Por Moacyr Luz
Falador que sou, conto uma história.
Eu era pequeno e minha mãe vendo meu pai doente resolveu recorrer aos terreiros da distante Senador Câmara, zona oeste do subúrbio carioca. Nascia ali, acho, os primeiros acordes que fui tocando em muitas músicas minhas. O batuque que ainda hoje reverbera no íntimo desses lugares continua muito discriminado, quase proibido como foi com os escravos do mundo e do Brasil.
Amarrado nos porões dos navios negreiros, chegavam “dengosos” na pedra de portos do Rio e da Bahia sendo escolhidos ‘a dentes e estaturas, crioulos de cultura própria. Alguns falando francês viravam cariocas; os caçadores, baianos, e os que podiam andar muito, cavar ouro, seguiam pra Minas.
Tá parecendo didático, mas me comove como cada ramo dessa raça foi construindo identidade e lamento, e nós, no futuro de outras escravidões, vamos guardando, a Terra parada, O canto dos escravos.
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Ele é parceiro de Aldir Blanc e um dos titulares do samba e da boemia cariocas.
Esse disco não serve pra aquele momento, como diz meu irmão Paulão; de abrir a vitrola, sábado de manhã, o sol na janela e, na primeira faixa, a patroa já trazer uma cerveja gelada. Não. O disco é um instante do mundo pra onde o canto até hoje é necessário: o trabalho duro, a dificuldade de comida, o quilombo traduzido em favelas, periferias no sagrado direito de reivindicar a sua voz. E nesse trabalho, as vozes de Clementina de Jesus, Geraldo Filme e a nossa Tia Doca.
Vale o empenho. Vale a história.
* O disco ‘O canto dos escravos’, lançado em 1982 pela Gravadora Eldorado reuniu gravou 14 das 65 partituras registradas no livro ‘O negro e o garimpo em Minas Gerais’, de Aires da Mata Machado Filho.
** Texto publicado originalmente no Gafieiras em 2003.
MOACYR LUZ. Compositor, sambista, instrumentista e produtor carioca
Para saber mais
O negro e o garimpo em Minas Gerais
Obra clássica do filólogo mineiro Aires da Mata Machado Filho (1909-1985), que aborda a cultura, língua portuguesa e cantigas de origem africana cantadas nos serviços de lavra e mineração.
Editora: Itatiaia/Edusp
Ano: 1985 (reedição); 1943 (1ª edição)