Carlos Cachaça

Às vésperas de completar 74 anos, o pioneiro da Estação Primeira de Mangueira grava seu primeiro disco.

Por Celso de Campos Jr.

Em uma de suas incursões à Mangueira, na fase de pesquisa para os discos das escolas de samba, Pelão havia sido apresentado pessoalmente ao senhor Carlos Moreira de Castro, o respeitável Carlos Cachaça, dono de composições de que muito ouvira falar. Mas foi apenas ao começar a conviver com o veterano sambista, então com 73 anos, e sua afável cara-metade, Clotilde, docemente apelidada Minininha, que o produtor passou a ter a exata noção da dimensão do novo amigo na história da verde e rosa.

Carlos Cachaça havia sido um dos principais artífices da união dos diversos blocos da Mangueira em uma única agremiação, nos idos de 1929. Seu nome só não aparecia na ata de fundação da Estação Primeira porque, na reunião em que se celebrou o nascimento oficial da escola, Carlos decidiu não se fazer presente: mandou dizer que, por um motivo qualquer, ficara impossibilidade de comparecer. Com praticamente tudo acertado, sua função já estava cumprida; seria mais útil em outro lugar.

Uma vez oficializada a agremiação, porém, o músico de fino trato com as palavras voltou à linha de frente. Tornou-se, por aclamação natural, o orador oficial da escola, responsável pela reivindicação de melhorias para a comunidade – foi ele quem pleiteou, com êxito, a construção da escola pública do morro e o calçamento da rua principal, a Visconde de Niterói, na década de 1930.

Pelão admirava o espírito coletivo e a absoluta falta de vaidade de Carlos Cachaça, caso quase único no meio artístico do morro ou do asfalto. E vibrava especialmente com uma travessura do compositor, que, convidado pelo maestro Leopold Stokowski para gravar ao lado de Cartola o samba “Quem me vê sorrindo” na célebre sessão a bordo do navio Uruguay – parte de uma das nunca desinteressadas missões de boa-vizinhança dos Estados Unidos -, que deixou o representante do Tio Sam a ver navios. “Eu estava com a ideia de ir, sabe? E até fui. Só que não cheguei lá”, explicou pessoalmente a Pelão. “Fui parando nos bares. E no último estava tão bom que fiquei por ali mesmo, com meu pessoal. No navio ia ser uma coisa meio chata, encontrar o Villa-Lobos, aquela turma dele…”.

Não surpreende, portanto, que o produtor tenha assumido como missão seguinte a confecção de um álbum que documentasse a cinquentenária atividade musical de Carlos Cachaça – cuja composição de estreia, “Não me deixaste ir ao samba em Mangueira”, datava de 1922, precedendo a própria criação da escola.

Desta vez, foi a Continental, comandada por Wilson Rodrigues Poso, que deu abrigo ao projeto de Pelão e realizou o sonho do velho sambista. No dia 9 de junho de 1976, Carlos Cachaça assinou o contrato para lançar seu primeiro LP, parte da série Ídolos da MPB.

Enquanto se preparava para as gravações, marcadas para o final daquele mês, o compositor recebeu a jornalista Leda Nagle em sua casa no lendário Buraco Quente, acompanhado por Mininnha e Dona Zica. “Fazer esse disco produzido pro Pelão é um acontecimento muito emocional”, declarou, em matéria publicada em 22 de junho em O Globo. “É uma oportunidade que eu tenho de me sentir completamente garantido como compositor. De ter um disco que é só meu.”

(Em tempo: Minininha e Dona Zica eram irmãs – o que fazia de Carlos Cachaça e Cartola, portanto, concunhados. Claro que a relação entre os dois já vinha de muito antes, parceiros de composição que eram desde os primórdios da verde e rosa. Em 1933, a Mangueira vencera o desfile de Carnaval com “Pudesse meu ideal”, assinado pela dupla; em 1936, “Não quero mais amar a ninguém”, foi gravado por Aracy de Almeida, para ficar apenas em alguns. Mas nem o parentesco nem a velha amizade impediram que o divino Cartola, ao receber a notícia do acerto de Carlos Cachaça com a Continental, ficasse humanamente enciumado – e fizesse a Pelão um comentário cheio de despeito: “Ele não tem repertório”.)

Tinha sim. E com sobras em quantidade e qualidade, como bem sabia Angenor. Pelão calcula que Carlos Cachaça tenha lhe apresentado cerca de 50 sambas, dos quais doze entraram no LP – compondo uma espécie de crônica da criação da Mangueira, fio condutor que o produtor elegeu para o álbum.

As gravações aconteceram nos estúdios Hawaí, no Rio de Janeiro, com o acompanhamento de um time de estrelas: Raul de Barros (trombone), Copinha (flauta), Meira (violão), Canhoto (cavaquinho), Waldir de Paula (violão de sete cordas) e mais os ritmistas Elizeu, Jorginho, Gilson, Armando Marçal Filho e Armando Marçal Neto. Os arranjos e a regência ficaram nas mãos de João de Aquino.

O disco chegaria literalmente como um presente de aniversário para Carlos, que completava em 3 de agosto, 74 anos de idade. O lançamento ocorreu um dia antes, na quadra da Mangueira, em uma festa que mobilizou toda a comunidade – e avançou madrugada e garrafas adentro.

Pelão conta que, nessa noite, teve duas emoções que guardaria para sempre. A primeira quando acompanhou Minininha, já tarde da noite, até a porta da quadra – cansada, ela decidiu esperar o marido, estrela da festa, em casa. “Lá pelas tantas, quadra cheia, ela me disse: ‘Vou embora, meu filho’. ‘Eu te acompanho até a porta’, falei. Fui até a rua com ela, esperei ela ir. E ela foi, com aquela dificuldade de andar. Me passou um filme na cabeça… O que essa mulher já viu na vida. O que será que ela está pensando. E lá foi ela, sumindo no morro, eu olhando para aquela cena que era poesia pura.“

Já a segunda… “Voltando pra quadra, ganhei de presente a morena mais bonita da noite. Ela tinha acabado de chegar de Paris, morava em Ipanema. Naturalmente, após a festa, acabamos indo para a casa dela.”

Até o fechamento desta edição, a morena não foi localizada para confirmar a informação.

Como esperado, as páginas culturais dos jornais derramaram elogios ao disco. “Graças ao sentido de propriedade de Pelão, e à discrição do arranjador João de Aquino (que colaborou fazendo um mínimo de arranjos), Carlos Cachaça pode exibir a sua antivoz de cantor numa quase declamação de seus versos de um romantismo algo barroco”, cravou Tinhorão no Jornal do Brasil de 3 de agosto de 1976. “O disco, enquanto retrato de Carlos Cachaça, é de uma propriedade absoluta, e seu despojamento chega ao ponto de fazer o velho sambista cantar o seu belo ‘Amor de Carnaval’ apenas com o acompanhamento de violão e… caixa de fósforos. E, o que é melhor, com um resultado surpreendente, o que deve deixar perplexos os angustiados vanguardistas parceiros da Light da atualidade, tão preocupados em preencher o vazio das próprias almas com a fusão de todos os desenhos que figuram no espectograma sonoro.”

No Jornal da Tarde paulistano, Mauricio Kubrusly fazia coro. “Está neste disco um momento precioso da música brasileira: a faixa ‘Amor de Carnaval’, na qual Carlos Cachaça canta acompanhado quase que apenas por um violão e uma caixa de fósforos, acontecendo apenas uma elegante, e contida, ameaça de clímax, que desemboca novamente na secura do violão e caixa de fósforos. Mas não se contente com descrições: compre e ouça Carlos Cachaça.”

O álbum garantiria a Pelão um de seu mais importantes reconhecimentos: o Prêmio Villa-Lobos de 1977, categoria Melhor Diretor Artístico, concedido pela Associação Brasileira dos Produtores de Discos em comemoração ao centenário da indústria fonográfica.

Tudo maravilhoso, não fosse por um detalhe: a entrega dos troféus aos vencedores, marcada para 9 de janeiro de 1978 no Copacabana Palace, seria uma cerimônia… de gala. “Traje a rigor”, determinava o convite. Pelão de smoking era algo jamais visto por essa bandas: virar pinguim, ainda mais nas sempre fumegantes noites cariocas, não estava em seus planos.

Foi quando o produtor teve uma ideia genial para sair, com estilo, dessa sinuca de bico.

O contato íntimo com os ícones da velha guarda legara a ele algumas relíquias pessoais, que, juntas, formavam uma espécie de museu particular da música brasileira. Faziam parte desse acervo peças como o chapéu do Adoniran Barbosa, um fio de cabelo do Nelson Cavaquinho e a cuíca do Mestre Marçal. E, glória das glórias, um paletó branco de Pixinguinha, recebido das mãos do próprio na esquina da rua Mem de Sá com a Gomes Freire. Nesse dia, o produtor comprava flores para a telefonista do hotel quando topou com o maestro; gasolinado pelo álcool, pediu o traje na cara dura.

Seria ele, então, seu salvo-conduto para a festa de gala. “Quero ver se vão ter coragem de barrar o terno do Pixinguinha!”, bradava aos amigos, em tom desafiador.

Como ninguém ali era ruim da cabeça ou doente do pé, a indumentária entrou sem ser incomodada no Copacabana Palace. E assim, acompanhado por Carlos Cachaça e pela atriz e madrinha Bete Mendes, o produtor subiu ao palco para receber, das mãos de Gigi da Mangueira, o cobiçado troféu. A tacada foi tão magistral que o sempre desalinhado Pelão, quem diria, acabou até mesmo escolhido para ilustrar a nota da revista Contigo! Sobre o evento da Associação Brasileira dos Produtores de Disco – que contou com a presença de dezenas , senão centenas, de artistas mais fotogênicos, como Roberto Carlos, Clara Nunes, Simone, Milton Nascimento, Gal Costa…

De qualquer forma, missão cumprida. Depois da obrigatória parada pós-festa no Lamas – para beber uma em homenagem a Pixinguinha -, Pelão voltou para casa e recolocou o paletó do mestre no guarda-roupa. No bolso, a mais recente aquisição do acervo: um fio do bigode de Carlos Cachaça.

* Texto integrante do livro ‘Pelão – A revolução pela música’, de Celso de Campos Jr. Publicação autorizado pelo autor.

CELSO DE CAMPOS JR. Jornalista, historiador e editor da Garoa Livros

Para saber mais

Pelão - A revolução pela música

A saga do produtor que fez do resgate dos compositores populares sua bandeira política – e, com isso, se tornou também um protagonista da história da música brasileira.

Editora: Garoa Livros
Autor: Celso de Campos Jr.
Ano: 2020

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