, esses dias, lá no Grajaú, com uns moleques lá que são bons pra caralho… AcessemPepa Filmes.
Almeida — Eu já vi! São uns caras de efeitos especiais. Os caras são bons, meu!
Dafne — Eles têm um negócio de Guerra nas Estrelas?
Xis — Eles estão terminando um filme agora. Cheguei a assistir o filme quase inteiro, que é o Coronel Cabelinho contra os Grajaú Soldiers. Grajaú Soldiers é uma gangue. [risos] É bom pra ca-ra-lho! Tô lá no Grajaú com os caras, Rio de Janeiro — fico bolado com o Rio de Janeiro, por mais que conheça o Rio de ponta a ponta, chego lá, vou ao pagode da Tia Doca sozinho, vou pra tudo quanto é lugar sozinho. Desço lá, desço na rodoviária ou no aeroporto e vou sozinho, mano. Mas sou bolado com o “Fé em Deus” que tenho tatuado aqui [mostra o antebraço], que lá é lema do Comando [n.e. Comando Vermelho, organização criminosa carioca]. Não tenho nada a ver com essa porra, mas fico bolado. É a mesma coisa que você fazer uma tatuagem escrita em árabe e ir pros Estados Unidos, entendeu? [risos]
Almeida — Não pega bem, né?
Xis — Não vai pegar bem, né, mano? Então, tô lá no Grajaú. Fomos pruma sorveteria. Eu até uso uma camisa mais longa. Tô lá e um cara fortinho, com uma camiseta regatinha cavada e uma AR-15, pá, todo tatuado, com uns cordões de ouro, cabelinho raspado. Parado dentro da sorveteria, num canto assim, ó. [levanta-se e imita a postura do sujeito fortinho] E todo mundo à vontade dentro da sorveteria, mano. E eu, macaco velho de periferia, entrei normal, “Aí, firmeza?” [imita a entrada na sorveteria, cumprimentando respeitosamente os locais]. Peço um açaí. [olhando para os lados, furtivamente] “Tô te olhando! Tô olhando pra frente, mas tô te filmando!” Tava esperto! Olhei pros caras do Pepa, pro De Leve, “Tranqüilo?” “Tranqüilo.” Trocando uma idéia com os caras. Ou o cara é do morro, ou o cara… Será que é? Olho pro lado e vejo uma viatura da polícia. O cara é da polícia, mas na periferia? O cara é da polícia, sem nada da polícia, um barato assim, cordão de ouro. Ele, com certeza, não deve ser dos melhores polícias! [risos] Conheço polícia, morô, mano? Em São Paulo a gente sabe como é que funciona. O barato é meio que barril de pólvora ali, mano! O cara olha pra mim assim… [imitando sotaque carioca] “Qualé, mané? Tu não é aquele maluco doCidade de Deus, não?” [risos, enquanto Xis permance sério] Isso quando fui pagar, porque ele ficou me olhando também, tá ligado? Isso que é foda, o cara também ficou me olhando… Aí, tava pagando e falei, “Não sou do filme, não! Sou dum outro barato, aí”. Não faço rodeios, já falo logo a real. “Sou da Casa dos Artistas.” “Ahhh… Tu é o Xis, rapá!“ “É, sou eu mesmo…” E espero o cara falar “E aquela Tiazinha?” Aí, já era… “Comeu?” “Não, mas eu tô vivo e ela também tá!” [gargalhadas] “Tenho o telefone dela, sim, gosto dela. É gente boa!” “Falô?” “Falô!” Mas é um barato que pro resto da vida vou…
Max Eluard — Já tomou muito arroxo?
Xis — De polícia, esses baratos? Pô, véio, passei um perigo saindo uma vez do Pacaembu. Meu tio trabalhava no Corinthians, e eu e meu primo não pagávamos pra assistir jogo do Corinthians. Íamos tanto que o meu tio conseguiu uma carteirinha no Corinthians. Eu trabalhava vendendo cerveja durante o Carnaval no Corinthians, tá ligado? Meu tio colocava meus primos todos pra trabalhar no bar. Ganhávamos o maior dinheiro. Aliás, o que a gente fazia, mano? Uns caras davam uma grana pra gente e a gente servia por fora, tá ligado? Então, meu tio conseguiu uma carteirinha pra gente. Isso não vou esquecer nunca, 13 de maio de 1988, Corinthians e Guarani no Pacaembu. Maior lua! O Guarani mandando bem pra caralho, segundo ou terceiro lugar ali, e o Corinthians primeiro, mano, embaladão! Saímos — eu e meu primo, e mais dois caras — da Vila Formosa e fomos pro estádio. Era o quê? Sexta ou sétima rodada do campeonato. Nossas carteirinhas novas, a minha não estava plastificada e a dele já estava. A gente estava entrando ali em cima, portão 14, o mesmo que entrei agora. Hoje, infelizmente, não dá mais pra eu ficar no meio da torcida. Vou em tudo quanto é jogo, véio, mas fico na numerada, ou ponho um óculos escuros e uma touca e vou lá pro fundo. Caso contrário, não consigo assistir ao jogo, tá ligado? E aí entrávamos pela Tribuna e íamos pra Gaviões. Só que nessa aí que a gente entrou, o cara falou, “Peraí, peraí!” Pegou a minha carteirinha e a do meu primo e viu que as assinaturas do responsável do clube eram diferentes. Eu não entendi. “Como é que vocês conseguiram essa carteirinha, véio?” Falei, “Meu tio. A gente vem toda hora aí… Meu tio tal, tal, tal…” “Mas não pode, a assinatura está diferente! Essa assinatura aqui não é do cara!”. Aí ele pegou as duas carteirinhas, chamou um comandante da polícia e a gente desceu. Fomos lá pra baixo do Pacaembu onde todo mundo preso fica. Ali debaixo da Gaviões tem uma cadeiazinha, uma delegacia. Não fiquei preso, tá ligado? A gente ficou sentado ali e o cara falou, “Ó, a situação dos moleques é essa, essa e essa. O moleques não estão fazendo nada demais, não, mas estão com essas carteirinhas. Não podem assistir ao jogo, não! Chama tal fulano pra levá-los embora. Vocês têm dinheiro?” “Temos, mas não queremos ir embora. A gente quer assistir ao jogo.” Entramos dentro de uma Veraneio. Não sentamos no corró, lá atrás, sentamos ali na frente, no meio dos caras. Aí um dos polícias falou, “A fita é a seguinte: o cara quer que a gente leve vocês pra tal lugar, mas isso aí não vai dar em porra nenhuma. Fala pro seu pai ir buscar as carteirinhas em tal DP. A gente vai levar só as carteirinhas e vocês vão embora pra casa. Vocês moram onde?” “A gente mora lá na Vila Formosa.” “Vou deixar vocês ali na frente do Hospital das Clínicas, aí vocês vão embora.” E um polícia falou, “Ó, não voltem! Porque se vocês voltarem, vai sujar pra gente!” Dois moleques, mano, e em quinze minutos a gente estava lá de novo. Só que não tinha mais ingresso, véio. Tá ligado quando não tem mais ingresso no Pacaembu? Meu primo grudou no muro pra pular. Aí escuto alguém falar, “Ah, neguinho filha-da-puta!” Quando olho pra trás, eram os mesmos polícias! Era dia 12 de maio, um dia antes da Abolição. Ia rolar um negócio lá na (praça da) República com o Fundo de Quintal. Malandro, a gente tomou uma acelerada dos polícias… “Neguinho, você não vai ver a abolição!” Mas uns baratos do cara engatilhar a arma, tá ligado? Aí me algemaram, algemaram meu primo e colocaram a gente lá atrás. Acenderam a sirene, mandaram o pessoal correr. Meu primo é quem estava pulando o muro. Eu não ia pular porque era meio moleque, tá ligado? Tinha uns dezoito anos. Meu primo uns dezenove, mas muito mais maloqueirinho do que eu, já mais espertinho. Eu ia acabar não pulando, mas meu primo era malaco de estádio, pulava mesmo. Aí saiu com a gente no maior pau, sirene ligada, avenida Pacaembu… E me entra um cara na frente, “Fui roubado, fui roubado!” Eles voltaram e pegaram esses caras. Eles haviam falado pra gente, “Vamos levar vocês pro morro do Alemão!” E não vou chorar, né, mano, que a gente não é de chorar. Mas eu ficava assim pro meu primo, “Mas e aí, mano? E agora, mano?”. E meu primo falava, “Fica quieto, fica quieto! Vamos trocar uma idéia com eles.” E os polícias ficavam assim, “E aí, neguinho, vai querer tomar tiro de oitão ou de doze? Quer tomar com essa ou com essa daqui? Filha-da-puta! Falei pra vocês não voltarem, caralho!” E batia. Não chegou a bater na gente, mas batia forte com o cabo no barato, tá ligado? [bate com o punho na mesa] E eu de cabeça baixa, quieto, né, mano? E meu primo também. “Não fala nada, não fala nada…”. Pegaram mais dois caras e colocaram junto com a gente, apertado pra caralho. Aí levaram a gente prum DP. Era umas 23h30 e a gente estava chegando no DP do Pacaembu. Passei a noite inteira lá, no DP. Os caras pisando na minha. “Cê não é de menor, não, ô neguinho? Grita aí!”, porque só cara que fuma maconha que seria liberado no outro dia. Mudou o plantão e o cara apresentou a gente pro delegado, assim sério, “Esses dois estavam no Pacaembu, biriri, bororó…” Apresentaram a gente como se não tivessem feito nada, ameaçado, nem nada. Meu pai não acredita nessa história até hoje. Eu conto pra ele que fiquei preso e ele não acredita, mano. Juro que falei, “Pai, fiquei preso!”. Foi o único sufoco que passei, mas vi muita coisa, tá ligado? Vi muita história acontecer na Cohab, vi muita coisa acontecer em saída de baile, vi muita coisa acontecer com amigo meu, barato de crime, barato de polícia, muito maluco que está preso hoje.
Almeida — Mas você já acalmou alguém que veio no apetite pro seu lado dizendo que você é o Xis?
Xis — Não, isso nunca aconteceu. E eu também não trabalho com essa hipótese. Se um dia eu estiver com a minha mulher, e vier um cara me enquadrar, nunca vou falar isso porque, de certa forma, entendo o cara que vai estar me dando o enquadro ali, entendeu? O dinheiro do Xis é o mesmo dinheiro seu, é o mesmo dinheiro dele. Se o cara estiver me roubando, se for um assalto, não tem essa, tá ligado? Não existem essas vantagens, não! Eu não raciocino com isso, não, ainda mais em São Paulo. O barato de São Paulo assusta. Com esses baratos eu até gelo mais, entendeu? Porque o Xis é um cara que tem que ter muita opinião, tem que ter postura, tem que ter isso e aquilo. Então, o Xis é o cara corinthiano, o Xis é o cara que é do rap, o Xis é o cara que é preto e, de certa forma, no meu site, tem vários white power que me xingam. Um dia desses eu e mais duas amigas estávamos em Santana, num dog, de madrugada, assim, “Vâmo bater um lanche?” “Vâmo!”. Saíram quatro caras em uma Blazer. Quatro moleques novos. Passaram cinco metros, “Ô Xis do caralho! Filha-da-puta! Cuzão do caralho!”, tá ligado, véio? Como tem gente que gosta, tem gente que não gosta. Então, não trabalho com esses baratos, não.
“Não somos mais ilustres desconhecidos, e isso me satisfaz!”
Max Eluard — Você fala do Xis na terceira pessoa.
Fernando de Almeida — Eu ia perguntar se a entrevista era com o Marcelo ou se era com Xis.
Xis — O Marcelo é outra fita, né, mano?
Max Eluard — Quem está dando a entrevista é o Xis?
Xis — Quem está dando a entrevista é o Xis. Quem está dando a entrevista é o Xis?! Não sei, mano. [risos] Vocês vão escutar e depois vão ver, mano. Não, umas horas falo como Marcelo, em outras falo como Xis. Não tem como, tá ligado? Se você escutar o meu CD, é o CD do Xis, entendeu, véio? Mas se vocês fossem em casa lá e eu mostrasse uns discos, seriam os discos do Marcelo. Isso é diferente, entendeu? Hoje, quando vou fazer um disco de rap, posso fazer três discos de rap totalmente diferentes, véio. Posso fazer um disco de rap pruma classe mais elitizada, posso fazer um disco de rap prum público 105 FM, periferia. E posso fazer um outro disco de rap pra fora do país.
Almeida — Você falou dos Estados Unidos, da África. E Portugal lhe atrai?
Xis — Pra caralho! Esse moleque que está aqui, o Ito, de Luanda, ele tem falado… Nos ‘Meus favoritos’ tenho vários sites de Portugal, mas não tenho muito contato. O Gabriel, o Pensador faz muito sucesso em Portugal por causa da língua. Toda a parada de rap, eu manjo pouco de inglês, então vou em sites de Portugal. Estão lá umas matérias, tudo. Tento fuçar por ali, entendeu? Mas nunca tive nenhum contato com Portugal. E é aí que as paradas com a Warner me chateavam, tá ligado? Eu queria fazer esse intercâmbio, entendeu? Ir pra Portugal e trampar lá, conhecer a comunidade hip hop de lá. A mesma coisa que fiz em Cuba, de ter ido pra lá em agosto, num evento que é oAgosto Negro, que é o Havana Hip Hop, que acontece há muito tempo. E depois, no ano passado, abri mão do meu cachê e consegui trazer os moleques pra cá. Três deles tocaram no meu disco. Pra eles foi do caralho… Alguém aqui já foi pra Cuba? Imaginem a cultura hip hop de Cuba! Cuba é do caralho! Se tiverem oportunidade, vão pra lá em agosto. Vi um show em Alamar que tinha 3 mil pessoas. Só grupo de rap, os grupos cantavam. Fiquei meio ali no back-stage, porque, na verdade, não havia back-stage. Os caras cantavam e saiam. Os caras com aquelas filmadoras desse tamanho, aquelas VHS grandonas. Só tem dois canais lá e eles devem ficar assistindo eles mesmos nas porras das fitas. Três mil moleques. Não tinha cerveja, não tinha água, não tinha maconha! A gente andou uns 200 metros pra entrar num lugarzinho que tinha umas Pepsi [n.e. Na verdade, é Tropi-Cola, um lance canadense] assim, um sorvete. Um calor filha-da-puta! Do caralho, tá ligado? Pô, quando falo da Warner, é porque eu queria trabalhar, fazer esse tipo de intercâmbio, mostrar, trazer coisas… E não rolou.
Almeida — Perguntei isso porque acabei de voltar de Portugal. Tive a impressão que, para os portugueses olharem para a música do Brasil, independe desse investimento de mídia pesada. Eles se interessam, mesmo.
Xis — Não, eles gostam mesmo. Eles não têm acesso, véio. O pai do Ito, que está com 19, 20 anos, falou assim, “Vai estudar. Vai pro Brasil, fica lá. Vê se estuda lá ou vá para o Canadá depois. Escolha um lugar pra você estudar”. O moleque caiu na Cohab, lá na Cohab 2. Naipe europeu, vai, de Luanda e Portugal. O moleque gosta de rap, então ele tem brinco nas duas orelhas, aqueles brincões de diamante estilo Jay-Z [n.e.Rapper e produtor americano], bermudão, as roupas do momento. Aí, o Codorna me fala, “Ô mano, tem um lôco na Cohab que estudei com o irmão dele.” O irmão dele falou assim, “Tenho um irmão que mora em Luanda, tá vindo pra cá, Codorna. Ele é do rap.” Só que esse cara que falou não tem nada a ver. Ele é do samba, sei lá de que porra ele é. O moleque ficou um mês perdido na Cohab. E agora eu adotei o moleque e ele fica andando comigo pra cima e pra baixo. Eles gostam, mas não têm muito acesso. Só os caras que visitam sites e fuçam, que baixam MP3, um ou outro, mas são poucos.
Max Eluard — Xis, você tem idéia da grandeza do Brasil no rap mundial? Ele é respeitado? É visto como uma coisa nova?
Xis — Fiz alguns intercâmbios com algumas pessoas. Posso falar do Xis. Fiz uma mini-turnezinha com um grupo chamado Assassin, um grupo da França, um dos mais conhecidos, uma espécie de Thaíde & DJ Hum da França. Político, que é um cara que não mostra o rosto. É uma banda fudidaça! A França é o segundo mercado. O Lusafrica chegou a ir para lá. O que eles devem conhecer lá é Xis, Racionais, que é conhecido em tudo quanto é lugar, e o Lusafrica. Nos Estados Unidos fiquei um mês. Toquei com uns caras de lá, o Killarmy, que são meio que cafetão do rap, mais de Nova York. Com os caras do Wu-Tang Clan, que já viram muito dinheiro. Toquei com os caras num lugarzinho ali no Queens, em Astoria, onde tem brasileiro pra caralho, mas, pô, pra 200 pessoas, e assim mesmo, clubbers. Em Cuba, o contato hoje é bem mais forte, muito por eu ter ido pra lá e por ter trazido pra cá a Telma que é de um grupo, para dar um exemplo, meio que Luni, porque tem um que é artista, tem um que toca, tem um que tem vinte e poucos anos que é médico. O White e outro, que são do Primeira Base. O Renê que acabou ficando aqui, e até gravou o disco aqui, que já deve estar saindo. Por esse contato, por eu ter ido para lá, por ter ficado pouco tempo, uns quatro, cinco dias, mas fiquei com eles, e por eles terem vindo pra cá, onde ficaram por um bom tempo. Infelizmente, quando eles vieram pra cá, dez dias depois fui para Miami e não pude ficar com eles aqui.
Tacioli — Você acha que…
Xis — Eu acho que o rap no Brasil é muito talentoso, tem muita gente talentosa. Conheço muita gente bem melhor que o Xis. Já vi muitos shows. Conheço muita gente bacana que se tivesse oportunidade…
Tacioli — O que pega para definir que o rap de alguém é muito melhor do que de outro? Quais são os elementos que são considerados num julgamento como esse?
Xis — Você tem que ter talento natural pra fazer qualquer coisa na vida. Mas em um país capitalista como o Brasil você precisa ter livro para você ler, você precisa ter um estúdio bacana para você gravar, para você fazer da melhor maneira aquilo que você está a fim. Não tem como você trabalhar com música ou com som e gravar mal gravado e não ter nenhuma qualidade técnica bacana para poder desempenhar bem. E os moleques daqui não têm. E uma pá de grupo acaba desistindo porque aparece filho. Eu ainda consegui segurar. Tenho dois filhos. Tenho a Maria Clara, de um ano e meio no sul, e um moleque em casa, mas a maioria dos caras que começaram comigo está com quatro, cinco filhos, sem ter estrutura nenhuma, tá ligado? Isso acaba fodendo um pouco. Mas o Brasil, com certeza, seria o segundo mercado se tivesse dinheiro. A França não tem o mesmo talento que a gente tem aqui. Já acompanhei o rap francês, porque na Cohab meu pai tinha a DirecTV e, durante um tempo, tinha um canal chamado MCM, que passava rap o dia inteiro. Aí você vê que os caras invertem pra caramba. Mas eles não tem o talento pra misturar, pra fazer como fiz com os Originais do Samba, ou o trampo que eles fizeram com o (Marcelo) D2, com samba, que gringo iria olhar e falar, “Isso é um rap que eu nunca vou conseguir fazer”. O rap no Brasil, e estou fazendo o terceiro CD agora, está conseguindo buscar uma identidade própria.
Max Eluard — Ainda não tem?
Xis — Não. O rap é uma música americana. A gente tenta fazer uma música americana. Ou tenta fazer uma de funk, que é uma parada mais para o Parliament, que é mais funkiada. Mas, pô, se você quiser escutar um de funk, quem você vai ter que pegar? Um Tim Maia e fazer um negócio em cima de “Sossego”, tá ligado? Que é a referência nossa, o cara que fez música brasileira fazendo aquilo lá. Apesar que o Tim Maia copiava pra caralho os caras de lá de fora.
Seabra — Existe uma preocupação sua em adaptar…
Xis — Existe.
Tacioli — Mas qual é o caminho?
Xis — É Jacinto Silva, Caju & Castanha, Selma do Coco, Nação Zumbi, Jackson do Pandeiro. O caminho é esse.
Dafne — Não sei se você concorda, mas ouvi o Sabotage no CD Coleção Nacional do Instituto [n.e. Formado por Rica Amabis, Daniel Ganjaman e Tejo Damasceno], e tem uma coisa ali, no “Dama Tereza”…
Xis — O Sabota e o De Leve [n.e. Nome artístico do rapper carioca Ramon Moreno de Freitas e Silva], o moleque de lá de Niterói, são pra mim as coisas mais importantes que aconteceram. Umas coisas mais nossas. O De Leve nem tanto. O 5º Andar sampleia mais jazz, mas é um negócio que eu não comparo com nada de nenhum lugar, tá ligado. Quando quero escutar aquilo, é aquilo ali. O Sabota estava indo para um esquema que seria muito foda. Eu cheguei a fazer umas coisas com samba, que fiz com Os Originais do Samba, mas é um grupo que já passou por muitas coisas e já estava viciado em um esquema. O D2 fez com o Reinaldo, o Brown fez com o Netinho, mas nunca rolou um trampo de fazer mesmo.
Max Eluard — Tem alguém com quem você teria vontade de trabalhar junto?
Xis — Um monte de gente. Eu fiz esse trampo, de certa forma, com a Cássia (Eller). Toquei mais de quinze vezes com a Cássia. Eu até posso dizer que vivi aquilo, fiz parte daquilo. Toquei no Brasil inteiro com a Cássia. Em Porto Alegre, seis vezes no Canecão. Um dos melhores momentos da minha vida foi com a Cássia.
Tacioli — Li em uma entrevista sua em que você diz que ficou impressionado com a estrutura desses shows com a Cássia, que é uma coisa que você busca para o rap.
Xis — É. Funcionar no horário. Você já foi a algum show de rap? Você ir lá e escutar um som bom. Não dá para você tocar em um show em que você vai subir às 4 da manhã no palco. Você chega às dez para tocar às 4 da manhã. Os caras são loucos!
Monteiro — “Você já foi em um show de rap?” “Já, mas não consegui assistir.” [risos] Você falou que o primeiro disco vendeu 50 mil cópias, mais ou menos. Você pega uma banda como o Charlie Brown, que está com um disco novo na praça. Pra ele vender 100 mil, tem que tocar três músicas direto no rádio, todos os dias.
Xis — Você está entendendo? Só que nunca fui escolhido como o Charlie Brown para a minha música tocar três vezes na rádio. Eu não sou escolhido como o Rodox. Eu queria chamar o André Abujamra e “Pô, André, tudo bom? Vamos tomar uns drinques. A gente tem 60 mil para fazer um clipe. Vamos fazer como aqueles Porcos e diamantes [n.e.Originalmente, Snatch, filme do diretor inglês Guy Ritchie, inspiração para o clipe de “Hoje eu acordei feliz”, do Charlie Brown Jr., dirigido por André Abujamra]. Sabe assim? Pô!
Monteiro — Mas a molecada ouve o rap, e não mais o rock, que não é mais referência pra ela.
Xis — Mas esses moleques são espertos, porque vão escutar o rap nos lugares mais difíceis, porque não toca, mano.
Monteiro — Esse é o ponto. Por que o rap não invadiu tudo? Você acha que é somente esse problema de estrutura?
Xis — Porque talvez o dia em que, não vou falar um Xis, mas o dia em que eu for diretor de uma gravadora, daqui a 20, 30 anos… Talvez pessoas como eu, os caras do Instituto, os caras que chamaram o Sabotage, não estão hoje nas gravadoras. Meu contato com a Warner foi bacana. Não teve briga com ninguém. O Tom Capone, irmãozão, tá ligado? Mas os caras vivem dentro do escritório. Eles vivem dentro do escritório e o telefone que tem na agenda é o do Poladian, tá ligado? Então, não vai haver espaço. Eu tenho um programa na rádio Jovem Pan e acho que o Tutinha nunca escutou, mano!
Dafne — Você acha que os executivos de gravadora não sabem o que acontece nas ruas?
Xis — Eu acho que eles são mal assessorados, eles não sabem o que acontece nas ruas e o que rola fora do país, porque senão o disco do Assassin teria sido lançado aqui, senão o disco do Nep-Tunes teria sido lançado aqui, senão o 50 Cent’s teria sido lançado aqui, que é um moleque de Nova York, do selo do Eminem. O moleque é terrorista, é bom pra caralho. Daria pra trazê-lo pra cá, ele está a fim de vir. O moleque é um músico. Ele é um gangstar, encrenqueiro? Vamos levá-lo lá para os Racionais, lá para a zona sul. Ah! O J-Live o que é? É professor, dá aula no Brooklin pra moleques que são encrenqueiros? Ele faz rap com jazz? Vamos trazê-lo e pô-lo junto com o Xis, que é mais a pegada dele. Mas não existe isso. Qual é o esquema? O esquema é produzir qualquer merda e investir nisso. Qual é o esquema? Vou pegar uma mina que é gostosa, depois vou colocá-la numa Playboy, depois em uma televisão, depois em um desfile, em seguida rádio, rádio, rádio. Depois paga a rádio pra tocar e depois não tem dinheiro pra pagar a rádio e…
Max Eluard — Vende 150 mil cópias, mas descartáveis.
Xis — E vou além: e ninguém está vendendo todo esse disco, não. Não está vendendo, não! Mas, porra, os Titãs, em carreira-solo, venderam quantas cópias cada um? Se o Caetano vendeu 100 mil gravando Peninha quanto tempo depois? Porra, é foda isso aí. É foda você tratar com uma realidade que não existe.
Tacioli — Você acha que essa falta de visão dos executivos de gravadoras, essa falta de intercâmbio e de investimento, podem fazer com que o rap perca força, perca o seu tempo?
Xis — Pô, sabe a quantidade de coisas que era pros Racionais terem feito? A quantidade de coisas que o Xis poderia ter feito? Um monte. Daqui a cinco, seis anos, não sei se tenho mais pique pra fazer uma pá de coisas. Momentos.
Seabra — O curioso que por conta disso eles deixam de ganhar dinheiro.
Xis — Perdem dinheiro. O negócio está aí. A molecada não gosta de rap? A molecada não gosta do Xis, dos Racionais, do De Leve, do D2? É o que conversei com o taxista agora, o Brasil é muito dos herdeiros, tá ligado? É muito dos herdeiros em todos os sentidos.
Seabra — E você acha que isso pode mudar?
Xis — Não, vai demorar umas gerações. Quando o país for “Você tem talento? Você vai!”, “Não tem talento? Lamento!”, sabe assim? Se não tem talento pra isso, vá fazer algo em que você tenha talento. Mas, pô, você chega em uma gravadora em que uma mina que trabalha com música não vai assistir a shows, não vai ao teatro, não compra CD, vive somente no mundo dela, e aí vai ficar puta com você, porque você tirou dinheiro de marketing dela que iria distribuir para os amigos? Isso é ruim.
Monteiro — Mas se você prestar atenção nessa estrutura, os caras estão se matando. A indústria está perdendo força. O investimento que se tem para fazer uma Kelly Key, por exemplo, não dá mais aquele retorno que teoricamente dava.
Xis — Até a Kelly Key poderia ser melhor. É como a Britney Spears, a Christina Aguilera, que está trabalhando com uns molequinhos chamados Neck Tunes, uns nerds, dois moleques que são terroristas em programação. Estão arregaçando. Você pega o disco que da mina e consegue escutar. Eu consigo entender o mercado, tem que ter coisas que… [fala para o garçom] Faça um favor pra mim? Você pode trazer um outro [chope]? Esse daqui está quente pra caralho! Mas pode trazer até a metade porque não bebo tudo, tá ligado, tenho que ficar falando também. [risos]
Tacioli — Xis, você pode parar para beber.
Xis — Se liga aí, pô, Christina Aguilera? Vamos fazer um trampo decente com essa mina? Ela é gostosa, bonita? Não sei se é um raciocínio errado, se não tem que ter essas coisas, mas faça um disco bem feito. Eu acho que o país é muito dos herdeiros, muito cartas marcadas, o pessoal não quer abrir mão. Sabe essa parada do Maluf ainda querer ser eleito? Não precisa mais, mano! Pô, chega, você já fez o que tinha que ser feito, já fez suas pontas, já roubou, já ganhou, já fez coisa do bem, já fez coisa do mal. Não precisa mais ser eleito! Deixe outro cara ser político, deixe outro cara apresentar idéias novas. Deixe um cara que está na rua agora, com 25, 26 anos.
Max Eluard — Você parece ter um jogo de cintura, uma compreensão maior do mercado fonográfico e de outros segmentos da música brasileira que não vejo em outras pessoas que fazem rap, que tem uma postura mais radical, mais xiita.
Xis — Ô, mano, vamos lá. Eu sempre quis ser reconhecido por talento. O Xis não foi para a Casa dos Artistas por esquema da Warner. Eu acabei indo para a Casa porque eu toquei no Jô. Os caras da Warner estavam oferecendo o Rodox, queriam enfiar a Kelly Key. Fiz o Jô, o pessoal (da organização da Casa dos Artistas) viu e ligou, “O Xis não é de vocês?”. “É.” “Ele não quer vir?” Mas, é lógico que ligou para a Warner, mas ia acabar ligando para qualquer outra pessoa. Eu sou conhecido, antes de mais nada, por causa da minha música, pelo que sou, pelas coisas que fiz politicamente, pelos shows que fiz na Cohab, pelas oficinas que fui. Por ter ido à Restinga, em Porto Alegre, trocar idéia com os moleques, por ter ido ao Rio de Janeiro trocar idéia, por causa do “De esquina”, que gravei com a Cássia, por causa dos Originais… Eu queria ser reconhecido por isso. É lógico que, por gostar de música e querer fazê-la, um belo dia o Kléber (KL Jay) me chamou e falou, “Vamos fazer o seu disco”. Os Racionais é do Brown, certo? E o KL Jay gosta de produzir, ele gosta de falar, ele gosta das coisas deles, e nunca teve oportunidade. E eu sou um cara que no estúdio deixo o cara produzir. Qualquer coisa que eu faço, por mais que eu entenda ou queira fazer, eu fico na minha. E o Kléber me chamou para fazer isso. O que é um selo? Abrir uma empresa e chegar em um lugar e “Prensa dez pra mim!”. Venderam as dez, eu posso prensar mais dez. Quando saiu o Seja como for, nós prensamos 3 mil cópias.
Tacioli — Xis, o que te motivou a montar o seu próprio selo?
Xis — Ninguém querer me gravar, mano. Eu quero ser gravado por uma grande gravadora e fazer um trampo da hora, entendeu. É lógico que, com o tempo, eu vou criando as minhas idéias e vou querer abrir mão de algumas coisas; você tem que estar num clima muito bom pra isso funcionar. Mas se os caras não deixarem você fazer uma coisa do jeito que você quer, você cria a sua. Porra, dentro da MTV eu tive proposta de fazer o Acústico Xis. As gravadoras sabem disso. Mas ninguém falou, “Vamos fazer!”.
Max Eluard — Mas você chegou a sofrer algum tipo de policiamento por ser mais aberto a essas questões?
Xis — Pra caralho. Você está falando dentro do próprio rap?
Max Eluard — Sim.
Xis — Sim, mas acho que é natural, mano. O Robinho, que joga no Santos, é ele mais dez jogadores. Esses dez devem estar contentes, né? Os caras do Corinthians não estão muito contentes com o Robinho, não, mano.
Monteiro — Eu estou contente com o Robinho. [risos]
Max Eluard — Como corintiano e brasileiro, tenho que confessar, eu estou. Ver o moleque ser aplaudido em Cali, vá se fuder!
Xis — Vou falar um negócio procê. Meu pai falou um barato pra mim que é foda. Meu pai falou que os primeiros jogos que ele assistiu foi quando o Santos se tornou campeão no Rio. Meu pai falou que ia para assistir ao jogo do Pelé. Eu comentei isso ontem com o Alexandre. Meu pai me levou uma vez para assistir ao Corinthians e Flamengo e ele falou, “Vamos lá para ver o Zico”. Um a um. Gol do Wladimir e um gol do Zico. Morumbi lotado, maior lua. Tinha aquele negócio de papel, ainda, bom pra caralho! Faz a maior falta. Era a maior festa. O cara falava, “Não joga essa porra!” E todo mundo ficava assim [imita um torcedor com um rolo de papel higiênico na mão, aguardando a ordem para arremessá-lo]. “Joga!” Fazia um túnel, véio. Era a coisa mais linda! Eu ficava olhando. Eu vi o lance que o Robinho deu um chapéu. Eles aplaudiram.
Max Eluard — Mas dói, né?
Xis — Dói, ainda mais porque na Libertadores o Santos está no caminho. Estou muito feliz com o futebol: primeiro, porque o Palmeiras está na 2ª Divisão do Brasileiro [risos] e está em um momento fantástico. Perdeu para o Operário por 1 a O, perdeu pênalti e, se bobear, será eliminado aqui dentro. O dia do jogo entre Palmeiras e Operário eu já não marco nada. Quero assistir a esse jogo, ouvir no radinho. [risos] Como Palmeiras e Inter de Limeira.
Tacioli — Xis, sua mulher acompanha futebol com você? Ela já gostava?
Xis — Não gostava, não. Minha mulher fez Direito até o 2º, 3º ano, está desempregada. Quando eu a conheci, falei “Vamos pro estádio!”. “Ah! Futebol!”. Aí a levei para um jogo do Corinthians com um time de fora, talvez na Libertadores. Pra levar mulher em estádio tem que tomar o maior cuidado, ter o maior esquema e a levei num desses jogos. Fiquei com ela atrás da entrada. A partir daí… Pô, futebol apaixona.
Tacioli — E hoje, Xis, você joga?
Xis — Não, somente quando preciso.
Tacioli — Como assim, “quando preciso”? [risos]
Xis — Rockgol. Às vezes, quando tem as paradas, não dá tempo. Ou quando estou em uma praia, pra jogar com uns amigos, mas não jogo. Espero um dia ter… — o Chico Buarque é que tem em casa um campo? No meu prédio não tem nem quadra. Se tivesse, eu iria bater uma bolinha de vez em quando.
Tacioli — Sobre…
Xis — Eu só queria falar sobre a parada do policiamento. Porra, véio, eu trabalho em um estilo de música em que a maioria dos caras é frustada. Lamento. Não conseguiu. Eu conheci um monte de grupo que não conseguiu gravar em dez anos. Um absurdo, mas o moleque não tem acesso à Internet. Não tem acesso! Essa é a pior coisa do mundo, você não ter acesso. E eu falo para os moleques, “Faça você mesmo! Faça quinze, vinte cópias! E fala, ‘Ó meu disco, foi lançado!’” Agora os caras não têm acesso a estúdio. Tem muito cara que vai para a Galeria e compra um CD instrumental e canta em cima daquilo. E isso não é mais necessário. Você pode chamar qualquer cara para fazer um batuque, que é por onde estava indo o Sabota com o Instituto.
Max Eluard — E essa frustação gera o policiamento?
Xis — Lógico. Uma pessoa bem resolvida não enche o saco da outra.
Tacioli — Mas isso gera uma exclusão? Você se sente excluído no meio?
Xis — Eu mesmo abro mão de um monte de coisa. Eu não toco mais em uma barca de rap. Não toco mais. No Anhembi foi um que não consegui tocar, em que eu tinha o show montado e não deixaram eu tocar. E aí, todo ano, “Você é a bola do momento!”. Pô, ali era a minha hora de fazer o meu show, eu ia arregaçar, porque estava muito foda, “Us mano, as mina” estava estourada, a “De esquina” estourada, e ali tinha 50 mil pessoas pra me assistir. E aí não consegui tocar.
Tacioli — Por quê?
Xis — Ah, mano, não consegui tocar.
Max Eluard — Astral ou veto?
Xis — É, não deixaram eu tocar.
Monteiro — O que era? O Millenium Rap?
Xis — O Millenium Rap. Não deixaram eu tocar. Eu tinha um horário pra tocar e eu não iria tocar às 8 da manhã. Não ia passar uma banda na minha frente pra tocar e eu ia ficar esperando. Não ia.
Tacioli — Há outros acontecimentos que alimentam você não entrar mais nessas paradas?
Xis — Eu vou aos shows, vou em qualquer negócio de rap, mas como espectador, porque eu sei a hora em que vai rolar o show. Quando tem show do 5º Andar eu vou. Mas não dá mais para eu ser espectador.
Max Eluard — Mas você tem uma bandeira de querer mudar isso?
Xis — Eu já acho que estou mudando. Eu tenho um selo. A 4P conseguiu lançar o Estado Crítico, o disco do Kléber, a gente pagou todo mundo certinho. Pagamos direito autoral, a gente edita as músicas, explicamos para os moleques como se editam as músicas, a gente leva os moleques até a SICAM ou em outro lugar pra eles se filiarem. Explicamos como funciona o jogo da parada. Estou fazendo isso direto, entendeu? O telefone toca o dia inteiro, às vezes de um cara pedindo uma força, ou um toque de um estúdio, ou de como funciona, ou como é que eu fiz. Continuo fazendo isso. O Xis, artisticamente, tem que seguir o caminho dele. Eu não posso ficar entrando num barato de dez grupos de rap onde não vou conseguir tocar, não vai ter passagem de som, e aí o cara que vai ligar o som, não sabe ligar o LR, não tem noção nenhuma, e na hora em que vou tocar, o som não funciona e quem se fode sou eu. Fui tocar uma vez de graça para o SNJ em um lugar, todo mundo para ver a porra do Xis, e o som me pára no meio da minha apresentação, e fico com a maior cara assim. Como é que vou falar pra 3, 4 mil pessoas que não sou eu o culpado? Aí dois moleques começam a gritar, “O Xis é cuzão! O Xis é cuzão!”. Vou bater nos moleques? Não dá, véio, não tem a menor condição. Então, eu faço os meus, entendeu. Em São Paulo, tem uns três ou quatro lugares — um SESC Pompéia, o Blen Blen, um KVA — em que consigo falar “Tô a fim de tocar em São Paulo?”, vou lá e toco. Não tenho a menor pretensão de “O Xis é o rei da cocada!”, de fazer show toda a semana e lotar. Muito pelo contrário, no meu show eu queria umas 300, 400 pessoas.
Tacioli — Você gostaria, então, de pensar um show nessa estrutura.
Xis — Que foi o que fiz com o Fortificando. Consegui tocar em Porto Alegre, toquei noRec Beat, na rua da Moeda, que foi do caralho, no meio do Carnaval, uma puta experiência.
Seabra — Lá você tocou com banda?
Xis — Não, lá eu fiz hip hop, toca-discos com vários MC’s, que é uma linguagem que também uso. E depois quando saiu o disco, com grana do meu bolso — gastei quase 20 mil reais, fazendo Porto Alegre, Curitiba, São Paulo (as paradas do SESC) e não fiz o Rio que eu queria fazer. Mas fiz o que posso fazer. Não vou entrar em neura, sozinho, véio, mas eu paguei os músicos com os quais eu queria tocar, que eu conheço. Pô, merreca, 300, 400 contos? É pouco, mas chamar o cara pra tocar de graça? Não vou. E os caras são bons. Ah! Eu queria registrar: a MTV me chamou para fazer o Banda MTV, e eu banquei. Foram 3 contos. Tive que levar um roading, os músicos, os instrumentos. Está registrado, véio. Tá feito! É o meu momento, é fazer isso. Agora, não vou abrir mão pra fazer média com ninguém do rap, tá ligado? E isso não é questão de não dividir, entendeu? “O Xis não quer dividir!” Não, eu levo outros MC’s, mas quero fazer um negócio que dê para todo mundo assistir, entender, curtir, achar que é da hora.
Monteiro — Fale um pouquinho dos seus dois discos-solo. Qual a diferença entre eles?
Xis — O Seja como for é um disco de um cara que conhecia música muito de disco, por ter trabalhado em lojas de CDs.
Monteiro — Havia alguma coisa antiga que você aproveitou nele?
Xis — Várias, várias. A maioria das coisas que a gente faz, a gente lança sempre defasada. Como esse disco que estou fazendo agora, tem um monte de coisa que fiz no estúdio, como o “Chapa o coco”. A “Sonho meu” era pra ter entrado no disco anterior, mas não estava bacana. A “Tudo por você também”. A “Vem comigo” que tirei. Agora, o Seja como for é um disco que fizemos com 5 mil reais, na Cohab de Carapicuíba, em um computador, um Logic e um aparelho de sampler que o Kléber havia trazido dos Estados Unidos quando viajou com os Racionais. A gente nem sabia usar esse sampler, mas tinha um cara que sabia tirar uns timbres, então, o CD ficou, pelo menos, com um timbre de caixa e bumbo mais decente. Só sampler. Eu não assino a produção, mas sampleamos Maynard Fergusson, The Cruzaders, que são coisas com as quais convivi e havia uns grooves que eu gostava. Aí, ou ficava escrevendo sobre o groove, ou então, com o looping feito em estúdio, compunha em cima. Então, é um disco só de sampler, não tem nada tocado. A única coisa que tem tocado ali é um teclado em “Us mano e as mina” que eu fiz [imita o som] “Pan / Pan / Pan Pan”. Fiz em um dia em que todo mundo estava bêbado e somente eu estava consciente. Foi assim… Terminamos o disco, o Kléber estava na Alemanha com os Racionais. Ele me ligou de lá, “Nossa, Alemanha é foda!”, e eu na Cohab. “Alemanha é foda? Cê é louco, truta, saia daí, mano!”. E ele, “Cê é louco? Aqui está cheio de preto. Os caras passam mais rap do que no Brasil.” “Mas e os skinheads?” “Skinheads, mano, cê é louco?” [risos] “Kléber, preciso fazer uma música. O disco está triste pra caralho. Preciso fazer uma música falando da Cohab. Posso ir para o estúdio?” “Pode.” Fui com mais um colega. O cara do estúdio fez um beat. Pizza, ficou todo mundo bêbado. “Posso sentar um pouco?” Sentei e toquei o “Pan / Pan / Pan Pan”, que é a única coisa que tem tocada nesse disco. Mas, porra, gosto de ir em show e ver os caras tocando. E eu queria ter isso no outro disco. Aí, no Fortificando teve o Marcelo Munari, que também é sampler, mas com ele tocando, o Bocato metendo um trombone. Uma session da hora, valeu mais até pelo dia da gravação do que pelo resultado final. Pô, o Bocato tocando pra caralho! Eu, o Bocato, o Munari, acho que a esposa do Bocato e mais um amigo a noite inteira no estúdio, um tocando guitarra, outro trombone e a gente rimando. Um moleque de 17 anos que gravou em Cuba, não vou dizer um pequeno Miles [Davis], mas inacreditável… Eu tinha dinheiro para pagar duas horas de estúdio. Estipulamos um horário no estúdio do filho do Pablo Milanés. Conheci o moleque e, com o último dinheirinho que eu tinha, falei, “Vamos gravar?”, “Vamos”. Aí no hotel, aqueles cubanos que ficam tocando como no Guanabara, onde os caras ficam fazendo samba em frente. Cheguei, subi pro quarto, peguei o telefone e “Plínio, você viu aquele moleque tocando trompete?”. Ele falou, “Um absurdo! Um moleque de 17 anos!” Desci e falei, “Mano, tenho uma música. Vamos para o estúdio?” Fiquei duas horas no estúdio colocando rimas com os moleques, e o moleque sentou, trompetezinho ali, e falei, “Mano, espere só um tempinho aí! Por favor, espere aí!” “Não, não, tranqüilo.” Não tem o que fazer, Cuba, mano. [risos] Só que o cara do estúdio pesando. E fomos gravar… Temos dois takes dele gravados. Tínhamos um beat de oito minutos, mas o Plínio foi malandrão e falou “Vou gravar só uma vez”, já havia passado do horário. Só que o Plínio dobrou a música no computador então ficou 15 minutos. A gente trocando idéia e o cara nem percebeu, “Espere aí, só vou gravar mais uma!”, e dobrou mais uma vez. E ficou quase 20 minutos e ele tocando direto. Aí o Fortificando teve umas paradas desse tipo. O Quincas tocou um baixo, eu queria fazer uma música um pouco mais para o underground, principalmente o pessoal de classe média mais alta que curte as paradas de hip hop que vai ao Olimpia, ao Mouge, em Pinheiros, aí quem manja dessa parada é o Zé Gonzales, que era do Planet (Hemp), e o Quincas entrou com o baixo acústico numa música (“Sonho meu”). Os discos são diferentes e com propostas diferentes. Acho que o Fortificando é político pra caralho, porque foi gravado em Cuba, fiz sozinho, foi um disco que saiu pela Warner e, de certa forma eu o vendi para a Warner, mas foi editado por mim e o fonograna é da gravadora. Acho que isso é uma vitória. De escrita ele é mais poético que o primeiro, que é mais na primeira pessoa. O próximo disco não será na primeira pessoa. Estou bolado com esse barato do rap de “eu, eu, eu sofri, ninguém mais sofreu”, tá ligado? Então, estou tentando escrever coisas não na primeira pessoa. É difícil, porque o rap sempre começou com o “Eu”, porque é o MC, é o mestre de cerimônias.
Max Eluard — Uma coisa que chama atenção no Fortificando é que foi gravado em vários estúdios, mas ele mantém uma unidade.
Xis — Tomei cuidado com isso.
Max Eluard — Mas foi consciente desde o começo?
Xis — Foi. Eu conheci um moleque chamado Plínio Profeta. Lembram-se do [canta] “Quem comeu a Adriana Galisteu?” [risos]
Monteiro — Pô, fui à festa de lançamento desse disco.
Xis — Eu salvei o Plínio desse vexame. Ele me deve essa. Nem tanto pela música, que acho da hora, da tirada de onda com a Galisteu. No VMB, da MTV, passou isso direto, quando ele levou o tapa da Adriane. Era combinado, mas ele entrou de cuecona. Essa parada é uma página meio negra pra ele. Mas eu conheci o Plínio por meio do Jamaica. A Warner lançou um rapper de Brasília chamado Jamaica. O moleque é um bom MC e um bom DJ. Jamaica era do Câmbio Negro, do primeiro Câmbio Negro (Sub raça), que é o Jamaica e o X. O Jamaica é foda! Ele me chamou para fazer essa música e acabei conhecendo o Plínio. E aí o Plínio tinha a linguagem que eu queria para o momento, que era “você tem que mostrar algo meio americanizado para chamar a atenção”. As pessoas acabam consumindo mesmo um Eminem, um Dr. Dre, um Snoop Dogg. Se você não faz nada parecido com aquilo pra mostrar que você tem condições, você não consegue chamar a atenção dessa pessoa. E o Plínio é estudado em Los Angeles…
Max Eluard — Mas parecido esteticamente?
Xis — Não parecido esteticamente, mas de qualidade, do boom bater, de programação. Na verdade, todo rapper brasileiro sempre quis ser um rapper americano. Um Xis sempre quis ser um Chuckie D., um Mano Brown sempre quis ser Chuckie D. também, o MV Bill sempre quis ser um Snoop Dogg. Se você pegar os discos e acompanhar…
Fernando de Almeida — Mas você fala pela qualidade técnica ou estética?
Xis — Eu não sei, acho que por tudo. Hoje, até no gestual. Qual é a estética do disco dos Racionais? Não é a estética do All Star, tá ligado. É a do Low Rider, do chicano, é da cultura de Los Angeles. Também somos massacrados por essa porra. Não estou falando que isso é errado, não! É como o moleque tocar guitarra e segurar a guitarra como os Beatles seguravam. Faz parte também.
Tacioli — Mas hoje você vê diferente isso, não?
Xis — Não vejo como um erro, mas acho que a gente não precisa mais disso. Acho que algumas bandas não precisam mais. A gente precisa, sim, para conseguir espaço. Eu preciso disso para tocar meu programa na Jovem Pan. Preciso tocar Snoop Dogg, porque estou falando para o Brasil inteiro. Talvez para dois milhões de pessoas que conhecem do Run D.M.C. o “Walk this way”.
Max Eluard — Pra mim, isso é a contradição do rap, da postura política, da contestação, mas que tenta abraçar…
Xis — Mas o rap foi a única cultura que olhou pra gente. O Chuckie D. foi o único que falou de preto pra preto na televisão quando estava na MTV. E nenhum músico foi para a periferia pra chegar no Brown, ligar o baixo e “Senta, aí, mano, descola um aí!”. De tocar e convencer o cara que aquele timbre era melhor do que ele escutou no CD. Ninguém fez isso. O Sabota saía do Canão e ia lá pra Vila Madalena ficar com os caras do Instituto. Eu saia do Rio e ia lá pra Barra fazer o meu disco. Estou falando que os moleques estão abandonados. É aí que eu falo que vejo o SNJ e vários grupos passando sem conseguir nada, porque ninguém encosta no cara pra mostrar um instrumento.
Fernando de Almeida — Pra mostrar coisas diferentes, também.
Xis — Pra mostrar! Mostrar um instrumento, os moleques escutam sem saber o que é aquele instrumento. Os caras usam até instrumentos brasileiros numa produção, mas o moleque vê a música como um todo! O barato vem enlatado com o clipe, e não é todo mundo que presta atenção.
Max Eluard — Voltando pra produção do Fortificando a desobediência…
Xis — Então, aí conheci o Plínio e falei pra ele, “O Plínio, vamos fazer um disco, você topa? Tenho grana, eu te pago. Quanto você cobra pra fazer Kelly Key e SNZ?”. “Ganho tanto”, quarenta, vamos supor. “Isso eu não tenho, não. [risos] Mas tenho 10, 15, vamos fazer?”. Ele topou. Mas eu disse, “Não vou pisar na sua, mas quero que você finalize o disco. Porque eu queria fazer com o KL Jay, com o Gonzales e queria o Marco, que é DJ do PosseMente Zulu. Eu queria coisas que esses moleques estavam escutando, mas queria que o Plínio finalizasse. Ele acabou produzindo 50, 60% do disco. Gravávamos em data e levávamos pra finalizar. Quando a coisa complicava muito — que achávamos que teríamos que mexer muito na música do cara -, a gente ligava, “O Zé (Gonzales), cola aí”. Aí acabávamos mexendo junto ou não mexendo. Foi assim que funcionou. Os dois discos — Seja como for e o Fortificando — funcionam como uma história: eles têm começo, meio e fim. Mas nesse eu não vou fazer isso; quero ter 11 músicas.
Tacioli — Qual o caminho desse terceiro disco, Xis? O que você está pensando?
Xis — Véio, vou te falar: tenho feito algumas coisas, mas eu trabalho muito sem divulgar. Tenho um site onde poderia estar divulgando minha agenda, mas não faço isso, não. Toquei com a Vitrola Estereofônica, que é uma banda da hora, com uns caras que tocam em cima da Jazzanova, tocam Marvin (Gaye). A banda tem uma menina que canta legal, uma parada mais eletrônica.
Tacioli — Esse disco vai misturar estilos?
Xis — Eu queria, de certa forma, fazer uma parada mais pra música eletrônica, mas em vez de usar caixa, usar tamborim, ter um “pá” de tamborim. Eu não sei a maneira de fazer isso ainda.
Monteiro — Está em que estágio o disco?
Xis — Estou compondo. Estou na fase de compor e de procurar sampler — aliás, procurar sampler sempre! Estou escrevendo. Os hackers de plantão, que invadem meu computador, já devem até ter algumas letras. [risos] Meu, os caras entram no meu computador toda hora, mano! Eu só peço para não zuarem. Vou salvando toda hora num cdzinho, mas os moleques invadem, mano! E eu gosto de Internet pra caralho.
Fernando de Almeida — Os caras entram por esse negócio de trocar música?
Xis — Pegam texto, pegam tudo, véio.
Monteiro — Como é seu processo de criação? Você tem um método ou ele é meio caótico?
Xis — Se alguém fala uma frase, eu anoto. Vejo um filme, leio um livro. Às vezes, estou em casa sozinho e saio escrevendo. Às vezes, quero falar de alguma coisa…
Max Eluard — Vem a base antes às vezes?
Xis — Às vezes, tem música que não tem como você fazer. “Errei”, por exemplo, fiz pra mim mesmo.
Monteiro — O que você leu que lhe impressionou?
Xis — Não tenho lido muita coisa, não. Tenho muita coisa em casa pra ler, tenho muito livro. Mas entrei numas de “quero livros bacanas”, mas vou ler mais tarde. Agora, fuço muito em Internet. Sou um cara que agora vivo da última notícia, tá ligado? Vivo no UOL, no Terra, pra saber o que está acontecendo, pra baixar música, pra saber se os Estados Unidos estão pegando fogo ou não, se começou a guerra.
Max Eluard — Você já estudou música, Xis?
Xis — Nunca.
Max Eluard — Mas não existiu um tio que um dia pegou um violão e lhe mostrou uma nota?
Xis — Não. A minha cultura de música é sampler. Muita coisa de composição no Seja como for é idéia minha, apesar de, com o Kléber, não dividirmos autoria. E isso por ignorância nossa. Porra, fizemos a música juntos, ela é minha e sua! Não tinha isso, porque o raciocínio no rap é: “eu faço a letra, a música é minha”. Com o Plínio foi diferente. Hoje eu sento com o Plínio e a gente acaba fazendo uma música e a música é minha e dele.
Monteiro — E o direito autoral está funcionando?
Xis — Vivo da minha editora, véio. Mas eu tenho muita música. Tenho música gravada pela Cássia, pelo Mauricio (Manieri). Tenho música com o Monobloco, tenho música com a Paula Lima, com o Thaíde. Tenho muita música. Mas, não funciona, não, véio. Pra mim é papel, tá ligado? Eu sei que existe a máfia do papel. Eu não acredito no papel. Eu não acredito no meu contrato que está na Warner, eu não acredito nele. Eu não sei o quanto foi direcionado de grana, o quanto foi desviado ou não. E dinheiro também é papel, né?
Monteiro — Um contrato de gravadora tem muitas páginas?
Xis — Tem umas páginas, viu! [risos] O meu foi tranqüilo. Minha rescisão tem uma página. Quem estressou mais foi minha advogada. Eu vou bem num contrato, pra ler, tá ligado? No meu contrato havia coisas que a advogada ficava enchendo o saco. E eu, “Não, nunca eles vão querer fazer isso comigo. Esquece que isso não vai rolar.” Mas, o mundo é de contratos, impostos…
Seabra — Mas você se sente acuado? Eu me sinto acuado com qualquer contrato que eu leia.
Xis — Eu não. Tem que fazer, né, véio? Às vezes, não tem nem papel, mas é um contrato. Eu e o KL Jay somos sócios há uma cara. O Kléber viaja prum lado com os Racionais e tem que ter uma linha, manter um discurso. E eu vou pra um outro lado, quase do lado contrário. E nós não temos contrato, é um telefonema. Temos senha. Ele sabe a senha da conta, eu também. Talvez a gente faça algum mais por causa dos nossos filhos. A gente não sabe como vai ser o dia de amanhã. Então, eu guardo documentos por causa dos meus filhos. Se acontecer alguma coisa, eles têm como falar, “Isso aqui é do meu pai, mano. Isso daqui é meu.”
Tacioli — Xis, estamos falando desse terceiro disco, mas qual é o caminho que as letras tendem a seguir?
Xis — São três projetos que tenho em mente pra discos. Um é um tributo a um cara chamado Pepeu. Quem é o Pepeu? É um cara que na década de 80, 85, mais ou menos, ele tinha acesso a rap, um rap mais popular, comercialmente falando. Rap popular americano naquela época era LL Cool J, talvez até mais populares que esse. Mas o Pepeu trabalhava muito com o circuito que era de Black Mad, Chic Show, animando a festa cantando no meio do baile. Então, o Pepeu gravou quatro ou cinco discos com clássicos que vão de “Ruth Carolina”, “Nomes de meninas”, “Rasta”. Tenho um repertório dele de doze músicas que eu gostaria de gravar. Já tive umas conversas com o Pepeu. Ele mora lá em Itaquera. Ele parou com o rap, virou evangélico, ficou desiludido com uma pá de coisas do meio, porque o mercado do rap é foda. Existem tubarões no meio do rap.
Tacioli — Ele seria um bom entrevistado pra gente.
Xis — Seria. É uma outra história. Talvez seja uma boa referência pra entender até um certo momento.
Monteiro — Pepeu é um dos pioneiros.
Xis — É, é. Mas ninguém fala muito do Pepeu. O Pepeu estourou muito antes do Thaíde. Ele já era popular antes do Thaíde. Todo mundo fala que o Thaíde e o Hum são os pioneiros, mas o Pepeu já levava mil pessoas pruma festa pra cantar “Ruth Carolina”, pra cantar “P de Pepeu”, “Cascão”, e outras músicas.
Monteiro — E um samplerzinho bem…
Xis — O pior! Ele era muito bom na letra e na métrica, muito bom. Digamos que, perfeito. Nos temas ele adorava brincar com palavrões, metia palavrão em tudo.
Almeida — O que se falava nessas letras em 80 e pouco?
Xis — Em 88 saíram dois discos: o Cultura de rua [n.e. Considerado o primeiro álbum brasileiro de hip hop], pelo selo Eldorado, em que o Nasi deu uma força. E saiu O Credo, Código 13, Thaíde e o MC Jack, cada um com duas faixas. No mesmo mês saiu o Som das ruas, que era um disco da Chic Show. Nesse estavam Os Metralhas, o DMal, que cantava: “Nem A, nem B, nem C, só se for D / Nem A, nem B, nem C, só se for D”. Os Metralhas com “Rap da abolição”, que tem uma letra bacana. Saíram esses dois discos. Esse de baile tinha um barato de festa, de falar palavrão, “Americano lançou foguete / Cuba também vai lançar / Quero ver se Cuba lança / Quero ver Cuba lançar”. Havia muito palavrão, mas um barato muito mais hip hop até, porque o da São Bento era com a cultura americana, e esse de baile era como nasceu lá fora, com MC animando a festa com as coisas daqui.
Monteiro — E era popular porque falava direto com o público.
Xis — E o da São Bento, não, que era baseado nas idéias do Afrika Bambaataa, fulano e beltrano. Os dois discos saíram lá. O Pepeu está mais do lado das festas, do som dos bailes. Era pro cara que ia nas festas e, 3 mil neguinhos dançando. Tem uma diferença: hoje em dia, se você vai numa festa, dali a pouco você está com as pernas abertas, três mina dançando com você. Naquela época, não. Naquela época era assim: [imita os dançarinos de passos cadenciados e olhares pesados] [risos gerais] Vagabundo passava a festa inteira assim, dançando com a mão pra cima e com passos pequenos. Era aquela coisa de baile de negrão, cabelo black. Um pessoal depois começou a usar as bombetas, era assim, um outro tipo de baile. E o rap entrava pra animar. O Pepeu era isso. O Pepeu é um projeto que eu tenho. Ele era produzido por um cara chamado DJ Cuca, que está na capa de um ou de dois discos do Pepeu. Cuca é, ou pelo menos foi, o produtor do primeiro disco da Kelly Key.
Tacioli — Eu sabia que conhecia esse nome.
Xis — O Cuca produziu também o Naldinho, aquele, “A lagartixa na parede / A lagartixa / A lagartixa”. Ele foi um dos melhores produtores daquela época. Então, tenho esse projeto de tributo ao Pepeu, que vai ficar mais pra frente. Ainda estou trocando idéias, estou decorando música, tendo contato com o Pepeu, entrando no clima. E ele continua escrevendo. E escreve bem. Ele tem umas letras de rap pra criança, que ele faz pros filhos dele. Isso é outra coisa que eu queria pensar mais pra frente, talvez fazer um disco de rap infantil, não sei nem se cantando ou colocando uns moleques pra cantar.
Almeida — Boa ideia.
Xis — Não sei ainda. Um outro disco seria um disco meu de músicas inéditas, que é pra onde caminha o terceiro. O disco do Pepeu viria agora numa boa hora, porque já tenho dois solos e depois eu poderia fazer um eventual Acústico MTV ou um acústico ‘Xis sozinho”, ou uma coisa com banda gravada ao vivo, sabe? Pluga aí, vamos gravar. Podia ser um barato fudidaço com um milhão envolvido em dinheiro ou então um barato de 100 mil pra gravar tudo e lançar daquele jeito ali. Mas pra mim seria da hora porque teria mais músicas e depois poderia lançar um disco com músicas minhas que muita gente não escutou, como “A Fuga”, que fez o maior sucesso e que saiu no disco do Escadinha, ou “A Perigo”, que é uma música que eu gosto pra caralho do Seja com for. Nunca a cantei em nenhum show, mas todo mundo gosta e pede. Tem muita música que eu fiz e que não teve um tratamento da hora, que não teve ninguém que soubesse cantar legal o refrão ou pra fazer uma nova melodia. A gente que acabava cuidando de tudo e não tinha contato com músicos. Eu queria regravar e fazer alguma coisa do tipo. São esses dois discos: o do Pepeu e o meu. E tem também, mas aí é mais viagem, a idéia de fazer alguma coisa relacionada com música eletrônica. Como estou fazendo um trampo pra quadrinho, acho que é uma música que combina mais com quadrinho. Pra misturar dub. Fazer um disco de um dia, sabe? Fazer algumas rimas, cantar, chamar um DJ, chamar alguém de percussão e fazer isso daí.
Tacioli — Esse trampo em quadrinho é do Preto Bomba?
Xis — É.
Tacioli — Uma coisa que você falou e que a gente sabe é sua vontade de trabalhar com trilha, né?
Xis — Mas aí tem que ter um envolvimento com o filme, também.
Almeida — Você falou que era a fim de fazer cinema…
Xis — Mas pra fazer cinema tinha que rolar grana pra caralho, né, mano? Pra eu poder estudar cinema, para saber atuar. Eu fiz um curta com o Jeferson De [n.e. Diretor dos curtas One, One, One, Gênesis 22 e Distraída para a morte], que é o moleque que fez o Dogma Feijoada [n.e. Núcleo de cinema negro brasileiro], mas é um negócio meio palha, tá ligado? Colei lá e fiz o negócio, mas… Maior auê, cheguei do show de manhã e tinha alguém me esperando com uma Van, com um texto que ele tinha passado sei lá como, um mês antes. Olhei e, “Tá bom. Essa palavra eu não vou falar, essa eu vou.” Era um negócio meio rap, era um ensaio… Se for pra fazer um trampo de ator, seria legal com uma grana pra fazer com calma, ter alguém pra trocar idéias, um diretor bacana. É ruim fazer as coisas porque fulano fez ou porque fulano não fez. Trabalhar com trilha eu já acharia da hora.
Tacioli — Já houve convite pra trilha?
Xis — Não, nunca recebi. Se eu recebesse agora, sem um produtor bacana envolvido, acho que eu não faria. Não me sinto capaz hoje de fazer nada sozinho com relação a produção musical. Nunca fiz, sempre chamei outros produtores. Apesar que conseguiria fazer, tenho alguns equipamentos em casa. Mas nunca parei e disse, “Agora vou produzir! Agora vou gravar, vou fazer as melodias, o arranjo.” Nunca fiz isso. Não tenho estrutura de equipamento e espaço pra fazer isso, tá ligado? Moro num apartamento em que às 10 horas da noite tenho que colocar um fone de ouvido. O Seja como for fiz quando morava na Cohab. Eu dormia em cima do beliche e minha irmã embaixo. Pra eu poder escrever no computador ou ouvir alguma coisa, eu tinha que cobri-la ou então ir pra sala, mas não podia acender a luz, porque minha mãe ia trampar no outro dia. Eu também tinha que trampar! Em 98, 99 eu trabalhava numa loja de CDs. Eu vendia meu CD sem o dono saber. [risos]
Max Eluard — [imitando Xis na loja] “Chegou um aqui, muito bom.”
Xis — Não. Não oferecia, não. Eu trabalhava na antiga Ática, que agora é a FNAC, no Jardim Sul, e o Gaspar trampava numa outra loja. Aí, um dia, ele foi na Ática. Ele entrou, olhou assim… Chegou em mim e não perguntou se eu era o Xis. “Tem o single do ‘De esquina’?” “Não.” [risos] Ele insistiu, “Você tem ‘O poder da transformação’?” “Tenho”. Ele queria saber onde estava, aí fui lá e peguei. “Ô, mano, cê é o Xis, né?” “Sou.” [risos] Muito engraçado. Falei, “O que você está fazendo aí?” “Sou o Gaspar do Zafrica Brasil”. Eu queria fazer muita coisa, véio, mas não dá pra fazer. Eu já faço muita coisa. Queria fazer poucas coisas e bem feitas. Então, se alguém falar, “Vamos fazer uma trilha”, pergunto, “E aí, qual é o filme? O que você quer fazer? Talvez eu não seja a melhor pessoa pra produzir musicalmente, não, mas posso fazer letra, posso dar uma conduzida e chamar alguém bacana dentro do que você quer fazer no filme”. Sou um cara que vivo de parceria. Talvez eu me destaque em uma ou outra coisa, individualmente, mas vivo muito de parcerias.
Monteiro — Xis, você acredita na música como um transformador social?
Xis — Com certeza, acredito.
Tacioli — Mas da mesma forma como você acreditava há 10 anos?
Xis — Acredito. Desde quando eu só escutava música. Acredito. Ela pode mudar a vida de um moleque se ele estiver em um meio musical e admirar aquilo. Quando eu falo admirar não é pagação de pau, “te amo”, “você é muito foda”, admirar é tipo assim, “Esse cara é da hora, seguiu o caminho dele e fez coisas da hora, vou seguir o meu também.” Esse cara acaba virando um músico.
Tacioli — Mas mesmo socialmente você acha que a música tem o poder que se almejava nos anos 60 e 70?
Xis — Também, também, claro. Se eu não tivesse envolvimento com o rap, com certeza não estaria mais vivo. A rua não te dá muitas alternativas. Os moleques que são os frustrados que eu falei, eles não conseguem lançar, mas eles estão há 5, 6 anos indo pra baile, fazendo shows, indo pra estúdio, indo pra Galeria, que é um outro ambiente. A Galeria é um ambiente cultural. Hoje, sexta-feira, se a gente for lá, vai trombar vários MCs. O cara está lá porque chegou o disco novo, porque chegou o clipe novo, porque está tendo um evento, porque ele vai dar entrevista pra alguém. Nisso daí o cara vai, vai e quando vê está em outro caminho.
Fernando de Almeida — E não está por aí fazendo merda.
Xis — E não está fazendo merda, tá entendendo? Porque, porra, mano, você ficar na Cohab o dia inteiro sem trampo, fumando maconha… Existem vários amigos meus para os quais eu falo, “Meu, sai da Cohab, mano.” Mas não é sair da Cohab pra ir embora, é sair do bairro, ir para a Madalena ver um show, num Blen Blen, vai no KVA, DirecTV, vai num cinema, não fica aí! Porque as pessoas ficam atrofiadas ali.
Max Eluard — Mas é difícil sair dali, também. Não depende somente da força de vontade. Como você falou, tem cara que não tem acesso a nada!
Xis — É difícil, é difícil. Por isso que eu fiz e faço o Repensando a Educação, indo às escolas. Toquei sábado retrasado na Cohab. Pra tentar cativar a pessoa de alguma maneira.
Max Eluard — E a pirataria, Xis?
Xis — Ah, mano, eu não gosto, não.
Fernando de Almeida — Por outro lado custar 30 reais…
Xis — Pois é, e os caras dizem que é porque vende pouco…
Fernando de Almeida — Mas se custasse 10 paus, será que não venderia muito mais e eles ganhariam mais?
Xis — É. Pô, briguei tanto por causa do meu CD, mano. Sentei à mesa, não falei palavrão na reunião, não fumei maconha antes. Cheguei na reunião pra saber a quanto ia chegar no atacado. Pô, dá pra chegar a 8, 9 reais? “Ô Xis, pra chegar a isso, você tem que abaixar seus royalites”. “É mesmo? Eu abaixo. Vamos doar os royalties, vamos fazer o quê com essa porra dos royalties?” Meu disco estava 16 reais no atacado! No atacado!
Fernando de Almeida — Porra, o cara ia ter que vender por quanto? No mínimo a 25.
Xis — Sabe quando um cara vende um CD de rap a 20 reais? Nunca! Chegou na Galeria a 25, porra! O Seja como for eu coloquei inteirinho na Internet pra MP3. Se eu lançar o próximo sozinho, eu o coloco inteirinho pra MP3, também. Ganhei o VMB por causa disso. Era a música que mais tinha download num site chamado MP3 Club.
Max Eluard — Pirataria parece coisa de Robin Hood, mas tem outro filho-da-puta que está ganhando.
Xis — É! Sempre tem um. Mesmo meu disco. Eu não confio na Sonopress, não confio. Se daqui a dois, três anos eu pegar um advogado pra passar um ano atrás de papel e for na fábrica da Sonopress, tenho certeza que as notas não vão bater. Tenho certeza absoluta. Os caras da Sonopress são amigos de todos os presidentes das gravadoras, véio! Quem é que vai garantir? Vamos fazer os lotes? Trombei com o Lobão no Rio. A gente ficava jogando futebol de botão. Eu, o Lobão e o Plínio (imita o Lobão arrumando o cabelo). Ficávamos jogando botão e falando da numeração (de CDs) e… gol! O filho-da-puta joga botão pra caralho! [risos] Ele segura (a palheta) de um jeito, mano. Ele joga pra caralho e sua mulher fica policiando pra ele não ser roubado. E ele ganha. Não perdeu um jogo, véio. E só falando da numeração. Mas acho que não vai adiantar. Escutei um maluco dizer que hoje você não vende mais o CD, você vende a personalidade, o que a pessoa é.
Fernando de Almeida — Daí tantas mocinhas gostosas.
Xis — É. Sei que vivo dessa porra, mas libera tudo na Internet, meu!
Tacioli — Você tem uma boa relação com a Internet?
Xis — Espero me dedicar mais, porque conheço muitos sites da hora. Eu aprendo muito com a Internet.
Fernando de Almeida — Esse lance do MP3 é revolucionário!
Xis — Lógico, véio. A parada de ler livro é foda, mas a Internet é mais foda ainda. Na Internet você não tem limite. E outra, tem aquela parada mais chata no rap, “Ah, por que você foi na Globo?”. Eu falo, “Caralho, seu filha-da-puta, você acha que o moleque lá na Restinga tem TV a cabo? Você acha que ele está vendo a CNN?” O cara tem dois canais que pegam bem, a Globo e o SBT, mano. Pra você chegar nesse cara, por onde você vai? Pela Globo. Agora, a gente aqui vai na Globo por vício, domingão a gente vai lá e puf! Na Internet, não. Só entrei no Globo.com pra ver notícias do Rio, porque a busca de notícias deles é mais fácil.
Seabra — Quando o KL Jay estava na Alemanha, você baixou rap alemão?
Xis — Não, não. Eles tocavam muita música americana. Rap alemão não tenho nada, não. Principalmente pra Europa, eles cantam em inglês, mesmo. O francês é foda. Rap francês não fecha os versos. O bacana do rap, do repente é você fechar o verso. Aí tem aquela parada de poesia, ou você rima “Batatinha quando nasce / Esparrama pelo chão / Criancinha quando dorme / Põe a mão no coração”. Então você rima aqui e trabalha com a métrica nos buracos que existem aqui dentro. E no francês não fecha. Se você não entende a língua, não sei… Não manjo porra nenhuma de francês, não sei falar uma palavra. Então, não consigo fechar os versos.
Max Eluard — Você lê poesia, Xis?
Xis — Algumas. Fernando Pessoa, Ferreira Gullar, Cecília Meirelles. Tem os cordéis que vendem na Sé.
Tacioli — Mas pra você isso também é uma provocação artística, conhecer essas obras que são referências daqui.
Xis — É. Tem uma música do Jacinto Silva que talvez eu regrave, que é a “Gírias do Norte” [n.e. Uma das músicas mais populares do compositor alagoano e composta com Onildo Almeida]. [canta] “O Zé do Brejo quando se casariô / Ele me convidariô / Pra uma quadrilha, eu marcariá / Marcariei uma quadrilha ritmada / Fomo até de madrugada / Todo mundo cum seu pariá”. Porra, mano, o nome da música é “Gírias no Norte”, que termina tudo em “iê” e “iá”.
Max Eluard — Você ouviu Xangai cantando essa música?
Xis — Tenho com o Silvério Pessoa. É bom pra caralho. Conheci isso nos shows com a Cássia. Os shows com a Cássia eram o melhor lugar do mundo. Quando o telefone tocava e falava “Tá a fim?”, “Quando? Foi ontem? Não fiquei sabendo, vocês estão fodidos!” Musicalmente era muito bom. Não havia camarim de artista e roadie. Ficava jogando xadrez no caminhão dos roadies. No Canecão, Chico Anísio, produtor do Nirvana e a Cássia estavam lá no camarim com a gente, e não havia ninguém pesando “Tem que ficar lá!”. O barato da Casa tenho certeza que a Cássia iria se divertir pra caralho.
Tacioli — E foi um baque a morte da Cássia.
Xis — A Cássia foi foda.
Max Eluard — E a do Sabotage?
Xis — A do Sabotage também. Ó, nos últimos anos… Estou com 30 anos e conforme você vai perdendo as pessoas, parece que machuca mais.
Max Eluard — Você vai tendo noção do seu fim, também.
Xis — É. A parada da Cássia era fim de ano, eu estava na 4P. Todo mundo da 4P na Galeria, junto com os funcionários. Há três tias que costuram pra gente… Junto todo mundo, compro uns vinhos baratos quando a coisa está ruim; compro uns vinhos mais ou menos quando a coisa está boa, e faço uma festinha. E no meio da festa, o Kléber vira pra mim e fala “Mano, a Cássia morreu!”. “O que você falou, mano?” “A Cássia morreu!”. E não consegui falar mais nenhuma palavra. Desci, fui pra casa e o telefone de casa começou a tocar pra caralho. E pra não pirar mais, tirei o telefone, liguei pros caras e falei “Tô indo praí”. Fui para o Rio e… foi foda. E, em fevereiro rolou a parada do Rafa, que morreu em um acidente saindo do estúdio. Dois dias depois eu entrei naCasa. E agora a do Sabota. No dia em que o Sabota faleceu, cheguei de Santos em casa, peguei meu filho dormindo. Sentei no sofá com a mesma roupa. Dormi pronto, tá ligado? [risos]
Max Eluard — Qualquer eventualidade.
Xis — A Van da MTV ia passar às 6h30. O Ébano me ligou, eu estava sonado, “Véio, o Sabota tomou três tiros!” Nessa dele falar “tomou três tiros”, falei “Pode crer, Ébano! Te ligo já, já!” E desliguei o telefone, porque em uma hora a Van iria passar. Iríamos gravar eu, o Rudi, o Sabota… Aí desci pra Van, o King estava lá. E tudo cinza. Chovia em São Paulo havia dez dias. E sonado, eu tentando entender. Falei “Tudo bom, King?”. “Tudo bom.” Não falou nada. “Ô, King, o Ébano me ligou.” O Ébano é um moleque que era do Potencial 3. “Não sei se eu estava sonhando, mas falou que o Sabota havia tomado uns tiros.” “É mesmo?” Falei, “Vamos confirmar? E aí, Ébano, você me ligou há uma hora e meia atrás. Você falou isso, isso e isso.” “O Sabota tomou uns tiros, mesmo!” E ele não quis falar muito, porque deve ter sido foda pra ele. Não teve muito papo de “Tá ruim”, “Tá mal”. E eu já sabia que iria conviver com isso direto porque eu estava indo para um barco em que estaria o Sabota, e segundo porque eu estava indo para a casa do Rudi, que é um cara que estava convivendo com o Sabota direto. E quando a gente estava no meio da estrada, os caras falaram, “O Sabota faleceu”. Foi foda! É foda assim: tem que saber separar as coisas. Não tem nada a ver com rap, véio. Não tem nada de 2Pac [n.e. Rapper nova-iorquino assassinado em 1996, aos 25 anos de idade], B.I.G. [n.e. Notorius B.I.G, rapper rival de 2Pac e assassinado em 1997, aos 24 anos]. Não tem nada a ver com rap. Quem matou o 2Pac e o B.I.G., tudo indica que foi o Suge Knight, que era um cara da gravadora, que tinha muitas músicas do 2Pac gravadas em estúdio. O 2Pac queria saber da Death Row e o cara falou “Quer sair? Vai sair morto!”, matou o cara e ficou com todas as músicas vendendo pra caralho. E depois ele mandou matar o B.I.G. pra falar que era treta. Tudo indica que tenha sido isso, Suge Knight, o patrão. E as paradas do Sabota são paradas de rua. É foda. E eu sei como funciona esses baratos. Um cara que releva. Você pode pisar na bola, você pode dar umas mancadas, que os caras relevam. Mas tem cara que não releva, não.
Max Eluard — A vida vale muito pouco.
Xis — Essa é a pior parte. Eu fui ao velório. A quantidade de pessoas que ficaram tristes. Foi uma das coisas mais tristes que… Pra mim é bom ter vários caras que nem o Sabota, porque tira das minhas costas uma pá de carga, fato de ir na TV, no rádio, dar entrevista pra vocês, trocar idéia. E eu colava no Rio e contava para o pessoal que eu não tinha nada a ver com rap. “Nossa, conheci o Sabotage!” “Você conheceu o melhor, mano!” A última vez que eu trombei com o Sabotage foi na 4P. Quem cuidava das coisas do Sabotage, de algumas coisas… O disco dele saiu pela Cosa Nostra, que é um selo do Kléber, que aliás prejudicou o Sabota pra caralho porque a treta do Racionais com a Sony fez com que o disco do Sabota não saísse, praticamente. Prensaram 3 mil cópias e depois proibiram de prensar e o disco dele não andou. O Sabota era muito mais conhecido pelas paradas do filme do que com o rap [n.e.Referência ao filme O Invasor, de Beto Brant, onde Sabotage e atuou e participou na trilha sonora].
Monteiro — O disco já estava no mercado antes do filme…
Xis — É, mas parou no meio. Na MTV os caras falavam, “Não posso passar o clipe do Sabota porque a Sony falou pra não passar!”. Tudo por causa da treta com os Racionais. Encontrei com ele antes do Ano Novo lá na 4P. Vocês precisam ir na 4P. Não tem aquele filme do John Malkovich, do 7º andar e meio? [n.e. Referência ao filmeQuero ser John Malkovich, dirigido por Spike Jonze] Tem o salão do Kléber de cortar cabelo black, aí você sobe e fica meio abaixado. [risos] A gente tem o 1 e ½. O Sabota subiu. Ele era elétrico, mano. “Aí, Joe!” Ele olhava pra você e dava um nome e nunca mais esquecia. “E aí, Joe?” [risos] “Fala aí, Joe!” “E aí, Sabota?” [fala sussurado e rápido] “Não, agora tenho que viajar com a muié. Vou levar a muié! Vou pegar a nega, aí. Se tá ligado, Xis, os caras ficam ligando aí, vamos fazer trabalho, não, não, não. Me ligue depois de 15 de janeiro porque o lance é o seguinte: vou viajar aí, tá ligado?” “Pode crer, Sabota. E os discos?” “Não, tamo aí. Vamos fazer a música?” “Calma que eu te aciono!” E ficamos nisso aí. Conheci o Sabotage acho que ainda estava no tráfico. Eu estava tocando (“De esquina”), em 97, com o Randal e o Dentinho, ali no M” Boi Mirim, pra frente de onde ele morava, em um lugar que você não acredita, mano. Acho que era uma garagem. Não tinha palco, mas eram aqueles shows de 500 reais e na porta 200, 300 pessoas. Os caras de rua bancando aquele som, aquele microfone que o cabo caía, mas isso são uns negócios do rap. E o Sabota colou na porta e falou, “Ô, truta, ô, Xis”. Qual é o público? O rap não tem público. O Lula foi eleito. Qual a música que o povo gosta? Sertanejo. Não é o rap, nunca. O rap é música de classe média alta. Lógico. Quanto custa um CD do Xis? Quanto custa o CD dos Racionais? Você acha que os moleques têm? Não têm. Os moleques ouvem a 105 ou gravam pirata. Mas mesmo assim quem compra? A Cohab, a minha área, não é reduto de rap. É reduto de samba. Os caras hoje à noite entram no carro e vão tudo para o Tatuapé, nas casas de pagode, rebolar samba e pegar as menininhas. Rap é chato pra caralho! Quando eu chamava os caras pra ir pro rap, eles, “Ô, Xis, maior bronks!”. Pô, só homem, não tem mulher, ninguém bebe nada. Aí, trombei com o Sabota. Ele era um cara do tráfico que gostava de rap. Ficou sabendo que eu ia tocar lá e colou. “Pô, sou o Sabotage. Queria entrar mas estou sem dinheiro.” “Você já está dentro, Sabotage.” Nesses lugares assim não dá pra ficar com muitas idéias na porta, tá ligado? Você tem que ter um esquema. “Você vai fazer o quê, aí, mano?” “Vou fazer tal coisa e vou sair”. Então, a gente entrava, não havia camarim, eu ficava esperto em todos os lugares, via ali, ali e ali, estava todo mundo. E falava, “E aí, firmeza?”. Ninguém veio falar nada. E se chegasse algum patrão da área, falava, “Firmeza?”, “Firmeza”. Quem colou esse dia na entrada foi o Sabotage. “Ô, meto uma rima.” Não chamei ele pra cantar porque já chamei cara pra cantar que era ruim pra caralho ou então o cara não largava mais o microfone, entendeu? [risos] Ou então o cara é inimigo de alguém da área. E na hora de embora, ele (Sabotage) falou, “Dá para me deixar ali perto das Águas Espraiadas?” Entrou na Van sozinho. Estávamos eu, Randal, King, Dentinho, e mais dois moleques que ajudaram a carregar os baratos. Ele entrou, trocou uma idéia e falou, “Curti o seu som, aí. ‘De esquina’ é bem loco. Tô fazendo umas rimas aí!”. Falei, “Ô, Sabotage, firmeza!” Desceu e depois de um ano, comecei a ver o Sabotage com os caras do RZO, que apadrinharam o Sabota e começaram a levá-lo para os shows para ajudar nos refrões. E aí a coisa andou. Mas, porra, pra mim é mais foda ainda porque o Sabotage conseguiu umas coisas que eu também consegui. Então, eu me via naquela. Sabotage tomando tiro, nossa! “Puta, que merda! Será que as mesmas histórias, direto?! Será que não vai mudar essa porra! Será que vai ser sempre assim?” E comigo é foda, porque vou ao estádio sempre sozinho. Ah, vou pra Tribuna, mas a Tribuna vai ficar ali, mano. Foda-se a Tribuna, vou pra qualquer estádio, em qualquer lugar. Eu quero ver o jogo. E não fico andando com segurança, tá ligado? Faço as minhas coisas do jeito que tenho que fazer. Foda do Sabota é que ele tinha envolvimento com o crime, tá ligado? E aí você escuta várias histórias que… porra!
Tacioli — Xis, muito obrigado.
Xis — Desculpaí, falei pra caralho.
Tacioli — Mas esse é o espírito.
Monteiro — Somente mais uma coisa. O que você tem ouvido de rap nacional?
Xis — De Leve, Lito Atalaia, que é um moleque do rap gospel que saiu pelo selo do Apocalipse 16, mas que não fica pesando muito. “Deus, Deus, Deus. Não bata punheta! Não fume maconha! Não traia a mulher! ” [risos] 5º Andar, também. É isso.
Tacioli — Outra coisa: qual é data do seu nascimento, Xis?
Xis — 24 de novembro de 1972.
Tacioli — Para a biografia.
Xis — Sou de Sagitário. Se quiser fazer o mapa astral e enviar pra mim de graça… [risos]
Tacioli — Vamos ver se rola.
Xis — Não, estou brincando! [risos] Olha os caras!
Seabra — E seu pai faz o quê?
Xis — Meu pai trabalhou na Prefeitura como coletor de lixo e se aposentou como Fiscal de Obras.
Seabra — Ele é uma figura bem importante, né?
Xis — Orra, véio.
Seabra — De referências.
Xis — Pra caralho. Meu pai é a maior figura, engraçado pra caralho.
Seabra — E ele ouve o quê?
Xis — Meu pai escuta rap, esses rap ruim pra caralho. Pergunte pra ele o que tocou hoje. Primeiro: meu pai nunca esperou ter um moleque que, vamos dizer assim, fosse artista, que cantasse. Eu me lembro quando saiu o Consciência black — Vol. 2.Cheguei com o disco em casa. Imagine em 1972 meu pai escutando a palavra rap. Nunca, mano. Meu pai tem todos os Bezerra da Silva, Martinho da Vila, Germano Mathias, Caco Velho, esses baratos. Aí, quando cheguei com o disco, ele me viu na capa e falei que teria o lançamento em uma casa chamada Santana Samba, ele falou, “Que porra é essa de rap, maluco?”. Aí ele colocou o disco para escutar e “Mas você está falando, não está cantando!”. [risos] Aí ele foi ao lançamento e foi quando me viu pela primeira vez. O rap é egoísta pra caralho. O rap toma todo o seu tempo, pra você fazê-lo bem, você tem que estudar, né?
Max Eluard — Mas qualquer coisa, né, Xis?
Xis — É. E uma época em que não estava entrando grana, em que troquei um trampo tradicional — um banco — para ficar atrás dos baratos do rap, ser agente cultural, aí meu pai deu uma pesada. Mas depois consegui uma grana, comprei uma casa na Cohab 2 do lado da deles. Então, consegui umas coisas para meu pai que são da hora. “E aí, quer ficar aqui, quer ir para o interior?” A casa do meu pai é maior que a minha, mas é na Cohab. Tem um quarto sobrando. Quando, às vezes, vou pra lá, durmo lá. Hoje em dia ele se apaixonou pelo rap. Sofre pra caralho! Meu pai sofre mais do que eu pelos caras não tocarem a minha música. “O moleque não toca a sua música. Não toque a dele também, não!” Falo, “Pai, não existe isso!”. “Não, fulano não te chamou!” “Não, pai, não tem nada a ver!” [risos] É a cabeça do meu pai, tá ligado? Ele vê tudo.
Tacioli — Como ele se chama?
Xis — Marcílio. Da hora foi quando eu saí na capa do Notícias Populares e falei, “Ó, pai!”. Saí na capa, com uma manchete da hora. Ele olhou e, “Pô!”. Deve ter o jornal guardado até hoje. Gente boa pra caralho. Corintiano roxo. Fala a escalação de 54, 77, 76, não gosta do Rivelino, não assiste a jogos comentados pelo Rivelino. [risos] Foi em 76 para o Rio. Ia aos shows da Cássia comigo. Os caras o chamavam de Xizão. [risos] A Cássia o chamava de Xizão. “E aí, Xizão!” Ele enche o saco para ir aos shows, quando tem uns shows bacanas, mas ele pensa que todos são como os da Cássia. “Pai, não são todos como os da Cássia”.
Leia a crônica do radialista e jornalista santista Osvaldo Moles (1913-1967), considerado o sucessor do escritor Antonio Alcântara Machado e pai artístico de Adoniran Barbosa
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Faixa 01 – “Ilha do Mel” (Raul de Souza), por Raul de Souza
Faixa 02 – “Balada 45” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Arthur Verocai
Faixa 03 – “Sweet Lucy” (Raul de Souza), por Raul de Souza
Faixa 04 – “Balanço Zona Sul” (João Donato), por Raul de Souza e Robertinho Silva
Faixa 05 – “Rio Loco”
Faixa 06 – “Don’t ask my neighboors”
Faixa 07 – “Banana tree”
Faixa 08 – “Piano na Mangueira” (Tom Jobim), por Raul de Souza
Faixa 09 – “Bossa eterna”
Faixa 10 – “Lugar comum” (Raul de Souza), por Raul de Souza e Robertinho Silva
Entrevista realizada em 07 de fevereiro de 2003, no Parque do Ibirapuera, São Paulo/SP.
Entrevistado: Xis (Marcelo Santos) (24/nov/1972, São Paulo/SP)
Produção: Max Eluard e Ricardo Tacioli
Entrevistadores: Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Fernando de Almeida, Flávio Monteiro, Max Eluard, Ricardo Tacioli e Sérgio Seabra
Fotos: Dafne Sampaio e Max Eluard
Transcrição: Fernando de Almeida e Max Eluard
Edição de texto: Ricardo Tacioli
Texto de abertura: Max Eluard
Revisão de texto: Ana Lima Cecílio
Portelense de coração, ela não se considera pesquisadora, mas uma catadora de sambas.
Somente nesses últimos dez anos que a carreira de Ignez Francisco tomou o espaço que merece.
Um dos principais produtores de música brasileira, ele é responsável pelo primeiro disco de Cartola, Adoniran Barbosa e Carlos Cachaça.
Seus primeiros passos foi como cantora da Vanguarda Paulista; depois seguiu para Tom Jobim, Clube da Esquina e Eduardo Gudin.